Há um balcão de cafés no piso inferior da estação de comboios. Dentro desse balcão costuma estar um empregado jovem, feio, magro e enfermiço. O homem do balcão, na realidade, não é enfermiço. É sadio e ligeiramente balofo. Esclareço: encontrei a palavra “enfermiço”, pela manhã, no livro que ando a ler e apanhei-a. Sou uma exímia caçadora de palavras. Tenho-as em cativeiro durante algum tempo. Depois liberto-as. Adiante. O empregado usa o cabelo arrepiado, como se fosse um ouriço, e no sobrolho direito traz a cicatriz de um piercing antigo. Movimenta-se com rapidez e eficácia. Mantém as bancadas impecavelmente limpas e rutilantes. Os escaparates das pastilhas elásticas e das batatas fritas estão sempre alinhados em cima da arca de gelados. Tira bicas e galões mornos para os passageiros que param no seu balcão antes de regressarem aos subúrbios. Massamá, Mem Martins, Cacém, Amadora, Bobadela. São sobretudo mulheres. Elas riem das suas graçolas e comentários. Nunca é grosseiro ou inconveniente. Trata por “donas” as mulheres que já conhece. A maior parte delas leva o rosto cansado, o cabelo desgrenhado do vento e da chuva, as camisolas com borbotos, as mães ásperas. Não usam botas de cano alto. Não sabem que este ano está na moda usar franja. O rapaz do cabelo arrepiado sabe que tem um papel importante na vida das mulheres que apanham os comboios da tarde. O café é um pretexto para, por breves instantes, respirarem fundo antes de mergulharem no caos doméstico.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2010/03/07
2010/03/05
Goa
Não sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo, chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na sua penumbra só eu existia.
Setembro, 2007
2010/03/04
Trela
Cheguei cedo a casa. A tempo de ouvir a jornalista falar na comissão de ética para alguns deputados. Pode não se apreciar o estilo, a forma, a agressividade, mas não se devem ignorar factos. A liberdade exige, devia exigir, uma atitude séria. Cheguei cedo a casa. A tempo de ver a deputada fazer esgares enquanto a jornalista falava. Achei-a feia, com ar de rainha má, seca, velha, mesquinha, um apêndice dispensável, eu que sempre gostei dos seus olhos. Cheguei cedo a casa. A tempo de ver a deputada levantar-se, com sobranceria e arrogância, por duas vezes, enquanto a jornalista falava. Grandessíssima puta, disse. E mudei de canal.
(Deve ser triste viver com uma mordaça e com uma trela.)
(Deve ser triste viver com uma mordaça e com uma trela.)
2010/03/03
Pensão Coimbra
Há muitos anos, chegou, vinda de Goa, uma prima afastada do meu pai. Queria ser freira. Vinha para o lar das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Ou coisa que o valha. Chamava-se Maria de Lurdes. Era jovem, pálida, quase branca, cheia de sardas, o cabelo sempre preso numa trança grossa. Os lábios eram carnudos e tinham a cor das framboesas frescas. Era bonita se quisesse ser bonita. Achei-a insuportável, uma mosquinha morta, mal falava. Às vezes, dava por ela a fixar-me com um olhar triste e um sorriso pateta nos lábios. Esteve uma semana em nossa casa. O meu pai levou-a a visitar Fátima, o Cristo Rei e a comer queijadas em Sintra. Depois, conforme combinado, foi entregá-la ao cuidado das freiras. Soube-se, passado pouco tempo, que tinha mandado às ortigas a vocação religiosa. Afinal não lhe interessava uma vida de clausura, orando a deus nosso senhor, prestando auxílio aos pobres, ensinando o pai-nosso aos meninos da catequese e aos adultos do catecumenato. Estava, havia dias, na Pensão Coimbra, ali na Praça da Figueira.
