2011/05/10

Tarde de domingo

Encontro a mulher uma vez por ano na festa de aniversário de um sobrinho. Não pode ter filhos, tem o ventre seco, o bucho mirradinho, o interior cheio de peçonha. Todos os anos, se lamenta da má sorte, partilha técnicas de fertilização, queixa-se dos preços dos tratamentos. Este ano, à falta de filho, trouxe à festa uma cadela petit, focinho esborrachado, impecavelmente tratada, cão aristocrata, finíssimo, que já vi aquela raça em telas barrocas de tintas estaladas, aninhada nos braços leitosos de rainhas e duquesas. Chamou Margaret ao bicho. Corre a cadela Margaret com os miúdos pelos relvados. A mulher do ventre seco zela por ela com amor de mãe. Nunca a larga. Chama “Margaret!”, esganiçando a voz e levando a língua ao palato numa cambalhota atrapalhada que o nome estrangeiro obriga. Abre os braços à cadelinha quando a vê chegar, espavorida, língua rosada de fora. Explica aos meninos que a bicha está cansadinha, precisa de descansar. Limpa-lhe o focinho e as patas com toalhitas perfumadas.

Observo e penso e penso assim: mais lindo que o amor entre raças só o amor entre espécies. Uma coisa enternecedora. Varro o horizonte à cata da minha prole. O mais novo galopa. Trota como um potro. Já esfolou os joelhos, já rompeu as calças, já comeu folhas e formigas, já escorropichou duas garrafas de minis que encontrou abandonadas, ficou a plateia de mães horrorizada, ai que o menino se perde, coitadinho, e a mãe não lhe diz nada, desgraçada. O mais velho joga à bola a um canto do jardim e ensina palavrões aos primos mais novos. A minha filha está a quatrocentos quilómetros e, expliquei a quem por ela perguntou, despacha-me com três frases quando lhe telefono. Está tudo bem. Não te preocupes. Beijinhos, mãe. Olho a plateia de mulheres. Estão sentadas em cadeiras de plástico; comem folhadinhos de salsicha, bebem bebidas coloridas. Não dão por isso, mas trazem o corpo estafado. A maternidade cansa e mói em silêncio. É como um veneno que se bebe sem se dar conta. Há nelas uma felicidade genuína, uma maternal plenitude de confiança e experiência que me aborrece até à náusea. Muitas, olhando-me e à mulher da cadelinha, hão-de achar a vida madrasta, o destino muito vil e cruel: eu, displicente, deveria ser a dona da cadelinha aristocrata; a mulher do ventre vazio, amorosa, amável, tão disponível para participar nas tertúlias femininas sobre receitas da bimby e pediatras, deveria ser a mãe dos meus filhos. Compunha-se um bocadinho o mundo e fazia-se justiça na tarde de domingo.

2011/05/07

Etelvina



(Lisboa-Vila do Conde)

2011/05/03

Calipo de morango

Quando voltou da escola encontrou a casa comida pelo fogo. Havia uma multidão à porta que se calou quando a viu chegar, mochila às costas, lambendo um calipo de morango. A multidão ficou a olhá-la enquanto caminhava. Uma velha interrompeu o silêncio e o vazio. Agarrou-se a ela a chorar. Ai que desgraça, Luzia, que estás sozinha no mundo!, soluçava a mulher. Aquela sina, de total solidão, tomou-a a sério. A seguir, mostraram-lhe os corpos carbonizados dos pais.

Cansaço

Gosto de correr por causa da minha sombra reflectida no chão, guiando-me no percurso, antecipando a minha passada. Gosto de correr porque o faço só e a solidão é como o cor-de-laranja e o amarelo. Fica-me bem. Gosto de correr por causa do rio, do crepúsculo na outra margem, dos pássaros marinhos, do ranger das tábuas, dos chineses que chegam para jogar a sorte no casino. Gosto de correr por causa dos homens e das mulheres com quem me cruzo e que também correm. Uns mais velozes, outros menos, todos partilhando o prazer de cansar o corpo. Sobretudo, gosto de correr por causa desse cansaço que fica por dentro e faz lembrar outros cansaços.

