2016/03/29

2016/03/23

Duas alianças

Caiu na esquina da 5 de Outubro com a Avenida António Serpa. Ficou no passeio durante duas horas, em frente da casa da sorte, à espera que chegasse o delegado de saúde pública. O dia de trabalho a terminar, a cidade no tumulto habitual, fiadas de taludas e raspadinhas na montra da casa da sorte e o corpo ali, coberto com um pano azul, fitas amarelas em volta, um polícia a guardá-lo. Gente passava, apressada, a caminho da estação de comboio. Algumas pessoas paravam, apontavam, faziam perguntas ao polícia. Queriam saber do suicida. Fora um homem? Uma mulher? Novo ou velho? E de que andar se atirara? Outras pessoas continuavam o seu caminho mal levantando os olhos do chão. Houve nesse dia um prémio elevado no euromilhões, mas, com um morto à porta, ninguém entrou na casa da sorte. O dono veio cá fora pedir explicações ao polícia. Aquele aparato estava a dar-lhe cabo do negócio. Passara já uma hora e o corpo continuava ali! O polícia procurou acalmá-lo, o delegado de saúde pública já vinha a caminho e, assim que elaborasse o auto, os serviços camarários haveriam de limpar o sangue das pedras da calçada com jactos de alta pressão. Eram assim os procedimentos legais. O dono da casa da sorte preparava-se para responder quando uma rajada de vento levantou o pano azul e mostrou um braço, a manga de um casaquinho cor de vinho, o início de uma mão velha, a pele coberta de manchas, duas alianças num dedo magro. O dono da casa da sorte calou-se, o polícia desviou o olhar e os castanheiros da Índia romperam em verde primaveril. 

2016/03/22

Distimia




2016/03/19

Pentelhos

Na livraria, antes de ir ao cinema, folheei a Cão Celeste. Não tenho interesse pela revista: acho-a aborrecida e insuportavelmente pretensiosa. Encontrei um conto da Ana Teresa Pereira sobre um menino, uma cadelinha e uma velhinha. Eriçaram-se-me os pêlos todos do corpo, incluindo os pentelhos.

Lush Life

2016/03/18

Yuri

Quando não chove os homens trocam o balcão pela esplanada. Estendem as pernas, apanham sol, conversam, bebem cervejas pelo gargalo das garrafas. Na rua, a caminho do supermercado, passam mulheres carregadas de filhos e compras. São feias, gordas e precocemente envelhecidas. Às vezes, de vez em quando, passa uma rapariga bonita. Com os mesmos filhos, os mesmos sacos de compras, mas bonita. O chefe dos soldadores logo lança um comentário ordinário. Os outros homens riem. Yuri também. São sempre assim os finais de tarde: Yuri com os outros homens que trabalham na construção do segundo tanque, em animado convívio. Mas, se rebenta uma tempestade, dessas comuns no norte, Yuri deixa de participar nas conversas. Não ri dos comentários do chefe dos soldadores. Parece mesmo não os escutar: em silêncio, imóvel, fixa com atenção a grande janela do café. Ao ver a chuva estalar nas vidraças recorda a noite em que encontrou o velho na sua cama. 
*
Chovia muito nessa noite. Depois de sair da obra, Yuri passara pelo supermercado para comprar o jantar, meio frango assado, uma caixinha de cuscuz para o jantar, uma coca-cola para acompanhar, e fora levantar a encomenda de Ana aos correios. Ana, a sua querida irmã Ana, mandava-lhe, pelo menos uma vez por mês, uma encomenda cujo conteúdo variava consoante a sua própria inspiração: um frasco de champô de ervas, um bálsamo para desentupir o nariz, latas de arenque fumado, pacotes de bolacha, caramelos de seiva azul, revistas, livros, folhas e flores secas, fotografias, desenhos e colagens feitas por si. Yuri nunca sabia ao certo o que ia encontrar. Sentia por isso uma excitação febril quando recebia o aviso para levantar a encomenda da irmã. Naquela noite, ao caminhar pelo bairro com o pacote por baixo do braço, antecipava o momento em que rasgaria o papel grosso e se surpreenderia com as coisas que Ana escolhera dessa vez. Talvez, imaginava, lhe tivesse mandado fotografias do jardim. Por aquela altura, as árvores à volta do lago já deviam ter folhas e os canteiros, floridos, perfumados, atenuavam a tristeza da aldeia. Yuri sentia-se feliz porque naquela noite Jonas não o perturbaria com os habituais comentários e Lucas, ao contrário do que sempre fazia, não lançaria olhares invejosos quando o visse barrar tostas com a pasta de salmão que Ana lhe mandava. Àquela hora, Lucas, Jonas e os dois marroquinos já deviam estar na festa de despedida de Pavel. 

