O pcp, em cartazes que por aí andam espalhados, reclama ser a esquerda patriótica. Estranhei. As palavras, como as pessoas, também se catalogam, colam-se a realidades, têm um passado, uma história. Há palavras da direita e palavras da esquerda. Toda a gente sabe que a palavra pátria pertence à direita saudosista, nacionalista, aos salazaristas que levam coroas de crisântemos e gerberas a Santa Comba Dão. Nem o PP usa a palavra pátria nas suas campanhas.Qualquer pessoa associa a palavra pátria aos manuais escolares do antigo regime. É a nossa mãe protectora. Dócil, humilde, casta. É a pátria do império, dos heróis, dos santos, do povo obediente, da ordem, do senhor presidente do conselho e da governanta. Não há outra pátria. Que o pcp se assuma como esquerda patriótica (aquela que ama a pátria) é coisa bizarra. Sei que os entendidos explicam que o pcp sempre foi um partido patriótico, mas a utilização daquela expressão, apelando a um imaginário que, à primeira vista, é precisamente o oposto do do pcp, tem um propósito claro. A esquerda patriótica do pcp é como a fé debochada da Dilma Rousseff, a marioneta polida pelo Lula.Serve para conseguir votos, mesmo que seja à custa dos ideais que sempre defenderam.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2010/10/21
Domingo (2)
Quando o marido alterou os seus procedimentos, passando a procurá-la apenas nas noites de domingo, Odete aborreceu-se. Agradecia o sexo agendado, era ao domingo, sempre ao domingo, mas não suportava que os lençóis mudados ao sábado, imaculados, cheirando tão bem, a sabão de marselha, a aloé vera, a flores orientais, se sujassem no dia seguinte. Era o suor, eram os derrames ocasionais de esperma, era o cheiro animal de corpos, coxas, nádegas, o pénis do marido, a sua vagina nua, esfregando-se no tecido dos lençóis! Na noite seguinte, à segunda, deitava-se e sentia que não se deitava na sua cama. Era uma enxerga imunda. Um catre de asilo que roda de dono todas as noites. Um dia, puxando a roupa para trás, encontrou mesmo dois pelos púbicos do marido, muito pretos, encaracolados, aninhados em espiral como vermes. Analisou o problema. Percebeu que havia apenas uma solução: deixaria de mudar a roupa da cama ao sábado, passaria a fazê-lo à segunda-feira. Fazia-o, porém, com sacrifício. Sendo um dia de semana, a segunda-feira não lhe deixava muito tempo livre. Na altura, ainda os filhos eram pequenos, desde que entrava em casa até à hora do jantar, andava num corrupio: vigiava os trabalhos de casa, fazia o jantar, preparava as marmitas para o colégio, varria quartos, corredores, a sala, limpava as casas de banho, tratava da roupa. Por mais que tentasse, e tentou-o várias vezes, não conseguia desempenhar aquela tarefa antes do jantar. A mudança da roupa da cama ficava sempre para depois. Apressava a limpeza da cozinha, muitas vezes, não tinha sequer tempo para arear os bicos do fogão. Deixava a loiça a secar em cima do balcão e corria para o quarto. Perdia quase sempre o início da telenovela. O marido a chamá-la, Odete, anda, já está a dar a novela, ela no quarto a esticar lençóis, a enfiar o bico de pato nos cantos da cama, a zelar pela higiene do lar. Mas o sacrifício valia bem a pena! Aos domingos, o marido passou a sujar o que já estava sujo. Podia esfregar o corpo nos lençóis, soltar líquidos, impar, guinchar, cuspir se quisesse, podia esvair-se em sangue, derramar as entranhas, soltar mucos, esvaziar os testículos! Ela não se importava. No dia seguinte, mudava os lençóis, aspirava com o bico de pato os bichos que comiam pó, adormecia numa cama limpa. Na verdade, nas noites de domingo, nas tais noites que se tornaram ruma rotina inalterável, já lá vão tantos anos, o que menos custa a Odete é o sexo propriamente dito. O sexo é uma obrigação que cumpre como outra qualquer. Num instantinho a vida passou e uma mulher acostuma-se a tudo. Não sente dor. Não sente tristeza. Não sente nada. Não a aborrece o sexo que se pratica com hora marcada, muito pelo contrário, só tem a agradecer ao marido ter tornado o sexo numa rotina. Poupou-a à imprevisibilidade da coisa, evita-lhe a ansiedade, a angústia da incerteza. É ao domingo, sempre ao domingo. Ficaram os restantes dias da semana libertos, pode dormir descansada, adormecer em sossego: o sono não será interrompido para o cumprimento das obrigações conjugais.
Domingo (1)
Se pudesse, trocaria de imediato os lençóis da cama, porém o marido adormece rapidamente nas noites de domingo. É o tempo de ir à casa de banho lavar-se. Na volta, encontra-o sempre a dormir, ressonando baixinho, a culpa e a vergonha fugindo-lhe pela boca e pelo nariz, ficam os lençóis reféns daquele corpo, presos às suas carnes, com o cheiro da noite entranhado. Por causa dos lençóis Odete alterou a sua agenda doméstica. Nos primeiros tempos de casada, quando a prática dominical ainda não estava instituída - o marido tanto a procurava na cama ao domingo, como à quarta-feira, como à quinta-feira, montava-a sem agendamento prévio, em qualquer altura da semana, às vezes, duas noites seguidas, causando-lhe sobressalto, mialgias várias -, trocava a roupa da cama ao sábado de manhã. Gostava daquela tarefa doméstica mais do que qualquer outra. Encarava-a com um zelo especial. Começava por colocar os cobertores a arejar no parapeito da janela durante toda a manhã. Aspirava o colchão com cuidado, enfiando o bico de pato em todas as ranhuras e frestas da cama, expurgando assim o leito conjugal dos bichos que se alimentam do pó. Fazia a cama com movimentos vigorosos e precisos; os lençóis eram abertos com um gesto largo, sacudidos com rapidez, às vezes estalavam, ficava aquela brancura enfunada, a planar por instantes sobre o colchão. Esticava depois os lençóis muito bem, até não se ver um vinco, um engelho, uma ruga. Fazia pequenos nós nas extremidades do lençol de baixo para não se soltar. Tal técnica, sabia-o bem, trazia certas desvantagens: esgaçavam-se as fibras dos cantos do lençol e a engomagem tornava-se mais difícil, tinha de borrifar o tecido, encharcá-lo várias vezes até desaparecerem os vincos. Odete não se importava. Os nós asseguravam uma semana descansada, sem lençóis fugitivos. Depois, entalava bem os cobertores e fazia uma dobra perfeita com o lençol de cima, nem muito grande, nem muito pequena, o quadrilé bordado a ponto de cruz ficava sempre simetricamente colocado ao meio. Estendia, por fim, a colcha, dispunha os almofadões de folhos, olhava para a cama no meio do quarto limpo, o sol da manhã entrando pelas janelas abertas. Experimentava um momento de deleite e conforto.
