2009/06/30

Mazurca Fogo


Kindle

Comprei um telemóvel quando saí de casa. Por necessidade. Quando voltei, passados três meses, arrumei-o numa gaveta. Uso-o com parcimónia. Em certas e determinadas ocasiões. Tenho uma agenda de papel para guardar números de telefone. Não sei ler mensagens de voz. Tenho uma máquina fotográfica digital. Tiro muitas fotografias. Só preciso de carregar num botão. Não sei tirá-las de lá. Tenho um ipod e não sei carregá-lo com músicas novas. Há dois anos que corro a ouvir o David Byrne e as tocatas de Bach. Não sei programar electrodomésticos, televisões, leitores de dvds. Não leio blogues. Atravesso os olhos, de viés, pelos dois ou três do costume. Imprimo sempre o que quero ler ou preciso ler. Receitas de bolos, acórdãos, leis, recensões simples de alguns livros que leio. Não consulto sites de jornais, rádios ou televisões. Tenho um computador portátil que me ofereceram pelos anos. Abri a caixa por insistência dos meus filhos passados muitos meses. Está colocado em cima da mesa da sala de jantar. Imóvel. Sou incapaz de o levar para a cama, para o sofá, para uma mesa de esplanada. Tenho um e-mail associado a este blogue e não respondo a quem tem a amabilidade de me escrever. Por acanhamento, mas também por estranheza. Nunca entrei, nunca entrarei, numa rede social, no hi-5, no Twiter, no Facebook. Que se possa gostar de ler livros num suporte que não se sente, não se cheira, não se tacteia, que não serve para guardar fotografias velhas, que não se enche de manchas de café, de lágrimas e migalhas, que é nada, é coisa que me transcende.

Mimetismo

Descia as escadas de serviço quando uma sombra se atravessou à minha frente. Uma mancha de tamanho incerto, veloz, correu pelos degraus abaixo, movendo-se com perícia, sem estranhar o espaço, sem temer o confronto. Ouvi uns passitos leves e um chiar que parecia um riso. Fiquei paralisada. À escuta. Até que os ruídos pequenos cessaram. Percebi que a mancha me esperava mais abaixo. Imaginei-a monstruosa, gorda, uma cauda enorme, uns dentes a arreganhar-me o descaramento. Senti palpitações, falta de ar, o medo amarinhando pelo corpo acima, como se fosse uma osga, um lagarto, uma centopeia. Saí das entranhas do edifício. Abri a porta de par em par. Com um certo dramatismo. Entrei no átrio onde duas rapariguinhas das companhias de seguros aguardavam o próximo elevador. Traziam a roupa muito justa ao corpo, unhas de gel pintadas com duas cores, sandálias de cunha baratas que hão-de soltar um cheiro nauseabundo ao final do dia. Uma delas, percebendo o meu desdém, arreganhou-me uma dentola medonha. Pareceu-me que chiava. Olhei para a outra. Vi-lhe uma cauda agrilhoada nas cuecas fio dental que se mostravam através da transparência de umas calças brancas. Abafei o grito que me saiu das goelas. Sustive um vómito que me veio à boca. Voltei a entrar nas escadas de serviço.

2009/06/29

Morte Feliz

Morri, paz à minha alma, escreveu a mulher.

2009/06/25

Tia

Não tenho o privilégio da raça pura. Sou mestiça. Certa vez, contei à tia Amália a confusão que a indefinição dos meus traços provoca. Já me tomaram por brasileira, cubana, uruguaia, argentina, cabo-verdiana, moçambicana, marroquina, paquistanesa, indiana e até espanhola. Uma mixórdia de origens e lugares. A minha tia abanou a cabeça, rejeitando tais hipóteses. No crepúsculo vermelho, e fresco, da casa de Pondá, assegurou que pareço parsi. Perante a minha surpresa, buscou concordância na Joaninha, sua empregada de longa data que, nesse instante, entrava com um tabuleiro cheio de pastelinhos recheados de baji de batata. Habituada, porventura, a nunca contrariar a minha tia, a pobre mulher anuiu sem sequer me olhar. A minha tia fez-me uma festa no rosto que me soube às coisas boas que existem no mundo. Olhei-lhe para dentro dos olhos e vi, nesse preciso instante, a menina que o meu pai levava todos os dias para a escola, numa bicicleta que cruzava veredas de lama e nuvens fofas de insectos. Explicou-me que os parsis, mais claros, são indianos originários da antiga Pérsia, actual Irão, um povo influente, que vive sobretudo nos estados do Maharastra e Gujarat. O tom da minha pele, o recorte dos olhos, a ondulação do cabelo, continuou a minha tia, são características dos parsi. Beberricou, de seguida, um sumo de uva muito escuro e ofereceu-me uns doces enjoativos de grão. Engoli um quadrado esboroado que sabia a flores e especiarias. Engoli também as origens imaginárias que a minha tia, nesse dia, me traçou. Ontem, no segundo canal, vi um documentário sobre Teerão. Dei por mim a achar-me parecida com as iranianas, a imaginar como ficaria linda com um lenço a cobrir-me os cabelos, eu que sempre me insurgi contra o uso do véu. Pergunto: quão tola se pode ser? Muito. Dezembro de 2007
(Reciclo. Por preguiça e cansaço.)

2009/06/23

Rosa (epílogo)

Rosa, se soubesses o cansaço que trago no corpo não me olhavas assim, não me chamavas senhor doutor, não me perguntavas pelo dia no hospital, não trazias os cafés queimados que me deixam gosto de cinza na boca. Sobretudo, Rosa, evitavas preencher a agenda até às 9 da noite. Varrias a mundana chatice que roça o traseiro pelas paredes dos meus dias. Livravas-me do miúdo das 8 horas, aquele quezilento, cheio de mimo, que veio cá há pouco tempo por causa de um furúnculo no braço. O que o miúdo gritou. Lembras-te? A mãe, uma baixinha com focinho de porco, a estupidez espalhada pelo rosto suíno, soluçava em voz baixa, como se o filho, um tirano de sete anos, estivesse às portas da morte. Podias inventar-me uma doença, Rosa, qualquer coisa, talvez uma hiperplasia prostática. Tem um nome pomposo, eu sei, mas é um padecimento ligeiro, adequado aos homens da minha idade. O senhor doutor encontra-se doente, havias de explicar com cortesia profissional aos pais, não pode dar consultas nas próximas três semanas. E distribuías os miúdos pelos colegas do consultório. O miúdo do furúnculo podia ficar com o médico novo. Ainda deve ter paciência para aturar os rapazinhos que antecipam para a meninice a boçalidade macha da idade adulta. Se gostasses de mim, Rosa, pegavas-me na mão, levavas-me para tua casa, que cheira à alfazema dos pout-pourris que espalhas pelos móveis de pinho e pelas bancadas de moleano, abrias a cama, corrias os estores, ligavas o rádio naquela estação que passa tangos e canções antigas. Depois, deitavas-te ao meu lado e adormecíamos. Outubro 2007

(Pensei no Luís quando escrevi este texto.)

2009/06/17

Mayra Andrade - Tunuca

Necrofilia

Um rapaz beijava uma rapariga, ontem, pela tarde, na estação do Rossio. Um beijo longo e egoísta. A rapariga, muito alta, de ancas largas, vestida de preto, deixava-se beijar. Tinha os olhos fechados, os braços caídos, a boca aberta para que a língua do rapaz entrasse e a habitasse. Parecia feita de basalto. O corpo rijo, imóvel, abandonado. Uma morta de boca aberta, ausente, pensando no último fim-de-semana, de sol e mar, ou na próxima frequência de psicofisiologia e genética (tinha ar de caloira de psicologia). O rapaz, pelo contrário, empenhava-se naquele beijo. Agarrava a rapariga com ambas as mãos. Parecia temer que lhe fugisse. Procurava encaixar-se no seu corpo de pedra. Queria encontrar uma posição que fosse cómoda, adequada, confortável. Para, então, desfrutar os efeitos colaterais do beijo: o coração acelerado, os arrepios de prazer, a leve intumescência do pénis, a alforria dos desejos mais secretos, jamais declarados, a doce certeza do amor correspondido. Estiveram naquilo durante muito tempo. O rapaz beijando a rapariga. A rapariga deixando-se beijar. Quando o comboio chegou, a rapariga entrou. Cá fora, o rapaz acenou-lhe e lançou um olhar comovente, muito meloso e patético. A rapariga sorriu-lhe do outro lado do vidro e respirou de alívio.
(As mulheres são falsas e parvas. Os homens são só parvos. Acreditam em tudo. Nunca lhes passa pela cabeça o óbvio: são, quase sempre, incompetentes para amar.)

2009/06/16

Purgante

Cássia. Sempre tive um certo orgulho neste meu nome. Por o associar à Santa Rita de Cássia e também àquela actriz brasileira muito gira, a Cássia Kiss. Sucede que esta semana comprei um chá, cuja composição é cem por cento folhas de cassia angustifolia. Rejubilei. Um chá com o meu nome (cássia) e com o meu desequilibrado estado espírito (angustia + folia = angustifolia). Achei-me merecedora de tal homenagem. Estive vai não vai para bater palminhas no corredor das infusões e dos outros produtos dietéticos igualmente desinteressantes. Chegada a casa quis saber que propriedades teria aquele chá, já que o pacotinho, de forma lacónica, apenas dizia que consistia num bom complemento a uma alimentação saudável e à prática regular de desporto. Imaginei, juro que imaginei, a cassia angustifolia com propriedades maravilhosas, rejuvenescedoras do espírito e do corpo. Uma espécie de elixir da juventude. Qualquer coisa entre o ginseng e a cannabis. Qual quê! Bastou uma busca pelo google para descobrir que cassia angustifolia é nome de um pequenino arbusto da Índia, cujas folhas - imagine-se ! -, são, desde a antiguidade, utilizadas para preparar infusões para quem sofre de constipação intestinal ou cujo bolo fecal se encontra há vários dias empedernido. Ou seja, para falar claro, a tal cassia angustifolia apenas tem poderes laxativos. Descobrir-se, aos trinta e muitos, que se tem nome, não de santa, mas de purgante é coisa odiosa.
(chamo-me Cássia e não Cássio.)

2009/06/15

Mousavi (2)

Ouvindo os comentadores, lendo os jornais, vendo as imagens dessas jovens iranianas envoltas em lenços verdes, exercendo o seu direito de voto, reclamando a sua liberdade, é quase impossível não sentirmos também nós uma simpatia profunda por Mousavi. Porém, tenho dúvidas que seja merecedor de tamanho aplauso. É que ninguém fala dos telhados de vidro do novo messias da liberdade. E, surpreendentemente, parece que tem muitos. Dois anos depois da revolução, foi nomeado primeiro-ministro por Khomeini. Foi responsável, como presidente do Conselho da Revolução Cultural, pelo fecho de universidades, por uma revisão constitucional que permitiu a concentração de todos os poderes no líder supremo. Na época, conduziu uma política económica estatizante com declarada inspiração soviética. Foi responsável pela perseguição e morte de muitos presos políticos. Consta que apoiou a fatwa de Khomeini contra Salman Rushdie. No ano de 1988, quando ainda era primeiro-ministro, foram ordenadas execuções maciças de milhares de opositores do regime. Foram enterrados em valas comuns e convenientemente esquecidos pelo Irão e pela comunidade internacional. Não se sabe o número exacto de quantos iranianos morreram no Verão de 1988. A Amnistia Internacional aponta entre 4000 e 5000 mortos. Há quem assegure que nesse Verão sangrento 30 000 iranianos morreram.

