2011/03/18

Jardim de São Lázaro

Atravesso o jardim de são lázaro e sinto o olhar dos velhos que jogam às cartas pousado em mim. Há uma japoneira florida e vários estudantes da escola de belas artes desenham à vista perto do coreto. Têm cabelos despenteados, barbas ralas, vestem com descuido. Nenhum deles levanta os olhos do papel para me olhar. Sou velha e invisível para os estudantes da escola de belas artes. Só os idosos largam a sueca para me ver atravessar o jardim. Levo o corpo firme, o vestido justo, o cabelo caído pelas costas. Tenho pressa de chegar à estação para apanhar o comboio que parte para Lisboa. O olhar dos velhos, devasso, atrevido, faz-me desacelerar a passada, caminhar mais devagar, prolongar o momento. Sou nova, desejável, para eles. Os velhos do jardim de são lázaro gostam de me olhar e eu gosto que eles me olhem.

2011/03/12

2011/03/10

Primo Renato

O primo Renato vive em Margão nunca casa antiga com telhado de telha vã. A casa é um amontoado de móveis escuros, desirmanados, estragados pela humidade. Na entrada, como em todas as casas goesas católicas, há um altar com uma imagem de Cristo. O primo Renato tem a doença de Parkinson há muitos anos e vive com a mulher e a filha numa casa que está cheia de fotografias de um homem que parece o Amitabh Bachchan dos filmes dos anos setenta. Explicaram-me que era um amigo muito chegado. Não tendo casado, viveu com o primo Renato e a mulher a vida toda. Dizem que o primo Renato e o amigo estavam sempre juntos. Eram inseparáveis e felizes, unidos por uma amizade muito forte, nunca vista. Sentado no balcão da sua casa antiga, o primo Renato parece alheio a tudo, como se continuasse a viver num tempo cristalizado, numa Goa portuguesa. Não percebe que a sua casa antiga, de telha vã, esmaecida pelo tempo, foi engolida pela feiura da modernidade ordinária de Margão. Ao contrário da família mais chegada de Corturim, todos à imagem do meu pai, muito ruidosos, faladores, de gargalhadas fáceis, maldizentes, o primo Renato tem um ar distinto, é um verdadeiro goês. Parece ter nascido assim, educado, incapaz de um gesto feio, uma dignidade imensa, todas as qualidades dentro dele, sem ter de provar nada a ninguém. Tem delicadeza que é coisa que não existe na casa de Corturim, onde se grita e chora, onde se levam as mãos ao peito e se arrepelam cabelos. O primo Renato vive com a mulher e a filha que o tratam com a generosidade do amor que lhe têm. No balcão da sua casa antiga, o primo Renato só desperta do mundo em que vive quando se fala do amigo. Os seus olhos cinzentos enchem-se de lágrimas que a mulher, dedicada, limpa com um lenço de algodão. O primo Renato não a vê. Acho que não a viu a vida inteira, que o seu olhar, cinzento, aguado, sempre se fixou no seu amor.

2011/03/08

Manhã



(Levanto-me às seis da manhã para correr dez quilómetros.)

2011/03/07

Memórias

Não sei o que deu à minha irmã para emprestar o livro da Isabela Figueiredo ao nosso pai. No sábado, quando entrei no escritório, reparei no livro em cima da secretária de fórmica que veio de Lourenço Marques. Perguntei-lhe se estava a gostar de o ler. Enfiado no roupão, as pernas encostadas ao aquecedor a óleo - um goês velho nunca se acostumará ao frio lisboeta - fez um esgar de nojo e disse que não. Não estava a gostar mesmo nada. Não se pronunciou sobre as memórias partilhadas, não explicou se as aceitava ou rejeitava. O que o enojava no livro eram as asneiras. Cona. Foder. Palavras proscritas, escritas vezes sem conta, até à náusea. A minha filha, que viera comigo cumprimentá-lo, assim que ouviu falar do asneiredo, arregalou os olhos e sorrateiramente pegou no livro. Pôs-se a lê-lo à socapa. Não vais ler este livro, pois não, mãe?, perguntou indignada. Não, claro que não, expliquei-lhe. Era lá capaz de ler um livro cheio de asneiras. Ou de ver um filme pornográfico. Ou de apanhar uma bebedeira. Ou de dormir com um estranho. Jamais. Sou uma mulher seríssima. Sou a tua mãe. À noite, mal deitei os miúdos, larguei a menina Cunegundes (cada vez que lhe leio o nome, imagino uma orgia de cunilínguos, profundos e certeiros, no melhor dos mundos possíveis) e peguei no caderno de memórias coloniais. A Isabela Figueiredo escreve muito bem, sem pretensões ou artifícios, desfiando memórias dolorosas sem tornar a dor banal. Mas, lido o livro numa noite, de uma assentada, percebi uma coisa. A minha África é diferente da África dela. Não encontro, nas memórias da minha família, desprezo ou ódio. Nenhum. Só culpa. A minha África é uma história que cada um de nós carrega em silêncio, sem nunca lhe mexer. Porque magoa. É uma história com apenas quatro personagens: o jovem goês; a negra, menina-mulher, sozinha na beira de um caminho de poeira vermelha a chorar, sem homem e sem filho; a enfermeira, a mais bonita do lar da rua da Sociedade Farmacêutica, que se casou com o goês e fez seu o filho da negra; o menino sem memória, mulato, que se aninha no colo da enfermeira portuguesa e lhe pede “mamã, faz-me cabelo de branco”.

