Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2008/06/18
D. Mário
Estou em pulgas para assistir à entrevista que o Mário Soares fez ao Hugo Chavez. É hoje na RPT 1. Não sei se me hei-de sentir alarmada ou divertida. É que a televisão pública, paga com o dinheiro dos contribuintes portugueses, servirá para, durante uma hora, o Hugo Chavez, com a bonomia e complacência do seu entrevistador, papaguear a sua horrenda propaganda. Aliás, a entrevista que passa hoje na RTP passará, em breve, na televisão pública venezuelana. Uma coisa seria o Hugo Chavez ser entrevistado por um jornalista que, sem temor, o questionasse sobre o seu estilo socialista-populista-capitalista, sobre os seus insuportáveis tiques autoritários, sobre as suas relações com as Farc ou sobre os seus recentes comentários à chanceler alemã. Outra bem diferente será a conversa que vai ter com o nosso Mário Soares que tem por ele confessada admiração.
Adis Abeba
Conheci-o há muito tempo. Indiano, amigo do meu pai, viveu em Adis Abeba muitos anos. Trabalhava nas Nações Unidas. Durante anos, ele e a mulher, com a ajuda preciosa do meu pai, arrastaram-se pelos corredores soturnos dos registos, para adquirirem a nacionalidade portuguesa. Não que gostassem particularmente de Portugal. Queriam sobretudo ser cidadãos europeus para viver a velhice num subúrbio de Londres. Numa vivenda geminada de tijolos vermelhos, com um jardim onde pudessem plantar legumes. Conseguiram. Ontem revi-o. Titubeante e frágil como um passarinho, amável, sentado numa poltrona de orelhas, quis saber as novidades. Onde vivia, onde trabalhava, quantos filhos tenho, que escola frequentam, o que faz o meu marido, quantos quartos tem a minha casa. A tudo respondi com prontidão. Depois trocámos impressões sobre as nossas cidades. Foi, então, que ele disse que Londres se tornara numa cidade intolerável. Não só por causa dos polacos, afegãos, paquistaneses, mas sobretudo, e fez um esgar de nojo, por causa dos imigrantes africanos. Donde vem aquela gente? E tanta?, perguntou-me com sincera inquietação. Contei até dez e despedi-me com um sorriso amarelo. Uma mulher grávida não se pode enervar. Meu rico filho que ainda nascia prematuro por causa da tolice serôdia de um indiano-etíope-inglês-português (pertencemos a tantos lugares) que não gosta de imigrantes africanos.
2008/06/12
Roda Viva - Chico Buarque
(amo este homem. só sou tentada a acreditar na existência de deus por causa dele.)
Continente
Diz a Ana Drago, no Expresso desta semana, que anda a ler o Homem Sem Qualidades, do Robert Musil. Não esquece, naturalmente, de colocar ênfase na tradução do João Barrento. Admito que uma pequena elite saiba explicar a razão pela qual o trabalho do João Barrento é tão importante e elogiado. Não é o caso da maior parte dos leitores. A maior parte dos leitores (não estou a dizer que é o caso da Ana Drago) não tem capacidade para compreender o que lê, quando mais para escalpelizar uma obra, apontar critérios de análise e enunciar méritos da tradução. Lêem determinada obra, sobretudo determinada edição ou tradução, para pertencer à pandilha dos iluminados, dos eleitos, da fina-flor que roça o traseiro escanzelado nos teatros e livrarias do Chiado (o resto da cidade não existe, nem interessa). Aconteceu o mesmo com a reedição da obra do Proust pela Relógio de Água. Foi uma roda-viva, um insuportável afã, como se o livro apenas tivesse aparecido com a tradução do Pedro Tamen. É bestialmente interessante dizer que já se leu o em busca do tempo perdido. Dizer-se então que se leu o em busca do tempo perdido traduzido pelo Pedro Tamem é oiro sobre azul. Eu, confesso, comprei os sete volumes da velhinha edição dos Livros do Brasil. Custaram-me três euros cada no Continente. Uma pechincha. Estavam para lá amontoados num refugo de obras menores. Não tinha sequer intenção de os ler. Mas tive pena dos livros do Proust. Tão tristes e abandonados. Peguei neles com compaixão, aconcheguei-os no carrinho das compras entre os pensos higiénicos e as embalagens de cera depilatória e trouxe-os para casa.
