2010/05/17

Pombas

Há sempre pombas na plataforma. Em mim, a vontade de as pontapear. Estivesse eu sozinha na plataforma e não hesitaria. Havia de me esforçar, apurar o golpe, trabalhar a rapidez do gesto, tornar-me numa espécie de guerreira de shaolin, ou coisa que o valha, absorta e confiante. Havia de alcançar o meu objectivo e, por fim, arremessar uma pomba contra a grelha de metal gigante que serve de pavoroso ornamento à estação e que desfoca os homens que, pela tarde, se encontram no descampado da feira popular.

2010/05/12

Lata Mangeshkar


Leitores

Chega um rapaz à estação. Veste um fato escuro e traz pelos ombros uma gabardine cor de camelo. Senta-se num banco. Abre, com acanhamento, uma mala de mão. Tira um estojo de pele que parece uma agenda de secretária ou um enorme estojo de manicura. Não é. É um livro. Olho com estranheza o rapaz e o seu livro. Não gosto de livros electrónicos. Não por os achar anódinos, insonsos, não palpáveis, desinteressantes. Há malucos para tudo e gostos não se discutem. O que me amofina nos livros electrónicos é que apagam todos os sinais que um livro pode dar sobre o seu leitor. E isso é terrível. Impedem-nos de avaliar, rotular, etiquetar os desconhecidos com quem nos cruzamos. Estilhaçam qualquer possibilidade de relacionamento. Ao contrário do que por aí se diz, as pessoas avaliam-se pelo modo como se vestem, pelo modo como se penteiam, pelo modo como comem, falam e também, sobretudo, pelos livros que lêem. Um estafermo, gordo, transpirado, sapatos descambados, o rego do rabo espreitando por cima do cós das calças de ganga, torna-se um encanto, uma autêntica estampa, se tiver em mãos o livro certo. Por exemplo, o último do Mário de Carvalho. Já um rapaz catita, bem apessoado, comedidamente adamado (estão por todo o lado os modernos homens adamados!), de dentes perfeitinhos, derme limpa, barba rala, pode tornar-se um pavoroso mastodonte se tiver nas mãos um romance histórico da Isabel Stilwell. Os leitores lêem-se como se lê um livro. O problema dos leitores de livros electrónicos é que são ilegíveis. Uma pessoa olha para um LLE e sente-se defraudada. O rapaz da estação, com o seu estojo de manicura no regaço, fez-me lembrar as senhoras que encontro no comboio e que forram os livros do Nicholas Sparks para não se sujarem. Ele, como elas, são leitores, o que já não é mau, mas são leitores um bocado foleiros.

Domingo

Domingo. Subo a serra até ao Catujal. A luz da manhã é aguada, triste, cinzenta. Uma névoa cobre tudo, tornando o ar baço e disformes as sombras. No banco de trás, a minha filha dormita. Usa um fato de treino azul, por baixo, um mailot cravejado de estrelas brilhantes. Um homem corre à chuva com um impermeável amarelo. Desce a serra até à beira-rio onde os bairros concertados têm alamedas floridas e ciclovias de macadame vermelho. Aqui, as casas clandestinas nascem aos borbotões, sem ordem, tino, harmonia. Têm vista paro o rio. As paragens da camioneta estão cheias de gente apesar de ser quase madrugada. Ali, um homem de turbante amarelo, ali, outro com o rosto esfacelado, bexiguento, deve ser brasileiro, acolá, perto de um portão, uma negra gorda, vestida de estampados largos, com o cabelo teso, mexe no nariz. A padaria está aberta. A frutaria também. O churrasquinho vaidoso tem uma carrinha de fornecedores à porta. A funerária está fechada. Só os mortos podem descansar até mais tarde no catujal. Os vivos não podem aninhar-se no conforto morno da noite que o sono é um luxo. Uma mulher velha, com uma bata azul, atravessa a passadeira à minha frente. Leva nas mãos um talego com pão. Olha-me com indiferença.

(Não olho com indiferença os subúrbios mais feios de Lisboa. Não os olho com despeito, horror ou sobranceria. Encontro neles beleza. Muita liberdade. É um sentimento insuportável, o meu, uma espécie de caridade, de esmola, uma coisa que faz lembrar virtudes teologais.)

2010/05/10

Sinos

Há uma coisa boa na vinda do papa a Portugal. São os sinos. O sino da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e o sino da Igreja de Moscavide, sempre obedientes, ordeiros e disciplinados, andam num desatino, numa aceleração de repiques festivos, anunciando a chegada do santo padre. Trazem uma promessa solene de felicidade. Não sei falar a linguagem dos sinos. Não me interessa o que têm para me dizer. Gosto só de os escutar.

2010/05/06

2010/05/05

Unhas

A Dulce da contabilidade almoça sempre com o marido no refeitório. Leva-lhe o tabuleiro, tempera-lhe a salada, arranja-lhe o peixe. Ele fala de futebol e de automóveis e só tira as mãos dos bolsos quando tem a paparoca prontinha à sua frente. Chama-se Adão e é chefe do economato. Pela postura, inchada e insuportável, percebe-se que se tem em grande consideração. Julga-se merecedor de certos privilégios e de tantas mesuras. Gerir resmas de papel e contar tinteiros para as impressoras, mais do que o reconhecimento das chefias, confere-lhe estatuto conjugal. Ele é o chefe do economato e do lar. Há que preservar a superioridade do macho e a resignação da fêmea. Estou mesmo a ver a Dulce, ao serão, em frente do televisor, enfiada num roupão fresco de terilene, a cortar-lhe as unhas dos pés. Ele, de cavas, esparramado no sofá de napa, aos gritos cada vez que a pobre lhe corta um espigão. Há mulheres que mereciam ser açoitadas até à morte.

Fortunato

Lavei os dentes até me sangrarem as gengivas, fiz o seretaide, inalei uma poeira branca que atravessou a traqueia e se espalhou pela minha floresta brônquica, apliquei no rosto um creme novo, opalino, quase amarelo, de consistência leitosa, que me suscitou dúvidas e incertezas. Sempre ouvi dizer, talvez sem fundamento, que o esperma tem qualidades milagrosas na área da cosmética feminina. Como a baba do caracol. Espalhei o creme e, por momentos, deixei-me ficar a olhar para o espelho. Dei conta das minhas imperfeições: os pêlos do buço, as sobrancelhas hirsutas, os poros dilatados na testa e no nariz, a pele cansada do sol, envelhecida, o canino inferior do lado direito torto e pontilhado de manchas de tártaro, as narinas dilatadas.

Depois de uma hesitação muito pequena, uma coisa de nada, foram dois ou três segundos, abri a caixa dos comprimidos que está na gaveta do armário. Levei um sanax à boca. Senti-me vencida pela vida. Não tarda nada, sei-o, volto a fumar, a beber, a encharcar-me de comprimidos. Volto a aborrecer-me com o recato da vida doméstica, a nausear-me com a sobriedade dos dias iguais. Não tarda nada, é um instantinho, volto a não tolerar viver apenas para o cumprimento das tarefas maternais. Amo os meus filhos. Com fúria, certo desespero. Quero-lhes bem. Mas não me basta o que têm para me oferecer. Deitei-me com a certeza de que é a concupiscência que dá cabo de mim. Não fora o desejo e a insatisfação e seria uma mulher moderadamente feliz. Li durante duas horas. Consolei-me. Adormeci no preciso instante em que um carro atravessou a rotunda e o clarão dos faróis entrou pelas frinchas dos estores. Dormi como não dormia há muito tempo. Não acordei uma única vez. Não senti o corpo abandonado e vencido que dorme ao meu lado. Não ouvi o assobio longínquo que vem do sistema de ventilação da casa de banho e que, não sei porquê, me lembra desfiladeiros e desertos de terra vermelha.

Não escutei o meu filho, no quarto ao lado, pedindo o biberão, soluçando a sua solidão até voltar a adormecer, cansado e suado. Não me levantei para percorrer, na penumbra, os corredores do apartamento até à cozinha. Tropeçar num triciclo, apalpar paredes, ligar o interruptor, uma luz de velório cobre a noite, sentir o frio dos mosaicos, abrir a porta do frigorífico, meter à boca dois morangos, um quadrado de chocolate, duas fatias de presunto, um cornichon. Dormi como não dormia há muito tempo. E voltei a sonhar. Sonhei com um camionista de rosto flácido. Chamava-se Fortunato e tinha um camião encarnado.

2010/04/24

Adeus

2010/04/09

Irene

A primeira vez que Irene topa com as raparigas da vila lambendo, envergonhadas, os cones de gelado chega a casa animada com aquela promessa de frescura. À hora do jantar, enquanto Alberto Miguel se serve de um assado de galinha, recorda-lhe a geladaria que frequentavam em Lisboa. Ficava num gaveto da Rua da Escola Farmacêutica, perto escola de enfermagem. Lembras-te, Alberto?O marido lembra-se, lembra-se até muito bem, mas não partilha o entusiasmo. Cauteloso, com candura, avisa-a que deve evitar comer ou beber nas lojas da vila. Os locais - é a expressão que sempre utiliza - são pouco asseados. É imperioso não esquecer que ali as doenças espreitam por todo o lado. Os mosquitos trazem a morte. As moscas a cegueira. Se queres gelados pedes à rapariga para os fazer em casa com água fervida. Irene escuta-o em silêncio. E trincha o peito da galinha.

Sabe que o silêncio, o seu silêncio, é condição primordial para um casamento feliz, sem sobressaltos, discussões, contratempos. O marido é um homem trabalhador e educado. Tem a vida organizada ao mais ínfimo pormenor, planeada, ordenada, espartilhada em regras, deveres, obrigações. Irene não se incomoda com o rigor do marido. Habituada a uma infância ruidosa – eram muitos irmãos e irmãs vivendo numa casa pequena -, aprecia que alguém se encarregue de lhe ordenar a rotina. De manhã à noite, o seu dia é uma sucessão previsível gestos e tarefas previamente traçadas pelo marido. O banho toma-se sempre pela manhã. O almoço é servido ao meio-dia. Os fatos são todos azuis. As suas camisas têm de ser coradas ao sol durante um dia. O armário das bebidas só se abre se chegar alguma visita. Não se deve ler na cama.

As opiniões são como as rotinas. Nunca se alteram ou discutem. Irene encontra inúmeras vantagens práticas na disciplina do marido. Em sua casa, os objectos são como as rotinas e como os assuntos. Também eles têm um lugar definido, nunca se perdem, nunca se escondem. Irene sabe sempre em que gaveta está o corta-unhas e, desde que casou, nunca mais lhe aconteceu perder o boletim de vacinas ou não saber, com exactidão, o dinheiro gasto nas compras semanais. Vive na certeza de ser feliz.

2010/04/08

Dez mil metros



(Voltei a correr. Que bom. Gosto mais de correr do que escrever. Ou ler.)

