2010/01/16

57

Depois de o escutar percebo duas coisas. Primeiro, nasci no tempo e no lugar errado. Vivo permanentemente com esta sensação de alheamento, segura de que noutro tempo e noutro lugar tudo seria diferente. Em vez de 37 anos, deveria ter 57 anos. Em vez deste lugar frio, de gente pálida e macilenta, deveria viver, quentinha e feliz, do outro lado do oceano. Segundo, quando me cruzar com alguém, para averiguar do seu grau de compatibilidade, exigirei que me responda ao seguinte questionário: 1) Qual o nome do pai e da mãe do Chico Buarque ? 2) Indique o nome de uma das duas canções do seu primeiro disco. 3) Problematize acerca das suas relações com a Elis Regina? 4) Indique o nome do seu clube de futebol e da escola de samba preferida. 5) Quem foi determinante para ele deixar de beber? 6) Qual o nome do seu cunhado famoso, temperamental, e em que contexto conheceu a sua irmã Miúcha? 7) O que queria ser quando era pequeno? 8) Indique, pelo menos, cinco canções da Ópera do Malandro. 9) Indique as três canções da sua vida.


(Tenho uma irmã e duas amigas. Uma delas é a Maria Emília que entrou na minha vida, era eu ainda menina, e a vi em cima de um palco. Partiu hoje novamente para o Rio de Janeiro. Deixou-me cá.)

Roda Viva - Chico Buarque

(o que eu gosto da rapariga do apito.)

Cholé

Há blogs que cheiram a cholé. É um fedor que não se pode. Cheiram a pés enfiados em sapatos baratos comprados na Bheska do Forum Montijo. Por acaso, por falar em Bheska, acidentalmente, descobri por lá umas sandálias douradas que não me saem da cabeça. Mas, depois de comprar dois pares de sapatos italianos, caríssimos, custa-me andar de cavalo para burro, ou melhor dizendo, de égua para mula, e comprar sapatos feitos na Roménia, na Índia, ou na Turquia. Eu cá não pactuo com a globalização. Nem com a miséria doutros povos. Nem pensar. Era o que mais faltava. Adiante. Voltando aos blogs, outros há que cheiram a partes íntimas mal lavadas e suor. Um horror de podridão. Um cheiro nauseabundo. Outros cheiram a bafio, a mofo, a bolor. Outros cheiram a nádegas. A rabo. É lá, nos blogs-nádegas, que habitam as bichas solitárias, tão modernas, comendo sushi e sashimi com sofreguidão e tricotando, com lãs amarelas e rosa ciclame, a tristeza das suas vidas. Outros não têm cheiro. São assépticos, inodoros, incolores, inexistentes. Outros são transparentes que é coisa muito diferente. É bom ser transparente. Como a água que se bebe. Outros cheiram a sarcófago, a caixão, a ataúde de pinho envernizado. Outros, porém, cheiram bem. Cheiram a azul, a mar e a embondeiros. Cheiram a espirais nocturnas de fumo, chão encerado e cerveja preta.

(Escrito em Março de 2006, altura em que acompanhava alguns blogues e fazia do cu três bicos para escrever com pedantismo e acrimónia. Queria mostrar a minha singularidade. Ferir com a virulência, a crueza e a coragem da minha escrita. Eu que sou um doce de pessoa. Patético. Desde então deixei de ler blogues. Leio o meu que se tornou num diário escancarado. Venho para aqui. Para a vitrine. Às vezes, sinto-me uma puta. Outras, não. Confesso-vos: desprezo quem escreve em blogues, mas, ainda mais, quem, como vós, perde tempo a lê-los.)

2010/01/13

Lixo do Leblon

E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.