2010/10/16
Domingo
Está acostumada às noites de domingo. Já nada lhe custa nas noites de domingo. As noites de domingo são previsíveis como os almoços de feijoada ao sábado. Desenrolam-se sempre da mesma maneira, nunca trazem surpresas ou sobressaltos. Só lhe custa, nas noites de domingo, certa falta de asseio. Não é que o marido não seja um homem limpo. Pelo contrário, os cuidados de higiene fazem parte da disciplina que julga essencial para se viver com decência. O marido exerce as rotinas com método e precisão. Toma sempre banho depois do pequeno-almoço. Escova os dentes durante um minuto. Muda de meias, cuecas e camisa todos os dias. Apara frequentemente os pêlos das narinas e das orelhas com uma tesourinha retorcida que guarda num estojo de couro. Vai ao barbeiro uma vez por mês cortar o cabelo. Usa a piaçaba para limpar a sanita. Nunca se esquece de puxar o autoclismo. Corta as unhas das mãos e dos pés com regularidade sem as deixar espalhadas pelo chão do quarto. Odete sabe que teve sorte com o companheiro que a vida escolheu para si. É trabalhador, cumpridor, reservado, bom pai, bom marido, muito poupado, trata da declaração anual de rendimentos e oferece-lhe um ramo de cravos no dia da mulher. Porém, quando, nas noites de domingo, se transforma noutro homem e exerce a sua prerrogativa conjugal, agarrando-a com brusquidão, abrindo-lhe as pernas, enterrando-se dentro dela, exigindo o que é seu por direito, traz entranhados no corpo os cheiros que se acumularam ao longo do dia: fezes, suor, urina, a aguardente que bebe depois do jantar, o tabaco que fuma enquanto vê o domingo desportivo, às vezes, até o cheiro gorduroso do peixe frito que comeu ao jantar. É essa mistura de cheiros, individualmente suportáveis, que a deixa um pouco nauseada. O marido, é assim que pensa Odete, podia fazer um esforço para a agradar. Tudo seria diferente se, nas noites de domingo, antes de vir ter com ela, se lavasse no bidé e passasse uma esponja por baixo dos braços. Não lhe custava nada. Perdia um minuto. Se fosse um homem romântico, podia até borrifar-se com um bocadinho da água-de-colónia que os filhos lhe ofereceram pelo aniversário.
Mas pior do que os cheiros que o marido traz no corpo são os líquidos que segrega e, no momento oportuno, liberta. Por mais que lhe recomende atenção, já lá vão tantos anos, precipita-se muitas vezes a soltar o pénis da sua vagina. O marido, nos breves momentos que se seguem ao orgasmo, antes de vestir de novo o seu corpo, a sua vida, a respeitabilidade e o bom senso, viaja até um mundo de desnorte e indisciplina. Ainda atordoado, zonzo de prazer, os olhos revirando em espirais frenéticas, parece não a escutar. Apesar dos gritos aflitos de Odete – Cuidado, filho! Olha que sujas os lençóis!- , respinga muitas vezes gotas leitosas de esperma para cima da roupa da cama. Quando isso acontece, e acontece muitas vezes, Odete pega num toalhete perfumado, tem-nos sempre à mão numa caixinha de plástica em cima da mesa-de-cabeceira, e esfrega o exacto local que o marido sujou.
Mas pior do que os cheiros que o marido traz no corpo são os líquidos que segrega e, no momento oportuno, liberta. Por mais que lhe recomende atenção, já lá vão tantos anos, precipita-se muitas vezes a soltar o pénis da sua vagina. O marido, nos breves momentos que se seguem ao orgasmo, antes de vestir de novo o seu corpo, a sua vida, a respeitabilidade e o bom senso, viaja até um mundo de desnorte e indisciplina. Ainda atordoado, zonzo de prazer, os olhos revirando em espirais frenéticas, parece não a escutar. Apesar dos gritos aflitos de Odete – Cuidado, filho! Olha que sujas os lençóis!- , respinga muitas vezes gotas leitosas de esperma para cima da roupa da cama. Quando isso acontece, e acontece muitas vezes, Odete pega num toalhete perfumado, tem-nos sempre à mão numa caixinha de plástica em cima da mesa-de-cabeceira, e esfrega o exacto local que o marido sujou.
2010/10/11
Justine
Recordo. Encontrei, certa vez, uma sem-abrigo que lera o Quarteto de Alexandria. Muito magra, de cabelo crespo, baço, tinha os dentes podres da heroína consumida durante de muitos anos. Na altura, tive a tentação de escrever sobre aquela mulher que dormia na rua, mas tinha um passado de leituras, interesses, sonhos. Recordo com precisão o seu aparecimento: o restaurante argentino, as sobremesas montadas com aparato em pratos de faiança colorida, quatro mulheres desconhecidas falando das suas sessões de psicoterapia, o empregado servindo copinhos de licor de rosas, eu, farta de ali estar, a pensar nos meus filhos, na falta que me fazem, a fazer um esforço para articular palavras, para mostrar interesse naquilo tudo. Foi então que uma mulher se aproximou da nossa mesa e ofereceu a revista cais. Notando o livro que tirei da mala para alcançar o porta-moedas, a mulher explicou que lera há muitos anos o romance de Lawrence Durrel. Confessou que, dos quatro livros, gostara mais, muito mais, do primeiro, Justine. Os olhos brilharam-lhe com saudade de um passado há muito esquecido. Percebi, naquele instante, que aquela mulher era a protagonista da noite. Nós, as quatro desconhecidas, que dissecávamos relações e beberricávamos copinhos de licor, éramos meras figurantes. Tínhamos tudo – problemas, angústias, sofrimento, também - mas faltava-nos densidade dramática. Senti-me inexistente ao lado daquela mulher. Nunca fui capaz de escrever sobre ela. Não sei explicar bem porquê. Senti que se o fizesse estaria a retirar-lhe a dignidade que lhe restava, a comer-lhe a sua individualidade, a reduzi-la a uma categoria, a um estereótipo. Isso pareceu-me monstruoso.
Onésimo
O Onésimo Teotónio Almeida encontrou, em São Miguel, um gasolineiro que lê Guimarães Rosa, Saramago, Eduardo Lourenço, outros que não recordo. Teve uma epifania tal que correu a escrever duas páginas sobre o assunto na revista Ler. Pouco mais faz do que elencar as obras que o gasolineiro de S. Miguel leu. É uma lista longa que tem tanto interesse como a lista que faço antes de ir às compras. Farinha, pensos higiénicos, leite, iogurtes, toalhetes, fraldas. Não me espanta que o gasolineiro, com a quarta classe ou coisa que o valha, leia o Guimarães Rosa. Assim como não me espanta que outros, com elevados conhecimentos, cargos digníssimos, nunca o tenham lido. O que me espanta é que o Onésimo Teotónio Almeida, com tanto saber, tantos graus, cátedras, tantos livros lidos, escreva um texto tão mau sobre alguém que é mais do que a lista dos livros que leu.
