2010/09/16

José

O meu avô materno chamava-se José. Apenas José. Não teve outro nome, apelido, alcunha, diminutivo, até se casar com a minha avó. Só se casou com ela quando a minha mãe veio estudar para a escola de enfermagem. A decência obrigou-o ao casamento. A filha que vinha estudar para Lisboa, resgatando a família da miséria do campo, merecia solidez familiar. A rapariga merecia a respeitabilidade que o casamento sempre traz.

A minha mãe e a tia Dé, lembro-me bem, tratavam-no muitas vezes por paizinho. Era impossível não gostar dele. Era um velho grande e desdentado. Aprendeu a ler sozinho, estudando nos manuais velhos das filhas, à luz pardacenta dos candeeiros de petróleo, exausto depois de um dia de trabalho. Um dia, elas chegaram de Lisboa e foram dar com ele, sentado na mesa da cozinha, junto das bilhas de água, muito concentrado, enchendo cadernos de folhas finas com uma caligrafia perfeita. Trovejava nessa tarde. As gotas, grossas, muito cheias, batiam nas vidraças da cozinha e transformavam-se nas letras cor de chuva que se soltavam do lápis de carvão do meu avô.

Gostava dos netos e nós gostávamos dele. Levava-nos muitas vezes a passear no campo. Se a aldeia já era um espaço único, uma rua inteirinha de casas rasteiras, para brincar em liberdade, cumprimentando as vizinhas, espreitando quintais, o campo aberto provocava em nós uma espécie de êxtase, sem fronteiras, sem limites, infindável como um deserto, misterioso como um labirinto. Atravessávamos a linha dos caminhos-de-ferro que marcava o fim da aldeia (era o fim e não se confundia com o princípio); subíamos ao monte do moinho, a aldeia ficava lá em baixo, muito pequenina, uma mancha indistinta, o depósito da água pairando como um óvni sobre sobreiros e azinheiras; caminhávamos por veredas e caminhos que só o meu avô conhecia, revelando-nos um mundo secreto e imaculado. Mexíamos nas folhas todas, nos bichos todos, cheirávamos cada flor, cada bolota. Foi num desses passeios, um passeio de Outono para apanhar cogumelos, que, sem saber, ao soltar a sua gargalhada desdentada, o meu avô mostrou que a felicidade não precisa de grande sofisticação. De nenhuma.

O meu avô tinha um porte distinto apesar de ser um simples carpinteiro de aldeia. Nunca foi ao cinema, nem ao teatro. Nunca leu um jornal. Entretinha-se a tomar conta da horta e das capoeiras. Gostava de jogar às cartas na taberna. Era um homem amável e bondoso e, do muito que recordo, toda a gente gostava dele. Só a minha avó parecia não o achar merecedor de tanto afecto. Isso incomodava-me. Tratava-o com ressentimento. Era brusca. Biliosa. Faiscava-lhe os olhos pequeninos. Cumpria as suas obrigações conjugais: tratava-lhe da roupa, dava-lhe almoço e jantar, mantinha a casa asseada, o chão encerado, a cozinha limpa, andorinhas de plástico esvoaçando no corredor. Fazia-lhe até migas para o lanche, enrolando num fio de gordura o pão duro, tornando, com paciência, os pedacinhos numa massa homogénea, dourada e perfumada. Tratava do meu avô, é certo, mas era por obrigação, revoltada com qualquer coisa que lhe pesava no corpo e que nunca contou. Atirava-lhe o prato das migas para a frente como se fosse um cão. Ele sentava-se à mesa e comia em silêncio, moendo para dentro, porventura, culpas e remorsos. Eu observava o desdém da minha avó e não encontrava justificações para aquele comportamento. Achava-a medonha, má. Era uma velha, mas parecia um lacrau. Se se olhasse com atenção, e eu olhava-a!, podia-se ver as garras que lhe saiam da boca. Os olhos não enganavam ninguém. Eram olhos de lacrau.

Até que o meu avô morreu. Durante o funeral, reparei que a minha avó o chorou, amparada nos braços da prima Laura, desesperada. Lembro-me de lhe estranhar a reacção. Se não gostava dele, e tudo nela mostrava um ódio latente, reprimido, por que o chorava, por que não sorria de alívio? Durante muito tempo achei que a minha avó só chorou a morte do meu avô por obrigação, encenando dor e tristeza no cortejo fúnebre. Como no resto, como toda a gente, ela limitava-se a cumprir o seu papel de esposa amantíssima, ensaiando os gestos que dela se esperavam.

Depois da morte do meu avô, passou a vestir-se de preto, sapatos, meios, bata, lenço, cada vez se parecendo mais com um insecto gigante. Deixou, contudo, de parecer um lacrau. Parecia uma borboletinha negra, desamparada, frágil, sempre à janela, sempre só. Passou a falar muitas vezes do meu avô. Com saudade. Convenço-me, cada vez mais, da genuidade dos seus sentimentos. Acho que a minha avó só passou a amar o meu avô depois da morte. É muito fácil amar um morto. Um morto nunca nos magoa, nunca nos bate, jamais nos desilude.

2010/09/11

A vendedora de figos

Na rua mais feia da cidade, na sombra cor de ferrugem de um castanheiro das índias, uma velhinha vende figos. Trá-los num alguidar cor-de-rosa forrado com folhas perfumadas de figueira. A velhinha, quieta com o seu alguidar de figos, no ramerrame da rua mais feia da cidade, é uma imagem de inesperada beleza. Provoca a quem por ali passa, a princípio, estranheza, depois, curiosidade, por fim, conforto. Aproximo-me. Espreito para dentro do alguidar. Os figos maduros parecem passarinhos com lágrimas de doçura, escorrendo-lhes do bico. Peço-lhe um quilo e esclareço que não quero figos amassados. A proximidade mostra-me as feições da velhinha. Tem um rosto quadrangular, de nariz largo, bochechas caídas, lábios finos. Devia ser feia em nova. A velhice amaciou-lhe a feiura, a masculinidade dos traços, porém, mantém-se. Tem olhos tristes. Veste uma bata de flores, os pés de dedos encavalitados repousam, inchados, numas sandálias ortopédicas. Começa a tirar os meus figos para um saco. Escolhe-os com vagar, pegando-lhes com mestria, ensaiando com as mãos uma dança de movimentos precisos. As suas mãos parecem as de um mágico. Sabem como se movimentam as mãos dos mágicos, separando os dedos, rodando no vazio, parecendo não tocar os objectos? As mãos da velhinha são assim. Soubesse eu pintar e pintá-la-ia com pinceladas largas de cores intensas.

A velhinha porém não dá conta da sua singularidade e, sobretudo, não percebe a perfeição que o silêncio proporciona. Fala. Queixa-se de três ciganas que descansam ali perto. Olho-as. Também elas aproveitaram a sombra do castanheiro das índias para repousar da sua jornada de mendicidade. A velhinha conta que, desde que ali se instalou, as mulheres ciganas não a largam. Rondam o alguidar dos figos, com olhares gulosos, agitam o copo de plástico, pronunciam sempre as mesmas palavras: fome, filhos, deus. Olham as moedas que guarda no bolso da bata. As ciganas parecem hienas, querem rilhar-lhe os ossos, comer-lhe a carne dura, velha e seca. Escuto-a em silêncio. Contrariada. Não quero saber das ciganas, vestidas de trapos, lenços à cabeça, uma carapaça de sujidade na planta dos pés descalços. Não quero saber das ciganas, manchadas de miséria que arreganham as suas bocas hediondas de dentes podres e carregam crianças de colo que choram a sua solidão. Quero levar para casa apenas a imagem dela, da velhinha com o seu alguidar de figos, perfumando a rua mais feia da cidade.

(Quando, pela tardinha, cheguei a casa, coloquei o saco dos figos em cima da balança. Não por desconfiança. O prato da balança pareceu-me apenas um sítio seguro para proteger os figos do Joaquim que insiste em tocar tudo o que é desconhecido. Foi, então, que percebi que a velhinha dos figos me roubou. Descaradamente, enquanto se queixava das ciganas, das malandras das ciganas, é tudo uma ladroagem, dizia ela, entregou-me apenas oitocentos gramas de figos. Roubou-me a velhinha, a puta da velha.)

JL

Nunca compro o JL. Aborrece-me. Dedico a minha embirração mensal à revista Ler e aos textos de alguns dos seus cronistas. Esta manhã, porém, quando vi o JL pendurado por baixo da fiada dos jornais desportivos, não lhe resisti. Será, não duvido, interessante o artigo sobre a Clarice Lispector e reveladora a entrevista da ministra, sorridente, educada, disponível. Sempre enrolada nos seus lenços de cachemira. No entanto, foi a fotografia do José Eduardo Agualusa, na capa, que me levou a comprar o JL. A pose, vê-se, é ensaiada. O olhar é deliberadamente duro. Revela certo desdém. Os braços cruzados, tensos, grossos, mostram que a literatura é uma opção. Se quisesse poderia dar um pontapé nos romances e explorar o corpo. Trabalhar nas obras. Acarretar baldes de cimento. Assentar tijolo. Encontrar poesia nos andaimes e nas gruas. Qualquer coisa do tipo. Só deus sabe o quanto me embaraça fazer o papel da trintona desiludida, que se entusiasma com o que não existe. Antes o papel da suicida crónica. O desespero da tristeza pelo menos é um sentimento selecto. Exige sofisticação. Não é para todos. Já a felicidade é um sentimento pobre. Tem mesmo, parece-me, qualquer coisa de ordinário. Está ao alcance de toda a gente. Toda a gente é bestialmente feliz. Toda a gente vive num anúncio de telemóvel. Não conheço gente infeliz. Enfim, como dizia, aborrece-me ser um estereótipo de estafada banalidade, mas tenho de reconhecer aquilo que é óbvio: o José Eduardo Agualusa é giro que se farta. Até a minha frigidez, inquilina do meu corpo há tanto tempo, já bolorenta, bafienta, se encolhe quando o homem aparece. Uma mulher quer estar deprimida, deixar-se engolir pelo desespero, ser levada pela soturnidade - inesperada, mas bonita – deste Outono precoce, e não consegue…

2010/09/05

Ceuta

Cheguei com o propósito de engolir todos os comprimidos que a minha mãe guarda no armário dos medicamentos. Escrevi até a nota de despedida. Tão tola e desesperada. Começa assim, Ele disse outra vez que não sai de casa. Quando lhe peço para o fazer, ele deita-se no sofá, de comando na mão e diz não ter paciência para os meus devaneios. Sou a louca, a instável, a marginal, aquela que não é capaz de enterrar os seus sentimento em prol da felicidade conjugal, da harmonia familiar. Depois de escrever a nota, ri-me dela e deambulei pelo apartamento dos meus pais. Sou tão feliz aqui. Chorei ao olhar as fotografias dos meus filhos: João, Madalena, Joaquim. Depois, soluçando sempre muito, preparei o meu túmulo. Fechei os estores do quarto dos meus pais e pensei Quero morrer na cama deles, o lugar mais confortável do mundo, na cama de pau preto, que veio de Moçambique, num contentor.. . Fiquei no escuro, com a minha dose letal na mão, olhando o relógio electrónico e lembrado os comprimidos para impotência sexual, encontrados, era eu tão pequena, na gaveta da cómoda, mesmo por baixo da roupa interior do meu pai. Amo o meu pai como se fosse uma mendiga. Peço-lhe amor como se pede uma esmola. É um modo tão errado de amar alguém. Andei pelo apartamento, como num labirinto, apalpando paredes, cheirando tecidos, olhando as minhas fotografias de criança, tão bonita, morena, de sorriso transparente, a minha mãe, muito magra e esguia, amparando-me na Lagoa de Santo André. O futura à minha espera. Gosto do Alentejo e das minhas velhas de lenço na cabeça. Estive nisto, revisitando a minha vida, os meus fracassos, os meus amores, para dela me despedir, quando dei de caras, na vitrina iluminada da cozinha, com o serviço de café que a minha mãe comprou em Ceuta. Seis chávenas de loiça ordinária. Não têm selo, nem carimbo de fábrica. Mas são de um azul nocturno, muito intenso e fresco. São tão bonitas. Amo-as, mais do que a muitas pessoas, desde os meus treze anos. Imaginei até uma história – chama-se Quinta-Feira- sobre estes serviço de café. Decido ficar. Não pelos meus filhos, nem pelos meus pais, nem pela vida, tão linda e insuportável, mas pelo serviço de café que a minha mãe trouxe de Ceuta.