Mousavi não é um democrata. Ao contrário do que parece. É certo que, nos últimos tempos, mudou de lado. Hoje defende uma economia de mercado e mais liberdade. Porém, bem vistas as coisas, só pode ser considerado moderado e reformista quando comparado com o ultraconservador Ahmadinejad. O que faz toda a diferença. Eu também posso ser considerada um torpedo de mulher se me compararem com a Susan Boyle. Isso não faz de mim propriamente uma beleza. O mesmo se passa com Mousavi. A sua moderação, o seu alardeado reformismo, têm muito que se lhe diga. Aliás, por alguma razão, a sua candidatura foi uma das aprovadas pelo Conselho dos Guardiães. A verdade é que Mousavi traz as mãos muito manchadas de sangue. Estranho é que ninguém fale disso.

Mousavi (1)

Chamam-lhe reformista. E moderado. Durante a campanha fez-se acompanhar pela mulher, uma politóloga de olhos carregados e lenço de ramagens na cabeça. Reivindicou o direito das mulheres. Preocupou-se com a condição feminina. Reclamou o fim da humilhante discriminação a que são sujeitas. Apontou o dedo aos péssimos resultados económicos alcançados pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Afirmou querer trabalhar na construção de um clima de confiança internacional. Explicou a natureza pacífica das ambições nucleares iranianas. Também defendeu a imprensa livre. Com brandura, porém, já que nunca prometeu liberdade para os prisioneiros políticos. As mulheres, os estudantes, os habitantes das grandes cidades apoiaram-no abertamente, reclamando a reforma do regime teocrático dos aiatolás. Depois das eleições, apontou irregularidades eleitorais, reclamou a vitória com 65% dos votos. É arquitecto e pintor. O que tem a sua importância. Há sempre quem se deixe fascinar pelos artistas, poetas e intelectuais. Mesmo quando são uns estupores. Tem também boa figura, é bem apessoado, faz lembrar o Siza Vieira. Fisicamente supera, em muito, o Ahmadinejad, pequenote, quezilento, com cara de mau. São, pois, muitos os motivos que tornam Hossein Mousavi numa espécie de super-herói, merecedor da admiração de todos por ser o rosto visível da oposição no Irão. Há quem compare as represálias que entretanto ocorrem nas ruas de Teerão, com espancamentos e prisões, aos massacres que ocorreram na praça de Tianamen em 1989. Mousavi tem a imprensa ocidental, os comentadores, o mundo livre e esclarecido do seu lado. Ainda hoje, o sempre atento Rui Tavares descreve-o assim “Mousavi, um homem educado que já foi primeiro-ministro e se dedica à pintura e arquitectura, representava a Pérsia que deseja se respeitada e detesta ser conhecida pelos piores motivos”. Palavras para quê? Melhor apresentação é impossível.

2009/06/13

Leite Derramado


Cipralex (3)

Meti-me num táxi e rumei à primeira farmácia de serviço que encontrei. O mundo continuava a girar à minha volta, tremelicando por todos os lados, bruxuleando como a luz de um pedaço de vela. E as formigas malditas, essas não me largavam os lábios. Uma sensação, grande, de desconforto e insegurança tomava pois conta de mim. Para minha irritação, quando entrei tinha duas mulheres à minha frente. Sentei-me. A primeira pediu trifene. Bufei. Resfoleguei como os búfalos que conheceram o meu pai pequenino, lá longe, nos prados de Goa. Uma dor menstrual tem lá comparação com a ressaca provocada pela falta prolongada de um anti-depressivo? Já tive dores menstruais. Até já tive filhos sem anestesia. Não custa nada. É uma dor física que o corpo aguenta. A segunda mulher pediu palmilhas de silicone anti derrapantes para os sapatos. Aí não aguentei e reclamei que aquilo era uma farmácia de serviço, não uma para-farmácia. A farmacêutica, do outro lado do balcão, insolente, disse-me para esperar. Tive saudades, tantas, da empregada do senhor doutor, a tal Cristina, tão simpática, tão subserviente, tão senhora doutora para ali, senhora doutora para acolá. Encolhi-me. A empregada demorou imenso tempo a mostrar palmilhas de silicone à velha que estava à minha frente. Eu a morrer devagarinho. Por fim, lá se dignou a atender-me. Quando viu a minha receita, olhou-me em silêncio. Eu olhei-a de volta, prestes a desfalecer. Mal saí da farmácia meti um cipralex à boca. Passados poucos minutos o mundo parou de tremer.
(Setembro 2006)

Cipralex (2)

Estava eu a observar as ondulações da avenida quando entrou um homem que conheço vagamente. Trabalha num ministério qualquer. É advogado. Ou jurista. Ou coisa que o valha. Ele bem tentou esquivar-se, mas não teve como me fugir. Deu-me dois beijinhos e, claro está, passados dois ou três minutos, estava a justificar a sua presença na sala de espera de um psiquiatra. Eu ouvi e nada lhe disse. Bico calado. Era o que mais faltava explicar-lhe a minha triste depressão, a minha confrangedora frigidez, as minhas ideias suicidas, as minhas inseguranças e efabulações flatulentas. Deixei-o falar. Até porque o dito colega é uma daquelas pessoas, narcísicas, que gosta de se ouvir a si próprio. Só me aborreci quando começou a falar de trabalho e, em tom displicente, criticou determinadas orientações tomadas pela direcção do instituto público onde trabalho. Tenho a impressão de que gritei porque uma mulher gorda de olhar bovino deixou de fixar o ecran de televisão, onde a Floribella sorria imbecilmente, e me olhou de viés como quem diz “coitadita!”. Por fim, a empregada chamada Cristina, solícita, desfazendo-se em desculpas pelo atraso, chamou-me. Salvou-me daquele inferno. Entrei na consulta. Depois de meia dúzia de insignificâncias, muitos sorrisos, frases curtas, sai de lá com a abençoada receita

Cipralex (1)

O cipralex acabou-se antes do esperado. Eu deixei andar. Dois ou três dias sem tomar o dito medicamento não faz mal a ninguém. Foi o que eu pensei. Sucede que ao terceiro dia sem cipralex comecei a sentir tonturas e náuseas. Leves, levezinhas, como um manto de gaze diáfano pairando sobre mim. Ao quarto dia, para além das tonturas e das náuseas, já evidentes, comecei a sentir tremores, tremeliques e um formigueiro que se iniciava nos dedos dos pés e, coisa estranha, estranhíssima, me saía pela boca. De imediato percebi o que se passava. Era o meu corpo que se ressentia da falta do medicamento. Telefonei, de imediato, para o consultório. A empregada, que julgo chamar-se Cristina, alarmou-se. “Ó doutora, não pode estar tantos dias sem tomar a sua medicação!”, disse ela. Nota: estou-me nas tintas para o meu quase inexistente grau académico, qualquer gato-pingado da Brandoa tem uma licenciatura em direito. Porém, confesso que, nos consultórios médicos, gosto que me tratem por doutora. Sabe-me bem a deferência. Adiante. A Cristina, empregada do senhor doutor, lá fez das tripas coração e por fim, conseguiu marcar-me uma consulta para esse mesmo dia. Fui. Esperei que tempos. Espreitei a avenida, lá fora, tão desinteressante. As pessoas muito certinhas, endinheiradas, assépticas, sem pecados, nem máculas, a sair, em magotes, dos escritórios, dos bancos, das lojas, rumando aos arrabaldes chiques da cidade ou às suas casas do centro com tectos de estuque recuperados e peças de design muito caras compradas nas lojas do bairro alto e do príncipe real.

2009/06/10

Los Hermanos - Além do que se vê

(não conheço nenhuma banda brasileira que cante em inglês.)

Noite

Meto dois paparis no micro-ondas, encho um copo de vinho e acendo o primeiro cigarro da noite. Espero que chegue a hora do próximo aerosol. Sou uma mãe extremosa. Interesseira, também. Agarro-me à maternidade com unhas e dentes.

2009/06/08

Contracapa


Barroco Tropical

Resisti-lhe durante uma semana. Rondei as livrarias do costume de olhos baixos. Agarrei-me à letra encarnada, escrita pelo Nathaniel, traduzida pelo Fernando, escolhida pelo António, sempre elogiado por todos, citado pelo cânone. Sei que o desenlace há-de ser trágico, Hester não pode ser feliz, o amante é um canalha, um fraco, os homens são assim, merdosos, aquela menina há-de ser a sua desgraça. Ontem, porém, sucumbi-lhe. Abri a contracapa displicentemente e topei logo com aqueles olhos escuros vasculhando vá-se lá saber o quê. Trouxe-o comigo. Quem resiste a quem nos olha assim? À noitinha, enfiada na cama, a letra encarnada esquecida dentro da mala, a minha filha apanhou-me a dar um beijinho na contracapa do livro. Ela está habituada a ver-me beijar livros e discos. Até a televisão eu beijo nas raras ocasiões em que o Fausto aparece a cantar. Mesmo assim quis a minha filha ver o objecto do meu entusiasmo. Expliquei-lhe que era angolano, escritor e, sobretudo, giro. Para justificar o meu entusiasmo, disse-lhe que o achava parecido com o Vasquinho, o menino cor de café com leite e caracóis despenteados, que ela ama desde os quatro anos. Não se convenceu. “O Vasco é de primeira qualidade, mãe, este…”, e apontou para a fotografia, “…é para aí de terceira”. Espantei-a do meu quarto. Ímpia. Não aprecio a assertividade da minha filha. Gostos não se discutem.

(Textozinho imbecil onde se demonstra o acerto das palavras alheias.)

2009/06/05

Tango

(desprezava-o, com comedimento, é certo, quando ele cantava em inglês.)

2009/06/04

Lista

Há um movimento. Há um propósito. E há, pelos vistos, uma lista de gente que apoia o dito propósito. São actores, jornalistas, juristas, biólogos, comentadores, deputados, escritores, cantores, estilistas, fotógrafos, encenadores, curadores de museus, bloggers, ensaístas, poetas, sociólogos, investigadores. A lista vai por aí fora e tem o mérito da extensão. São muitos. Mas a lista é também previsível e imensamente aborrecida. Está lá, como sempre acontece quando se fala das tais questões fracturantes da sociedade, a nata bem pensante, a elite dos iluminados, os privilegiados que opinam, as vedetas de fancaria que tratam estes assuntos com a mesma vacuidade que imprimem às suas vidas. Eu, que sempre defendi o casamento entre pessoas do mesmo sexo e que, no dia da mãe, até mereci uma canção feita pelo meu filho sobre o assunto (tal é a lavagem cerebral a que o pobre é submetido), torço o nariz, o monumental nariz que deus me deu, a um ajuntamento tamanho de gente tão ilustre. Perdoem-me a franqueza, não levem a mal o meu enfado, sei que o assunto é sério e merece elucubrações com mais tino, mas a lista é assustadora. Desconfio que, pelo meio, também há-de lá estar a Bárbara Guimarães e o Luis Represas. É verdade que há muitos anónimos na lista, mas a esses ninguém liga. Não merecem uma referência, muito menos uma categorização. Gostava de uma lista mais terra a terra, feita de gente comum: pedreiros, padeiros, empregados de balcão, coveiros, trabalhadoras do sexo, operadores de call-center, posticeiros, canalizadores, empregadas domésticas, bancários, gestores de condomínios, motoristas da carris, instrutores de artes marciais, revisores de comboios, analistas informáticos, calistas, manicuras, auxiliares protésicos. Isto é que era uma lista. Uma lista assim e seria inegável a robustez e a força do movimento. Uma lista assim e seria inegável que a sociedade de carne e osso quer e aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo.


(Entretanto, a Ana Zanatti, na sessão de apresentação do movimento, assumiu-se como lésbica. Sem querer menorizar o gesto, parece-me que o mesmo era desnecessário. Ainda eu não sabia bem o significado da palavra lésbica e já sabia que a Ana Zanatti o era. Via-a na Vila Faia e escutava a minha mãe bichanar ao ouvido da minha tia que ela e a Lara Li tal e coisa. Toda a gente sabe, há muito tempo, que a Ana Zanatti gosta de mulheres. O ter-se assumido como lésbica é uma novidade com cheiro a mofo. A ranço.)

