2010/02/20

Alessandra Sanguinetti




Torta de Cenoura

Fui ao celeiro comprar uns comprimidos para emagrecer. A fome fez-me comprar uma fatia de torta de cenoura que se atravessou no meu caminho. Eu bem tentei olhar apenas para os escaparates dos suplementos que tudo tratam, das cápsulas que amenizam qualquer achaque, dos complexos vitamínicos que solucionam todos os padecimentos. Entretenho-me muitas vezes a deambular pelo corredor dos suplementos. Descansa-me saber que, da obstipação à incontinência, da calvície à frigidez, do excesso de peso à fadiga, há sempre uma solução fácil para os nossos problemas. Mas, sei lá como, os meus olhos desviaram-se para a triste ilha dos pastéis de algas, dos pães de arroz, dos croquetes de soja. Lá estava, no meio daqueles pitéus, a tal fatia de torta de cenoura. Sabe deus que, de todos os bolos que existem, nenhum me desperta mais a gula do que os que são feitos com cenoura. Os bolos, as tortas, os sonhos de cenoura ganham uma cor, uma textura, um paladar único. Já na rua, os comprimidos para emagrecer enfiados no bolso do sobretudo, antes de trincar a fatia de torta (gosto de comer enquanto ando), pus-me a ler a lista dos ingredientes: cenoura, canela, geleia de milho, farinha tipo 65, coco. Tal como desconfiava, nem uma pitada de açúcar. Nem uma colherzinha. Nem sequer uns salpicos de açúcar mascavado. Insultei, de imediato, a comida macrobiótica, os gurus da comida saudável, os fundamentalistas que desejam viver até aos cem anos uma vida insuportavelmente sã e regrada, enfardando feijoadas de seitan e lasanhas de tofu. Lembrei-me, então, de uma colega do banco, reformada já há muito tempo, a Albertina. Era um amor de pessoa, gentil e generosa, muito delicada e amável. Fotografava muito bem. Tinha um marido mais novo que era professor universitário. Amava-o com muita serenidade. Um dia a Albertina trouxe o filho ao banco e a secretária da direcção ofereceu ao menino um pacotinho de pastilhas de chocolate. A Albertina agradeceu a oferta, muito gentil, e explicou que os seus filhos não comiam doces, nem rebuçados, nem caramelos, nem chocolates, nem pastilhas. Rematou, dizendo que os miúdos nunca comiam dessas coisas e, por isso, rejeitavam o sabor enjoativo, excessivo dessas gulodices. Quando me contaram a história, imaginei o menino já com as mãos no ar, o gesto de aceitação interrompido, fixando os olhos na secretária e no pacotinho de pastilhas de chocolate, escutando a explicação da mãe. Achei aquilo tudo triste… Tão triste. Uma criança que não conhecia o sabor do chocolate. Lembrei-me, pois, da Albertina e do seu filho, que cresceu comendo gelatinas azuis de ágar-ágar e boiões de sobremesas de soja, quando meti a fatia de torta de cenoura à boca. Foi então que, ali, no meio da rua mais feia de cidade, onde vive um cristo muito alto e loiro e as árvores se enchem de flores cor de arando, se assistiu a um fenómeno estranho. Pelos poros da minha pele escaparam-se opiniões antigas e certezas inabaláveis. Primeiro fiquei oca como um cabaça. Depois fui mirrando, mirrando. Até que desapareci.

(A torta, a puta da torta, era excepcionalmente boa.)

2010/02/14

Ornatos Violeta Dia Mau

(tenho outro blogue.)

2010/02/11

Bocadinho

- Vamos encontrar a Maria e a Ana.
- Quem são?
- São amigas da mãe.
- Têm filhos da minha idade?
- Não.
- São casadas?
- Não.
- São solteiras?
- Não.
- Então?
- São namoradas.
- Está bem.
(silêncio)
- Faz-te confusão?
- Só um bocadinho.

(Prefiro partilhar as gracinhas da minha prole a falar do que se passa neste país e, na televisão, o Lobo Xavier, o António Costa e o Pacheco Pereira falam, falam, falam.)