2011/05/02

Ground Zero

Faz-me confusão que se celebre a morte de alguém como se se tratasse da vitória de uma equipa num campeonato de futebol. Os sorrisos de satisfação, os gritos de ordem, os abraços, os cartazes celebrativos, causam-me repulsa. Talvez seja necessário experimentar a perda para celebrar com alegria e um copo de espumante na mão a morte de um algoz. Durante o dia, perante a minha incapacidade de perceber a alegria dos nova-iorquinos, procurei encontrar alguém cuja morte me fizesse celebrar no meio de uma multidão. Passei o dia nessa busca. No comboio, enquanto corria com os meus ténis novos, alados, no portão da escola. Percorri a lista de ditadores sanguinolentos, de políticos abjectos, de ódios de estimação televisivos. Esmiucei a memória à procura de quem ao longo da vida me magoou profundamente. Pensei em padres pedófilos, em carrascos, em parricidas, em loucos, nos assassinos e violadores de velhinhas alentejanas, em homens que batem em mulheres e as matam dizendo que as amam. Não encontrei ninguém cuja morte me alegrasse. E, no entanto, cresci numa casa em que, volta e meia, de roda da televisão, parecia uma fogueira, se desejava frequentemente a morte e se explicavam métodos de eleminação. O meu pai sempre foi adepto do fuzilamento. Escutava as notícias e, de vez em quando, punha-se a rosnar entre dentes. A gente já sabia o que vinha a seguir. Carregava o cenho e expressava o desejo de fuzilar esquerdinos, comunistas, revolucionários, sindicalistas, pervertidos, homossexuais. A tia Dé, de volta do fogão, o avental engomado, pés de criança enfiados em chinelos de corda, não era grande adepta do fuzilamento, método asséptico, breve, quase indolor. Cada vez que ouvia notícias de pedófilos, de traficantes, de violadores, cerrava os punhos sobre os estufados de peru e, cuspinhando, fazendo uma careta, dizia que se os apanhasse, a esses malandros, lhes havia de picar o corpo como uma cebola. Muito picadinhos, dizia. Depois, explicava, havia de os dar a comer a uma matilha de cães. Habituei-me aos fuzilamentos do meu pai e aos picadinhos da tia Dé. Passados tantos anos, continuo a escutar-lhes com agrado as sentenças pesadas. Sinal de que estão perto de mim.

2011/05/01

Testículos de galo

Encontrei o escritor na fila da mercearia no domingo em que voltei com os miúdos para o apartamento. Eu vinha em ruínas, o corpo cheio de culpa, a garganta estrangulada por muitos nós, como se a liberdade fosse pecado, uma ignomínia intolerável. Entretive-me a espreitar as compras do escritor: três laranjas, uma pasta de dentes, um pacote de massa fresca, uma lasagna congelada. Nesse dia, não sei por que razão, decidi passar a comprar o jornal também ao domingo.

Canja de galinha

Tiro a gordura amarela da canja, uma placa lisa e brilhante que se formou pela noite, com o frio. Mexo o caldo gelatinoso afastando os cotovelos de massa. Procuro corações, moelas, fígados para a Dá, ovinhos só de gema para o Joaquim, pedaços de carne escura para o João, patas e pescoços para mim. Uma canja boa faz-se com um galinha velha, de carnes rijas, antigas, que só amaciam depois de muito tempo de cozedura. Enquanto reparto o caldo pelos pratos lembro a fadiga que antigamente me chegava aos sábados e aos domingos. Rondava o apartamento, os meus gestos eram mecânicos, neles não havia alegria, sequer amor, encontrava teias e carrascos em cada canto, grades nas janelas, o sol nunca entrava, havia musgos e bolores por toda a parte.

