2010/09/11

JL

Nunca compro o JL. Aborrece-me. Dedico a minha embirração mensal à revista Ler e aos textos de alguns dos seus cronistas. Esta manhã, porém, quando vi o JL pendurado por baixo da fiada dos jornais desportivos, não lhe resisti. Será, não duvido, interessante o artigo sobre a Clarice Lispector e reveladora a entrevista da ministra, sorridente, educada, disponível. Sempre enrolada nos seus lenços de cachemira. No entanto, foi a fotografia do José Eduardo Agualusa, na capa, que me levou a comprar o JL. A pose, vê-se, é ensaiada. O olhar é deliberadamente duro. Revela certo desdém. Os braços cruzados, tensos, grossos, mostram que a literatura é uma opção. Se quisesse poderia dar um pontapé nos romances e explorar o corpo. Trabalhar nas obras. Acarretar baldes de cimento. Assentar tijolo. Encontrar poesia nos andaimes e nas gruas. Qualquer coisa do tipo. Só deus sabe o quanto me embaraça fazer o papel da trintona desiludida, que se entusiasma com o que não existe. Antes o papel da suicida crónica. O desespero da tristeza pelo menos é um sentimento selecto. Exige sofisticação. Não é para todos. Já a felicidade é um sentimento pobre. Tem mesmo, parece-me, qualquer coisa de ordinário. Está ao alcance de toda a gente. Toda a gente é bestialmente feliz. Toda a gente vive num anúncio de telemóvel. Não conheço gente infeliz. Enfim, como dizia, aborrece-me ser um estereótipo de estafada banalidade, mas tenho de reconhecer aquilo que é óbvio: o José Eduardo Agualusa é giro que se farta. Até a minha frigidez, inquilina do meu corpo há tanto tempo, já bolorenta, bafienta, se encolhe quando o homem aparece. Uma mulher quer estar deprimida, deixar-se engolir pelo desespero, ser levada pela soturnidade - inesperada, mas bonita – deste Outono precoce, e não consegue…

2010/09/05

Ceuta

Cheguei com o propósito de engolir todos os comprimidos que a minha mãe guarda no armário dos medicamentos. Escrevi até a nota de despedida. Tão tola e desesperada. Começa assim, Ele disse outra vez que não sai de casa. Quando lhe peço para o fazer, ele deita-se no sofá, de comando na mão e diz não ter paciência para os meus devaneios. Sou a louca, a instável, a marginal, aquela que não é capaz de enterrar os seus sentimento em prol da felicidade conjugal, da harmonia familiar. Depois de escrever a nota, ri-me dela e deambulei pelo apartamento dos meus pais. Sou tão feliz aqui. Chorei ao olhar as fotografias dos meus filhos: João, Madalena, Joaquim. Depois, soluçando sempre muito, preparei o meu túmulo. Fechei os estores do quarto dos meus pais e pensei Quero morrer na cama deles, o lugar mais confortável do mundo, na cama de pau preto, que veio de Moçambique, num contentor.. . Fiquei no escuro, com a minha dose letal na mão, olhando o relógio electrónico e lembrado os comprimidos para impotência sexual, encontrados, era eu tão pequena, na gaveta da cómoda, mesmo por baixo da roupa interior do meu pai. Amo o meu pai como se fosse uma mendiga. Peço-lhe amor como se pede uma esmola. É um modo tão errado de amar alguém. Andei pelo apartamento, como num labirinto, apalpando paredes, cheirando tecidos, olhando as minhas fotografias de criança, tão bonita, morena, de sorriso transparente, a minha mãe, muito magra e esguia, amparando-me na Lagoa de Santo André. O futura à minha espera. Gosto do Alentejo e das minhas velhas de lenço na cabeça. Estive nisto, revisitando a minha vida, os meus fracassos, os meus amores, para dela me despedir, quando dei de caras, na vitrina iluminada da cozinha, com o serviço de café que a minha mãe comprou em Ceuta. Seis chávenas de loiça ordinária. Não têm selo, nem carimbo de fábrica. Mas são de um azul nocturno, muito intenso e fresco. São tão bonitas. Amo-as, mais do que a muitas pessoas, desde os meus treze anos. Imaginei até uma história – chama-se Quinta-Feira- sobre estes serviço de café. Decido ficar. Não pelos meus filhos, nem pelos meus pais, nem pela vida, tão linda e insuportável, mas pelo serviço de café que a minha mãe trouxe de Ceuta.