2009/06/03

Mascarados

Gosto da língua que falo, o português. Gosto de a ouvir. Acho-a bonita. Por gostar tanto do português causa-me arrepios que grande parte das novas bandas portuguesas cante em inglês. É constrangedor. É um sinal triste deste país pequeno e medonho. Desde que o bonitinho do David Fonseca teve sucesso a cantar umas cantiguitas menores em inglês, salvo raras e agradáveis excepções, as novas bandas portuguesas, como se tivessem descoberto uma fórmula mágica, desataram a cantar para nós - que os outros estão a borrifar-se para eles - numa língua que não é a nossa. Agora há para aí uns mascarados, que parecem saídos de um episódio dos power ranger, a quem a rádio e os jornais têm dado destaque. Em que língua cantam os ditos mascarados? Em inglês. Um horror. Quando os vejo na televisão ou os oiço na rádio tenho vontade de ter uma metralhadora à mão para lhes rebentar os miolos. Mas mais ridículo do que haver tanta gente a cantar em inglês é o facto de haver tantos idiotas a promover os que cantam em inglês e tantos atrasados mentais que compram os respectivos discos.

Escrever

Este blog, como outros que criei, é um diário. Há qualquer coisa de insólito, incongruente, patético, em criar um diário, que é suposto ser uma coisa secreta, íntima, e, depois, dar a lê-lo a quem queira. Há qualquer coisa de Big-Brother doentio e exibicionista nisto tudo. Mas, por ser um diário, é que escrevo com despudor. Chamando nomes à pobre D. Anabela, admitindo a irritação que me provoca a felicidade dos outros, falando das agruras do meu casamento, confessando as disfunções sexuais de que julgo padecer. Sei que escrevo o que devia guardar para mim. Alivia-me escrever. Por enquanto, por agora, vai servindo de válvula de escape. É que os dias correm, velozes, sucedem-se em catadupa, sem que eu lhes tome o freio.

2009/05/28

Roda Viva

Campanha

Os jornalistas são semi-intelectuais, semi-educados, impreparados e partidários”, explicou há tempos, em entrevista ao Público, Daniel Dylan, investigador francês. Verdade tão pura. Bastaram dois ou três dias de campanha para perceber como é desonesta a cobertura que as televisões dela fazem. O PSD é tratado sempre em tom jocoso. Segundo os jornalistas, tudo se faz com esforço, sem empenho, a contragosto, como se os candidatos tivessem uma arma apontada à cabeça. O PCP é tratado como um bando de velhos caquécticos, uma espécie de espectros anacrónicos que se limita a balbuciar a conversa do costume. O CDS é reduzido ao paulinho das feiras, às velhotas de Ponte de Lima, de lenço na cabeça e bigode hirsuto, que se agarram aos candidatos com beijos babosos. Em contrapartida, o BE, claro está, é tratado como a terceira força, pujante de energia, vitalidade, capaz de surpreender na noite das eleições com um resultado histórico. Vivam as arruadas, os candidatos dançando, os trompetes e as pandeiretas! O PS, por sua vez, não obstante as limitações evidentes do seu cabeça de lista - a história do imposto europeu é apenas a cereja que faltava no bolo das propostas inesperadamente inconsistentes que tem feito - é tratado com a brandura do costume. A gente sabe que os jornalistas são, em regras, socialistas ou bloquistas. Está-lhes no sangue. Faz parte do seu código genético. Os jornalistas têm direito de ser o que muito bem quiserem. Não têm é o direito de nos tomar por parvos.

Natália

Encontrei a minha empregada, logo pela manhã, muito chorosa e ranhosa. Enfiada atrás da tábua da roupa, manejando com pouca destreza o ferro de engomar, lá me confessou que o marido, depois de trinta e cinco anos de casamento, se queria divorciar. "Até já me pediu o bilhete de identidade!", disse, passando com fúria a única camisa branca que me sobra. "Deve estar caidinho por alguma russa ou brasileira”. Silêncio breve. “ São todas umas putas!". Eu, tirando as remelas dos olhos, com pouca paciência para a justificadíssima xenofobia matinal da D. Anabela, cumpri o meu triste papel de patroa licenciada em direito e esforcei-me por lhe explicar as diferenças entre os divórcios litigiosos e os outros, as consequências no que respeita a bens e pessoas, os trâmites e procedimentos que hão-de ocorrer. Ela agradeceu a minha disponibilidade para a ajudar e continuou a passar, com fúria, as t-shirts do João. Invejei-a de um modo estulto mas sincero. Por breves instantes, desejei que uma ucraniana leitosa, de olhos verdes, bem formada, boa pessoa, carinhosa, amiga das crianças, inteligente e tudo o mais, aparecesse no caminho do meu marido.
(Já expliquei em tempo: nem tudo o que aqui se escreve é verdade. Por exemplo: nunca uso camisas brancas.)

2009/05/27

Saro-Wiwa


Ken Saro-Wira foi executado em 1995.

2009/05/26

Chelas

O comboio atravessa o vale de Chelas onde, no meio das torres coloridas, há hortas e quintalejos. As ervas rompem por toda a parte, selvagens, e as nespereiras enchem-se de frutos manchados. Há papoilas e tufos brancos de marcelas. Velhos, de boina e pulôveres muitos coçados, entretêm-se pela tarde a regar, a apanhar os caracóis que rendilham as folhas das faveiras, a fazer sulcos na terra seca. Nos bidões velhos plantam morangueiros, salsa e hortelã. Os coelhos, de pêlo castanho, saltitam perto dos carris. Quando a noite cai solta-se um cheiro adocicado e fresco das hortas que perfuma o bairro de Chelas.
(Gosto de Chelas porque não vivo lá. Vivesse eu numa dessas torres de papelão e não encontraria beleza, nem poesia no bairro. Passeio por Chelas com o mesmo sentimento com que desço a Almirante Reis e entro no Centro Comercial da Mouraria. Fico inebriada com um mundo que não é meu.)

2009/05/24

Afectos

Votarei no Bloco de Esquerda nas próximas eleições europeias. Por uma razão simples. É o único partido que tem, sobre a questão da imigração, a posição que sempre defendi. É uma posição ingénua, dirão alguns, irresponsável e politicamente correcta, gritarão outros e, hoje em dia, eu sei, não se pode ser politicamente correcto. As pessoas tomam-nos por criaturas primitivas. Fazem um esgar de repulsa. Tratam-nos com embaraço. Aliás, hoje em dia, e isso é que é ridículo, é politicamente correcto ser-se politicamente incorrecto. Adiante. Sobre os motivos da minha escolha, acho que, numa altura em que a Itália de Berlusconi é, por muitos, sentida como um exemplo de coragem é importante dar voz a quem não tem da Europa a ideia de uma fortaleza que admite os imigrantes (melhor chamar-lhes escravos) apenas e tão só na medida das suas próprias necessidades. Não me canso de perguntar: então, e as necessidades deles? Se as políticas de imigração adoptadas pelos países europeus, para além das suas próprias necessidades, não tiverem em consideração as dos imigrantes (e não têm tido!), ter-se-á de concluir que o princípio da igualdade de direitos, tão bonito, tão citável a propósito disto e daquilo, apesar de consagrado nos textos internacionais e nas constituições de todos os países, é desprovido de qualquer sentido útil, incapaz de empreender qualquer tarefa de garantia contra as desigualdades e discriminações. Gosto, depois, genuinamente do Miguel Portas e os afectos também são importantes quando escolhemos um candidato. De resto, em pouco ou nada, concordo com o Bloco de Esquerda. Porém, para quem, como eu, vive dilacerada entre o seu lado direito e o seu lado esquerdo, nem sempre é fácil encontrar critérios e definir parâmetros para tomar decisões.

2009/05/22

Naruto

(Ornatos Violeta - Chaga)

2009/05/21

Pénis Tatuado

Pela manhã, no comboio que vem de Alverca, uma mãe gabava a duas companheiras de viagem a tatuagem que o seu Leandro Miguel fizera no pénis. Linda, assegurava, assim tribal a fazer lembrar aquelas tribos da Indonésia, Polinésia ou lá o que é que é. As outras davam gargalhadinhas nervosas. A mulher devia ter uns quarenta e cinco anos e falava com entusiasmo do seu filho Leandro Miguel. Também tinha um piercing na língua. Usava as calças muito largas. Só queria roupa de marca. O boné custara-lhe quarenta e cinco euros. Os últimos ténis quase cento e vinte. Tinha dois brilhantes nas orelhas. Às vezes, para desenjoar, tirava os brilhantes e colocava umas argolas de ouro branco. Não era bom aluno. Isso, porém, não parecia preocupar a mãe. Que o filho fosse medíocre como ela própria era algo que parecia quase confortá-la. Por fim, em jeito de remate, para mostrar que era uma mãe modernaça, muito prá-frentex, que comungava dos interesses do filho, mostrou a tatuagem que fizera no tornozelo. Um golfinho saltando nas águas do mar. Uma beleza.

(Custa-me reconhecê-lo, mas o CDS tem muita razão naquilo que diz em relação à polémica da distribuição de preservativos. Compete às família, pobres, ricas, remediadas, e não à escola educar os filhos. Compete às famílias e não à escola assegurar que os miúdos tomam as precauções necessárias quando iniciam uma vida sexual activa. Compete às famílias explicar que o sexo não se inicia aos doze, nem aos treze, nem aos quinze anos e que quem o pratica corre riscos. Quem não quer educar os filhos, quem não está para os acompanhar, não os deve ter. Se o Leandro Miguel quiser foder, com o seu pénis tatuado, as feiosas todas do 10º ano da escola secundária da Arrentela que o faça. Se engravidar uma Bruna ou uma Micaela Cristina, cujo sonho secreto é participar numa novela da TVI ou ser capa da Maxmen, que engravide. Se apanhar uma doença infecto-contagiosa e morrer antes dos vinte e cinco é uma sorte para todos nós.)

2009/05/19

Kuduro

Dispensaram a Laurinda Alves. Rejubilei. Acendi até duas velas a Nossa Senhora de Fátima. Substituíram, não sei se temporariamente, o Paulo Moura pelo Vitor Belanciano. Aquiesci. Hoje, topei com o Jorge Marmelo em vez do Desidério Murcho. Consolei-me. O primeiro, parece-me, é mais dado à vida mundana. A vida contemplativa que se lixe. Não compreendo a lógica das mudanças, mas, aproveitando a maré, peço a quem de direito que pondere substituir o Kalaf Ângelo, o negro do chapéu de coco, que escreve às quintas-feiras no P2. Era uma caridade que faziam a uma leitora fidelíssima. Os lugares comuns são em catadupa, as ideias previsíveis, banais, o deslumbre pela modernidade dos restaurantes japoneses e dos produtos biológicos constrangedor. A mim provoca-me arrepios, brotoeja, urticária, nascem-me aftas na língua, incham-me as mãos, enfurece-se o joanete do pé direito. O homem é chato. Terá, admito, habilidade para o kuduro, para alardear aos quatro ventos a beleza dos musseques e a fúria dos subúrbios, mas não tem a vocação da crónica escrita.

(Aviso já que deixo de comprar o Público se, neste corrupio de alterações, abrir o jornal à quarta-feira e lá não estiver o Paulo Varela Gomes. Exijo que a Índia continue a chegar-me, matinal, todas as quartas-feiras.)