2010/09/04

Léna

Chorei do princípio ao fim. Nunca poupei os meus filhos ao meu sofrimento. Partilho com eles, para horror de muitos, a solidão e a angústia.

Fissura Anal

É cedo. O sol espalha sobre a estação uma claridade da cor da clara do ovo. Duas mulheres conversam. A mais velha, uma negra cheia de pulseiras que chocalham, explica as razões do mau feitio do seu marido. A voz delicada e as unhas pintadas de rosa chá dão-lhe um ar cuidado, quase requintado. Sabes, é que lhe custa muito evacuar, diz, referindo-se ao marido. A outra mulher, magra, tisnada do sol, um pouco ordinária no seu macacão lilás de malha de algodão, ligeiramente borbotado, escuta-a em silêncio. Não é fácil, logo pela manhã, apanhar com confidências daquelas. Os padecimentos do canal anal, as ralações obstipantes, a incapacidade de relaxamento do esfíncter alheio, são assuntos melindrosos. Revelam a nossa natureza mais primitiva. São assuntos que, a todo o custo, se devem evitar em conversas sociais. Mas a negra é muito segura de si própria. O tema não a embaraça. Depois grita comigo. Não imaginas a gritaria de ontem só porque lhe disse para por vaselina antes de ir à casa de banho. Chamou-me tudo. E continua por aí fora, desvalorizando o mau feitio do marido, as injúrias, os palavrões, o rosto carregado e furibundo. Está nisto muito tempo. Elenca as características das fezes do marido com uma lucidez médica, de escatologista experiente, encartada. São fezes duras, empedernidas, de cor baça por estarem tanto tempo na ampola rectal. A mulher branca vai concordando com a cabeça. Eu sei como é…Também tive hemorróidas quando a minha filha nasceu, atreve-se, por fim, a dizer com um fiozinho de voz. A negra das pulseiras fuzila-a com os olhos. Por breves instantes, perde a compostura. Não lhe admite tal comparação. Ele não tem hemorróidas. O que ele tem, coitado, é uma fissura anal crónica. Olha para a outra com superioridade e dá uma gargalhadinha forçada, agradecida por o marido a poupar ao constrangimento daquela palavra. Uma fissura anal é um padecimento razoável, uma justificação boa para o desprezo que o marido lhe dedica, para o fracasso da sua vida conjugal.

2010/08/26

Shirley Jackson


É o melhor livro que li nos últimos tempos.

Egoísta

Saiu a Egoísta de verão. Traz a minha Alzira, livre dentro de uma capoeira.

Orinas

Vem ao meu lado no comboio. Tem as unhas pintadas de beringela, óculos rectangulares de massa e uma verruga com três pêlos ruços por cima do lábio. Olha as hortas e os bairros de Chelas com desinteresse. Em Marvila desperta-lhe o besouro e põe-se a falar com outra mulher. Estou tão mal, Sara! O ar condicionado deixa-me a orina entupida! explica, desesperada. Funga ruidosamente para que a tal Sara, que está do outro lado da linha, perceba que é verdade o que diz. A outra estranha a zona de entupimento. As orinas, as orinas! Então tu não sabes o que são as orinas, filha? e empertiga-se no seu lugar, aconchegando os óculos rectangulares de massa aos olhos. Olha em redor. Procura apoio na sua indignação. Dou-lha que sou pessoa infinitamente generosa. Onde já se viu não se saber o que é uma orina? Espreito-a pelo canto do olho. Já não a largo. Continuo com o livro aberto só para disfarçar. A mulher continua a conversar. Fala de um modo extraordinário. É incapaz de terminar uma frase de estrutura mais complexa e utiliza com frequência, para designar objectos, pessoas, sentimentos, a palavra “coisa”. Encolhe-se quando o assunto é mais delicado. É uma dessas pessoas cuja aparência de insignificância nos ilude porque provam a diferença entre invisibilidade e inexistência. Há pessoas que são tão insignificantes que se tornam singulares e, por isso, visíveis. Saio na minha paragem, triste por a deixar. A estação está deserta e o bafo quente da tarde envolve os passageiros. Rouba-lhes a pressa de chegar a casa. Um homem vem com o corpo alagartado. Deixa-se ficar para trás. Os membros estão recamados de escamas e placas calcárias. Quando abre a boca, mostra uma língua bífida, aninhada em serpentina. Desvio o olhar no preciso instante em que o homem lança a língua para caçar uma varejeira que descansa na onda de um grafiti. É um exibicionista e eu não gosto de exibicionistas. Aborrecem-me. Fico na plataforma a olhar o comboio que leva para longe a mulher das orinas entupidas.

2010/08/25

Superstition

Pirolito

Depois de estivador o meu filho mais velho quer ser agente da polícia judiciária. Agente e não inspector, esclarece enquanto limpa a loiça que lhe passo para as mãos. Não quer que me assuste a imaginá-lo numa faculdade de direito. Ela sabe que a mãe, débil, não resistiria a tamanho desgosto na vida. Deve ser triste, profundamente desolador, traumático mesmo, ter um filho que quer ser advogado ou gestor ou coisa que o valha. O João, talvez influenciado pelo criminoso de Carqueja, confessa, porém, que o amedronta a possibilidade de ser perseguido por um psicopata. Tenho medo mãe, e dá-me um abraço pateta em busca de consolo enquanto limpo, freneticamente, com um escovilhão azul petróleo, os biberões do Joaquim. Quer que a pobre mãe, lacrimosa, cujas entranhas lhe serviram de primeira morada, se compadeça com o seu trágico destino: agente da polícia judiciária perseguido por um qualquer maníaco da margem sul. Ou de Barcarena. Ou de Massamá. Ou de Camarate (em Camarate há um que eu já o vi, entre couves galegas e alfaces, piscando os olhos a uma fiada de bonecas empaladas). Termino o que estou a fazer e estilhaço o seu futuro de sofrimento e perseguição. Explico-lhe, olhando-o nos olhos, que não tem nada a recear. A psicopatia, por razões que não domino, é coisa de homens e os homens, toda a gente sabe, são muito merdosos e cobardes. Está-lhes na massa do sangue. Não valem um pirolito. Os psicopatas só gostam de matar mulheres, homossexuais e criancinhas. Ele escuta calado enquanto eu continuo por aí fora, animada com aquela oportunidade, não esperada, de poder insultar gratuitamente o género masculino. És louca, mãe, já te devias ter divorciado há muito tempo, diz-me por fim e sai da cozinha muito mais aliviado.

Gaston

Tenho uma embirração grande ao Caetano Veloso, ao Tiago Rodrigues (odeio-o) e ao André Vilas Boas. É um sentimento incontrolável que não consigo racionalizar. Fica nauseada só de os ver. Em contrapartida, aprecio muito o estilo do Gaston Lagaffe.

Abel

Um Abel qualquer coisa, especialista em saúde mental, escreve hoje no Público sobre a falta de candidatos presidenciais à direita. Está preocupado. A esquerda já tem quatro candidatos e, à direita, até ver, apenas se coloca a hipótese da recandidatura do actual presidente. Aquilo que à primeira vista poderia parecer uma vantagem para a direita, a proliferação de candidaturas de esquerda divide o eleitorado e torna certa a eleição de Cavaco, tem um travo amargo para o especialista em saúde mental, o tal Abel. Explica que, como muitos outros que integram a “ala católica”, não se revê nas atitudes e opções de Cavaco Silva. Quer uma alternativa que elucide e represente os valores e ideias da franja organizada da sociedade civil a que pertence: a ala católica. E propõe nomes: Ribeiro e Castro, Bagão Félix e Santana Lopes. Li a opinião do Abel pela manhã e passei o dia a pensar naquilo. Nem sei bem porquê. Tanta coisa importante em que reflectir e eu encalhada nas linhas escritas pelo Abel.

Não espanta que a ala católica se reveja em Bagão Félix e admita a candidatura de Santana Lopes. O primeiro gosta de botânica. É benfiquista e católico. Inteligente, argumenta com seriedade, sem sarcasmo ou cinismo. É difícil, mesmo para os que discordam das suas opiniões, não o respeitar. O segundo, não sendo um católico virtuoso, tem peso político e, sempre que pode, critica o actual presidente. O que me faz confusão é que a ala católica vá buscar um nome como Ribeiro e Castro. Dá vontade de soltar um palavrão. Não passa pela cabeça de ninguém. O estado da direita portuguesa é preocupante quando para candidato à presidência da república se aponta um nome como Ribeiro e Castro.

2010/08/16

Noite

Custam-me as noites. Mais que o resto.

Agosto

Sento-me de pernas cruzadas na cama, bebendo o chá muito devagar e olhando as fotografias dos miúdos. O João sopra bolas de sabão. A Madalena, de amarelo, foge. Deito-me atravessada na cama. É a minha posição preferida. Os pés ficam de fora e eu, tão pequena, sinto-me maior. Fecho os olhos para que a dor passe. Procuro lembrar os sonhos dos dias anteriores. Primeiro sonho: estou em Maputo e rodo a cidade num carro. Os prédios são altos, estão pintados de branco. Há roupa colorida nos estendais. A cidade não é a cidade. Tem lagoas nos arrabaldes. Parecem tanques gigantes esculpidos na rocha. Dois meninos mergulham e os seus corpos desaparecem na água que é verde e amarela. Árvores gigantes largam flores vermelhas pelo chão. O lento leva-as para longe. Olho as lagoas na companhia dos meus irmãos. Quero mergulhar, digo. Eles riem. Segundo sonho: estou nas escadas rolantes de um centro comercial. O Nicolau Brayner espera por mim no piso de baixo, junto de uma loja de mercearias finas. Olho a montra, onde frascos de ovas rivalizam atenções com garrafas de vinho italianas. Alguém nos persegue. Quem será? Fugimos. Eu vou dar a uma casa de madeira na falésia. O mar é tão escuro e bonito, lá em baixo. Estou nisto durante muito tempo. A reconstituir sonhos como quem reconstitui cenas de crimes. Enquanto resonho os meus sonhos, levo as mãos ao nariz. Cheiram a cebola e a alhos. Adormeço com o barulho de uma explosão pequenina. Durmo a noite toda. Tenho um sono descansado que é coisa que nunca tenho. Nem com os comprimidos cor-de-rosa que a minha mãe me dá. Triticut. Tritifur. Triticon. Tritiqualquer coisa. Acordo com a voz do António Macedo. Levanto-me assustada. Sinto-me inesperadamente leve. Reparo então que tenha um buraco no torso. Estou vazia por dentro. Oca. Faltam-me vários órgãos. Estranho a ausência de dor e a calma de me ver assim. Olho em volta. Descubro os meus órgãos espalhados pelo quarto. Recolho os meus pedaços de corpo. Vasculho os cantos e as sombras. O coração está por baixo da cama, esquecido entre dois pares de sapatos velhos. Ainda bate. Encaixo-o dentro de mim. Suturo-me com a linha que utilizo para apertar os rolos de carne.

Agosto 2007

Geater Davis- A sad shade of blue

2010/07/19

Cuba

A notícia tem sido dada com a discrição que as coisas que respeitam ao regime cubano sempre merecem no nosso país. A gente lê as notícias que vão aparecendo, aqui, ali, e sente que quem as escreve o faz contrariado. Os factos são relatados com uma secura que não é habitual. Quem escreve não faz dos homens que chegaram a Espanha heróis nem das mães, mulheres, filhas, que desfilam de branco em Havana, heroínas. Quem escreve não se interessa pelo seu sofrimento, nem simpatiza com a sua causa. Tudo na vida é relativo e os atentados à liberdade só devem ser apontados para promover certas causas. Não se utiliza a adjectivação. É raro explicar-se, preto no branco, as razões pelas quais estes homens foram presos. Os factos são relatados de raspão, sem merecer grande desenvolvimento ou comentário, até porque a Igreja Católica desempenhou um papel fundamental na negociação e a igreja não merece respeito ou apreço (às vezes, reconheço, merece muito pouco). As notícias abordam, por outro lado, a entrevista que Fidel Castro, entretanto, deu. Quase sempre, ao falar de Fidel, os jornalistas falam da sua coerência. Nem outra coisa se esperava. A coerência, em princípio, é uma qualidade. É bom ser coerente. Mas a coerência não é uma virtude que valha por si só. É profundamente desonesto dizer-se que Fidel é coerente. Quem, durante décadas, silencia um país, não é coerente. É déspota, autoritário, manipulador.