2011/04/29

Pita Shoarma

O João levou-me a jantar a uma roulotte perto do campo de futebol do sacavenense. Fiquei no carro durante algum tempo porque, no banco de trás, dormia o mais pequeno, empanzinado de canja de galinha e feijoada que sobrara do almoço. Durante algum tempo, zelei pelo sono do mais novo e observei o João, tratando do nosso jantar, pedindo duas pitas shoarmas, uma cerveja para mim, um sumol de laranja para ele, orgulhoso de me proporcionar uma experiência ao estilo do Anthony Bourdain, homem que sabe ser do meu agrado. Ali estava o meu filho recém adolescente, moreno, tisnado do sol, olhos redondos, as mãos enfiadas nos bolsos, ao balcão da roulotte. Dois homens bebiam imperiais. Outros comentavam o jogo do Benfica. Os brasileiros tiravam tirinhas do naco de carne que rodava lentamente no espeto. Apreciavam, com extraordinárias vozes de falsete, as formas físicas da futura rainha de Inglaterra. O meu filho, percebi-o bem, estava feliz por estar ali. De vez em quando, enquanto aguardava pelo pedido, olhava-me de soslaio e, sorrindo, parecia dizer-me assim: isto é o que sou, digo Telémaco, Penélope, Ulisses, leio os livros que escolhes para mim, mas não me obrigues a ir a concertos, a exposições de pintura, poupa-me ao martírio do cinema francês, não me amachuques mais a virilidade, não me lixes a adolescência com a tua sensibilidade feminina.

(A Dá, muito intuitiva, diz frequentemente que o João é o meu filho preferido. Digo-lhe sempre que não, que não tenho filhos preferidos, mas tenho.)

2011/04/27

L' appartement



(São tão bonitos, os franceses. Também os há feios. Mas falam francês.)

Humilhação

Vou participar numa prova. É uma prova pequena, quase doméstica. Explicaram-me que é conveniente traçar um objectivo para cada prova. Já defini o meu. Não é terminar a prova. Estou habituada a correr mais do que a distância do percurso. Também não é terminar a prova em determinado tempo. Estou a borrifar-me para o tempo. O meu objectivo é terminar a prova antes dos cinco homens com quem vou correr. Dois deles são favas contadas. Duvido que cheguem ao fim. Um é fotógrafo e vai parar de dez em dez metros para tirar fotografias. O outro já dormiu comigo na mesma cama. Conheço-lhe a inaptidão física. Os outros três, é que me preocupam. Não são fumadores, não bebem tequillas noite fora e tenho-os encontrado, ao final da tarde, a treinar. O meu desprezo pelo género masculino é assumido. Aliás, humilha-me profundamente continuar a gostar de homens. Fosse eu uma mulher coerente com os meus princípios e já há muito me teria tornado lésbica. Adiante. Os homens não chegam aos calcanhares das mulheres. Quero, por isso, mostrar a estes cinco que sou melhor do que qualquer um deles. Quero chegar ao fim e vê-los atrás de mim, língua de fora, bufando de humilhação.

2011/04/26

Entranhas

Angustia-me que o psd não se apresente como alternativa credível e consistente ao eleitorado. Como muita gente, ando com o meu voto nas mãos, sem saber a quem o dar. A inabilidade e a fraqueza do psd não me dão vontade de rir. Dá-me vontade de chorar, de pegar na canalha e fugir para um país do sul. Há, porém, quem se delicie com a miséria do psd. Batem palmas. Soltam gargalhadas sonoras. Fazem comentários jocosos. Gozar assim com a sorte deste país é uma coisa um bocado ordinária.

(No sábado, escutei a Clara Ferreira Alves durante cinco minutos no Eixo do Mal. Não a ouvi durante mais tempo porque não fui capaz. Revolveram-se-me as entranhas, mas dissiparam-se-me as dúvidas.)

2011/04/25

José



(resíduos de lar.)

2011/04/20

Catinga

Três dias no sopé da serra. Os meninos brincaram com a neve. A menina espantou-se por ser gelada e branca. O menino deslizou, veloz, no seu trenó vermelho. Passaram horas na água tépida e sem vida da piscina. O pai conviveu com os colegas, gestores, directores, auditores, consultores. Ao jantar, conversaram, entre outras coisas, sobre técnicas de despedimento. Um homem de olhos pequeninos, sorriso boçal, afagando o seu black berry, gabou-se da sua perícia. "Não me custa nada ter de despedir alguém. Já estou habituado. Quando estive em Angola, despedi uma preta só porque ela cheirava mal". A mulher do homem de olhos pequeninos – vesga, cabelo impecavelmente arranjado –, afagando ela também o seu telefone, sorriu, orgulhosa da competência do marido. A mãe passou o fim-de-semana ausente, a roer as unhas que prometera deixar crescer, a fumar cigarros e a beber copos de vinho tinto, com vontade de adormecer e acordar noutro sítio qualquer.

(pretérito mais que imperfeito.)

