2010/07/06

Violante (2)

Violante, era isso que causava espanto, tinha filhos que pareciam anjos. É certo que nem as cicatrizes se herdam, nem as corcundas se legam, nem a zarolhice adquirida por acidente é característica física comparável às covinhas no rosto, aos pómulos salientes, à cor do cabelo, ao formato das mãos, ao recorte dos lábios. Um olho vesgo não integra, em definitivo, a herança genética que uma mãe transmite aos seus filhos. Violante, sem a vista vazada, o corpo marcado, era uma mulher simplesmente feia. Porém, coisa estranha, dava à luz crianças de uma beleza desconcertante. Os meninos nasciam grandes, muito grandes, perfeitinhos, graças a Deus, assim se dizia, compostos, sem vermelhões, sem pregas, nem rugas, o rosto liso e inocente, bochechinhas rosadas, os olhos claros, umas vezes verdes, outras azuis, a cabeça cheia de caracóis dourados, mais lindos do que uma manhã de sol. Nunca cheiravam a leite azedo, não bolçavam, o couro cabeludo não se lhes estalava em escamas oleosas e amareladas. Comiam e dormiam bem. Vinham com um cheiro fresco de água-de-colónia que se prolongava durante os primeiros anos de vida. Sorriam muito. Violante teve dez filhos e todos, sem excepção, foram como acima se explicou: extraordinariamente belos, intensamente loiros, surpreendentes na sua estatura e fisionomia. Era um caso que espantava a todos e dava ocupação às línguas mais azedas da aldeia. Quando lhe nasceu o primeiro filho logo houve quem desconfiasse da sua fidelidade. Vesga, tão mal amanhada, casada com um pobre coitado, por sinal feiíssimo, como podia Violante dar à luz uma criança de cachos loiros, com a pele pálida, acetinada, macia, os olhos muito azuis, claros, a fazer lembrar a abóbada celeste nas noites de verão? O filho não podia ser do marido! Mas de quem seria? Os habitantes da aldeia eram morenos, cabelos e olhos escuros, feições duras. Mais do que a herança mediterrânica, havia neles o traço embaraçoso dos distantes ascendentes magrebinos que, por preconceito e ignorância, desdenhavam. Só o filho do dono da farmácia, que se casara em Lisboa com uma senhora minhota, era loiro e penugento. O rapaz fora educado num colégio em Viana do Castelo e chegara pouco antes da primeira gravidez de Violante. Gostava de pombos, passava o tempo entretido a anilhar as aves e a alisar-lhes a plumagem. Não olhava para as raparigas. Pareceu, por isso, impossível aos habitantes de S. Teotónio que um rapaz assim, ainda imberbe, pudesse tomar aquela mulher, de mãos gretadas e secas, tão simples e feia. A hipótese da criança ser neto do farmacêutico foi afastada. Até porque, é bom esclarecê-lo, nem sempre a gente loira é bonita. Está o mundo cheio de estafermos loiros! Ora, os filhos de Violante eram loiros e, de forma assombrosa, belos. O filho do farmacêutico era só loiro. Adiante. Quando nasceu a Violante o segundo filho, uma menina, ainda mais bela que o primeiro, o cabelo de um loiro quase branco, as mulheres de S. Teotónio, esbugalharam os olhos e procuraram nova explicação. Talvez algum estranho, desses que, de quando em quando, ali chegavam nas suas camionetas de carga, a caminho de outro lugar qualquer, a tivesse posto prenha. Talvez se tratasse de um homem luminoso, extraordinário, abnegado. Logo abandonaram tal hipótese. Ninguém se lembrava de ter chegado a S. Teotónio homem de tais aptidões físicas. Mas mesmo que tivesse chegado e trouxesse os testículos cheiinhos, já doridos e marmoreados, a glande entupida, mesmo que ansiasse de forma desesperada pelo seu rápido esvaziamento, nunca tal homem procuraria Violante. Mal amanhada, como já se explicou. Ao terceiro filho, a aldeia deixou de procurar razões para aquela discrepância genética e aceitou com naturalidade a beleza dos meninos. Os mais crédulos passaram a falar de milagre. É sempre um método acertado para tornar claro, inquestionável, o que não se explica e não se compreende.