Tinha vindo da Índia com um homem mais velho que abandonara a mulher e dois filhos pequenos em Margão. Custou-me acreditar quando a minha mãe me contou, em surdina, com a gravidade que o assunto lhe merecia, que a Maria de Lurdes era amante de um homem casado. Imagina tu, com aquele ar de quem não faz mal a uma mosca e a estragar uma família!, disse-me, piscando os seus olhos pequeninos. Passei naquele instante a olhá-la, à Maria de Lurdes, com outros olhos. Com certa admiração. Afinal era mulher de carne e osso, capaz de sentir a urgência do desejo e de lutar por ele. Toda a gente se escandalizou. De Goa chegaram telefonemas longos e doridos. O meu pai ficava ao telefone, com a carranca fechada, a beiçola muito estendida, escutando os lamentos e os urros da família mais próxima da Maria de Lurdes. Pediam, por tudo, que a salvasse de uma vida de perdição e pecado. Em Goa não há divórcios nem separações. Não há vergonha maior para uma família do que um casamento desavindo. Um divórcio é muito, muito pior, do que uma mulher só dar à luz meninas. O meu pai aceitou a missão e certa noite, lembro-me como se fosse hoje, rumámos à pensão Coimbra. Era uma noite de Inverno. O Natal chegaria em breve e as ruas estavam já iluminadas.
Fiquei no carro à espera com a minha mãe enquanto o meu pai subiu para falar com os amantes. Imaginei-os, sem falar português, vindos da pacatez de uma aldeia goesa para o turbilhão de uma cidade que não compreendiam. Imaginei-os, transidos de frio, deitados numa cama de pensão, a escuridão húmida do quarto cobrindo-lhes o corpo. Imaginei-os, nus, amando-se com embaraço e tristeza. Tudo aquilo era profundamente miserável e desolador. Tive vontade de chorar. O meu pai chegou pouco depois. Não conseguira convencê-los a voltar. Soubemos, passado algum tempo, que tinham ido para Londres. Trabalharam na cozinha de um restaurante. Ela lavou loiça até as suas mãos gretarem e sangrarem. Ele tratou dos desperdícios até o cheiro do lixo se entranhar nas fibras da sua roupa de agasalho. A dureza da vida que levaram em Londres fez com que o seu amor acabasse. Acontece muitas vezes. Só nos livros e nos filmes é que o amor vence montanhas, ultrapassa dificuldades, é enorme, belo e eterno, como um diamante. Na vida real, o amor não tem essa grandeza nem esse brilho. É perecível. Esgota-se. O amor vale pouco. O goês voltou para a mulher e para os seus filhos. A Maria de Lurdes voltou para sua aldeia. A família, muito sábia, recebeu-a em silêncio. Nunca falaram sobre o assunto. A vida continuou como se nada tivesse acontecido.
Tinha vindo da Índia com um homem mais velho que abandonara a mulher e dois filhos pequenos em Margão. Custou-me acreditar quando a minha mãe me contou, em surdina, com a gravidade que o assunto lhe merecia, que a Maria de Lurdes era amante de um homem casado. Imagina tu, com aquele ar de quem não faz mal a uma mosca e a estragar uma família!, disse-me, piscando os seus olhos pequeninos. Passei naquele instante a olhá-la, à Maria de Lurdes, com outros olhos. Com certa admiração. Afinal era mulher de carne e osso, capaz de sentir a urgência do desejo e de lutar por ele. Toda a gente se escandalizou. De Goa chegaram telefonemas longos e doridos. O meu pai ficava ao telefone, com a carranca fechada, a beiçola muito estendida, escutando os lamentos e os urros da família mais próxima da Maria de Lurdes. Pediam, por tudo, que a salvasse de uma vida de perdição e pecado. Em Goa não há divórcios nem separações. Não há vergonha maior para uma família do que um casamento desavindo. Um divórcio é muito, muito pior, do que uma mulher só dar à luz meninas. O meu pai aceitou a missão e certa noite, lembro-me como se fosse hoje, rumámos à pensão Coimbra. Era uma noite de Inverno. O Natal chegaria em breve e as ruas estavam já iluminadas.