2008/06/11
Ana
A mulher mexe no colar de bolas vermelhas, depois fala: Eu explico. Sinto há muito tempo vontade de morrer. Adormeço todos os dias com os pulsos cortados. Noite fora, esvaio-me em sangue. Acordo com os lençóis empapados e as veias vazias. Não penso nunca em quem fica. Não penso nos meus filhos. Nem no meu marido. Nem na minha irmã. Muito menos penso nos meus pais. O meu pai chorar-me-á com desprezo e vergonha. A minha mãe com o alarido próprio das mães. Reclamará para si, até nessa altura, o protagonismo que me pertence. Quero morrer porque não sei viver. Vivo com desfaçatez e sofrimento. Passo os dias a calar gritos. Passo os dias a engolir lágrimas. Já nem lhes sinto o gosto a sal. Não sei donde me vem esta solidão e este desespero. Estou cansada. Tenho direito ao cansaço, não acha?
O homem escuta em silêncio. A voz da mulher treme de excitação: Não tenho medo da morte. Nunca tive. Desde cedo que a ideia da morte me conforta. Como um agasalho. Mas tenho medo da dor. Que é um medo menor. A dor, o medo da dor, humilha-me. Entorpeça-me os gestos. Não me atiro da janela do meu quarto porque tenho medo do momento do embate nas pedras da calçada. Aterroriza-me a ideia do meu crânio abrindo-se como uma melancia madura. Não me atiro à linha do metro porque me assusta o preciso instante em que o meu corpo será retalhado nos carris. Tenho medo da dor física. Tenho medo da dor mesmo sabendo que a sentirei apenas por breves instantes. É por isso que preciso da sua ajuda. Para morrer.
(Há pouco tempo, na televisão, a propósito de uma escritora risonha, ouvi o Eduardo Pitta falar de derrame confessional. Gostei da expressão. Não mais me esqueci dela.)
O homem escuta em silêncio. A voz da mulher treme de excitação: Não tenho medo da morte. Nunca tive. Desde cedo que a ideia da morte me conforta. Como um agasalho. Mas tenho medo da dor. Que é um medo menor. A dor, o medo da dor, humilha-me. Entorpeça-me os gestos. Não me atiro da janela do meu quarto porque tenho medo do momento do embate nas pedras da calçada. Aterroriza-me a ideia do meu crânio abrindo-se como uma melancia madura. Não me atiro à linha do metro porque me assusta o preciso instante em que o meu corpo será retalhado nos carris. Tenho medo da dor física. Tenho medo da dor mesmo sabendo que a sentirei apenas por breves instantes. É por isso que preciso da sua ajuda. Para morrer.
(Há pouco tempo, na televisão, a propósito de uma escritora risonha, ouvi o Eduardo Pitta falar de derrame confessional. Gostei da expressão. Não mais me esqueci dela.)
2008/06/03
Samarra
Aconteceu-me o mesmo com o Manuel Alegre. Nas eleições presidenciais, o meu lado esquerdo, que também o tenho, quis votar no Manuel Alegre. Não partilho a visão rançosa que tem do mundo. Estou-me nas tintas para o humanismo que quer introduzir na política. Votaria nele por afecto. Eu sou uma pessoa de afectos. De amores e ódios. As palavras do Manuel Alegre, cantadas pelo Adriano Correia de Oliveira, são das coisas mais bonitas que há na vida. Fazem parte do que sou. Tornam-me menos medíocre. Por isso, por amor - que também se pode escolher um candidato à presidência por amor -, votaria nele. Acontece que, poucos dias antes das eleições, tropecei numa fotografia do Manuel Alegre numa conferência de imprensa qualquer. Ao seu lado, confiando-lhe o seu apoio, estava certo cantor. De óculos escuros para esconder o olhar de jumento e envergando uma samarra de virados grotescos, enormes. Usava também uns jeans de marca, apertadinhos nos genitais. Parecia um chulo nova-iorquino dos anos setenta. Fez-me lembrar o Harvey Keitel no Taxi Driver. Fiquei estarrecida. Aquela fotografia, que não mais esqueço, que me há-de perseguir até ao fim dos meus dias, lixou-me as intenções de voto. Não consegui votar na mesma pessoa em que o tal cantor, cujo discurso político abomino, ia votar. Cedi ao meu lado direito e votei no professor Cavaco.
(Descobri que a Laurinda tem um blogue. Um sentimento difuso, vagamente semelhante ao que senti quando descobri que o tal cantor ia votar no Manuel Alegre, tomou conta de mim.)
(Descobri que a Laurinda tem um blogue. Um sentimento difuso, vagamente semelhante ao que senti quando descobri que o tal cantor ia votar no Manuel Alegre, tomou conta de mim.)