Violante (1)

Bem vistas as coisas não era mais feia do que as outras mulheres de S. Teotónio. Pequena, o corpo ligeiramente truncado, tinha a pele muito crestada do sol, desenhando aqui e ali fissuras como se de um deserto se tratasse. Usava o cabelo, escuro e crespo, apanhado num carrapito que prendia com dois ganchos de massa. Tinha um rosto redondo, os lábios eram finos, as narinas dilatadas davam-lhe um ar ligeiramente suíno. Maciça, mas ágil, movimentava-se com desenvoltura e certa graciosidade. Porém, era o olhar de Violante, assim lhe chamara a mãe, que a embrutecia e não lhe permitia a banalidade que sempre se atribui às mulheres comuns. Era o olhar que a tornava medonha e diferente. Lembrava-se bem. Devia ter uns dez anos e trepara a um marmeleiro para apanhar os frutos maduros que espreitavam no alto, muito redondos e amarelos. Estava toda esticada, prestes a agarrar o primeiro marmelo, quando um ladrar furioso, vindo de longe, se calhar do inferno, a assustou e a fez largar o tronco da árvore. Mergulhou num silvado. Saiu de lá como se tivesse sido açoitada por mil varas de vime. Ficou, para sempre, com o corpo marcado, cheia de pequenos aleijões e cicatrizes. Partiu uma vértebra discal. Foi nessa ocasião que um espinho lhe perfurou o globo ocular esquerdo. O espinho, curto, muito afiado, parecia um dente de tubarão, foi removido com mil cuidados por uma vizinha que tinha fama de curandeira. Violante não cegou. Continuava a ver da vista esquerda. Porém, como um balão de feira, preenchido apenas pelo vazio, o olho começou a esvaziar. Minguou, minguou, até ter o tamanho de uma ervilha. Ficou aquele olho pequenino solto na cova, muito laça e escura. Dando-se conta do nojo que causava, havia quem desviasse o olhar quando lhe falava, por precaução, passou a fechar a pálpebra. Só à noite, quando estava sozinha, a voltava a abrir para se abeirar do precipício e da fundura que se escondia no seu rosto. Com o tempo, porém, foi deixando de o fazer. Por fim, como uma gelosia fechada, que se encrava e não mais se abre, a pálpebra ficou perra, cada vez mais pesada, até se colar para sempre à linha inferior do olho.

2010/06/07

Cansaço

Perguntaram à Maria do Rosário Pedreira a razão pela qual não há novas escritoras. Ela explicou, mais coisa, menos coisa, que as mulheres, mais do que os homens, se dedicam à leitura. Têm, por isso, padrões de exigência literária elevados que não se compadecem com escritos medianos. Talvez seja assim. Encontro, porém, razões mais simples para a falta de jovens escritoras. As jovens mulheres são mães. A maternidade, que é um consolo, uma satisfação, tem corpo de sanguessuga, é um bicho hematófago que se alimenta de nós, chupa-nos o sangue e o resto. Ao fim do dia, quando adormece, a maternidade deixa apenas uma carcaça cansada. É verdade que os jovens escritores também são pais. Mas ser mãe é tão diferente de ser pai. A propósito do lançamento do seu último livro, a Filomena Marona Beja, nova escritora velha, explicou isso mesmo. Começou a escrever velha depois de se livrar do maravilhoso fardo da maternidade. Só quando os filhos se fizeram à vida e lhe largaram as saias pode dedicar-se à escrita. Quando lhe li a entrevista sosseguei. Vivo na expectativa de que me aconteça o mesmo. Hei-de escrever quando for velha e livre! Imagino muitas histórias. A história da pensão imperial. A história da promessa. A história do taxista angustiado. A história dos prédios do bairro camarário pintados de fresco. A história da sandes de salsichão enfiada no bolso do presidente da câmara. A história da mulher que comia gelados. Outras. São pequenas histórias, esquissos sem corpo, que flutuam na minha cabeça como fantasmas. Sei que poderia escrevê-las com competência, o que, nos tempos que correm, já não é mau. Não as escrevo porque à noite, quando finalmente a noite se alonga e o silêncio trepa as paredes do quarto, não resisto à exaustão. Fecho o interruptor e adormeço. Não é por cobardia que não há jovens escritoras. É por cansaço.