2010/03/18

Março

Enfio a mão no jarrão da entrada. Espreito dentro da terrina chinesa colocada no centro da mesa da sala de jantar. Espanto-me sempre com a quantidade de coisas que a minha mãe consegue guardar dentro dos bibelots lá de casa: lápis de pintura estalada, canetas, clips, papéis, corta-unhas, alfinetes, agulhas de crochet, cadeados, porcas e parafusos, fotografias, elásticos, brincos, pulseiras, batons do cieiro, bulas de medicamentos, brinquedos pequenos dos netos. Uma vez, há já alguns anos, até lá encontrei um dos dentes de ouro do meu pai. Fiquei a olhar para ele e a lembrar-me do embaraço que sentia cada vez que soltava uma gargalhada. Parecia um pirata, um cigano, um maltês, um bandido qualquer. Ele a rir-se, feliz, eu a desejar que fechasse depressa a boca para que a europeia decência lhe voltasse ao rosto. A verdade é que a tolice da minha pré-adolescência me fazia ter vergonha do dente de ouro do meu pai e também dos chinelos que ele usava nos pés aos fins-de-semana. Na altura, os pés usavam-se cobertos, escondidos em sapatos de vela ou sapatilhas da le coque sportif. O meu pai, de pés escancarados, os dedos feios e amarelecidos, ofendia-me com os seus hábitos de gente do sul. Uma autêntica pornografia podológica.
Pego agora numa caixinha de argentaria, vinda de Lourenço Marques. A travessia do oceano, o vento salgado, deixou-lhe uma cor baça, triste. Verto tudo o que lá está dentro. Espalha-se o interior pela madeira de pau-preto. Tanta coisa, tanto quase-lixo. Não sei o que procuro. Não procuro nada. Quero apenas certificar-me que nada mudou nesta casa, que os objectos deste apartamento continuam guardiões das minudências dos dias dos meus pais. Um cheiro estranho de coisas velhas solta-se daquele bricabraque miniatura. Mistura-se o cheiro a ferrugem, que vem das chaves velhas da garagem, com o cheiro doce de um pacotinho de sementes de anis que a minha mãe trouxe do mercado de Margão. Março 2009

(os Marços da minha vida são sempre iguais.)

2010/03/12

Parece que vai chover.

Era o tempo dos cisnes, dos patos, das folhas da árvore de borracha que cheiravam a manteiga, do Jardim do Torel onde viviam todos os bichos-da-seda da cidade, enrolados sobre si, alheios ao ruído e ao frenesim. Era o tempo dos sonhos. Adormecia e, na escuridão, apareciam árvores com copas cor de cobre, milheirais, precipícios, gigantes que tinham sempre o rosto meigo de um primo afastado que estava internado no Júlio de Matos. Também eu, por vezes, aparecia na escuridão da noite e dos sonhos. Usava socas e tinha as unhas roídas. Nesse tempo não percebia ainda o meu corpo. Sabia apenas que se apertasse as coxas com muita força, durante algum tempo, até ao limite da exaustão, o meu avesso, o meu lado de dentro, seria invadido por uma crescente onda de calor que, pouco depois, se transformava numa sensação única, a melhor que até então experimentara. Aquela sensação durava pouco, era um arrepio, uma vertigem, uma explosão, mas era de uma intensidade tal que valia bem o esforço físico que exigia de mim. Depois da exaustão e do prazer chegava um cansaço morno, muito bom, que me deixava o corpo adormecido e apaziguado. Fazia-o em segredo porque era uma coisa boa e, naquele tempo, todas as coisas verdadeiramente boas - mascar pastilhas elásticas, beber coca-colas, brincar no pátio, experimentar os sapatos de saltos altos da minha tia, enterrar as mãos na terra, pegar na minha irmã recém-nascida ao colo - eram proibidas. Fi-lo durante a infância e a adolescência. Sempre em segredo. Partilhava o quarto com a minha irmã. Esperava que ela adormecesse. Na escuridão, em vez dos gigantes e das árvores com copas cor de cobre, apareciam então mãos que percorriam o meu corpo com vagar e urgência. Nunca percebi se a minha irmã, aconchegada no seu sono, escutava o restolhar dos lençóis e os gemidos quase inaudíveis que, volta e meia, não conseguia calar. Só sabia que a minha escuridão era diferente da dela.
Durante muito tempo, uma eternidade, achei que era a única rapariga do mundo que me masturbava. Sabia que os rapazes o faziam. Falavam entre eles sobre o assunto, vangloriando-se, de modo um pouco absurdo, das raparigas que imaginavam enquanto se tocavam freneticamente. A masturbação (palavra proscrita naquela altura no universo feminino e agora também) era permitida aos rapazes porque era uma inevitabilidade da sua natureza. Revelava virilidade e mostrava o lugar que homens e mulheres tinham na ordem do mundo. Os homens masturbavam-se, as mulheres não. Ponto. O prazer que uma mulher sozinha arrancasse do seu corpo era pecado, era uma coisa muito suja, muito porca, sinal de desvario, de transvio. Cabia aos homens inaugurar a vida sexual das suas namoradas e esposas. Na verdade, devia ser assim porque eu não conhecia uma única rapariga que se masturbasse. As minhas amigas nunca falavam do assunto e faziam um esgar de sincero nojo se a palavra “masturbação” fosse pronunciada. Convenci-me, pois, que era a única rapariga do mundo que pensava em sexo. Esse sentimento de orfandade, de pária, de indigente, deixava-me num estado de inquietude e incerteza. Por um lado, cedia aos ditames dos bons costumes e achava que estava perdida. Lastimava a minha pouca sorte. Queria ser como as outras raparigas que viviam dentro de corpos mortos. Essas raparigas, já mortas, morriam todas as noites um bocadinho mais. Era assim que eu queria ser. A vida de uma mulher morta é um sossego. Às vezes, porém, dava por mim a achar que o meu segredo tinha um lado bom: a prática de tantos e tantos anos de masturbação havia de me tornar mais tarde numa amante eficiente e competente.

Percebi que era uma mulher normal, alguns anos mais tarde, quando vi o primeiro filme do Steven Soderbergh. Foi uma revelação. Afinal havia mulheres como eu, mulheres que gostavam de sexo e que não esperavam pelos homens para cumprir os seus desejos. Suspirei de alívio. Ainda por cima, as mulheres desse filme, são só duas, eram muito mais bonitas e interessantes do que aquelas com quem me cruzava no bairro e na universidade. Tal facto consolou-me. Apaixonei-me naturalmente pelo James Spader, o impotente. Ainda hoje, quando penso no assunto, acho que o parceiro ideal para mim devia ser assim, impotente. Mas isso são conversas que ficam para outra ocasião. Nesse verão pedi à minha mãe que me costurasse um vestido largo, tipo bata, com botões à frente, igual aos que a Andie MacDowell usa no filme. Acreditei que um dia havia de amanhecer perto de alguém a quem pudesse dizer “parece que vai chover” e que esse alguém saberia ler tudo o que essas palavras não dizem. Hoje, passados tantos anos, lido bem com o meu onanismo. Faz parte de mim. É uma competência. Uma espécie de qualificação.

2010/03/09

Sex, Lies and Videotape

Caos

Há um balcão de cafés no piso inferior da estação de comboios. Dentro desse balcão costuma estar um empregado jovem, feio, magro e enfermiço. O homem do balcão, na realidade, não é enfermiço. É sadio e ligeiramente balofo. Esclareço: encontrei a palavra “enfermiço”, pela manhã, no livro que ando a ler e apanhei-a. Sou uma exímia caçadora de palavras. Tenho-as em cativeiro durante algum tempo. Depois liberto-as. Adiante. O empregado usa o cabelo arrepiado, como se fosse um ouriço, e no sobrolho direito traz a cicatriz de um piercing antigo. Movimenta-se com rapidez e eficácia. Mantém as bancadas impecavelmente limpas e rutilantes. Os escaparates das pastilhas elásticas e das batatas fritas estão sempre alinhados em cima da arca de gelados. Tira bicas e galões mornos para os passageiros que param no seu balcão antes de regressarem aos subúrbios. Massamá, Mem Martins, Cacém, Amadora, Bobadela. São sobretudo mulheres. Elas riem das suas graçolas e comentários. Nunca é grosseiro ou inconveniente. Trata por “donas” as mulheres que já conhece. A maior parte delas leva o rosto cansado, o cabelo desgrenhado do vento e da chuva, as camisolas com borbotos, as mães ásperas. Não usam botas de cano alto. Não sabem que este ano está na moda usar franja. O rapaz do cabelo arrepiado sabe que tem um papel importante na vida das mulheres que apanham os comboios da tarde. O café é um pretexto para, por breves instantes, respirarem fundo antes de mergulharem no caos doméstico.

2010/03/07

2010/03/05

Goa

Não sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo, chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na sua penumbra só eu existia.
Setembro, 2007

2010/03/04

Monsoon Wedding

Trela

Cheguei cedo a casa. A tempo de ouvir a jornalista falar na comissão de ética para alguns deputados. Pode não se apreciar o estilo, a forma, a agressividade, mas não se devem ignorar factos. A liberdade exige, devia exigir, uma atitude séria. Cheguei cedo a casa. A tempo de ver a deputada fazer esgares enquanto a jornalista falava. Achei-a feia, com ar de rainha má, seca, velha, mesquinha, um apêndice dispensável, eu que sempre gostei dos seus olhos. Cheguei cedo a casa. A tempo de ver a deputada levantar-se, com sobranceria e arrogância, por duas vezes, enquanto a jornalista falava. Grandessíssima puta, disse. E mudei de canal.

(Deve ser triste viver com uma mordaça e com uma trela.)

2010/03/03

Pensão Coimbra

Há muitos anos, chegou, vinda de Goa, uma prima afastada do meu pai. Queria ser freira. Vinha para o lar das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Ou coisa que o valha. Chamava-se Maria de Lurdes. Era jovem, pálida, quase branca, cheia de sardas, o cabelo sempre preso numa trança grossa. Os lábios eram carnudos e tinham a cor das framboesas frescas. Era bonita se quisesse ser bonita. Achei-a insuportável, uma mosquinha morta, mal falava. Às vezes, dava por ela a fixar-me com um olhar triste e um sorriso pateta nos lábios. Esteve uma semana em nossa casa. O meu pai levou-a a visitar Fátima, o Cristo Rei e a comer queijadas em Sintra. Depois, conforme combinado, foi entregá-la ao cuidado das freiras. Soube-se, passado pouco tempo, que tinha mandado às ortigas a vocação religiosa. Afinal não lhe interessava uma vida de clausura, orando a deus nosso senhor, prestando auxílio aos pobres, ensinando o pai-nosso aos meninos da catequese e aos adultos do catecumenato. Estava, havia dias, na Pensão Coimbra, ali na Praça da Figueira.

Tinha vindo da Índia com um homem mais velho que abandonara a mulher e dois filhos pequenos em Margão. Custou-me acreditar quando a minha mãe me contou, em surdina, com a gravidade que o assunto lhe merecia, que a Maria de Lurdes era amante de um homem casado. Imagina tu, com aquele ar de quem não faz mal a uma mosca e a estragar uma família!, disse-me, piscando os seus olhos pequeninos. Passei naquele instante a olhá-la, à Maria de Lurdes, com outros olhos. Com certa admiração. Afinal era mulher de carne e osso, capaz de sentir a urgência do desejo e de lutar por ele. Toda a gente se escandalizou. De Goa chegaram telefonemas longos e doridos. O meu pai ficava ao telefone, com a carranca fechada, a beiçola muito estendida, escutando os lamentos e os urros da família mais próxima da Maria de Lurdes. Pediam, por tudo, que a salvasse de uma vida de perdição e pecado. Em Goa não há divórcios nem separações. Não há vergonha maior para uma família do que um casamento desavindo. Um divórcio é muito, muito pior, do que uma mulher só dar à luz meninas. O meu pai aceitou a missão e certa noite, lembro-me como se fosse hoje, rumámos à pensão Coimbra. Era uma noite de Inverno. O Natal chegaria em breve e as ruas estavam já iluminadas.