2010/09/04

Léna

Chorei do princípio ao fim. Nunca poupei os meus filhos ao meu sofrimento. Partilho com eles, para horror de muitos, a solidão e a angústia.

Fissura Anal

É cedo. O sol espalha sobre a estação uma claridade da cor da clara do ovo. Duas mulheres conversam. A mais velha, uma negra cheia de pulseiras que chocalham, explica as razões do mau feitio do seu marido. A voz delicada e as unhas pintadas de rosa chá dão-lhe um ar cuidado, quase requintado. Sabes, é que lhe custa muito evacuar, diz, referindo-se ao marido. A outra mulher, magra, tisnada do sol, um pouco ordinária no seu macacão lilás de malha de algodão, ligeiramente borbotado, escuta-a em silêncio. Não é fácil, logo pela manhã, apanhar com confidências daquelas. Os padecimentos do canal anal, as ralações obstipantes, a incapacidade de relaxamento do esfíncter alheio, são assuntos melindrosos. Revelam a nossa natureza mais primitiva. São assuntos que, a todo o custo, se devem evitar em conversas sociais. Mas a negra é muito segura de si própria. O tema não a embaraça. Depois grita comigo. Não imaginas a gritaria de ontem só porque lhe disse para por vaselina antes de ir à casa de banho. Chamou-me tudo. E continua por aí fora, desvalorizando o mau feitio do marido, as injúrias, os palavrões, o rosto carregado e furibundo. Está nisto muito tempo. Elenca as características das fezes do marido com uma lucidez médica, de escatologista experiente, encartada. São fezes duras, empedernidas, de cor baça por estarem tanto tempo na ampola rectal. A mulher branca vai concordando com a cabeça. Eu sei como é…Também tive hemorróidas quando a minha filha nasceu, atreve-se, por fim, a dizer com um fiozinho de voz. A negra das pulseiras fuzila-a com os olhos. Por breves instantes, perde a compostura. Não lhe admite tal comparação. Ele não tem hemorróidas. O que ele tem, coitado, é uma fissura anal crónica. Olha para a outra com superioridade e dá uma gargalhadinha forçada, agradecida por o marido a poupar ao constrangimento daquela palavra. Uma fissura anal é um padecimento razoável, uma justificação boa para o desprezo que o marido lhe dedica, para o fracasso da sua vida conjugal.

2010/08/26

Shirley Jackson


É o melhor livro que li nos últimos tempos.

Egoísta

Saiu a Egoísta de verão. Traz a minha Alzira, livre dentro de uma capoeira.