Gilberto Gil e Caetano Veloso

2010/01/12

Bang Bang

Fecaloma

Assustei-me quando caiu o muro de Berlim. O mundo, nessa altura, dividia-se de forma simples. A fronteira clara que se estabelecia entre os bons e os maus facilitava-me muito a vida. De um lado estavam os bons. Do outro os maus. É certo que os bons podiam ser maus e os maus podiam ser bons. Mas isso não me interessava nada. Bastou-me escolher um dos lados da barricada para que, aos meus olhos, esse se tornasse o lado dos puros, dos impolutos, dos heróis que se batiam por valores e causas. Fiz uma escolha e também eu, por osmose, passei a fazer parte do grupo eleito. Desses tempos de ordem e simplicidade ficou-me o hábito de, a propósito de outros assuntos, dividir o mundo em duas partes. É um exercício tolo mas que insisto em fazer. Não podendo continuar a ter uma visão maniqueísta da política, o peso da idade e o conhecimento dos factos não mo permitem, dou por mim a imprimir a força da divisão dualista em relação a assuntos menores e domésticos. Divido as mulheres entre as que arranjam as cutículas das unhas e as que não o fazem. Divido os amigos dos meus filhos entre os que me tratam pelo nome e aqueles que me reduzem à “mãe do João”. Desprezo o segundo grupo. Divido os homens entre os que usam botões de punho e os que não os usam. Por aí fora.
Vem a conversa, parva e inconsequente, a propósito da morte do Eric Rohmer. Divido também o mundo entre as pessoas que acham que "Os amores de Astrea e Celadon"é uma obra prima do cinema europeu e aqueles que acham que o filme é uma merda. Para mim, o dito filme ultrapassa o significado corriqueiro que atribuímos à palavra merda. É um autêntico fecaloma. Um pesadelo. E mais não digo.

2010/01/11

Mãe

Lembro-me da folha larga que, todos os meses, ela trazia para casa dentro de uma mica plastificada. Sentada à mesa da cozinha, a minha mãe começava por olhar atentamente a lista das enfermeiras que trabalhavam consigo no hospital. Depois, com uma esferográfica multicor, começava a preencher a folha larga com a escala mensal do serviço que chefiava. Acautelava os melhores horários para as enfermeiras que tinham a vida mais complicada: muitos filhos, maridos ausentes, transportes públicos para apanhar logo de manhã. Para as solteiras sobravam sempre os horários mais cansativos, com velas, poucas folgas seguidas, muitas horas extraordinárias. Havia, eu percebia que havia, uma linha que separava as enfermeiras casadas das que permaneciam solteiras. As solteiras não mereciam o cuidado da minha mãe. Eram mulheres que não se cumpriam, sem homem, sem filhos, sem lar. Restava-lhes o consolo da vida do hospital, encarada como uma espécie de sacerdócio a que se votavam para esquecer a solidão de noites demasiado longas.

Nos dias em que a minha mãe se ocupava do preenchimento da escala, eu deixava-me ficar sentada ao seu lado. Não tinha especial interesse pelas tarefas administrativas da sua profissão. Se, nessas tardes de azáfama burocrática, eu me esquecia dos meus afazeres e me colava à minha mãe era por uma razão concreta. Aguardava, com ânsia e expectativa, que ela ditasse a sua própria sorte e escolhesse o seu horário mensal. Para gerir a tristeza e angústia, precisava de saber, com antecipação, o horário da minha mãe: quais os fins-de-semana em que estaria sem ela, em que dias ocorreria o desperdício das folgas que calhavam durante a semana, e, sobretudo, qual a noite da ronda nocturna. Nada me custava mais do que passar uma noite sem a minha mãe. Era a casa que, de um momento para o outro, escurecia e se tornava num catre, num túmulo. Ficava num desconsolo, imaginando a minha mãe-sombra, a minha mãe-noite, percorrendo os claustros do hospital envolta na sua capa azul, como se fosse um bicho nocturno, irrepreensível na sua farda cintada, o chapéu engomado, os sapatos de atacadores brancos, o relógio de bolso com o seu nome gravado.

Muitas vezes, quando a ronda calhava numa noite de sábado ou num domingo, dormíamos a sesta juntas. Eu dormia o sono no tempo certo. A minha mãe antecipava o sono da noite para a tarde. Deitadas na cama do seu quarto, o cristo de pau preto atormentando-me com o seu rosto triste, prendia-lhe as mãos e fazia-a prometer-me que nunca me morreria, nunca me abandonaria, nunca me deixaria sozinha. Ela ficava tonta com tanto amor e, ali mesmo, sem medir as consequências das suas palavras, prometia o impossível. Nunca te morrerei. Nunca te abandonarei. Nunca mais te deixarei sozinha. Vou telefonar para o hospital a dizer que estou doente. Invento qualquer coisa. Depois, vou dormir a tarde toda contigo, aqui no quentinho dos lençóis de flanela que comprei nos armazéns de Moscavide. Deixava-me adormecer. Acordava sozinha na cama dos meus pais, a minha tia consolando a minha tristeza. Vinha-me então uma dor muito grande e a certeza de que, um dia, a minha mãe me morreria.