2008/05/30
Ângelus
A tia Maria, sentada no alpendre, balouça as pernas magras. Sacode constantemente os braços para enxotar os mosquitos. Mordisca uma fatia de bebinca que a criada fez pela manhã. Vigia as brincadeiras das crianças no jardim enquanto fala. Explica que às netas, por serem raparigas, exige comedimento nos jogos e nos folguedos. Se não crescerem delicadas, com bons modos, nenhum rapaz católico brâmane quererá casar com elas. Volta e meia, quando alguma exagera na cabriolice, dá um grito. Ria, a menina-balão, tem voz de trovão. Quer aprender com Elaine, sua prima, os primeiros passos da Bharatanatyam. Não é fácil. Há que ter um corpo obediente, olhos expressivos, mãos maleáveis que saibam falar como os bichos. No preciso instante em as meninas se preparam para bater os pés no chão, dando início à sua dança, ouvem-se os sinos. São 18 horas. O dia está prestes a transformar-se em noite. É a hora mágica do Ângelus. A minha tia interrompe as brincadeiras do jardim e, num inglês áspero, lembra as obrigações da fé. Vira-se para a igreja de Santa Rita, cujos pináculos se avistam do outro lado da estrada e, muito séria, desfia uma ladainha de palavras. Calam-se as crianças. As minhas também. Calam-se as gralhas. Calam-se os esquilos que vivem na mangueira. Cala-se o vento no tamarindo. Cala-se a mulher do sari vermelho e das botas de borracha que cheira a estrume. Calam-se os deuses domésticos que vivem no jardim. Estão habituados às orações da minha tia a um deus desconhecido. Calo-me eu. Tudo se aquieta. No silêncio da aldeia só se escuta a voz da minha tia que embala o entardecer. O mundo sossega por breves instantes. Quando termina a oração, a tia Maria sorri e limpa uma lágrima que pingou da sua vista doente. As crianças retomam as brincadeiras no jardim. Os deuses escondem-se nos arbustos e, no crepúsculo, observam Ria, a menina-balão, que bate os pés na laje morna, imitando Parvati, a consorte dançarina.
(Gosto do amanhecer porque está cheio de promessas de felicidade. E, no entanto, é do anoitecer indiano que sinto falta.)
(Gosto do amanhecer porque está cheio de promessas de felicidade. E, no entanto, é do anoitecer indiano que sinto falta.)
2008/05/28
Sopa
Almoço, todos os dias, sozinha no refeitório. Conheço os funcionários que lá trabalham. Acompanham com entusiasmo a minha gravidez. Sugerem alimentos saudáveis. Não me deixam comer pastéis de bacalhau. Servem-me couves de bruxelas e brócolos com uma abundância inusitada. Escolho sempre uma mesa junto do balcão das sobremesas, virada para o corrimão dos tabuleiros e, dali, observo-os. Há a Rosa, a minha patrícia de olhar aflito. A Fátima, que é desbocada e que, com excepção dos homens mais velhos de fato e gravata, trata por tu toda a gente. A rapariga da caixa, cujo nome não sei, tem os dentes podres, as unhas roídas, cicatrizes antigas no rosto. Raramente sorri. Traz sempre os olhos inchados. Como se tivesse passado a noite a chorar. Há também a D. Conceição, a chefe do refeitório. Maneja as pinças da carne com autoridade, o peito inchado como uma generala comandando um exército. Gere os legumes com avareza. Justifica, com azedume, a secura da carne de vitela. Observo, sobretudo, o João, o rapaz das sopas. Há um empenho comovente nos seus gestos. A voz entaramelada, gutural, arrastada, indicia uma qualquer deficiência. Uma deficiência leve, que não sei, nem quero, catalogar, mas que o torna diferente, à margem, anormal. Usa óculos de lentes grossas, permanentemente sujas. Está sempre a piscar os olhos. A pele, de tão oleosa, escorre gordura sebácea e brilha sob a luz branca do refeitório. Invejo-lhe a eficácia e a precisão dos gestos. Pega na concha, mete-a na panela, dá duas ou três voltas para dar corpo ao caldo, trá-la cheia, na vertical e, assim, naquele aprumo, com um rápido movimento do pulso, quase imperceptível, faz verter o líquido na tigela. Nunca respinga para fora. Nunca suja os bordos dos pratos. Todos os dias me entrega a tigela, sorrindo de satisfação. O seu sorriso parece dizer “Sou excepcionalmente bom naquilo que faço”. É verdade. É mesmo.
(A normalidade é um conceito injusto. E aborrecido. Quantos anormais há entre os normais? Muitos.)
(A normalidade é um conceito injusto. E aborrecido. Quantos anormais há entre os normais? Muitos.)
Marquês de Pombal
Desconfio que, logo a seguir ao Pacheco Pereira, sou a portuguesa que mais abomina o destaque que os meios de comunicação atribuem à selecção nacional. A insistência dos directos, a exaustão dos debates e das análises, o propositado acicatar do entusiasmo popular e do patriotismo bacoco (até as criancinhas são precoces no seu patriotismo boçal e, com vozes esganiçadas, gritam por Portugal, Portugal!), o esmiuçar dos detalhes que não interessam nem ao menino jesus. Espero que a selecção seja eliminada na primeira volta. Acaba-se o orgasmo nacional e eu vou celebrar para o Marquês de Pombal.