Mandela


2010/02/08

Maria Adelaide

Aconselhou-se com a mãe. Não tinha mais ninguém a quem recorrer. A mãe escutou-a na vivenda de azulejos cor de caramelo. Explicou-lhe com inesperada clareza a natureza instrumental do casamento: era apenas um meio para se alcançar um fim. Maria Adelaide encontrou certo conforto no conselho. Chegou-se ao marido e disse-lhe que podia suportar o resto desde que tivessem um filho. Foi mãe aos vinte e nove anos. A menina que nasceu era muito bonita. Maria Adelaide rejubilou. Achou que a beleza da filha vingava o seu passado de permanente gozo: o lábio leporino à nascença, a mãe assim como era, a gargalhada do primo Renato no quarto das bonecas, o despeito das primas, o marido olhando imagens de homens nus. As primas, Arlete e Gorete, estranhavam a extraordinária beleza da menina. Não percebiam como podia a Laidinha ter tido uma menina tão linda. Mais parecia filha da Broke Sheilds. Descobriu-se, pouco depois, que a menina sofria de atrasos graves. Mal falava e babava-se muito. As primas voltaram a visitá-la e a consolá-la. Conseguiam suportar a beleza da filha agora que a sabiam tolinha. Deus voltava a gozá-la. Pela quarta vez.

(bocadinho do tal conto.)

2010/02/07

Mulheres

Vi a Ana Free de vestidinho, muito elegante, rapando um frio medonho, para ficar bonita na fotografia ao lado de Sua Excelência. Vi também a Catarina Portas sorrindo, linda, entre mulheres. Aparentemente só lá estava um homem. Sua Excelência quis honrar as mulheres. Ena. E sorriu para os fotógrafos. Depois imaginei a Bárbara Guimarães terricando umas trouxas de ovos com sabayon de amêndoa ou, quem sabe, um creme brullé de tangerina ou, talvez, um crocante de pêra bebada, enquanto Sua Excelência esgatanhava num jornalista que tem cara de doninha. O mundo está cheio de gente absolutamente magnifica.

2010/02/04

PJ Harvey - Good Fortune

Isabela

Há dias, a mana aconselhou-me o blogue da Isabela Figueiredo. Carreguei o cenho e, com petulância, expliquei-lhe que não lia blogues. Depois, no dia a seguir, parecia provocação, enquanto esperava a hora de saída da minha filha, escutei a entrevista que a autora do tal blogue dava ao Carlos Vaz Marques. A sua voz entrou-me pelo corpo todo. Escutei-a falar de um país e de um tempo que ainda foi meu. O colonialismo era o meu pai, explicava ela. Não vou ler o blogue da Isabela Figeuiredo, que uma mulher deve manter-se fiel às suas manias e idiossincrasias, mas vou ler, sei-o, com sofreguidão, o livro que escreveu.

Variações Goldberg

Li um livro da Iris Murdoch. Dava o corpo, vendia a alma ao diabo, cortava uma mão, assistia a vários programas de entrevistas da Bárbara Guimarães, rapava o cabelo, fazia o que fosse preciso, para escrever assim. Logo de seguida li um livro da Ana Teresa Pereira. Pensava que existia apenas uma Mafalda Ivo Cruz na literatura portuguesa. Afinal há duas. E calo-me, estrangulo os dedinhos, por consideração a quem aprecia escritores que gostam de descrever ambientes atafulhados de aprumo intelectual, onde se fode ao som das variações goldberg. Criada nos arrabaldes, reconheço, sou uma pobre criatura iletrada, boçal e suburbana. Os escritores assim dão-me náuseas. Prefiro, de longe, a MRP (nunca lhe li nenhum livro, mas prefiro.)

Tarantela

Estava ali no largo D. Estefânia, trincando uma madalena da Tarantela e lembrando os entardeceres da minha infância. Ao fim do dia, vasculhava a mala da tia Dé. A mala reflectia a tristeza e a solidão da vida que levava. O conteúdo estava sempre impecavelmente organizado. Reduzia-se a meia dúzia de objectos. Uma carteira de fole, plastificada, para guardar os documentos. Um porta-moedas. Uma caixa de guardar comprimidos, muito pequenina, incrustada com uns cristaizinhos coloridos. Uma escova de cabelo. Um corta unhas. Pouco mais. Revirava a mala da minha tia e não encontrava papéis soltos ou caixas de chicletes vazias. Não havia lenços de papel amarrotados, nem batons velhos. Nem sequer o passe social ali se perdia. Estava sempre enfiado na bolsinha lateral, seguro pelo fecho eclair. O espaço daquela mala pequena, em função da organização, do cuidado meticuloso, era imenso e sobrava para qualquer coisa que não chegava. Espreitava a mala da minha tia e não me dava conta do vazio da sua vida. A insistência com que falava do Dr. Lucas, o cirurgião de São José, que tinha um filho deficiente, não me mostrava o amor que lhe tinha. Esse amor que não chegava. Nunca se cumpriu. Mais triste do que amar um homem que não nos quer é amar um cobarde que nos quer, mas não luta para nos ter. Porém, naqueles tempos, pouco me importava a angústia e o amor não cumprido da minha tia. Revirava-lhe a mala com um propósito definido. Muito concreto e interesseiro. Ela trazia, quase sempre, qualquer coisa que comprava no caminho do hospital: tabletes da regina, sombrinhas de chocolate, bolos de arroz, palmiers e madalenas. Eram os bolos e os chocolates que eu procurava na sua mala.