Fiquei no carro à espera com a minha mãe enquanto o meu pai subiu para falar com os amantes. Imaginei-os, sem falar português, vindos da pacatez de uma aldeia goesa para o turbilhão de uma cidade que não compreendiam. Imaginei-os, transidos de frio, deitados numa cama de pensão, a escuridão húmida do quarto cobrindo-lhes o corpo. Imaginei-os, nus, amando-se com embaraço e tristeza. Tudo aquilo era profundamente miserável e desolador. Tive vontade de chorar. O meu pai chegou pouco depois. Não conseguira convencê-los a voltar. Soubemos, passado algum tempo, que tinham ido para Londres. Trabalharam na cozinha de um restaurante. Ela lavou loiça até as suas mãos gretarem e sangrarem. Ele tratou dos desperdícios até o cheiro do lixo se entranhar nas fibras da sua roupa de agasalho. A dureza da vida que levaram em Londres fez com que o seu amor acabasse. Acontece muitas vezes. Só nos livros e nos filmes é que o amor vence montanhas, ultrapassa dificuldades, é enorme, belo e eterno, como um diamante. Na vida real, o amor não tem essa grandeza nem esse brilho. É perecível. Esgota-se. O amor vale pouco. O goês voltou para a mulher e para os seus filhos. A Maria de Lurdes voltou para sua aldeia. A família, muito sábia, recebeu-a em silêncio. Nunca falaram sobre o assunto. A vida continuou como se nada tivesse acontecido.

2010/03/02

Amantes


Casos

Manhã cedo. Uma mulher explicava às amigas que o seu vizinho do quinto andar, casado, com dois filhos, andava a dormir com certa loira que também costumava apanhar o comboio das oito e vinte. Têm um caso, concluiu. A mulher falava muito baixinho. Assuntos de encornanço devem falar-se com discrição, com cuidado e tento na língua, que a gente nunca sabe quando a desgraça nos bate à porta. Tive pena do vizinho do quinto andar. Não por as mulheres do comboio virem, logo pela manhã, a escarafunchar na sua vida íntima. Meteu-me pena que o homem tivesse um caso. Antigamente, os homens não tinham casos. Tinham amantes. E tudo era diferente. Ter um amante é uma coisa quase literária. Infelizmente, os amantes estão em desuso. Estão fora de moda. Já não se usam. Ninguém diz que tem um amante. As pessoas agora têm casos. Conhecem-se na internet, nos ginásios, nos escritórios, nas empresas. Ter um caso é uma coisa muito ordinária. Um dia, que seja infiel, exijo ter um amante. Não sou mulher de ter casos.

2010/03/01

Espanhola

Fui à D. Bia comprar outro jornal. Ando farta do Público. Reparei na capa da revista deste mês. Acho humilhante ser uma espanhola a fazer a primeira capa apelativa da Playboy portuguesa.

Cavalos

Li o que a Isabel Coutinho escreveu no Público sobre as correntes de escrita, na Póvoa do Varzim. Percebi que o ambiente que se vive nestes encontros de escritores não é muito diferente do ambiente que se vive na maior parte dos escritórios de advogados de Lisboa. Enfim. Entretanto, isso é que não me sai da cabeça, quatro cavalos pastavam, pela manhã, na fronteira que divide Chelas do Bairro do Armador.

2010/02/25

Orlando Zapata Tamayo

Morreu um operário, pobre e preto, como lembrou ontem certo analista de política internacional. Enquanto morria, depois de dias de agonia, o corpo minguando, minguando, transformado num espectro, numa arma sem préstimo, em poeira, poalha, em nada, outro operário, de barbas, moderadamente rude, é o que convém aos operários modernos e respeitáveis, confraternizava com os seus algozes. Em silêncio. Que as palavras são bens escassos. Devem poupar-se. O mundo é dos cobardes.

Angústia

Apanhei um táxi para a rua do Quelhas. O motorista cheirava a corpo mal lavado. Trazia a roupa muito usada. O suor de muitos dias entranhado nas fibras de poliester. O cabelo comprido, oleoso, com crostas grossas. Cheirava a miséria, a corredores sombrios, a quartos alugados ao mês, cheirava a ninhos de baratas, a ratos cegos e pelados correndo nas entranhas do prédio em ruínas. Cheirava a noites de solidão. Cheirava a dias de solidão. As noites de solidão são medonhas. Mas são toleráveis. Piores, muito piores, são os dias de solidão. Lembrei-me de um conto que li, há alguns dias, de Tchecov.

(Também gosto das Variações Golberg. Gosto mais das Tocatas.)

2010/02/23

Alegre

Já aqui contei. Nas últimas presidenciais, estive tentada a votar no Manuel Alegre. Por causa das canções do Adriano Correia de Oliveira. Gosto tanto deles que, certa vez, num hipermercado, mergulhei num caixote onde estavam cds em promoção. Aborreceu-me ver ali o Adriano Correia de Oliveira e o Manuel Alegre no meio de tão medíocre companhia. Trouxe os sete cds que lá estavam. Há quem resgate cães e gatos e pretinhos. Coitadinhos. Resgato cds. Votaria no Manuel Alegre apenas por gratidão. É um motivo tão bom como outro qualquer. Só que, certa noite, abri o televisor e, ao lado dele, estava o Pedro Abrunhosa, dando-lhe o seu apoio. Deu-me uma sulipampa. Fiquei par ali deitada no chão, tremendo pernas e braços, revirando os olhos. Não consigo votar na mesma pessoa em que o Pedro Abrunhosa vota. E não votei.

Nobre

Fiquei contente com a anunciada candidatura do Fernando Nobre. Não sei o que o homem pensa sobre a maioria dos assuntos, mas isso, nos dias que correm, pouco interessa. Depois, li num jornal qualquer, que a Margarida Pinto Correia vai ser a coordenadora da sua campanha. Perdi o entusiasmo. Não tarda nada tem a Bárbara Guimarães a apoiá-lo.

2010/02/21

Sangue

Fiquei parada a olhar o coelho em cima da bancada da cozinha. O corpo vinha ainda ensanguentado e estava encolhido como se fosse um feto dentro da barriga da mãe. Mas o que mais impressionava era a cabeça. Parecia a cabeça de um menino morto. E tinha olhos escuros como os dos meus filhos. Coloquei o bicho por baixo da torneira e chamei o R. Corta-lhe a cabeça. Não sou capaz de o arranjar se ele estiver a olhar para mim. E estendi-lhe um cutelo. Desviei o olhar. Escutei o ruído da faca e o baque da cabeça caindo no caixote do lixo. Voltei a ficar sozinha. Enfiei as mãos nas entranhas e senti o coração, o fígado. Arranquei vários pedaços de gordura esbranquiçada. Piquei alhos, ervas. Reguei-o com vinho tinto. Esfreguei-lhe o corpo com sal. Deixei-o em cima da bancada, aninhado numa travessa de vidro, coberto com papel de alumínio. Já lavei muitas vezes as mãos. Ainda cheiram a alhos, vinho e sangue.

2010/02/20

Alessandra Sanguinetti




Torta de Cenoura

Fui ao celeiro comprar uns comprimidos para emagrecer. A fome fez-me comprar uma fatia de torta de cenoura que se atravessou no meu caminho. Eu bem tentei olhar apenas para os escaparates dos suplementos que tudo tratam, das cápsulas que amenizam qualquer achaque, dos complexos vitamínicos que solucionam todos os padecimentos. Entretenho-me muitas vezes a deambular pelo corredor dos suplementos. Descansa-me saber que, da obstipação à incontinência, da calvície à frigidez, do excesso de peso à fadiga, há sempre uma solução fácil para os nossos problemas. Mas, sei lá como, os meus olhos desviaram-se para a triste ilha dos pastéis de algas, dos pães de arroz, dos croquetes de soja. Lá estava, no meio daqueles pitéus, a tal fatia de torta de cenoura. Sabe deus que, de todos os bolos que existem, nenhum me desperta mais a gula do que os que são feitos com cenoura. Os bolos, as tortas, os sonhos de cenoura ganham uma cor, uma textura, um paladar único. Já na rua, os comprimidos para emagrecer enfiados no bolso do sobretudo, antes de trincar a fatia de torta (gosto de comer enquanto ando), pus-me a ler a lista dos ingredientes: cenoura, canela, geleia de milho, farinha tipo 65, coco. Tal como desconfiava, nem uma pitada de açúcar. Nem uma colherzinha. Nem sequer uns salpicos de açúcar mascavado. Insultei, de imediato, a comida macrobiótica, os gurus da comida saudável, os fundamentalistas que desejam viver até aos cem anos uma vida insuportavelmente sã e regrada, enfardando feijoadas de seitan e lasanhas de tofu. Lembrei-me, então, de uma colega do banco, reformada já há muito tempo, a Albertina. Era um amor de pessoa, gentil e generosa, muito delicada e amável. Fotografava muito bem. Tinha um marido mais novo que era professor universitário. Amava-o com muita serenidade. Um dia a Albertina trouxe o filho ao banco e a secretária da direcção ofereceu ao menino um pacotinho de pastilhas de chocolate. A Albertina agradeceu a oferta, muito gentil, e explicou que os seus filhos não comiam doces, nem rebuçados, nem caramelos, nem chocolates, nem pastilhas. Rematou, dizendo que os miúdos nunca comiam dessas coisas e, por isso, rejeitavam o sabor enjoativo, excessivo dessas gulodices. Quando me contaram a história, imaginei o menino já com as mãos no ar, o gesto de aceitação interrompido, fixando os olhos na secretária e no pacotinho de pastilhas de chocolate, escutando a explicação da mãe. Achei aquilo tudo triste… Tão triste. Uma criança que não conhecia o sabor do chocolate. Lembrei-me, pois, da Albertina e do seu filho, que cresceu comendo gelatinas azuis de ágar-ágar e boiões de sobremesas de soja, quando meti a fatia de torta de cenoura à boca. Foi então que, ali, no meio da rua mais feia de cidade, onde vive um cristo muito alto e loiro e as árvores se enchem de flores cor de arando, se assistiu a um fenómeno estranho. Pelos poros da minha pele escaparam-se opiniões antigas e certezas inabaláveis. Primeiro fiquei oca como um cabaça. Depois fui mirrando, mirrando. Até que desapareci.

(A torta, a puta da torta, era excepcionalmente boa.)

2010/02/14

Ornatos Violeta Dia Mau

(tenho outro blogue.)

2010/02/11

Bocadinho

- Vamos encontrar a Maria e a Ana.
- Quem são?
- São amigas da mãe.
- Têm filhos da minha idade?
- Não.
- São casadas?
- Não.
- São solteiras?
- Não.
- Então?
- São namoradas.
- Está bem.
(silêncio)
- Faz-te confusão?
- Só um bocadinho.

(Prefiro partilhar as gracinhas da minha prole a falar do que se passa neste país e, na televisão, o Lobo Xavier, o António Costa e o Pacheco Pereira falam, falam, falam.)

Mandela


2010/02/08

Maria Adelaide

Aconselhou-se com a mãe. Não tinha mais ninguém a quem recorrer. A mãe escutou-a na vivenda de azulejos cor de caramelo. Explicou-lhe com inesperada clareza a natureza instrumental do casamento: era apenas um meio para se alcançar um fim. Maria Adelaide encontrou certo conforto no conselho. Chegou-se ao marido e disse-lhe que podia suportar o resto desde que tivessem um filho. Foi mãe aos vinte e nove anos. A menina que nasceu era muito bonita. Maria Adelaide rejubilou. Achou que a beleza da filha vingava o seu passado de permanente gozo: o lábio leporino à nascença, a mãe assim como era, a gargalhada do primo Renato no quarto das bonecas, o despeito das primas, o marido olhando imagens de homens nus. As primas, Arlete e Gorete, estranhavam a extraordinária beleza da menina. Não percebiam como podia a Laidinha ter tido uma menina tão linda. Mais parecia filha da Broke Sheilds. Descobriu-se, pouco depois, que a menina sofria de atrasos graves. Mal falava e babava-se muito. As primas voltaram a visitá-la e a consolá-la. Conseguiam suportar a beleza da filha agora que a sabiam tolinha. Deus voltava a gozá-la. Pela quarta vez.

(bocadinho do tal conto.)