2008/05/26
Berlusconi
Tenho um tio que me faz lembrar o Sílvio Berlusconi. É igual. Pinta o cabelo, tem olhos pequeninos de animal fedorento, não tem pestanas, nem pálpebras. É sinistro e arrepiante. Fujo dele cada vez que o encontro num jantar de família. Ao seu jeito, é também ele um magnata. De Sacavém ao Catajul, de Odivelas a Camarate, os seus negócios prosperam. Tem oficinas de automóveis, lojas de material eléctrico, uma pastelaria e dois talhos. Constrói prédios em São João da Talha. As casas, espaçosas e com bons acabamentos, têm vistas privilegiadas para a auto-estrada do norte. Sustenta há vários anos uma amante quase nova que o ama na exacta proporção dos presentes que recebe. É justo que assim seja. O amor não se deve desperdiçar com insignificâncias. Tem, entre outras viaturas, um imenso Jaguar preto, de estofos brancos, artilhado disto e daquilo, que não sabe conduzir. Há ainda outra característica que o aproxima do Berlusconi: apesar de pouco inteligente tem a prosápia, a vaidade, o insuportável à vontade que o dinheiro sempre proporciona.
Autógrafo
O escritor pega na caneta. Leva a mão à testa para limpar as gotículas de suor que lhe cobrem a testa. Ajeita o corpo à cadeira de plástico. Procura uma réstia de conforto na tarde de calor. Pede a um dos assistentes uma garrafa de água. Pergunta, sorrindo, o nome ao leitor. Olha-o de frente. Abre o livro e escreve. O leitor sente-se um intruso. Como se estivesse a tentar forçar uma intimidade que não existe. Leu o livro e gostou. Recomendou-o aos amigos. Demorou a guardá-lo na estante. Se tivesse de escolher o melhor livro do ano escolheria aquele. É por isso que está ali. Repara que o escritor é muito jovem. Desenha as letras do seu nome com vagar. Tem nódoas de gordura na camisa branca. Quando sorri, mostra pedaços esverdeados de comida nos dentes. Terá, porventura, comido salada de alface ao almoço. Ou tarte de espinafres. Ou sopa de nabiça. Uma pontinha de desilusão começa a invadir o leitor. Arrepende-se do seu gesto. Agradece o autógrafo. Afasta-se com a certeza de que o livro é mais seu do que do homem que o escreveu.
(tenho sentimentos contraditórios em relação à feira do livro.)
(tenho sentimentos contraditórios em relação à feira do livro.)
2008/05/20
África do Sul
Na África do Sul, pelo menos 24 imigrantes morreram, desde sexta-feira, na sequência de ataques de gangs de jovens. No sábado, no bairro de Cleveland, espancaram até à morte cinco imigrantes e queimaram vivos, outros dois. Os imigrantes chegam de Moçambique, do Malawi e, sobretudo, do Zimbabué. Procuram na África do Sul uma esperança de vida. Espera-os a desconfiança e a violência. Há, sobre o assunto, dois ou três pontos que retenho. Primeiro, como dizem por estes dias os editoriais dos jornais sul-africanos, Thabo Mbeki está a colher os frutos da sua cobardia. Incapaz de criticar Mugabe, o triste Che Guevara africano, é, em parte, também ele responsável pela ruína de um país que, até há alguns anos atrás, tinha níveis de desenvolvimento satisfatórios. Os imigrantes zimbabueanos, que agora são mortos, fugiram do país que o silêncio do presidente sul-africano ajudou a criar. Em segundo lugar, há quem queira ver no sistema do Apartheid a origem da xenofobia sul-africana. O Apartheid, dizem, teria afastado a África do Sul do resto do continente, criando nos sul-africanos sentimentos xenófobos. Cá está, mais uma vez, a pior forma de racismo: a visão paternalista do outro, a desresponsabilização do outro. Os negros sul-africanos não matam os imigrantes moçambicanos e zimbabueanos por distantes sentimentos de isolamento incutidos pelo Apartheid. Os negros sul-africanos matam os negros moçambicanos e zimbabueanos por motivos mais prosaicos. Acham que estes ficam com as suas casas e usurpam os seus empregos. Por fim, resta dizer que, comparada com a brutalidade dos ataques na África do Sul, a xenofobia europeia, que se disfarça com discursos, que se artilha de argumentos, que usa botões de punho, que muitas vezes tem representação parlamentar, que mói, mas raramente mata, parece aceitável, quase inócua. Não é.
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