Violante (3)

Também Violante encontrava a graça divina no nascimento daquelas crianças e, antes de completarem três meses, levava-os à igreja para serem baptizados. O padre de S. Teotónio era um homem tristonho e apagado. Trazia os cantos da boca sempre caídos. Não era dado a conversas, não fizera amigos na aldeia, escondia os olhos atrás de uns óculos que pareciam permanentemente embaciados. Passava o tempo livre na alameda de álamos que ficava ao lado da igreja, caminhando de cá para lá e de lá para cá. Dormitava muito. Corria o rumor que tinha pouca fé. Assim era. A fé fora-o abandonando ao longo da vida. Fugira-lhe pelos orifícios do corpo. Chegara aos cinquenta anos com mais dúvidas que certezas. Sabia que tinha obrigação de deixar o sacerdócio, tornar-se um homem comum, procurar um emprego, arranjar uma mulher. Fosse ele um homem íntegro e havia de assumir as suas ideias, cumprir o seu destino. Mas, aos cinquenta anos, sem família, sem habilitações para exercer um ofício, o corpo adormecido e aquela cara de carneiro mal morto, olhos molengões, beiçolas estendidas, que podia fazer? A coerência enobrece os corajosos, e ele, sabia-o bem, era cobarde. E, depois, estava tão habituado às guloseimas que as devotas lhe ofereciam por altura da Páscoa. Travessas de arroz doce, garrafinhas de licor de poejo, bolos de amêndoa sarapintados de passas de uva inchadas em aguardente. Uma delícia! Deixava-se andar. Dizia a missa, sem entusiasmo, mas com eficiência. Dava catequese aos sábados de manhã. Organizava a quermesse por altura da festa da paróquia. Era sempre brando na penitência. Por maior que fosse o pecado confessado. Não exigia muito aos habitantes de S. Teotónio e estes, de volta, não exigiam muito ao padre. Havia um equilíbrio perfeito no sinalagma daquela relação. Aquela mar morno de inércia e preguiça só era sacudido quando Violante lhe trazia um menino para baptizar. Despertava, então, daquela letargia e também ele se embevecia a admirar a beleza inocente daquelas crianças. Perdia o ar molengão, os cantos da boca, tão pingões, arrimavam, até a sotaina preta lhe assentava melhor. Consolava-o, de forma que lhe custava a explicar, livrar do pecado original criaturas tão deliciosas. Tão perfeitos, com os seus corpos cheios e firmes, pareciam pintados por mestres renascentistas. Não se cansava de os elogiar à mãe. Violante sorria, acanhada. Depois de os aspergir de água benta e de lhes deixar as nucas peganhentas com os óleos sagrados, reacendia-se no peito do padre uma acendalha de fé. Aqueles meninos aureolados, de tal perfeição e enlevo, filhos daqueles pais, humildes, tão rudes e feiosos, só podiam ser um sinal da existência de Deus. A sua beleza, de tal modo intensa, provava a transcendência do divino. Durante algum tempo, o padre era abandonado pelas dúvidas habituais e as suas palavras tornavam-se vivas. Às vezes, sorria durante as homilias e, uma vez ou outra, atrás do púlpito, um entusiasmo breve fazia-o erguer as mãos. Pouco a pouco, tudo voltava ao normal. Quando os habitantes da aldeia o viam passear muito calado na alameda de álamos sabiam que a tristeza e a melancolia se instalara de novo no seu coração e que as homilias ditas de forma arrastada, aborrecidas, voltariam em breve.

2010/07/09

Deus

Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer, nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz.

Vergílio Ferreira, Em nome da terra.

(É bom saber que Deus é como eu. Fico mais conformada por ter, na angústia e na ausência, uma companhia deste calibre.)

Ema

(tutto cambierà per sempre.)

2010/07/06

Violante (2)

Violante, era isso que causava espanto, tinha filhos que pareciam anjos. É certo que nem as cicatrizes se herdam, nem as corcundas se legam, nem a zarolhice adquirida por acidente é característica física comparável às covinhas no rosto, aos pómulos salientes, à cor do cabelo, ao formato das mãos, ao recorte dos lábios. Um olho vesgo não integra, em definitivo, a herança genética que uma mãe transmite aos seus filhos. Violante, sem a vista vazada, o corpo marcado, era uma mulher simplesmente feia. Porém, coisa estranha, dava à luz crianças de uma beleza desconcertante. Os meninos nasciam grandes, muito grandes, perfeitinhos, graças a Deus, assim se dizia, compostos, sem vermelhões, sem pregas, nem rugas, o rosto liso e inocente, bochechinhas rosadas, os olhos claros, umas vezes verdes, outras azuis, a cabeça cheia de caracóis dourados, mais lindos do que uma manhã de sol. Nunca cheiravam a leite azedo, não bolçavam, o couro cabeludo não se lhes estalava em escamas oleosas e amareladas. Comiam e dormiam bem. Vinham com um cheiro fresco de água-de-colónia que se prolongava durante os primeiros anos de vida. Sorriam muito. Violante teve dez filhos e todos, sem excepção, foram como acima se explicou: extraordinariamente belos, intensamente loiros, surpreendentes na sua estatura e fisionomia. Era um caso que espantava a todos e dava ocupação às línguas mais azedas da aldeia. Quando lhe nasceu o primeiro filho logo houve quem desconfiasse da sua fidelidade. Vesga, tão mal amanhada, casada com um pobre coitado, por sinal feiíssimo, como podia Violante dar à luz uma criança de cachos loiros, com a pele pálida, acetinada, macia, os olhos muito azuis, claros, a fazer lembrar a abóbada celeste nas noites de verão? O filho não podia ser do marido! Mas de quem seria? Os habitantes da aldeia eram morenos, cabelos e olhos escuros, feições duras. Mais do que a herança mediterrânica, havia neles o traço embaraçoso dos distantes ascendentes magrebinos que, por preconceito e ignorância, desdenhavam. Só o filho do dono da farmácia, que se casara em Lisboa com uma senhora minhota, era loiro e penugento. O rapaz fora educado num colégio em Viana do Castelo e chegara pouco antes da primeira gravidez de Violante. Gostava de pombos, passava o tempo entretido a anilhar as aves e a alisar-lhes a plumagem. Não olhava para as raparigas. Pareceu, por isso, impossível aos habitantes de S. Teotónio que um rapaz assim, ainda imberbe, pudesse tomar aquela mulher, de mãos gretadas e secas, tão simples e feia. A hipótese da criança ser neto do farmacêutico foi afastada. Até porque, é bom esclarecê-lo, nem sempre a gente loira é bonita. Está o mundo cheio de estafermos loiros! Ora, os filhos de Violante eram loiros e, de forma assombrosa, belos. O filho do farmacêutico era só loiro. Adiante. Quando nasceu a Violante o segundo filho, uma menina, ainda mais bela que o primeiro, o cabelo de um loiro quase branco, as mulheres de S. Teotónio, esbugalharam os olhos e procuraram nova explicação. Talvez algum estranho, desses que, de quando em quando, ali chegavam nas suas camionetas de carga, a caminho de outro lugar qualquer, a tivesse posto prenha. Talvez se tratasse de um homem luminoso, extraordinário, abnegado. Logo abandonaram tal hipótese. Ninguém se lembrava de ter chegado a S. Teotónio homem de tais aptidões físicas. Mas mesmo que tivesse chegado e trouxesse os testículos cheiinhos, já doridos e marmoreados, a glande entupida, mesmo que ansiasse de forma desesperada pelo seu rápido esvaziamento, nunca tal homem procuraria Violante. Mal amanhada, como já se explicou. Ao terceiro filho, a aldeia deixou de procurar razões para aquela discrepância genética e aceitou com naturalidade a beleza dos meninos. Os mais crédulos passaram a falar de milagre. É sempre um método acertado para tornar claro, inquestionável, o que não se explica e não se compreende.

Violante (1)

Bem vistas as coisas não era mais feia do que as outras mulheres de S. Teotónio. Pequena, o corpo ligeiramente truncado, tinha a pele muito crestada do sol, desenhando aqui e ali fissuras como se de um deserto se tratasse. Usava o cabelo, escuro e crespo, apanhado num carrapito que prendia com dois ganchos de massa. Tinha um rosto redondo, os lábios eram finos, as narinas dilatadas davam-lhe um ar ligeiramente suíno. Maciça, mas ágil, movimentava-se com desenvoltura e certa graciosidade. Porém, era o olhar de Violante, assim lhe chamara a mãe, que a embrutecia e não lhe permitia a banalidade que sempre se atribui às mulheres comuns. Era o olhar que a tornava medonha e diferente. Lembrava-se bem. Devia ter uns dez anos e trepara a um marmeleiro para apanhar os frutos maduros que espreitavam no alto, muito redondos e amarelos. Estava toda esticada, prestes a agarrar o primeiro marmelo, quando um ladrar furioso, vindo de longe, se calhar do inferno, a assustou e a fez largar o tronco da árvore. Mergulhou num silvado. Saiu de lá como se tivesse sido açoitada por mil varas de vime. Ficou, para sempre, com o corpo marcado, cheia de pequenos aleijões e cicatrizes. Partiu uma vértebra discal. Foi nessa ocasião que um espinho lhe perfurou o globo ocular esquerdo. O espinho, curto, muito afiado, parecia um dente de tubarão, foi removido com mil cuidados por uma vizinha que tinha fama de curandeira. Violante não cegou. Continuava a ver da vista esquerda. Porém, como um balão de feira, preenchido apenas pelo vazio, o olho começou a esvaziar. Minguou, minguou, até ter o tamanho de uma ervilha. Ficou aquele olho pequenino solto na cova, muito laça e escura. Dando-se conta do nojo que causava, havia quem desviasse o olhar quando lhe falava, por precaução, passou a fechar a pálpebra. Só à noite, quando estava sozinha, a voltava a abrir para se abeirar do precipício e da fundura que se escondia no seu rosto. Com o tempo, porém, foi deixando de o fazer. Por fim, como uma gelosia fechada, que se encrava e não mais se abre, a pálpebra ficou perra, cada vez mais pesada, até se colar para sempre à linha inferior do olho.

2010/06/07

Cansaço

Perguntaram à Maria do Rosário Pedreira a razão pela qual não há novas escritoras. Ela explicou, mais coisa, menos coisa, que as mulheres, mais do que os homens, se dedicam à leitura. Têm, por isso, padrões de exigência literária elevados que não se compadecem com escritos medianos. Talvez seja assim. Encontro, porém, razões mais simples para a falta de jovens escritoras. As jovens mulheres são mães. A maternidade, que é um consolo, uma satisfação, tem corpo de sanguessuga, é um bicho hematófago que se alimenta de nós, chupa-nos o sangue e o resto. Ao fim do dia, quando adormece, a maternidade deixa apenas uma carcaça cansada. É verdade que os jovens escritores também são pais. Mas ser mãe é tão diferente de ser pai. A propósito do lançamento do seu último livro, a Filomena Marona Beja, nova escritora velha, explicou isso mesmo. Começou a escrever velha depois de se livrar do maravilhoso fardo da maternidade. Só quando os filhos se fizeram à vida e lhe largaram as saias pode dedicar-se à escrita. Quando lhe li a entrevista sosseguei. Vivo na expectativa de que me aconteça o mesmo. Hei-de escrever quando for velha e livre! Imagino muitas histórias. A história da pensão imperial. A história da promessa. A história do taxista angustiado. A história dos prédios do bairro camarário pintados de fresco. A história da sandes de salsichão enfiada no bolso do presidente da câmara. A história da mulher que comia gelados. Outras. São pequenas histórias, esquissos sem corpo, que flutuam na minha cabeça como fantasmas. Sei que poderia escrevê-las com competência, o que, nos tempos que correm, já não é mau. Não as escrevo porque à noite, quando finalmente a noite se alonga e o silêncio trepa as paredes do quarto, não resisto à exaustão. Fecho o interruptor e adormeço. Não é por cobardia que não há jovens escritoras. É por cansaço.