Orinas

Vem ao meu lado no comboio. Tem as unhas pintadas de beringela, óculos rectangulares de massa e uma verruga com três pêlos ruços por cima do lábio. Olha as hortas e os bairros de Chelas com desinteresse. Em Marvila desperta-lhe o besouro e põe-se a falar com outra mulher. Estou tão mal, Sara! O ar condicionado deixa-me a orina entupida! explica, desesperada. Funga ruidosamente para que a tal Sara, que está do outro lado da linha, perceba que é verdade o que diz. A outra estranha a zona de entupimento. As orinas, as orinas! Então tu não sabes o que são as orinas, filha? e empertiga-se no seu lugar, aconchegando os óculos rectangulares de massa aos olhos. Olha em redor. Procura apoio na sua indignação. Dou-lha que sou pessoa infinitamente generosa. Onde já se viu não se saber o que é uma orina? Espreito-a pelo canto do olho. Já não a largo. Continuo com o livro aberto só para disfarçar. A mulher continua a conversar. Fala de um modo extraordinário. É incapaz de terminar uma frase de estrutura mais complexa e utiliza com frequência, para designar objectos, pessoas, sentimentos, a palavra “coisa”. Encolhe-se quando o assunto é mais delicado. É uma dessas pessoas cuja aparência de insignificância nos ilude porque provam a diferença entre invisibilidade e inexistência. Há pessoas que são tão insignificantes que se tornam singulares e, por isso, visíveis. Saio na minha paragem, triste por a deixar. A estação está deserta e o bafo quente da tarde envolve os passageiros. Rouba-lhes a pressa de chegar a casa. Um homem vem com o corpo alagartado. Deixa-se ficar para trás. Os membros estão recamados de escamas e placas calcárias. Quando abre a boca, mostra uma língua bífida, aninhada em serpentina. Desvio o olhar no preciso instante em que o homem lança a língua para caçar uma varejeira que descansa na onda de um grafiti. É um exibicionista e eu não gosto de exibicionistas. Aborrecem-me. Fico na plataforma a olhar o comboio que leva para longe a mulher das orinas entupidas.

2010/08/25

Superstition

Pirolito

Depois de estivador o meu filho mais velho quer ser agente da polícia judiciária. Agente e não inspector, esclarece enquanto limpa a loiça que lhe passo para as mãos. Não quer que me assuste a imaginá-lo numa faculdade de direito. Ela sabe que a mãe, débil, não resistiria a tamanho desgosto na vida. Deve ser triste, profundamente desolador, traumático mesmo, ter um filho que quer ser advogado ou gestor ou coisa que o valha. O João, talvez influenciado pelo criminoso de Carqueja, confessa, porém, que o amedronta a possibilidade de ser perseguido por um psicopata. Tenho medo mãe, e dá-me um abraço pateta em busca de consolo enquanto limpo, freneticamente, com um escovilhão azul petróleo, os biberões do Joaquim. Quer que a pobre mãe, lacrimosa, cujas entranhas lhe serviram de primeira morada, se compadeça com o seu trágico destino: agente da polícia judiciária perseguido por um qualquer maníaco da margem sul. Ou de Barcarena. Ou de Massamá. Ou de Camarate (em Camarate há um que eu já o vi, entre couves galegas e alfaces, piscando os olhos a uma fiada de bonecas empaladas). Termino o que estou a fazer e estilhaço o seu futuro de sofrimento e perseguição. Explico-lhe, olhando-o nos olhos, que não tem nada a recear. A psicopatia, por razões que não domino, é coisa de homens e os homens, toda a gente sabe, são muito merdosos e cobardes. Está-lhes na massa do sangue. Não valem um pirolito. Os psicopatas só gostam de matar mulheres, homossexuais e criancinhas. Ele escuta calado enquanto eu continuo por aí fora, animada com aquela oportunidade, não esperada, de poder insultar gratuitamente o género masculino. És louca, mãe, já te devias ter divorciado há muito tempo, diz-me por fim e sai da cozinha muito mais aliviado.

Gaston

Tenho uma embirração grande ao Caetano Veloso, ao Tiago Rodrigues (odeio-o) e ao André Vilas Boas. É um sentimento incontrolável que não consigo racionalizar. Fica nauseada só de os ver. Em contrapartida, aprecio muito o estilo do Gaston Lagaffe.