2010/02/07

Mulheres

Vi a Ana Free de vestidinho, muito elegante, rapando um frio medonho, para ficar bonita na fotografia ao lado de Sua Excelência. Vi também a Catarina Portas sorrindo, linda, entre mulheres. Aparentemente só lá estava um homem. Sua Excelência quis honrar as mulheres. Ena. E sorriu para os fotógrafos. Depois imaginei a Bárbara Guimarães terricando umas trouxas de ovos com sabayon de amêndoa ou, quem sabe, um creme brullé de tangerina ou, talvez, um crocante de pêra bebada, enquanto Sua Excelência esgatanhava num jornalista que tem cara de doninha. O mundo está cheio de gente absolutamente magnifica.

2010/02/04

PJ Harvey - Good Fortune

Isabela

Há dias, a mana aconselhou-me o blogue da Isabela Figueiredo. Carreguei o cenho e, com petulância, expliquei-lhe que não lia blogues. Depois, no dia a seguir, parecia provocação, enquanto esperava a hora de saída da minha filha, escutei a entrevista que a autora do tal blogue dava ao Carlos Vaz Marques. A sua voz entrou-me pelo corpo todo. Escutei-a falar de um país e de um tempo que ainda foi meu. O colonialismo era o meu pai, explicava ela. Não vou ler o blogue da Isabela Figeuiredo, que uma mulher deve manter-se fiel às suas manias e idiossincrasias, mas vou ler, sei-o, com sofreguidão, o livro que escreveu.

Variações Goldberg

Li um livro da Iris Murdoch. Dava o corpo, vendia a alma ao diabo, cortava uma mão, assistia a vários programas de entrevistas da Bárbara Guimarães, rapava o cabelo, fazia o que fosse preciso, para escrever assim. Logo de seguida li um livro da Ana Teresa Pereira. Pensava que existia apenas uma Mafalda Ivo Cruz na literatura portuguesa. Afinal há duas. E calo-me, estrangulo os dedinhos, por consideração a quem aprecia escritores que gostam de descrever ambientes atafulhados de aprumo intelectual, onde se fode ao som das variações goldberg. Criada nos arrabaldes, reconheço, sou uma pobre criatura iletrada, boçal e suburbana. Os escritores assim dão-me náuseas. Prefiro, de longe, a MRP (nunca lhe li nenhum livro, mas prefiro.)

Tarantela

Estava ali no largo D. Estefânia, trincando uma madalena da Tarantela e lembrando os entardeceres da minha infância. Ao fim do dia, vasculhava a mala da tia Dé. A mala reflectia a tristeza e a solidão da vida que levava. O conteúdo estava sempre impecavelmente organizado. Reduzia-se a meia dúzia de objectos. Uma carteira de fole, plastificada, para guardar os documentos. Um porta-moedas. Uma caixa de guardar comprimidos, muito pequenina, incrustada com uns cristaizinhos coloridos. Uma escova de cabelo. Um corta unhas. Pouco mais. Revirava a mala da minha tia e não encontrava papéis soltos ou caixas de chicletes vazias. Não havia lenços de papel amarrotados, nem batons velhos. Nem sequer o passe social ali se perdia. Estava sempre enfiado na bolsinha lateral, seguro pelo fecho eclair. O espaço daquela mala pequena, em função da organização, do cuidado meticuloso, era imenso e sobrava para qualquer coisa que não chegava. Espreitava a mala da minha tia e não me dava conta do vazio da sua vida. A insistência com que falava do Dr. Lucas, o cirurgião de São José, que tinha um filho deficiente, não me mostrava o amor que lhe tinha. Esse amor que não chegava. Nunca se cumpriu. Mais triste do que amar um homem que não nos quer é amar um cobarde que nos quer, mas não luta para nos ter. Porém, naqueles tempos, pouco me importava a angústia e o amor não cumprido da minha tia. Revirava-lhe a mala com um propósito definido. Muito concreto e interesseiro. Ela trazia, quase sempre, qualquer coisa que comprava no caminho do hospital: tabletes da regina, sombrinhas de chocolate, bolos de arroz, palmiers e madalenas. Eram os bolos e os chocolates que eu procurava na sua mala.

Estava ali no largo, tão feliz, comendo uma madalena da Tarantela, lembrando tudo isto, confortada com o amor que tenho à minha tia, quando encontrei uma amiga que não via há muito tempo. Deixei de lhe falar. Já não sei porquê. Perguntou-me pelos filhos. Respondi-lhe evasivamente. Trocámos meia dúzia de palavras. Esforcei-me para lhe sorrir. Foi então, assim do nada, de uma forma extraordinária e directa, que ela disse que me achava egoísta. E sorriu, com um misto de desdém e piedade. És profundamente egoísta, disse-me. No preciso instante em que as palavras lhe saíram da boca, um pardal, que dava saltinhos, na balaustrada de uma varanda, estremeceu. Ficou tão aflito que largou um piar manso de pássaro pequenino. O rapaz da banca de jornais, que não tinha dentes, espreitou por cima das revistas da vida social a ver se aquela conversa descambava numa discussão decente que lhe alegrasse o dia mortiço. Por breves momentos, pensei esbofetear a minha amiga. Ou afogá-la na água esverdeada do lago que fica no meio do largo. Ou esfregar-lhe a madalena no rosto. Não fiz nada. Percebi que não me aborrecia o facto de me chamar egoísta – sou - mas apenas o atrevimento e a coragem de o fazer.

2010/01/19

Et moi dans mon coin

Tarde

No cabeleireiro, enquanto a menina Olivia me esticava o cabelo, numa revista, topei com as tais fotografias da Clara Pinto Correia. Não são provocadoras ou aliciantes. Não são sequer bonitas. São só desinteressantes. O orgasmo feito numa coisa qualquer. O marido da Clara Pinto Correia poderá ter maravilhosas competências - a sua língua, a ponta dos seus dedos mãos, a sua voz - mas é um mau fotógrafo.

Manhã

Deviam ser oito horas. O apeadeiro estava ainda mergulhado na neblina matinal. O ar da manhã pareceu-me fantasmagórico e insólito. E, no entanto, olhando em redor nada destoava dos outros dias: as ervas da berma estavam perladas de orvalho, os passageiros chegavam encolhidos nos seus abafos de inverno, os minutos de atraso dos comboios eram lançados, com precisão, por uma voz de mulher, duas gaivotas grasnavam sobre o nicho do prédio amarelo onde vive uma nossa senhora de fátima. Olhando para o chão da plataforma percebia-se, porém, por que a neblina anunciara que aquela seria uma espera diferente. Estava repleto de caracóis e lesmas. Ao contrário dos que se encontram, aos cachos, pelos campos, durante o verão, estes apresentavam uma coloração diferente. Eram escuros como a terra. Eram muitos, de vários tamanhos, e, com o vagar que lhes é próprio, arrastavam-se das ervas que ficam do lado de lá da estação para os carris. Aqueles bichos, percebia-se, tinham um propósito, um objectivo. Talvez se tratasse de um suicídio colectivo. Muitos, porém, não chegavam ao seu destino. Eram esmagados pelos passageiros que vinham apressados. Só se apercebiam da sua existência quando escutavam o barulhinho das suas conchas quebrando. Era como se pisassem folhas secas.

2010/01/16

57

Depois de o escutar percebo duas coisas. Primeiro, nasci no tempo e no lugar errado. Vivo permanentemente com esta sensação de alheamento, segura de que noutro tempo e noutro lugar tudo seria diferente. Em vez de 37 anos, deveria ter 57 anos. Em vez deste lugar frio, de gente pálida e macilenta, deveria viver, quentinha e feliz, do outro lado do oceano. Segundo, quando me cruzar com alguém, para averiguar do seu grau de compatibilidade, exigirei que me responda ao seguinte questionário: 1) Qual o nome do pai e da mãe do Chico Buarque ? 2) Indique o nome de uma das duas canções do seu primeiro disco. 3) Problematize acerca das suas relações com a Elis Regina? 4) Indique o nome do seu clube de futebol e da escola de samba preferida. 5) Quem foi determinante para ele deixar de beber? 6) Qual o nome do seu cunhado famoso, temperamental, e em que contexto conheceu a sua irmã Miúcha? 7) O que queria ser quando era pequeno? 8) Indique, pelo menos, cinco canções da Ópera do Malandro. 9) Indique as três canções da sua vida.


(Tenho uma irmã e duas amigas. Uma delas é a Maria Emília que entrou na minha vida, era eu ainda menina, e a vi em cima de um palco. Partiu hoje novamente para o Rio de Janeiro. Deixou-me cá.)

Roda Viva - Chico Buarque

(o que eu gosto da rapariga do apito.)

Cholé

Há blogs que cheiram a cholé. É um fedor que não se pode. Cheiram a pés enfiados em sapatos baratos comprados na Bheska do Forum Montijo. Por acaso, por falar em Bheska, acidentalmente, descobri por lá umas sandálias douradas que não me saem da cabeça. Mas, depois de comprar dois pares de sapatos italianos, caríssimos, custa-me andar de cavalo para burro, ou melhor dizendo, de égua para mula, e comprar sapatos feitos na Roménia, na Índia, ou na Turquia. Eu cá não pactuo com a globalização. Nem com a miséria doutros povos. Nem pensar. Era o que mais faltava. Adiante. Voltando aos blogs, outros há que cheiram a partes íntimas mal lavadas e suor. Um horror de podridão. Um cheiro nauseabundo. Outros cheiram a bafio, a mofo, a bolor. Outros cheiram a nádegas. A rabo. É lá, nos blogs-nádegas, que habitam as bichas solitárias, tão modernas, comendo sushi e sashimi com sofreguidão e tricotando, com lãs amarelas e rosa ciclame, a tristeza das suas vidas. Outros não têm cheiro. São assépticos, inodoros, incolores, inexistentes. Outros são transparentes que é coisa muito diferente. É bom ser transparente. Como a água que se bebe. Outros cheiram a sarcófago, a caixão, a ataúde de pinho envernizado. Outros, porém, cheiram bem. Cheiram a azul, a mar e a embondeiros. Cheiram a espirais nocturnas de fumo, chão encerado e cerveja preta.

(Escrito em Março de 2006, altura em que acompanhava alguns blogues e fazia do cu três bicos para escrever com pedantismo e acrimónia. Queria mostrar a minha singularidade. Ferir com a virulência, a crueza e a coragem da minha escrita. Eu que sou um doce de pessoa. Patético. Desde então deixei de ler blogues. Leio o meu que se tornou num diário escancarado. Venho para aqui. Para a vitrine. Às vezes, sinto-me uma puta. Outras, não. Confesso-vos: desprezo quem escreve em blogues, mas, ainda mais, quem, como vós, perde tempo a lê-los.)

2010/01/13

Lixo do Leblon

E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.

Gilberto Gil e Caetano Veloso

2010/01/12

Bang Bang

Fecaloma

Assustei-me quando caiu o muro de Berlim. O mundo, nessa altura, dividia-se de forma simples. A fronteira clara que se estabelecia entre os bons e os maus facilitava-me muito a vida. De um lado estavam os bons. Do outro os maus. É certo que os bons podiam ser maus e os maus podiam ser bons. Mas isso não me interessava nada. Bastou-me escolher um dos lados da barricada para que, aos meus olhos, esse se tornasse o lado dos puros, dos impolutos, dos heróis que se batiam por valores e causas. Fiz uma escolha e também eu, por osmose, passei a fazer parte do grupo eleito. Desses tempos de ordem e simplicidade ficou-me o hábito de, a propósito de outros assuntos, dividir o mundo em duas partes. É um exercício tolo mas que insisto em fazer. Não podendo continuar a ter uma visão maniqueísta da política, o peso da idade e o conhecimento dos factos não mo permitem, dou por mim a imprimir a força da divisão dualista em relação a assuntos menores e domésticos. Divido as mulheres entre as que arranjam as cutículas das unhas e as que não o fazem. Divido os amigos dos meus filhos entre os que me tratam pelo nome e aqueles que me reduzem à “mãe do João”. Desprezo o segundo grupo. Divido os homens entre os que usam botões de punho e os que não os usam. Por aí fora.
Vem a conversa, parva e inconsequente, a propósito da morte do Eric Rohmer. Divido também o mundo entre as pessoas que acham que "Os amores de Astrea e Celadon"é uma obra prima do cinema europeu e aqueles que acham que o filme é uma merda. Para mim, o dito filme ultrapassa o significado corriqueiro que atribuímos à palavra merda. É um autêntico fecaloma. Um pesadelo. E mais não digo.