2010/06/06

Deolinda



(um contra o outro.)

2010/06/03

Ana

Ana abre a boca e diz: Amedrontam-me as horas tardias e tudo o que elas têm dentro. São intermináveis, espessas, as horas tardias. Nelas cabem muitos minutos e segundos. As horas tardias formam cassiopeias feias, cegas de escuridão. Trazem dentro delas mãos, sombras, vultos. Trazem a urgência dos outros. De quem me quer. Eu deixo que me queiram. Deixo que me tomem. Deixo que me toquem. Mas não sinto nada. Nunca senti nada. Não acredita?

Ana cala-se. Continua: Uma vez foi diferente. Nem sei bem o que foi. Ou como foi. Ou por que foi. Senti qualquer coisa. Regressava a casa. O comboio estava cheio. Os passageiros comprimiam-se, formando um corpo único. Uma amálgama de gente. Um homem tocou-me na perna. Com ligeireza e propósito. Senti um frémito. Um estremecimento. Uma poeira branca de luz pairou sobre mim. Depois, senti um carreiro de formigas subir pelas minhas pernas e tocar-me por dentro. O homem encostou-se. Deixei. Ficámos assim, imóveis, tocandomo-nos, durante alguns minutos. O homem saiu, por fim, em Massarelos. Levou as formigas consigo. Não sei para onde foram. Fugiram. Nunca mais voltaram. O meu desejo tem corpo de insecto pequenino e vive perdido em Massarelos. Não acha engraçado? Eu acho. Acho até muito engraçado. Fiquei só. Despida de mim.

Ana ri. Continua: As horas tardias não são sempre iguais. Por vezes, são violentas. Precipitam-se. Transformam-se em palavras arremesso. Cavalgam sem cabresto sobre mim. Outras vezes, são pacíficas. Quase mornas e confortáveis. Como um casaco velho de lã. Ou o cheiro da roupa lavada. Porquê? Porque quem me quer nada exige de mim. Não tenho de demonstrar afecto, nem interesse. Só tenho que estar ali. Disponível. Passo a ser um corpo que se consome por hábito. Quando as horas tardias são assim, mansas, consigo sair do meu corpo e ver-me. Vejo-me. Tenho sempre os olhos enxutos.

Calma

Hoje está muita calma, era assim que a minha avó Felicidade costumava dizer nos dias de muito calor. Estava habituada às palavras estranhas que, volta e meia, lhe saiam da boca: talego, galheta, caço, friginada, zorra, alcagoita. Porém, aquele hábito de chamar calma ao calor era coisa que me confundia. Hoje está muita calma, dizia ela, e aconchegava o lenço preto que trazia à cabeça. A minha avó é a única morta que me faz falta.

Nossa Senhora

Em frente da Igreja de Nossa Senhora de Fátima há uma loja de artigos religiosos. Vendem de tudo: recordações para a primeira comunhão, velas baptismais, livros de orações, bíblias, rosários, terços, imagens de santos, fotografias do papa, presépios. Nas vitrinas perfilam-se santos e santas, todos feitos em gesso, pintados à mão com cores mortiças. Há também nossas senhoras, pálidas, ligeiramente verdes, que brilham no escuro. A loja é de uma senhora velha que costuma sentar-se num banquinho perto de uns reposteiros de veludo azul. Abana-se com um leque para espantar o calor para a rua. Ao balcão, atendendo os poucos fregueses que entram na loja, fica a filha, solteira, feia, tímida e ligeiramente belfa. Alguém devia salvá-la.

2010/06/01

Filho

O meu filho mais velho tem da política uma visão simples. Os bons são muito bons. Os maus são terríveis. Não há cá meios-termos, não dá guarida à mediania que é a pior forma de mediocridade. Idolatra o Nelson Mandela. Odeia, visceralmente, o Salazar. Por mais que lhe falem do descalabro da primeira república e dos cofres cheios de ouro, o miúdo não encontra préstimo ou valor na ditadura. Muito pelo contrário. Faz muitas vezes a contabilidade dos mortos do Estado Novo e inclui sempre, para meu orgulho, os africanos que morreram na guerra colonial. Despreza o Sócrates, o José Eduardo dos Santos e o Hugo Chavez. Gosta do Obama. O meu marido que é meio de direita, conservador, revira-me os olhos quando o escuta chamar nomes ao Salazar. Eu não digo nada, mas acho que o João está no bom caminho. Pensa pela cabeça dele. Está longe de ser um protectorado da sua mãe. Por exemplo, por mais que falemos sobre o assunto, não concorda com casamentos entre pessoas do mesmo sexo e, do pouco que lhe expliquei sobre o conflito no médio oriente, não vai à baila com os israelitas. Desconfia deles. Ontem, à hora do jantar, enquanto abocanhava um pedaço de frango de fricassé, referindo-se ao ataque aos barcos turcos, disse mesmo que os israelitas deviam ser todos fuzilados. Nunca lhe imponho as minhas ideias ou opiniões, mas, desta vez, tenho de falar com ele. É certo que só tem onze anos, idade propícia a arrebatamentos ingénuos, mas custa-me muito vê-lo fazer análises e comentários ao nível dos que são feitos pela maior parte dos comentadores políticos portugueses.

2010/05/31

Tia Dé

A minha casa faz de biblioteca à tia Dé. Chega com um livro na mão. Entrega-mo em silêncio e, com passinhos de mulher velha, vai às estantes do corredor buscar outro. Nunca se alonga em considerações sobre o livro que devolve. Nunca justifica a opção pelo livro que leva. É uma troca silenciosa, sepulcral, quase secreta. Aprendi a gostar de ler com a minha tia. Herdei dela os gestos, a melancolia, a resignação. É um legado pesado para se deixar a uma sobrinha.

2010/05/23

Ma môme - Jean Ferrat



(a minha canção preferida.)

2010/05/19

Nigella

A Nigella Lawson cozinha pela mesma razão que eu corro. Percebi isso ontem quando a vi ter uma orgástica reacção enquanto comia um pilaf de frango. Não há nada como um bom sucedâneo.

Genoveva

Lembro-me bem do espanto que me causou o desenlace de “A Tragédia da Rua das Flores”. Tinha quinze anos e gostava me deitar no sofá verde da marquise a ler. O sofá atravessara o oceano dentro de um contentor e tinha um cheiro bafiento, ligeiramente adocicado, entranhado na entretela dos estofos. O sol entrava pelas vidraças. A casa estava em silêncio. Acabei de ler o livro e tive uma espécie de epifania. Uma mãe que, sem saber, por um acaso do destino, se apaixona pelo filho, que julga morto, e com ele vive um amor ardente, carnal e, depois, moída pela vergonha, se atira de um terceiro andar, pareceu-me uma trama notável. O máximo do atrevimento literário. Durante a adolescência li outros livros do Eça. Mais tarde, ganhei o costume de os ler nos intervalos de novas leituras. Volto, porém, sempre à Tragédia da Rua das Flores. Não há amor como o primeiro. Conheço as personagens melhor do que a palma das minhas mãos. A ira do tio Timóteo, as facécias do Dâmaso gordalhufo, impante, as intrigas de Mélanie, a inglesa, feia, seca, rancorosa, feiinha. Porém, nenhuma das personagens seduz como Genoveva. Genoveva é a mulher feita pecado. A primazia da beleza sobre o resto. É a mulher sem pudor, a cortesã, a concubina, a amante, faz do corpo mercadoria, mas com que sofisticação! É uma prostituta e o leitor nem dá por isso. A primeira vez que li o livro fiquei com a sensação de que Genoveva, que me causava repulsa e admiração, era uma mulher sábia e velha. Magnifica, bela, lasciva, desejada, mas, ainda assim, velha. Pois se tinha um filho com idade para com ela dormir! Tinha de ser velha. Hoje, no cabeleireiro, enquanto a menina Alice me arrepelava os cabelos e pela janela aberta chegava o ruído triste da avenida, lendo o livro, dei conta que estou prestes a chegar à idade de Genoveva. Trinta e nove. Porém, ao contrário dela que, se olhando ao espelho, garante que, com muito água fria e paz de espírito, será bela até aos quarenta e cinco, estou um caco. Nem os repelões esforçados da menina Alice me salvam. Perdi há muito o viço.

Inês

Folheei o novo livro da Inês Pedrosa e logo um vómito atrevido me galgou o esófago e se assomou à boca. Estava a livraria cheia de senhoras que procuravam livros sobre vampiros, quando fechei o livro com brusquidão e um “foda-se” quase inaudível se escapou da minha boca. À conta das competências literárias da Inês Pedrosa, uma mulher, gorda como um barril, dois olhitos encovados num rosto simiesco, ficou a olhar-me de esguelha e a abanar a cabeça cheia de nuances. Fugi da livraria e fui enfiar-me na tabacaria a folhear revistas de mulheres nuas. Esclareço. Tenho apreço pela Inês Pedrosa. Acho-a inteligente. Aprecio-lhe os repentes feministas. Invejo-lhe a cultura literária. É livre no que diz e nas crónicas que escreve. Como escritora, porém, até me custa dizê-lo, não vale um caracol.


(cada vez dou mais crédito às críticas literárias da revista Ler.)

2010/05/17

Pombas

Há sempre pombas na plataforma. Em mim, a vontade de as pontapear. Estivesse eu sozinha na plataforma e não hesitaria. Havia de me esforçar, apurar o golpe, trabalhar a rapidez do gesto, tornar-me numa espécie de guerreira de shaolin, ou coisa que o valha, absorta e confiante. Havia de alcançar o meu objectivo e, por fim, arremessar uma pomba contra a grelha de metal gigante que serve de pavoroso ornamento à estação e que desfoca os homens que, pela tarde, se encontram no descampado da feira popular.

2010/05/12

Lata Mangeshkar


Leitores

Chega um rapaz à estação. Veste um fato escuro e traz pelos ombros uma gabardine cor de camelo. Senta-se num banco. Abre, com acanhamento, uma mala de mão. Tira um estojo de pele que parece uma agenda de secretária ou um enorme estojo de manicura. Não é. É um livro. Olho com estranheza o rapaz e o seu livro. Não gosto de livros electrónicos. Não por os achar anódinos, insonsos, não palpáveis, desinteressantes. Há malucos para tudo e gostos não se discutem. O que me amofina nos livros electrónicos é que apagam todos os sinais que um livro pode dar sobre o seu leitor. E isso é terrível. Impedem-nos de avaliar, rotular, etiquetar os desconhecidos com quem nos cruzamos. Estilhaçam qualquer possibilidade de relacionamento. Ao contrário do que por aí se diz, as pessoas avaliam-se pelo modo como se vestem, pelo modo como se penteiam, pelo modo como comem, falam e também, sobretudo, pelos livros que lêem. Um estafermo, gordo, transpirado, sapatos descambados, o rego do rabo espreitando por cima do cós das calças de ganga, torna-se um encanto, uma autêntica estampa, se tiver em mãos o livro certo. Por exemplo, o último do Mário de Carvalho. Já um rapaz catita, bem apessoado, comedidamente adamado (estão por todo o lado os modernos homens adamados!), de dentes perfeitinhos, derme limpa, barba rala, pode tornar-se um pavoroso mastodonte se tiver nas mãos um romance histórico da Isabel Stilwell. Os leitores lêem-se como se lê um livro. O problema dos leitores de livros electrónicos é que são ilegíveis. Uma pessoa olha para um LLE e sente-se defraudada. O rapaz da estação, com o seu estojo de manicura no regaço, fez-me lembrar as senhoras que encontro no comboio e que forram os livros do Nicholas Sparks para não se sujarem. Ele, como elas, são leitores, o que já não é mau, mas são leitores um bocado foleiros.

