Monday, May 31, 2010
A minha casa faz de biblioteca à tia Dé. Chega com um livro na mão. Entrega-mo em silêncio e, com passinhos de mulher velha, vai às estantes do corredor buscar outro. Nunca se alonga em considerações sobre o livro que devolve. Nunca justifica a opção pelo livro que leva. É uma troca silenciosa, sepulcral, quase secreta. Aprendi a gostar de ler com a minha tia. Herdei dela os gestos, a melancolia, a resignação. É um legado pesado para se deixar a uma sobrinha.
Sunday, May 23, 2010
Wednesday, May 19, 2010
Nigella
A Nigella Lawson cozinha pela mesma razão que eu corro. Percebi isso ontem quando a vi ter uma orgástica reacção enquanto comia um pilaf de frango. Não há nada como um bom sucedâneo.
Genoveva
Lembro-me bem do espanto que me causou o desenlace de “A Tragédia da Rua das Flores”. Tinha quinze anos e gostava me deitar no sofá verde da marquise a ler. O sofá atravessara o oceano dentro de um contentor e tinha um cheiro bafiento, ligeiramente adocicado, entranhado na entretela dos estofos. O sol entrava pelas vidraças. A casa estava em silêncio. Acabei de ler o livro e tive uma espécie de epifania. Uma mãe que, sem saber, por um acaso do destino, se apaixona pelo filho, que julga morto, e com ele vive um amor ardente, carnal e, depois, moída pela vergonha, se atira de um terceiro andar, pareceu-me uma trama notável. O máximo do atrevimento literário. Durante a adolescência li outros livros do Eça. Mais tarde, ganhei o costume de os ler nos intervalos de novas leituras. Volto, porém, sempre à Tragédia da Rua das Flores. Não há amor como o primeiro. Conheço as personagens melhor do que a palma das minhas mãos. A ira do tio Timóteo, as facécias do Dâmaso gordalhufo, impante, as intrigas de Mélanie, a inglesa, feia, seca, rancorosa, feiinha. Porém, nenhuma das personagens seduz como Genoveva. Genoveva é a mulher feita pecado. A primazia da beleza sobre o resto. É a mulher sem pudor, a cortesã, a concubina, a amante, faz do corpo mercadoria, mas com que sofisticação! É uma prostituta e o leitor nem dá por isso. A primeira vez que li o livro fiquei com a sensação de que Genoveva, que me causava repulsa e admiração, era uma mulher sábia e velha. Magnifica, bela, lasciva, desejada, mas, ainda assim, velha. Pois se tinha um filho com idade para com ela dormir! Tinha de ser velha. Hoje, no cabeleireiro, enquanto a menina Alice me arrepelava os cabelos e pela janela aberta chegava o ruído triste da avenida, lendo o livro, dei conta que estou prestes a chegar à idade de Genoveva. Trinta e nove. Porém, ao contrário dela que, se olhando ao espelho, garante que, com muito água fria e paz de espírito, será bela até aos quarenta e cinco, estou um caco. Nem os repelões esforçados da menina Alice me salvam. Perdi há muito o viço.
Inês
Folheei o novo livro da Inês Pedrosa e logo um vómito atrevido me galgou o esófago e se assomou à boca. Estava a livraria cheia de senhoras que procuravam livros sobre vampiros, quando fechei o livro com brusquidão e um “foda-se” quase inaudível se escapou da minha boca. À conta das competências literárias da Inês Pedrosa, uma mulher, gorda como um barril, dois olhitos encovados num rosto simiesco, ficou a olhar-me de esguelha e a abanar a cabeça cheia de nuances. Fugi da livraria e fui enfiar-me na tabacaria a folhear revistas de mulheres nuas. Esclareço. Tenho apreço pela Inês Pedrosa. Acho-a inteligente. Aprecio-lhe os repentes feministas. Invejo-lhe a cultura literária. É livre no que diz e nas crónicas que escreve. Como escritora, porém, até me custa dizê-lo, não vale um caracol.
(cada vez dou mais crédito às críticas literárias da revista Ler.)
(cada vez dou mais crédito às críticas literárias da revista Ler.)
Monday, May 17, 2010
Pombas
Há sempre pombas na plataforma. Em mim, a vontade de as pontapear. Estivesse eu sozinha na plataforma e não hesitaria. Havia de me esforçar, apurar o golpe, trabalhar a rapidez do gesto, tornar-me numa espécie de guerreira de shaolin, ou coisa que o valha, absorta e confiante. Havia de alcançar o meu objectivo e, por fim, arremessar uma pomba contra a grelha de metal gigante que serve de pavoroso ornamento à estação e que desfoca os homens que, pela tarde, se encontram no descampado da feira popular.