Pai

Nunca fui ao cinema com o meu pai. No domingo, assim do nada, convidou-me para ir ver o discurso do rei. A minha mãe aceitou ficar com a minha ruidosa prole, mas, como quem não quer a coisa, lá foi dizendo que passa a vida a pedir ao meu pai para a levar ao cinema e que ele arranja sempre mil desculpas para nunca a levar. Dei-lhe um beijinho e um abraço. A minha mãe é como uma criança pequena, precisa de mimo, atenção, muito colo. Depois olhei-lhe nos olhos e expliquei-lhe que é tempo de desistir: por mais que ela se esforce sou eu a mulher da vida do pai.

2011/03/06

Garbatella

2011/03/04

Marta

Era sempre igual. Cada vez que lhe nascia um filho, fugiam-lhe as palavras e chegava-lhe uma tristeza muito grande. Andava naquilo que tempos. O corpo branco como um cadáver. Não se levantava. Alimentava-se de gemadas muito doces e chás de carqueja que a vizinha lhe trazia para a curar da anemia. Violante, e isto custa a explicar, não se preocupava muito com a tristeza que lhe comia as entranhas, nem com a mudez que lhe selava a boca. Sabia haver naqueles seus padecimentos um carácter transitório. A tristeza vinha, instalava-se nela, levando-a a uma agonia profunda, a um mutismo absoluto. Porém, assim como chegava, partia. Uma manhã, quando menos o esperava, acordava e as palavras estavam todas dentro de si, readquiria o dom da fala e o resto: a alegria de viver. Tinha vontade de beijar os filhos, de lhes mexer nos seus rostos de porcelana com as suas mãos de barro. Arrumava a casa de ponta a ponta. Saltava da cama, prostrava-se de joelhos em frente da imagem de nossa senhora a agradecer o milagre. Depois ia à sua vida, tratava dos filhos, do marido e da casa. Pedia à vizinha que não lhe trouxesse mais gemadas. Tinha a língua encortiçada de tanta doçura. Só uma vez as coisas não se passaram assim e as palavras custaram a entrar-lhe de novo no corpo. Foi quanto nasceu a sua sétima filha: Marta.

2011/03/02

Honra

Na Alemanha, karl-Theodor zu Guttenberg – o jovem ministro da Defesa, dado como provável sucessor de Ângela Merkel por ser um político talentoso - demitiu-se. Foi acusado de plagiar uma tese de doutoramento. É um comportamento censurável, mas poucochinho. Vivemos numa época em que a informação circula veloz; é de toda a gente e não é de ninguém. Toda a gente plagia. Em França, a Ministra dos Negócios Estrangeiros, Michèle Alliot-Marie, também apresentou a sua carta de demissão. Cometeu o crime hediondo de ter estado de férias na Tunísia durante os protestos populares. Consta, por outro lado, que a sua família (os pais, não ela) tem negócios com governantes magrebinos. Mais uma vez, é um comportamento censurável, mas pouco. Em Portugal, o primeiro-ministro, ao longo desta penosa travessia que tem sido o seu último governo, foi acusado de coisas bem piores – burla, caciquismo puro e duro, clientelismo, falsidade - e nada se passou. É que, em Portugal, ao contrário do que sucede nos países do norte da Europa, não existe responsabilidade política. Os cidadãos não se importam de viver numa democracia meramente formal. Existe, isso sim, para conveniência de quem a invoca, uma coisa que se chama responsabilidade criminal. Em Portugal, os políticos podem prevaricar, podem passar à frente dos velhinhos nos centros de saúde, podem ser desonestos, amorais, podem ser totalmente inaptos para desempenhar os cargos para os quais foram eleitos, podem prescindir com descaramento da ética pública, podem ser, no fundo, uns autênticos filhos da puta, porque sabem que, no final, a justiça cumprirá o seu papel e, sob o manto respeitável do despacho de arquivamento, apagará desonras, limpando chagas e feridas.

