2008/10/16

Rastreio Auditivo

Gosto de discutir aos gritos, sem razoabilidade, recorrendo ao insulto gratuito, aos argumentos desleais. O efeito intenso dos insultos alivia-me do resto. Sem contar com as discussões conjugais, a última vez que discuti com alguém foi com um atrasado mental que se atreveu a dar um tabefe no meu filho João. Recentemente também insultei a menina do ginásio, belfa e loira, que, burra que nem uma porta, duvidou das minhas capacidades parentais quando lhe disse que o João frequentaria as aulas de natação sem acompanhamento dos pais. Se me cruzo com alguém que me enerva e não discuto com ela devidamente fica-me um amargo de boca. Sou durante muito tempo atormentada pela imagem da pessoa que me irritou até ao tutano dos ossos. Adormeço a pensar nela. Vivo na esperança de me cruzar com tal pessoa para corrigir o mal feito. Por exemplo, há cerca de dois anos que sou atormentada pela voz da médica que me assistiu no Curry Cabral. Eu, deitada na maca, trôpega, infeliz, miserável, e ela, nova, bonita, com uns cosmopolitas ténis nike enfiados nos pés, a mandar-me levantar. Os hospitais, como fez questão de explicar, não são hotéis, não servem para as pessoas descansarem. Grande cabra. Actualmente, para além da médica do Curry Cabral, sou perseguida pela imagem da velha que, durante o internamento do Joaquim, lhe fez o rastreio auditivo. Falou-me sempre num tom benevolente e várias vezes repetiu que o meu bebé era mais molinho que os outros. Como já deve ter reparado, o seu bebé é diferente dos outros. É mais molinho… E dava-me insuportáveis pancadinhas de apoio no ombro, sem notar que as suas palavras marcavam o meu filho a ferro quente. Não sei se o Joaquim é diferente dos outros miúdos. Ainda não sei. Só sei que me arrependo amargamente de não ter mandado a velha do rastreio auditivo para o caralho.

(Gosto da diferença. Sempre gostei.)

2008/10/15

Banksy


Folículos

Quando soube da iminente bancarrota do país mais feliz do mundo, a Islândia, abri a boca e soltei um ahhhh prolongado de genuíno espanto e absoluta surpresa. Os ahhhs prolongados de genuíno espanto e absoluta surpresa, aparecendo amiúde nos desenhos animados e nas comédias de Hollywood, não são, como se sabe, muito frequentes na vida real. Antes do desaire islandês, a última vez que soltei um desses ahhhs foi quando topei com o novo penteado do Nuno Rogeiro. Tive de me beliscar para enfrentar o tom levemente nacarado que o dito escolheu para rejuvenescer os folículos capilares.

2008/10/10

Tricot

Usava umas camisolas de lã coloridas, tricotadas à mão, e escrevia poemas doridos sobre o peso dos dias. Uma vez, já não sei a que propósito, falámos sobre política. Com comedimento que o ambiente de trabalho não permite grande alarido. Fiquei a saber que era uma dessas comunistas empenhadas, de punho erguido, admiradoras do socialismo cubano e saudosas do progresso soviético. Enchia o peito para falar de liberdade e do 25 de Abril. Certo dia, cruzando-me com ela no corredor do refeitório, perguntei-lhe pela neta que, naquela altura, devia ter a idade da minha filha. Respondeu-me com o entusiasmo habitual das avós, que a menina era linda e, claro está, muitíssimo esperta, quase, quase sobredotada. Rematou a conversa, dizendo que, graças a deus, não era virada para o outro lado, uma vez que apreciava sobretudo a companhia do pai e do avô. Engoli em seco e, num rasgo de lucidez, mudei de assunto. Perguntei-lhe que ponto de tricot usara na medonha camisola que vestia naquele dia.

(sempre me fez espécie o conservadorismo dos comunistas.)

Miasma

Há um novo miasma na sociedade portuguesa. São os fóruns de opinião das rádios e das televisões. Querendo ser espaços de cidadania e liberdade, lançam nas manhãs um cheiro putrefacto a sovacos mal lavados. É um fedor que não se pode. Dão voz aos reformados e às donas de casa de Massamá Norte. Dão voz aos bancários e aos funcionários públicos. Dão voz aos professores, aos comerciais, aos desempregados. Dão voz aos que não trabalham ou trabalham pouco. Podem, por isso, ocupar as manhãs a ser cidadãos activos, opinando sobre os temas da actualidade. Os fóruns de opinião são um retrato do país que somos. Um país onde grassa a boçalidade, a indignação, a ignorância e a estupidez.

2008/10/08

Glenn Gould

(gemidos da madrugada.)

Riso

E, no entanto, até a alma mais depressiva e sombria, habituada a usar o sorriso com frugalidade e o riso com parcimónia, solta gargalhadas inesperadas.

Vício

O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se num vício. Eu percebo bem o que ele queria dizer. Sou depressiva há muitos anos e não sei como me livrar da tristeza que toma conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tive filhos para que a responsabilidade da maternidade soterrasse a tristeza. Já tentei preencher o tempo com merdas e merdinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Até já tentei tomar decisões ridiculamente fracturantes que espantassem dos meus dias a solidão que neles se instalou. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. A tristeza serve para desculpar a inércia e, sobretudo, a mediocridade.

2008/10/06

Vasantotsav





Festival da Primavera, Bengal (Índia)

2008/10/04

Confissões nocturnas

Doem-me os mamilos, apetece-me fumar e já não aguento ouvir a miniatura russa correr na sua roda.