Domingo

Domingo. Subo a serra até ao Catujal. A luz da manhã é aguada, triste, cinzenta. Uma névoa cobre tudo, tornando o ar baço e disformes as sombras. No banco de trás, a minha filha dormita. Usa um fato de treino azul, por baixo, um mailot cravejado de estrelas brilhantes. Um homem corre à chuva com um impermeável amarelo. Desce a serra até à beira-rio onde os bairros concertados têm alamedas floridas e ciclovias de macadame vermelho. Aqui, as casas clandestinas nascem aos borbotões, sem ordem, tino, harmonia. Têm vista paro o rio. As paragens da camioneta estão cheias de gente apesar de ser quase madrugada. Ali, um homem de turbante amarelo, ali, outro com o rosto esfacelado, bexiguento, deve ser brasileiro, acolá, perto de um portão, uma negra gorda, vestida de estampados largos, com o cabelo teso, mexe no nariz. A padaria está aberta. A frutaria também. O churrasquinho vaidoso tem uma carrinha de fornecedores à porta. A funerária está fechada. Só os mortos podem descansar até mais tarde no catujal. Os vivos não podem aninhar-se no conforto morno da noite que o sono é um luxo. Uma mulher velha, com uma bata azul, atravessa a passadeira à minha frente. Leva nas mãos um talego com pão. Olha-me com indiferença.

(Não olho com indiferença os subúrbios mais feios de Lisboa. Não os olho com despeito, horror ou sobranceria. Encontro neles beleza. Muita liberdade. É um sentimento insuportável, o meu, uma espécie de caridade, de esmola, uma coisa que faz lembrar virtudes teologais.)

2010/05/10

Sinos

Há uma coisa boa na vinda do papa a Portugal. São os sinos. O sino da Igreja de Nossa Senhora de Fátima e o sino da Igreja de Moscavide, sempre obedientes, ordeiros e disciplinados, andam num desatino, numa aceleração de repiques festivos, anunciando a chegada do santo padre. Trazem uma promessa solene de felicidade. Não sei falar a linguagem dos sinos. Não me interessa o que têm para me dizer. Gosto só de os escutar.

2010/05/06

2010/05/05

Unhas

A Dulce da contabilidade almoça sempre com o marido no refeitório. Leva-lhe o tabuleiro, tempera-lhe a salada, arranja-lhe o peixe. Ele fala de futebol e de automóveis e só tira as mãos dos bolsos quando tem a paparoca prontinha à sua frente. Chama-se Adão e é chefe do economato. Pela postura, inchada e insuportável, percebe-se que se tem em grande consideração. Julga-se merecedor de certos privilégios e de tantas mesuras. Gerir resmas de papel e contar tinteiros para as impressoras, mais do que o reconhecimento das chefias, confere-lhe estatuto conjugal. Ele é o chefe do economato e do lar. Há que preservar a superioridade do macho e a resignação da fêmea. Estou mesmo a ver a Dulce, ao serão, em frente do televisor, enfiada num roupão fresco de terilene, a cortar-lhe as unhas dos pés. Ele, de cavas, esparramado no sofá de napa, aos gritos cada vez que a pobre lhe corta um espigão. Há mulheres que mereciam ser açoitadas até à morte.

Fortunato

Lavei os dentes até me sangrarem as gengivas, fiz o seretaide, inalei uma poeira branca que atravessou a traqueia e se espalhou pela minha floresta brônquica, apliquei no rosto um creme novo, opalino, quase amarelo, de consistência leitosa, que me suscitou dúvidas e incertezas. Sempre ouvi dizer, talvez sem fundamento, que o esperma tem qualidades milagrosas na área da cosmética feminina. Como a baba do caracol. Espalhei o creme e, por momentos, deixei-me ficar a olhar para o espelho. Dei conta das minhas imperfeições: os pêlos do buço, as sobrancelhas hirsutas, os poros dilatados na testa e no nariz, a pele cansada do sol, envelhecida, o canino inferior do lado direito torto e pontilhado de manchas de tártaro, as narinas dilatadas.

Depois de uma hesitação muito pequena, uma coisa de nada, foram dois ou três segundos, abri a caixa dos comprimidos que está na gaveta do armário. Levei um sanax à boca. Senti-me vencida pela vida. Não tarda nada, sei-o, volto a fumar, a beber, a encharcar-me de comprimidos. Volto a aborrecer-me com o recato da vida doméstica, a nausear-me com a sobriedade dos dias iguais. Não tarda nada, é um instantinho, volto a não tolerar viver apenas para o cumprimento das tarefas maternais. Amo os meus filhos. Com fúria, certo desespero. Quero-lhes bem. Mas não me basta o que têm para me oferecer. Deitei-me com a certeza de que é a concupiscência que dá cabo de mim. Não fora o desejo e a insatisfação e seria uma mulher moderadamente feliz. Li durante duas horas. Consolei-me. Adormeci no preciso instante em que um carro atravessou a rotunda e o clarão dos faróis entrou pelas frinchas dos estores. Dormi como não dormia há muito tempo. Não acordei uma única vez. Não senti o corpo abandonado e vencido que dorme ao meu lado. Não ouvi o assobio longínquo que vem do sistema de ventilação da casa de banho e que, não sei porquê, me lembra desfiladeiros e desertos de terra vermelha.

Não escutei o meu filho, no quarto ao lado, pedindo o biberão, soluçando a sua solidão até voltar a adormecer, cansado e suado. Não me levantei para percorrer, na penumbra, os corredores do apartamento até à cozinha. Tropeçar num triciclo, apalpar paredes, ligar o interruptor, uma luz de velório cobre a noite, sentir o frio dos mosaicos, abrir a porta do frigorífico, meter à boca dois morangos, um quadrado de chocolate, duas fatias de presunto, um cornichon. Dormi como não dormia há muito tempo. E voltei a sonhar. Sonhei com um camionista de rosto flácido. Chamava-se Fortunato e tinha um camião encarnado.

2010/04/24

Adeus

2010/04/09

Irene

A primeira vez que Irene topa com as raparigas da vila lambendo, envergonhadas, os cones de gelado chega a casa animada com aquela promessa de frescura. À hora do jantar, enquanto Alberto Miguel se serve de um assado de galinha, recorda-lhe a geladaria que frequentavam em Lisboa. Ficava num gaveto da Rua da Escola Farmacêutica, perto escola de enfermagem. Lembras-te, Alberto?O marido lembra-se, lembra-se até muito bem, mas não partilha o entusiasmo. Cauteloso, com candura, avisa-a que deve evitar comer ou beber nas lojas da vila. Os locais - é a expressão que sempre utiliza - são pouco asseados. É imperioso não esquecer que ali as doenças espreitam por todo o lado. Os mosquitos trazem a morte. As moscas a cegueira. Se queres gelados pedes à rapariga para os fazer em casa com água fervida. Irene escuta-o em silêncio. E trincha o peito da galinha.

Sabe que o silêncio, o seu silêncio, é condição primordial para um casamento feliz, sem sobressaltos, discussões, contratempos. O marido é um homem trabalhador e educado. Tem a vida organizada ao mais ínfimo pormenor, planeada, ordenada, espartilhada em regras, deveres, obrigações. Irene não se incomoda com o rigor do marido. Habituada a uma infância ruidosa – eram muitos irmãos e irmãs vivendo numa casa pequena -, aprecia que alguém se encarregue de lhe ordenar a rotina. De manhã à noite, o seu dia é uma sucessão previsível gestos e tarefas previamente traçadas pelo marido. O banho toma-se sempre pela manhã. O almoço é servido ao meio-dia. Os fatos são todos azuis. As suas camisas têm de ser coradas ao sol durante um dia. O armário das bebidas só se abre se chegar alguma visita. Não se deve ler na cama.

As opiniões são como as rotinas. Nunca se alteram ou discutem. Irene encontra inúmeras vantagens práticas na disciplina do marido. Em sua casa, os objectos são como as rotinas e como os assuntos. Também eles têm um lugar definido, nunca se perdem, nunca se escondem. Irene sabe sempre em que gaveta está o corta-unhas e, desde que casou, nunca mais lhe aconteceu perder o boletim de vacinas ou não saber, com exactidão, o dinheiro gasto nas compras semanais. Vive na certeza de ser feliz.

2010/04/08

Dez mil metros



(Voltei a correr. Que bom. Gosto mais de correr do que escrever. Ou ler.)

2010/03/18

Março

Enfio a mão no jarrão da entrada. Espreito dentro da terrina chinesa colocada no centro da mesa da sala de jantar. Espanto-me sempre com a quantidade de coisas que a minha mãe consegue guardar dentro dos bibelots lá de casa: lápis de pintura estalada, canetas, clips, papéis, corta-unhas, alfinetes, agulhas de crochet, cadeados, porcas e parafusos, fotografias, elásticos, brincos, pulseiras, batons do cieiro, bulas de medicamentos, brinquedos pequenos dos netos. Uma vez, há já alguns anos, até lá encontrei um dos dentes de ouro do meu pai. Fiquei a olhar para ele e a lembrar-me do embaraço que sentia cada vez que soltava uma gargalhada. Parecia um pirata, um cigano, um maltês, um bandido qualquer. Ele a rir-se, feliz, eu a desejar que fechasse depressa a boca para que a europeia decência lhe voltasse ao rosto. A verdade é que a tolice da minha pré-adolescência me fazia ter vergonha do dente de ouro do meu pai e também dos chinelos que ele usava nos pés aos fins-de-semana. Na altura, os pés usavam-se cobertos, escondidos em sapatos de vela ou sapatilhas da le coque sportif. O meu pai, de pés escancarados, os dedos feios e amarelecidos, ofendia-me com os seus hábitos de gente do sul. Uma autêntica pornografia podológica.
Pego agora numa caixinha de argentaria, vinda de Lourenço Marques. A travessia do oceano, o vento salgado, deixou-lhe uma cor baça, triste. Verto tudo o que lá está dentro. Espalha-se o interior pela madeira de pau-preto. Tanta coisa, tanto quase-lixo. Não sei o que procuro. Não procuro nada. Quero apenas certificar-me que nada mudou nesta casa, que os objectos deste apartamento continuam guardiões das minudências dos dias dos meus pais. Um cheiro estranho de coisas velhas solta-se daquele bricabraque miniatura. Mistura-se o cheiro a ferrugem, que vem das chaves velhas da garagem, com o cheiro doce de um pacotinho de sementes de anis que a minha mãe trouxe do mercado de Margão. Março 2009

(os Marços da minha vida são sempre iguais.)

2010/03/12

Parece que vai chover.

