2009/07/03

Judite


2009/07/02

Benfica

O Renato Manuel gosta mais do Benfica do que gosta de mim. Sobre isso não tenho quaisquer dúvidas. Apesar de negar, eu sei que um golo marcado pelo Simão ou um bom passe do Petit lhe causam sensações mais intensas do que os orgasmos que tem quando está comigo na cama. O amor dele pelo Benfica é tão grande que o impede de pisar qualquer outro estádio que não seja o da Luz. O Benfica pode ter um jogo decisivo contra o Sporting, em Alvalade, que ele, fidelíssimo à Luz, se recusa a pisar o estádio dos leões. É faccioso até ao tutano dos ossos. Na perspectiva dele, o Benfica é a única equipa que é intencionalmente roubada, prejudicada em todos os jogos do campeonato. É como se houvesse uma espécie de complot nacional contra o Benfica. Até na playstation o Benfica é roubado. Cada vez que o oiço falar das arbitragens penso em teorias da conspiração. O ódio dele pelo Porto é quase tão grande como o amor que tem pelo Benfica. Detesta, de um modo visceral, o Pinto da Costa. Compreendo-o neste ponto: o Pinto da Costa é um monstro provinciano e detestável, só comparável ao outro, de nome Jardim, que existe na ilha da Madeira.

Ora, eu nunca liguei muito à bola, mas, em miúda, era do Sporting. O meu pai era do Sporting, o meu irmão era do Sporting, praticava boxe em Alvalade, eu própria cheguei a andar na ginástica rítmica. No entanto, depois de começar a namorar com o Renato Manuel, acabei por mudar para o Benfica. Às tantas, dei conta que, apesar de não ligar nenhuma à bola, conhecia toda a equipa de Benfica: o Paulo Madeira, o Kennedy, o Helder, o Canigia e muitos outros. Achei que, assim como assim, já que conhecia alguma coisa sobre as gloriosas águias de fogo, era melhor ser do Benfica. Sempre podíamos falar sobre o assunto. Há outras coisas que me fizeram mudar de clube. O Benfica é vermelho e quem me conhece sabe bem que se eu fosse uma cor só poderia ser o vermelho. O Renato Manuel também me explicou que o Benfica é o clube do povo e que o Sporting é o clube dos betinhos. Foi tiro e queda. Eu sou pelo povo. Sempre fui. Se há coisa que eu detesto são betinhos. Por isso, como vêem, não tive alternativa. Há pessoas que me gozam e dizem, meio a brincar meio a falar a sério, que não sou íntegra e tal e coisa. Até já me disseram que se pode mudar de partido, mas de clube nunca. Discordo. Primeiro, porque me estou a borrifar para o futebol. Segundo, porque acho que, na vida, podemos sempre mudar. De clube, de partido, de marido, de mulher, de estilo de vida, de opinião, de religião, de gostos, de amigos, de cidade, de país, de forma de vestir, de convicções, de corte de cabelo, de feições, de estilo. Tudo. A mudança não nos torna incoerentes ou menos íntegros. Significa apenas que reflectimos e interagimos com o mundo.

(Texto antigo, escrito no primeiro blogue, que recordo a propósito das eleições de amanhã. O Benfica, desde então, tornou-se num clube tristemente patético e moribundo. A gente apercebe-se dos últimos estertores quando vê como os benfiquistas rejubilam com a vitória no campeonato de futsal. Não tarda nada estão a celebrar os campeonatos de matraquilhos e de ping-pong.)