2010/01/11

Mãe

Lembro-me da folha larga que, todos os meses, ela trazia para casa dentro de uma mica plastificada. Sentada à mesa da cozinha, a minha mãe começava por olhar atentamente a lista das enfermeiras que trabalhavam consigo no hospital. Depois, com uma esferográfica multicor, começava a preencher a folha larga com a escala mensal do serviço que chefiava. Acautelava os melhores horários para as enfermeiras que tinham a vida mais complicada: muitos filhos, maridos ausentes, transportes públicos para apanhar logo de manhã. Para as solteiras sobravam sempre os horários mais cansativos, com velas, poucas folgas seguidas, muitas horas extraordinárias. Havia, eu percebia que havia, uma linha que separava as enfermeiras casadas das que permaneciam solteiras. As solteiras não mereciam o cuidado da minha mãe. Eram mulheres que não se cumpriam, sem homem, sem filhos, sem lar. Restava-lhes o consolo da vida do hospital, encarada como uma espécie de sacerdócio a que se votavam para esquecer a solidão de noites demasiado longas.

Nos dias em que a minha mãe se ocupava do preenchimento da escala, eu deixava-me ficar sentada ao seu lado. Não tinha especial interesse pelas tarefas administrativas da sua profissão. Se, nessas tardes de azáfama burocrática, eu me esquecia dos meus afazeres e me colava à minha mãe era por uma razão concreta. Aguardava, com ânsia e expectativa, que ela ditasse a sua própria sorte e escolhesse o seu horário mensal. Para gerir a tristeza e angústia, precisava de saber, com antecipação, o horário da minha mãe: quais os fins-de-semana em que estaria sem ela, em que dias ocorreria o desperdício das folgas que calhavam durante a semana, e, sobretudo, qual a noite da ronda nocturna. Nada me custava mais do que passar uma noite sem a minha mãe. Era a casa que, de um momento para o outro, escurecia e se tornava num catre, num túmulo. Ficava num desconsolo, imaginando a minha mãe-sombra, a minha mãe-noite, percorrendo os claustros do hospital envolta na sua capa azul, como se fosse um bicho nocturno, irrepreensível na sua farda cintada, o chapéu engomado, os sapatos de atacadores brancos, o relógio de bolso com o seu nome gravado.

Muitas vezes, quando a ronda calhava numa noite de sábado ou num domingo, dormíamos a sesta juntas. Eu dormia o sono no tempo certo. A minha mãe antecipava o sono da noite para a tarde. Deitadas na cama do seu quarto, o cristo de pau preto atormentando-me com o seu rosto triste, prendia-lhe as mãos e fazia-a prometer-me que nunca me morreria, nunca me abandonaria, nunca me deixaria sozinha. Ela ficava tonta com tanto amor e, ali mesmo, sem medir as consequências das suas palavras, prometia o impossível. Nunca te morrerei. Nunca te abandonarei. Nunca mais te deixarei sozinha. Vou telefonar para o hospital a dizer que estou doente. Invento qualquer coisa. Depois, vou dormir a tarde toda contigo, aqui no quentinho dos lençóis de flanela que comprei nos armazéns de Moscavide. Deixava-me adormecer. Acordava sozinha na cama dos meus pais, a minha tia consolando a minha tristeza. Vinha-me então uma dor muito grande e a certeza de que, um dia, a minha mãe me morreria.

(Uma da manhã. A minha vizinha de baixo, a dentista venezuelana, demora que se farta a atingir um orgasmo. Já não posso ouvir a mulher gemer. Uma pessoa quer escrever um texto lacrimoso sobre sua mãe e não consegue concentrar-se. Puta da venezuelana.)

2010/01/06

2010/01/02

Boliqueime

Peguei finalmente na Ler de Dezembro. Com enfado. Como quem cumpre uma obrigação ou um ritual de vida saudável. Lá estava ela no correio dos leitores: a Fátima, a leitora mais que tudo da Ler. É uma chata. Deve ser psicótica ou coisa que o valha. Não há um único mês em que não esteja na coluna dos leitores derramando erudição, exibindo saber literário, dando gritinhos de prazer com as crónicas e recensões que lá se publicam. A masturbação é uma coisa boa. Reconheço-o. As saudades que tenho dos tempos em que me bastava um texto, uma imagem, uma lembrança para também eu libertar os meus instintos básicos e sentir uma vertigem de prazer. Mas a masturbação, quer assuma a sua natureza básica e rudimentar, como no meu caso, que me contento com qualquer par de mamas, quer consubstancie formas mais sofisticadas, sublimes, exigentes, como no caso da Fátinha, que há-de molhar as cuequinhas com Verlaine e Rimbaud, exige recato. Não serei a pessoa mais indicada para o afirmar, eu que aqui venho ciciar repentes suicidas e outros segredos, mas uma mulher deve chorar e masturbar-se com discrição.

2009/12/27

Martin Schoeller

Venho aqui pavonear-me. É o que os outros fazem. O ano termina em beleza. Com um convite para escrever numa revista única. Estou como a rã da fábula. Tinha tantas coisas interessantes para vos contar, queridos e estimados leitores, mas tenho de ir ali num instantinho vomitar o robalo e a salada de pimentos que comi gulosamente ao jantar e que, desde então, me andam a saracotear por dentro. Estou que não posso.

2009/12/17

Recado

Estou triste e tal. O costume. Já esvaziei caixas de comprimidos. Já olhei a linha do comboio suburbano. O parapeito da janela. Vezes sem com conta os pulsos onde encontro marcas quase invisíveis de outras vidas. Igualmente tristes. Nos entretantos escutei, de uma assentada, os discos todos do Fausto e escrevi, a pedido do Pedro, um conto para a revista do jornal i. Sai no próximo sábado. Ficou catita. Olarila. Gosto muito de escrever. Mas cada vez gosto menos de escrever aqui.

2009/12/08

Dayanita Singh


Tia Dé

Sentada no seu sofá branco, com uma mantinha azul a tapar-lhe as pernas, a minha tia vigia os movimentos da sobrinha pequena, não vá ela tropeçar, cair, bater com a cabeça na esquina da mesa e fazer um traumatismo craniano, era uma chatice. Chego com a minha mãe. Apesar do frio, trazemos connosco a alarido próprio das mulheres do sul. A minha filha enrola-se nos nossos pés como se fosse uma gata. É a sua maneira de nos dizer olá. Na televisão, um crocodilo gigante descansa sobre a mornidão das areias de um mangue. Enquanto espero que o chá de lúcia-lima arrefeça, decido arreliar a minha tia, tão confortável e regaladinha no seu sofá branco. Tia, sabes que estou a pensar em ir viver para a Índia?, digo-lhe sem tirar os olhos do terrível predador de olhos esbugalhados. Ela estremece e deixa que um silêncio tumular poise sobre a sala. Depois, gaguejando, diz Ó filha, tu és irreal, irreal, completamente maluca! E faz o gesto com o dedo. Apesar das minhas gargalhadas, ela continua. Aquilo é bom para passar férias, agora para viver! Aquela desgraça! Tu eras capaz de fazer isso aos teus filhos? E faz um ar recriminador como se morar na Índia fosse o mesmo que mandá-los para um colégio interno ou abandoná-los à porta de casa da Bárbara Guimarães e do Manuel Maria (não concebo maior desgraça para uma criança do que ter tais progenitores). Por fim, sossego-a. Ela ri-se, aliviada. Dá umas gargalhadinhas maravilhosas que parecem soluços de gente pequena. Quase lhe cai a dentadura. Mas o riso dela esconde um nervoso miudinho. Conhece-me bem a tia Dé.
(para grandes males precisam-se grandes remédios.)

2009/12/04

Marcovaldo

Acho lamentável a importância que, na obra de Calvino, se dá ao Sr. Palomar. Um exagero. Só porque o homem é contemplativo. Observa as ondas. Encanta-se com o voo dos estorninhos. Divaga, se bem me lembro, sobre o modo como os queijos estão dispostos nas prateleiras de uma mercearia. A insuportável possibilidade de poder preocupar-se com o detalhe e o acessório. Prefiro, de longe, Marcovaldo, o operário que quer caçar galinholas com piche, fazer um guisado com o coelho contaminado de peste, tratar o reumatismo dos velhos do seu bairro com picadas de vespões.
E é tudo.

2009/11/19

Guile e Belinda


Alessandra Sanguinetti

Andaluza

Certa vez instrui a minha irmã mais nova sobre o meu funeral. Uma mulher deve ser previdente e cuidar de todos os seus assuntos, incluindo a morte. Se há coisa que me aflige é imaginar-me enterrada num cemitério com vista para a cril ou para a crel ou para a radial de Benfica. Junto a um retail park. Até me dá arrepios. Pedi-lhe que me enterrasse no cemitério da aldeia, perto dos nossos avós, onde, mesmo morta, possa sentir o cheiro das figueiras e escutar o ronco das motorizadas que, pela tarde, levam os velhos de volta para os montes. Que tratasse de me arranjar uma campa rasa, com uma lápide branca, sem fotografias ou epitáfios. Que me vestisse a saia antiga, rodada, de veludo cotelê, me apanhasse o cabelo numa trança e colocasse nas orelhas as arrecadas incas que nunca fui capaz de lhe oferecer. Se for tempo das dálias e dos cravos túnicos que peça licença à vizinha Teresa e à Preciosa dos queijos, a que é belfa e usa sempre um chapelinho de palha, para os apanhar dos canteiros e os coloque numa jarrinha branca. Fi-la prometer que me enterraria sem a presença de estranhos. Quero um funeral selecto. Com quem gosto. E preciso. Pai, mãe, tia, irmãos, filhos, sobrinhos, as primas da aldeia. Mais ninguém. Pedi-lhe, ainda, que cantasse o poema: Quando eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro ajaezado à Andaluza... A um morto nada se recusa. E eu quero por força ir de burro. Ai dela que não me faça as vontades! Pobre e querida maninha. Hei-de voltar, pior do que fui, um espectro medonho e terrível, para lhe fazer a vida negra.

(Gosto tanto da minha irmã. Buéréré.)

Lomba

Lia o público enquanto comia um pãozinho de sementes. Foi então que cruzei o olhar com o novo cronista. Apesar do desprezo que tenho pelos homens em geral, mesmo não querendo, volta e meia, caio na tentação de me entusiasmar com um ou outro. É degradante. Desconfio que, com algum empenho, era até capaz de me livrar da algidez que me dá conta da vida há tantos anos. Aborreci-me com a minha triste sina de feminista heterossexual frígida. Preferia, de longe, ser uma feminista lésbica frígida. As feministas deviam ser todas lésbicas. Sempre eram mais coerente. E ser coerente é tão importante nos dias que correm. Por isso é que há tanta gente que arremelga os olhos e diz admirar a coerência do Álvaro Cunhal. Adiante. O meu entusiasmo pelo novo cronista fez-me engasgar. Deve ter sido castigo. Uma semente de girassol caiu-me no goto. Deixei de respirar. Valeu-me o Sr. Domingos que, parecendo uma impala, uma gazela, saltou por cima do balcão das torradas e salvou-me. Deixou os papo-secos e as fatias de pão saloio a esturricar na placa. Bateu-me nas costas com força enquanto eu sufocava. A Conceição da contabilidade, muito fanhosa, indignou-se com o atraso da sua tosta mista aparada. Um luxo. A fanhosa de Agualva-Cacém trincando todas as manhãs uma tosta mista aparada feita pelo escravo guineense das torradas. Acabei por espirrar a semente pelo nariz que aterrou em cima da fotografia do novo cronista. Tão lindo que ele estava de barba. Sosseguei e assoei-me a um guardanapo de papel. O Sr. Domingos, ajeitando o avental da farda, olhando o jornal, quis saber se me tinha engasgado com a pouca vergonha que anda neste país. Disse-lhe que sim, que sim, pois claro, ando muito preocupada com a situação do país. Quando a Conceição passou por mim, com a sua tosta mista aparada, muito fumegante, olhou-me de soslaio, procurando vestígios de muco nasal do meu engasganço. Abri-lhes as minhas narinas gigantes. Parecem cavernas de homens pré-históricos. São assustadoras. Fez um esgar de repulsa. E soltou um ai amedrontado, a parva. Mal sabe ela que eu, feminista empenhada, e magnânima, defendo até as mulheres que desprezo profundamente. Como ela.