2011/04/19

Tindersticks



(Trancão-Escultura José de Guimarães)

Semana Santa

Um grupo de mulheres reza o terço numa salinha de paredes envidraçadas. A ladainha sai-lhes da boca, monocórdica, espalha-se pela nave da igreja, abafa o ruído que vem de fora. Estão naquilo muito tempo. Largam ave-marias, pais-nossos e jaculatórias, em catadupa, mistério a mistério, percorrem a vida de cristo, do nascimento sem pecado à agonia de um corpo nu crucificado. Pouco antes da salve-rainha, quando estão prestes a terminar, as suas vozes ganham certo alento. Será fé ou simplesmente alívio? Por fim, lançam-se num cântico desafinado que me chega como uma massa indistinta, sem palavras ou significado. Emudece-lhes então a voz. Escuta-se o roçagar das saias, o som seco dos missais a fechar, o chiar das solas de borracha dos sapatos ortopédicos no chão encerado. Saem da salinha do terço, pequenas, apressadas, consoladas. As mulheres que rezam o terço são velhas. O corpo perdeu há muito a doçura das formas femininas, não têm anca, nem mamas, nem ventre. O corpo tornou-se numa carapaça baça, jaspeada, e os membros, levemente arqueados, truncados, lembram pinças e tenazes. Quando falam soltam bolhas de água de mar. Atravessam a igreja com os seus passos pequenos de crustáceo. Sentam-se nos bancos que ficam junto do altar. Esperam a missa das seis.

2011/04/18

Acordar

Foi assim durante muito tempo. O meu despertar era sempre igual. Acordava triste e desesperada. Procurava o corpo na penumbra do quarto, desejando não o encontrar. Talvez alguém, durante o sono, compandecendo-se da minha dor, o tivesse levado para longe. Quando o encontrava, ao meu corpo, adormecido a um canto qualquer, pontapeava-o com violência para que se erguesse. Como se fosse um vagabundo que se despreza. Erguia-se o meu corpo, tão estiolado, tão frágil, entrava dentro dele e corria à cozinha a arranjar os pequenos-almoços dos meus filhos. Habituei-me à tristeza, que é como a solidão, fere, mas deixa em nós qualquer coisa, bela e única, que não se sabe explicar. Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente. É personagem de anúncio de cerveja. Nunca me habituei, no entanto, ao desespero, ao choro louco, ao conforto das imagens sombrias, um parapeito para saltar, um rio de água barrenta, os bolsos cheios de pedras, os pulsos cortados com uma lâmina, lágrimas de sangue empapando a alcatifa cor de laranja do escritório do meu pai, sessenta comprimidos letais tomados ao pequeno-almoço como no poema. Hoje, não sei explicar porquê, voltei a acordar triste. Não me importo que a tristeza volte. Se vier só, abro-lhe a porta, deixo-a instalar-se dentro de mim. É o desespero que me assusta.

2011/04/15

Entorse

Por culpa dele torci um pé. Era altura do Natal. Andava eufórica porque, pela primeira vez, os meus pais me tinham autorizado a passar o fim de ano com um grupo de amigos. Uns dias antes, uma amiga oferecera-me uma cassete, preciosa, que ainda hoje guardo. De um lado, gravara várias canções do "Escritor de Canções" do Sérgio Godinho. Do outro lado, gravara outras tantas do "Por este Rio Acima". Ouvi esta cassete vezes sem conta, centenas de vezes, milhares talvez. As canções do Fausto punham-me em estado de euforia. Despertavam em mim uma vontade desenfreada de dançar. Ignorando os olhares trocistas do meu pai e os gritinhos preocupados da tia Dé - ó filha, olha que tu cais! - punha-me a dançar as canções do Fausto, bem no meio da sala, sob o olhar severo das divindades hindus, trazidas pelos meus pais da Índia. Mulheres serpentes. Homens com quatro braços e rosto de elefante. Ganesh, Shiva, Krisna, com os corpos delineados, esculpidos na madeira perfumada do sândalo, olhavam-me com espanto, não reconhecendo aquele dançar tão diferente do das suas terras longínquas. Era um dançar não contido. Não me limitava a abanar a anca ou a mexer os pezinhos. Aquela música entrava dentro de mim e fazia mexer todas as partes do meu corpo. Cheguei mesmo a aprender alguns passos de folclore que se adequavam perfeitamente ao ritmo daquelas canções. Foi num desses devaneios pela dança tradicional, entre saltos e pulos, com os braços no ar, a dar uma pirueta, que torci um pé. Ainda me lembro das gargalhadas da mana, da aflição das minhas mães, do meu pânico perante a iminência de, por causa de uma entorse (mas que entorse!), voltar a passar o fim de ano na companhia dos meus pais com doze passas na mão.