Era o tempo dos cisnes, dos patos, das folhas da árvore de borracha que cheiravam a manteiga, do Jardim do Torel onde viviam todos os bichos-da-seda da cidade, enrolados sobre si, alheios ao ruído e ao frenesim. Era o tempo dos sonhos. Adormecia e, na escuridão, apareciam árvores com copas cor de cobre, milheirais, precipícios, gigantes que tinham sempre o rosto meigo de um primo afastado que estava internado no Júlio de Matos. Também eu, por vezes, aparecia na escuridão da noite e dos sonhos. Usava socas e tinha as unhas roídas. Nesse tempo não percebia ainda o meu corpo. Sabia apenas que se apertasse as coxas com muita força, durante algum tempo, até ao limite da exaustão, o meu avesso, o meu lado de dentro, seria invadido por uma crescente onda de calor que, pouco depois, se transformava numa sensação única, a melhor que até então experimentara. Aquela sensação durava pouco, era um arrepio, uma vertigem, uma explosão, mas era de uma intensidade tal que valia bem o esforço físico que exigia de mim. Depois da exaustão e do prazer chegava um cansaço morno, muito bom, que me deixava o corpo adormecido e apaziguado. Fazia-o em segredo porque era uma coisa boa e, naquele tempo, todas as coisas verdadeiramente boas - mascar pastilhas elásticas, beber coca-colas, brincar no pátio, experimentar os sapatos de saltos altos da minha tia, enterrar as mãos na terra, pegar na minha irmã recém-nascida ao colo - eram proibidas. Fi-lo durante a infância e a adolescência. Sempre em segredo. Partilhava o quarto com a minha irmã. Esperava que ela adormecesse. Na escuridão, em vez dos gigantes e das árvores com copas cor de cobre, apareciam então mãos que percorriam o meu corpo com vagar e urgência. Nunca percebi se a minha irmã, aconchegada no seu sono, escutava o restolhar dos lençóis e os gemidos quase inaudíveis que, volta e meia, não conseguia calar. Só sabia que a minha escuridão era diferente da dela.
Durante muito tempo, uma eternidade, achei que era a única rapariga do mundo que me masturbava. Sabia que os rapazes o faziam. Falavam entre eles sobre o assunto, vangloriando-se, de modo um pouco absurdo, das raparigas que imaginavam enquanto se tocavam freneticamente. A masturbação (palavra proscrita naquela altura no universo feminino e agora também) era permitida aos rapazes porque era uma inevitabilidade da sua natureza. Revelava virilidade e mostrava o lugar que homens e mulheres tinham na ordem do mundo. Os homens masturbavam-se, as mulheres não. Ponto. O prazer que uma mulher sozinha arrancasse do seu corpo era pecado, era uma coisa muito suja, muito porca, sinal de desvario, de transvio. Cabia aos homens inaugurar a vida sexual das suas namoradas e esposas. Na verdade, devia ser assim porque eu não conhecia uma única rapariga que se masturbasse. As minhas amigas nunca falavam do assunto e faziam um esgar de sincero nojo se a palavra “masturbação” fosse pronunciada. Convenci-me, pois, que era a única rapariga do mundo que pensava em sexo. Esse sentimento de orfandade, de pária, de indigente, deixava-me num estado de inquietude e incerteza. Por um lado, cedia aos ditames dos bons costumes e achava que estava perdida. Lastimava a minha pouca sorte. Queria ser como as outras raparigas que viviam dentro de corpos mortos. Essas raparigas, já mortas, morriam todas as noites um bocadinho mais. Era assim que eu queria ser. A vida de uma mulher morta é um sossego. Às vezes, porém, dava por mim a achar que o meu segredo tinha um lado bom: a prática de tantos e tantos anos de masturbação havia de me tornar mais tarde numa amante eficiente e competente.

Percebi que era uma mulher normal, alguns anos mais tarde, quando vi o primeiro filme do Steven Soderbergh. Foi uma revelação. Afinal havia mulheres como eu, mulheres que gostavam de sexo e que não esperavam pelos homens para cumprir os seus desejos. Suspirei de alívio. Ainda por cima, as mulheres desse filme, são só duas, eram muito mais bonitas e interessantes do que aquelas com quem me cruzava no bairro e na universidade. Tal facto consolou-me. Apaixonei-me naturalmente pelo James Spader, o impotente. Ainda hoje, quando penso no assunto, acho que o parceiro ideal para mim devia ser assim, impotente. Mas isso são conversas que ficam para outra ocasião. Nesse verão pedi à minha mãe que me costurasse um vestido largo, tipo bata, com botões à frente, igual aos que a Andie MacDowell usa no filme. Acreditei que um dia havia de amanhecer perto de alguém a quem pudesse dizer “parece que vai chover” e que esse alguém saberia ler tudo o que essas palavras não dizem. Hoje, passados tantos anos, lido bem com o meu onanismo. Faz parte de mim. É uma competência. Uma espécie de qualificação.

2010/03/09

Sex, Lies and Videotape

Caos

Há um balcão de cafés no piso inferior da estação de comboios. Dentro desse balcão costuma estar um empregado jovem, feio, magro e enfermiço. O homem do balcão, na realidade, não é enfermiço. É sadio e ligeiramente balofo. Esclareço: encontrei a palavra “enfermiço”, pela manhã, no livro que ando a ler e apanhei-a. Sou uma exímia caçadora de palavras. Tenho-as em cativeiro durante algum tempo. Depois liberto-as. Adiante. O empregado usa o cabelo arrepiado, como se fosse um ouriço, e no sobrolho direito traz a cicatriz de um piercing antigo. Movimenta-se com rapidez e eficácia. Mantém as bancadas impecavelmente limpas e rutilantes. Os escaparates das pastilhas elásticas e das batatas fritas estão sempre alinhados em cima da arca de gelados. Tira bicas e galões mornos para os passageiros que param no seu balcão antes de regressarem aos subúrbios. Massamá, Mem Martins, Cacém, Amadora, Bobadela. São sobretudo mulheres. Elas riem das suas graçolas e comentários. Nunca é grosseiro ou inconveniente. Trata por “donas” as mulheres que já conhece. A maior parte delas leva o rosto cansado, o cabelo desgrenhado do vento e da chuva, as camisolas com borbotos, as mães ásperas. Não usam botas de cano alto. Não sabem que este ano está na moda usar franja. O rapaz do cabelo arrepiado sabe que tem um papel importante na vida das mulheres que apanham os comboios da tarde. O café é um pretexto para, por breves instantes, respirarem fundo antes de mergulharem no caos doméstico.

2010/03/07

2010/03/05

Goa

Não sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo, chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na sua penumbra só eu existia.
Setembro, 2007

2010/03/04

Monsoon Wedding

Trela

Cheguei cedo a casa. A tempo de ouvir a jornalista falar na comissão de ética para alguns deputados. Pode não se apreciar o estilo, a forma, a agressividade, mas não se devem ignorar factos. A liberdade exige, devia exigir, uma atitude séria. Cheguei cedo a casa. A tempo de ver a deputada fazer esgares enquanto a jornalista falava. Achei-a feia, com ar de rainha má, seca, velha, mesquinha, um apêndice dispensável, eu que sempre gostei dos seus olhos. Cheguei cedo a casa. A tempo de ver a deputada levantar-se, com sobranceria e arrogância, por duas vezes, enquanto a jornalista falava. Grandessíssima puta, disse. E mudei de canal.

(Deve ser triste viver com uma mordaça e com uma trela.)

2010/03/03

Pensão Coimbra

Há muitos anos, chegou, vinda de Goa, uma prima afastada do meu pai. Queria ser freira. Vinha para o lar das Irmãzinhas da Imaculada Conceição. Ou coisa que o valha. Chamava-se Maria de Lurdes. Era jovem, pálida, quase branca, cheia de sardas, o cabelo sempre preso numa trança grossa. Os lábios eram carnudos e tinham a cor das framboesas frescas. Era bonita se quisesse ser bonita. Achei-a insuportável, uma mosquinha morta, mal falava. Às vezes, dava por ela a fixar-me com um olhar triste e um sorriso pateta nos lábios. Esteve uma semana em nossa casa. O meu pai levou-a a visitar Fátima, o Cristo Rei e a comer queijadas em Sintra. Depois, conforme combinado, foi entregá-la ao cuidado das freiras. Soube-se, passado pouco tempo, que tinha mandado às ortigas a vocação religiosa. Afinal não lhe interessava uma vida de clausura, orando a deus nosso senhor, prestando auxílio aos pobres, ensinando o pai-nosso aos meninos da catequese e aos adultos do catecumenato. Estava, havia dias, na Pensão Coimbra, ali na Praça da Figueira.

Tinha vindo da Índia com um homem mais velho que abandonara a mulher e dois filhos pequenos em Margão. Custou-me acreditar quando a minha mãe me contou, em surdina, com a gravidade que o assunto lhe merecia, que a Maria de Lurdes era amante de um homem casado. Imagina tu, com aquele ar de quem não faz mal a uma mosca e a estragar uma família!, disse-me, piscando os seus olhos pequeninos. Passei naquele instante a olhá-la, à Maria de Lurdes, com outros olhos. Com certa admiração. Afinal era mulher de carne e osso, capaz de sentir a urgência do desejo e de lutar por ele. Toda a gente se escandalizou. De Goa chegaram telefonemas longos e doridos. O meu pai ficava ao telefone, com a carranca fechada, a beiçola muito estendida, escutando os lamentos e os urros da família mais próxima da Maria de Lurdes. Pediam, por tudo, que a salvasse de uma vida de perdição e pecado. Em Goa não há divórcios nem separações. Não há vergonha maior para uma família do que um casamento desavindo. Um divórcio é muito, muito pior, do que uma mulher só dar à luz meninas. O meu pai aceitou a missão e certa noite, lembro-me como se fosse hoje, rumámos à pensão Coimbra. Era uma noite de Inverno. O Natal chegaria em breve e as ruas estavam já iluminadas.


Fiquei no carro à espera com a minha mãe enquanto o meu pai subiu para falar com os amantes. Imaginei-os, sem falar português, vindos da pacatez de uma aldeia goesa para o turbilhão de uma cidade que não compreendiam. Imaginei-os, transidos de frio, deitados numa cama de pensão, a escuridão húmida do quarto cobrindo-lhes o corpo. Imaginei-os, nus, amando-se com embaraço e tristeza. Tudo aquilo era profundamente miserável e desolador. Tive vontade de chorar. O meu pai chegou pouco depois. Não conseguira convencê-los a voltar. Soubemos, passado algum tempo, que tinham ido para Londres. Trabalharam na cozinha de um restaurante. Ela lavou loiça até as suas mãos gretarem e sangrarem. Ele tratou dos desperdícios até o cheiro do lixo se entranhar nas fibras da sua roupa de agasalho. A dureza da vida que levaram em Londres fez com que o seu amor acabasse. Acontece muitas vezes. Só nos livros e nos filmes é que o amor vence montanhas, ultrapassa dificuldades, é enorme, belo e eterno, como um diamante. Na vida real, o amor não tem essa grandeza nem esse brilho. É perecível. Esgota-se. O amor vale pouco. O goês voltou para a mulher e para os seus filhos. A Maria de Lurdes voltou para sua aldeia. A família, muito sábia, recebeu-a em silêncio. Nunca falaram sobre o assunto. A vida continuou como se nada tivesse acontecido.

2010/03/02

Amantes


Casos

Manhã cedo. Uma mulher explicava às amigas que o seu vizinho do quinto andar, casado, com dois filhos, andava a dormir com certa loira que também costumava apanhar o comboio das oito e vinte. Têm um caso, concluiu. A mulher falava muito baixinho. Assuntos de encornanço devem falar-se com discrição, com cuidado e tento na língua, que a gente nunca sabe quando a desgraça nos bate à porta. Tive pena do vizinho do quinto andar. Não por as mulheres do comboio virem, logo pela manhã, a escarafunchar na sua vida íntima. Meteu-me pena que o homem tivesse um caso. Antigamente, os homens não tinham casos. Tinham amantes. E tudo era diferente. Ter um amante é uma coisa quase literária. Infelizmente, os amantes estão em desuso. Estão fora de moda. Já não se usam. Ninguém diz que tem um amante. As pessoas agora têm casos. Conhecem-se na internet, nos ginásios, nos escritórios, nas empresas. Ter um caso é uma coisa muito ordinária. Um dia, que seja infiel, exijo ter um amante. Não sou mulher de ter casos.

2010/03/01

Espanhola

Fui à D. Bia comprar outro jornal. Ando farta do Público. Reparei na capa da revista deste mês. Acho humilhante ser uma espanhola a fazer a primeira capa apelativa da Playboy portuguesa.

Cavalos

Li o que a Isabel Coutinho escreveu no Público sobre as correntes de escrita, na Póvoa do Varzim. Percebi que o ambiente que se vive nestes encontros de escritores não é muito diferente do ambiente que se vive na maior parte dos escritórios de advogados de Lisboa. Enfim. Entretanto, isso é que não me sai da cabeça, quatro cavalos pastavam, pela manhã, na fronteira que divide Chelas do Bairro do Armador.

2010/02/25

Orlando Zapata Tamayo

Morreu um operário, pobre e preto, como lembrou ontem certo analista de política internacional. Enquanto morria, depois de dias de agonia, o corpo minguando, minguando, transformado num espectro, numa arma sem préstimo, em poeira, poalha, em nada, outro operário, de barbas, moderadamente rude, é o que convém aos operários modernos e respeitáveis, confraternizava com os seus algozes. Em silêncio. Que as palavras são bens escassos. Devem poupar-se. O mundo é dos cobardes.