Menina-Balão

Na Índia, ao contrário de cá, os jornais não trazem mensagens eróticas. Shiva, sempre entretido em cabriolices eróticas com as suas consortes, de lingam erecto, não o permite. Em contrapartida, há em cada jornal uma longa secção de matrimonial. Trata-se, como o nome indica, de uma secção de anúncios de quem procura parceiro para casar. As mensagens são de uma especificidade impressionante. Nunca tinha visto nada igual. As brides e os grooms descrevem-se com rigor e exactidão. Num quadradinho de papel condensam a informação necessária para despertar o interesse de um potencial parceiro: idade, casta, religião, habilitações -desengane-se quem pensa que na Índia são todos uns desgraçadinhos analfabetos, na maior parte dos casos, principalmente nas cidades, o que está em causa é saber se se tem uma especialização ou um doutoramento -, região, profissão, salário e, claro, o tom da pele. Fiquei viciada na leitura daquela secção dos jornais indianos. Por isso, quando a tarde caía sobre a casa de Maina e os esquilos se escondiam nos ramos da mangueira, eu arrastava a cadeira de baloiço para a varanda e entretinha-me a ler os anúncios dos casamentos, tentando encontrar naquelas listas infindáveis correspondências que assegurassem aos noivos um casamento feliz para a vida. Um dia, a Ria, a menina-balão, veio sentar-se perto de mim. Espreitou o jornal e chamou, com a sua voz de trovão, as outras crianças da casa que, entretidas a chupar limas, correram para perto de nós. “Ana Clara is reading the matrimonial! She is looking for an indian groom!”. Ri-me do descaramento da menina-balão e belisquei-a. Depois, passámos o resto da tarde à procura de um noivo indiano para mim.

(Tenho saudades da Índia. Nunca mais chega o Natal para por fim voltar.)

2009/05/15

2009/05/13

Correio

Para evitar confusões, sobretudo as de quem gosta de se apropriar do nome dos outros, este blogue passa a ter disponível uma caixa de correio. Quebra-se assim o encanto da solidão e da indigência. Que se lixe.

Feira

Os debates quinzenais na Assembleia da República, que escuto pela tarde, na volta para casa, mostram que a casa da democracia, como alguns gostam de lhe chamar, mais parece uma feira. Tudo se permite. Há a vozearia habitual, o bruá dos deputados arregimentados, que batem palmas enquanto tuitam, os urros, os insultos gratuitos, as estocadas finais, o cinismo das interpelações. Nada se discute. Pouco se esclarece. Servem os debates para a oposição acicatar o Primeiro-Ministro e para este mostrar que a elegância dos seus fatos armani não joga com o acinte e com a arrogância das suas explicações. Os debates quinzenais servem para mostrar outra coisa. Que o tempo corre depressa. Espanto-me pela manhã quando percebo que é dia de debate na Assembleia da República. Ainda não estou refeita dos dislates do debate anterior e já outro se anuncia para alegrar o meu fim de tarde.

Marias

Escutei na rádio, entrevistada pelo Carlos Pinto Coelho, a Maria Teresa Horta falar da sua poesia solar e da sua ficção nocturna. Caracterizou a sua obra com a mesma naturalidade com que eu adjectivo os meus filhos. O João é folgazão, a Dádá é açucarada, o Joaquim é, por enquanto, incerto. Invejei-a apesar de nunca lhe ter lido nada. Deve ser bom ter uma poesia solar e uma ficção nocturna.

2009/05/11

Ferrugem

A boca ficou a saber-me a ferrugem, disse Laura enquanto se vestia. Depois abriu a janela e cuspiu. Olhou as árvores do quintal. A nespereira estava carregada de frutos podres e, perto do muro, um limoeiro oferecia-se a quem passava na rua. Laura puxou a saliva e cuspiu outra vez antes de fechar a janela. O silêncio espalhava-se pelo quarto, tão denso e baço que parecia poder cortar-se às fatias. Virou-se para o espelho e começou a escovar os cabelos. Tinha-os longos, muito lisos e brilhantes. Sabes, o sangue é que costuma saber a ferrugem, continuou sem esperar resposta. Por cima da cómoda um gato de loiça olhava-a com olhos moles de preguiça. Só ele parecia escutar as palavras de Laura. A mulher apanhou o cabelo e prendeu-o com um elástico. Tirou da mala um desodorizante. Isso geralmente sabe-me a ervas frescas esmagadas, disse enquanto vaporizava as axilas com um cheiro mentolado. Olhou em redor à procura dos sapatos. Descobriu um por baixo do reposteiro e outro aninhado por baixo da cama, entre sacos de plásticos e bolas de cotão. Calçou-se. Os pés denunciavam-na sempre. Mais do que a voz ou a forma quadrangular do tronco. Por mais que pintasse as unhas, por mais que amaciasse a pele com cremes e óleos, tinha pés ossudos, pés de homem. O professor do 4º direito, para a arreliar, quando a ouvia queixar-se da masculinidade de tais membros, dizia-lhe que ela tinha pés de deus grego, pés de Hércules, de Jasão, de argonauta, de Ulisses, uns pés iguaizinhos aos de Cristo na cruz. Ria-se o professor e quando ria abria muito a boca e mostrava a glote que tinha a forma perfeita de um sino. Laura não achava graça. Se pudesse entraparia os pés como as chinesinhas de antigamente. Ainda por cima calçava o quarenta e quatro. Era uma chatice para arranjar sandálias de salto alto.
(Julho de 2007)

2009/05/07

Lygia e Hilda


Testosterona

Cheguei a uma conclusão: a Ler é uma revista feita por homens, sobre homens e para homens. Poucas são as mulheres que colaboram com a revista: a Felipa Melo, a Inês Pedrosa, a Carla Maia de Almeida que, como convém, escreve sobre livros de criancinhas. Desde que renasceu apenas duas mulheres mereceram a capa da Ler. A Margarida Rebelo Pinto e a Agustina Bessa Luís. A gente percebe, através destas escolhas, que há, em quem faz a Ler, uma certa imagem do que são as mulheres e do que é a escrita no feminino. Olha-se, por exemplo, para a capa do número de Maio e descobrimos, entre escritores, bons, maus e muito maus, cronistas e afins, o José Eduardo Agualusa (que é lindo, absolutamente lindo), o Siza Vieira, o Rui Ramos, o Carmac McCarthy, o Henrique Raposo, o Domingos Amaral, o Pedro Mexia, o Rogério Casanova, o Eduardo Pitta, o Abel Barros Baptista, o Filipe Nunes Vicente, um tal de John Cheerver, o António Câmara, o Mário de Carvalho, o senhor provedor, o Fernando Sobral. Há apenas uma mulher no meio de tanta testoterona, de tamanha confusão de testículos, escrotos e prepúcios: a Teresa Caeiro. E mais não digo.

(entretanto, e isso é que importa, o Álvaro chegou.)

2009/05/04

Castanheiro das Índias

Ando cansada para escrever. E triste. Uma tristeza miudinha percorre-me o corpo. Conheço-a de outras guerras. Procura, como sempre acontece, entrar pelos poros da minha pele para depois se instalar cá dentro. Quando a tristeza se entranha nas vísceras pouco há a fazer. Geralmente espero que se sacie e me abandone. Não fosse o cansaço e a tristeza e escreveria hoje sobre um homem que conhece os nomes das árvores e dos peixes.

Eva

Entra uma rapariga na carruagem. Olho-a. Tem umas sandálias calçadas, tipo colibri, de plástico bege, daquelas baratas que se compram no Paraíso do Calçado e cheiram a cholé quando se descalçam. Morena, com umas covas nos olhos e a sombra do buço a marcar-lhe o rosto, a rapariga não terá mais de vinte anos. O cabelo é enorme, escuro, exageradamente comprido. Deve chegar-lhe ao rabo. Faz lembrar uma Eva ignota. Vê-se que tem orgulho no seu cabelo. Não pára de lhe mexer. Faz nós nas pontas. Pouco depois, desmancha-os para logo de seguida fazer outros. Quando se cansa dos nós, começa a enrolar o cabelo em volta do pescoço. Como se fosse um lenço. Ou um colar. Ou uma corda para se enforcar. Ou uma serpente de língua bífida que, sibilante, lhe oferece uma maçã. Por fim, deixa de brincar com o cabelo e arremessa-o para trás das costas. Olha em redor e dá um estalido com a pastilha elástica que mastiga. Tem noção de que o seu cabelo dá nas vistas e isso alegra-a. O que a rapariga não percebe é que é a feiura do seu cabelo-serpente que prende o olhar de quem com ela se cruza. É um cabelo baço, sem brilho, sem volume, com uma ondulação incipiente. Tenho pena da Eva que masca pastilha elástica na carruagem do metro que vai para Odivelas. Se tivesse uma tesoura à mão cortava-lhe o cabelo, tornava-a banal, livrava-a dos olhares alheios.
(Novembro 2007)

2009/04/29

Vidia


2009/04/27

A Casa dos Budas Ditosos

Interrompo o silêncio para um desabafo: a cadeia de supermercados Auchan baniu das suas prateleiras A Casa dos Budas Ditosos do João Ubaldo Ribeiro. Dizem os senhores que por lá mandam que o livro é pornográfico. Gesto tacanho, de imbecilidade necessariamente viril. Tive os melhores orgasmos da minha vida a ler o dito livro. Trouxe-o a minha irmã Susana de Brasília. Li-o às escondidas, com o coração acelerado, quando a casa paterna repousava de todos os seus outros habitantes. À conta dessas prazenteiras tardes de verão tenho até uma fotografia do escritor colada na porta do frigorífico. Perguntam-me os meus filhos quem é este senhor de bigode que aqui está? Não lhes respondo. Eu sei porque ele lá está. É, pois, absurda a atitude dos senhores do grupo Auchan. Em vez de banirem o livro do João Ubaldo Ribeiro das suas castas prateleiras, deviam encará-lo como um trunfo promocional, oferecê-lo, por exemplo, a todas as mulheres que fizessem compras superiores a cinquenta euros. Os senhores do grupo Auchan talvez não saibam mas um bom orgasmo, secreto, inesperado, proibido, dá mais felicidade a uma mulher do que os trocos que poupa comprando iogurtes de marca branca ou fraldas por atacado.

2009/04/23

Mr. Biswas

Estou em época de contenção. Poupo palavras. Fervilha o mundo e eu calo-me. Não escreverei sobre a insuportável Mísia, nem sobre o JP Simões (suspiro profundo), nem sobre o não sei quantos tiger man, nem sobre os quiosques da Catarina Portas, nem sobre a cimeira de Genebra, nem sobre as eleições na Índia e na África do Sul, nem sobre a Ilda, o Miguel, o Paulo, o Nuno e o Vital, nem sobre o Jardim Constantino, nem sobre a rua Pascoal de Melo, nem sobre o cheiro dos jardins de buxo e das petúnias floridas, nem sequer sobre o arquitecto desconhecido, Álvaro, que chega para a semana. Nos próximos dias, aviso os estimados leitores, as minhas palavras serão escassas. Evitam por cá passar. Nesta baiuca reinará o silêncio e o vazio. Tudo por causa de um tal Mr. Biswas que requer todas as minhas atenções.
(Explicaram-me um dia, já não sei quem, que ler é mais importante do que escrever. É bem verdade. Perco demasiado tempo a escrever tolices aqui.)

2009/04/17

Camus


Arranca Corações (2)

Os escritores de hoje não têm sentido do decoro. Não percebem que quem escreve deve mostrar-se com parcimónia. Esta exposição é sobretudo uma falta de respeito pelos leitores. Exijo, aos meus escritores, recato e clausura! Só assim poderei amá-los pelo que escrevem. De outra maneira, arriscam-se a ser apreciados pelo acessório. Eu explico com um exemplo concreto. O José Eduardo Agualusa esta semana deixou-se fotografar para a revista do expresso. As fotografias publicadas são a preto e branco, soturnas e envolventes. Fazem suspirar. Ora, eu não gosto particularmente dos livros que escreve. É uma embirração antiga que vem do tempo em que escreveu sobre a minha Índia. No entanto, acho-o um homem muito bonito, moreno, o cabelo rebelde, os olhos pequenos e escuros, a pronúncia do lado de lá (o que eu gosto daquela voz que tem no timbre os entardeceres mornos do sul). Compro sempre os livros do Agualusa. Leio-os, em parte, porque aprecio o invólucro do escritor. Acho, sinceramente acho, que não os leria se nunca lhe tivesse conhecido o rosto e se nunca lhe tivesse ouvido a voz. Se o Paul Auster fosse um gordalhufo, boçal e seboso, não teria a horda de fãs que tem por esse mundo fora. As trintonas tardias e as quarentonas adoram-no. Se em vez daquele olhar tresloucado, mas cativante, o Lobo Antunes fosse zarolho e belfo quem se interessaria por lhe ler a obra mais recente, indecifrável e neurótica? Tivesse o tal Paolo Giordano, o rapaz que escreveu o romance sobre os números primos, lábio leporino e orelhas de abano, em vez daquela beleza serena que suscita sentimentos concupiscentes, e nenhum editor o publicaria. Os tempos que vivemos são assim. Os escritores, como toda a gente, querem cativar-nos com todas as armas que possuem, as literárias e as outras.

