2009/07/16

Última Página

Na última página do jornal, em jeito de anúncio ao suplemento de sexta-feira, uns olhos muito azuis e uma pergunta absurda: o que é que o Chico tem? Tem tudo, ora essa. Basta ler o seu último livro para perceber que não lhe falta nada.

Guardiães

Só há uma coisa mais deprimente do que publicar em livro as crónicas que se escrevem em revistas e jornais. É publicar em livro os textos que se escrevem em blogues. Os livros, entre outras coisas, passaram a ser guardiães da filosofia de pacotilha, da merdologia em geral, da análise gajológica do mundo, sapatos e namorados, namorados e sapatos, do escalpe frenético e detalhado de cada notícia, da opinião efémera, perecível, descartável. Tudo devidamente impresso em folhas de boa qualidade, com uma capa catita e uma cinta com uma frase de efeito. As pessoas que compram colectâneas de crónicas e afins fazem-no porque, em regra, apreciam os autores. Porém, quando chegam a casa, arrumam o livro num lugar esconso da estante e nunca mais lhe tocam. Ninguém, mas mesmo ninguém, lê colectâneas de crónicas e de posts. Felizmente. As crónicas devem ler-se nos jornais. Os posts nos blogues. Os livros deviam servir para outra coisa qualquer.

2009/07/15

Questões Paralelas

Ana

Embirro solenemente com a mãe adolescente que reclama o seu filho Martim. É um sentimento que, de início, não fui capaz de perceber. Desconfio que a toleraria se ela fosse uma tolinha, incapaz de um discurso articulado e racional, uma pobre coitada cheia de lágrimas gordas nos olhos inchados, as mãos no peito, um português de frases mal amanhadas saindo-lhe da boca. Sou muito boa a derramar comiseração pelos pobres de espírito. O que nela me enerva, percebo agora, é a desenvoltura, a determinação, a lucidez e a coragem. Custa-me olhar para aquela miúda, que vem de um passado dorido, e reconhecer que há nela a força necessária para tomar as rédeas da sua vida e ser feliz.

2009/07/10

Ombro

Toquei no ombro do professor de ginástica acrobática da minha filha. De raspão, ao cumprimentá-lo, não sei como foi, os meus olhos estavam postos na espargata lateral de uma menina muito morena e, por descuido talvez, o meu corpo aproximou-se mais do que o esperado, a minha mão pousou inadvertidamente no seu ombro. Notei-lhe a rigidez do corpo e estremeci. Nunca tal me tinha acontecido. Parecia feito de mármore, mas de um mármore vivo, o corpo delineado a escopo e cinzel, burilado por um escultor renascentista qualquer, nas proporções exactas, sem mácula, ou falhas, um autêntico discobulus moderno. Tem vinte anos, é simpático e estuda medicina. Há dias, encontrei-o, pelo crepúsculo, numa esplanada perto de casa. O sol morria sobre a linha do rio, que ali é tão próximo, e ele lia um romance do Murakami. Achei a leitura apropriada à sua idade. Cumprimentei-o e lembrei-me do seu ombro. Podia ser meu filho. Fiz as contas e podia. Trinta e sete menos vinte dá dezassete. Aos dezassete, o meu corpo estava, há muito, maduro, capaz de inchar como um balão de feira. Cada vez que o vejo tento esquecer o seu ombro e convencer-me de que é o filho que gostaria de ter. Ainda bem que o Renato Manuel só lê blogues sobre o Benfica.

2009/07/08

Haiti

Home

Fui ver Home, o filme da Ursula Meier. Alguém, nos esconsos labirintos da entidade pública responsável pela legendagem dos títulos dos filmes estrangeiros, manteve o Home original, acrescentando-lhe Lar Doce Lar. Ficou Home, Lar Doce Lar. Um mimo. Parece o título de uma comédia americana, daquelas que passam na televisão, repetidamente, nas tardes de domingo. Não é. É um filme sufocante e doloroso. Mostra-nos como as famílias são seres frágeis e como uma mãe pode ser, ao mesmo tempo, o seu pilar e o seu carrasco. A Isabelle Hupert, na sua magreza anóretica, com as suas saias floridas e os seus botins de bruxa, é, como sempre, magnifica. Os campos dourados fazem lembrar o Alentejo da minha infância. Entre os girassóis secos vivem gafanhotos pequeninos e pássaros pardacentos. Há melancias, melões e abóboras plantados nos terrenos mais arenosos. O sol queima. Home é um filme, mas também é um quadro, onde, como alguém já disse, são evidentes as influências de Edward Hooper e Jaques Tati. É um filme imperdível.