2010/10/09
Lobo
Carla rodava no átrio da escola secundária, mal pousando os pés no chão encerado, evitando o ruído, escondendo-se atrás dos placares de informações da secretaria para não chamar a atenção. Comia pacotinhos de bolachas de água e sal nos intervalos. Parecia um esquilo. Não havia rapariga mais feia no liceu. Nem os olhos claros a salvavam. Era, por outro lado, desinteressante, muito aborrecida, chata. Tal carácter acentuava-lhe a feiura, tornando-a grotesca. Gostava de bordar a ponto cruz e encontrava conforto na aprendizagem da culinária. Certo dia, do nada, assim como que a querer meter conversa, explicou que sabia fazer rissóis, esclarecendo que o segredo estava na massa cozida e não no recheio. Ninguém lhe ligou. Ela lambeu os beiços e foi esconder-se atrás de um vaso a comer bolachas de água e sal.
Vestia fatos de treino de algodão. Sonhava soltar o seu primeiro beijo ao som das canções do Glen Medeiros. Miudinha, a voz fanhosa, muito irritante, fazia estremecer a alma mais bondosa. Quando falava, havia uma produção excessiva de saliva que se acumulava nos cantos da boca. Ficava aquela babugem de cuspo pairando ali, humedecendo-lhe os cantos, evitando as fissuras do cieiro. Carla aplicava-se no estudo com afinco, lia muito, fazia resumos que sublinhava com marcadores fluorescentes de várias cores. Até aí falhava. Nunca conseguiu ir além da mediania. Era fraca em quase todas as disciplinas, menos nas línguas estrangeiras, onde era assim-assim. Tinha um irmão efeminado, um ano mais velho, que dava ao rabinho escola fora. Chamavam-lhe Repolho, porventura por causa do tom esverdeado que, em dias de chuva, a pele do seu rosto tomava. Era uma cruz que Carla carregava contrariada.
Passaram exactamente vinte anos. Não voltei a vê-la. Soube que seguiu a sua fraca vocação. Tirou um curso de línguas. Ontem, encontrei-a na rua onde trabalho, a rua mais feia de Lisboa. Borriscava e a Carla passeava de mãos dadas com um marido muito magrinho, precocemente envelhecido. Atravessaram a rua perto do novo restaurante japonês que tem um letreiro cor-de-laranja torrado. Bufete de almoço a nove euros e cinquenta, incluindo café, uma bebida, sobremesa, e a Carla, à chuva, olhando com amor, tanto amor, o seu companheiro. Vestia um casaquinho de malha azul-escuro e calças vermelhas. Trazia um colar de contas, vermelho coral, rente ao pescoço. O colarzinho, de bom gosto, dava-lhe um certo sainete e, estranhamente, tornava a minha rua menos feia. Deve ter usado aparelho nos dentes. Nos tempos do liceu, os caninos encavalitados não a deixavam fechar a boca. Agora, sorri, confiante. Mostra uma fileira de dentes certinhos, grandes, brancos. Apesar do colarzinho e da dentadura nova, continua feia, com as ancas muito largas, obscenas e maternais. Parece feliz.
(Como sempre acontece, a inveja galgou sobre mim. Tornou-me num bicho de dentes aguçados, num lobo das estepes, faminto, passeando na rua mais feia da cidade. Olhei a Carla e quis ferrar-lhe os dentes, apossar-me do seu corpo, da sua vida, do seu marido de rosto esquálido e dedos amarelos de nicotina.)
Vestia fatos de treino de algodão. Sonhava soltar o seu primeiro beijo ao som das canções do Glen Medeiros. Miudinha, a voz fanhosa, muito irritante, fazia estremecer a alma mais bondosa. Quando falava, havia uma produção excessiva de saliva que se acumulava nos cantos da boca. Ficava aquela babugem de cuspo pairando ali, humedecendo-lhe os cantos, evitando as fissuras do cieiro. Carla aplicava-se no estudo com afinco, lia muito, fazia resumos que sublinhava com marcadores fluorescentes de várias cores. Até aí falhava. Nunca conseguiu ir além da mediania. Era fraca em quase todas as disciplinas, menos nas línguas estrangeiras, onde era assim-assim. Tinha um irmão efeminado, um ano mais velho, que dava ao rabinho escola fora. Chamavam-lhe Repolho, porventura por causa do tom esverdeado que, em dias de chuva, a pele do seu rosto tomava. Era uma cruz que Carla carregava contrariada.
Passaram exactamente vinte anos. Não voltei a vê-la. Soube que seguiu a sua fraca vocação. Tirou um curso de línguas. Ontem, encontrei-a na rua onde trabalho, a rua mais feia de Lisboa. Borriscava e a Carla passeava de mãos dadas com um marido muito magrinho, precocemente envelhecido. Atravessaram a rua perto do novo restaurante japonês que tem um letreiro cor-de-laranja torrado. Bufete de almoço a nove euros e cinquenta, incluindo café, uma bebida, sobremesa, e a Carla, à chuva, olhando com amor, tanto amor, o seu companheiro. Vestia um casaquinho de malha azul-escuro e calças vermelhas. Trazia um colar de contas, vermelho coral, rente ao pescoço. O colarzinho, de bom gosto, dava-lhe um certo sainete e, estranhamente, tornava a minha rua menos feia. Deve ter usado aparelho nos dentes. Nos tempos do liceu, os caninos encavalitados não a deixavam fechar a boca. Agora, sorri, confiante. Mostra uma fileira de dentes certinhos, grandes, brancos. Apesar do colarzinho e da dentadura nova, continua feia, com as ancas muito largas, obscenas e maternais. Parece feliz.
(Como sempre acontece, a inveja galgou sobre mim. Tornou-me num bicho de dentes aguçados, num lobo das estepes, faminto, passeando na rua mais feia da cidade. Olhei a Carla e quis ferrar-lhe os dentes, apossar-me do seu corpo, da sua vida, do seu marido de rosto esquálido e dedos amarelos de nicotina.)
2010/10/06
El Sistema
No início do ano, passou no segundo canal um documentário sobre o sistema nacional de orquestras na Venezuela. El Sistema, como lhe chamam os venezuelanos, é a concretização do sonho de José António Abreu, economista e pianista amador, que, através do ensino da música clássica, criou um projecto único de inclusão social. Existem na Venezuela cerca de 125 orquestras juvenis que integram cerca de 250 mil crianças e jovens. A maior parte destas crianças vem de famílias pobres e muito pobres. No documentário, acompanhamos a história de Raul. Vive com a mãe, numa torre clandestina, de tijolos, cimento e grades, na periferia de Caracas. Levanta-se às seis e meia da manhã para comer tortilhas caseiras que a mãe lhe prepara. Raul vai à escola de manhã. Passa as tardes numa orquestra juvenil a tocar trompete. Fá-lo com uma alegria contagiante.