(Estive quase tentada a comprar a lire, tal foi o matinal encanto que o arranca corações trouxe à minha sexta-feira. Só depois me lembrei que não sou capaz de ler duas linhas de francês.)

Arranca Corações (1)

Abriu uma tabacaria nova perto do banco onde trabalho. Tem uma boa oferta de publicações estrangeiras. Entretive-me, pela manhã, no escaparate das revistas francesas. A paris match, a magazine littéraire, os cahiers du cinéma, a fígaro, todas lá estão, apelando à minha alma francófila e levemente imbecil. Interessei-me pela lire que traz na capa uma fotografia do Boris Vian. Não o imaginava assim, delicado, frágil, com um ar núbil, quase pueril. Os escritores de antigamente têm destas coisas: surpreendem-nos. Apaixonamo-nos por eles por causa dos livros que escreveram e, depois, assim do nada, descobrimos que poderíamos amá-los por razões bem mais prosaicas. Aconteceu-me o mesmo com o Albert Camus. Descobri, há tempos, depois de lhe ler alguns livros, a fotografia que o Bresson lhe tirou. Desejei, de imediato, que saísse da tumba e me levasse para a Argélia, onde eu, de bom grado, passaria o tempo a preparar-lhe pratos de cuscuz e a cativá-lo com danças eróticas usando apenas um tarbuche. Lê-los, aos escritores de antigamente, é assim uma espécie de blind date (hei-de me vergastar, com fúria, por utilizar uma expressão inglesa). Quase sempre, não lhe conhecemos o rosto, a voz, as expressões, os interesses, as miudezas da vida privada, amores, filhos, loucuras domésticas. O mesmo não acontece com os escritores contemporâneos. A gente quer-lhes fugir e não consegue. Eles deixam-se fotografar, entrevistar, opinam sobre isto e sobre aquilo, escrevem em revistas, blogues, jornais, maçam-nos com opiniões e desabafos, integram júris variados, promovem encontros, aparecem em colóquios e seminários dissecando obras e personagens. Na verdade, os livros que escrevem parecem, muitas vezes, ser um mero acidente de percurso nas suas vidas literárias.

2009/04/14

Orangotangos

Tenho mais estima pelos orangotangos do Bornéu do que pelos terapeutas familiares. Infelizmente são os primeiros que estão em vias de extinção.

2009/04/13

Paquiderme

Sentei-me estrategicamente atrás de uma das colunas do refeitório de modo a poder observar a mulher paquiderme sem ser vista. Tenho gosto em observar tudo o que é diferente, esquisito, grotesco. Dos miseráveis às pessoas com deficiências várias, aleijões, chagas, deformidades, angiomas, todos despertam o meu interesse e me fazem arranjar estratagemas para observá-los, com detalhe, na sua estranheza e indigência. Um simples coxear me faz virar a cabeça. Enquanto mastiguei os lombinhos de garoupa tratei de olhar a mulher paquiderme. Deve pesar perto de duzentos quilos. É um monte monumental de carne flácida e gelatinosa. Só o rabo dela, colossal, há-de pesar mais do que eu. Tem, porém, um rosto bonito, uma pele lisinha, o cabelo penteado com preceito. Hoje usava, enrolado ao pescoço, um lenço com bolinhas de cor que lhe dava uma certa graça. Às vezes, o marido vem almoçar com ela ao refeitório. É miudinho. Ciranda à sua volta, mimando-a, fazendo-lhe festas no rosto, colocando-lhe o bracito por cima do ombro. Levanta-se muitas vezes para lhe trazer sobremesas de plástico, bavaroises de ananás e semi-frios de frutas vermelhas. Ela, lambona, tudo devora com prazer. O marido tem evidente orgulho no corpo da mulher. Desconfio que é um desses maravilhosos tarados que só sentem tesão chafurdando nas nalgas e nos refegos das mulheres gordas. Não consigo tirar os olhos de tão estranha parelha.

Gogol

Não há gato-pingado que, por estes dias, não fale do escritor russo Nikolai Gogol. Também quero aqui dar conta da importância da obra do escritor na minha vida: chamo Tchichikov ao meu filho Joaquim e ele, sempre tão distante e ausente, ri-se.

2009/04/11

2009/04/08

Anonimato

Tenho nome. Como toda a gente. Chamo-me Ana Cássia Rebelo. Escrevo o meu nome e continuo a ser ninguém.

2009/04/07

Hemisfério Sul

Aprecio a franqueza dos países do hemisfério sul. Lá, tudo é claro, transparente. São países que, em muitos assuntos, estão mais avançados do que nós. A sério. Por exemplo, assumem com naturalidade a corrupção, o clientelismo, a utilização do poder público para alcançar benefícios pessoais, a promiscuidade entre poder político e judicial. A corrupção é uma coisa assumida. É a engrenagem que tudo faz funcionar. Se não houvesse corrupção tais países entrariam em colapso. Todos, cada um à sua medida, corrompem e são corrompidos. Com transparência. Sem temer consequências ou represálias. Isso é bom. Uma pessoa sabe com o que contar. Evita a vergonha, o embaraço, o constrangimento do gesto. Ninguém hesita se quiser subornar alguém porque todos são subornáveis, negociáveis. Recordo, a este propósito, a primeira vez que visitei o seminário de Rachol, em Margão. Ouvira falar do altar da capela e queria conhecer de perto os anjos de olhos amendoados e cabelos negros que por lá vivem. O padre que me franqueou a visita ao altar era um velhinho goês, um santo padre, de batina branca e óculos de aros grossos, tímido e frágil como uma papoila. Cheirava a mirra, a turíbulo, enfim, às coisas santas desta vida. Para meu espanto antes de me deixar entrar estendeu-me a mão a pedir qualquer coisa. Balbuciou um português antigo e correcto. Explicou que só me deixava visitar a capela, que não está aberta ao público, mediante uma pequena contribuição pessoal. Não me fiz rogada. Com certeza senhor padre, tome lá cem rupias e deixe-me apreciar os anjos de cabelos negros em paz. Ficámos ambos satisfeitos.

(O que amofina em Portugal é a ilusão de que as coisas não são assim.)

2009/04/06

Escuridão

(também amo este homem.)

Gran Torino

(fui ao cinema com o meu filho mais velho.)

2009/04/03

Cagarlax

Sabe deus nosso senhor o trabalho que me dá passar vinte e quatro horas por dia trombuda, maldisposta, enfadada. Hoje, porém, ri, com gosto, sozinha. Por duas vezes: logo pela manhã, com o cagarlax do Miguel Esteves Cardoso e, no metro, com a maravilhosa fotografia do Nuno Costa Santos, o recém-empossado provedor do leitor da revista Ler. É muita risota para um dia só. Não estou habituada a tanta galhofa.

Boca

Um dia, quando o engenho chegar - tenho fé que chegará na quarta década da minha vida -, hei-de escrever um romance sobre as altas classes médias de Lisboa. Personagens de sexualidade ambígua, caçadores e caçados, gente intelectualmente superior, noites que desaguam no Lux. Uma coisa assim original e verdadeiramente interessante.

(que feia é a boca do Fernando Pinto do Amaral.)

2009/04/02

Olé

Escutei este fim-de-semana, na telefonia, a entrevista do grão-mestre. Esmerou-se por defender a sua ordem, atafulhada de princípios e homens livres. Notei-lhe a voz pouco firme, bruxuleante. Pareceu-me que a dentadura lhe sacolejava. Como se tivesse castanholas dentro da boca. Olé. Ele a falar de assuntos sérios e importantes para o futuro da humanidade. Eu a picar cebolas para as pataniscas de bacalhau e a pensar na mulher que lhe papou a amantíssima esposa. Feia, uma dessas lésbicas matulonas e tronchudas, incapaz de usar um rímel, um vestido, um colarzinho de pérolas de água. Apesar de tudo o que se passava, tinha o grão-mestre em grande consideração. Para além da esposa, apreciava-lhe os ideais de liberdade e fraternidade, gabava-lhe a filantropia e o humanismo.

2009/04/01

Lampedusa


Pão

Na última reunião do G8, em Julho, depois de uma manhã a discutir a crise alimentar no mundo, os poderosos deleitaram-se com dezanove iguarias preparadas por um chefe japonês. Comeram, entre outros pratos, milho recheado com caviar e ouriços-do-mar, enguias avinagradas e cordeiro aromatizado com trufas negras. Para a refeição inaugural da reunião do G20, Jamie Oliver, o delicioso cozinheiro que me acompanhou nas manhãs molengonas da terceira licença de maternidade, fará um menu mais frugal: espargos ingleses, peixe fresco e borrego temperado com alhos selvagens. Convém ter algum comedimento, alguma consciência social nestas ocasiões. Para não parecer mal. Entretanto, na costa da Líbia, continuam desaparecidos trezentos imigrantes. O número não é certo. Vinham da Somália, da Etiópia, da Nigéria. Queriam chegar a um sítio onde houvesse pão.

2009/03/31

Gula

Que fique claro: uma coisa é comer com discrição as pequenas cabeças dos carapaus fritos, outra, bem diferente, é chupar, com pecaminosa satisfação (e mais não digo), uma cabeça de coelho, lamber-lhe a dentola de roedor, sugar-lhe a mioleira, mastigar-lhe os globos oculares, olhinhos outrora pestanudos. Fico agoniada com a campestre gula da minha sogra.

Bricabraque

Enfio a mão no jarrão da entrada. Espreito dentro da terrina chinesa colocada no centro da mesa da sala de jantar. Espanto-me sempre com a quantidade de coisas que a minha mãe consegue guardar dentro dos bibelots lá de casa: lápis de pintura estalada, canetas, clips, papéis, corta-unhas, alfinetes, agulhas de crochet, cadeados, porcas e parafusos, fotografias, elásticos, brincos, pulseiras, batons do cieiro, bulas de medicamentos, brinquedos pequenos dos netos. Uma vez, há já alguns anos, até lá encontrei um dos dentes de ouro do meu pai. Fiquei a olhar para ele e a lembrar-me do embaraço que sentia cada vez que soltava uma gargalhada. Parecia um pirata, um cigano, um maltês, um bandido qualquer. Ele a rir-se, feliz, eu a desejar que fechasse depressa a boca para que a europeia decência lhe voltasse ao rosto. A verdade é que a tolice da minha pré-adolescência me fazia ter vergonha do dente de ouro do meu pai e também dos chinelos que ele usava nos pés aos fins-de-semana. Na altura, os pés usavam-se cobertos, escondidos em sapatos de vela ou sapatilhas da le coque sportif. O meu pai, de pés escancarados, os dedos feios e amarelecidos, ofendia-me com os seus hábitos de gente do sul. Uma autêntica pornografia podológica. Pego agora numa caixinha de argentaria, vinda de Lourenço Marques. A travessia do oceano, o vento salgado, deixou-lhe uma cor baça, triste. Verto tudo o que lá está dentro. Espalha-se o interior pela madeira de pau-preto. Tanta coisa, tanto quase-lixo. Não sei o que procuro. Não procuro nada. Quero apenas certificar-me que nada mudou nesta casa, que os objectos deste apartamento continuam guardiões das minudências dos dias dos meus pais. Um cheiro estranho de coisas velhas solta-se daquele bricabraque miniatura. Mistura-se o cheiro a ferrugem, que vem das chaves velhas da garagem, com o cheiro doce de um pacotinho de sementes de anis que a minha mãe trouxe do mercado de Margão.