Abraça-me

O Cláudio Ramos escreveu um romance. Chama-se "Abraça-me" e tem honras de destaque nas vitrines das livrarias Bertrand. Gosto do Cláudio Ramos porque ele me faz lembrar o meu sobrinho Eduardo que é muito católico e maricas. Estuda comunicação social, nunca leu um livro na vida e acha que a vida se resume às telenovelas da tvi e às parangonas das revistas cor-de-rosa. Não sei se o romance do Cláudio Ramos é bom ou mau, mas tenho a certeza de que o Cláudio Ramos faria uma capa da Playboy mais interessante e apelativa do que a tal Rita Mendes.

Triste singularidade de uma rapariga loira

A revista Playboy traz este mês na capa uma rapariga loira, muito desenxabida, com um ar tristonho e encolhido. A rapariga loira olha-nos sem sedução ou provocação. Observa-nos de frente e, com um gesto forçado, tapa as maminhas com o braço. Levanta o outro braço a querer imitar, sem sucesso, a pose típica das pin-ups americanas. Usa uma maquilhagem discreta, o cabelo está penteado com volume, mas cai-lhe sem graça. Esboça um sorriso amarelo de quem não se sente bem naquela pele. A Playboy portuguesa, ao quarto número, demonstrou que não vale a ponta de um corno. Alguém devia explicar a quem lá manda que é suposto a gente olhar a capa da Playboy, pendurada nos quiosques e nos escaparates das tabacarias, e sentir uma vertigem pequenina de prazer, uma mornidão no corpo, o enrubescimento do rosto. A rapariga loira da capa deste mês (chama-se Rita Mendes) dá pena. Olho-a e fico com vontade de ir aprender a confeccionar pastéis de bacalhau com a Maria de Lurdes Modesto. Sempre é mais excitante. A Ana Malhoa, cuja capa do mês anterior foi tão criticada, pelo menos, tem uma aura assumidamente pornográfica, apela ao sexo óbvio, carnal, porcalhão, onde tudo se lambe e engole. A tal Rita, pobrezinha, não apela a nada.

2009/07/06

Lar


Coincidência Dominical

Domingo é um bom dia para se dançar o tango. Domingo é o dia do Senhor. Amém. À hora a que a aula começa, estará a minha sogra, do outro lado da cidade, a sair da missa. Quando ela estiver a sair do templo, muito consoladinha, regaladinha de papar tantas missas, de lacrimejar em frente do altar, tão devota à nossa senhora de fátima, que é feia, branca e seráfica, igualinha, no devaneio beato e na sabujice paramental, à titi do Raposão, estarei eu a entrar no Milonga Rubia para aprender a dançar o tango. Assim pensava Ângela Maria enquanto depilava as pernas com a máquina de barbear do marido. Não sabia explicar porquê mas agradava-lhe essa coincidência temporal entre a hora da saída da missa da sua sogra e a hora do início da aula de tango.

Cão Raivoso

O Partido Socialista, após o desaire nas eleições legislativas, resolveu proibir as candidaturas simultâneas às legislativas e autárquicas. Como explica, e bem, o Paulo Ferreira, no editorial do Público, é a decisão certa tomada pelas piores razões. O PSD aproveita para criticar a oportunidade da decisão. O partido parece um cão raivoso e esfaimado, já se avistam os dentes aguçados, cai-lhe um fio de baba, lambe os beiços, rebola de riso, convence-se de uma vitória que está longe de ser certa. Há muitos sociais-democratas que já sonham com um lugar de adjunto, assessor, chefe de gabinete. Mais valia ao PSD engolir os comentários acintosos. Portar-se com recato e ponderação. É que, se bem me lembro, a mais lamentável traição feita aos eleitores portuguesas veio das suas fileiras, foi levada a cabo por um social-democrata. Quando Durão Barroso se candidatou às legislativas de 2002 ninguém contava com a possibilidade de o dito vir a aceitar o convite para a presidência da Comissão Europeia. Quem nele votou acreditou no seu empenho pessoal, na sua vontade de mudar e de se distanciar do lamentável estado despesista que Guterres nos legou.

Que passado pouco tempo das eleições tenha trocado o seu país por um prestigiante cargo internacional, foi algo inesperado, nunca visto, digno de um país terceiro mundista. De repente, os portugueses, sobretudo os que nele votaram, viram-se confrontados com um primeiro-ministro que colocou, de forma descarada, os seus interesses pessoais à frente do interesse do país e que nos deixou entregues a quem não sabia sequer distinguir descentralização de desconcentração. O gesto de Durão Barroso foi a atitude política mais infame do Portugal democrático. Nunca ninguém desrespeitou tanto o voto dos portugueses como Durão Barroso. É, por isso, que me parece que, ao contrário do que se diz, as duplas candidaturas de Ana Gomes e de Elisa Ferreira são honestas. Pelo menos, os eleitores sabem com o que contam. Sabem, de antemão, que, caso sejam eleitas nas autárquicas, deixarão de cumprir o seu mandato europeu. É uma atitude mais transparente do que a de alguém que nunca explicou aos seus eleitores que estava ali de passagem, à espera de qualquer coisa melhor.