Abel

Um Abel qualquer coisa, especialista em saúde mental, escreve hoje no Público sobre a falta de candidatos presidenciais à direita. Está preocupado. A esquerda já tem quatro candidatos e, à direita, até ver, apenas se coloca a hipótese da recandidatura do actual presidente. Aquilo que à primeira vista poderia parecer uma vantagem para a direita, a proliferação de candidaturas de esquerda divide o eleitorado e torna certa a eleição de Cavaco, tem um travo amargo para o especialista em saúde mental, o tal Abel. Explica que, como muitos outros que integram a “ala católica”, não se revê nas atitudes e opções de Cavaco Silva. Quer uma alternativa que elucide e represente os valores e ideias da franja organizada da sociedade civil a que pertence: a ala católica. E propõe nomes: Ribeiro e Castro, Bagão Félix e Santana Lopes. Li a opinião do Abel pela manhã e passei o dia a pensar naquilo. Nem sei bem porquê. Tanta coisa importante em que reflectir e eu encalhada nas linhas escritas pelo Abel.

Não espanta que a ala católica se reveja em Bagão Félix e admita a candidatura de Santana Lopes. O primeiro gosta de botânica. É benfiquista e católico. Inteligente, argumenta com seriedade, sem sarcasmo ou cinismo. É difícil, mesmo para os que discordam das suas opiniões, não o respeitar. O segundo, não sendo um católico virtuoso, tem peso político e, sempre que pode, critica o actual presidente. O que me faz confusão é que a ala católica vá buscar um nome como Ribeiro e Castro. Dá vontade de soltar um palavrão. Não passa pela cabeça de ninguém. O estado da direita portuguesa é preocupante quando para candidato à presidência da república se aponta um nome como Ribeiro e Castro.

2010/08/16

Noite

Custam-me as noites. Mais que o resto.

Agosto

Sento-me de pernas cruzadas na cama, bebendo o chá muito devagar e olhando as fotografias dos miúdos. O João sopra bolas de sabão. A Madalena, de amarelo, foge. Deito-me atravessada na cama. É a minha posição preferida. Os pés ficam de fora e eu, tão pequena, sinto-me maior. Fecho os olhos para que a dor passe. Procuro lembrar os sonhos dos dias anteriores. Primeiro sonho: estou em Maputo e rodo a cidade num carro. Os prédios são altos, estão pintados de branco. Há roupa colorida nos estendais. A cidade não é a cidade. Tem lagoas nos arrabaldes. Parecem tanques gigantes esculpidos na rocha. Dois meninos mergulham e os seus corpos desaparecem na água que é verde e amarela. Árvores gigantes largam flores vermelhas pelo chão. O lento leva-as para longe. Olho as lagoas na companhia dos meus irmãos. Quero mergulhar, digo. Eles riem. Segundo sonho: estou nas escadas rolantes de um centro comercial. O Nicolau Brayner espera por mim no piso de baixo, junto de uma loja de mercearias finas. Olho a montra, onde frascos de ovas rivalizam atenções com garrafas de vinho italianas. Alguém nos persegue. Quem será? Fugimos. Eu vou dar a uma casa de madeira na falésia. O mar é tão escuro e bonito, lá em baixo. Estou nisto durante muito tempo. A reconstituir sonhos como quem reconstitui cenas de crimes. Enquanto resonho os meus sonhos, levo as mãos ao nariz. Cheiram a cebola e a alhos. Adormeço com o barulho de uma explosão pequenina. Durmo a noite toda. Tenho um sono descansado que é coisa que nunca tenho. Nem com os comprimidos cor-de-rosa que a minha mãe me dá. Triticut. Tritifur. Triticon. Tritiqualquer coisa. Acordo com a voz do António Macedo. Levanto-me assustada. Sinto-me inesperadamente leve. Reparo então que tenha um buraco no torso. Estou vazia por dentro. Oca. Faltam-me vários órgãos. Estranho a ausência de dor e a calma de me ver assim. Olho em volta. Descubro os meus órgãos espalhados pelo quarto. Recolho os meus pedaços de corpo. Vasculho os cantos e as sombras. O coração está por baixo da cama, esquecido entre dois pares de sapatos velhos. Ainda bate. Encaixo-o dentro de mim. Suturo-me com a linha que utilizo para apertar os rolos de carne.