Wednesday, May 12, 2010
Leitores
Chega um rapaz à estação. Veste um fato escuro e traz pelos ombros uma gabardine cor de camelo. Senta-se num banco. Abre, com acanhamento, uma mala de mão. Tira um estojo de pele que parece uma agenda de secretária ou um enorme estojo de manicura. Não é. É um livro. Olho com estranheza o rapaz e o seu livro. Não gosto de livros electrónicos. Não por os achar anódinos, insonsos, não palpáveis, desinteressantes. Há malucos para tudo e gostos não se discutem. O que me amofina nos livros electrónicos é que apagam todos os sinais que um livro pode dar sobre o seu leitor. E isso é terrível. Impedem-nos de avaliar, rotular, etiquetar os desconhecidos com quem nos cruzamos. Estilhaçam qualquer possibilidade de relacionamento. Ao contrário do que por aí se diz, as pessoas avaliam-se pelo modo como se vestem, pelo modo como se penteiam, pelo modo como comem, falam e também, sobretudo, pelos livros que lêem. Um estafermo, gordo, transpirado, sapatos descambados, o rego do rabo espreitando por cima do cós das calças de ganga, torna-se um encanto, uma autêntica estampa, se tiver em mãos o livro certo. Por exemplo, o último do Mário de Carvalho. Já um rapaz catita, bem apessoado, comedidamente adamado (estão por todo o lado os modernos homens adamados!), de dentes perfeitinhos, derme limpa, barba rala, pode tornar-se um pavoroso mastodonte se tiver nas mãos um romance histórico da Isabel Stilwell. Os leitores lêem-se como se lê um livro. O problema dos leitores de livros electrónicos é que são ilegíveis. Uma pessoa olha para um LLE e sente-se defraudada. O rapaz da estação, com o seu estojo de manicura no regaço, fez-me lembrar as senhoras que encontro no comboio e que forram os livros do Nicholas Sparks para não se sujarem. Ele, como elas, são leitores, o que já não é mau, mas são leitores um bocado foleiros.
Domingo
Domingo. Subo a serra até ao Catujal. A luz da manhã é aguada, triste, cinzenta. Uma névoa cobre tudo, tornando o ar baço e disformes as sombras. No banco de trás, a minha filha dormita. Usa um fato de treino azul, por baixo, um mailot cravejado de estrelas brilhantes. Um homem corre à chuva com um impermeável amarelo. Desce a serra até à beira-rio onde os bairros concertados têm alamedas floridas e ciclovias de macadame vermelho. Aqui, as casas clandestinas nascem aos borbotões, sem ordem, tino, harmonia. Têm vista paro o rio. As paragens da camioneta estão cheias de gente apesar de ser quase madrugada. Ali, um homem de turbante amarelo, ali, outro com o rosto esfacelado, bexiguento, deve ser brasileiro, acolá, perto de um portão, uma negra gorda, vestida de estampados largos, com o cabelo teso, mexe no nariz. A padaria está aberta. A frutaria também. O churrasquinho vaidoso tem uma carrinha de fornecedores à porta. A funerária está fechada. Só os mortos podem descansar até mais tarde no catujal. Os vivos não podem aninhar-se no conforto morno da noite que o sono é um luxo. Uma mulher velha, com uma bata azul, atravessa a passadeira à minha frente. Leva nas mãos um talego com pão. Olha-me com indiferença.
(Não olho com indiferença os subúrbios mais feios de Lisboa. Não os olho com despeito, horror ou sobranceria. Encontro neles beleza. Muita liberdade. É um sentimento insuportável, o meu, uma espécie de caridade, de esmola, uma coisa que faz lembrar virtudes teologais.)
Monday, May 10, 2010
Sinos
Há uma coisa boa na vinda do papa a Portugal. São os sinos. O sino da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e o sino da Igreja de Moscavide, sempre obedientes, ordeiros e disciplinados, andam num desatino, numa aceleração de repiques festivos, anunciando a chegada do santo padre. Trazem uma promessa solene de felicidade. Não sei falar a linguagem dos sinos. Não me interessa o que têm para me dizer. Gosto só de os escutar.
Thursday, May 06, 2010
Wednesday, May 05, 2010
Unhas
A Dulce da contabilidade almoça sempre com o marido no refeitório. Leva-lhe o tabuleiro, tempera-lhe a salada, arranja-lhe o peixe. Ele fala de futebol e de automóveis e só tira as mãos dos bolsos quando tem a paparoca prontinha à sua frente. Chama-se Adão e é chefe do economato. Pela postura, inchada e insuportável, percebe-se que se tem em grande consideração. Julga-se merecedor de certos privilégios e de tantas mesuras. Gerir resmas de papel e contar tinteiros para as impressoras, mais do que o reconhecimento das chefias, confere-lhe estatuto conjugal. Ele é o chefe do economato e do lar. Há que preservar a superioridade do macho e a resignação da fêmea. Estou mesmo a ver a Dulce, ao serão, em frente do televisor, enfiada num roupão fresco de terilene, a cortar-lhe as unhas dos pés. Ele, de cavas, esparramado no sofá de napa, aos gritos cada vez que a pobre lhe corta um espigão. Há mulheres que mereciam ser açoitadas até à morte.