2009/07/01

L' appartement - Vincent Delerm

Lisboa

E, entretanto, não obstante termos um bom presidente, ainda por cima de ascendência goesa, facto que não é despiciendo, corremos o risco de ver na Câmara de Lisboa um basbaque que já lá esteve e tratou o município como o seu reino de brincar ao faz de conta. O Pedro Santana Lopes, com as devidas distâncias, que são muitas, é o nosso Sílvio Berlusconi. Apesar da mediocridade já demonstrada, há sempre quem lhes admire a beleza alvar dos traços, a virilidade própria dos fodilhões serôdios, a oratória brilhante, a demagogia dos discursos, a megalomania dos projectos, o amor aos pobrezinhos e às velhinhas, a saudade pelos tempos de antanho onde tudo era decente e genuíno. Não havia cá pretos, castanhos e chineses e os teatros de revista estavam cheios de coristas anafadinhas e obedientes. Outros tempos. Comia-se um bom bife na Portugália e podia passear-se na Baixa sem preocupações. A verdade é que o nosso menino guerreiro segue, com sucesso, as pegadas do il cavalieri, imitando-lhe o charme e o populismo. São tantas as qualidades e os atributos, que os eleitores, cansados de políticos cinzentos e sisudos, votam neles. A democracia tem destas coisas. Há um certo apreço pelo que é grotesco e imundo. A falta de vergonha compensa quase sempre.

Cidades

Isto não tem que se fazer forçosamente com o TGV, ou apenas com ele. As cidades, se forem interessantes, atrairão gente. Por isso, repito, a prioridade deveria ir para a recuperação urbana, para os transportes públicos de proximidade e para as indústrias criativas e culturais.”, foi o que o Rui Tavares escreveu hoje, no Público, a propósito de qualquer coisa. Não sei o que são ao certo as indústrias criativas e culturais. Tenho uma vaga ideia. A sugestão de se apostar (com os dinheiros públicos, claro está!) nas tais indústrias culturais e criativas é tão tenebrosa que prefiro não a comentar. Respiro, porém, de alívio por, no momento de desenhar a cruzinha, o meu lado direito ter sovado com fúria o meu lado esquerdo. Deixou-o, ao meu lado esquerdo, de rastos, tortinho, cambaleando de lá para cá, cuspindo perdigotos, dentes e gotas escuras de sangue. Impediu-me, assim, de votar no BE nas últimas eleições e contribuir para a eleição do Rui Tavares. Só tenho a agradecer-lhe. Não o faço, porém. O meu lado direito é um bocado arrogante. Não se lhe pode dar grandes confianças.

2009/06/30

Mazurca Fogo


Kindle

Comprei um telemóvel quando saí de casa. Por necessidade. Quando voltei, passados três meses, arrumei-o numa gaveta. Uso-o com parcimónia. Em certas e determinadas ocasiões. Tenho uma agenda de papel para guardar números de telefone. Não sei ler mensagens de voz. Tenho uma máquina fotográfica digital. Tiro muitas fotografias. Só preciso de carregar num botão. Não sei tirá-las de lá. Tenho um ipod e não sei carregá-lo com músicas novas. Há dois anos que corro a ouvir o David Byrne e as tocatas de Bach. Não sei programar electrodomésticos, televisões, leitores de dvds. Não leio blogues. Atravesso os olhos, de viés, pelos dois ou três do costume. Imprimo sempre o que quero ler ou preciso ler. Receitas de bolos, acórdãos, leis, recensões simples de alguns livros que leio. Não consulto sites de jornais, rádios ou televisões. Tenho um computador portátil que me ofereceram pelos anos. Abri a caixa por insistência dos meus filhos passados muitos meses. Está colocado em cima da mesa da sala de jantar. Imóvel. Sou incapaz de o levar para a cama, para o sofá, para uma mesa de esplanada. Tenho um e-mail associado a este blogue e não respondo a quem tem a amabilidade de me escrever. Por acanhamento, mas também por estranheza. Nunca entrei, nunca entrarei, numa rede social, no hi-5, no Twiter, no Facebook. Que se possa gostar de ler livros num suporte que não se sente, não se cheira, não se tacteia, que não serve para guardar fotografias velhas, que não se enche de manchas de café, de lágrimas e migalhas, que é nada, é coisa que me transcende.