Agosto 2007

Geater Davis- A sad shade of blue

2010/07/19

Cuba

A notícia tem sido dada com a discrição que as coisas que respeitam ao regime cubano sempre merecem no nosso país. A gente lê as notícias que vão aparecendo, aqui, ali, e sente que quem as escreve o faz contrariado. Os factos são relatados com uma secura que não é habitual. Quem escreve não faz dos homens que chegaram a Espanha heróis nem das mães, mulheres, filhas, que desfilam de branco em Havana, heroínas. Quem escreve não se interessa pelo seu sofrimento, nem simpatiza com a sua causa. Tudo na vida é relativo e os atentados à liberdade só devem ser apontados para promover certas causas. Não se utiliza a adjectivação. É raro explicar-se, preto no branco, as razões pelas quais estes homens foram presos. Os factos são relatados de raspão, sem merecer grande desenvolvimento ou comentário, até porque a Igreja Católica desempenhou um papel fundamental na negociação e a igreja não merece respeito ou apreço (às vezes, reconheço, merece muito pouco). As notícias abordam, por outro lado, a entrevista que Fidel Castro, entretanto, deu. Quase sempre, ao falar de Fidel, os jornalistas falam da sua coerência. Nem outra coisa se esperava. A coerência, em princípio, é uma qualidade. É bom ser coerente. Mas a coerência não é uma virtude que valha por si só. É profundamente desonesto dizer-se que Fidel é coerente. Quem, durante décadas, silencia um país, não é coerente. É déspota, autoritário, manipulador.

Violante (3)

Também Violante encontrava a graça divina no nascimento daquelas crianças e, antes de completarem três meses, levava-os à igreja para serem baptizados. O padre de S. Teotónio era um homem tristonho e apagado. Trazia os cantos da boca sempre caídos. Não era dado a conversas, não fizera amigos na aldeia, escondia os olhos atrás de uns óculos que pareciam permanentemente embaciados. Passava o tempo livre na alameda de álamos que ficava ao lado da igreja, caminhando de cá para lá e de lá para cá. Dormitava muito. Corria o rumor que tinha pouca fé. Assim era. A fé fora-o abandonando ao longo da vida. Fugira-lhe pelos orifícios do corpo. Chegara aos cinquenta anos com mais dúvidas que certezas. Sabia que tinha obrigação de deixar o sacerdócio, tornar-se um homem comum, procurar um emprego, arranjar uma mulher. Fosse ele um homem íntegro e havia de assumir as suas ideias, cumprir o seu destino. Mas, aos cinquenta anos, sem família, sem habilitações para exercer um ofício, o corpo adormecido e aquela cara de carneiro mal morto, olhos molengões, beiçolas estendidas, que podia fazer? A coerência enobrece os corajosos, e ele, sabia-o bem, era cobarde. E, depois, estava tão habituado às guloseimas que as devotas lhe ofereciam por altura da Páscoa. Travessas de arroz doce, garrafinhas de licor de poejo, bolos de amêndoa sarapintados de passas de uva inchadas em aguardente. Uma delícia! Deixava-se andar. Dizia a missa, sem entusiasmo, mas com eficiência. Dava catequese aos sábados de manhã. Organizava a quermesse por altura da festa da paróquia. Era sempre brando na penitência. Por maior que fosse o pecado confessado. Não exigia muito aos habitantes de S. Teotónio e estes, de volta, não exigiam muito ao padre. Havia um equilíbrio perfeito no sinalagma daquela relação. Aquela mar morno de inércia e preguiça só era sacudido quando Violante lhe trazia um menino para baptizar. Despertava, então, daquela letargia e também ele se embevecia a admirar a beleza inocente daquelas crianças. Perdia o ar molengão, os cantos da boca, tão pingões, arrimavam, até a sotaina preta lhe assentava melhor. Consolava-o, de forma que lhe custava a explicar, livrar do pecado original criaturas tão deliciosas. Tão perfeitos, com os seus corpos cheios e firmes, pareciam pintados por mestres renascentistas. Não se cansava de os elogiar à mãe. Violante sorria, acanhada. Depois de os aspergir de água benta e de lhes deixar as nucas peganhentas com os óleos sagrados, reacendia-se no peito do padre uma acendalha de fé. Aqueles meninos aureolados, de tal perfeição e enlevo, filhos daqueles pais, humildes, tão rudes e feiosos, só podiam ser um sinal da existência de Deus. A sua beleza, de tal modo intensa, provava a transcendência do divino. Durante algum tempo, o padre era abandonado pelas dúvidas habituais e as suas palavras tornavam-se vivas. Às vezes, sorria durante as homilias e, uma vez ou outra, atrás do púlpito, um entusiasmo breve fazia-o erguer as mãos. Pouco a pouco, tudo voltava ao normal. Quando os habitantes da aldeia o viam passear muito calado na alameda de álamos sabiam que a tristeza e a melancolia se instalara de novo no seu coração e que as homilias ditas de forma arrastada, aborrecidas, voltariam em breve.