2011/03/01

Melancolia

Verdes Anos

Acordo ao som da canção.
Deitada na cama, a claridade da manhã a entrar pelas frinchas dos estores, com um nó a estrangular-me a garganta, uma tristeza a entrar-me devagar pelos orifícios do meu corpo, recordo. Ilda, Júlio. O tio de Júlio, sapateiro. A entrada da reitoria com os painéis do Almada Negreiros. O céu cinzento a ameaçar com nuvens espessas. O chão do café coberto de beatas e serradura. As avenidas novas da cidade, rasgadas em paralelas e perpendiculares. Os prédios altos, tão altos, quase a tocar o céu. A casa onde Ilda trabalha. O senhor, a senhora, a sobrinha dos senhores. O passeio de domingo até ao aeroporto por entre caminhos poeirentos, quentes, de pinheiros, arbustos, gargalhadas, cumplicidades. Ilda e Júlio felizes. Os aviões, lá ao fundo. A cidade, a preto e branco. Os seus limites visíveis, palpáveis como se tivessem sido traçados a lápis por um guardião gigante. Aqui acaba a cidade, o alcatrão, o fumo, as paredes, os muros, a confusão. E aqui começa o campo, o verde, o azul, as hortas, o regato, ali uma casa, animais, árvores. Recordo, sobretudo, o baile nesse local mágico e único que reconheci mal o vi através dos olhos do Paulo Rocha. O tecto pintado, por mim, imaginado em tons de ocre e laranja, os desenhos indefinidos, esboroados, a escadaria da entrada com os degraus gastos, as arestas de mármore arredondadas pelo uso, o pátio interior, por cima, um rectângulo branco de céu. As janelas enormes por onde, naquela tarde, distante e melancólica, entrava uma luz fraca, crepuscular. Naquela tarde, ouvia-se esta canção. Esta canção, infinitamente bela e triste, que anunciava o fim.

2011/02/25

Roda Viva

Static Man

Março, o meu mês, trará o novo romance da Lídia Jorge. Enquanto não chega, releio O Jardim Sem Limites, leitura recorrente porque tenho uma paixoneta antiga pelo static man. Por causa deste livro, há alguns anos, passei uma tarde em Alfama à procura da Rua da Tabacaria e da Travessa das Gáveas. As ruelas estavam cheias de brasileiros, mestiços de camiseta e calções curtos, e uma morrinha caía de um céu muito escuro e fechado. Havia turistas italianos, extasiados, muito tolos como sempre costumam ser, que fotografavam o rio visto de Santa Luzia. Descobri a Travessa das Gáveas num instantinho e tive uma desilusão. Das maiores da minha vida. Não era nada como a imaginara a partir do romance. Um muro alto, uma casa branca de cortinas rendilhadas, uma nespereira de frutos oxidados. Esperei pela rapariga cachalote enquanto mordisquei uma nêspera. Ela nunca chegou. Eu nunca descobri a Rua da Tabacaria.

Mal-amanhados

O Rui Lagartinho, no Público, escreve sobre o romance de estreia do Paulo Ferreira. Termina assim: “impressiona-nos que subsistam editoras que se dão ao luxo de se demitir da sua função mais nobre, deixando chegar às livrarias esboços mal-amanhados de romance como este”. Não conheço o Paulo Ferreira nem li o livro que escreveu. Sou incapaz de avaliar o acerto da crítica do Rui Lagartinho. Porém, o que diz em relação às editoras é bem verdade. Há editoras, a Quetzal é uma delas, que catam autores da blogosfera como se fossem piolhos, não percebendo que à blogosfera se vão buscar as pipocas doces e demais apreciadoras de sapatos de saltos compensados. Não se encontram na blogosfera bons escritores e boas escritoras. E não se encontram por uma razão simples. Não estão lá. O tempo da escrita literária é diferente do tempo da escrita blogosférica, corrida, desabrida, concreta, para consumo imediato. O tempo da escrita literária exige entrega e disponibilidade. É um tempo de solidão e angústia. É constrangedor encontrar esses livros mal-amanhados, como lhes chama o Rui Lagartinho, nos escaparates das livrarias. Até porque, quase sempre, são escritos por homens e mulheres interessantes, que, sendo bons bloggers, são maus escritores. Tais livros, no entanto, são sempre bem promovidos pelas editoras, as capas são catitas, os autores vão à televisão, dão entrevistas nos suplementos literários e os críticos amigos cumprem o seu papel, fazendo críticas jeitosinhas. De que vale escrever um mau livro?