(não vejo os meus pais há mais de três meses.)

2009/03/25

Che

Nunca usei t-shirts do Che, nem lenços palestinianos enrolados à volta do pescoço. Usei, isso sim, presos na lapela do casaco, uns cráchas com o perfil do Lenine e do Marx, redondos e brilhantes como rebuçados de fruta, trazidos pela tia Dé da União Soviética. Saía de casa, a caminho do liceu, com eles enfiados no bolso e só os colocava na gola do casaco no elevador. O meu pai, a quem a revolução dos outros deixou marcas amargas, não apreciava a minha admiração pelo comunismo da tia Dé. Volta e meia, quando a dor que trazia por dentro lhe amarinhava pelo corpo, olhava-me com ódio e mágoa.
(O Benicio del Toro, a propósito do novo filme do Steven Soderbergh, diz que quem usa t-shirts do Che é fixe. O Benicio del Toro é parvo que se farta.)

2009/03/23

Rosa Maria (3)

O caldo entornou-se. Já nem sei o que lhe disse. Só sei que, às tantas, ela olhou para mim e, abrindo muito a boca, mostrou-me outra vez a dentadura. E, depois, sabe o que me disse, senhor doutor, disse-me que tinha uns dentes melhores que os meus e que os homens gostavam de dentes bons! Foi aí, senhor doutor, que eu lhe disse assim ó Rosa Maria, tu, se fizeres um broche a um homem com esses dentes, pões-lhe a pila logo mole! E desatei-me a rir porque comecei a imaginar a Rosa Maria, muito velha, cheia de rugas, muito torta, a fazer o trabalhinho e os dentes a chocalharem por todo o lado. Deu-me um ataque de riso que não consegui parar! A gente ri-se tão poucas vezes nesta vida que tem que aproveitar quando tem vontade. Quando olhei para a Rosa Maria vi que estava caída a tremer por todos os lados. E a dentadura caída no meio do chão. Qualquer coisa no coração. Um ataque fulminante! Quando chegou o 112 e a levou parece que já ia morta. Coitadinha. Não queria que a Rosa Maria morresse senhor doutor! Fico doente, com o coração apertadinho, só de pensar que ela morreu porque eu lhe disse que nem com a dentadura nova ela conseguia arranjar homens que lhe pagassem! Apanhei a dentadura, guardei-a bem guardadinha e tenho-a aqui, senhor doutor, tenho aqui a dentadura da Rosa Maria embrulhada num guardanapo limpinho. O senhor doutor, faz o favor de a guardar, bem guardadinha, porque a Rosa Maria tem de ser enterrada com a dentadura posta. Percebeu, agora, porque quis falar consigo? É para lhe entregar os dentes novos da Rosa Maria.



Rosa Maria (2)

Ora, hoje de manhã, fui beber um galão e comer um papo-seco ali a um café antes de ir trabalhar. Cheguei à esquina devia ser cinco horas. Adivinhe quem já estava? A Rosa Maria! Só que estava diferente. Os beiços pintados de vermelho, vermelho, vermelho! As unhas, muito ratadas, mas pintadas também. Tinha uma roupinha diferente. Sei lá onde a foi desencantar! Em alguma loja chinesa ou na feira da ladra. Estava encostada à minha esquina, com a mala a tiracolo, e sorria a quem passava. Quando sorria mostrava os dentes. Foi então que percebi que a Rosa Maria tinha uma dentadura. Ó senhor doutor, eu olhei para ela, a mostrar os dentes novos, pronta para o engate, e nem sabia se havia de rir ou chorar! Eu, muito calminha, muito calminha, perguntei-lhe ó Rosa Maria, pá, olha que estás na minha esquina! Ela olhou para o relógio e disse que tinha chegado primeiro. Eu calei-me e pus-me a falar para dentro, a dizer, tem calma Maria Alice, tem calma, que a gaja é velha e já andou muitos anos na vida e tu mais dia, menos dia, vais ser igual a ela, uma puta velha. Foi então que a Rosa Maria começou a falar, a dizer que já não se faziam mulheres como dantes, que nós éramos todas umas drógadas, que andávamos a dormir com os homens e a espalhar doenças por toda a parte. Comecei a chatear-me porque há muita desgraçada com o vício nesta vida, mas não é o meu caso, senhor doutor, que nunca meti nada dentro do corpo e tenho dois filhos para criar! Olhe, mas ela não se calava, uma conversa sem pés nem cabeça!


Rosa Maria (1)


Vou contar-lhe tudo o que se passou, senhor doutor. Ando na vida há muitos anos. Já passei por muitos lugares, mas, de há uns tempos para cá, que estou na esquina da Rua João das Regras, ali perto da Praça da Figueira. É o sítio onde sempre fico. Às vezes, quando chego, está lá a Rosa Maria, a tal velha que morreu. Foi puta toda a vida. Desculpe a linguagem, senhor doutor, mas a gente tem que chamar as coisas pelos nomes! Geralmente, quando a vejo na minha esquina, chego-me ao pé dela e digo-lhe Rosa Maria põe-te a andar que este é o meu sítio. Ela resmunga, resmunga. Não se percebe metade do que ela diz. Às vezes tenho que gritar com ela para a pôr a andar. Digo-lhe assim ó Rosa Maria, põe-te na alheta se não rebento com o resto dos dentes que tens na boca. Eu sei que não devia dizer uma coisa destas a uma velha. Mas que quer, senhor doutor, a Rosa Maria é teimosa. Por mais que a gente lhe diga que já não há homens que a queiram, assim, velha, malcheirosa, desdentada, ela insiste em sair todos os dias para a rua à procura de clientes. Foram muitos anos na vida, foi o que foi. Tadinha. Deus a tenha em descanso, que bem merece!

2009/03/22

Abishek Bachan

Casanova

Sonhei com o Rogério Casanova. Escusam de me acusar disto e daquilo e sei lá do que mais que a culpa não é minha. Uma mulher, é sabido, manda em muitas coisinhas da sua vida, mas não nos seus sonhos. Mandasse eu e haveria de sonhar noites inteiras com o Abishek Bachan, vestido com uma curta branca, a puxar-me pela trança e a cheirar-me o cangote. Houve tempos em que sonhei com o Pedro Mexia, de peúgas brancas e pijama de flanela, casto, enfiado comigo na cama dos meus pais a ler livros infantis. Agora, vá-se lá compreender a minha mente, dei para sonhar com o Rogério Casanova. Não usa peúgas brancas mas, pior, passeia-se pelos meus sonhos no corpo do Álvaro Costa, o apresentador gaiteiro da Liga dos Últimos.

2009/03/19

Chantal Biya

Estou fascinada com a primeira-dama dos Camarões. Chama-se Chantal Biya e põe a rainha Raina, tão sensaborona na sua beleza autêntica e delicada, a um canto. A primeira-dama camaronesa é um estoiro de mulher, um petardo rebentado no céu, a feira popular no mês de Agosto, uma autêntica pérola do espalhafato e exagero. O santo padre, que é um homem conservador e circunspecto, como convém aos homens de fé, há-de baixar os olhos quando a topa. Quer fugir do africano mamalhame saltando dos decotes em v, das quadrangulares garras pintadas de rosa choque, do exagero constrangedor dos seus chapéus e vestidos de cores vibrantes, do cabelo volumoso, ripado, pintado de laranja escuro, da palidez mórbida provocada pela aplicação diária dos melhores cremes branqueadores. Anda, pobre coitado, a apregoar o recato e a abstinência sexual, valores com os quais concordo e que, pior, pratico, e dá de caras, assim, logo no início da sua, com essa imagem de deboche, pecado e luxúria. Tenho pena do santo padre. Dizem, os crentes, que Deus escreve direito por linhas tortas.

Carapaus fritos

Pedi carapaus fritos no refeitório. Naturalmente, comi as cabeças dos animaizinhos, despedaçando com os meus molares os seus pequenos crânios fritos em óleo quente. Estaladiços e gordurosos, uma delícia! Uma rapariga, magra, que se encontrava por perto, comendo valenciana de legumes, olhou-me com leve repugnância. Há gente muito parva.

2009/03/17

Carrossel dos Esquisitos

O rapaz mais feio do meu curso casou com a rapariga mais feia do meu curso. A feiura dos dois é coisa nunca vista. Excessiva num mundo onde a beleza é quem mais ordena. Ele tem a pele muito seca, originada por uma qualquer doença de pele, psoríase provavelmente. Volta e meia, as escamas da sua pele soltam-se e deixam à descoberta manchas de um vermelho intenso e feio. Tem os dentes salientes, a fazer lembrar um coelho gigante. Uma pessoa olha para ele e espera, a qualquer momento, vê-lo cobrir-se de uma pelagem cinzenta e desatar a saltitar, frenético, em busca de um prado verdinho. É juiz. Há alguns anos, apanhei-o numa comarca do interior, muitíssimo sério, feioso dentro da sua beca, cheia de cordões e pregas, a ditar despachos com uma voz fanhosa. Quis atirar-me à cara a superioridade da sua casta. Deixei-o. Uma coisa é ser magistrado. Outra é ser jurista de um instituto público.

Ela, a rapariga mais feia do meu curso, sempre foi velha. Já o era na faculdade. Usava saias por cima do joelho e calças vincadas. Tinha olhos pequeninos, a pele baça, o cabelo oleoso colado ao rosto, sem vida, sem volume. Alta, movimentava-se com lentidão como se o corpo lhe pesasse em demasia. Tinha, e tem, uns enormes pés voltados para fora, as ancas largas, muito robustas, a maternidade entranhada nos ossos das bacia. Deve ter seguido o notariado. Assentos, certidões, averbamentos, procurações, testamentos, tudo ela há-de tratar com eficiência e sisudez, disfarçando o fastio que o cheiro a papel velho lhe provoca. Eram ambos alunos aplicados. Não faltavam às aulas, não frequentavam o bar, não fumavam, não bebiam, tinham notas medianas. Eu desprezava-os porque eles simbolizavam tudo o que eu não queria da vida: ordem, conformismo, rotina, previsibilidade.

Ultimamente, andava eu já tão esquecida dos tristes anos em que andei na faculdade de direito, voltei a cruzar-me com eles. Devem viver no meu bairro. Encontro-os no talho a pedir carne picada para fazer almôndegas e na mercearia a comprar duzentos gramas de fiambre de peru. Andam sempre juntos, de mãos dadas. Ele olha-a com amor. Ela deixa-se envolver pelo amor dele que é como uma gaze diáfana, muito leve e delicada. São, de uma forma quase escabrosa, felizes por se terem. Olho-os com uma pontinha de emoção e muita vontade de chorar.

(O Pedro Mexia também foi meu colega de curso. Não era o rapaz mais feio do meu curso, mas andava lá perto.)

2009/03/11

Pastoral Portuguesa

Desconfio que a quase totalidade dos bloggers que costumo ler, e que estão na coluna do lado, teve um chilique quando deparou com o súbdito desaparecimento. Neste preciso momento, agonizam em frente dos seus computadores e preparam, com afinco, textos sobre a indispensabilidade do estilo casanoviano na blogosfera portuguesa. Já eu admiro o gesto. Não há nada mais deprimente do que escrever num blogue.

Deus

A minha filha anda na catequese. Anda na catequese e acredita em Deus. Ontem foi a Fátima com a sua catequista e veio de lá maravilhada com os pastorinhos, a devoção popular, o sol que bailou sobre um campo de margaridas, as pagelas de oração com a imagem da nossa senhora, tão linda, boazinha, seráfica, as lojas onde se vendem velas com forma de pernas, mãos, braços, o casinhoto miserável onde a santa família vivia, cheia de catres e bilhas de barro. À noite fui dar com ela, enfiada na cama, a rezar o terço. Olhou-me de soslaio. Custa-lhe que eu não acredite em Deus. Sente nisso, nessa total incapacidade de aceitar o divino, uma incompetência materna.