2010/07/09

Deus

Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer, nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz.

Vergílio Ferreira, Em nome da terra.

(É bom saber que Deus é como eu. Fico mais conformada por ter, na angústia e na ausência, uma companhia deste calibre.)

Ema

(tutto cambierà per sempre.)

2010/07/06

Violante (2)

Violante, era isso que causava espanto, tinha filhos que pareciam anjos. É certo que nem as cicatrizes se herdam, nem as corcundas se legam, nem a zarolhice adquirida por acidente é característica física comparável às covinhas no rosto, aos pómulos salientes, à cor do cabelo, ao formato das mãos, ao recorte dos lábios. Um olho vesgo não integra, em definitivo, a herança genética que uma mãe transmite aos seus filhos. Violante, sem a vista vazada, o corpo marcado, era uma mulher simplesmente feia. Porém, coisa estranha, dava à luz crianças de uma beleza desconcertante. Os meninos nasciam grandes, muito grandes, perfeitinhos, graças a Deus, assim se dizia, compostos, sem vermelhões, sem pregas, nem rugas, o rosto liso e inocente, bochechinhas rosadas, os olhos claros, umas vezes verdes, outras azuis, a cabeça cheia de caracóis dourados, mais lindos do que uma manhã de sol. Nunca cheiravam a leite azedo, não bolçavam, o couro cabeludo não se lhes estalava em escamas oleosas e amareladas. Comiam e dormiam bem. Vinham com um cheiro fresco de água-de-colónia que se prolongava durante os primeiros anos de vida. Sorriam muito. Violante teve dez filhos e todos, sem excepção, foram como acima se explicou: extraordinariamente belos, intensamente loiros, surpreendentes na sua estatura e fisionomia. Era um caso que espantava a todos e dava ocupação às línguas mais azedas da aldeia. Quando lhe nasceu o primeiro filho logo houve quem desconfiasse da sua fidelidade. Vesga, tão mal amanhada, casada com um pobre coitado, por sinal feiíssimo, como podia Violante dar à luz uma criança de cachos loiros, com a pele pálida, acetinada, macia, os olhos muito azuis, claros, a fazer lembrar a abóbada celeste nas noites de verão? O filho não podia ser do marido! Mas de quem seria? Os habitantes da aldeia eram morenos, cabelos e olhos escuros, feições duras. Mais do que a herança mediterrânica, havia neles o traço embaraçoso dos distantes ascendentes magrebinos que, por preconceito e ignorância, desdenhavam. Só o filho do dono da farmácia, que se casara em Lisboa com uma senhora minhota, era loiro e penugento. O rapaz fora educado num colégio em Viana do Castelo e chegara pouco antes da primeira gravidez de Violante. Gostava de pombos, passava o tempo entretido a anilhar as aves e a alisar-lhes a plumagem. Não olhava para as raparigas. Pareceu, por isso, impossível aos habitantes de S. Teotónio que um rapaz assim, ainda imberbe, pudesse tomar aquela mulher, de mãos gretadas e secas, tão simples e feia. A hipótese da criança ser neto do farmacêutico foi afastada. Até porque, é bom esclarecê-lo, nem sempre a gente loira é bonita. Está o mundo cheio de estafermos loiros! Ora, os filhos de Violante eram loiros e, de forma assombrosa, belos. O filho do farmacêutico era só loiro. Adiante. Quando nasceu a Violante o segundo filho, uma menina, ainda mais bela que o primeiro, o cabelo de um loiro quase branco, as mulheres de S. Teotónio, esbugalharam os olhos e procuraram nova explicação. Talvez algum estranho, desses que, de quando em quando, ali chegavam nas suas camionetas de carga, a caminho de outro lugar qualquer, a tivesse posto prenha. Talvez se tratasse de um homem luminoso, extraordinário, abnegado. Logo abandonaram tal hipótese. Ninguém se lembrava de ter chegado a S. Teotónio homem de tais aptidões físicas. Mas mesmo que tivesse chegado e trouxesse os testículos cheiinhos, já doridos e marmoreados, a glande entupida, mesmo que ansiasse de forma desesperada pelo seu rápido esvaziamento, nunca tal homem procuraria Violante. Mal amanhada, como já se explicou. Ao terceiro filho, a aldeia deixou de procurar razões para aquela discrepância genética e aceitou com naturalidade a beleza dos meninos. Os mais crédulos passaram a falar de milagre. É sempre um método acertado para tornar claro, inquestionável, o que não se explica e não se compreende.