Tem um amigo gordo, caboclo de cabelo lustrado, que toca tuba. Tem uma amiga desdentada, de totós floridos, que toca flauta. O maestro é um jovem mulato, muito bonito, que anda de mota e cresceu num orfanato. As orquestras juvenis da Venezuela, criadas na década de 70, são um mecanismo precioso de integração. No documentário, José António Abreu explica que o sucesso, em parte, se explica pela miséria em que a maior parte dos alunos vive. A miséria traz-lhes abnegação, disciplina, força. Os meninos venezuelanos vêem nas orquestras do seu bairro, na aprendizagem da música clássica, uma maneira de se salvarem do gueto. Ao contrário, as crianças dos países desenvolvidos, as nossas, experimentam o tédio do excesso. Vivem na triste miséria da abundância. Se lhes derem um clarinete ou uma trompa olham com desprezo e correm para o facebook onde inventam, para si, uma vida de alegrias breves e amigos virtuais.
Não percebo um corno de música clássica. Gosto das tocatas de Bach, pouco mais. Porém, quando vejo as imagens do Gustavo Dudamel, o mais célebre aluno do sistema de orquestras venezuelanas, com os caracóis aos cachos, sorridente, dirigindo uma orquestra de brancos, negros, mestiços, fico arrepiada. Mais encantada fico quando, no fim dos concertos, a música clássica dá lugar aos ritmos populares caribenhos e os músicos se levantam para dançar. Os meninos do público, Raul e o seu amigo gordo, aplaudem. Gustavo Dudamel canta e dança. É maravilhoso. Há dois anos que tendo comprar um bilhete para o ver. Há dois anos que sou excluída do circuito feroz dos melómanos que açambarcam tudo. O próximo concerto é em finais de Janeiro na Gulbenkian. Os bilhetes estão esgotados há muito tempo. Vai a Gulbenkian encher-se de empalados para o ouvir. Os empalados, para quem não sabe, são aquelas pessoas que têm um pau enfiado pelo cu acima e se movimentam, muito sérios, muito direitos, digníssimos, sorrindo aqui e ali, pelos corredores dos teatros e auditórios. Em todo caso, se algum empalado - impossibilitado de ir ao concerto ou apertadinho com a crise instalada - quiser, mediante preço a acordar, dispensar-me um bilhete, eu aceito.
Tem um amigo gordo, caboclo de cabelo lustrado, que toca tuba. Tem uma amiga desdentada, de totós floridos, que toca flauta. O maestro é um jovem mulato, muito bonito, que anda de mota e cresceu num orfanato. As orquestras juvenis da Venezuela, criadas na década de 70, são um mecanismo precioso de integração. No documentário, José António Abreu explica que o sucesso, em parte, se explica pela miséria em que a maior parte dos alunos vive. A miséria traz-lhes abnegação, disciplina, força. Os meninos venezuelanos vêem nas orquestras do seu bairro, na aprendizagem da música clássica, uma maneira de se salvarem do gueto. Ao contrário, as crianças dos países desenvolvidos, as nossas, experimentam o tédio do excesso. Vivem na triste miséria da abundância. Se lhes derem um clarinete ou uma trompa olham com desprezo e correm para o facebook onde inventam, para si, uma vida de alegrias breves e amigos virtuais.
Não percebo um corno de música clássica. Gosto das tocatas de Bach, pouco mais. Porém, quando vejo as imagens do Gustavo Dudamel, o mais célebre aluno do sistema de orquestras venezuelanas, com os caracóis aos cachos, sorridente, dirigindo uma orquestra de brancos, negros, mestiços, fico arrepiada. Mais encantada fico quando, no fim dos concertos, a música clássica dá lugar aos ritmos populares caribenhos e os músicos se levantam para dançar. Os meninos do público, Raul e o seu amigo gordo, aplaudem. Gustavo Dudamel canta e dança. É maravilhoso. Há dois anos que tendo comprar um bilhete para o ver. Há dois anos que sou excluída do circuito feroz dos melómanos que açambarcam tudo. O próximo concerto é em finais de Janeiro na Gulbenkian. Os bilhetes estão esgotados há muito tempo. Vai a Gulbenkian encher-se de empalados para o ouvir. Os empalados, para quem não sabe, são aquelas pessoas que têm um pau enfiado pelo cu acima e se movimentam, muito sérios, muito direitos, digníssimos, sorrindo aqui e ali, pelos corredores dos teatros e auditórios. Em todo caso, se algum empalado - impossibilitado de ir ao concerto ou apertadinho com a crise instalada - quiser, mediante preço a acordar, dispensar-me um bilhete, eu aceito.
2010/10/05
Cemitério
Foi uma alegria quando o sexto esquerdo do prédio dos meus pais foi comprado. Finalmente, o último apartamento seria ocupado. Acabava, assim, o corrupio de potenciais compradores, gente que entrava e saia, examinando cada recanto, mexendo em tudo, olhando-nos, seus potenciais vizinhos, com a mesma frieza com que olhavam os mármores da entrada e os alumínios dos caixilhos. O prédio seria, por fim, poupado ao embaraço desses estranhos que pareciam fazer troça do nosso lar. Podia repousar na tranquila alegria de uma família completa. Logo se soube que o apartamento fora comprado por um casal de professores aposentados. Tinham apenas um filho que acabara há pouco tempo o curso de medicina. As características do novo agregado familiar agradaram a toda a gente. Num prédio de funcionários públicos, donas de casa, militares de pequena patente, retornados, um casal de professores proporcionava a decência escolástica que o exercício do professorado ainda gozava naquele tempo. Um jovem médico exerceria, por outro lado, uma boa influência nos miúdos que cresciam naquele bairro dos arrabaldes de Lisboa. Feita a mudança, o casal instalou-se. Os professores aposentados eram muito educados. Nunca estacionavam o carro no lugar dos vizinhos e traziam o patim da escada impecavelmente limpo. Já o filho, o jovem médico, logo na sua primeira aparição, provocou nos habitantes do prédio um desconforto miudinho. Era uma sensação estranha que não sabiam explicar. Parecia um bicho cocegando a pele.
Convidaram-me para escrever aqui durante o mês de Outubro. Nunca desperdiço a oportunidade de escrever. Convido-vos, estimados leitores, a ir espreitar o cemitério. Hão-de encontrar o resto do texto, bem como as respostas que dei a meia dúzia de perguntas. Durante o mês, haja tempo e inspiração, conto escrever mais qualquer coisita.
Convidaram-me para escrever aqui durante o mês de Outubro. Nunca desperdiço a oportunidade de escrever. Convido-vos, estimados leitores, a ir espreitar o cemitério. Hão-de encontrar o resto do texto, bem como as respostas que dei a meia dúzia de perguntas. Durante o mês, haja tempo e inspiração, conto escrever mais qualquer coisita.