2009/11/17

Anna Karenine

Sempre tivera queda para o bovarismo. Permanentemente aborrecida com a realidade, identificava-se com as personagens dos livros que lia e dos filmes que via. Era uma coisa um bocadinho presunçosa, reconhecia. Isto acontecia-lhe desde sempre. Em miúda, sentia-se igual à Mariana que saíra da cabeça da Alice Vieira. A identificação era a tal ponto intensa que lhe imitava os gestos. Comprava cadernetas de cromos e jurava a si própria que quando tivesse uma filha lhe haveria de oferecer uma parede branca para desenhar camelos com garrafas. Vida fora, sempre se fora identificando com as protagonistas que com ela se cruzavam. A identificação mais intensa ocorrera, porém, há pouco tempo com Anna Karenine. Mulher. Apaixona-se por Vronsky. Deixa o marido e o filho. Aceita a condenação da sociedade pela sua opção. No fim, o conde Vronsky, cansado de tanto amor, aborrecido de tanto fatalismo, dá-lhe um valente pontapé no cu. Em detrimento da languidez morna das alcovas, escolhe o regimento. Um homem gosta de ser homem, pois claro. Guerrear. Lutar. Gritar em cima de um cavalo. Desferir golpes mortais no inimigo. O que é uma mulher comparada com um campo de batalha? Nada. Ela, pobre coitada, desesperada, atira-se para a linha do comboio.

Lera o livro, pela primeira vez, há já alguns anos. E, na altura, lera-o como um outro romance qualquer. Lera-o como lera os livros do Eça. Para ela, Anna não passava de uma heroína romântica, levemente patética, demasiado dramática, semelhante às outras, lusas, que tanto lhe agradavam. Eduarda. Amélia. Luísa. Genoveva, era, de longe, a sua preferida: má, caprichosa, calculista, impiedosa, egoísta. Há tempos, entusiasmada com os russos, caíra na asneira de voltar ao livro de Tolstoi. Tiro e queda. Desta vez, identificara-se totalmente com a pobre heroína. Achou-se mortificada. Por coisas da sua vida que ela lá sabia e que, com a devida distância e o devido respeito, que era muito, tinham certa semelhança com a da bela Anna. Só que ela não se atiraria para a linha do comboio. Chegavam-lhe os repentes suicidas que tivera por volta dos vinte anos. Por isso, para se aliviar, punha-se a desdenhar quem não a quisera. Fazia como aquela raposa da fábula que desdenhara o cacho de uvas rubis, cheias, maduras por as não poder alcançar: pensava no tamanho da pila dele e na calvície, certa, que tomaria conta do seu crânio daqui a quatro ou cinco anos. Era uma técnica rude, mas muito eficaz.

2009/11/16

Funeral

Que lindo foi o funeral do guarda-redes deprimido… Tanta gente comedidamente lacrimosa e séria. Tantas flores impecavelmente organizadas em coroas brancas e roxas. Tantos sobretudos pretos. Tanta ordem e compostura. Tanto silêncio. Se me apanhassem dentro daquele caixão havia de espantar a morte por breves instantes e dar um grito que se escutasse na lua, no inferno, do outro lado do mundo. Depois, voltava a morrer muito mais aliviadinha.

Crias

A minha filha Dá pediu-me para ir a uma biblioteca a sério. À noite trepa para a cama com o menino Nicolau e dá gargalhadinhas maravilhosas enquanto ele lhe conta as suas travessuras. O que ela gosta do Alceste e do Aniano. O meu filho mais velho, o João, que joga andebol no Benfica e diz muitas asneiras, pediu-me ajuda para escolher um livro da minha estante. Explicou-me que os livros juvenis, mesmo os que são escritos pela ministra, são uma seca. O mais pequeno, o Joaquim, comeu uma página do Monte dos Vendavais, livro que leio todos os Outonos. E bateu palminhas. Sou má esposa, má amiga, péssima jurista, razoável irmã e filha e sobrinha, mas muitíssimo boa parideira. Devo ter uns óvulos de uma qualidade extraordinária. É uma pena desperdiçá-los.

2009/11/11

Sergio Larrain


4

Aos de direita que se deixam ir na conversa dos de esquerda que, por sua vez, acham que têm o monopólio das causa nobres: no resto da Europa ser homossexual começa a ser uma coisa normal. Casam-se parlamentares, governantes, ministros. Só em Portugal não há políticos homossexuais (o Miguel Vale de Almeida não conta). Não os há de esquerda. Muito menos os há de direita. É um desconsolo. Sinal de profundo atraso e tacanhice. Em Portugal os homossexuais são todos artistas, escritores, devassos e jacobinos. Estou à espera que a modernidade nos bata também à porta e surja o primeiro político de direita homossexual. Sem medo de perder meia dúzia de votos de velhas bafientas e tias da linha de Cascais.

3

Aos que querem um referendo: Os referendos não servem para impor morais e bons costumes. A Alexandra Teté e o Vaz Pato e outros exigem ser chamados a se pronunciar sobre uma decisão que compete apenas a terceiros, não interfere nas suas vidas, não comporta para eles quaisquer custos ou encargos. Era o que mais faltava...

2

Aos que temem que se abra a porta à adopção: Está muito na moda ter três filhos. A maior parte das mulheres que conheço está divorciada, é infeliz ou entrega a educação do trio às empregadas brasileiras para salvar os casamentos. Ficam os meninos com as empregadas internas brasileiras enquanto os papás vão viajar, jantar fora em restaurantes de luxo e fornicar, com brandura, em hotéis de charme. Família é quem nos quer e quem cuida de nós. Independentemente do papá ter um pénis molinho e a mamã uma vagina lassa. De que serve uma vagina ausente e um pénis que não sabe nada de nós?

1

Aos que dizem que a altura não é oportuna, que o governo se devia ocupar do que é importante, das finanças, da taxa de desemprego, da economia: em rigor, um governo deveria ser capaz de tratar dos tais assuntos muito solenes e importantes e, ao mesmo tempo, cuidar das coisas mais comezinhas, os direitos das pessoas e outras insignificâncias. Contudo, já se percebeu, há muito, que este nosso governo não é capaz de resolver os tais problemas prioritários. As finanças. O estado da justiça. A corrupção. Essas coisas. Mal por mal, sempre é melhor que se vá ocupando com as ditas questões menores. Não sendo capaz de cuidar do que é importante é preferível que cuide de alguma coisita.

2009/11/10

Prótese

O meu pai está sentado atrás da secretária que veio de Moçambique. Fixa o monitor do computador. Olha o seu rebanho de acções como um pastor zeloso. Todos os dias, se levanta de madrugada para consultar os mercados, as cotações, os índices. Investe em derivados. Seja lá o que isso for. Arranjou um corrector goês que lhe trata dos investimentos na bolsa indiana. Telefona-lhe com frequência. Mói o desgraçado com perguntas e pormenores. Ninguém sabe ao certo quanto dinheiro tem investido, quanto ganha, quanto perde. A minha mãe só sabe que, volta e meia, ele entra na cozinha muito alegre a pedir-lhe um beijinho. É sinal que as coisas correm bem. Cheiro-lhe a cabeça como faço aos meus filhos. Abordo o assunto que me trouxe ali. Pergunto-lhe como pretende fazer a vida negra aos novos vizinhos. Ele sorri embaraçado e pisca os olhos. Mostra a dentadura nova, uma prótese fixa, que mandou fazer na última viagem. Um trabalho muito em conta, feito com todo o cuidado e saber num dentista que fica perto do mercado de Margão, mesmo ao lado de um talho que vende carne muito fresquinha. As mulheres de sari escolhem a galinha mais gorda da capoeira e, com um golpe certeiro, o magarefe trata do assunto. Imagino o meu pai de boca muito aberta no consultório enquanto o médico lhe arranca os dentes bambos. Há pedaços de algodão ensanguentados num rim de metal. As galinhas, lá fora, soltam cacarejos de pânico assim que vislumbram o cutelo.


O meu pai faz uma careta, carrega-se de azedume, lembra-se do casal que comprou o segundo andar. “Acha bem, Ana Clara, num prédio de respeito, uma pouca-vergonha destas?” Volto a cheirar-lhe a cabeça. O casal que comprou o segundo andar do prédio dos meus pais é homossexual. Dois homens jovens e discretos. Fizeram obras no apartamento e encheram-no de móveis do ikea e objectos vintage. No prédio dos meus pais já só moram viúvos e avós. Anda o prédio num corrupio. A D. Fernanda, a porteira, tem a língua seca, cheia de gretas, de tanto contar aos moradores as novidades do novo casal. Como se chamam, o que fazem, quantos anos têm, o tamanho da cama que levaram para o quarto maior do segundo direito. Mal soube dos novos vizinhos, o meu pai rosnou, entre dentes, que havia de lhes fazer a vida negra nas reuniões de condomínio. Nesse preciso instante, conta a minha mãe, a prótese feita pelo dentista em Margão ganhou vida, tornou-se assustadora, os dentes incharam-lhe na boca, muito pretos e ameaçadores, os caninos cresceram afiados, rutilantes. “Acho uma indecência. Nem sou capaz de imaginar uma indecência maior”, respondo-lhe. Beijo-o no rosto e deixo-o entregue aos seus pequenos investimentos. Há batalhas que já não merecem ser travadas.

2009/11/04

Liberdade doméstica

Olivia Arthur, Teerão

Dias Felizes

Alguns colegas de liceu e de universidade começam a ser nomeados secretários de estado e chefes de gabinete. Um deles, o A., era o meu melhor amigo do liceu. Chamava-me Aninhas. Tratava-o por Rasputine. Passámos horas ao telefone a gozar com os nossos colegas, a apontar-lhes defeitos, a achincalhar os que chegavam na camioneta das oito. Os pobres vinham ainda ramelosos, estremunhados de sono, de Camarate, Unhos, Catujal. Traziam para a escola os hábitos e as modas dos subúrbios mais feios do concelho de Loures. Havia neles uma parolice ingénua, um certo deslumbramento pela periferia de primeira classe - era a nossa -, que nos espantava e deliciava. A tentação era grande. Criados na pacatez de um bairro de classe média, apesar da educação esforçada dos nossos pais, tínhamos aprendido pouco sobre o respeito pelos outros. Éramos parvos, mas invencíveis. Os melhores alunos. Os preferidos dos professores. Pertencíamos ao clube de teatro. Eu militava no PSR, queria fazer bem aos outros, mas só se outros, claro está, fizessem parte das minorias politicamente adoptáveis. O A. não se interessava por política.
Gozávamos com os nossos colegas de forma ruim e impiedosa. A Maria Alice, gorda e suína, a permanente sebosa sempre colada ao cabelo. A Céu, que queria ser actriz de teatro e, certa vez, ousou fazer um monólogo de Beckett. Não resistiu à primeira meia hora e caiu pelo monte abaixo. A Bé do Ó, esférica também, que odiava a nossa petulância e as nossas notas. Agora tem uma loja de utilidades domésticas. A Carla Lélé, feiíssima, muito burra, unhas roídas até ao sabugo, cuspia perdigotos pelos buracos dos dentes, mas insistia em ser modelo. Apareceu uma tarde no eterno feminino da Teresa Guilherme. De cá para lá, muito tola, passeando um vestido pingão. O rosto severo, fatal. Os lábios vermelhos, o cabelo ripado. Um travesti. Um travesti medonho. Pobre Carla. Nenhum carro pararia na rua Luciano Cordeiro para a levar. Nós, ao telefone, a rir à gargalhada. Mais uns anos e, desconfio, o A., será nomeado ministro de qualquer coisa. Triste, a passagem do tempo.