2010/06/06

Deolinda



(um contra o outro.)

2010/06/03

Ana

Ana abre a boca e diz: Amedrontam-me as horas tardias e tudo o que elas têm dentro. São intermináveis, espessas, as horas tardias. Nelas cabem muitos minutos e segundos. As horas tardias formam cassiopeias feias, cegas de escuridão. Trazem dentro delas mãos, sombras, vultos. Trazem a urgência dos outros. De quem me quer. Eu deixo que me queiram. Deixo que me tomem. Deixo que me toquem. Mas não sinto nada. Nunca senti nada. Não acredita?

Ana cala-se. Continua: Uma vez foi diferente. Nem sei bem o que foi. Ou como foi. Ou por que foi. Senti qualquer coisa. Regressava a casa. O comboio estava cheio. Os passageiros comprimiam-se, formando um corpo único. Uma amálgama de gente. Um homem tocou-me na perna. Com ligeireza e propósito. Senti um frémito. Um estremecimento. Uma poeira branca de luz pairou sobre mim. Depois, senti um carreiro de formigas subir pelas minhas pernas e tocar-me por dentro. O homem encostou-se. Deixei. Ficámos assim, imóveis, tocandomo-nos, durante alguns minutos. O homem saiu, por fim, em Massarelos. Levou as formigas consigo. Não sei para onde foram. Fugiram. Nunca mais voltaram. O meu desejo tem corpo de insecto pequenino e vive perdido em Massarelos. Não acha engraçado? Eu acho. Acho até muito engraçado. Fiquei só. Despida de mim.

Ana ri. Continua: As horas tardias não são sempre iguais. Por vezes, são violentas. Precipitam-se. Transformam-se em palavras arremesso. Cavalgam sem cabresto sobre mim. Outras vezes, são pacíficas. Quase mornas e confortáveis. Como um casaco velho de lã. Ou o cheiro da roupa lavada. Porquê? Porque quem me quer nada exige de mim. Não tenho de demonstrar afecto, nem interesse. Só tenho que estar ali. Disponível. Passo a ser um corpo que se consome por hábito. Quando as horas tardias são assim, mansas, consigo sair do meu corpo e ver-me. Vejo-me. Tenho sempre os olhos enxutos.

Calma

Hoje está muita calma, era assim que a minha avó Felicidade costumava dizer nos dias de muito calor. Estava habituada às palavras estranhas que, volta e meia, lhe saiam da boca: talego, galheta, caço, friginada, zorra, alcagoita. Porém, aquele hábito de chamar calma ao calor era coisa que me confundia. Hoje está muita calma, dizia ela, e aconchegava o lenço preto que trazia à cabeça. A minha avó é a única morta que me faz falta.

Nossa Senhora

Em frente da Igreja de Nossa Senhora de Fátima há uma loja de artigos religiosos. Vendem de tudo: recordações para a primeira comunhão, velas baptismais, livros de orações, bíblias, rosários, terços, imagens de santos, fotografias do papa, presépios. Nas vitrinas perfilam-se santos e santas, todos feitos em gesso, pintados à mão com cores mortiças. Há também nossas senhoras, pálidas, ligeiramente verdes, que brilham no escuro. A loja é de uma senhora velha que costuma sentar-se num banquinho perto de uns reposteiros de veludo azul. Abana-se com um leque para espantar o calor para a rua. Ao balcão, atendendo os poucos fregueses que entram na loja, fica a filha, solteira, feia, tímida e ligeiramente belfa. Alguém devia salvá-la.