2016/03/16

Cama

Passo a manhã de sábado a fazer as limpezas que não consigo fazer durante a semana. Aspiro, arrasto sofás, limpo as casas de banho, lavatórios, bancadas, banheiras, retretes, penteio os cadilhos dos tapetes da sala, tão direitinhos que ficam, lavo os vidros engordurados da cozinha com rolos de jornal amachucado, aplico óleo de cedro nos móveis. De todas as tarefas que decorrem ao sábado de manhã e que deixam a casa bem limpa, gosto especialmente de mudar a roupa da minha cama. Aprecio essa tarefa doméstica mais do que qualquer outra. Encaro-a mesmo com um zelo especial. Primeiro, arranco os cobertores, a seguir, com igual vigor, puxo os lençóis que, numa trouxa, lanço para o chão. Aspiro o colchão com cuidado, enfiando o bico de pato em todas as ranhuras e frestas da cama, expurgando assim o antigo leito conjugal dos bichos que se alimentam de pó. Os lençóis são depois abertos com um gesto largo, sacudidos com rapidez, às vezes estalam, fica aquela brancura a planar sobre o colchão. Entalo bem os cobertores e faço uma dobra perfeita com o lençol de cima, nem muito grande, nem muito pequena, a barra bordada a ponto cruz simetricamente colocado ao meio. Estendo, por fim, a colcha, disponho os almofadões, olho para a cama no meio do quarto limpo, o sol da manhã a entrar pelas janelas abertas. Experimento nesse instante uma sensação de conquista. Destruí e construí, penso, e transporto para a minha vida a significância libertária de tais gestos; serve tal filosofia para explicar o universo da casa e dos objectos, também para escolher os  meus alicerces. 

Azul escuro

2016/03/14

Brilho metálico

Ao atravessar o corredor em direcção ao quarto, sente o cheiro da cera que ainda esta semana aplicou no soalho. É um cheiro bom de madeiras antigas, que a conforta por  lhe mostrar aquilo que a casa é: um lugar onde o tempo passa sem ruído ou sobressaltos. Mas, hoje, estranhamente, o cheiro da cera não lhe traz conforto, apenas uma sensação vaga de enfado. Fica parada no corredor durante alguns instantes, sem saber o que fazer, depois decide ir à casa de banho. Não tem propriamente vontade de ir à casa de banho, pretende apenas adiar o momento em que voltará a estar sozinha no quarto. Sabe que, apesar do sono, quando chegar ao quarto não conseguirá adormecer. Mal a luz se acende, dois peixinhos-de-prata esgueiram-se para baixo do móvel do lavatório deixando no chão um rasto de brilho metálico. Tenta esmagá-los com a ponta do pé. Não consegue. Senta-se na sanita. Não quer pensar em nada, quer apenas estar ali, a observar as cornucópias do resguardo plastificado da banheira e a contar as flores que preenchem os intervalos dos pequenos chifres retorcidos. Mas, por mais que tente, a certeza de que em breve voltará ao quarto continua a assustá-la. Os seus pensamentos tomam um caminho conhecido do qual não pode fugir. É como se uma mão invisível, um corpo estranho, qualquer coisa, a empurrasse nessa direcção. 

Quando vier a Primavera

2016/03/13

2016/03/12

Peixe de luz

Primeiro dia de chuva. Atravessamos o bairro e, depressa, muito depressa, chegamos à beira-rio. Não se vê ninguém. Até aqueles que correm, detestáveis novos super-heróis, desapareceram. As águas, batidas pelo vento, estão muito agitadas. A neblina, de um branco sujo, limita o horizonte. Naquela zona do parque, quando há sol, vê-se o casario de Sacavém e da Bobadela. Nos dias mais claros, se focarmos o olhar, é mesmo possível ver o recorte do arvoredo na recta do cabo. Hoje, porém, com a chuva, a linha do horizonte diluiu-se, desapareceu. Entre o céu e a terra, entre o céu e a água, não se percebe o que começa ou acaba. A beira-rio, sempre ruidosa e alegre, transformou-se noutra paisagem, adquiriu uma beleza agreste, solitária, misteriosa. Caminhamos pelos relvados e rapidamente os nossos pés ficam molhados. O Joaquim apanha folhas e pedras que mete no bolso do impermeável. De tão feliz,  em vez de andar, o meu filho galopa como um potrozinho.