Angústia

Apanhei um táxi para a rua do Quelhas. O motorista cheirava a corpo mal lavado. Trazia a roupa muito usada. O suor de muitos dias entranhado nas fibras de poliester. O cabelo comprido, oleoso, com crostas grossas. Cheirava a miséria, a corredores sombrios, a quartos alugados ao mês, cheirava a ninhos de baratas, a ratos cegos e pelados correndo nas entranhas do prédio em ruínas. Cheirava a noites de solidão. Cheirava a dias de solidão. As noites de solidão são medonhas. Mas são toleráveis. Piores, muito piores, são os dias de solidão. Lembrei-me de um conto que li, há alguns dias, de Tchecov.

(Também gosto das Variações Golberg. Gosto mais das Tocatas.)

2010/02/23

Alegre

Já aqui contei. Nas últimas presidenciais, estive tentada a votar no Manuel Alegre. Por causa das canções do Adriano Correia de Oliveira. Gosto tanto deles que, certa vez, num hipermercado, mergulhei num caixote onde estavam cds em promoção. Aborreceu-me ver ali o Adriano Correia de Oliveira e o Manuel Alegre no meio de tão medíocre companhia. Trouxe os sete cds que lá estavam. Há quem resgate cães e gatos e pretinhos. Coitadinhos. Resgato cds. Votaria no Manuel Alegre apenas por gratidão. É um motivo tão bom como outro qualquer. Só que, certa noite, abri o televisor e, ao lado dele, estava o Pedro Abrunhosa, dando-lhe o seu apoio. Deu-me uma sulipampa. Fiquei par ali deitada no chão, tremendo pernas e braços, revirando os olhos. Não consigo votar na mesma pessoa em que o Pedro Abrunhosa vota. E não votei.

Nobre

Fiquei contente com a anunciada candidatura do Fernando Nobre. Não sei o que o homem pensa sobre a maioria dos assuntos, mas isso, nos dias que correm, pouco interessa. Depois, li num jornal qualquer, que a Margarida Pinto Correia vai ser a coordenadora da sua campanha. Perdi o entusiasmo. Não tarda nada tem a Bárbara Guimarães a apoiá-lo.

2010/02/21

Sangue

Fiquei parada a olhar o coelho em cima da bancada da cozinha. O corpo vinha ainda ensanguentado e estava encolhido como se fosse um feto dentro da barriga da mãe. Mas o que mais impressionava era a cabeça. Parecia a cabeça de um menino morto. E tinha olhos escuros como os dos meus filhos. Coloquei o bicho por baixo da torneira e chamei o R. Corta-lhe a cabeça. Não sou capaz de o arranjar se ele estiver a olhar para mim. E estendi-lhe um cutelo. Desviei o olhar. Escutei o ruído da faca e o baque da cabeça caindo no caixote do lixo. Voltei a ficar sozinha. Enfiei as mãos nas entranhas e senti o coração, o fígado. Arranquei vários pedaços de gordura esbranquiçada. Piquei alhos, ervas. Reguei-o com vinho tinto. Esfreguei-lhe o corpo com sal. Deixei-o em cima da bancada, aninhado numa travessa de vidro, coberto com papel de alumínio. Já lavei muitas vezes as mãos. Ainda cheiram a alhos, vinho e sangue.

2010/02/20

Alessandra Sanguinetti




Torta de Cenoura

Fui ao celeiro comprar uns comprimidos para emagrecer. A fome fez-me comprar uma fatia de torta de cenoura que se atravessou no meu caminho. Eu bem tentei olhar apenas para os escaparates dos suplementos que tudo tratam, das cápsulas que amenizam qualquer achaque, dos complexos vitamínicos que solucionam todos os padecimentos. Entretenho-me muitas vezes a deambular pelo corredor dos suplementos. Descansa-me saber que, da obstipação à incontinência, da calvície à frigidez, do excesso de peso à fadiga, há sempre uma solução fácil para os nossos problemas. Mas, sei lá como, os meus olhos desviaram-se para a triste ilha dos pastéis de algas, dos pães de arroz, dos croquetes de soja. Lá estava, no meio daqueles pitéus, a tal fatia de torta de cenoura. Sabe deus que, de todos os bolos que existem, nenhum me desperta mais a gula do que os que são feitos com cenoura. Os bolos, as tortas, os sonhos de cenoura ganham uma cor, uma textura, um paladar único. Já na rua, os comprimidos para emagrecer enfiados no bolso do sobretudo, antes de trincar a fatia de torta (gosto de comer enquanto ando), pus-me a ler a lista dos ingredientes: cenoura, canela, geleia de milho, farinha tipo 65, coco. Tal como desconfiava, nem uma pitada de açúcar. Nem uma colherzinha. Nem sequer uns salpicos de açúcar mascavado. Insultei, de imediato, a comida macrobiótica, os gurus da comida saudável, os fundamentalistas que desejam viver até aos cem anos uma vida insuportavelmente sã e regrada, enfardando feijoadas de seitan e lasanhas de tofu. Lembrei-me, então, de uma colega do banco, reformada já há muito tempo, a Albertina. Era um amor de pessoa, gentil e generosa, muito delicada e amável. Fotografava muito bem. Tinha um marido mais novo que era professor universitário. Amava-o com muita serenidade. Um dia a Albertina trouxe o filho ao banco e a secretária da direcção ofereceu ao menino um pacotinho de pastilhas de chocolate. A Albertina agradeceu a oferta, muito gentil, e explicou que os seus filhos não comiam doces, nem rebuçados, nem caramelos, nem chocolates, nem pastilhas. Rematou, dizendo que os miúdos nunca comiam dessas coisas e, por isso, rejeitavam o sabor enjoativo, excessivo dessas gulodices. Quando me contaram a história, imaginei o menino já com as mãos no ar, o gesto de aceitação interrompido, fixando os olhos na secretária e no pacotinho de pastilhas de chocolate, escutando a explicação da mãe. Achei aquilo tudo triste… Tão triste. Uma criança que não conhecia o sabor do chocolate. Lembrei-me, pois, da Albertina e do seu filho, que cresceu comendo gelatinas azuis de ágar-ágar e boiões de sobremesas de soja, quando meti a fatia de torta de cenoura à boca. Foi então que, ali, no meio da rua mais feia de cidade, onde vive um cristo muito alto e loiro e as árvores se enchem de flores cor de arando, se assistiu a um fenómeno estranho. Pelos poros da minha pele escaparam-se opiniões antigas e certezas inabaláveis. Primeiro fiquei oca como um cabaça. Depois fui mirrando, mirrando. Até que desapareci.

(A torta, a puta da torta, era excepcionalmente boa.)

2010/02/14

Ornatos Violeta Dia Mau

(tenho outro blogue.)

2010/02/11

Bocadinho

- Vamos encontrar a Maria e a Ana.
- Quem são?
- São amigas da mãe.
- Têm filhos da minha idade?
- Não.
- São casadas?
- Não.
- São solteiras?
- Não.
- Então?
- São namoradas.
- Está bem.
(silêncio)
- Faz-te confusão?
- Só um bocadinho.

(Prefiro partilhar as gracinhas da minha prole a falar do que se passa neste país e, na televisão, o Lobo Xavier, o António Costa e o Pacheco Pereira falam, falam, falam.)

Mandela


2010/02/08

Maria Adelaide

Aconselhou-se com a mãe. Não tinha mais ninguém a quem recorrer. A mãe escutou-a na vivenda de azulejos cor de caramelo. Explicou-lhe com inesperada clareza a natureza instrumental do casamento: era apenas um meio para se alcançar um fim. Maria Adelaide encontrou certo conforto no conselho. Chegou-se ao marido e disse-lhe que podia suportar o resto desde que tivessem um filho. Foi mãe aos vinte e nove anos. A menina que nasceu era muito bonita. Maria Adelaide rejubilou. Achou que a beleza da filha vingava o seu passado de permanente gozo: o lábio leporino à nascença, a mãe assim como era, a gargalhada do primo Renato no quarto das bonecas, o despeito das primas, o marido olhando imagens de homens nus. As primas, Arlete e Gorete, estranhavam a extraordinária beleza da menina. Não percebiam como podia a Laidinha ter tido uma menina tão linda. Mais parecia filha da Broke Sheilds. Descobriu-se, pouco depois, que a menina sofria de atrasos graves. Mal falava e babava-se muito. As primas voltaram a visitá-la e a consolá-la. Conseguiam suportar a beleza da filha agora que a sabiam tolinha. Deus voltava a gozá-la. Pela quarta vez.

(bocadinho do tal conto.)

2010/02/07

Mulheres

Vi a Ana Free de vestidinho, muito elegante, rapando um frio medonho, para ficar bonita na fotografia ao lado de Sua Excelência. Vi também a Catarina Portas sorrindo, linda, entre mulheres. Aparentemente só lá estava um homem. Sua Excelência quis honrar as mulheres. Ena. E sorriu para os fotógrafos. Depois imaginei a Bárbara Guimarães terricando umas trouxas de ovos com sabayon de amêndoa ou, quem sabe, um creme brullé de tangerina ou, talvez, um crocante de pêra bebada, enquanto Sua Excelência esgatanhava num jornalista que tem cara de doninha. O mundo está cheio de gente absolutamente magnifica.

2010/02/04

PJ Harvey - Good Fortune

Isabela

Há dias, a mana aconselhou-me o blogue da Isabela Figueiredo. Carreguei o cenho e, com petulância, expliquei-lhe que não lia blogues. Depois, no dia a seguir, parecia provocação, enquanto esperava a hora de saída da minha filha, escutei a entrevista que a autora do tal blogue dava ao Carlos Vaz Marques. A sua voz entrou-me pelo corpo todo. Escutei-a falar de um país e de um tempo que ainda foi meu. O colonialismo era o meu pai, explicava ela. Não vou ler o blogue da Isabela Figeuiredo, que uma mulher deve manter-se fiel às suas manias e idiossincrasias, mas vou ler, sei-o, com sofreguidão, o livro que escreveu.

Variações Goldberg

Li um livro da Iris Murdoch. Dava o corpo, vendia a alma ao diabo, cortava uma mão, assistia a vários programas de entrevistas da Bárbara Guimarães, rapava o cabelo, fazia o que fosse preciso, para escrever assim. Logo de seguida li um livro da Ana Teresa Pereira. Pensava que existia apenas uma Mafalda Ivo Cruz na literatura portuguesa. Afinal há duas. E calo-me, estrangulo os dedinhos, por consideração a quem aprecia escritores que gostam de descrever ambientes atafulhados de aprumo intelectual, onde se fode ao som das variações goldberg. Criada nos arrabaldes, reconheço, sou uma pobre criatura iletrada, boçal e suburbana. Os escritores assim dão-me náuseas. Prefiro, de longe, a MRP (nunca lhe li nenhum livro, mas prefiro.)

Tarantela

Estava ali no largo D. Estefânia, trincando uma madalena da Tarantela e lembrando os entardeceres da minha infância. Ao fim do dia, vasculhava a mala da tia Dé. A mala reflectia a tristeza e a solidão da vida que levava. O conteúdo estava sempre impecavelmente organizado. Reduzia-se a meia dúzia de objectos. Uma carteira de fole, plastificada, para guardar os documentos. Um porta-moedas. Uma caixa de guardar comprimidos, muito pequenina, incrustada com uns cristaizinhos coloridos. Uma escova de cabelo. Um corta unhas. Pouco mais. Revirava a mala da minha tia e não encontrava papéis soltos ou caixas de chicletes vazias. Não havia lenços de papel amarrotados, nem batons velhos. Nem sequer o passe social ali se perdia. Estava sempre enfiado na bolsinha lateral, seguro pelo fecho eclair. O espaço daquela mala pequena, em função da organização, do cuidado meticuloso, era imenso e sobrava para qualquer coisa que não chegava. Espreitava a mala da minha tia e não me dava conta do vazio da sua vida. A insistência com que falava do Dr. Lucas, o cirurgião de São José, que tinha um filho deficiente, não me mostrava o amor que lhe tinha. Esse amor que não chegava. Nunca se cumpriu. Mais triste do que amar um homem que não nos quer é amar um cobarde que nos quer, mas não luta para nos ter. Porém, naqueles tempos, pouco me importava a angústia e o amor não cumprido da minha tia. Revirava-lhe a mala com um propósito definido. Muito concreto e interesseiro. Ela trazia, quase sempre, qualquer coisa que comprava no caminho do hospital: tabletes da regina, sombrinhas de chocolate, bolos de arroz, palmiers e madalenas. Eram os bolos e os chocolates que eu procurava na sua mala.