Beco

Gritei a primeira vez e a chinesa largou o fresco do interior da loja de quinquilharia e assomou à porta. Gritei a segunda vez e dois rapazes do bairro, vestidos de preto, boné na cabeça, o corpo arrumado à parede suja de um prédio, entreolharam-se. Gritei a terceira vez e as freguesas da mercearia - uma velha de xaile e uma negra indolente de refegos -, largaram as compras e vieram postar-se na calçada, à espera de um espectáculo que as livrasse do tédio. Quanto mais eu gritava, mais o homem me apertava os pulsos, imobilizando-me à porta do restaurante indiano. Olhei-lhe para dentro dos olhos cada vez que gritei. Só quando gritei a quarta vez e o meu grito percorreu o beco, estilhaçando vidros, açoitando os gatos, matando baratas, é que o homem me largou.

2011/02/16

Baltazar Abelha

O operário desceu os sete lances de escadas. Chegou cá abaixo e explicou ao encarregado da obra que o morador do 7º-A se recusava a tirar os seus pertences da varanda: vasos, colchões velhos, cadeiras, até um armário de madeiras podres. Também se recusava a apanhar a roupa que se encontrava a secar nos dois estendais da janela da cozinha. O encarregado da obra era um homem sábio. Escutou em silêncio. Conhecia muitos axiomas e teorias. Sabia, por exemplo, que, sempre que nos aparece um problema pela frente, o melhor a fazer é torná-lo no problema de outra pessoa e esperar que ela o solucione. Olhou para a janela do 7º-A. Viu um homem de olhar alucinado; era Baltazar Abelha que os espreitava com um olhar ameaçador. Nem por um momento lhe passou pela cabeça subir os sete lances de escada e tentar convencer o morador do 7º-A a retirar todos os seus pertences da varanda e estendais. Explicou ao operário que deveriam esquecer o sétimo andar e começar, desde já, a pintura do oitavo andar. Ligaria para a câmara ao final do dia. Eles que mandassem algum técnico da divisão administrativa tratar do assunto. Por ele, o edifício C do bairro camarário podia ficar assim: fachadas tratadas com aprumo, raspadas, reparadas, banhadas com impermeabilizantes anti-musgo e anti-bolores, pintadas a rolo com a cor escolhida pelos arquitectos da câmara, um rosa chá muito clarinho, a fazer lembrar vivendas à beira-mar com floreiras perfumadas; as paredes exteriores do 7º-A mantendo para sempre a sua cor original, azul tempestade, esboroado, estalado, furioso, cheio de manchas de salitre.

Dr. Spock

A Joana Amaral Dias arranjou as sobracelhas.

Fecha-te Sésamo

O marido está finalmente despachado. Odete afasta-o com as mãos. Levanta-se com cuidado. Veste o robe que está aos pés da cama. Contrai os músculos do períneo a ver se fecha a abertura vaginal. Fecha-te Sésamo. Caminha até à casa de banho para se lavar. O percurso é longo. Os seus passos tornam-se leves, os pés mal tocam no chão para que o impacto não provoque um derrame inesperado. À cautela, não vá escapar-se uma gota e salpicar o soalho que lhe dá tanto trabalho a encerar nas manhãs de sábado, coloca sempre a mão por baixo da vagina. Vai pelo corredor, o robe aberto, pisando a passadeira de linólio, os músculos do pavimento pélvico contraídos, as mãos rebentadas de picar alhos e cebolas a amparar qualquer fuga. Duas andorinhas de loiça esvoaçam nas paredes e, no seu nicho, uma nossa senhora de fátima padece numa luz triste, vermelha de lupanar. Quando finalmente se senta no bidé, suspira de alívio. Nem uma gota se perdeu. Sacoleja o corpo a ver se lhe arranca os resquícios que o marido lá deixou. Depois de lavada, veste umas cuecas de algodão e a camisa de noite. Volta para o quarto. Deita-se à bordinha da cama. Adormece.