Mimetismo

Descia as escadas de serviço quando uma sombra se atravessou à minha frente. Uma mancha de tamanho incerto, veloz, correu pelos degraus abaixo, movendo-se com perícia, sem estranhar o espaço, sem temer o confronto. Ouvi uns passitos leves e um chiar que parecia um riso. Fiquei paralisada. À escuta. Até que os ruídos pequenos cessaram. Percebi que a mancha me esperava mais abaixo. Imaginei-a monstruosa, gorda, uma cauda enorme, uns dentes a arreganhar-me o descaramento. Senti palpitações, falta de ar, o medo amarinhando pelo corpo acima, como se fosse uma osga, um lagarto, uma centopeia. Saí das entranhas do edifício. Abri a porta de par em par. Com um certo dramatismo. Entrei no átrio onde duas rapariguinhas das companhias de seguros aguardavam o próximo elevador. Traziam a roupa muito justa ao corpo, unhas de gel pintadas com duas cores, sandálias de cunha baratas que hão-de soltar um cheiro nauseabundo ao final do dia. Uma delas, percebendo o meu desdém, arreganhou-me uma dentola medonha. Pareceu-me que chiava. Olhei para a outra. Vi-lhe uma cauda agrilhoada nas cuecas fio dental que se mostravam através da transparência de umas calças brancas. Abafei o grito que me saiu das goelas. Sustive um vómito que me veio à boca. Voltei a entrar nas escadas de serviço.

2009/06/29

Morte Feliz

Morri, paz à minha alma, escreveu a mulher.

2009/06/25

Tia

Não tenho o privilégio da raça pura. Sou mestiça. Certa vez, contei à tia Amália a confusão que a indefinição dos meus traços provoca. Já me tomaram por brasileira, cubana, uruguaia, argentina, cabo-verdiana, moçambicana, marroquina, paquistanesa, indiana e até espanhola. Uma mixórdia de origens e lugares. A minha tia abanou a cabeça, rejeitando tais hipóteses. No crepúsculo vermelho, e fresco, da casa de Pondá, assegurou que pareço parsi. Perante a minha surpresa, buscou concordância na Joaninha, sua empregada de longa data que, nesse instante, entrava com um tabuleiro cheio de pastelinhos recheados de baji de batata. Habituada, porventura, a nunca contrariar a minha tia, a pobre mulher anuiu sem sequer me olhar. A minha tia fez-me uma festa no rosto que me soube às coisas boas que existem no mundo. Olhei-lhe para dentro dos olhos e vi, nesse preciso instante, a menina que o meu pai levava todos os dias para a escola, numa bicicleta que cruzava veredas de lama e nuvens fofas de insectos. Explicou-me que os parsis, mais claros, são indianos originários da antiga Pérsia, actual Irão, um povo influente, que vive sobretudo nos estados do Maharastra e Gujarat. O tom da minha pele, o recorte dos olhos, a ondulação do cabelo, continuou a minha tia, são características dos parsi. Beberricou, de seguida, um sumo de uva muito escuro e ofereceu-me uns doces enjoativos de grão. Engoli um quadrado esboroado que sabia a flores e especiarias. Engoli também as origens imaginárias que a minha tia, nesse dia, me traçou. Ontem, no segundo canal, vi um documentário sobre Teerão. Dei por mim a achar-me parecida com as iranianas, a imaginar como ficaria linda com um lenço a cobrir-me os cabelos, eu que sempre me insurgi contra o uso do véu. Pergunto: quão tola se pode ser? Muito. Dezembro de 2007
(Reciclo. Por preguiça e cansaço.)