Fiquei no carro à espera com a minha mãe enquanto o meu pai subiu para falar com os amantes. Imaginei-os, sem falar português, vindos da pacatez de uma aldeia goesa para o turbilhão de uma cidade que não compreendiam. Imaginei-os, transidos de frio, deitados numa cama de pensão, a escuridão húmida do quarto cobrindo-lhes o corpo. Imaginei-os, nus, amando-se com embaraço e tristeza. Tudo aquilo era profundamente miserável e desolador. Tive vontade de chorar. O meu pai chegou pouco depois. Não conseguira convencê-los a voltar. Soubemos, passado algum tempo, que tinham ido para Londres. Trabalharam na cozinha de um restaurante. Ela lavou loiça até as suas mãos gretarem e sangrarem. Ele tratou dos desperdícios até o cheiro do lixo se entranhar nas fibras da sua roupa de agasalho. A dureza da vida que levaram em Londres fez com que o seu amor acabasse. Acontece muitas vezes. Só nos livros e nos filmes é que o amor vence montanhas, ultrapassa dificuldades, é enorme, belo e eterno, como um diamante. Na vida real, o amor não tem essa grandeza nem esse brilho. É perecível. Esgota-se. O amor vale pouco. O goês voltou para a mulher e para os seus filhos. A Maria de Lurdes voltou para sua aldeia. A família, muito sábia, recebeu-a em silêncio. Nunca falaram sobre o assunto. A vida continuou como se nada tivesse acontecido.
2010/03/02
Casos
Manhã cedo. Uma mulher explicava às amigas que o seu vizinho do quinto andar, casado, com dois filhos, andava a dormir com certa loira que também costumava apanhar o comboio das oito e vinte. Têm um caso, concluiu. A mulher falava muito baixinho. Assuntos de encornanço devem falar-se com discrição, com cuidado e tento na língua, que a gente nunca sabe quando a desgraça nos bate à porta. Tive pena do vizinho do quinto andar. Não por as mulheres do comboio virem, logo pela manhã, a escarafunchar na sua vida íntima. Meteu-me pena que o homem tivesse um caso. Antigamente, os homens não tinham casos. Tinham amantes. E tudo era diferente. Ter um amante é uma coisa quase literária. Infelizmente, os amantes estão em desuso. Estão fora de moda. Já não se usam. Ninguém diz que tem um amante. As pessoas agora têm casos. Conhecem-se na internet, nos ginásios, nos escritórios, nas empresas. Ter um caso é uma coisa muito ordinária. Um dia, que seja infiel, exijo ter um amante. Não sou mulher de ter casos.
2010/03/01
Cavalos
Li o que a Isabel Coutinho escreveu no Público sobre as correntes de escrita, na Póvoa do Varzim. Percebi que o ambiente que se vive nestes encontros de escritores não é muito diferente do ambiente que se vive na maior parte dos escritórios de advogados de Lisboa. Enfim. Entretanto, isso é que não me sai da cabeça, quatro cavalos pastavam, pela manhã, na fronteira que divide Chelas do Bairro do Armador.
2010/02/28
2010/02/25
Orlando Zapata Tamayo
Morreu um operário, pobre e preto, como lembrou ontem certo analista de política internacional. Enquanto morria, depois de dias de agonia, o corpo minguando, minguando, transformado num espectro, numa arma sem préstimo, em poeira, poalha, em nada, outro operário, de barbas, moderadamente rude, é o que convém aos operários modernos e respeitáveis, confraternizava com os seus algozes. Em silêncio. Que as palavras são bens escassos. Devem poupar-se. O mundo é dos cobardes.
