2007/07/31

Sérgio Godinho

(o meu primeiro blogue chamou-se Alice no País dos Matraquilhos. O segundo Pano-Cru. O terceiro 2º Andar Direito. Se o tivesse à mão dava-lhe um beijo na boca.)

Morte

Morreu um. Depois morreu outro. E andam todos, numa roda-viva, a prestar-lhes singelas e patéticas homenagens. Como se a morte e a velhice fossem coisas más. Não são. Há conforto na velhice e alívio na morte.

Moka

Também gosto de olhar as montras das pastelarias. Há em mim uma inexplicável e antiga atracção pelas decorações dos bolos de aniversário. Agora estão na moda coberturas de maçapão coloridas. Detesto. Gosto de bolos decorados com cerejas cristalizadas, canudos de chocolate, creme moka, florzinhas de açúcar.

Sofia

(gosto de olhar para pessoas bonitas e felizes.)

PSD

O PSD é um partido patético. A gente olha para o Marques Mendes ao lado do Alberto João, mendigando influências, e sente nojo, repulsa. A gente olha para o Luis Filipe Menezes, passeando pela praia de Matosinhos, sob o tórrido sol de Agosto, na companhia dos boçais da jota local, e sente pena. A gente olha para o Aguiar Branco, muito despeitado, cabelinho à marialva, amuado por não lhe terem dado troco e sente vontade de dizer “ó senhor, deixe de se armar aos cágados e vá a uma barbearia cortar decentemente o cabelo!”. E pensar que há coisa de quinze dias estive tentada a inscrever-me como militante. Os disparates que uma mulher faz por um homem.

2007/07/30

Otília

Não se chama Otília. Mas podia chamar-se. Otília é um nome redondo. Cilíndrico. Curvo. Gordo. Otília-Lua. Otília-Terra. Otília-Sol. Otília-Laranja. Otília-Bola. Otília-Berlinde. Otília-Melancia. Cruzo-me com ela quando, no final do dia, vou buscar os meus filhos. A hora da minha chegada coincide com a sua hora de saída. Trabalha num dos apartamentos do prédio dos meus pais. Não sei em qual. Tem um sorriso tímido. Escondido. Quase infantil. Parece uma menina grande. Vem sempre afogueada, cheia de sacos. O saco do lixo. O saco dos papéis, dos cartões. O saco dos vidros. O saco das embalagens. Deposita-os nos contentores coloridos que estão perto da porta da entrada. É nova. É bonita. Tem um tom de pele muito escuro. Deve ser guineense. Ou portuguesa, filha de guineenses. Tem a cor doce e amarga do chocolate para culinária. A cor das barras de chocolate Belleville que uso para fazer a mousse. É como se o seu corpo fosse feito de açúcar, pasta de cacau, manteiga de cacau e leite em pó. Apesar do corpo imenso, usa sempre roupas claras e decotadas. Roupas que lhe deixam a descoberto as formas. O seu corpo faz-me lembrar as antigas deusas da fertilidade que ilustravam o meu manual de História Universal do 7º ano. O meu olhar fixa-se sempre em dois pontos. Nas mamas e nos pés. Tem uns pés bonitos, inesperadamente pequenos. Os dedos muito certinhos, gordos, as unhas de um cor-de-rosa clarinho. As mamas, pelo contrário, são enormes, imensas. Parecem não ter fim, como se fossem florestas virgens, escuras, de vegetação cerrada, molhada, feitas de sombras, de sequóias, trepadeiras, arbustos espinhosos, musgos e fetos. Imagino-a a dar de mamar ao filho que, provavelmente, ainda não tem. Imagino-a com um namorado magrinho, de bigode ralo e olhos dengosos. Imagino-o a olhar para aquele peito, cheio de vontade de nele se afundar e, para sempre, se perder.

2007/07/29

2007/07/27

Ken

Tamborilo os dedos. Sinal de tédio. Vou correr. Agora toda a gente corre. Está na moda. O nosso primeiro-ministro, que faz lembrar o ken da barbie, tal é a artificialidade que lhe mina o corpo, também corre. É um homem estranho. Sobretudo, estranho. Parece feito de celulóide. Tento imaginá-lo na retrete ou a ter um orgasmo ou a chorar num funeral e não consigo.

Terra

«Ama-se um corpo como o êxtase de um terror paralítico. Ou como orientação ao impossível que não está lá. Com raiva desespero de quem já não pode mais e não sabe o quê. Como avidez insuportável não de o ter tido na mão, porque o podemos ter nela, sofregamente, boca seios o volume quente harmonioso da anca e tudo esmagar até à fúria, ter o que aí se procura e que é o que lá está, mas não o que está atrás disso e é justamente o que se procura e se não sabe o que é nem jamais poderemos atingir.»Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra
(Não é fácil viver dentro de um corpo morto.)