2009/11/03

Adolfo

Uma certa irritação trepou-me pelo corpo acima assim que vi a cinta amarela. O José Eduardo Agualusa exortava as qualidades do novo escritor, acutilante e irónico. A acutilância é uma maçada. E a ironia já não é o que era. Tornou-se banal. Toda a gente quer ser irónica. Até eu, que aqui confesso a miséria e a derrota, em vez de me ocupar da tristeza que me rói as entranhas, volta e meia, venho armar-me aos cucos, fazer gracinhas, mostrar que sou hábil na virulência e no sarcasmo. Um horror. O livro traz também, em destaque, uma frase do Valter Hugo Mãe. Tão pomposa quanto vazia: A nova literatura portuguesa passa obrigatoriamente por aqui. Perante tantos elogios, amordacei as desconfianças e sacudi a irritação do corpo, que se espalhou pelos escaparates da livraria como uma poalha muito fina. Comprei o livro. Ao primeiro diálogo, estava na quinta página, abri as narinas e bufei. Resfoleguei como uma vaca. Indiana e sagrada. Soltei um palavrão. Bastou a inadequação de uma palavra, posta na boca de uma imigrante ilegal, para acicatar a minha intolerância. Porventura estarei a ser injusta, mas o livro, parece-me, não vale grande coisa. Os críticos devem adorar.

2009/11/02

Adelaide

Adelaide estacionou o carro em Avintes. Tirou o menino do carro. Despiu-lhe a bata aos quadradinhos azuis e deu-lhe de comer. Um pacotinho de leite com chocolate e um pastel de nata. Disse-lhe assim: Vamos ver o rio. É bonito antes de anoitecer. Caminharam de mãos dadas durante uns minutos por uma vereda de terra batida. O menino cantarolou a canção de um anúncio da televisão. O rio apareceu-lhes de repente. Ficaram parados a olhar o casario da outra margem. Escutaram o suspiro breve do dia que terminava. Quando a noite chegou, Adelaide agarrou-se ao filho e atirou-se ao Douro.

(não me sai da cabeça a mulher que se atirou ao rio com o filho.)

2009/10/30

Chá de Domingo

Olivia Arthur/Azerbeijão

Finados

Fiz um bolo de nozes para a minha sogra oferecer, pelo dia de finados, à sua comadre Maria. É tradição lá da terra. A minha sogra já não consegue cozinhar e a Fátinha, empregada de uma vida, fugiu-lhe de um dia para o outro com um namorado sapateiro. Quando me casei gostava do meu marido e desdenhava a sua aldeia, de casas feias, e a família, conservadora. Passado tanto tempo desdenho o marido e gosto da aldeia e da família. Adiante. A comadre da minha sogra vive do outro lado da estrada, tem cinco filhas de olhos claros, muito bonitas e altas, de cabelos aos cachos, parecem patrícias romanas, um filho polícia, o Artur, muitos netos e netas, uma casa que parece um castelo, sempre cheia de gente e de bichos. Um dos netos estuda medicina na República Checa. É o orgulho da família. Quando o menino chega pelas férias preparam-lhe caldos de borrego e compram-lhe bifinhos do lombo a vinte e cinco euros o quilo. O neto mais novo nasceu anão, mas, assegurou-me, certa vez, a D. Maria, numa conversa longa junto à capoeira, é muito bonitinho, uma inteligência, sem cabeça gigante, o corpo minúsculo nas proporções certas, benza-o deus. O malandreco aprendeu num instantinho a tabuada dos sete… , assegurou-me ela, ainda incrédula, enquanto atirava talos de couve e papas de pão às galinhas. À nossa volta, o quintal florescia cheio de vida e musgo. Espero que a D. Maria goste do bolo de nozes e me elogie os dotes culinários. Preciso desesperadamente que me afaguem o ego. O problema é que a Fátinha, a que fugiu com o sapateiro, era uma doceira e peras. É didícil chegar-lhe aos calcanhares.


Amieiro

O padre Pedro fumava ontem um cigarro à porta da igreja. Estava encostado a um amieiro frondoso e usava umas calças de ganga e uma camisa branca. De repente, é costume dele, deu uma gargalhada sonora e mostrou uma fileira de dentes muito direitinhos. Alinhei a racha da saia. Limpei o bico do sapato à barriga da perna. Sorri-lhe com candura e pureza. Ele sorriu-me de volta. Depois entreguei a minha filha à catequista.

2009/10/29

Juhu Beach

Primeira vez

Melinda está no apartamento velho de Bombaim. Lara e Elaine despem a farda puída da escola. Desfazem as tranças negras. Melinda telefona ao marido. Combinam um passeio ao final da tarde na praia. Apanhamos um riquexó. No caminho, Lara, a mais pequena, mostra, com o indicador muito espetado, a mansão onde vive a maior estrela do cinema indiano. Tem três guardas fardados de metralhadora à porta. Um renque de palmeiras e hibiscos floridos de vermelho emoldura o sossego da estrela. Quando chegamos as meninas correm para o pai que as aguarda com maçarocas assadas. No areal há trapezistas, vendedores ambulantes, macaquinhos amestrados, freiras gordas, adivinhos, violadores da devassa ocidental, famílias inteiras que chegam ruidosas. Vendem-se cones de papel de jornal cheios de grão frito e gelados coloridos. Escuta-se um realejo de feira. Os abutres lançam sobre o areal uma sombra de morte. Ao olhar a minha prima Melinda e a sua família senti uma espécie de revelação. Deve ter sido o que os pastorinhos sentiram ao ver a tal senhora. Pareceu-me, nem sei explicar porquê, que a felicidade afinal é uma coisa muito simples. Um organismo primitivo. Uma amiba unicelular. Durante muito tempo, ainda agora, quando penso nessa tarde, nas gargalhadas das meninas, enroscando-se nas pernas do pai, dá-me um aperto no peito, uma melancolia que me sabe bem.

Segunda vez

Lembro-me de te falar ao ouvido. Vou cuidar de ti. Até seres velho. Não sei como se faz, mas vou ser imortal, como os deuses, para nunca te deixar só. Vou ter muitos filhos. Até as minhas entranhas se cansarem e apodrecerem com cheiro de limão e manchas de bolor. Vou educar essas crias cegas para serem a tua bengala e o teu amparo. Repeti as mesmas palavras vezes sem conta enquanto te embalava. Meu amor. Até que as esvaziei. Tirei-lhes o sentido. Ficaram as palavras mortas, rotas, uns fiapos de espuma, pendurados no vazio. Quando não esperava, entrei-te pelos olhos dentro. Deixei de ser invisível. Senti o corpo quente. Inchei como um balão de feira. Era um deus louco e caprichoso que me soprava para dentro. Achei, pela segunda vez na vida, que podia ser feliz.

(não sei para que serve ser mulher e não ser mãe)

2009/10/27

Outono

Presto contas à clientela: nem sempre tenho vontade de escrever. Quando isso acontece tenho ganas de vir aqui carregar no botãozinho do delete. Depois, dá-me uma fraqueza, sei lá o que é, uma cobardia, e não consigo apagar-me. Tomo um sanax, choro um bocadinho, alivia-me sempre, e começo a ronda da noite. Velo pelo sono dos meus filhos. Cheiro os mais velhos. Belisco o mais pequeno. Passo serões inteirinhos a fazer bolos de erva-doce e argolinhas fritas de canela para eles impressionarem os colegas durante o lanche. Cozo marmelos. Faço panelões de doce de abóbora e dióspiros. Leio antes de adormecer. No fundo, bem lá no fundo, sou uma perfeita fada do lar. O que é que uma mulher pode querer mais da vida?

Lady, Puffy e Susy

Todas as tardes, três velhas de Moscavide vão passear para o lado de lá. Atravessam o passadiço que atravessa a linha de comboio e, com passinhos moles, bruxuleantes, levam pela trela as cadelinhas rafeiras. Muito gordas e feias. De pernas curtas e pêlo ruço. Olhos vermelhos e tristes. As três velhas de Moscavide chamaram às suas cadelinhas Lady, Puffy e Susy. Não prescindiram do i grego quando baptizaram os bichos de estimação. Cadelinha que se preze tem de ter i grego no nome! Dá um certo sainete. As cadelinhas são como as donas. Pequenas, velhas e incontinentes. Deixam rios de mijo muito amarelo no passadiço que atravessa a linha de comboio. Os cagalhotos espalham-se orgulhosamente por toda a parte. Por vezes, escondem-se sob a sombra dos degraus. Mais cedo ou mais tarde, acabam por ser espezinhados por um transeunte incauto que logo solta um enorme palavrão. Ninguém se livra do fedor e da humilhação. Os passageiros que precisam de mudar de linha ou querem ir para o lado de lá, têm sempre de atravessar o passadiço. É vê-los aos saltinhos, em biquinhos dos pés, de mão no nariz, numa dança absurda, tentando evitar o rasto de imundície do passeio das três velhas de Moscavide. Um dia tudo mudará. Tenho esperança e a esperança, dizem os entendidos, é a última a morrer. Surgirá um justiceiro, levemente parecido com o keanu reeves, que não parece inteligente, mas é giro e sabe voar. Aparecerá o tal justiceiro e abrirá um buraco na treliça do passadiço e por ele, uma a uma, atirará as cadelinhas à linha. Puffy! Lady! Susy!, gritarão as pobres velhas em desespero, arrepanhando com as unhas lascadas de verniz comprado no chinês da avenida o cabelo pintado de amarelo. Será em vão. Acabar-se-ão os cagalhotos e os rios de mijo amarelo. Será um alívio. Os passareiros baterão palmas ao heróico gesto. Eu - que tenho um nariz grande e muito sensível e, todos os dias, tremo só de pensar em atravessar o passadiço - alçarei a perna e darei um beijinho repenicado na bochecha do garboso justiceiro.

2009/10/20

Inquietação

Saio do Ministério. O porteiro faz-me mil salamaleques. Cumprimentos que são quase vénias. Senhora doutora para aqui e senhora doutora para ali. Sorrio. Convenço-me que mereço tantas mesuras, eu que sou tão medíocre. Estava preocupada com os assessores, os directores, os tecnocratas, os senhores de fato e gravata que esgravatam na máquina do Estado. Correu bem, afinal. Começo a subir a Infante Santo. Alguém me chama. É uma mulher baixinha, de cabelos brancos. Veste um anorak de um vermelho desbotado. Por cima da camisa, usa um cinto demasiado largo, muito datado, antigo, que lhe marca a esfericidade do corpo. Também esteve presente na reunião. Fixei-lhe o nome. Amélia dos olhos doces. Oferece-me boleia. Contrariada, digo-lhe que sim. Queria aproveitar o fim da tempestade. Subir ao Jardim da Estrela. Descer depois ao Rato. Imagino que não tenhamos nada em comum a não ser a portabilidade das pensões complementares no espaço comunitário. Falamos sobre tal assunto. Ela fala entusiasticamente. Eu vou respondendo. Debito as preocupações da Polónia que li num relatório qualquer do conselho. Às tantas, na rádio, uma canção desperta-me daquela dormência. Com tantas guerras que travei, já não sei fazer as pazes. Estremeço. Reparo que ela a canta baixinho. Pergunto-lhe se gosta daquela canção. Diz-me que sim, que gosta muito. Esquecemos de imediato as reuniões do conselho e da comissão. Esquecemos as pensões complementares, os regimes complementares, o princípio da subsidariedade e o da portabilidade. Avançamos manhã fora pela cidade.
(é esta semana.)