2010/09/27
Brilhante
De vez em quando, muito de vez em quando, sou contagiada pelo entusiasmo vibrante dos críticos, dos jornalistas, dos analistas. Aconteceu-me com o Brillante Mendonza. No último DocLisboa, o cineasta filipino mereceu uma retrospectiva. Os entendidos teceram, na altura, elogios maravilhosos ao tarantino asiático. Chamaram a atenção para a beleza crua, para a coreografia da câmara, para a estética única. Não resisti e comprei bilhetes para a tal retrospectiva. Vi-me enfiada num fim de tarde no auditório da culturgest, com um entrapado sentado ao meu lado que procurava intelectualizar as imagens que passavam no ecrã. Era um filme assumidamente pornográfico, passado numa casa de massagens de Manila. Um homem triste, acossado pela vida, era besuntado por rapazes miseráveis, uns magrinhos, outros entroncados, que falavam sempre alegremente. O filme não tinha grande história e a alegria despreocupada dos massagistas, pareceu-me, sinal de insuportável resignação. A resignação é um meio adequado para calar o desespero. Detestei, pois, o filme e arrependi-me amargamente de desperdiçar o meu tempo livre, tão escasso, com aquele documentário. O homem ao meu lado, pelo contrário, quando as luzes se acenderam, virou-se para um amigo da fila de trás, também ele entrapado, e iniciou uma maravilhosa conversa sobre o maravilhoso filme que tinha acabado de ver. Na altura, irritei-me com as trivialidades que os dois entrapados diziam embevecidos um ao outro. Porém, agora, quando penso melhor no assunto, não tenho dúvidas de que o homem apreciou o filme. Gemeu ruidosamente - juro, por tudo o que há de mais sagrado, que é a mais pura das verdades - durante a exibição. Tenho certeza que fez um esforço enorme para controlar as erecções do pénis. A verdade é que no fundo, bem lá no fundo, todos gostamos de pornografia.
2010/09/21
Quarteto Alverquense
Apresso as rotinas matinais para não perder as conversas do quarteto alverquense. São quatro mulheres que viajam na primeira carruagem do comboio que vem de Castanheira do Ribatejo. Que seria de mim sem a animação dessas mulheres que apanham o comboio em Alverca e fazem a viagem até Entrecampos em amena cavaqueira, partilhando experiências, dando conselhos sobre a lide doméstica, roendo nas vizinhas, nas colegas de trabalho, comentando a factologia política e social?
A Maria Augusta é a deã do grupo. Tem uma neta a seu cargo a que chama menina. A menina isto, a menina aquilo, ai a minha menina, vai ela dizendo, como se a pobre criaturinha não tivesse nome. A voz sai-lhe da boca, estrondosa, aos borbotões. A Fátima é a mãe do Telmo Miguel e do Bruno. Os rapazes trabalham como seguranças num supermercado. A Fátima costuma gabar-se das tatuagens, dos piercings e da roupa de marca dos filhos. A Lurdes é a coquete. Loira, cheia de pulseiras de pechisbeque, tem um smart e já leu quatro vezes o livro da Carolina Salgado. Tais factos, o carro da moda e o gosto pela leitura, conferem-lhe certo ascendente sobre as outras. Bem vistas as coisas, é uma intelectual. A Carla, a mais nova do grupo, anda embevecida com a vida familiar. Fala constantemente do marido – o meu Rui, diz ela - e da filha. Bonita, de lábios carnudos, cheios, usa sombras prateadas, que parecem poeiras cósmicas e lhe dão um ar ligeiramente futurista. Um dia, voltava eu mais cedo para casa, apanhei a Carla no comboio da tarde com um homem. Era verão e o fresco da carruagem climatizada tornava a tarde menos penosa. A carruagem vinha deserta. A Carla sorria com os olhos ao homem e, nos silêncios, falava-lhe com o corpo todo. Naquela tarde, esqueceu o marido e a filha. Lembrou-se dela.
Conheço estas quatro mulheres há cerca de dois anos. Falam sempre ruidosamente, como se estivessem em cima de um palco. Projectam a voz para que as suas palavras se escutem de uma ponta a outra da carruagem. Esse protagonismo parece-lhes agradar. Nós, os restantes passageiros, somos um público assíduo e fiel. Hoje, depois de furar a multidão compacta - tive de empurrar a mulher da cicatriz coloidal no peito e pedir licença ao rapaz que lê sonetos numa língua cirílica - consegui instalar-me perto delas. Pus-me à escuta. A Fátima vinha aborrecida. Queixava-se da namorada do Telmo Miguel. A rapariga, pelos vistos, instalou-se lá em casa. Come, dorme, fornica e joga playstation. Chama-se Flávia. Não aborrece à Fátima que a namorada do filho durma lá em casa. Os tempos são outros e a decência é um luxo. Foi-se há muito. O que a chateia é que a rapariga não faça nada. Não levanta o prato depois de jantar. Nunca ajuda na lida da casa. Não tira sequer a loiça da máquina. Nunca lhe perguntou se quer ajuda para descascar batatas para o jantar. Desde Moscavide até Roma-Areeiro, a Fátima foi sempre a queixar-se da futura nora. Até que disse assim: “Olhem que ela nem sequer arranca os pensos higiénicos das cuecas. Sou eu que lhos tiro!”. O beicinho tremeu-lhe.
Fez-se um silêncio na carruagem. Por instantes breves, o tempo parou e os corpos dos passageiros cristalizaram. A própria Fátima se calou, tomando consciência do que dissera. A imagem da mulher, agachada sobre a tulha de roupa suja, num apartamento de Alverca, arrancando o penso encharcado de sangue menstrual das cuecas da Flávia, não comovia ninguém. Provocava, isso sim, uma náusea colectiva, de tal ordem intensa, tão profunda, arranhando as entranhas, que parecia tomar corpo, tornando-se numa massa plúmbea, fétida, visível. Nojo da Flávia, nojo do Telmo Miguel e da Fátima. Em Entrecampos, quando as portas da carruagem se abriram, todo aquele nojo escorreu para fora. A plataforma encheu-se de águas densas e castanhas, sujas de dejectos. Formaram-se pequenos charcos de putrefacção. Os passageiros tiveram de saltitar para não sujar os sapatos. Os pombos voaram para longe.
A Maria Augusta é a deã do grupo. Tem uma neta a seu cargo a que chama menina. A menina isto, a menina aquilo, ai a minha menina, vai ela dizendo, como se a pobre criaturinha não tivesse nome. A voz sai-lhe da boca, estrondosa, aos borbotões. A Fátima é a mãe do Telmo Miguel e do Bruno. Os rapazes trabalham como seguranças num supermercado. A Fátima costuma gabar-se das tatuagens, dos piercings e da roupa de marca dos filhos. A Lurdes é a coquete. Loira, cheia de pulseiras de pechisbeque, tem um smart e já leu quatro vezes o livro da Carolina Salgado. Tais factos, o carro da moda e o gosto pela leitura, conferem-lhe certo ascendente sobre as outras. Bem vistas as coisas, é uma intelectual. A Carla, a mais nova do grupo, anda embevecida com a vida familiar. Fala constantemente do marido – o meu Rui, diz ela - e da filha. Bonita, de lábios carnudos, cheios, usa sombras prateadas, que parecem poeiras cósmicas e lhe dão um ar ligeiramente futurista. Um dia, voltava eu mais cedo para casa, apanhei a Carla no comboio da tarde com um homem. Era verão e o fresco da carruagem climatizada tornava a tarde menos penosa. A carruagem vinha deserta. A Carla sorria com os olhos ao homem e, nos silêncios, falava-lhe com o corpo todo. Naquela tarde, esqueceu o marido e a filha. Lembrou-se dela.
