2015/12/31

América do Sul

No último dia do ano, fui ao psiquiatra. Estupidamente, tão estupidamente, pediu-me um balanço de 2015. Respondi-lhe que foi um ano de viragem, não pelo livro, mas porque a cura da minha depressão se iniciou e voltei a sentir-me bonita. Sou bonita, sou muito bonita. Já não é mau. Eu sou da América do Sul/ Eu sei, vocês não vão saber/ Mas agora sou cowboy/Sou do ouro, eu sou vocês/ Sou do mundo, sou Minas Gerais. Depois, ainda mais estupidamente, pediu-me resoluções para 2016. Respondi-lhe que quero foder muito, escrever muito, voltar a Goa e aprender a falar francês. Também quero o João Pedro, mas isso não lhe disse. Quero amá-lo, senti-lo inteiro, em cima de mim, nem que seja nos intervalos da sua vida. Assumir este amor, obsessivo amor, envergonha-me. Minto ao meu psiquiatra.

2015/12/30

Saudade

Ontem, antes de adormecer, enfiada na cama com o gato, li um conto da Sylvia Plath de que gostei bastante. No conto – “Caixinha dos desejos” –, Agnes vive angustiada por, ao contrário do seu marido, não ser capaz de reter os sonhos. Esquece-os, apenas lhe ficam sensações vagas, imagens desfocadas, borrões surrealistas. Não sei se foi do conto que li, mas esta noite sonhei muito. Tudo no sonho me pareceu belo, intenso, mas compreensível. Escrevo agora, ao final do dia e, mesmo assim, as imagens continuam a aparecer nítidas: uma loja de bules e cafeteiras de loiça (o Tea Corner em Margão), um rio de caudal largo, águas claras, luminosas (o Zuari que passa depois da várzea), um caminho escuro que atravessa uma floresta de árvores de folhas largas (o caminho que o meu pai fazia com a tia Amália para a escola). No sonho, atravesso a floresta de bicicleta, mas tenho dificuldade em equilibrar-me porque numa das mãos levo um tacho de comida para a tia Rosu (a mais velha dos irmãos, passava os dias deitada num catre imundo, a fumar charutos, a casa esquecida, os filhos ramelosos, o marido bêbado). Sei que tudo no sonho da noite passada está relacionado com Goa. A verdade é que, nas últimas semanas, tenho pensado muito em Goa. Os meus olhos ficam húmidos, as minhas veias estrangulam, sinto um peso no peito. Definho e entristeço. Tivesse eu dinheiro e compraria um bilhete de avião, entregava os miúdos aos cuidados do Reinaldo e fugia para Maina. Sinto falta do meu pai, da sujidade, da confusão, da neblina das queimadas, das vacas do Marlindo, do quintal a perder de vista, da Ligorina varrendo o chão, dos padres de batina, das chamuças compradas ao final da tarde, dos prédios feios de Margão, das pernas das minhas tias balouçando no alpendre, de almoçar no Tatu, de falar com o Rafael, meu tão querido Rafael, de escutar a sua mulher, Marianinha, rezar com fervor. Não aguento passar outro ano sem voltar a Goa. Na noite passada, o meu subconsciente, talvez querendo atenuar essas saudades, dolorosas saudades, foi um bom amigo: levou-me de volta para a minha Índia.

2015/12/29

Fome

As compras do mês eram sempre feitas na CoopAbril, a cooperativa de consumo que ficava no Largo dos Anjos. O dia do avio mensal era um dia particularmente alegre na vida de cada um de nós. Era certo e sabido que eu e os meus irmãos ganharíamos alguma guloseima. A minha tia, responsável por elaborar a lista de compras, alegrava-se por, depois de tanta solidão, ter uma família. Até o meu pai se alegrava: perante a significativa poupança que fazia ao comprar na CoopAbril esquecia nesse dia (só nesse dia!) o seu ódio à revolução. Mas é a alegria da minha mãe que melhor lembro. Recordo-me de a ver empurrar o carrinho pelos corredores da cooperativa com um entusiasmo febril que se notava nos olhos risonhos e no desembaraço dos gestos. Desde o instante em que escolhia um carrinho sem rodas perras até à hora em que, empoleirada num banquinho, recebia das minhas mãos frascos, pacotes, latas e os arrumava nas prateleiras mais altas na despensa, a minha mãe sentia uma exaltação de conforto e bem-estar. Era, percebo-o agora, uma alegria de causa definida, essa que sempre lhe chegava no dia em que, com a longa lista de compras feita pela minha tia, seguia connosco para o edifício da cooperativa. É que nesse dia, sobretudo nesse dia, a minha mãe esquecia a vergonha da fome disfarçada que passou na infância. Olhando as prateleiras cheias, sabendo que não tinha de fazer contas à vida para comprar tudo o que precisava e não precisava, alegrava-se com a certeza de nunca mais voltar a sentir fome. Hoje, rondando o Largo dos Anjos, olhando a garagem onde, na minha meninice, ficava a CoopAbril, depois de me despedir do Tiago, dei-me conta que a minha mãe envelhece e que isso não me deixa triste. 