Angústia
Apanhei um táxi para a rua do Quelhas. O motorista cheirava a corpo mal lavado. Trazia a roupa muito usada. O suor de muitos dias entranhado nas fibras de poliester. O cabelo comprido, oleoso, com crostas grossas. Cheirava a miséria, a corredores sombrios, a quartos alugados ao mês, cheirava a ninhos de baratas, a ratos cegos e pelados correndo nas entranhas do prédio em ruínas. Cheirava a noites de solidão. Cheirava a dias de solidão. As noites de solidão são medonhas. Mas são toleráveis. Piores, muito piores, são os dias de solidão. Lembrei-me de um conto que li, há alguns dias, de Tchecov.
(Também gosto das Variações Golberg. Gosto mais das Tocatas.)
(Também gosto das Variações Golberg. Gosto mais das Tocatas.)
2010/02/23
Alegre
Já aqui contei. Nas últimas presidenciais, estive tentada a votar no Manuel Alegre. Por causa das canções do Adriano Correia de Oliveira. Gosto tanto deles que, certa vez, num hipermercado, mergulhei num caixote onde estavam cds em promoção. Aborreceu-me ver ali o Adriano Correia de Oliveira e o Manuel Alegre no meio de tão medíocre companhia. Trouxe os sete cds que lá estavam. Há quem resgate cães e gatos e pretinhos. Coitadinhos. Resgato cds. Votaria no Manuel Alegre apenas por gratidão. É um motivo tão bom como outro qualquer. Só que, certa noite, abri o televisor e, ao lado dele, estava o Pedro Abrunhosa, dando-lhe o seu apoio. Deu-me uma sulipampa. Fiquei par ali deitada no chão, tremendo pernas e braços, revirando os olhos. Não consigo votar na mesma pessoa em que o Pedro Abrunhosa vota. E não votei.
Nobre
Fiquei contente com a anunciada candidatura do Fernando Nobre. Não sei o que o homem pensa sobre a maioria dos assuntos, mas isso, nos dias que correm, pouco interessa. Depois, li num jornal qualquer, que a Margarida Pinto Correia vai ser a coordenadora da sua campanha. Perdi o entusiasmo. Não tarda nada tem a Bárbara Guimarães a apoiá-lo.
2010/02/21
Sangue
Fiquei parada a olhar o coelho em cima da bancada da cozinha. O corpo vinha ainda ensanguentado e estava encolhido como se fosse um feto dentro da barriga da mãe. Mas o que mais impressionava era a cabeça. Parecia a cabeça de um menino morto. E tinha olhos escuros como os dos meus filhos. Coloquei o bicho por baixo da torneira e chamei o R. Corta-lhe a cabeça. Não sou capaz de o arranjar se ele estiver a olhar para mim. E estendi-lhe um cutelo. Desviei o olhar. Escutei o ruído da faca e o baque da cabeça caindo no caixote do lixo. Voltei a ficar sozinha. Enfiei as mãos nas entranhas e senti o coração, o fígado. Arranquei vários pedaços de gordura esbranquiçada. Piquei alhos, ervas. Reguei-o com vinho tinto. Esfreguei-lhe o corpo com sal. Deixei-o em cima da bancada, aninhado numa travessa de vidro, coberto com papel de alumínio. Já lavei muitas vezes as mãos. Ainda cheiram a alhos, vinho e sangue.