Fortunato
Lavei os dentes até me sangrarem as gengivas, fiz o seretaide, inalei uma poeira branca que atravessou a traqueia e se espalhou pela minha floresta brônquica, apliquei no rosto um creme novo, opalino, quase amarelo, de consistência leitosa, que me suscitou dúvidas e incertezas. Sempre ouvi dizer, talvez sem fundamento, que o esperma tem qualidades milagrosas na área da cosmética feminina. Como a baba do caracol. Espalhei o creme e, por momentos, deixei-me ficar a olhar para o espelho. Dei conta das minhas imperfeições: os pêlos do buço, as sobrancelhas hirsutas, os poros dilatados na testa e no nariz, a pele cansada do sol, envelhecida, o canino inferior do lado direito torto e pontilhado de manchas de tártaro, as narinas dilatadas.
Depois de uma hesitação muito pequena, uma coisa de nada, foram dois ou três segundos, abri a caixa dos comprimidos que está na gaveta do armário. Levei um sanax à boca. Senti-me vencida pela vida. Não tarda nada, sei-o, volto a fumar, a beber, a encharcar-me de comprimidos. Volto a aborrecer-me com o recato da vida doméstica, a nausear-me com a sobriedade dos dias iguais. Não tarda nada, é um instantinho, volto a não tolerar viver apenas para o cumprimento das tarefas maternais. Amo os meus filhos. Com fúria, certo desespero. Quero-lhes bem. Mas não me basta o que têm para me oferecer. Deitei-me com a certeza de que é a concupiscência que dá cabo de mim. Não fora o desejo e a insatisfação e seria uma mulher moderadamente feliz. Li durante duas horas. Consolei-me. Adormeci no preciso instante em que um carro atravessou a rotunda e o clarão dos faróis entrou pelas frinchas dos estores. Dormi como não dormia há muito tempo. Não acordei uma única vez. Não senti o corpo abandonado e vencido que dorme ao meu lado. Não ouvi o assobio longínquo que vem do sistema de ventilação da casa de banho e que, não sei porquê, me lembra desfiladeiros e desertos de terra vermelha.
Não escutei o meu filho, no quarto ao lado, pedindo o biberão, soluçando a sua solidão até voltar a adormecer, cansado e suado. Não me levantei para percorrer, na penumbra, os corredores do apartamento até à cozinha. Tropeçar num triciclo, apalpar paredes, ligar o interruptor, uma luz de velório cobre a noite, sentir o frio dos mosaicos, abrir a porta do frigorífico, meter à boca dois morangos, um quadrado de chocolate, duas fatias de presunto, um cornichon. Dormi como não dormia há muito tempo. E voltei a sonhar. Sonhei com um camionista de rosto flácido. Chamava-se Fortunato e tinha um camião encarnado.
Depois de uma hesitação muito pequena, uma coisa de nada, foram dois ou três segundos, abri a caixa dos comprimidos que está na gaveta do armário. Levei um sanax à boca. Senti-me vencida pela vida. Não tarda nada, sei-o, volto a fumar, a beber, a encharcar-me de comprimidos. Volto a aborrecer-me com o recato da vida doméstica, a nausear-me com a sobriedade dos dias iguais. Não tarda nada, é um instantinho, volto a não tolerar viver apenas para o cumprimento das tarefas maternais. Amo os meus filhos. Com fúria, certo desespero. Quero-lhes bem. Mas não me basta o que têm para me oferecer. Deitei-me com a certeza de que é a concupiscência que dá cabo de mim. Não fora o desejo e a insatisfação e seria uma mulher moderadamente feliz. Li durante duas horas. Consolei-me. Adormeci no preciso instante em que um carro atravessou a rotunda e o clarão dos faróis entrou pelas frinchas dos estores. Dormi como não dormia há muito tempo. Não acordei uma única vez. Não senti o corpo abandonado e vencido que dorme ao meu lado. Não ouvi o assobio longínquo que vem do sistema de ventilação da casa de banho e que, não sei porquê, me lembra desfiladeiros e desertos de terra vermelha.
Não escutei o meu filho, no quarto ao lado, pedindo o biberão, soluçando a sua solidão até voltar a adormecer, cansado e suado. Não me levantei para percorrer, na penumbra, os corredores do apartamento até à cozinha. Tropeçar num triciclo, apalpar paredes, ligar o interruptor, uma luz de velório cobre a noite, sentir o frio dos mosaicos, abrir a porta do frigorífico, meter à boca dois morangos, um quadrado de chocolate, duas fatias de presunto, um cornichon. Dormi como não dormia há muito tempo. E voltei a sonhar. Sonhei com um camionista de rosto flácido. Chamava-se Fortunato e tinha um camião encarnado.