(Uma da manhã. A minha vizinha de baixo, a dentista venezuelana, demora que se farta a atingir um orgasmo. Já não posso ouvir a mulher gemer. Uma pessoa quer escrever um texto lacrimoso sobre sua mãe e não consegue concentrar-se. Puta da venezuelana.)

2010/01/06

2010/01/02

Boliqueime

Peguei finalmente na Ler de Dezembro. Com enfado. Como quem cumpre uma obrigação ou um ritual de vida saudável. Lá estava ela no correio dos leitores: a Fátima, a leitora mais que tudo da Ler. É uma chata. Deve ser psicótica ou coisa que o valha. Não há um único mês em que não esteja na coluna dos leitores derramando erudição, exibindo saber literário, dando gritinhos de prazer com as crónicas e recensões que lá se publicam. A masturbação é uma coisa boa. Reconheço-o. As saudades que tenho dos tempos em que me bastava um texto, uma imagem, uma lembrança para também eu libertar os meus instintos básicos e sentir uma vertigem de prazer. Mas a masturbação, quer assuma a sua natureza básica e rudimentar, como no meu caso, que me contento com qualquer par de mamas, quer consubstancie formas mais sofisticadas, sublimes, exigentes, como no caso da Fátinha, que há-de molhar as cuequinhas com Verlaine e Rimbaud, exige recato. Não serei a pessoa mais indicada para o afirmar, eu que aqui venho ciciar repentes suicidas e outros segredos, mas uma mulher deve chorar e masturbar-se com discrição.

2009/12/27

Martin Schoeller

Venho aqui pavonear-me. É o que os outros fazem. O ano termina em beleza. Com um convite para escrever numa revista única. Estou como a rã da fábula. Tinha tantas coisas interessantes para vos contar, queridos e estimados leitores, mas tenho de ir ali num instantinho vomitar o robalo e a salada de pimentos que comi gulosamente ao jantar e que, desde então, me andam a saracotear por dentro. Estou que não posso.

2009/12/17

Recado

Estou triste e tal. O costume. Já esvaziei caixas de comprimidos. Já olhei a linha do comboio suburbano. O parapeito da janela. Vezes sem com conta os pulsos onde encontro marcas quase invisíveis de outras vidas. Igualmente tristes. Nos entretantos escutei, de uma assentada, os discos todos do Fausto e escrevi, a pedido do Pedro, um conto para a revista do jornal i. Sai no próximo sábado. Ficou catita. Olarila. Gosto muito de escrever. Mas cada vez gosto menos de escrever aqui.

2009/12/08

Dayanita Singh


Tia Dé

Sentada no seu sofá branco, com uma mantinha azul a tapar-lhe as pernas, a minha tia vigia os movimentos da sobrinha pequena, não vá ela tropeçar, cair, bater com a cabeça na esquina da mesa e fazer um traumatismo craniano, era uma chatice. Chego com a minha mãe. Apesar do frio, trazemos connosco a alarido próprio das mulheres do sul. A minha filha enrola-se nos nossos pés como se fosse uma gata. É a sua maneira de nos dizer olá. Na televisão, um crocodilo gigante descansa sobre a mornidão das areias de um mangue. Enquanto espero que o chá de lúcia-lima arrefeça, decido arreliar a minha tia, tão confortável e regaladinha no seu sofá branco. Tia, sabes que estou a pensar em ir viver para a Índia?, digo-lhe sem tirar os olhos do terrível predador de olhos esbugalhados. Ela estremece e deixa que um silêncio tumular poise sobre a sala. Depois, gaguejando, diz Ó filha, tu és irreal, irreal, completamente maluca! E faz o gesto com o dedo. Apesar das minhas gargalhadas, ela continua. Aquilo é bom para passar férias, agora para viver! Aquela desgraça! Tu eras capaz de fazer isso aos teus filhos? E faz um ar recriminador como se morar na Índia fosse o mesmo que mandá-los para um colégio interno ou abandoná-los à porta de casa da Bárbara Guimarães e do Manuel Maria (não concebo maior desgraça para uma criança do que ter tais progenitores). Por fim, sossego-a. Ela ri-se, aliviada. Dá umas gargalhadinhas maravilhosas que parecem soluços de gente pequena. Quase lhe cai a dentadura. Mas o riso dela esconde um nervoso miudinho. Conhece-me bem a tia Dé.
(para grandes males precisam-se grandes remédios.)