2007/07/26

Cécile

A Cécile, atirando para a sombra a comissária Benita Ferrero Waldner, colheu os louros da libertação das enfermeiras búlgaras. Eu mandava-a, sem demora, para a Colômbia para negociar com as FARC.

Pensão Imperial (2)

Não é fácil encontrar uma mulher cujo rosto não lembramos. Mesmo que seja a mulher que amamos. Adriano procurava Amélia. Sentia que era capaz de a encontrar pelo cheiro. Um cheiro estranho, bom, mas de coisas desconhecidas. Cheiro de chuva, talvez. A caminho da pensão imperial, no metro, nos cafés, nas ruas, andava sempre com o nariz no ar. Farejava como um cão de caça. Aqui e ali. Só lhe chegavam outros cheiros. Perfumes enjoativos. Gotas de suor cobrindo corpos cansados. O cheiro a ranço que, logo pela manhã, escapava do quarto da D. Alzirinha e se espalhava por toda a pensão, até pela praça. Nada nem ninguém cheirava a chuva. Teria Amélia perdido o seu cheiro? Nesse caso, pensava Adriano, nada mais lhe restaria para a encontrar. Lembrava-se da sua roupa. Dos acessórios que usava. De tudo o que é efémero e se confunde. Não se lembrava porém nem das mãos nem do rosto de Amélia. Tentava e não conseguia. À noite, antes de adormecer, fechava os olhos. Fixava-se num pormenor. Na boca. Ou nos olhos. A partir daí tentava construir-lhe um rosto. Raramente o conseguia fazer.

Medo

A montanha pariu um rato. O artigo do medo do Manuel Alegre tem honras de primeira página, direito a análise e comentários prolongados. O artigo não diz nada de novo nem de interessante. A gente já conhece aquela conversa de trás para a frente. Mas há quem, catapultando um artigo que nada diz, já se organize em abaixos-assinados, passeatas, manifestações para defender a democracia, a liberdade, a herança de Abril. É o caso do Jerónimo de Sousa, do Carvalho da Silva do camarada Saramago, gente que devia lavar a boca com lixívia antes de falar de liberdade.

2007/07/25

Kiarostami


Caril de caranguejo

Associo o passeio de ontem, por precipícios de betão, a uma memória antiga. De tão distante e inicial, não sei se é sonho ou realidade. Tenho quatro anos. Estou numa cozinha. Abro a porta do frigorífico, da geleira, como se dizia no país das planícies infinitas, dos bichos, grandes e pequenos, das cidades cor-de-rosa batidas pelo mar, das lagartas leitosas crescendo por baixo da minha pele. Procuro o boião azul celeste onde a minha mãe guarda o leite condensado. Está numa das prateleiras da porta. Abro a embalagem. Enfio o dedo no líquido fresco, de consistência grossa, a fazer lembrar um caramelo branco. Meto-o na boca. É um instante de prazer que se esgota rapidamente. O prazer, seja ele qual for, tem mesmo que ser efémero. Volto a guardar a embalagem no frio. Reparo então que, ali ao lado, em cima de uma mesa, está uma travessa com caril. Não é caril de frango. Nem de peixe. Nem sequer de vegetais. É caril de caranguejo. Por isso, passados tantos anos, o recordo. A estranheza que me causa tal caril resulta de os caranguejos cozinhados serem muito pequenos, daqueles que encontramos imóveis nas rochas da praia e se esgueiram, velozes, por grutas e fendas mal pressentem um movimento ou uma sombra. O que há de comum entre os telhados tristes de ontem, o leite condensado e os caranguejos anões de Lourenço Marques? Não sei. Calhando nesse dia distante, em que olhei os caranguejos pequeninos do caril da minha mãe, o tempo também estava assim. Um calor pesado, a fazer curvar os corpos, a empurrar-nos os olhos para o chão. Um céu, cinzento, ameaçando com trovões e relâmpagos.

Mauser TV

Ontem, não sei se por causa do calor e da chusma de insectos que o verão sempre traz à cidade, só consegui respirar no telhado do prédio dos meus pais. Não sei como lá fui dar. E, no entanto, foram as minhas mãos que, no elevador, marcaram o décimo andar. Foram os meus pés que subiram as escadas de sol ladeadas pelos vasos da D. Fernanda. Foram os meus braços que empurraram a porta que separa o interior do exterior. Foram os meus olhos que observaram as placas de zinco que cobrem os telhados e também o cinzento do céu a anunciar trovões e relâmpagos. Foram os meus ouvidos que escutaram os ruídos distantes vindos do mundo lá em baixo. Os carros e o resto. Os gritos das famílias ciganas nos prédios do bairro social. Foram as minhas pernas que treparam os muros e me levaram para perto das chaminés e das antenas parabólicas. Grandes como cogumelos venenosos gigantes. Com letras cor de laranja desenhadas. Mauser TV. (Muitas vezes, sinto as veias estranguladas, entupidas de lixo. Há moscas varejeiras que vivem dentro de mim, alimentando-se da impudicícia que por cá há. Voam até acima e falam-me ao ouvido. Dizem-me sempre o mesmo.)