Violante (1)

Bem vistas as coisas não era mais feia do que as outras mulheres de S. Teotónio. Pequena, o corpo ligeiramente truncado, tinha a pele muito crestada do sol, desenhando aqui e ali fissuras como se de um deserto se tratasse. Usava o cabelo, escuro e crespo, apanhado num carrapito que prendia com dois ganchos de massa. Tinha um rosto redondo, os lábios eram finos, as narinas dilatadas davam-lhe um ar ligeiramente suíno. Maciça, mas ágil, movimentava-se com desenvoltura e certa graciosidade. Porém, era o olhar de Violante, assim lhe chamara a mãe, que a embrutecia e não lhe permitia a banalidade que sempre se atribui às mulheres comuns. Era o olhar que a tornava medonha e diferente. Lembrava-se bem. Devia ter uns dez anos e trepara a um marmeleiro para apanhar os frutos maduros que espreitavam no alto, muito redondos e amarelos. Estava toda esticada, prestes a agarrar o primeiro marmelo, quando um ladrar furioso, vindo de longe, se calhar do inferno, a assustou e a fez largar o tronco da árvore. Mergulhou num silvado. Saiu de lá como se tivesse sido açoitada por mil varas de vime. Ficou, para sempre, com o corpo marcado, cheia de pequenos aleijões e cicatrizes. Partiu uma vértebra discal. Foi nessa ocasião que um espinho lhe perfurou o globo ocular esquerdo. O espinho, curto, muito afiado, parecia um dente de tubarão, foi removido com mil cuidados por uma vizinha que tinha fama de curandeira. Violante não cegou. Continuava a ver da vista esquerda. Porém, como um balão de feira, preenchido apenas pelo vazio, o olho começou a esvaziar. Minguou, minguou, até ter o tamanho de uma ervilha. Ficou aquele olho pequenino solto na cova, muito laça e escura. Dando-se conta do nojo que causava, havia quem desviasse o olhar quando lhe falava, por precaução, passou a fechar a pálpebra. Só à noite, quando estava sozinha, a voltava a abrir para se abeirar do precipício e da fundura que se escondia no seu rosto. Com o tempo, porém, foi deixando de o fazer. Por fim, como uma gelosia fechada, que se encrava e não mais se abre, a pálpebra ficou perra, cada vez mais pesada, até se colar para sempre à linha inferior do olho.