2009/12/04

Marcovaldo

Acho lamentável a importância que, na obra de Calvino, se dá ao Sr. Palomar. Um exagero. Só porque o homem é contemplativo. Observa as ondas. Encanta-se com o voo dos estorninhos. Divaga, se bem me lembro, sobre o modo como os queijos estão dispostos nas prateleiras de uma mercearia. A insuportável possibilidade de poder preocupar-se com o detalhe e o acessório. Prefiro, de longe, Marcovaldo, o operário que quer caçar galinholas com piche, fazer um guisado com o coelho contaminado de peste, tratar o reumatismo dos velhos do seu bairro com picadas de vespões.
E é tudo.

2009/11/19

Guile e Belinda


Alessandra Sanguinetti

Andaluza

Certa vez instrui a minha irmã mais nova sobre o meu funeral. Uma mulher deve ser previdente e cuidar de todos os seus assuntos, incluindo a morte. Se há coisa que me aflige é imaginar-me enterrada num cemitério com vista para a cril ou para a crel ou para a radial de Benfica. Junto a um retail park. Até me dá arrepios. Pedi-lhe que me enterrasse no cemitério da aldeia, perto dos nossos avós, onde, mesmo morta, possa sentir o cheiro das figueiras e escutar o ronco das motorizadas que, pela tarde, levam os velhos de volta para os montes. Que tratasse de me arranjar uma campa rasa, com uma lápide branca, sem fotografias ou epitáfios. Que me vestisse a saia antiga, rodada, de veludo cotelê, me apanhasse o cabelo numa trança e colocasse nas orelhas as arrecadas incas que nunca fui capaz de lhe oferecer. Se for tempo das dálias e dos cravos túnicos que peça licença à vizinha Teresa e à Preciosa dos queijos, a que é belfa e usa sempre um chapelinho de palha, para os apanhar dos canteiros e os coloque numa jarrinha branca. Fi-la prometer que me enterraria sem a presença de estranhos. Quero um funeral selecto. Com quem gosto. E preciso. Pai, mãe, tia, irmãos, filhos, sobrinhos, as primas da aldeia. Mais ninguém. Pedi-lhe, ainda, que cantasse o poema: Quando eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro ajaezado à Andaluza... A um morto nada se recusa. E eu quero por força ir de burro. Ai dela que não me faça as vontades! Pobre e querida maninha. Hei-de voltar, pior do que fui, um espectro medonho e terrível, para lhe fazer a vida negra.

(Gosto tanto da minha irmã. Buéréré.)

Lomba

Lia o público enquanto comia um pãozinho de sementes. Foi então que cruzei o olhar com o novo cronista. Apesar do desprezo que tenho pelos homens em geral, mesmo não querendo, volta e meia, caio na tentação de me entusiasmar com um ou outro. É degradante. Desconfio que, com algum empenho, era até capaz de me livrar da algidez que me dá conta da vida há tantos anos. Aborreci-me com a minha triste sina de feminista heterossexual frígida. Preferia, de longe, ser uma feminista lésbica frígida. As feministas deviam ser todas lésbicas. Sempre eram mais coerente. E ser coerente é tão importante nos dias que correm. Por isso é que há tanta gente que arremelga os olhos e diz admirar a coerência do Álvaro Cunhal. Adiante. O meu entusiasmo pelo novo cronista fez-me engasgar. Deve ter sido castigo. Uma semente de girassol caiu-me no goto. Deixei de respirar. Valeu-me o Sr. Domingos que, parecendo uma impala, uma gazela, saltou por cima do balcão das torradas e salvou-me. Deixou os papo-secos e as fatias de pão saloio a esturricar na placa. Bateu-me nas costas com força enquanto eu sufocava. A Conceição da contabilidade, muito fanhosa, indignou-se com o atraso da sua tosta mista aparada. Um luxo. A fanhosa de Agualva-Cacém trincando todas as manhãs uma tosta mista aparada feita pelo escravo guineense das torradas. Acabei por espirrar a semente pelo nariz que aterrou em cima da fotografia do novo cronista. Tão lindo que ele estava de barba. Sosseguei e assoei-me a um guardanapo de papel. O Sr. Domingos, ajeitando o avental da farda, olhando o jornal, quis saber se me tinha engasgado com a pouca vergonha que anda neste país. Disse-lhe que sim, que sim, pois claro, ando muito preocupada com a situação do país. Quando a Conceição passou por mim, com a sua tosta mista aparada, muito fumegante, olhou-me de soslaio, procurando vestígios de muco nasal do meu engasganço. Abri-lhes as minhas narinas gigantes. Parecem cavernas de homens pré-históricos. São assustadoras. Fez um esgar de repulsa. E soltou um ai amedrontado, a parva. Mal sabe ela que eu, feminista empenhada, e magnânima, defendo até as mulheres que desprezo profundamente. Como ela.