No passadiço de madeira, no pontão junto da estátua da princesa, um rapaz vigia três canas de pesca. Quando nos vê, como se intuísse o nosso desejo de proximidade, faz um gesto para avançarmos. De uma caixa azul tira um casulo. Do casulo tira uma minhoca. Mais parece uma centopeia, tem a cabeça achatada, patinhas que se movem numa euforia que causa repulsa. O rapaz enfia a minhoca na ponta do anzol, fá-la deslizar pela curva do gancho, explica que tem de ficar assim, bem presa, caso contrário, os peixes serão capazes de a tirar e fugir em liberdade. O rapaz continua a falar com o Joaquim. Explica-lhe o seu ofício. Inclina-se agora sobre a protecção de metal e puxa um cesto de rede. Mostra a pescaria do dia. Dentro do cesto há dois peixes muito diferentes. Ainda estão vivos. O maior, esverdeado, assemelha-se a um tamboril. É feio: olhos esbugalhados, a pele lisa, barbatanas curtas, a cabeça enorme, desproporcionada em relação ao resto do corpo. “É um xarroco não é?” pergunto. O rapaz olha-me com espanto. Não conhece as minhas idiossincrasias: tivesse eu tempo e cabeça e aprenderia o nome de todas as árvores, de todas as flores, de todos os monstros que habitam as águas escuras e profundas do rio. 

O outro peixe mexe-se no fundo do cesto. É bonito. O fole das guelras, de um vermelho escuro, muito intenso, faz-me lembrar as dálias que na minha infância cresciam no canteiro da vizinha Idalina. É um peixe magnífico, um peixe de luz. O seu corpo, coberto de escamas prateadas, luminosas, quase brancas, saltita, estremece com brandura. O rapaz tira-o do cesto e, com cuidado, coloca-o nas mãos do Joaquim. “Sabes como se chama? Tem um nome engraçado. Chama-se rabeta…” O rapaz ri. Enquanto aconchega a gola do casaco ao pescoço explica que uma rabeta é uma corvina pequena. O Joaquim continua a pegar  no peixe prateado, mas, de súbito,  os seus olhos ficam inquietos. A palpitação que sente nas mãos é, simultaneamente, um sinal de vida e de morte. Talvez o meu filho pressinta isso mesmo e por isso se apresse a colocar o peixe no cesto. Começa a trovejar. Caem pingos grossos, pesados, redondos. Despedimo-nos do rapaz. Aceleramos a passada. O vento, cada vez mais forte, vira o guarda-chuva do Joaquim que, assustado, o larga. Corremos para o apanhar.  Voltamos a rir.

(À noite, quando lhe aconcheguei a roupa, falei-lhe ao ouvido: nunca te esqueças do passeio de hoje, do primeiro dia de chuva, do peixe nas tuas mãos, do sorriso do pescador, das palavras novas que aprendeste a soletrar.)

Rumba

2016/03/11

Quinta sessão de julgamento

Quinta sessão de julgamento: a juíza traz hoje as unhas pintadas de magenta, a procuradora de azul, a advogada da parte contrária de preto. Unhas impecáveis, ovais, cutículas arranjadas, unhas que não raspam o queimado do fundo de tachos. Pergunto-me: se as sanguessugas lêem Kavafis que lerão os gafanhotos, os percevejos, as lesmas e as lagartas da couve?