2009/10/15

Olé

Estivemos à beira de ser eliminados. Bastaram, porém, duas vitórias com duas equipas de segunda categoria para logo os portugueses desatarem a gritar olé. Assim se vê a mediocridade de um povo. Olé, gritaram os portugueses como se os húngaros e os malteses fossem gado bovino. Olé, gritaram os portugueses enquanto coçavam os testículos pequeninos de satisfação e exibiam unhas de gel e extensões de cabelo de plástico. Olé, gritaram os portugueses, eufóricos com tão pouco. Não se grita olé à equipa de outro país. Fazê-lo é humilhar um povo. E a humilhação é a arma própria dos fracos e dos medíocres.

(só se pode gritar olé quando o porto vier jogar à luz.)

2009/10/14

Olivia Arthur


Jezibela

Dou a mão à palmatória: chateou-me um pouco, só um pouco, o último Mia Couto. O livro é um encanto enquanto só são dois homens, outro que vem de quando em quando, dois meninos e uma burra chamada Jezibela. Depois, aparece uma mulher branca, chamada Marta. Como todas as mulheres brancas não tem competência para amar. O marido deixou-a pela quentura africana. A partir desse momento, em que, através da mulher branca, o mundo chega a Jesusalém, tudo se perde. O romance ganha densidade, o leitor começa a perceber a história, mas qualquer coisa se estilhaça. Perde-se a primeira loucura que é assim uma espécie de primeira inocência. O amor de Silvestre Vitalício pela burra - toma-a aos domingos, depois de se pentear e perfumar – é mais comovente do que tudo o resto. Tive pena quando morreu. Era uma burra tão doce e terna. Podia chamar-se Dordalma. Por desfastio vou ler um dos muitos livros da Agustina que ainda não li. Ainda bem que ela escreveu tantos. Desde domingo, quando escutei o Pedro Mexia e a Inês Pedrosa falar da escritora como se a conhecessem intimamente, por dentro, do avesso, que tenho vontade de a ler. Os candidatos a escritores, sobretudo as candidatas a escritoras, que enchem folhas de aborrecidos delírios femininos – também eu, às vezes, o faço; depois ganho juízo e esbofeteio-me até sangrar - deviam ser obrigadas a ler-lhe os livros. Poderiam assim perceber alguma coisa do que é isso de se nascer mulher e deixar o mundo em sossego.

2009/10/13

Oráculo

Anda muita gente preocupada com as sondagens. Que são falíveis. Que condicionam o voto. Que manipulam eleitores. Dou pouco atenção às sondagens. Interessam-me mais as previsões dos comentadores políticos. Os tarólogos observam as cartas e fazem mirabolantes previsões de ano novo: o Benfica campeão, a Elsa Raposo a entrar para um convento, o final do caso Casa Pia, o nível de vida dos portugueses a melhorar significativamente. Os entendidos da bola analisam tácticas e equipas e arriscam resultados de partidas. O professor Mambo olha os búzios e assegura futuros risonhos de fortuna, amor, saúde e, se necessário for, sexo satisfatório. Os comentadores políticos não são muito diferentes. São uma espécie de bruxos. Analisam a vida política e conseguem, por vezes, de forma extraordinária, prever resultados eleitorais com que mais ninguém sonha. Umas vezes, acertam. Outras vezes, não. Nuns casos e noutros, os comentadores políticos aparecem como uma raça de eleitos a quem o futuro foi revelado em selectos oráculos por insinuantes vestais de beleza impar. Não é para qualquer um.

(Contaram-me, mas ainda me custa a acreditar, que o Carlos Magno previu na Antena 1 a vitória da Elisa Ferreira no Porto.)

Directores

Vi ontem o debate dos directores dos jornais. O João Marcelino é um autêntico gigolô. A barba, o fatinho levemente acetinado, a camisa preta, a gravata, tudo nele tresanda. Cheira mal. Fede. O José Manuel Fernandes é um senhor. Quero cá saber se esteve mal na publicação da notícia de Agosto, se investigou pouco, se se precipitou. Aprendi a pensar o mundo ao longo dos anos a ler o Público e, confesso, estou triste por ele o deixar. Um dia vi-o à saída do Nimas. Ele ainda era muito gordo. Chovia. Fiquei a observá-lo. Invejei-lhe a companhia, eu que passava mais um domingo de solidão no cinema. Não fosse eu de recato e ter-lhe-ia dado um beijo na boca. À chuva e pelo crepúsculo. Uma mulher agradece como pode. É uma pena que a vida nunca imite a ficção. O Henrique Monteiro é um assombro. Disse ontem tudo o que havia a dizer. Não revelou a tal fonte que fez chegar o mail ao Expresso. Mas para bom entendedor meia palavra basta. Só os tolos não querem compreender. Remeteu o Marcelino à sua grotesca insignificância e viscosidade. Palmas.

2009/10/11

Alesandra Sanguinetti


Pavilhão 21

Estás sentada nas escadarias do pavilhão 21. Uma mulher de olhos claros fuma ao teu lado. Tem a cabeça pequena envolta num lenço cor-de-beringela. Usa um robe fresco. Tem mãos grandes, dedos longos e finos, as unhas compridas pintadas de branco. Reparo nos chinelos velhos que lhe sobram nos pés. Sorris. Estás gorda. Nunca te vi tão gorda. Olho para ti e não penso nos comprimidos que tomaste com as primeiras chuvas. O pensamento que me ocorre é frívolo, inconfessável: se não tiveres cuidado, muito cuidado, arriscas-te a ficar quadrada, com o corpo da tua mãe. Vestes uns corsários pretos, com atilhos nos joelhos, usas uma camisola alegre, de um tecido fino, quase transparente. Nas pálpebras, um risco grosso, mal traçado, de um verde vivo. Estranho a preocupação de te maquilhares depois do que aconteceu. Explicas que tens de falar com o médico por causa da medicação da noite. Não dormes bem. Acordas sobressaltada, com pesadelos. O teu sono não é reparador. Os sonhos cansam-te por sentires o corpo desprendido. Também sinto o corpo descarnado durante a noite. Pedes-me para esperar. Sento-me nas escadas, perto da mulher magra que ali permanece, parada. Parece uma feiticeira. Tiro um livro da mala. Leio a frase que sublinhei "Quero dizer-lhe uma coisa, doutor: a minha Aninhas é feliz".


Um bando de pardais chapinha num charco. Chilreiam, fazem muito barulho, ziguezagueiam como se fossem crianças pequenas a brincar felizes no pátio de uma escola. Noutro charco, um pássaro maior, preto, com um bico amarelo. Será um melro? Gostava de dominar a ornitologia, saber o nome dos pássaros, reconhecê-los pelas cores, pelas formas, pelo falar. Ao fundo da alameda três pombos voam rasteiros. Aterram perto de um aloendro florido de branco e de uma pereira pequena carregada de frutos. Chegam vozes, vindas do lado direito do pavilhão 21. Um homem muito velho ampara uma rapariga. Andam devagar. Sentam-se também na escadaria do pavilhão 21. O homem tem o rosto queimado, muito envelhecido, cheio de rugas e vincos. Usa o cabelo branco, comprido, puxado para trás. O produto que utilizou para fixar o cabelo dá-lhe um ar antigo e sábio. Usa um bigode fininho e bem aparado. A camisa aberta torna visível um cordão de ouro com um crucifixo exageradamente grande. Tem a unha do dedo mindinho mais comprida do que as restantes. A rapariga veste umas calças de ganga desbotadas e uma camisola azul de alças que lhe deixa a descoberto as costas claras, cobertas de borbulhas e de pequenos furúnculos vermelhos com pus. Tem a boca aberta, sempre aberta. Parece não a conseguir fechar. Um fiozinho de saliva, quase invisível, escorre-lhe pelo queixo. Os olhos estão mortos, perdidos no chão. A rapariga começa a chorar. O homem tenta acalmá-la.

- Não chores filha! Tens é que te por boa. Estás aqui para ficares boa!

- E a minha casa?

- Deixa lá a casa, que ela não foge! Não penses nisso. Ainda ontem, a Maria Augusta te foi lá regar o feijão verde e os tomates.

- Foi?

- Então, eu mentia-te? E não te preocupes com a Carlinha que ela está bem.

- Coitadinha...

- Coitadinha, porquê? É muita esperta, é uma miúda muita esperta... é como a mãe dela.

A conversa é interrompida pela chegada imprevista de um rapaz baixo, atarracado, de cabelo ruivo. Usa calções, chinelos, uma camisola de mangas cavas verde. Os olhos estão escondidos atrás de uns óculos escuros. Nas mãos traz um saco de plástico cuja transparência deixa a descoberto o conteúdo: um frasco de gel de banho e um rádio pequeno do qual irrompe a voz do Serge Gainsburg e da Jane Birkin. Tem um ar determinado. Aproxima-se das escadas e dá um aperto de mão à rapariga. Fala muito devagar, arrastando as sílabas, tornando difícil a compreensão das suas palavras.

- É o teu pai?

O homem velho esclarece-o.

-Não, não sou o paizinho dela. Mas fui eu que a criei. É como se fosse minha filha.

O rapaz gordo faz um sorriso rasgado.

-Muito prazer. Chamo-me Júlio.

- Como?

- Jú-li-o.

- Ah, Júlio! Muito bem, muito bem! António, o meu nome é António.
Ficam a olhar um para o outro, acenando a cabeça, sorrindo, fazendo vénias pequeninas e curtas. Parecem chineses ou japoneses. O rapaz farta-se daqueles gestos e, sem se explicar, abandona as escadarias do pavilhão 21. Perde-se de novo nos caminhos labirínticos do hospital. Parece um gnomo, um duende, um anão. Leva com ele, aprisionados dentro do saco de plástico, o Serge Gainsburg e a Jane Birkin. Tive vontade de lhe pedir para ficar nas escadarias do pavilhão 21. Até que a canção terminasse. Há um bosque encantado no meio da cidade.

2009/10/09

Alessandra Sanguinetti


Buscopan

A Laurinda Alves, para além de arquitectos, gosta do Seu Jorge que cresceu numa favela. Duvido que o Seu Jorge goste da Laurinda. Ainda bem que tenho sempre um buscopan à mão.

Agnés Jaoui

Quando os meus filhos forem crescidos hei-de cobrar tudo o que deixei de fazer por causa deles. Tanto que gostava que ter visto, hoje, no São Jorge, o filme da Agnés Jaoui com o Jean-Pierre Bacri. Fazem um par tão bonito. Eu gosto. E gostos não se discutem.

2009/10/07

Esmola

Ia a correr para a estação dos comboios, feliz com a chegada da chuva, a pensar nos dióspiros maduros que apanhei no sábado e na galinha que depenei no domingo, sob as orientações jocosas da Maria, quando fui abordada por um homem que, mexendo vigorosamente no pénis, me pediu para lhe fazer um broche. Trazia a cara torcida, num desatino, numa urgência, como se fosse uma questão de vida ou de morte. Abordou-me assim do nada. Logo pela manhã. Tinha eu deixado o João à porta da escola, a Dá das sabrinas amarelas na aula de violino, o Joaquim a gatinhar pela selva, mandando às ortigas a hipotonia que trouxe ao nascer. O homem pediu-me um broche como quem pede uma esmola. Achei o pedido inoportuno. Sobretudo, desolador. É tão justificado o desprezo que tenho pelos homens em geral.