2009/11/17

Anna Karenine

Sempre tivera queda para o bovarismo. Permanentemente aborrecida com a realidade, identificava-se com as personagens dos livros que lia e dos filmes que via. Era uma coisa um bocadinho presunçosa, reconhecia. Isto acontecia-lhe desde sempre. Em miúda, sentia-se igual à Mariana que saíra da cabeça da Alice Vieira. A identificação era a tal ponto intensa que lhe imitava os gestos. Comprava cadernetas de cromos e jurava a si própria que quando tivesse uma filha lhe haveria de oferecer uma parede branca para desenhar camelos com garrafas. Vida fora, sempre se fora identificando com as protagonistas que com ela se cruzavam. A identificação mais intensa ocorrera, porém, há pouco tempo com Anna Karenine. Mulher. Apaixona-se por Vronsky. Deixa o marido e o filho. Aceita a condenação da sociedade pela sua opção. No fim, o conde Vronsky, cansado de tanto amor, aborrecido de tanto fatalismo, dá-lhe um valente pontapé no cu. Em detrimento da languidez morna das alcovas, escolhe o regimento. Um homem gosta de ser homem, pois claro. Guerrear. Lutar. Gritar em cima de um cavalo. Desferir golpes mortais no inimigo. O que é uma mulher comparada com um campo de batalha? Nada. Ela, pobre coitada, desesperada, atira-se para a linha do comboio.

Lera o livro, pela primeira vez, há já alguns anos. E, na altura, lera-o como um outro romance qualquer. Lera-o como lera os livros do Eça. Para ela, Anna não passava de uma heroína romântica, levemente patética, demasiado dramática, semelhante às outras, lusas, que tanto lhe agradavam. Eduarda. Amélia. Luísa. Genoveva, era, de longe, a sua preferida: má, caprichosa, calculista, impiedosa, egoísta. Há tempos, entusiasmada com os russos, caíra na asneira de voltar ao livro de Tolstoi. Tiro e queda. Desta vez, identificara-se totalmente com a pobre heroína. Achou-se mortificada. Por coisas da sua vida que ela lá sabia e que, com a devida distância e o devido respeito, que era muito, tinham certa semelhança com a da bela Anna. Só que ela não se atiraria para a linha do comboio. Chegavam-lhe os repentes suicidas que tivera por volta dos vinte anos. Por isso, para se aliviar, punha-se a desdenhar quem não a quisera. Fazia como aquela raposa da fábula que desdenhara o cacho de uvas rubis, cheias, maduras por as não poder alcançar: pensava no tamanho da pila dele e na calvície, certa, que tomaria conta do seu crânio daqui a quatro ou cinco anos. Era uma técnica rude, mas muito eficaz.

2009/11/16

Funeral

Que lindo foi o funeral do guarda-redes deprimido… Tanta gente comedidamente lacrimosa e séria. Tantas flores impecavelmente organizadas em coroas brancas e roxas. Tantos sobretudos pretos. Tanta ordem e compostura. Tanto silêncio. Se me apanhassem dentro daquele caixão havia de espantar a morte por breves instantes e dar um grito que se escutasse na lua, no inferno, do outro lado do mundo. Depois, voltava a morrer muito mais aliviadinha.

Crias

A minha filha Dá pediu-me para ir a uma biblioteca a sério. À noite trepa para a cama com o menino Nicolau e dá gargalhadinhas maravilhosas enquanto ele lhe conta as suas travessuras. O que ela gosta do Alceste e do Aniano. O meu filho mais velho, o João, que joga andebol no Benfica e diz muitas asneiras, pediu-me ajuda para escolher um livro da minha estante. Explicou-me que os livros juvenis, mesmo os que são escritos pela ministra, são uma seca. O mais pequeno, o Joaquim, comeu uma página do Monte dos Vendavais, livro que leio todos os Outonos. E bateu palminhas. Sou má esposa, má amiga, péssima jurista, razoável irmã e filha e sobrinha, mas muitíssimo boa parideira. Devo ter uns óvulos de uma qualidade extraordinária. É uma pena desperdiçá-los.