2010/06/01

Filho

O meu filho mais velho tem da política uma visão simples. Os bons são muito bons. Os maus são terríveis. Não há cá meios-termos, não dá guarida à mediania que é a pior forma de mediocridade. Idolatra o Nelson Mandela. Odeia, visceralmente, o Salazar. Por mais que lhe falem do descalabro da primeira república e dos cofres cheios de ouro, o miúdo não encontra préstimo ou valor na ditadura. Muito pelo contrário. Faz muitas vezes a contabilidade dos mortos do Estado Novo e inclui sempre, para meu orgulho, os africanos que morreram na guerra colonial. Despreza o Sócrates, o José Eduardo dos Santos e o Hugo Chavez. Gosta do Obama. O meu marido que é meio de direita, conservador, revira-me os olhos quando o escuta chamar nomes ao Salazar. Eu não digo nada, mas acho que o João está no bom caminho. Pensa pela cabeça dele. Está longe de ser um protectorado da sua mãe. Por exemplo, por mais que falemos sobre o assunto, não concorda com casamentos entre pessoas do mesmo sexo e, do pouco que lhe expliquei sobre o conflito no médio oriente, não vai à baila com os israelitas. Desconfia deles. Ontem, à hora do jantar, enquanto abocanhava um pedaço de frango de fricassé, referindo-se ao ataque aos barcos turcos, disse mesmo que os israelitas deviam ser todos fuzilados. Nunca lhe imponho as minhas ideias ou opiniões, mas, desta vez, tenho de falar com ele. É certo que só tem onze anos, idade propícia a arrebatamentos ingénuos, mas custa-me muito vê-lo fazer análises e comentários ao nível dos que são feitos pela maior parte dos comentadores políticos portugueses.

2010/05/31

Tia Dé

A minha casa faz de biblioteca à tia Dé. Chega com um livro na mão. Entrega-mo em silêncio e, com passinhos de mulher velha, vai às estantes do corredor buscar outro. Nunca se alonga em considerações sobre o livro que devolve. Nunca justifica a opção pelo livro que leva. É uma troca silenciosa, sepulcral, quase secreta. Aprendi a gostar de ler com a minha tia. Herdei dela os gestos, a melancolia, a resignação. É um legado pesado para se deixar a uma sobrinha.

2010/05/23

Ma môme - Jean Ferrat



(a minha canção preferida.)

2010/05/19

Nigella

A Nigella Lawson cozinha pela mesma razão que eu corro. Percebi isso ontem quando a vi ter uma orgástica reacção enquanto comia um pilaf de frango. Não há nada como um bom sucedâneo.

Genoveva

Lembro-me bem do espanto que me causou o desenlace de “A Tragédia da Rua das Flores”. Tinha quinze anos e gostava me deitar no sofá verde da marquise a ler. O sofá atravessara o oceano dentro de um contentor e tinha um cheiro bafiento, ligeiramente adocicado, entranhado na entretela dos estofos. O sol entrava pelas vidraças. A casa estava em silêncio. Acabei de ler o livro e tive uma espécie de epifania. Uma mãe que, sem saber, por um acaso do destino, se apaixona pelo filho, que julga morto, e com ele vive um amor ardente, carnal e, depois, moída pela vergonha, se atira de um terceiro andar, pareceu-me uma trama notável. O máximo do atrevimento literário. Durante a adolescência li outros livros do Eça. Mais tarde, ganhei o costume de os ler nos intervalos de novas leituras. Volto, porém, sempre à Tragédia da Rua das Flores. Não há amor como o primeiro. Conheço as personagens melhor do que a palma das minhas mãos. A ira do tio Timóteo, as facécias do Dâmaso gordalhufo, impante, as intrigas de Mélanie, a inglesa, feia, seca, rancorosa, feiinha. Porém, nenhuma das personagens seduz como Genoveva. Genoveva é a mulher feita pecado. A primazia da beleza sobre o resto. É a mulher sem pudor, a cortesã, a concubina, a amante, faz do corpo mercadoria, mas com que sofisticação! É uma prostituta e o leitor nem dá por isso. A primeira vez que li o livro fiquei com a sensação de que Genoveva, que me causava repulsa e admiração, era uma mulher sábia e velha. Magnifica, bela, lasciva, desejada, mas, ainda assim, velha. Pois se tinha um filho com idade para com ela dormir! Tinha de ser velha. Hoje, no cabeleireiro, enquanto a menina Alice me arrepelava os cabelos e pela janela aberta chegava o ruído triste da avenida, lendo o livro, dei conta que estou prestes a chegar à idade de Genoveva. Trinta e nove. Porém, ao contrário dela que, se olhando ao espelho, garante que, com muito água fria e paz de espírito, será bela até aos quarenta e cinco, estou um caco. Nem os repelões esforçados da menina Alice me salvam. Perdi há muito o viço.