2011/02/07

No cars go

Chuva

Era o tempo dos cisnes, dos patos, das folhas da árvore de borracha que cheiravam a manteiga, do Jardim do Torel onde viviam todos os bichos-da-seda da cidade, enrolados sobre si, alheios ao ruído e ao frenesim. Era o tempo dos sonhos. Adormecia e, na escuridão, apareciam árvores com copas cor de cobre, milheirais, precipícios, gigantes que tinham sempre o rosto meigo de um primo afastado que estava internado no Júlio de Matos. Também eu, por vezes, aparecia na escuridão da noite e dos sonhos. Usava socas e tinha as unhas roídas. Nesse tempo não percebia ainda o meu corpo. Sabia apenas que se apertasse as coxas com muita força, durante algum tempo, até ao limite da exaustão, o meu avesso, o meu lado de dentro, seria invadido por uma crescente onda de calor que, pouco depois, se transformava numa sensação única, a melhor que até então experimentara. Aquela sensação durava pouco, era um arrepio, uma vertigem, uma explosão, mas era de uma intensidade tal que valia bem o esforço físico que exigia de mim. Depois da exaustão e do prazer chegava um cansaço morno, muito bom, que me deixava o corpo adormecido e apaziguado. Fazia-o em segredo porque era uma coisa boa e, naquele tempo, todas as coisas verdadeiramente boas - mascar pastilhas elásticas, beber coca-colas, brincar no pátio, experimentar os sapatos de saltos altos da minha tia, enterrar as mãos na terra, pegar na minha irmã recém-nascida ao colo - eram proibidas. Fi-lo durante a infância e a adolescência. Sempre em segredo. Partilhava o quarto com a minha irmã. Esperava que ela adormecesse. Na escuridão, em vez dos gigantes e das árvores com copas cor de cobre, apareciam então mãos que percorriam o meu corpo com vagar e urgência. Nunca percebi se a minha irmã, aconchegada no seu sono, escutava o restolhar dos lençóis e os gemidos quase inaudíveis que, volta e meia, não conseguia calar. Só sabia que a minha escuridão era diferente da dela.

Durante muito tempo, uma eternidade, achei que era a única rapariga do mundo que me masturbava. Sabia que os rapazes o faziam. Falavam entre eles sobre o assunto, vangloriando-se, de modo um pouco absurdo, das raparigas que imaginavam enquanto se tocavam freneticamente. A masturbação (palavra proscrita naquela altura no universo feminino e agora também) era permitida aos rapazes porque era uma inevitabilidade da sua natureza. Revelava virilidade e mostrava o lugar que homens e mulheres tinham na ordem do mundo. Os homens masturbavam-se, as mulheres não. Ponto. O prazer que uma mulher sozinha arrancasse do seu corpo era pecado, era uma coisa muito suja, muito porca, sinal de desvario, de transvio. Cabia aos homens inaugurar a vida sexual das suas namoradas e esposas. Na verdade, devia ser assim porque eu não conhecia uma única rapariga que se masturbasse. As minhas amigas nunca falavam do assunto e faziam um esgar de sincero nojo se a palavra “masturbação” fosse pronunciada. Convenci-me, pois, que era a única rapariga do mundo que pensava em sexo. Esse sentimento de orfandade, de pária, de indigente, deixava-me num estado de inquietude e incerteza. Por um lado, cedia aos ditames dos bons costumes e achava que estava perdida. Lastimava a minha pouca sorte. Queria ser como as outras raparigas que viviam dentro de corpos mortos. Essas raparigas, já mortas, morriam todas as noites um bocadinho mais. Era assim que eu queria ser. A vida de uma mulher morta é um sossego. Às vezes, porém, dava por mim a achar que o meu segredo tinha um lado bom: a prática de tantos e tantos anos de masturbação havia de me tornar mais tarde numa amante eficiente e competente.

Percebi que era uma mulher normal, alguns anos mais tarde, quando vi o primeiro filme do Steven Soderbergh. Foi uma revelação. Afinal havia mulheres como eu, mulheres que gostavam de sexo e que não esperavam pelos homens para cumprir os seus desejos. Suspirei de alívio. Ainda por cima, as mulheres desse filme, são só duas, eram muito mais bonitas e interessantes do que aquelas com quem me cruzava no bairro e na universidade. Tal facto consolou-me. Apaixonei-me naturalmente pelo James Spader, o impotente. Ainda hoje, quando penso no assunto, acho que o parceiro ideal para mim devia ser assim, impotente. Mas isso são conversas que ficam para outra ocasião. Nesse verão pedi à minha mãe que me costurasse um vestido largo, tipo bata, com botões à frente, igual aos que a Andie MacDowell usa no filme. Acreditei que um dia havia de amanhecer perto de alguém a quem pudesse dizer “parece que vai chover” e que esse alguém saberia ler tudo o que essas palavras não dizem. Hoje, passados tantos anos, lido bem com o meu onanismo. Faz parte de mim. É uma competência. Uma espécie de qualificação.

Março 2010

(O meu filho João utiliza a palavra masturbação com uma naturalidade que me dasarma.)