Conheço estas quatro mulheres há cerca de dois anos. Falam sempre ruidosamente, como se estivessem em cima de um palco. Projectam a voz para que as suas palavras se escutem de uma ponta a outra da carruagem. Esse protagonismo parece-lhes agradar. Nós, os restantes passageiros, somos um público assíduo e fiel. Hoje, depois de furar a multidão compacta - tive de empurrar a mulher da cicatriz coloidal no peito e pedir licença ao rapaz que lê sonetos numa língua cirílica - consegui instalar-me perto delas. Pus-me à escuta. A Fátima vinha aborrecida. Queixava-se da namorada do Telmo Miguel. A rapariga, pelos vistos, instalou-se lá em casa. Come, dorme, fornica e joga playstation. Chama-se Flávia. Não aborrece à Fátima que a namorada do filho durma lá em casa. Os tempos são outros e a decência é um luxo. Foi-se há muito. O que a chateia é que a rapariga não faça nada. Não levanta o prato depois de jantar. Nunca ajuda na lida da casa. Não tira sequer a loiça da máquina. Nunca lhe perguntou se quer ajuda para descascar batatas para o jantar. Desde Moscavide até Roma-Areeiro, a Fátima foi sempre a queixar-se da futura nora. Até que disse assim: “Olhem que ela nem sequer arranca os pensos higiénicos das cuecas. Sou eu que lhos tiro!”. O beicinho tremeu-lhe.
Fez-se um silêncio na carruagem. Por instantes breves, o tempo parou e os corpos dos passageiros cristalizaram. A própria Fátima se calou, tomando consciência do que dissera. A imagem da mulher, agachada sobre a tulha de roupa suja, num apartamento de Alverca, arrancando o penso encharcado de sangue menstrual das cuecas da Flávia, não comovia ninguém. Provocava, isso sim, uma náusea colectiva, de tal ordem intensa, tão profunda, arranhando as entranhas, que parecia tomar corpo, tornando-se numa massa plúmbea, fétida, visível. Nojo da Flávia, nojo do Telmo Miguel e da Fátima. Em Entrecampos, quando as portas da carruagem se abriram, todo aquele nojo escorreu para fora. A plataforma encheu-se de águas densas e castanhas, sujas de dejectos. Formaram-se pequenos charcos de putrefacção. Os passageiros tiveram de saltitar para não sujar os sapatos. Os pombos voaram para longe.
2010/09/19
Levitra
Há anúncios de televisão sobre disfunção eréctil. Um casal serôdio ronrona numa cama asséptica. A mulher alegra-se por poder finalmente ser penetrada pelo seu companheiro. No início do verão apareceram pela cidade uns cartazes gigantes sobre ejaculação precoce. As farmacêuticas gastam rios de dinheiro a desenvolver medicamentos que ajudem a erguer os falos moles, uns velhos, outros não, que por aí andam, acabrunhados, encolhidos e tristonhos. A Pfizer inventou o famoso Viagra e a Bayer o Levitra. As disfunções sexuais masculinas merecem a preocupação de muitos. Ainda bem. Desprezo os homens em geral mas não lhes quero mal. Estranho é que pouco se fale das disfunções sexuais femininas. Parece que não existem. Nem as próprias mulheres se preocupam com tal assunto. Para elas o sexo é sempre uma experiência maravilhosa, uma explosão de sensações espectaculares, onde o prazer lhes jorra do corpo, os orgasmos rebentam como petardos e boquinhas em flor, sensuais e jeitosinhas, soltam pequenos gemidos agradecidos. Ter sucesso na cama é requisito essencial para se ser moderna, desempoeirada, bem-sucedida. As mulheres falam de sexo como falam dos filhos, dos jantares de degustação em restaurantes da moda e das viagens que fazem às ilhas gregas. Tudo troféus que demonstram o bem-estar que atingiram na vida. Não há dor na penetração. Nunca há falta de desejo. Não há cansaço. Não há frustração. Não há obrigação. Nem humilhação. No sexo, como em tudo, as mulheres que aguentem.
2010/09/17
Christine
A mulher escancara uma boca vermelha na página 15 do Público, numa expressão caricatural que lhe alonga o rosto ao limite. Chama-se Cristine O´Donnel, é membro do Tea Party, admiradora da Sarah Palin e derrotou um congressista qualquer muito importante nas eleições primárias do Partido Republicano. O jornal explica, entre outras coisas, que a Christine tem a fundação de um grupo contra a masturbação no seu currículo de activista política. Ena, pensei eu, e recortei a notícia com a tesoura da cozinha.
2010/09/16
José
O meu avô materno chamava-se José. Apenas José. Não teve outro nome, apelido, alcunha, diminutivo, até se casar com a minha avó. Só se casou com ela quando a minha mãe veio estudar para a escola de enfermagem. A decência obrigou-o ao casamento. A filha que vinha estudar para Lisboa, resgatando a família da miséria do campo, merecia solidez familiar. A rapariga merecia a respeitabilidade que o casamento sempre traz.
A minha mãe e a tia Dé, lembro-me bem, tratavam-no muitas vezes por paizinho. Era impossível não gostar dele. Era um velho grande e desdentado. Aprendeu a ler sozinho, estudando nos manuais velhos das filhas, à luz pardacenta dos candeeiros de petróleo, exausto depois de um dia de trabalho. Um dia, elas chegaram de Lisboa e foram dar com ele, sentado na mesa da cozinha, junto das bilhas de água, muito concentrado, enchendo cadernos de folhas finas com uma caligrafia perfeita. Trovejava nessa tarde. As gotas, grossas, muito cheias, batiam nas vidraças da cozinha e transformavam-se nas letras cor de chuva que se soltavam do lápis de carvão do meu avô.
Gostava dos netos e nós gostávamos dele. Levava-nos muitas vezes a passear no campo. Se a aldeia já era um espaço único, uma rua inteirinha de casas rasteiras, para brincar em liberdade, cumprimentando as vizinhas, espreitando quintais, o campo aberto provocava em nós uma espécie de êxtase, sem fronteiras, sem limites, infindável como um deserto, misterioso como um labirinto. Atravessávamos a linha dos caminhos-de-ferro que marcava o fim da aldeia (era o fim e não se confundia com o princípio); subíamos ao monte do moinho, a aldeia ficava lá em baixo, muito pequenina, uma mancha indistinta, o depósito da água pairando como um óvni sobre sobreiros e azinheiras; caminhávamos por veredas e caminhos que só o meu avô conhecia, revelando-nos um mundo secreto e imaculado. Mexíamos nas folhas todas, nos bichos todos, cheirávamos cada flor, cada bolota. Foi num desses passeios, um passeio de Outono para apanhar cogumelos, que, sem saber, ao soltar a sua gargalhada desdentada, o meu avô mostrou que a felicidade não precisa de grande sofisticação. De nenhuma.