Inês

Folheei o novo livro da Inês Pedrosa e logo um vómito atrevido me galgou o esófago e se assomou à boca. Estava a livraria cheia de senhoras que procuravam livros sobre vampiros, quando fechei o livro com brusquidão e um “foda-se” quase inaudível se escapou da minha boca. À conta das competências literárias da Inês Pedrosa, uma mulher, gorda como um barril, dois olhitos encovados num rosto simiesco, ficou a olhar-me de esguelha e a abanar a cabeça cheia de nuances. Fugi da livraria e fui enfiar-me na tabacaria a folhear revistas de mulheres nuas. Esclareço. Tenho apreço pela Inês Pedrosa. Acho-a inteligente. Aprecio-lhe os repentes feministas. Invejo-lhe a cultura literária. É livre no que diz e nas crónicas que escreve. Como escritora, porém, até me custa dizê-lo, não vale um caracol.


(cada vez dou mais crédito às críticas literárias da revista Ler.)

2010/05/17

Pombas

Há sempre pombas na plataforma. Em mim, a vontade de as pontapear. Estivesse eu sozinha na plataforma e não hesitaria. Havia de me esforçar, apurar o golpe, trabalhar a rapidez do gesto, tornar-me numa espécie de guerreira de shaolin, ou coisa que o valha, absorta e confiante. Havia de alcançar o meu objectivo e, por fim, arremessar uma pomba contra a grelha de metal gigante que serve de pavoroso ornamento à estação e que desfoca os homens que, pela tarde, se encontram no descampado da feira popular.

2010/05/12

Lata Mangeshkar


Leitores

Chega um rapaz à estação. Veste um fato escuro e traz pelos ombros uma gabardine cor de camelo. Senta-se num banco. Abre, com acanhamento, uma mala de mão. Tira um estojo de pele que parece uma agenda de secretária ou um enorme estojo de manicura. Não é. É um livro. Olho com estranheza o rapaz e o seu livro. Não gosto de livros electrónicos. Não por os achar anódinos, insonsos, não palpáveis, desinteressantes. Há malucos para tudo e gostos não se discutem. O que me amofina nos livros electrónicos é que apagam todos os sinais que um livro pode dar sobre o seu leitor. E isso é terrível. Impedem-nos de avaliar, rotular, etiquetar os desconhecidos com quem nos cruzamos. Estilhaçam qualquer possibilidade de relacionamento. Ao contrário do que por aí se diz, as pessoas avaliam-se pelo modo como se vestem, pelo modo como se penteiam, pelo modo como comem, falam e também, sobretudo, pelos livros que lêem. Um estafermo, gordo, transpirado, sapatos descambados, o rego do rabo espreitando por cima do cós das calças de ganga, torna-se um encanto, uma autêntica estampa, se tiver em mãos o livro certo. Por exemplo, o último do Mário de Carvalho. Já um rapaz catita, bem apessoado, comedidamente adamado (estão por todo o lado os modernos homens adamados!), de dentes perfeitinhos, derme limpa, barba rala, pode tornar-se um pavoroso mastodonte se tiver nas mãos um romance histórico da Isabel Stilwell. Os leitores lêem-se como se lê um livro. O problema dos leitores de livros electrónicos é que são ilegíveis. Uma pessoa olha para um LLE e sente-se defraudada. O rapaz da estação, com o seu estojo de manicura no regaço, fez-me lembrar as senhoras que encontro no comboio e que forram os livros do Nicholas Sparks para não se sujarem. Ele, como elas, são leitores, o que já não é mau, mas são leitores um bocado foleiros.