Estava ali no largo, tão feliz, comendo uma madalena da Tarantela, lembrando tudo isto, confortada com o amor que tenho à minha tia, quando encontrei uma amiga que não via há muito tempo. Deixei de lhe falar. Já não sei porquê. Perguntou-me pelos filhos. Respondi-lhe evasivamente. Trocámos meia dúzia de palavras. Esforcei-me para lhe sorrir. Foi então, assim do nada, de uma forma extraordinária e directa, que ela disse que me achava egoísta. E sorriu, com um misto de desdém e piedade. És profundamente egoísta, disse-me. No preciso instante em que as palavras lhe saíram da boca, um pardal, que dava saltinhos, na balaustrada de uma varanda, estremeceu. Ficou tão aflito que largou um piar manso de pássaro pequenino. O rapaz da banca de jornais, que não tinha dentes, espreitou por cima das revistas da vida social a ver se aquela conversa descambava numa discussão decente que lhe alegrasse o dia mortiço. Por breves momentos, pensei esbofetear a minha amiga. Ou afogá-la na água esverdeada do lago que fica no meio do largo. Ou esfregar-lhe a madalena no rosto. Não fiz nada. Percebi que não me aborrecia o facto de me chamar egoísta – sou - mas apenas o atrevimento e a coragem de o fazer.

2010/01/19

Et moi dans mon coin

Tarde

No cabeleireiro, enquanto a menina Olivia me esticava o cabelo, numa revista, topei com as tais fotografias da Clara Pinto Correia. Não são provocadoras ou aliciantes. Não são sequer bonitas. São só desinteressantes. O orgasmo feito numa coisa qualquer. O marido da Clara Pinto Correia poderá ter maravilhosas competências - a sua língua, a ponta dos seus dedos mãos, a sua voz - mas é um mau fotógrafo.

Manhã

Deviam ser oito horas. O apeadeiro estava ainda mergulhado na neblina matinal. O ar da manhã pareceu-me fantasmagórico e insólito. E, no entanto, olhando em redor nada destoava dos outros dias: as ervas da berma estavam perladas de orvalho, os passageiros chegavam encolhidos nos seus abafos de inverno, os minutos de atraso dos comboios eram lançados, com precisão, por uma voz de mulher, duas gaivotas grasnavam sobre o nicho do prédio amarelo onde vive uma nossa senhora de fátima. Olhando para o chão da plataforma percebia-se, porém, por que a neblina anunciara que aquela seria uma espera diferente. Estava repleto de caracóis e lesmas. Ao contrário dos que se encontram, aos cachos, pelos campos, durante o verão, estes apresentavam uma coloração diferente. Eram escuros como a terra. Eram muitos, de vários tamanhos, e, com o vagar que lhes é próprio, arrastavam-se das ervas que ficam do lado de lá da estação para os carris. Aqueles bichos, percebia-se, tinham um propósito, um objectivo. Talvez se tratasse de um suicídio colectivo. Muitos, porém, não chegavam ao seu destino. Eram esmagados pelos passageiros que vinham apressados. Só se apercebiam da sua existência quando escutavam o barulhinho das suas conchas quebrando. Era como se pisassem folhas secas.

2010/01/16

57

Depois de o escutar percebo duas coisas. Primeiro, nasci no tempo e no lugar errado. Vivo permanentemente com esta sensação de alheamento, segura de que noutro tempo e noutro lugar tudo seria diferente. Em vez de 37 anos, deveria ter 57 anos. Em vez deste lugar frio, de gente pálida e macilenta, deveria viver, quentinha e feliz, do outro lado do oceano. Segundo, quando me cruzar com alguém, para averiguar do seu grau de compatibilidade, exigirei que me responda ao seguinte questionário: 1) Qual o nome do pai e da mãe do Chico Buarque ? 2) Indique o nome de uma das duas canções do seu primeiro disco. 3) Problematize acerca das suas relações com a Elis Regina? 4) Indique o nome do seu clube de futebol e da escola de samba preferida. 5) Quem foi determinante para ele deixar de beber? 6) Qual o nome do seu cunhado famoso, temperamental, e em que contexto conheceu a sua irmã Miúcha? 7) O que queria ser quando era pequeno? 8) Indique, pelo menos, cinco canções da Ópera do Malandro. 9) Indique as três canções da sua vida.