O meu avô tinha um porte distinto apesar de ser um simples carpinteiro de aldeia. Nunca foi ao cinema, nem ao teatro. Nunca leu um jornal. Entretinha-se a tomar conta da horta e das capoeiras. Gostava de jogar às cartas na taberna. Era um homem amável e bondoso e, do muito que recordo, toda a gente gostava dele. Só a minha avó parecia não o achar merecedor de tanto afecto. Isso incomodava-me. Tratava-o com ressentimento. Era brusca. Biliosa. Faiscava-lhe os olhos pequeninos. Cumpria as suas obrigações conjugais: tratava-lhe da roupa, dava-lhe almoço e jantar, mantinha a casa asseada, o chão encerado, a cozinha limpa, andorinhas de plástico esvoaçando no corredor. Fazia-lhe até migas para o lanche, enrolando num fio de gordura o pão duro, tornando, com paciência, os pedacinhos numa massa homogénea, dourada e perfumada. Tratava do meu avô, é certo, mas era por obrigação, revoltada com qualquer coisa que lhe pesava no corpo e que nunca contou. Atirava-lhe o prato das migas para a frente como se fosse um cão. Ele sentava-se à mesa e comia em silêncio, moendo para dentro, porventura, culpas e remorsos. Eu observava o desdém da minha avó e não encontrava justificações para aquele comportamento. Achava-a medonha, má. Era uma velha, mas parecia um lacrau. Se se olhasse com atenção, e eu olhava-a!, podia-se ver as garras que lhe saiam da boca. Os olhos não enganavam ninguém. Eram olhos de lacrau.
Até que o meu avô morreu. Durante o funeral, reparei que a minha avó o chorou, amparada nos braços da prima Laura, desesperada. Lembro-me de lhe estranhar a reacção. Se não gostava dele, e tudo nela mostrava um ódio latente, reprimido, por que o chorava, por que não sorria de alívio? Durante muito tempo achei que a minha avó só chorou a morte do meu avô por obrigação, encenando dor e tristeza no cortejo fúnebre. Como no resto, como toda a gente, ela limitava-se a cumprir o seu papel de esposa amantíssima, ensaiando os gestos que dela se esperavam.
Depois da morte do meu avô, passou a vestir-se de preto, sapatos, meios, bata, lenço, cada vez se parecendo mais com um insecto gigante. Deixou, contudo, de parecer um lacrau. Parecia uma borboletinha negra, desamparada, frágil, sempre à janela, sempre só. Passou a falar muitas vezes do meu avô. Com saudade. Convenço-me, cada vez mais, da genuidade dos seus sentimentos. Acho que a minha avó só passou a amar o meu avô depois da morte. É muito fácil amar um morto. Um morto nunca nos magoa, nunca nos bate, jamais nos desilude.
A minha mãe e a tia Dé, lembro-me bem, tratavam-no muitas vezes por paizinho. Era impossível não gostar dele. Era um velho grande e desdentado. Aprendeu a ler sozinho, estudando nos manuais velhos das filhas, à luz pardacenta dos candeeiros de petróleo, exausto depois de um dia de trabalho. Um dia, elas chegaram de Lisboa e foram dar com ele, sentado na mesa da cozinha, junto das bilhas de água, muito concentrado, enchendo cadernos de folhas finas com uma caligrafia perfeita. Trovejava nessa tarde. As gotas, grossas, muito cheias, batiam nas vidraças da cozinha e transformavam-se nas letras cor de chuva que se soltavam do lápis de carvão do meu avô.
Gostava dos netos e nós gostávamos dele. Levava-nos muitas vezes a passear no campo. Se a aldeia já era um espaço único, uma rua inteirinha de casas rasteiras, para brincar em liberdade, cumprimentando as vizinhas, espreitando quintais, o campo aberto provocava em nós uma espécie de êxtase, sem fronteiras, sem limites, infindável como um deserto, misterioso como um labirinto. Atravessávamos a linha dos caminhos-de-ferro que marcava o fim da aldeia (era o fim e não se confundia com o princípio); subíamos ao monte do moinho, a aldeia ficava lá em baixo, muito pequenina, uma mancha indistinta, o depósito da água pairando como um óvni sobre sobreiros e azinheiras; caminhávamos por veredas e caminhos que só o meu avô conhecia, revelando-nos um mundo secreto e imaculado. Mexíamos nas folhas todas, nos bichos todos, cheirávamos cada flor, cada bolota. Foi num desses passeios, um passeio de Outono para apanhar cogumelos, que, sem saber, ao soltar a sua gargalhada desdentada, o meu avô mostrou que a felicidade não precisa de grande sofisticação. De nenhuma.
O meu avô tinha um porte distinto apesar de ser um simples carpinteiro de aldeia. Nunca foi ao cinema, nem ao teatro. Nunca leu um jornal. Entretinha-se a tomar conta da horta e das capoeiras. Gostava de jogar às cartas na taberna. Era um homem amável e bondoso e, do muito que recordo, toda a gente gostava dele. Só a minha avó parecia não o achar merecedor de tanto afecto. Isso incomodava-me. Tratava-o com ressentimento. Era brusca. Biliosa. Faiscava-lhe os olhos pequeninos. Cumpria as suas obrigações conjugais: tratava-lhe da roupa, dava-lhe almoço e jantar, mantinha a casa asseada, o chão encerado, a cozinha limpa, andorinhas de plástico esvoaçando no corredor. Fazia-lhe até migas para o lanche, enrolando num fio de gordura o pão duro, tornando, com paciência, os pedacinhos numa massa homogénea, dourada e perfumada. Tratava do meu avô, é certo, mas era por obrigação, revoltada com qualquer coisa que lhe pesava no corpo e que nunca contou. Atirava-lhe o prato das migas para a frente como se fosse um cão. Ele sentava-se à mesa e comia em silêncio, moendo para dentro, porventura, culpas e remorsos. Eu observava o desdém da minha avó e não encontrava justificações para aquele comportamento. Achava-a medonha, má. Era uma velha, mas parecia um lacrau. Se se olhasse com atenção, e eu olhava-a!, podia-se ver as garras que lhe saiam da boca. Os olhos não enganavam ninguém. Eram olhos de lacrau.
Até que o meu avô morreu. Durante o funeral, reparei que a minha avó o chorou, amparada nos braços da prima Laura, desesperada. Lembro-me de lhe estranhar a reacção. Se não gostava dele, e tudo nela mostrava um ódio latente, reprimido, por que o chorava, por que não sorria de alívio? Durante muito tempo achei que a minha avó só chorou a morte do meu avô por obrigação, encenando dor e tristeza no cortejo fúnebre. Como no resto, como toda a gente, ela limitava-se a cumprir o seu papel de esposa amantíssima, ensaiando os gestos que dela se esperavam.
Depois da morte do meu avô, passou a vestir-se de preto, sapatos, meios, bata, lenço, cada vez se parecendo mais com um insecto gigante. Deixou, contudo, de parecer um lacrau. Parecia uma borboletinha negra, desamparada, frágil, sempre à janela, sempre só. Passou a falar muitas vezes do meu avô. Com saudade. Convenço-me, cada vez mais, da genuidade dos seus sentimentos. Acho que a minha avó só passou a amar o meu avô depois da morte. É muito fácil amar um morto. Um morto nunca nos magoa, nunca nos bate, jamais nos desilude.