Domingo

Domingo. Subo a serra até ao Catujal. A luz da manhã é aguada, triste, cinzenta. Uma névoa cobre tudo, tornando o ar baço e disformes as sombras. No banco de trás, a minha filha dormita. Usa um fato de treino azul, por baixo, um mailot cravejado de estrelas brilhantes. Um homem corre à chuva com um impermeável amarelo. Desce a serra até à beira-rio onde os bairros concertados têm alamedas floridas e ciclovias de macadame vermelho. Aqui, as casas clandestinas nascem aos borbotões, sem ordem, tino, harmonia. Têm vista paro o rio. As paragens da camioneta estão cheias de gente apesar de ser quase madrugada. Ali, um homem de turbante amarelo, ali, outro com o rosto esfacelado, bexiguento, deve ser brasileiro, acolá, perto de um portão, uma negra gorda, vestida de estampados largos, com o cabelo teso, mexe no nariz. A padaria está aberta. A frutaria também. O churrasquinho vaidoso tem uma carrinha de fornecedores à porta. A funerária está fechada. Só os mortos podem descansar até mais tarde no catujal. Os vivos não podem aninhar-se no conforto morno da noite que o sono é um luxo. Uma mulher velha, com uma bata azul, atravessa a passadeira à minha frente. Leva nas mãos um talego com pão. Olha-me com indiferença.

(Não olho com indiferença os subúrbios mais feios de Lisboa. Não os olho com despeito, horror ou sobranceria. Encontro neles beleza. Muita liberdade. É um sentimento insuportável, o meu, uma espécie de caridade, de esmola, uma coisa que faz lembrar virtudes teologais.)

2010/05/10

Sinos

Há uma coisa boa na vinda do papa a Portugal. São os sinos. O sino da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e o sino da Igreja de Moscavide, sempre obedientes, ordeiros e disciplinados, andam num desatino, numa aceleração de repiques festivos, anunciando a chegada do santo padre. Trazem uma promessa solene de felicidade. Não sei falar a linguagem dos sinos. Não me interessa o que têm para me dizer. Gosto só de os escutar.

2010/05/06

2010/05/05

Unhas

A Dulce da contabilidade almoça sempre com o marido no refeitório. Leva-lhe o tabuleiro, tempera-lhe a salada, arranja-lhe o peixe. Ele fala de futebol e de automóveis e só tira as mãos dos bolsos quando tem a paparoca prontinha à sua frente. Chama-se Adão e é chefe do economato. Pela postura, inchada e insuportável, percebe-se que se tem em grande consideração. Julga-se merecedor de certos privilégios e de tantas mesuras. Gerir resmas de papel e contar tinteiros para as impressoras, mais do que o reconhecimento das chefias, confere-lhe estatuto conjugal. Ele é o chefe do economato e do lar. Há que preservar a superioridade do macho e a resignação da fêmea. Estou mesmo a ver a Dulce, ao serão, em frente do televisor, enfiada num roupão fresco de terilene, a cortar-lhe as unhas dos pés. Ele, de cavas, esparramado no sofá de napa, aos gritos cada vez que a pobre lhe corta um espigão. Há mulheres que mereciam ser açoitadas até à morte.