Istambul

O sol entrou pelas janelas do quarto e iluminou a pele nua do homem. Nesse momento, de assombração, esqueci o João Pedro. Houve qualquer coisa na luz, muito forte, entrando pelos vidros, que me fez esquecê-lo. Desejei que fosse para sempre.

2015/12/28

Musguinho na pedra



(Que alegria, descobrir uma canção.)

Miudezas

No Pingo Doce do Parque das Nações, mesmo em frente do talho, à boca do corredor dos detergentes, há um pequeno escaparate com livros. Entre obras de Jodi Picoult, Júlia Pinheiro e Pedro Chagas, costuma estar também um exemplar do último livro do José Luís Peixoto. É lá, no Pingo Doce do Parque das Nações, enquanto dou instruções ao talhante vesgo - “ Deixe as miudezas, tire a cabeça e corte o coelho aos pedaços.” ou então “Quero uma perna de peru, mas, por favor, desossada.” -, que, aos soluços, tenho lido o último livro do José Luís Peixoto. A virgem e os pastorinhos. Os pastorinhos e a virgem. É uma leitura adequada para quem espera. Ligeira, irrelevante, sem chegar a ser propriamente desagradável. Às vezes, porém, interrompo a leitura para olhar a vitrina e as bancadas onde as carnes são arranjadas. Não percebo de cortes de carne, não sei  avaliar se a carne que o rapaz vesgo me dá é boa ou má, mas gosto da sua luva de malha metálica, do ruído de facas e cutelos, de certos vermelhos desmaiados.

2015/12/27

Cerejeiras

No festival literário da Gardunha conheci o Pedro Eiras. Também há coisas boas nos festivais literários. Levou para o festival a mulher e as filhas. É um homem gentil, usa t-shirts às risquinhas, fala pausadamente, sorri muito, às vezes, fecha os olhos enquanto conversa. Comprei na altura o seu romance sobre Bach. Ainda não o li, porém, desde então, sempre que escuto Bach, lembro-me do Pedro. No dia de Natal, sozinha, a caminho de casa do meu irmão, escutava no carro os Concertos de Brandenburgo. A música erudita é um bálsamo na minha vida, mas continuo a sentir-me uma intrusa quando a escuto. Perante tanta beleza, tão extraordinária e sublime beleza, eu, descrente, ateia convicta, quase acredito em Deus e acho que isso diz muito sobre as minhas contradições. Parada numa rua feia da Alta de Lisboa, os prédios de habitação social sujos de fuligem, paredes grafitadas, olhando os negros que fumavam à porta do café Milenuim, pré-disposta a agoniar-me com os risos dos meus sobrinhos e o borburinho distante das conversas sobre Inglaterra, lembrei-me da descida da serra da Gardunha: campos de cerejeiras carregadas de frutos, eu e o Pedro sentados no pequeno autocarro ao lado do condutor, em conversa animada; atrás, a Sandra, a sua mulher, morena silenciosa e muito bonita, as filhas observando a paisagem. 

2015/12/26

2015/12/22

Natal

Ao fim da manhã, desconcentrada, com o nariz a pingar, olhos embaciados, interrompi o trabalho para ler dois contos de Tchekhov. Retirei da mala a edição de bolso que trago sempre comigo, simples e levezinha, comprada há alguns anos na Pó dos Livros. Durante dez minutos, o meu gabinete transformou-se: o vento soprou palavras de amor ao ouvido de Nádia e Pavel Ivanitch, funcionário velho, feio e muito parvo, correu ao pavilhão na expectativa de ali se encontrar com uma jovem loura de nariz arrebitado. Voltei a enfiar o livro na mala. “É incrível o poder da boa literatura!”, reflecti enquanto me levantava. Soltei as cuecas que se haviam enfiado no rego do rabo e pintei os lábios de vermelho. Muito regalada, consoladinha, saí depois para comprar uma agenda nova e vender à D. Maria de Jesus as duas últimas libras de ouro que me restavam.