2009/06/23

Rosa (epílogo)

Rosa, se soubesses o cansaço que trago no corpo não me olhavas assim, não me chamavas senhor doutor, não me perguntavas pelo dia no hospital, não trazias os cafés queimados que me deixam gosto de cinza na boca. Sobretudo, Rosa, evitavas preencher a agenda até às 9 da noite. Varrias a mundana chatice que roça o traseiro pelas paredes dos meus dias. Livravas-me do miúdo das 8 horas, aquele quezilento, cheio de mimo, que veio cá há pouco tempo por causa de um furúnculo no braço. O que o miúdo gritou. Lembras-te? A mãe, uma baixinha com focinho de porco, a estupidez espalhada pelo rosto suíno, soluçava em voz baixa, como se o filho, um tirano de sete anos, estivesse às portas da morte. Podias inventar-me uma doença, Rosa, qualquer coisa, talvez uma hiperplasia prostática. Tem um nome pomposo, eu sei, mas é um padecimento ligeiro, adequado aos homens da minha idade. O senhor doutor encontra-se doente, havias de explicar com cortesia profissional aos pais, não pode dar consultas nas próximas três semanas. E distribuías os miúdos pelos colegas do consultório. O miúdo do furúnculo podia ficar com o médico novo. Ainda deve ter paciência para aturar os rapazinhos que antecipam para a meninice a boçalidade macha da idade adulta. Se gostasses de mim, Rosa, pegavas-me na mão, levavas-me para tua casa, que cheira à alfazema dos pout-pourris que espalhas pelos móveis de pinho e pelas bancadas de moleano, abrias a cama, corrias os estores, ligavas o rádio naquela estação que passa tangos e canções antigas. Depois, deitavas-te ao meu lado e adormecíamos. Outubro 2007

(Pensei no Luís quando escrevi este texto.)

2009/06/17

Mayra Andrade - Tunuca

Necrofilia

Um rapaz beijava uma rapariga, ontem, pela tarde, na estação do Rossio. Um beijo longo e egoísta. A rapariga, muito alta, de ancas largas, vestida de preto, deixava-se beijar. Tinha os olhos fechados, os braços caídos, a boca aberta para que a língua do rapaz entrasse e a habitasse. Parecia feita de basalto. O corpo rijo, imóvel, abandonado. Uma morta de boca aberta, ausente, pensando no último fim-de-semana, de sol e mar, ou na próxima frequência de psicofisiologia e genética (tinha ar de caloira de psicologia). O rapaz, pelo contrário, empenhava-se naquele beijo. Agarrava a rapariga com ambas as mãos. Parecia temer que lhe fugisse. Procurava encaixar-se no seu corpo de pedra. Queria encontrar uma posição que fosse cómoda, adequada, confortável. Para, então, desfrutar os efeitos colaterais do beijo: o coração acelerado, os arrepios de prazer, a leve intumescência do pénis, a alforria dos desejos mais secretos, jamais declarados, a doce certeza do amor correspondido. Estiveram naquilo durante muito tempo. O rapaz beijando a rapariga. A rapariga deixando-se beijar. Quando o comboio chegou, a rapariga entrou. Cá fora, o rapaz acenou-lhe e lançou um olhar comovente, muito meloso e patético. A rapariga sorriu-lhe do outro lado do vidro e respirou de alívio.
(As mulheres são falsas e parvas. Os homens são só parvos. Acreditam em tudo. Nunca lhes passa pela cabeça o óbvio: são, quase sempre, incompetentes para amar.)

2009/06/16

Purgante

Cássia. Sempre tive um certo orgulho neste meu nome. Por o associar à Santa Rita de Cássia e também àquela actriz brasileira muito gira, a Cássia Kiss. Sucede que esta semana comprei um chá, cuja composição é cem por cento folhas de cassia angustifolia. Rejubilei. Um chá com o meu nome (cássia) e com o meu desequilibrado estado espírito (angustia + folia = angustifolia). Achei-me merecedora de tal homenagem. Estive vai não vai para bater palminhas no corredor das infusões e dos outros produtos dietéticos igualmente desinteressantes. Chegada a casa quis saber que propriedades teria aquele chá, já que o pacotinho, de forma lacónica, apenas dizia que consistia num bom complemento a uma alimentação saudável e à prática regular de desporto. Imaginei, juro que imaginei, a cassia angustifolia com propriedades maravilhosas, rejuvenescedoras do espírito e do corpo. Uma espécie de elixir da juventude. Qualquer coisa entre o ginseng e a cannabis. Qual quê! Bastou uma busca pelo google para descobrir que cassia angustifolia é nome de um pequenino arbusto da Índia, cujas folhas - imagine-se ! -, são, desde a antiguidade, utilizadas para preparar infusões para quem sofre de constipação intestinal ou cujo bolo fecal se encontra há vários dias empedernido. Ou seja, para falar claro, a tal cassia angustifolia apenas tem poderes laxativos. Descobrir-se, aos trinta e muitos, que se tem nome, não de santa, mas de purgante é coisa odiosa.
(chamo-me Cássia e não Cássio.)