2007/07/24

AKP

Há uma coisa boa em se ser frígida. Mas não vou explicar qual é.

(O que eu queria mesmo era escrever sobre a vitória do AKP na Turquia. O José Manuel Fernandes, porém, já disse tudo o que havia a dizer sobre o assunto.)

2007/07/23

Monção


Corpo (2)

Vou para a casa de banho dos meus filhos. Abro a torneira. Dispo-me. Em cima da bancada, um copo amarelo com as escovas de dentes do Whinny e do Mogli, um quadro que pintei para o quarto do João, mas que nunca pendurei, mil e um cremes, Klorane, Lâncome, Mustela, uma caixa de toalhetes. Olho-me novamente no espelho. Aquela que ali está, do outro lado, sou eu. Preferia que não fosse, mas sou. Um metro e meio de altura. Cinquenta quilos de carne, ossos, pele, cartilagens, órgãos, músculos, vísceras, líquidos. Cabelo preto, comprido, liso, à força de tanto o esticar. Alguns cabelos brancos, que não vejo. Olhos escuros. Um nariz grande, redondo. Uma pele de merda, cheia de poros abertos, pontos negros, vermelhidões. Umas mamas cada vez mais pequenas, cada vez mais caídas, como se fossem flores murchas dentro de uma jarra. Olho para a mancha castanha enorme na coxa esquerda, uma mancha estranha, irregular, que tem o recorte do mapa da Inglaterra. Onde ficará a Cornualha no mapa que tenho delineado no corpo? Sempre quis conhecer a Cornualha, as praias verdes e cinzentas, ventosas, o mar furioso, agreste, escuro. Só a minha irmã é capaz de perceber este desejo de conhecer a Cornualha. Tenho as pernas cobertas de cicatrizes. Estico os braços, vejo as minhas mãos pequenas, rodo-as para cima, em direcção do tecto. Vejo, no meu pulso direito, as marcas, quase invisíveis, de dois cortes. Ninguém dá por elas, ninguém as vê, é como se não existissem. Mas eu sei que estão lá e nunca as esqueço. Nunca as esqueço. É este o meu corpo. Tomai-o em nome de Deus. Às vezes, tenho vontade de o abandonar para sempre.

Corpo (1)

Acordo. Abro os olhos. Na mesa de cabeceira, dois livros, um deles nunca o lerei, uma revista, um copo de água vazio, o caroço do damasco farinhento que comi antes de adormecer, a minha aliança pousada em cima do despertador. Olho para o despertador. Marca sete horas. Na verdade, ainda não são sete horas. Adianto sempre o relógio um quarto de hora. São seis horas e quarenta e cinco minutos. Fico deitada na cama, naquela dormência própria do despertar, a olhar para o relógio. Deixo-me ficar até que passem quinze minutos, até que o relógio marque sete horas e quinze minutos. Esses minutos, que marcam a diferença entre a hora que realmente é e aquela que o despertador me mostra, alongam-se, esticam-se, prolongam-se, demoram muito tempo a passar. É como se dentro de cada minuto houvesse mais segundos, não sessenta, mas cem, duzentos, trezentos, segundos dentro de cada minuto. Todos os dias este ritual se repete. Fico parada a olhar para os números, direitos, levemente inclinados para a direita, feitos de tracinhos verdes, à espera que passem: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze. É um jogo, um jogo pateta, que gosto de jogar. Quando o despertador me mostra o número quinze, levanto-me. Sento-me na cama. Olho para o espelho; vejo os meus olhos inchados, a pele do rosto gordurosa, o cabelo despenteado, num desalinho. Assustadora, sinto-me assustadora. Sou especialmente feia quando acordo, o meu nariz parece maior quando desperto. Não gosto da imagem que o espelho me devolve. Levanto-me. Há um silêncio absoluto nesta casa. É o silêncio dos espaços amplos e vazios, das manhãs claras, dos sons calados, das fotografias antigas, amarelecidas, esquecidas dentro de gavetas de madeira carunchosa, com cheiro de cera e óleo de cedro. Apenas se houve, no rádio, baixinho, a voz da locutora da TSF.

2007/07/21

The Strokes