Estava ali no largo, tão feliz, comendo uma madalena da Tarantela, lembrando tudo isto, confortada com o amor que tenho à minha tia, quando encontrei uma amiga que não via há muito tempo. Deixei de lhe falar. Já não sei porquê. Perguntou-me pelos filhos. Respondi-lhe evasivamente. Trocámos meia dúzia de palavras. Esforcei-me para lhe sorrir. Foi então, assim do nada, de uma forma extraordinária e directa, que ela disse que me achava egoísta. E sorriu, com um misto de desdém e piedade. És profundamente egoísta, disse-me. No preciso instante em que as palavras lhe saíram da boca, um pardal, que dava saltinhos, na balaustrada de uma varanda, estremeceu. Ficou tão aflito que largou um piar manso de pássaro pequenino. O rapaz da banca de jornais, que não tinha dentes, espreitou por cima das revistas da vida social a ver se aquela conversa descambava numa discussão decente que lhe alegrasse o dia mortiço. Por breves momentos, pensei esbofetear a minha amiga. Ou afogá-la na água esverdeada do lago que fica no meio do largo. Ou esfregar-lhe a madalena no rosto. Não fiz nada. Percebi que não me aborrecia o facto de me chamar egoísta – sou - mas apenas o atrevimento e a coragem de o fazer.

2010/01/19

Et moi dans mon coin

Tarde

No cabeleireiro, enquanto a menina Olivia me esticava o cabelo, numa revista, topei com as tais fotografias da Clara Pinto Correia. Não são provocadoras ou aliciantes. Não são sequer bonitas. São só desinteressantes. O orgasmo feito numa coisa qualquer. O marido da Clara Pinto Correia poderá ter maravilhosas competências - a sua língua, a ponta dos seus dedos mãos, a sua voz - mas é um mau fotógrafo.

Manhã

Deviam ser oito horas. O apeadeiro estava ainda mergulhado na neblina matinal. O ar da manhã pareceu-me fantasmagórico e insólito. E, no entanto, olhando em redor nada destoava dos outros dias: as ervas da berma estavam perladas de orvalho, os passageiros chegavam encolhidos nos seus abafos de inverno, os minutos de atraso dos comboios eram lançados, com precisão, por uma voz de mulher, duas gaivotas grasnavam sobre o nicho do prédio amarelo onde vive uma nossa senhora de fátima. Olhando para o chão da plataforma percebia-se, porém, por que a neblina anunciara que aquela seria uma espera diferente. Estava repleto de caracóis e lesmas. Ao contrário dos que se encontram, aos cachos, pelos campos, durante o verão, estes apresentavam uma coloração diferente. Eram escuros como a terra. Eram muitos, de vários tamanhos, e, com o vagar que lhes é próprio, arrastavam-se das ervas que ficam do lado de lá da estação para os carris. Aqueles bichos, percebia-se, tinham um propósito, um objectivo. Talvez se tratasse de um suicídio colectivo. Muitos, porém, não chegavam ao seu destino. Eram esmagados pelos passageiros que vinham apressados. Só se apercebiam da sua existência quando escutavam o barulhinho das suas conchas quebrando. Era como se pisassem folhas secas.

2010/01/16

57

Depois de o escutar percebo duas coisas. Primeiro, nasci no tempo e no lugar errado. Vivo permanentemente com esta sensação de alheamento, segura de que noutro tempo e noutro lugar tudo seria diferente. Em vez de 37 anos, deveria ter 57 anos. Em vez deste lugar frio, de gente pálida e macilenta, deveria viver, quentinha e feliz, do outro lado do oceano. Segundo, quando me cruzar com alguém, para averiguar do seu grau de compatibilidade, exigirei que me responda ao seguinte questionário: 1) Qual o nome do pai e da mãe do Chico Buarque ? 2) Indique o nome de uma das duas canções do seu primeiro disco. 3) Problematize acerca das suas relações com a Elis Regina? 4) Indique o nome do seu clube de futebol e da escola de samba preferida. 5) Quem foi determinante para ele deixar de beber? 6) Qual o nome do seu cunhado famoso, temperamental, e em que contexto conheceu a sua irmã Miúcha? 7) O que queria ser quando era pequeno? 8) Indique, pelo menos, cinco canções da Ópera do Malandro. 9) Indique as três canções da sua vida.


(Tenho uma irmã e duas amigas. Uma delas é a Maria Emília que entrou na minha vida, era eu ainda menina, e a vi em cima de um palco. Partiu hoje novamente para o Rio de Janeiro. Deixou-me cá.)

Roda Viva - Chico Buarque

(o que eu gosto da rapariga do apito.)

Cholé

Há blogs que cheiram a cholé. É um fedor que não se pode. Cheiram a pés enfiados em sapatos baratos comprados na Bheska do Forum Montijo. Por acaso, por falar em Bheska, acidentalmente, descobri por lá umas sandálias douradas que não me saem da cabeça. Mas, depois de comprar dois pares de sapatos italianos, caríssimos, custa-me andar de cavalo para burro, ou melhor dizendo, de égua para mula, e comprar sapatos feitos na Roménia, na Índia, ou na Turquia. Eu cá não pactuo com a globalização. Nem com a miséria doutros povos. Nem pensar. Era o que mais faltava. Adiante. Voltando aos blogs, outros há que cheiram a partes íntimas mal lavadas e suor. Um horror de podridão. Um cheiro nauseabundo. Outros cheiram a bafio, a mofo, a bolor. Outros cheiram a nádegas. A rabo. É lá, nos blogs-nádegas, que habitam as bichas solitárias, tão modernas, comendo sushi e sashimi com sofreguidão e tricotando, com lãs amarelas e rosa ciclame, a tristeza das suas vidas. Outros não têm cheiro. São assépticos, inodoros, incolores, inexistentes. Outros são transparentes que é coisa muito diferente. É bom ser transparente. Como a água que se bebe. Outros cheiram a sarcófago, a caixão, a ataúde de pinho envernizado. Outros, porém, cheiram bem. Cheiram a azul, a mar e a embondeiros. Cheiram a espirais nocturnas de fumo, chão encerado e cerveja preta.

(Escrito em Março de 2006, altura em que acompanhava alguns blogues e fazia do cu três bicos para escrever com pedantismo e acrimónia. Queria mostrar a minha singularidade. Ferir com a virulência, a crueza e a coragem da minha escrita. Eu que sou um doce de pessoa. Patético. Desde então deixei de ler blogues. Leio o meu que se tornou num diário escancarado. Venho para aqui. Para a vitrine. Às vezes, sinto-me uma puta. Outras, não. Confesso-vos: desprezo quem escreve em blogues, mas, ainda mais, quem, como vós, perde tempo a lê-los.)

2010/01/13

Lixo do Leblon

E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui.

Gilberto Gil e Caetano Veloso

2010/01/12

Bang Bang

Fecaloma

Assustei-me quando caiu o muro de Berlim. O mundo, nessa altura, dividia-se de forma simples. A fronteira clara que se estabelecia entre os bons e os maus facilitava-me muito a vida. De um lado estavam os bons. Do outro os maus. É certo que os bons podiam ser maus e os maus podiam ser bons. Mas isso não me interessava nada. Bastou-me escolher um dos lados da barricada para que, aos meus olhos, esse se tornasse o lado dos puros, dos impolutos, dos heróis que se batiam por valores e causas. Fiz uma escolha e também eu, por osmose, passei a fazer parte do grupo eleito. Desses tempos de ordem e simplicidade ficou-me o hábito de, a propósito de outros assuntos, dividir o mundo em duas partes. É um exercício tolo mas que insisto em fazer. Não podendo continuar a ter uma visão maniqueísta da política, o peso da idade e o conhecimento dos factos não mo permitem, dou por mim a imprimir a força da divisão dualista em relação a assuntos menores e domésticos. Divido as mulheres entre as que arranjam as cutículas das unhas e as que não o fazem. Divido os amigos dos meus filhos entre os que me tratam pelo nome e aqueles que me reduzem à “mãe do João”. Desprezo o segundo grupo. Divido os homens entre os que usam botões de punho e os que não os usam. Por aí fora.
Vem a conversa, parva e inconsequente, a propósito da morte do Eric Rohmer. Divido também o mundo entre as pessoas que acham que "Os amores de Astrea e Celadon"é uma obra prima do cinema europeu e aqueles que acham que o filme é uma merda. Para mim, o dito filme ultrapassa o significado corriqueiro que atribuímos à palavra merda. É um autêntico fecaloma. Um pesadelo. E mais não digo.

2010/01/11

Mãe

Lembro-me da folha larga que, todos os meses, ela trazia para casa dentro de uma mica plastificada. Sentada à mesa da cozinha, a minha mãe começava por olhar atentamente a lista das enfermeiras que trabalhavam consigo no hospital. Depois, com uma esferográfica multicor, começava a preencher a folha larga com a escala mensal do serviço que chefiava. Acautelava os melhores horários para as enfermeiras que tinham a vida mais complicada: muitos filhos, maridos ausentes, transportes públicos para apanhar logo de manhã. Para as solteiras sobravam sempre os horários mais cansativos, com velas, poucas folgas seguidas, muitas horas extraordinárias. Havia, eu percebia que havia, uma linha que separava as enfermeiras casadas das que permaneciam solteiras. As solteiras não mereciam o cuidado da minha mãe. Eram mulheres que não se cumpriam, sem homem, sem filhos, sem lar. Restava-lhes o consolo da vida do hospital, encarada como uma espécie de sacerdócio a que se votavam para esquecer a solidão de noites demasiado longas.

Nos dias em que a minha mãe se ocupava do preenchimento da escala, eu deixava-me ficar sentada ao seu lado. Não tinha especial interesse pelas tarefas administrativas da sua profissão. Se, nessas tardes de azáfama burocrática, eu me esquecia dos meus afazeres e me colava à minha mãe era por uma razão concreta. Aguardava, com ânsia e expectativa, que ela ditasse a sua própria sorte e escolhesse o seu horário mensal. Para gerir a tristeza e angústia, precisava de saber, com antecipação, o horário da minha mãe: quais os fins-de-semana em que estaria sem ela, em que dias ocorreria o desperdício das folgas que calhavam durante a semana, e, sobretudo, qual a noite da ronda nocturna. Nada me custava mais do que passar uma noite sem a minha mãe. Era a casa que, de um momento para o outro, escurecia e se tornava num catre, num túmulo. Ficava num desconsolo, imaginando a minha mãe-sombra, a minha mãe-noite, percorrendo os claustros do hospital envolta na sua capa azul, como se fosse um bicho nocturno, irrepreensível na sua farda cintada, o chapéu engomado, os sapatos de atacadores brancos, o relógio de bolso com o seu nome gravado.

Muitas vezes, quando a ronda calhava numa noite de sábado ou num domingo, dormíamos a sesta juntas. Eu dormia o sono no tempo certo. A minha mãe antecipava o sono da noite para a tarde. Deitadas na cama do seu quarto, o cristo de pau preto atormentando-me com o seu rosto triste, prendia-lhe as mãos e fazia-a prometer-me que nunca me morreria, nunca me abandonaria, nunca me deixaria sozinha. Ela ficava tonta com tanto amor e, ali mesmo, sem medir as consequências das suas palavras, prometia o impossível. Nunca te morrerei. Nunca te abandonarei. Nunca mais te deixarei sozinha. Vou telefonar para o hospital a dizer que estou doente. Invento qualquer coisa. Depois, vou dormir a tarde toda contigo, aqui no quentinho dos lençóis de flanela que comprei nos armazéns de Moscavide. Deixava-me adormecer. Acordava sozinha na cama dos meus pais, a minha tia consolando a minha tristeza. Vinha-me então uma dor muito grande e a certeza de que, um dia, a minha mãe me morreria.

(Uma da manhã. A minha vizinha de baixo, a dentista venezuelana, demora que se farta a atingir um orgasmo. Já não posso ouvir a mulher gemer. Uma pessoa quer escrever um texto lacrimoso sobre sua mãe e não consegue concentrar-se. Puta da venezuelana.)

2010/01/06