2009/06/15

Mousavi (2)

Ouvindo os comentadores, lendo os jornais, vendo as imagens dessas jovens iranianas envoltas em lenços verdes, exercendo o seu direito de voto, reclamando a sua liberdade, é quase impossível não sentirmos também nós uma simpatia profunda por Mousavi. Porém, tenho dúvidas que seja merecedor de tamanho aplauso. É que ninguém fala dos telhados de vidro do novo messias da liberdade. E, surpreendentemente, parece que tem muitos. Dois anos depois da revolução, foi nomeado primeiro-ministro por Khomeini. Foi responsável, como presidente do Conselho da Revolução Cultural, pelo fecho de universidades, por uma revisão constitucional que permitiu a concentração de todos os poderes no líder supremo. Na época, conduziu uma política económica estatizante com declarada inspiração soviética. Foi responsável pela perseguição e morte de muitos presos políticos. Consta que apoiou a fatwa de Khomeini contra Salman Rushdie. No ano de 1988, quando ainda era primeiro-ministro, foram ordenadas execuções maciças de milhares de opositores do regime. Foram enterrados em valas comuns e convenientemente esquecidos pelo Irão e pela comunidade internacional. Não se sabe o número exacto de quantos iranianos morreram no Verão de 1988. A Amnistia Internacional aponta entre 4000 e 5000 mortos. Há quem assegure que nesse Verão sangrento 30 000 iranianos morreram.

Mousavi não é um democrata. Ao contrário do que parece. É certo que, nos últimos tempos, mudou de lado. Hoje defende uma economia de mercado e mais liberdade. Porém, bem vistas as coisas, só pode ser considerado moderado e reformista quando comparado com o ultraconservador Ahmadinejad. O que faz toda a diferença. Eu também posso ser considerada um torpedo de mulher se me compararem com a Susan Boyle. Isso não faz de mim propriamente uma beleza. O mesmo se passa com Mousavi. A sua moderação, o seu alardeado reformismo, têm muito que se lhe diga. Aliás, por alguma razão, a sua candidatura foi uma das aprovadas pelo Conselho dos Guardiães. A verdade é que Mousavi traz as mãos muito manchadas de sangue. Estranho é que ninguém fale disso.

Mousavi (1)

Chamam-lhe reformista. E moderado. Durante a campanha fez-se acompanhar pela mulher, uma politóloga de olhos carregados e lenço de ramagens na cabeça. Reivindicou o direito das mulheres. Preocupou-se com a condição feminina. Reclamou o fim da humilhante discriminação a que são sujeitas. Apontou o dedo aos péssimos resultados económicos alcançados pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad. Afirmou querer trabalhar na construção de um clima de confiança internacional. Explicou a natureza pacífica das ambições nucleares iranianas. Também defendeu a imprensa livre. Com brandura, porém, já que nunca prometeu liberdade para os prisioneiros políticos. As mulheres, os estudantes, os habitantes das grandes cidades apoiaram-no abertamente, reclamando a reforma do regime teocrático dos aiatolás. Depois das eleições, apontou irregularidades eleitorais, reclamou a vitória com 65% dos votos. É arquitecto e pintor. O que tem a sua importância. Há sempre quem se deixe fascinar pelos artistas, poetas e intelectuais. Mesmo quando são uns estupores. Tem também boa figura, é bem apessoado, faz lembrar o Siza Vieira. Fisicamente supera, em muito, o Ahmadinejad, pequenote, quezilento, com cara de mau. São, pois, muitos os motivos que tornam Hossein Mousavi numa espécie de super-herói, merecedor da admiração de todos por ser o rosto visível da oposição no Irão. Há quem compare as represálias que entretanto ocorrem nas ruas de Teerão, com espancamentos e prisões, aos massacres que ocorreram na praça de Tianamen em 1989. Mousavi tem a imprensa ocidental, os comentadores, o mundo livre e esclarecido do seu lado. Ainda hoje, o sempre atento Rui Tavares descreve-o assim “Mousavi, um homem educado que já foi primeiro-ministro e se dedica à pintura e arquitectura, representava a Pérsia que deseja se respeitada e detesta ser conhecida pelos piores motivos”. Palavras para quê? Melhor apresentação é impossível.