2009/07/03

Judite


2009/07/02

Benfica

O Renato Manuel gosta mais do Benfica do que gosta de mim. Sobre isso não tenho quaisquer dúvidas. Apesar de negar, eu sei que um golo marcado pelo Simão ou um bom passe do Petit lhe causam sensações mais intensas do que os orgasmos que tem quando está comigo na cama. O amor dele pelo Benfica é tão grande que o impede de pisar qualquer outro estádio que não seja o da Luz. O Benfica pode ter um jogo decisivo contra o Sporting, em Alvalade, que ele, fidelíssimo à Luz, se recusa a pisar o estádio dos leões. É faccioso até ao tutano dos ossos. Na perspectiva dele, o Benfica é a única equipa que é intencionalmente roubada, prejudicada em todos os jogos do campeonato. É como se houvesse uma espécie de complot nacional contra o Benfica. Até na playstation o Benfica é roubado. Cada vez que o oiço falar das arbitragens penso em teorias da conspiração. O ódio dele pelo Porto é quase tão grande como o amor que tem pelo Benfica. Detesta, de um modo visceral, o Pinto da Costa. Compreendo-o neste ponto: o Pinto da Costa é um monstro provinciano e detestável, só comparável ao outro, de nome Jardim, que existe na ilha da Madeira.

Ora, eu nunca liguei muito à bola, mas, em miúda, era do Sporting. O meu pai era do Sporting, o meu irmão era do Sporting, praticava boxe em Alvalade, eu própria cheguei a andar na ginástica rítmica. No entanto, depois de começar a namorar com o Renato Manuel, acabei por mudar para o Benfica. Às tantas, dei conta que, apesar de não ligar nenhuma à bola, conhecia toda a equipa de Benfica: o Paulo Madeira, o Kennedy, o Helder, o Canigia e muitos outros. Achei que, assim como assim, já que conhecia alguma coisa sobre as gloriosas águias de fogo, era melhor ser do Benfica. Sempre podíamos falar sobre o assunto. Há outras coisas que me fizeram mudar de clube. O Benfica é vermelho e quem me conhece sabe bem que se eu fosse uma cor só poderia ser o vermelho. O Renato Manuel também me explicou que o Benfica é o clube do povo e que o Sporting é o clube dos betinhos. Foi tiro e queda. Eu sou pelo povo. Sempre fui. Se há coisa que eu detesto são betinhos. Por isso, como vêem, não tive alternativa. Há pessoas que me gozam e dizem, meio a brincar meio a falar a sério, que não sou íntegra e tal e coisa. Até já me disseram que se pode mudar de partido, mas de clube nunca. Discordo. Primeiro, porque me estou a borrifar para o futebol. Segundo, porque acho que, na vida, podemos sempre mudar. De clube, de partido, de marido, de mulher, de estilo de vida, de opinião, de religião, de gostos, de amigos, de cidade, de país, de forma de vestir, de convicções, de corte de cabelo, de feições, de estilo. Tudo. A mudança não nos torna incoerentes ou menos íntegros. Significa apenas que reflectimos e interagimos com o mundo.

(Texto antigo, escrito no primeiro blogue, que recordo a propósito das eleições de amanhã. O Benfica, desde então, tornou-se num clube tristemente patético e moribundo. A gente apercebe-se dos últimos estertores quando vê como os benfiquistas rejubilam com a vitória no campeonato de futsal. Não tarda nada estão a celebrar os campeonatos de matraquilhos e de ping-pong.)

2009/07/01

L' appartement - Vincent Delerm

Lisboa

E, entretanto, não obstante termos um bom presidente, ainda por cima de ascendência goesa, facto que não é despiciendo, corremos o risco de ver na Câmara de Lisboa um basbaque que já lá esteve e tratou o município como o seu reino de brincar ao faz de conta. O Pedro Santana Lopes, com as devidas distâncias, que são muitas, é o nosso Sílvio Berlusconi. Apesar da mediocridade já demonstrada, há sempre quem lhes admire a beleza alvar dos traços, a virilidade própria dos fodilhões serôdios, a oratória brilhante, a demagogia dos discursos, a megalomania dos projectos, o amor aos pobrezinhos e às velhinhas, a saudade pelos tempos de antanho onde tudo era decente e genuíno. Não havia cá pretos, castanhos e chineses e os teatros de revista estavam cheios de coristas anafadinhas e obedientes. Outros tempos. Comia-se um bom bife na Portugália e podia passear-se na Baixa sem preocupações. A verdade é que o nosso menino guerreiro segue, com sucesso, as pegadas do il cavalieri, imitando-lhe o charme e o populismo. São tantas as qualidades e os atributos, que os eleitores, cansados de políticos cinzentos e sisudos, votam neles. A democracia tem destas coisas. Há um certo apreço pelo que é grotesco e imundo. A falta de vergonha compensa quase sempre.