(Tenho uma irmã e duas amigas. Uma delas é a Maria Emília que entrou na minha vida, era eu ainda menina, e a vi em cima de um palco. Partiu hoje novamente para o Rio de Janeiro. Deixou-me cá.)

Roda Viva - Chico Buarque

(o que eu gosto da rapariga do apito.)

Cholé

Há blogs que cheiram a cholé. É um fedor que não se pode. Cheiram a pés enfiados em sapatos baratos comprados na Bheska do Forum Montijo. Por acaso, por falar em Bheska, acidentalmente, descobri por lá umas sandálias douradas que não me saem da cabeça. Mas, depois de comprar dois pares de sapatos italianos, caríssimos, custa-me andar de cavalo para burro, ou melhor dizendo, de égua para mula, e comprar sapatos feitos na Roménia, na Índia, ou na Turquia. Eu cá não pactuo com a globalização. Nem com a miséria doutros povos. Nem pensar. Era o que mais faltava. Adiante. Voltando aos blogs, outros há que cheiram a partes íntimas mal lavadas e suor. Um horror de podridão. Um cheiro nauseabundo. Outros cheiram a bafio, a mofo, a bolor. Outros cheiram a nádegas. A rabo. É lá, nos blogs-nádegas, que habitam as bichas solitárias, tão modernas, comendo sushi e sashimi com sofreguidão e tricotando, com lãs amarelas e rosa ciclame, a tristeza das suas vidas. Outros não têm cheiro. São assépticos, inodoros, incolores, inexistentes. Outros são transparentes que é coisa muito diferente. É bom ser transparente. Como a água que se bebe. Outros cheiram a sarcófago, a caixão, a ataúde de pinho envernizado. Outros, porém, cheiram bem. Cheiram a azul, a mar e a embondeiros. Cheiram a espirais nocturnas de fumo, chão encerado e cerveja preta.

(Escrito em Março de 2006, altura em que acompanhava alguns blogues e fazia do cu três bicos para escrever com pedantismo e acrimónia. Queria mostrar a minha singularidade. Ferir com a virulência, a crueza e a coragem da minha escrita. Eu que sou um doce de pessoa. Patético. Desde então deixei de ler blogues. Leio o meu que se tornou num diário escancarado. Venho para aqui. Para a vitrine. Às vezes, sinto-me uma puta. Outras, não. Confesso-vos: desprezo quem escreve em blogues, mas, ainda mais, quem, como vós, perde tempo a lê-los.)

2010/01/13

Lixo do Leblon

E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.

Gilberto Gil e Caetano Veloso

2010/01/12

Bang Bang

Fecaloma

Assustei-me quando caiu o muro de Berlim. O mundo, nessa altura, dividia-se de forma simples. A fronteira clara que se estabelecia entre os bons e os maus facilitava-me muito a vida. De um lado estavam os bons. Do outro os maus. É certo que os bons podiam ser maus e os maus podiam ser bons. Mas isso não me interessava nada. Bastou-me escolher um dos lados da barricada para que, aos meus olhos, esse se tornasse o lado dos puros, dos impolutos, dos heróis que se batiam por valores e causas. Fiz uma escolha e também eu, por osmose, passei a fazer parte do grupo eleito. Desses tempos de ordem e simplicidade ficou-me o hábito de, a propósito de outros assuntos, dividir o mundo em duas partes. É um exercício tolo mas que insisto em fazer. Não podendo continuar a ter uma visão maniqueísta da política, o peso da idade e o conhecimento dos factos não mo permitem, dou por mim a imprimir a força da divisão dualista em relação a assuntos menores e domésticos. Divido as mulheres entre as que arranjam as cutículas das unhas e as que não o fazem. Divido os amigos dos meus filhos entre os que me tratam pelo nome e aqueles que me reduzem à “mãe do João”. Desprezo o segundo grupo. Divido os homens entre os que usam botões de punho e os que não os usam. Por aí fora.
Vem a conversa, parva e inconsequente, a propósito da morte do Eric Rohmer. Divido também o mundo entre as pessoas que acham que "Os amores de Astrea e Celadon"é uma obra prima do cinema europeu e aqueles que acham que o filme é uma merda. Para mim, o dito filme ultrapassa o significado corriqueiro que atribuímos à palavra merda. É um autêntico fecaloma. Um pesadelo. E mais não digo.