2010/02/20
Torta de Cenoura
Fui ao celeiro comprar uns comprimidos para emagrecer. A fome fez-me comprar uma fatia de torta de cenoura que se atravessou no meu caminho. Eu bem tentei olhar apenas para os escaparates dos suplementos que tudo tratam, das cápsulas que amenizam qualquer achaque, dos complexos vitamínicos que solucionam todos os padecimentos. Entretenho-me muitas vezes a deambular pelo corredor dos suplementos. Descansa-me saber que, da obstipação à incontinência, da calvície à frigidez, do excesso de peso à fadiga, há sempre uma solução fácil para os nossos problemas. Mas, sei lá como, os meus olhos desviaram-se para a triste ilha dos pastéis de algas, dos pães de arroz, dos croquetes de soja. Lá estava, no meio daqueles pitéus, a tal fatia de torta de cenoura. Sabe deus que, de todos os bolos que existem, nenhum me desperta mais a gula do que os que são feitos com cenoura. Os bolos, as tortas, os sonhos de cenoura ganham uma cor, uma textura, um paladar único. Já na rua, os comprimidos para emagrecer enfiados no bolso do sobretudo, antes de trincar a fatia de torta (gosto de comer enquanto ando), pus-me a ler a lista dos ingredientes: cenoura, canela, geleia de milho, farinha tipo 65, coco. Tal como desconfiava, nem uma pitada de açúcar. Nem uma colherzinha. Nem sequer uns salpicos de açúcar mascavado. Insultei, de imediato, a comida macrobiótica, os gurus da comida saudável, os fundamentalistas que desejam viver até aos cem anos uma vida insuportavelmente sã e regrada, enfardando feijoadas de seitan e lasanhas de tofu. Lembrei-me, então, de uma colega do banco, reformada já há muito tempo, a Albertina. Era um amor de pessoa, gentil e generosa, muito delicada e amável. Fotografava muito bem. Tinha um marido mais novo que era professor universitário. Amava-o com muita serenidade. Um dia a Albertina trouxe o filho ao banco e a secretária da direcção ofereceu ao menino um pacotinho de pastilhas de chocolate. A Albertina agradeceu a oferta, muito gentil, e explicou que os seus filhos não comiam doces, nem rebuçados, nem caramelos, nem chocolates, nem pastilhas. Rematou, dizendo que os miúdos nunca comiam dessas coisas e, por isso, rejeitavam o sabor enjoativo, excessivo dessas gulodices. Quando me contaram a história, imaginei o menino já com as mãos no ar, o gesto de aceitação interrompido, fixando os olhos na secretária e no pacotinho de pastilhas de chocolate, escutando a explicação da mãe. Achei aquilo tudo triste… Tão triste. Uma criança que não conhecia o sabor do chocolate. Lembrei-me, pois, da Albertina e do seu filho, que cresceu comendo gelatinas azuis de ágar-ágar e boiões de sobremesas de soja, quando meti a fatia de torta de cenoura à boca. Foi então que, ali, no meio da rua mais feia de cidade, onde vive um cristo muito alto e loiro e as árvores se enchem de flores cor de arando, se assistiu a um fenómeno estranho. Pelos poros da minha pele escaparam-se opiniões antigas e certezas inabaláveis. Primeiro fiquei oca como um cabaça. Depois fui mirrando, mirrando. Até que desapareci.
(A torta, a puta da torta, era excepcionalmente boa.)
(A torta, a puta da torta, era excepcionalmente boa.)
2010/02/14
2010/02/11
Bocadinho
- Vamos encontrar a Maria e a Ana.
- Quem são?
- São amigas da mãe.
- Têm filhos da minha idade?
- Não.
- São casadas?
- Não.
- São solteiras?
- Não.
- Então?
- São namoradas.
- Está bem.
(silêncio)
- Faz-te confusão?
- Só um bocadinho.
(Prefiro partilhar as gracinhas da minha prole a falar do que se passa neste país e, na televisão, o Lobo Xavier, o António Costa e o Pacheco Pereira falam, falam, falam.)
- Quem são?
- São amigas da mãe.
- Têm filhos da minha idade?
- Não.
- São casadas?
- Não.
- São solteiras?
- Não.
- Então?
- São namoradas.
- Está bem.
(silêncio)
- Faz-te confusão?
- Só um bocadinho.
(Prefiro partilhar as gracinhas da minha prole a falar do que se passa neste país e, na televisão, o Lobo Xavier, o António Costa e o Pacheco Pereira falam, falam, falam.)
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