Cidades

Isto não tem que se fazer forçosamente com o TGV, ou apenas com ele. As cidades, se forem interessantes, atrairão gente. Por isso, repito, a prioridade deveria ir para a recuperação urbana, para os transportes públicos de proximidade e para as indústrias criativas e culturais.”, foi o que o Rui Tavares escreveu hoje, no Público, a propósito de qualquer coisa. Não sei o que são ao certo as indústrias criativas e culturais. Tenho uma vaga ideia. A sugestão de se apostar (com os dinheiros públicos, claro está!) nas tais indústrias culturais e criativas é tão tenebrosa que prefiro não a comentar. Respiro, porém, de alívio por, no momento de desenhar a cruzinha, o meu lado direito ter sovado com fúria o meu lado esquerdo. Deixou-o, ao meu lado esquerdo, de rastos, tortinho, cambaleando de lá para cá, cuspindo perdigotos, dentes e gotas escuras de sangue. Impediu-me, assim, de votar no BE nas últimas eleições e contribuir para a eleição do Rui Tavares. Só tenho a agradecer-lhe. Não o faço, porém. O meu lado direito é um bocado arrogante. Não se lhe pode dar grandes confianças.

2009/06/30

Mazurca Fogo


Kindle

Comprei um telemóvel quando saí de casa. Por necessidade. Quando voltei, passados três meses, arrumei-o numa gaveta. Uso-o com parcimónia. Em certas e determinadas ocasiões. Tenho uma agenda de papel para guardar números de telefone. Não sei ler mensagens de voz. Tenho uma máquina fotográfica digital. Tiro muitas fotografias. Só preciso de carregar num botão. Não sei tirá-las de lá. Tenho um ipod e não sei carregá-lo com músicas novas. Há dois anos que corro a ouvir o David Byrne e as tocatas de Bach. Não sei programar electrodomésticos, televisões, leitores de dvds. Não leio blogues. Atravesso os olhos, de viés, pelos dois ou três do costume. Imprimo sempre o que quero ler ou preciso ler. Receitas de bolos, acórdãos, leis, recensões simples de alguns livros que leio. Não consulto sites de jornais, rádios ou televisões. Tenho um computador portátil que me ofereceram pelos anos. Abri a caixa por insistência dos meus filhos passados muitos meses. Está colocado em cima da mesa da sala de jantar. Imóvel. Sou incapaz de o levar para a cama, para o sofá, para uma mesa de esplanada. Tenho um e-mail associado a este blogue e não respondo a quem tem a amabilidade de me escrever. Por acanhamento, mas também por estranheza. Nunca entrei, nunca entrarei, numa rede social, no hi-5, no Twiter, no Facebook. Que se possa gostar de ler livros num suporte que não se sente, não se cheira, não se tacteia, que não serve para guardar fotografias velhas, que não se enche de manchas de café, de lágrimas e migalhas, que é nada, é coisa que me transcende.

Mimetismo

Descia as escadas de serviço quando uma sombra se atravessou à minha frente. Uma mancha de tamanho incerto, veloz, correu pelos degraus abaixo, movendo-se com perícia, sem estranhar o espaço, sem temer o confronto. Ouvi uns passitos leves e um chiar que parecia um riso. Fiquei paralisada. À escuta. Até que os ruídos pequenos cessaram. Percebi que a mancha me esperava mais abaixo. Imaginei-a monstruosa, gorda, uma cauda enorme, uns dentes a arreganhar-me o descaramento. Senti palpitações, falta de ar, o medo amarinhando pelo corpo acima, como se fosse uma osga, um lagarto, uma centopeia. Saí das entranhas do edifício. Abri a porta de par em par. Com um certo dramatismo. Entrei no átrio onde duas rapariguinhas das companhias de seguros aguardavam o próximo elevador. Traziam a roupa muito justa ao corpo, unhas de gel pintadas com duas cores, sandálias de cunha baratas que hão-de soltar um cheiro nauseabundo ao final do dia. Uma delas, percebendo o meu desdém, arreganhou-me uma dentola medonha. Pareceu-me que chiava. Olhei para a outra. Vi-lhe uma cauda agrilhoada nas cuecas fio dental que se mostravam através da transparência de umas calças brancas. Abafei o grito que me saiu das goelas. Sustive um vómito que me veio à boca. Voltei a entrar nas escadas de serviço.