2010/09/11
A vendedora de figos
Na rua mais feia da cidade, na sombra cor de ferrugem de um castanheiro das índias, uma velhinha vende figos. Trá-los num alguidar cor-de-rosa forrado com folhas perfumadas de figueira. A velhinha, quieta com o seu alguidar de figos, no ramerrame da rua mais feia da cidade, é uma imagem de inesperada beleza. Provoca a quem por ali passa, a princípio, estranheza, depois, curiosidade, por fim, conforto. Aproximo-me. Espreito para dentro do alguidar. Os figos maduros parecem passarinhos com lágrimas de doçura, escorrendo-lhes do bico. Peço-lhe um quilo e esclareço que não quero figos amassados. A proximidade mostra-me as feições da velhinha. Tem um rosto quadrangular, de nariz largo, bochechas caídas, lábios finos. Devia ser feia em nova. A velhice amaciou-lhe a feiura, a masculinidade dos traços, porém, mantém-se. Tem olhos tristes. Veste uma bata de flores, os pés de dedos encavalitados repousam, inchados, numas sandálias ortopédicas. Começa a tirar os meus figos para um saco. Escolhe-os com vagar, pegando-lhes com mestria, ensaiando com as mãos uma dança de movimentos precisos. As suas mãos parecem as de um mágico. Sabem como se movimentam as mãos dos mágicos, separando os dedos, rodando no vazio, parecendo não tocar os objectos? As mãos da velhinha são assim. Soubesse eu pintar e pintá-la-ia com pinceladas largas de cores intensas.
A velhinha porém não dá conta da sua singularidade e, sobretudo, não percebe a perfeição que o silêncio proporciona. Fala. Queixa-se de três ciganas que descansam ali perto. Olho-as. Também elas aproveitaram a sombra do castanheiro das índias para repousar da sua jornada de mendicidade. A velhinha conta que, desde que ali se instalou, as mulheres ciganas não a largam. Rondam o alguidar dos figos, com olhares gulosos, agitam o copo de plástico, pronunciam sempre as mesmas palavras: fome, filhos, deus. Olham as moedas que guarda no bolso da bata. As ciganas parecem hienas, querem rilhar-lhe os ossos, comer-lhe a carne dura, velha e seca. Escuto-a em silêncio. Contrariada. Não quero saber das ciganas, vestidas de trapos, lenços à cabeça, uma carapaça de sujidade na planta dos pés descalços. Não quero saber das ciganas, manchadas de miséria que arreganham as suas bocas hediondas de dentes podres e carregam crianças de colo que choram a sua solidão. Quero levar para casa apenas a imagem dela, da velhinha com o seu alguidar de figos, perfumando a rua mais feia da cidade.
(Quando, pela tardinha, cheguei a casa, coloquei o saco dos figos em cima da balança. Não por desconfiança. O prato da balança pareceu-me apenas um sítio seguro para proteger os figos do Joaquim que insiste em tocar tudo o que é desconhecido. Foi, então, que percebi que a velhinha dos figos me roubou. Descaradamente, enquanto se queixava das ciganas, das malandras das ciganas, é tudo uma ladroagem, dizia ela, entregou-me apenas oitocentos gramas de figos. Roubou-me a velhinha, a puta da velha.)
A velhinha porém não dá conta da sua singularidade e, sobretudo, não percebe a perfeição que o silêncio proporciona. Fala. Queixa-se de três ciganas que descansam ali perto. Olho-as. Também elas aproveitaram a sombra do castanheiro das índias para repousar da sua jornada de mendicidade. A velhinha conta que, desde que ali se instalou, as mulheres ciganas não a largam. Rondam o alguidar dos figos, com olhares gulosos, agitam o copo de plástico, pronunciam sempre as mesmas palavras: fome, filhos, deus. Olham as moedas que guarda no bolso da bata. As ciganas parecem hienas, querem rilhar-lhe os ossos, comer-lhe a carne dura, velha e seca. Escuto-a em silêncio. Contrariada. Não quero saber das ciganas, vestidas de trapos, lenços à cabeça, uma carapaça de sujidade na planta dos pés descalços. Não quero saber das ciganas, manchadas de miséria que arreganham as suas bocas hediondas de dentes podres e carregam crianças de colo que choram a sua solidão. Quero levar para casa apenas a imagem dela, da velhinha com o seu alguidar de figos, perfumando a rua mais feia da cidade.
(Quando, pela tardinha, cheguei a casa, coloquei o saco dos figos em cima da balança. Não por desconfiança. O prato da balança pareceu-me apenas um sítio seguro para proteger os figos do Joaquim que insiste em tocar tudo o que é desconhecido. Foi, então, que percebi que a velhinha dos figos me roubou. Descaradamente, enquanto se queixava das ciganas, das malandras das ciganas, é tudo uma ladroagem, dizia ela, entregou-me apenas oitocentos gramas de figos. Roubou-me a velhinha, a puta da velha.)
JL
Nunca compro o JL. Aborrece-me. Dedico a minha embirração mensal à revista Ler e aos textos de alguns dos seus cronistas. Esta manhã, porém, quando vi o JL pendurado por baixo da fiada dos jornais desportivos, não lhe resisti. Será, não duvido, interessante o artigo sobre a Clarice Lispector e reveladora a entrevista da ministra, sorridente, educada, disponível. Sempre enrolada nos seus lenços de cachemira. No entanto, foi a fotografia do José Eduardo Agualusa, na capa, que me levou a comprar o JL. A pose, vê-se, é ensaiada. O olhar é deliberadamente duro. Revela certo desdém. Os braços cruzados, tensos, grossos, mostram que a literatura é uma opção. Se quisesse poderia dar um pontapé nos romances e explorar o corpo. Trabalhar nas obras. Acarretar baldes de cimento. Assentar tijolo. Encontrar poesia nos andaimes e nas gruas. Qualquer coisa do tipo. Só deus sabe o quanto me embaraça fazer o papel da trintona desiludida, que se entusiasma com o que não existe. Antes o papel da suicida crónica. O desespero da tristeza pelo menos é um sentimento selecto. Exige sofisticação. Não é para todos. Já a felicidade é um sentimento pobre. Tem mesmo, parece-me, qualquer coisa de ordinário. Está ao alcance de toda a gente. Toda a gente é bestialmente feliz. Toda a gente vive num anúncio de telemóvel. Não conheço gente infeliz. Enfim, como dizia, aborrece-me ser um estereótipo de estafada banalidade, mas tenho de reconhecer aquilo que é óbvio: o José Eduardo Agualusa é giro que se farta. Até a minha frigidez, inquilina do meu corpo há tanto tempo, já bolorenta, bafienta, se encolhe quando o homem aparece. Uma mulher quer estar deprimida, deixar-se engolir pelo desespero, ser levada pela soturnidade - inesperada, mas bonita – deste Outono precoce, e não consegue…
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