2015/12/18

Sheila



Beijinhos paternalistas

O Joaquim acabou o dia com o livro das quarenta ilustrações das canções do Sérgio Godinho. Passámos a noite no youtube. Respondi aos pedidos dos meus filhos. A Madalena pediu "Dancemos no mundo" e "Etelvina". O Joaquim pediu "O Galo é o dono dos ovos", "Charlatão", "Os demónios de Alcácer Quibir", "Alice no país dos matraquilhos", "O  coro das velhas" e "Barnabé". Senti-me tão feliz, capaz como mãe, e, como sempre acontece quando escuto o Sérgio Godinho, tive com os meus filhos conversas absurdas:

-É o meu amor!
- Ó mãe...
-A sério, é o amor da minha vida!
- E o pai?
- O pai?! Credo.
- E o João Pedro?
- O João Pedro é o segundo amor da minha vida.
- És louca!
- Não sou. O Sérgio Godinho só me deu coisas boas! 
- Ó mãe!
- Desde os meus dez anos! Não há amor igual!
- E casavas com ele?
- Claro!
- Apesar dele ser um velho?
- Gosto de velhos. 

Nos entretantos, lembrei-me dos marmelos na fruteira da cozinha. Compro marmelos para os ver apodrecer.

2015/12/17

Half crazy



Suzanne takes you down to her place near the river /You can hear the boats go by /You can spend the night beside her /And you know that she's half crazy /But that's why you want to be there /And she feeds you tea and oranges /That come all the way from China /And just when you mean to tell her /That you have no love to give her/ Then she gets you on her wavelength/ And she lets the river answer / That you've always been her lover /And you want to travel with her /And you want to travel blind / And you know that she will trust you / For you've touched her perfect body with your mind. 

2015/12/16

Lustre

Uma vez por mês, a pesada mesa de pau-preto era afastada para um canto da sala de jantar. A minha mãe colocava o escadote no meio da divisão e subia até ao último degrau. Assim empoleirada, procurando manter o equilíbrio, com um pano na mão, muito cuidado, limpava, um a um, os pingentes do lustre da sala de jantar. A tarefa, de tão delicada, exigia-lhe paciência. Passava o pano embebido em Ajax por cada pedaço de vidro, esfregando-os até que, libertos do pó acumulado de muitos dias, voltassem a brilhar. Estava naquilo muito tempo, seguindo uma ordem pré-estabelecida: começava por limpar a fila maior, junto ao tecto, ia descendo a cascata de vidrinhos até chegar à fila mais pequena que rematava com uma enorme bola de vidro. Quando terminava a tarefa, baixava os braços de cansaço. Talvez olhasse pelos vidros da janela e observasse, nos apartamentos do prédio em frente, outras mulheres que, como ela, arrastavam, limpavam, varriam, repondo, num afã dominical, a ordem do lar. Imagino que a comunhão com essas outras mulheres a entristecesse um pouco. Como eu, a minha mãe sempre foi muito sentimental, um pouco dramática, sempre sentiu um desejo de fuga. O periquito, com os seus guinchos, despertava-a desse torpor de reflexões inconsequentes. Ainda empoleirada no último degrau do escadote, chamava por mim. 
- Anita, filha, vem depressa acender a luz!
 Vinda do quarto, o coração acelerado, acorria ao chamamento: sabia que me aguardava um instante de maravilha, mas também o desempenho de uma tarefa importante. Assim que acendia a luz, a minha mãe sorria. 
- Já viste Anita? Dá uma trabalheira limpar estes vidrinhos todos, mas vê como agora reflectem tantas cores!
Era verdade. Cada pedaço de cristal, como se de um pequeno sol se tratasse, reflectia todas as cores que eu conhecia: verde, lilás, vermelho, amarelo, laranja, azul. Semicerrava os olhos e, focada num dos brincos de vidro do grande lustre, procurava apenas o lilás. Gostava naquela altura do lilás. Era a palavra que designava a cor, tão diferente das outras, e a indefinição, a fluidez entre o roxo e o violeta. Se um pingente não reflectisse o lilás era sinal de que, na sua azáfama diligente, a minha mãe se descuidara e o deixara coberto de pó. 
- Aquele ali não brilha, mãe!- Dizia-lhe e apontava para o local onde teria de voltar a passar o pano.
- Vá, agora, apaga a luz. Não podemos desperdiçar electricidade! É muito cara. - Respondia quando eu me calava, finalmente saciada de lilás. Eram tempos diferentes, de carestia, com cinco contos enchia-se um carrinho de compras, mas comíamos muitas vezes massa com atum, fatias de beringela panada, fiambrino, açorda de tomate. 
Obedecia à minha mãe, carregava no interruptor, desejando que anoitecesse depressa para voltar a procurar o lilás no lustre da sala de jantar. Às vezes, porém, antes que desligasse a luz, a minha mãe pedia-me que aguardasse um pouco. Descia então do escadote e, sorrindo de um modo diferente, andava também ela à volta do candeeiro. Nesse instante, percebia que as angústias da minha mãe, os gritos que tanto me magoavam durante as discussões com o meu pai (vou lá acima e atiro-me cá para baixo!), enfim, toda a sua tristeza e raiva eram compensadas pela satisfação de ver o lustre da sala de jantar bem limpo. A minha mãe já não sorria para mim, sorria para a luz colorida dos vidrinhos. Espiava-a nesse arrepio de alheamento, sorrindo, esquecida de mim e dos meus irmãos, esquecida do meu pai, da tia Dé, esquecida de tudo e de todos. Olhava para a minha mãe encadeada pela luz e amava-a mais e mais e mais. 