Aravind Adiga


2009/03/10

Japão

O Japão é um lugar estranho. Comprei o livro por duas razões. A primeira: descobri, há pouco tempo, que o meo oferece um canal que passa exclusivamente filmes de animação japonesa. Chama-se Animax e seduz com todas aquelas histórias fantásticas de espíritos, vampiros, guerreiras, shimigamis, princesas de olhos redondos e heróis andróginas. A segunda razão: a capa do livro é magenta e eu tenho dificuldade em resistir a objectos de tal cor. Acontece-me o mesmo com o amarelo-torrado.

MEC

Antigamente, quando abria o Público, procurava ler em primeiro lugar a coluna do Eduardo Prado Coelho. Salvas raras excepções, abominava tudo o que escrevia. Gostava de começar o dia assim, com esse frémito de irritação, buscando em cada parágrafo um cliché esquerdista, em cada palavra um vestígio de insuportável pedantismo intelectual. Quando morreu o coro de elogios foi unânime e ruidoso. Acanhei-me perante tamanha homenagem e passei a folhear o Público sem método, desregradamente. Percebo, porém, que isso mudou. Agora, mal abro o jornal pela manhã, procuro a coluna diária do Miguel Esteves Cardoso. Leio-o com assumido deleite. Fale ele do seu neto António, das cancerígenas sardinhas esturricadas ou das subtis variações com que os intelectuais nortenhos pronunciam certas palavras, Mac e Apple, os seus textos mostram como é arguto, mordaz e sincero, absolutamente indispensável. Lê-lo passou a ser um gesto diário como o primeiro cigarro que fumo no estendal depois de deitar, e calar, a canalha pequena.

2009/03/06

Brilliant Histoire d’Amour

Depois de uma paixão, assolapada e imbecil, uma mulher, quando finalmente deixa de gostar de um homem, passa por várias fases. Há a fase da surpresa. Há a fase do alívio. Há a fase do nojo. Há, por fim, a fase do vazio. Maria Viegas estava na fase do nojo. Dava por si a lembrar-se de olhares, palavras, gestos e a sentir-se ligeiramente nauseada. Com vontade de abrir a boca e vomitar. Pela manhã, no carro, em pleno túnel, enquanto pintava os lábios com o brilliant histoire d’amour da lâncome, veio-lhe à cabeça uma palavra. Uma única palavra. Uma palavra escrita. Uma palavra corriqueira. Banal até, mas que odiava. Que era incapaz de utilizar. Esgalhado. Esgalhar. Esgalho. Deu um grito e fez um esgar de repulsa. A palavra em questão não lhe fora sequer dirigida. Esborratou-se. Na falta de um lenço de papel, limpou a boca a um dos muitos bilhetes de parquímetro amarelecidos que se acumulavam no tablier. Começou de novo. Foi então que olhou para o lado. Viu um homem grande e gordo. Um urso gigante. Ou um hipopótamo vagaroso. Percebeu, nesse preciso instante, que, relativamente ao seu marido, apesar de tudo o que acontecera, apesar de tudo o que estava para vir, nunca passara, nunca passaria por uma fase de nojo.

2009/03/05

Ler

(Tenho um fraquinho pelo António Barreto. Qualquer mulher de bom gosto tem.)

Desejos

O Público de hoje conta que os homens árabes procuram mulheres israelitas para casar. As israelitas têm fama de inteligentes e bonitas. O Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita recebe por ano dezenas de cartas de árabes solicitando que lhes arranjem uma noiva judia, estando muitos dispostos a pagar o respectivo dote, em camelos ou cabras. Pobres árabes que se deixam seduzir pelo mundo ocidental, tão decadente, tão desregrado, tão livre, tão desejado. Li a notícia e lembrei-me dos homens indianos. Todos os dias, chega às praias de Goa uma chusma de gente vinda do interior indiano. Querem ver o mar. Uma pessoa caminha pelo areal e tropeça em famílias inteiras, pais, mães, filhos, avós, cunhados, primos. Deixam-se deslumbrar pelo mar e experimentam-no. Os homens despem-se e, de roupa interior, cuecas e camisolas de alças, sentem a mornidão das águas. As mulheres, até as mais velhas, chapinham de saris ou de churidas. Fica o mar manso empapado com tanta cor. As mulheres jovens mergulham nas águas de t-shirt e calças de ganga. Aos homens é permitido o ridículo de se passearem com as trousses encardidas pelas praias. Às mulheres, por imbecil decoro, querem-nas longe do meretrício e da devassidão, é imposto o desconforto pesado das gangas molhadas coladas ao corpo. Os homens indianos gostam de passear, em grupo, pela praia. Olham, boçais, para as turistas que usam biquínis e fatos de banho. A ocidental nudez paralisa-os ao ponto de parecerem autênticos bois a olhar para um palácio. Muitos têm erecções por baixo das cuecas molhadas. A gente olha e vê-lhes as pilas esticadinhas num arrepio tolo de prazer.

Os portugueses não são assim. Passaram há muito os patamares civilizacionais em que se encontram os árabes e indianos. Não querem uma mulher israelita. Não se embasbacam por ver mulheres nuas, passeando nádegas celulíticas, nas praias caparicanas. Porém, não são assim tão diferentes. Apreciam o recato das suas mulheres, que tomam com aborrecimento de quinze em quinze dias. Gostam, no entanto, do atrevimento das soraias chaves que se despem nas revistas. No fundo, no fundo, sejam os árabes ricos que desejam comprar uma mulher israelita, sejam os indianos magricelas que se excitam com os corpos semi-despidos das turistas, sejam os portugueses que alardeiam aos quatro ventos que a não sei quantas é muito boa, assegurada que esteja a decência doméstica, os homens gostam é daquilo que não podem ter.

2009/03/01

Embalar

(... e agora é a vez de a mulher se impacientar/essa conversa já começa a tresandar.)

2009/02/27

Idade

Não sei mentir. Sou inábil, incompetente na mentira. Até quando me interessei por outra pessoa, fui a correr contar ao meu marido o que se passava. Não conseguia estar com ele enquanto a minha cabeça fugia para outro sítio qualquer. Não tenho estofo para ser adúltera. O que é triste porque os clássicos que leio e releio estão prenhes de adúlteras magnificas, esplendorosas, radiosas, luminosas, felizes. Maria Eduarda, Luísa, Anna Karenine, Madame Bovary, Margarida. Vem esta conversa a propósito dos homens que mentem sobre a idade. É socialmente aceite que as mulheres mintam sobre a idade. A idade pesa-lhes demasiado. As mulheres devem ser eternamente jovens, mesmo quando já não o são, mesmo quando já se cansaram de o ser. Por isso se enchem de cremes, de maquilhagens, fazem lifts, vão a aulas de aerobica, coloram o cabelo de cores risíveis. Acobreado e ameixa. Diga-se o que se disser uma mulher que mente sobre a idade tem o seu encanto. Aliás, uma mulher que mente sobre a sua idade está a cumprir, e bem, o seu papel social de tonta. É diferente com os homens. Um homem que mente sobre a idade é outra coisa qualquer. É patético. É o mesmo que um homem pintar o cabelo, rapar os pêlos das pernas e do peito, ir à manicure, usar meias transparentes de nailon, como um certo professor de direito, muito velho, salazarento e incompetente, que me deu aulas. É mais do que patético. É triste. Desolador. Um homem que mente sobre a idade não é homem. É um pozinho burlesco de enganar, um desenho fruste e garrido, desenhado a giz numa calçada que, mais cedo ou mais tarde, se apagará com o vento e com a chuva.

2009/02/25

Canibais

Li a notícia há dias: uma tribo amazona atraiu à sua aldeia um rapaz que vivia num povoado vizinho. Depois comeu-o. Quando os familiares procuraram o rapaz, deficiente mental, por sinal (era assim que o chamavam na notícia), encontraram apenas os restos do macabro festim: ossos roídos, o tutano chupado, um cheiro acre a carne esturricada. Os índios, de pança cheia, marimbando-se nos civilizados conceitos de integração e aculturação, arrotavam satisfeitos na sombra das palhotas. Lembro esta história cada vez que oiço os contestatários da legalização do casamento entre homossexuais argumentar que a mesma abrirá a porta a formas de organização familiar indesejáveis, como por exemplo, a poligamia.
O argumento da poligamia é rasteiro, ordinário mesmo. Sinceramente, custa-me vê-lo ser utilizado por quem tenho consideração e admiração. É o caso da Helena de Matos. É que se compara o que não é comparável. O casamento polígamo, ao contrário do casamento entre homossexuais, não assenta nem na igualdade, nem no respeito pela liberdade de cada um. Muito pelo contrário: é tradicionalmente um casamento que explora a mulher. A mulher é menorizada, vista como um objecto que se adquire, usa e deita fora. Não é por acaso que o casamento polígamo quase só existe nos países muçulmanos. Ainda recentemente o Curdistão aprovou uma lei a favor da poligamia que permite aos homens casar-se com uma segunda mulher, caso a primeira seja estéril ou tenha uma doença grave. Se o objecto adquirido for defeituoso, tem sempre o macho, esse magnífico e superior ser dotado de um falo, a possibilidade de o trocar.
A verdade é que não se conhecem em Portugal, nem na Europa, nem nos Estados Unidos, nem na Austrália, nem em nenhum país ocidental, associações que reivindiquem a legalização dos casamentos polígamos. Percebe-se que assim seja. Bem ou mal, as sociedades ocidentais já assimilaram a base dos direitos fundamentais e percebem que o reconhecimento da poligamia contende com uma série deles. Ora, ao contrário dos casamentos polígamos, o casamento entre homossexuais vem sedimentar o respeito pelos direitos fundamentais: reafirma-se a defesa da liberdade individual de cada um e, sobretudo, consagra-se a proibição de se ser descriminado em função da orientação sexual que se tem. Querer, de forma maliciosa, confundir uma coisa com a outra é intelectualmente desonesto. Não tarda nada, os contestatários do casamento entre homossexuais, tresloucados na sua homofóbica missão, estão a acenar-nos com o canibalismo das tribos indígenas. É ridículo. É.

Slumdog Millionaire

(fui ao cinema com o meu filho mais velho.)

2009/02/22

Alcibíades

Vou descansar aqui. Aqui é um bom sítio para descansar. Comprei bilhete para a última paragem e tomei o comprimido que a doutora do centro de saúde me receitou para dormir. A minha filha está sempre a dizer que a bebé dela adormece mal o carro começa a andar. O mais certo é que me aconteça o mesmo. Ainda a camioneta não saiu da gare e já eu hei-de estar a dormir profundamente. O senhor do guichet disse que a viagem até ao Montijo dura cerca de duas horas. Tanto tempo, disse-lhe eu toda contente, já a imaginar-me com a cabeça encostada ao vidro a dormir durante duas horas. É que a camioneta dá a volta por Alcochete, por causa do centro comercial, e vai parando pelo caminho, explicou o senhor do guichet. Duas horas é muito tempo. Dá para descansar o corpo e a cabeça. Hei-de dormir descansadinha. Sem ouvir os ruídos do prédio e a respiração pesada do meu Alcibíades. É engraçado, mas só depois de morto é que lhe comecei a sentir a respiração pesada. Quando era vivo dormia que nem um anjinho. Não tugia nem mugia. Quietinho e silencioso como uma estátua de pedra. Depois de morto é que começou a ressonar tão alto que não me deixa dormir. E dá umas bufas mal cheirosos que empestam o quarto todo. Diz que é próprio dos mortos, dar assim bufas com cheiro de enxofre. Coitadito do meu Alcibíades! Quem o viu e quem o vê. Quando estava vivo dormia como se estivesse morto, nem o notava na cama, agora que está morto dorme como se estivesse ainda vivo! Sempre foi um homem muito complicado. Como o nome que tinha. Alcibíades. Agora vou fechar os olhos. Depois vou adormecer. Depois vou esperar que alguém me toque no ombro, me diga, olhe, senhora, psssst, acorde, chegámos ao terminal

2009/02/18

Il Faut Savoir

Compaixão (2)

Atrás, apoiada no ombro do homem, segue a mulher. Deixa-se por ele guiar. Como se também ela fosse uma passageira. Leva a bengala pendurada no braço e deixa-a arrastar pelo chão. Foi o barulho da sua bengala que me fez levantar os olhos do profeta que vive nos milheirais do sul. A mulher é feia. Usa o cabelo branco num alvoroço como se fosse uma medusa medonha e tem um buço escuro por cima de uma boca desdentada. Ao contrário do homem não esconde os olhos. Melhor seria se o fizesse. Os olhos dela assustam. São duas covas. As pálpebras parecem ter sido cozidas com linha preta por alguém demasiado egoísta, que lhe quis roubar o mundo, sobretudo, a luz.