2016/03/09

Aquela cidade

Os prédios eram velhos e feios, de varandas de ferro enferrujado e paredes estaladas, cobertas de manchas de salitre, nas ruas passeavam homens que cuspiam para o chão e matilhas de cães que pareciam largar doenças em toda a parte. Nas arcadas dos edifícios, os mendigos, em singular vagar, mostravam a sua vagabundagem, triste e desoladora. Um bafo de urina e lixo libertava-se dos passeios. Mesmo assim gostei daquela cidade: as janelas tinham floreiras com petúnias, malvas e gerânios, as alamedas de acácias largavam uma sombra perfumada que atenuava o cheiro dos passeios e, para aliviar do calor, em qualquer esquina se vendiam talhadas de melancia, quadrados de coco fresco e figos da Índia descascados. Mas foi a noite que me maravilhou. O seu início, além de brandas aragens, trazia às ruas da cidade uma aceleração de corpos e movimentos: luzes explodiam por todos os cantos e as conversas dos transeuntes misturavam-se com os gritos dos milhafres que, descansando nas copas dos dragoeiros, debicavam frutos maduros que pingavam mel nas ruas. O início da noite não marcava o fim do dia. O maior encanto daquela cidade estava no crepúsculo, naquela tardia confusão que sempre esconde os escombros de que são feitas as cidades do sul. Visitei as muralhas reais, os banhos árabes e a catedral de Nossa Senhora da Anunciação. Subi ao monte para tirar fotografias aos macaquinhos berberes. Bichos sinistros: sentados na berma da estrada, aparentaram uma calma absurda quando o autocarro estacionou; continuaram a descascar favas de alfarrobas e assistiram serenos às caretas dos turistas. Também visitei a grande mesquita. Gigantes ninhos de vespas pendiam da cúpula da entrada principal, o grande minarete erguia-se aos céus, os altifalantes faziam ecoar as chamadas para a oração. O guia explicou que o exterior era revestido com mosaicos azuis, sobras trazidas da grande mesquita de Istambul, e que a porta de acesso estava decorada com passagens corânicas. Já se passaram muitos anos, mas ainda recordo que senti uma felicidade libertadora por estar ali, naquele lugar tão distante do meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, ouvindo falar de gelosias de madeira com incrustações de marfim e placas de urnas de mármore trabalhado. Como se pressentisse a irrepetibilidade daquele momento, escutei com atenção as explicações do guia e tentei armazenar o máximo de informação possível. Mas os circuitos da memória não são facilmente controláveis, quanto mais se pretende reter o conhecimento fundamental da história, datas e factos, mais se esquece a narrativa do mundo; assimila-se o detalhe, o supérfluo e o irrisório. Apesar da atenção com que escutei o guia, algumas semanas mais tarde, de volta à rotina, ao meu apartamento de três assoalhadas e marquises de alumínio, já não era capaz de identificar qualquer particularidade arquitectónica da mesquita maior daquela cidade ou sequer referir um episódio marcante da sua história. Lembrava-me apenas dos prédios feios, dos homens cuspindo para o chão, das matilhas de cães, de uma mulher descalça, vestida de trapos, a caminhar por uma alameda perfumada.

2016/03/06

2016/03/04

Salva de prata

Mal entrou em casa, notou um cheiro a cânfora revelador da presença de Ester. Alberto, vendo-a franzir os sobrolhos, apressou-se a explicar que a mãe viera dar uma ajuda. Trouxera a Fátima logo de manhã que, sob as suas indicações, passara o dia a limpar o pó e a aspirar. Também lavara a loiça acumulada no lava-loiça e fizera a cama com os lençóis de linho que estavam guardados na gaveta da roupa melhor. Clara olhou em redor: a casa estava na realidade bem limpa. Fátima, mãos calejadas, a polpa dos dedos sempre inchada dos detergentes, apesar das constantes queixas de Ester, cumpria os seus deveres com máxima eficácia: tinha gosto em ver uma casa bem limpa, mesmo que não fosse sua, o cansaço depois de um dia de trabalho era compensado pela satisfação que sentia ao ver o brilho de um chão bem encerado. Pareceu-lhe que, mais do que arrumada, a casa estava diferente. Um olhar atento permitiu notar algumas alterações que a sogra fizera durante a sua ausência: escolhera um naperão de linha fina para a mesa da sala de estar e a boneca que costumava guardar dentro da cristaleira estava agora posta num recanto do móvel da entrada. Em cima do aparador, em vez da terrina de loiça, colocara a pesada salva de prata que o tio António lhes ofereceu como prenda de casamento. Clara não fez nenhum comentário, mas a lembrança do tio deixou-a irritada. O tio, próspero e sem descendência, vivia sozinho no bairro novo que começava a ser construído perto do aeroporto. Tinha um apartamento amplo, várias divisões, a cozinha integralmente equipada com electrodomésticos alemães. Toda a família de Alberto, irmãos, cunhadas, sobrinhos, lhe prestava vassalagem com o intuito de levar o maior quinhão da herança. Sobrinhos e cunhadas rivalizavam entre si para ser o centro das suas atenções: convidavam-no para padrinho das crianças que iam nascendo e, nos dias de festa, consoada, domingo de Páscoa, aniversários, insistiam em que se sentasse à cabeceira da mesa. Clara não gostava do homem. O velho era sempre amável quando a encontrava, perguntava-lhe pela família, queria saber novidades dos Cardoso da Mata, conhecia-os bem, tinha-os em grande consideração por causa do êxito dos seus negócios. Mas, enquanto lhe falava, com uma vertigem de volúpia que se notava no modo como a fitava, pousava-lhe a mão na cara, nas pernas, às vezes até nas nádegas. Clara sentia nojo daquele homem, mais ainda da vassalagem que a família de Alberto lhe prestava. Mantinha por isso a salva de prata no louceiro, guardada no estojo de veludo vermelho, bem longe da sua vista.
- Muito obrigada, D. Ester, não precisava de se incomodar. - Disse Clara e sentiu-se aliviada por ter vestido ao menino o cueiro que a sogra insistira que usasse quando saísse da maternidade. 
- Vim conhecer o meu neto. - Respondeu Ester.
Abeirou-se da alcofa num passo firme; os seus saltos altos até na alcatifa da sala se faziam ouvir. O menino estava coberto com uma mantinha e trazia uma touca que lhe escondia o rosto. Ester destapou-o. O menino abriu a boca num bocejo prolongado e, com os seus olhos de cílios revirados, pareceu fixar a avó. Apanhada de surpresa, não esperava uma criança tão bonita, Ester emudeceu por instantes. 
- Tão bonito! Parece um anjo barroco… – Acabou por dizer e abandonou a habitual secura para largar um sorriso rasgado. Sentia-se feliz, isso mesmo se notava no semblante e no modo como os seus lábios, geralmente contraídos, repentinamente relaxaram: não só o primeiro neto nascera homem como era encantador. Como fora Clara capaz de dar à luz uma criança assim? 
Clara sentou-se numa cadeira. Detestava Ester, como a detestava, não suportava a altivez, o corpo seco, o cheiro a cânfora. Porém, naquele instante, sentia-se grata por a sogra ser capaz de mostrar alegria pelo nascimento do filho. Que alguém sentisse amor àquela criança e fosse capaz de o mostrar. Alberto, o seu Alberto, era totalmente incompetente para demonstrar afecto. Fora visitá-la à maternidade logo no primeiro dia, chegara com um ramo de rosas aninhadas numa nuvem fofa de vivaz, mas não fora capaz de lho oferecer. Depois de fazer uma festa ao menino com a ponta dos dedos, pousara o ramo aos pés da cama e ali o deixara como se fosse outra coisa qualquer. Parecia guardar em relação ao filho uma distância cerimoniosa. Clara teve a certeza de que essa distância se manteria para o resto da vida. Quanto a si própria, sentia-se imune ao amor que todas as mulheres dizem sentir assim que vislumbram os filhos acabados de nascer. O menino nascera há três dias e ela  sem sentir nada. Absolutamente nada. Encarava aquela criança apenas com estranheza. 