2009/06/13

Leite Derramado


Cipralex (3)

Meti-me num táxi e rumei à primeira farmácia de serviço que encontrei. O mundo continuava a girar à minha volta, tremelicando por todos os lados, bruxuleando como a luz de um pedaço de vela. E as formigas malditas, essas não me largavam os lábios. Uma sensação, grande, de desconforto e insegurança tomava pois conta de mim. Para minha irritação, quando entrei tinha duas mulheres à minha frente. Sentei-me. A primeira pediu trifene. Bufei. Resfoleguei como os búfalos que conheceram o meu pai pequenino, lá longe, nos prados de Goa. Uma dor menstrual tem lá comparação com a ressaca provocada pela falta prolongada de um anti-depressivo? Já tive dores menstruais. Até já tive filhos sem anestesia. Não custa nada. É uma dor física que o corpo aguenta. A segunda mulher pediu palmilhas de silicone anti derrapantes para os sapatos. Aí não aguentei e reclamei que aquilo era uma farmácia de serviço, não uma para-farmácia. A farmacêutica, do outro lado do balcão, insolente, disse-me para esperar. Tive saudades, tantas, da empregada do senhor doutor, a tal Cristina, tão simpática, tão subserviente, tão senhora doutora para ali, senhora doutora para acolá. Encolhi-me. A empregada demorou imenso tempo a mostrar palmilhas de silicone à velha que estava à minha frente. Eu a morrer devagarinho. Por fim, lá se dignou a atender-me. Quando viu a minha receita, olhou-me em silêncio. Eu olhei-a de volta, prestes a desfalecer. Mal saí da farmácia meti um cipralex à boca. Passados poucos minutos o mundo parou de tremer.
(Setembro 2006)

Cipralex (2)

Estava eu a observar as ondulações da avenida quando entrou um homem que conheço vagamente. Trabalha num ministério qualquer. É advogado. Ou jurista. Ou coisa que o valha. Ele bem tentou esquivar-se, mas não teve como me fugir. Deu-me dois beijinhos e, claro está, passados dois ou três minutos, estava a justificar a sua presença na sala de espera de um psiquiatra. Eu ouvi e nada lhe disse. Bico calado. Era o que mais faltava explicar-lhe a minha triste depressão, a minha confrangedora frigidez, as minhas ideias suicidas, as minhas inseguranças e efabulações flatulentas. Deixei-o falar. Até porque o dito colega é uma daquelas pessoas, narcísicas, que gosta de se ouvir a si próprio. Só me aborreci quando começou a falar de trabalho e, em tom displicente, criticou determinadas orientações tomadas pela direcção do instituto público onde trabalho. Tenho a impressão de que gritei porque uma mulher gorda de olhar bovino deixou de fixar o ecran de televisão, onde a Floribella sorria imbecilmente, e me olhou de viés como quem diz “coitadita!”. Por fim, a empregada chamada Cristina, solícita, desfazendo-se em desculpas pelo atraso, chamou-me. Salvou-me daquele inferno. Entrei na consulta. Depois de meia dúzia de insignificâncias, muitos sorrisos, frases curtas, sai de lá com a abençoada receita