Percebe-se, por alguns detalhes, que a mulher cuida do que veste. Busca uma certa harmonia, um certo atrevimento. Procura não ser diferente das mulheres com quem se cruza. Usa uma saia de veludo preto, justa e curta. Pela racha, que é grande, vê-se um pedaço da combinação branca. Calça uns botins de salto, já descambados, que acentuam o seu mancar. Caminha com as botinhas descambadas que lhe apertam os pés. É-lhe doloroso caminhar. Tola, a cega que quer ser igual às outras, é o que penso. Tola e ordinária. Tenho a certeza de que se a cega, de repente, pudesse abrir os olhos cozidos e olhar em volta se deslumbraria, em primeiro lugar, com o estilo porno star de algumas mulheres da plataforma: unhas quadrangulares de gel, calças enfiadas em botas de montar, extensões capilares, maquilhagem vistosa, a ondulação bamboleante dos rabos e mamas acentuada pela roupa demasiado justa. Só, depois, repararia no azul do céu e no verde das árvores da avenida. A cega também segura com a mão um cigarro que não fuma.

Mais do que o homem, é ela que prende o olhar de quem espera na plataforma. O doloroso mancar, o chiar da bengala, os olhos cozidos a linha preta, a combinação encardida espreitando naquela greta medonha, a sujidade encoberta, o cigarro ardendo nos dedos, tudo a torna repelente. Causa nojo e não piedade. O que incomoda e se estranha. Estamos habituados a dedicar aos cegos, como aos desgraçadinhos em geral, os pernetas, os manetas, os tolinhos, os imbecis, apenas a nossa compaixão. Dizemos “coitadinhos” e sentimos alívio.

Compaixão (1)

Ouve-se um chiar que vem de longe. Levanto os olhos dos milheirais do sul, onde vivem profetas, vendedores de tubagem de plástico, meninos selvagens. Varro com um olhar lento a plataforma. Há raparigas de calças de cintura descaída que esperam, em grupo, os comboios suburbanos. Voltam aos bairros de papelão onde o bafio das casas se disfarça com pauzinhos de incenso comprados nas lojas chinesas. Dois homens conversam animadamente sobre o jogo de futebol de ontem. Os pombos cor de chumbo trazem as penas sujas da fuligem da cidade. Ao fundo, junto ao terminal poente, um casal de cegos caminha. Conheço-os de outros dias, de outras esperas. São eles que trazem consigo o chiar.

O homem usa óculos escuros para esconder o negrume dos olhos. Veste um pulôver velho, demasiado coçado e sujo. Carrega aos ombros uma mochila que parece rebentar. Não sei o que o cego leva dentro da mochila. Alguma comida, pacotes de bolachas e iogurtes líquidos, agasalhos para quando a noite chegar. A mão livre segura a beata de um cigarro que nunca leva à boca. Caminha com segurança, desbravando o caminho da plataforma. A bengala é manuseada com perícia e movimenta-se sempre na mesma cadência. Vai de lá para cá. De cá para lá. Por vezes, bate num objecto, quase sempre são os bancos da estação, e o cego é obrigado a dar um passo pequenino para a direita. Afasta-se apenas o suficiente para se desviar do obstáculo. Passa rente aos bancos, tão perto, que espero a qualquer momento uma queda, um tropeção. A proximidade com que os cegos passam incomoda os passageiros que aguardam sentados. Encolhem os pés para baixo dos bancos a fim de lhes dar passagem. Mal podem voltam a esticar as pernas. Sentem-se aliviados com a eficácia dos seus corpos: pernas que andam, bocas que falam, ouvidos que ouvem, braços que mexem, olhos que olham.

2009/02/16

Maria Adosinda

Só ao domingo o filho parecia despertar daquele torpor que desde sempre lhe tomava conta dos dias. Sempre que o Benfica jogava o rapaz procurava um cachecol que Maria Adosinda lhe tricotara há muitos anos, era ainda pequenino, e sentava-se em frente ao televisor. O cachecol não era sequer vermelho. Era cor-de-laranja, tricotado com agulhas grossas, o ponto laço e irregular. Ainda assim, na sua tolice, o filho tomava o cachecol por vermelho e enrolava-o à volta dos pulsos ao jeito dos adeptos mais novos que via nas bancadas do estádio. Quando o jogo não dava na televisão, puxava uma cadeira para perto do rádio da cozinha e, muito direito, escutava o relato. Sempre que o Benfica marcava um golo, gritava de alegria. Dizia goloooooooooo, assim mesmo, prolongado a palavra durante vários segundos. Às vezes, a alegria era tanta que o rapaz se levantava e abraçava a mãe. Dava-lhe beijos babosos que a deixavam secretamente feliz. Para lá com isso, Ricardo Jorge, e aproveitava o intervalo para lhe limpar a boca com a fralda avental.

2009/02/14

Toilet

Let’s start a publishing house
to hell with small literature
we want something redblooded
lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene
but really clean

get what I mean
let’s not spoil it
let’s make it serious
something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet
graced with guts and gutted
with grace

(e. e. cummings, 1935)

2009/02/12

Embalar


2009/02/11

Confissão

Não percebo a ponta de um corno dos artigos que o Rogério Casanova escreve na Ler. Triste sina, esta a de gostar de ler sem cuidar das teorias, enquadramentos, movimentos e correntes. Como eu gostava de perceber as graçolas, as subtis facécias que o dito derrama nos seus textos.

Ponto G

Dei mais duas voltas ao quarteirão para ouvir o resto da entrevista. Falavam sobre a elevação do ponto G. Um entrevistador atrapalhado, soluçando perguntas abruptas, procurava saber junto de um médico francês os procedimentos da pequena intervenção que procura salvar as mulheres do embaraço da algidez. Injecta-se, ao que parece, um ácido qualquer na zona do ponto G. O tal ponto incha, incha, incha, como a rã da fábula. Torna-se mais saliente e rugoso. Aumenta a sua sensibilidade. Proporciona-se assim à mulher mais prazer devido à pressão feita durante o coito. Foi o que o senhor doutor explicou. Na cabeça do entrevistador, desconfio, estava também a fábula de La Fontaine. Embaraçado, atordoado com a visão dessas orgásticas mulheres, que hão-de finalmente lançar guinchos sinceros de satisfação durante a penetração, perguntou várias vezes sobre a possibilidade de rebentamento do ponto G. Credo. Os homens são parvos que se fartam.

2009/02/06

Roda Viva - Chico Buarque

(ai, ai...)

Fanfarra

Também me acontece o contrário: imaginar uma voz para quem não a tem. Por exemplo, ao Luís Januário ponho-lhe a voz do Eduardo Barroso, o insuportável epicurista dos charutos e das feijoadas, o cirurgião que, com a sua voz de trombone, faz chocalhar os tímpanos de qualquer mortal. É escusado. Por mais que tente imaginá-lo com outra voz, uma coisa assim mais limpa, mais maviosa e cristalina, sai-lhe sempre da boca uma fanfarra, uma charanga cheia de cornetas e cornetões.

2009/02/05

Rãs e Sapos

Os dias estão cheios de acontecimentos importantes, daqueles que foram feitos para nos inquietar. São acontecimentos vaidosos que, à força, querem ser protagonistas únicos das notícias nas televisões, rádios, jornais e das conversas de café. Tenho os acontecimentos desta estirpe por aborrecidos. Toda a gente fala deles, dá a sua opinião, vaticina sentenças. Uma maçada. Repetem-se teorias, congeminam-se explicações, procuram-se análises lúcidas e certeiras. Há, por outro lado, acontecimentos, factos pequeninos, insignificantes que dão conta de mim, entranham-se cá dentro e fazem-me querer escrever sobre eles. Ultimamente não me saí da cabeça a fontanela do meu filho mais novo. Um dia, pela manhã, quando o fui espreitar ao berço, reparei que a fontanela pulsava. Parecia que era ali, e não mais abaixo, que o seu coração se encontrava couraçado. Afligi-me. Imaginei uma rã miniatura saltitando, histérica, no crânio do meu benzinho, alimentando-se dos seus sonhos, atrapalhando-lhe as ligações neurológicas, destruindo a estatística das sinapses. Desde então procuro o bicho que vive dentro do meu filho. Não mais apareceu. Há-de estar aninhada num canto qualquer, tremelicando as patinhas. Também o desajuste que existe entre o rosto e a voz do Carlos Vaz Marques me tem apoquentado. Durante anos, conheci apenas a voz do Carlos Vaz Marques. Vinha pelo crepúsculo, na rádio, e trazia o mundo consigo. Escutava-o e imaginava-lhe a fisionomia. Um homem jovem, pensava eu, magro, seco, esguio, com um rosto miudinho de garoto irrequieto. Até que, há pouco tempo, coisa de um mês, descobri o rosto daquela voz. Tive um baque. Um desapontamento profundo. Pareceu-me, e não quero ser injusta, um sapo. Esfreguei os olhos. O espanto foi tamanho que não mais me largou. Até imaginei uma história, com um final trágico, sobre o assunto. Esta coisa de só conhecermos uma parte de alguém tem muito que se lhe diga.

2009/02/04

Pietro


La Bella Italia

Um dia após três jovens italianos terem pegado fogo a um imigrante indiano que dormitava numa estação ferroviária perto de Roma - por puro divertimento, explicaram os rapazes às autoridades - o ministro do interior italiano, veio dizer que é preciso ser “mau” com os imigrantes ilegais. Mais do que a barbárie dos jovens italianos (a juventude de hoje é assim, move-se pelos arrabaldes das cidades, em manadas, sem eira, nem beira, sem valores ou princípios, passeando pitbules e rotvaileres, achincalhando os miseráveis e proscritos) espanta a falta de sentido de oportunidade do ministro. É que, por estes dias, trabalhadores italianos, legais, são expulsos por hooligans ingleses que reclamam para si os empregos no sector petrolífero da Grã-Bretanha. Não fora o assunto tão série e triste e não deixaria de ser irónico.

2009/02/01

La grande Jatte

Corro na margem de cá. Imagino na margem de lá, entre flamingos, pernas-longas, cegonhas, rãs, enguias, laibeques, fanecas e garças, a floresta de betão de que todos falam. Embelezada com lagos de ladrilhos azuis e caramanchões frescos, há-de ser um sítio limpo, ordenado, aprazível. As famílias passeiam a molenga dos domingos em lojas que vendem desperdícios e piquenicam hambúrgueres, pitas shoarma, pizas de carbonara e bocadinhos de sushi e sashimi. Ficam a arrotar o resto da tarde as minúcias da nova cozinha internacional. Voltam à cidade no final do dia. Vêm satisfeitos. Atravessam a ponte nos seus monovolumes de cor antracite que pagam com créditos pessoais