Ester ficou até tarde. Obrigou Clara a comer uma sopa cheia de talos, assegurando que os caules fibrosos da couve lombarda ajudavam a subida do leite. Mexendo no colar de contas jaspeadas, passou o tempo a fazer recomendações. Clara escutou-a sem a docilidade que habitualmente fingia, mas com obediência. Volta e meia, fixava o olhar na salva de prata, certa de que na véspera Ester inspeccionara o apartamento, vasculhando gavetas e armários para se inteirar da sua capacidade de organização. Passava já das onze horas quando a sogra se foi embora. Mal saiu, antes de mudar a fralda do filho, chorava o menino na alcofa, Clara voltou a arrumar a salva de prata dentro do louceiro.

2016/03/02

2016/03/01

Olho negro

Decorei o poema de manhã, no refeitório, enquanto tomava o pequeno-almoço. Durante o dia, repeti-o para mim mesma como se fosse um mantra, uma oração, a minha salvação. Repeti-o depois de cada parágrafo que escrevi, perto da máquina de cafés, na rua, ao observar os sapatos feios de uma mulher que passou e deixou o seu perfume no ar, quando escutei a voz do outro lado da linha, no regresso para casa, em estranho assombro, ao dar-me conta de como a luz do final do dia é caprichosa: ilumina apenas as fachadas do prédios mais altos, suas varandas, suas janelas, velhos que se debruçam para espreitar a rua, paredes de tinta estalada, ficam os prédios mais baixos adormecidos em triste sombra. De tão presa ao poema, decidi que o diria a cada um dos meus filhos assim que os visse. Disse-o ao Joaquim quando o vi chegar. Sussurrei-lhe as palavras ao ouvido, no corredor da escola, junto do placar com as composições dos meninos do terceiro ano. Disse-o à Madalena quando, chegada do treino, se despiu e revelou o seu corpo nu. Disse-o ao João já na cama, meio adormecido, depois de o aconchegar e lhe beijar o olho negro. Equimoses de adolescente, dores de adolescente, bebedeiras de adolescente, curam-se com beijos, abraços, gestos simples. Os meus filhos escutaram-me em silêncio. Quando me calei perguntaram: “O que é isso, mãe?”. A cada um, sentindo por cada um amor infinito, belo, redentor, único, respondi: “É um poema”. 

Homem