2015/12/12

2015/12/10

Cruzamento

No bairro do Armador, no cruzamento em frente da bomba da Repsol, por voltas das oito da manhã, costuma estar um homem a apontar as matrículas dos carros que por ali passam. O homem, velho e muito preto, usa botas de cordões desapertados e, esteja frio ou calor, veste sempre um casaco com capuz e forro quente. A pele do rosto é lustrosa e, de tantas horas ali passadas, imagino um cheiro de suor, urina, sujidade. Estou tão habituada a passar todos os dias pelo velho das matrículas que já pouca atenção lhe dou. A loucura só impressiona a início. Com o passar do tempo, uma pessoa habitua-se a tudo, à violência, também à loucura. O louco da rua Júlio Dinis também já não me causa estranheza. O pobre, escanzelado, muito sujo, de longas barbas imundas, é conhecido de toda a gente. A dona do café prepara-lhe o almoço. O magrinho que trabalha na farmácia e a judia da joalharia arranjam-lhe cigarros. O sapateiro, se o encontra mais sereno, fala-lhe de futebol. O cauteleiro brâmane, homem de muita prudência, recomenda-lhe calma. O louco fala sozinho, anda aos ziguezagues, delira. Muitas vezes, grita com violência, mas quem ali vive ou trabalha, no cruzamento da Júlio Dinis com a 5 de Outubro, trata-o com indiferença. Às vezes, lá de vez em quando, aparece um turista mais impressionável. Vendo o louco passar aos gritos, o turista pára de caminhar e, paralisado, fica a olhar para ele como se dissesse “Olha, vai ali um louco!”.  Sempre que isso acontece, nós - eu, a judia da joalharia, a dona do café, o magrinho da farmácia, o cauteleiro brâmane - paramos também. Não para olhar o nosso louco, mas para olhar o turista.  É a reacção do turista, espantado, amedrontado, mexendo nervosamente nos compartimentos secretos da sua fantástica mochila, que estranhamos.

Vermelho



Ao rever este filme, de que gosto tanto, percebi que a minha vocação, mais do que o meu destino, é ser só. Amo um homem que não me ama. Amo-o desde o dia em que pousou a cabeça no meu colo como se fosse um filho. Amo-o com uma certeza íntima e um ardor ambíguo. Às vezes, é um ardor feliz, outras vezes, não. O meu amor, porém, só lhe dá tesão ou talvez nem isso. É bastante triste.

2015/12/05

2015/12/04

Rapaz

A mulher parece um pombo: patas finas, plumagem cinzenta, peito insuflado. Cada vez que grita, chamando nomes ao árbitro, olha em redor, cheia de satisfação. A sua raiva incontida, primitiva e boçal, diverte-me mais do que me incomoda. Já o árbitro, lá em baixo, de olhar plácido, não consegue disfarçar o desconforto. Os seus gestos são tensos, parece um animalzinho ofuscado pela luz, hesita antes de erguer o braço para mostrar um cartão vermelho. Presto atenção ao jogo. Sigo movimentações, passes, remates. O Joaquim está sentado ao meu colo, a Dá encosta-se a mim e, assim, colada ao meu corpo, vai tirando fotografias. Beijo um, depois outro. Cheiro um, depois outro. Atento no chiar dos ténis dos jogadores no chão encerado do pavilhão. É um ruído estranho. Ouve-se uma buzina a marcar o fim da primeira parte. O João olha disfarçadamente para a bancada à nossa procura. Há muito tempo que não vínhamos assistir a um dos seus jogos. Acenamos-lhe. Mandamos beijinhos repenicados, gritamos o seu nome. Fingindo arrelia, o meu rapaz sorri.

2015/12/02

Entropia

Ia pela 5 de Outubro, a cabeça no  poema que ontem li, quando me cruzei com o nazi gago, a beata careca e o gato das botas. Não vinham juntos, não, isso não. Encontrei um, depois outro, outro mais adiante. Continuam na mesma: o tempo não corrompeu as suas particularidades invisíveis. Quando os conheci, há muitos anos, se a lua se mostrava redonda e amarela, vinham à janela e uivavam juntos ao luar. Era bonito de se ver. A coincidência de encontrar o nazi das botas, a beata gaga e o gato careca na mesma rua, enquanto pensava em entropias poéticas e outras frivolidades, não me surpreendeu. A poesia, ensinou-me o meu amigo Ricardo Álvaro, não é um laço, é uma gravata colombiana.

Air