2008/10/03

Mário

Acordei com uma sensação estranha de confinamento. Como se estivesse a sufocar devagar. Cada vez que respirei fundo - sentado na cama, ainda estremunhado, fi-lo várias vezes - senti que o ar que entrou no meu corpo ficou a meio caminho. Não atingiu os seus objectivos: chegar ao final do aparelho respiratório, aos alvéolos pulmonares. Perdeu-se nos brônquios ou nos bronquíolos. Levantei-me e na penumbra do quarto, com freixos de luz entrando pelas frinchas dos estores, lembrei-me da minha professora da quarta classe. Chamava-se Vitória. Entre outras coisas, ensinou-me o aparelho respiratório. Boca, nariz, faringe, laringe, traqueia, pulmões, brônquios, bronquíolos, alvéolos pulmonares. Era militante comunista e foi a primeira paixão da minha vida. No verão usava decotes ousados e camisolas justas. Quando levantava os braços para apagar o quadro mostrava uma penugem que me fazia estremecer. Gozava com a bandeira e o hino. Odiava o Salazar. Nas aulas obrigava-nos a ouvir canções do José Afonso e lia-nos, com uma voz doce, poemas sobre a revolução. Eu amava-a em silêncio. Um dia, porém, ao chegar à escola, encontrei-a perto do portão. Beijava um homem com paixão. Era um preto. Um desses pretos retintos que, com esforço, tentam disfarçar o cheiro a catinga e os traços simiescos. Nesse dia o meu amor pela professora Vitória, tão grande e assolapado, acabou. Passei a odiá-la com igual intensidade. Não sei por que me lembro dela precisamente no dia em que vai ser lida a sentença.

(O líder do grupo de extrema-direita Hammerskins em Portugal, Mário Machado, foi hoje condenado a 4 anos e 10 meses de prisão efectiva. Continua a achar-se um preso político. Para além de feio, é- como dizê-lo? - uma besta delirante.)

2008/10/01

Vermelho


(Só sou do Benfica por causa da cor. Não há cor que se compare ao vermelho.)

Bola

Nunca percebi os benfiquistas que, invocando bacocos sentimentos de patriotismo, afirmam apoiar as outras equipas nas competições europeias. Para mim, que nem gosto muito de futebol, ver o FCP ser humilhado, espezinhado, reduzido à sua insignificância, é quase tão bom como ver o SLB ganhar.

2008/09/29

2008/09/26

As cabras capadas (2)

O problema das cabras inférteis é serem cabras inférteis e analfabetas. Muitíssimo carolas. Umas aventesmas dotadas de uma carolice quase alvar, digna de piedade. Porém, se a gente pensar bem no assunto percebe que há nisto a mão divina. Aliás, quanto mais penso, mais sou levada a crer que Deus, Nosso Senhor, Pai de todos as criaturas terrestres, existe mesmo. Porque se Deus não dotou de fertilidade estas caprídeas mulheres (cujos balidos ecoam, em bando, furiosos, pela blogosfera, fazendo béééé) é porque, munido da sua grandiosa perspicácia, percebeu que as suas lanosas vaginas serviam para ser penetradas por apelativos caralhos, de glandes refulgentes e escrotos cheios, mas nunca, jamais, para franquear a chegada de crianças a este mundo. Há mulheres que não têm condições para educar uma criança. Deus, Nosso Senhor, percebendo isso, capou-as. E capou-as muito bem. Coitaditas. Tão desesperadas para ter um filhinho, pequenino e ranhoso, para amar e Deus, Nosso Senhor, esse malandro, esse monstro impiedoso, a não deixar.
(andei a ler os meus arquivos e descobri esta pérola de acrimónia. credo.)

As cabras capadas (1)

A minha irmã foi vilipendiada, no seu berloque, por um bando de cabras inférteis. É digno de se ler. É o que dá ter comentários no blog. Ter comentários num blog é o mesmo que deixar aberta a porta da nossa casa e deixar entrar no nosso espaço, mexer nos nossos objectos, gente que vai ao teatro ver espectáculos da Teresa Guilherme, gente que lê livros da Margarida Rebelo Pinto e afins, gente que gosta da Rita Ferro Rodrigues e da Margarida Pinto Correia, gente que participa em eventos como a mais bela bandeira do mundo, gente que vive em Agualva-Cacém e vai para Quarteira e Armação de Pêra passear, debaixo do ordinário sol algarvio, nalgas esturricadas, cheias de celulite e estrias. Eu não vou sequer ao blog da mana que é para não me irritar. Já me bastam as outras ralações da vida. O problema das cabras inférteis não é serem cabras. As cabras são até bichos engraçados, do meu agrado, dotados de uma altivez própria e genuína. Não é, claro está, serem inférteis. Infelizmente, como se sabe, a infertilidade é mal de que padecem muitas outras mulheres. É uma maleita injusta, tão pesada, dos nossos dias.

2008/09/25

Raiva

Muitas vezes, durante o verão, a propósito dos assaltos, sequestros e roubos, do insuportável pânico geral, do esperado gesto de sempre acusar o outro, lembrei-me deste brilhante filme de Mathieu Kassovitz. O que fazer quando a raiva nos consome?

2008/09/23

Lembrete

Tópicos: Pires, o braço direito do tio Vitalino, ex-pide, prestável, incomodamente simpático; negra albina da estação de Entrecampos; antigos prédios da Quinta do Mocho, descarnados, com as vísceras à mostra; Dean, o meu primo marinheiro de Nova-Deli que tem um filho chamado Ulisses; neuro-pediatras; as insuportáveis teorias que todos têm para explicar o olhar espantado do Joaquim.

2008/09/16

Chatice

Uma pessoa passa dois meses longe da blogosfera e quando volta percebe que nada mudou. Continua a mundana chatice, como diria o meu querido Fausto. Há blogs tão merdosos. Principalmente, e digo-o com pesar, os que são escritos por mulheres.