Tenho certo orgulho no episódio da entorse. Assim como tenho um orgulho um bocado parvo em gostar das canções do Fausto como gosto. Não sou capaz de o ouvir sentada numa cadeira como se estivesse a assistir a um recital de piano. Faço sempre figuras tristes nos concertos. Canto as canções aos gritos e danço. Comovo-me com a limpidez da sua voz e com a poesia das suas palavras. Se, no Sérgio Godinho, gosto da capacidade de se adaptar a novos ritmos e a novas sonoridades, no Fausto, gosto precisamente do contrário. As canções de agora podiam ser as canções de ontem. E vice-versa. É por gostar tanto das suas canções que me entristece um país que lhe não reconhece o valor. Dos meus colegas de faculdade, do círculo de amigos de então, muitos deles de esquerda, seja lá o que isso for, nunca conheci nenhum que amasse verdadeiramente o Fausto. Mentira. Havia um: o Rui. Mas o Rui era um caso muito especial. De direita, conservador, precocemente alcoólico, monárquico, excessivo em muita coisa, amava, acima de tudo, acima dos rótulos e das etiquetas, a música, os livros e as palavras. Já os outros, os semi-etilizados que, como eu, deambulavam pelo Bairro Alto, que se deslumbravam com o PSR, diziam gostar do Fausto. No entanto, o único disco que lhe conheciam era o "Por Este Rio Acima". Sim, pá, claro que gosto!”, e bebiam mais uma pinguinha de cerveja para acicatar o ser revolucionário. Um tipo de esquerda sabe que tem meia dúzia de obrigações a cumprir. Uma delas é dizer que gosta do José Mário Branco, do Fausto e do Sérgio Godinho. Gosto do "Navegar, Navegar". Quando diziam isto, tornava-se claro, óbvio, cristalino, que não conheciam a ponta de um corno da discografia do Fausto. O Fausto merecia veneração, devoção, admiração, reconhecimento. Digo mais. Merecia outro país.

(À conta do facebook - que previsivelmente abomino e dispenso - a minha irmã fez chegar este texto antigo ao Fausto. Diz que o leu e sorriu. Meu rico cantor maldito. Viesses tu à minha beira e mimava-te como a um gaiato pequeno.)

2011/04/14

Mariana das Sete Saias



(amo este homem, mas é que amo mesmo, e amo esta canção.)

Reflexão Dominical

Foi então que resolveu aproveitar as noites de domingo para pensar. Não há assunto que a intimide. Espanta-se com os seus pensamentos, alguns de inesperada elevação, outros assim-assim, outros maçadores que lhe entram pela cabeça dentro sem pedir autorização. Em certa ocasião, não foi há muito tempo, deu consigo a pensar na dívida pública. O marido em cima dela, como uma lapa agarrada a uma rocha, ela a pensar na crise financeira e no FMI. Assustou-se. Quando está na cama com o marido, à espera que se despache, Odete gosta de reflectir sobre assuntos que tenham a ver com a ocasião. Pensa em sexo e em tudo o que possa estar relacionado com o tema. Por exemplo, no passado domingo, enquanto esperava o orgasmo do marido, debruçou-se sobre a seguinte questão: um transexual que se apaixona por uma pessoa do mesmo sexo é heterossexual ou é homossexual? Pensou, pensou, pensou muito e não chegou a conclusões satisfatórias.

A cama, é nisso que hoje pensa, mostra como as mulheres são seres mais evoluídos e inteligentes do que os homens. Parece a Odete que a arte do fingimento, essencial à sobrevivência das mulheres na cama, exige sofisticação. Foram precisos anos e anos de evolução da espécie humana para as mulheres chegarem ao patamar de fingimento em que estão hoje. Desconfia que as mulheres primitivas, as australopitecas e pitecampropas, cada vez que eram penetradas, grunhiam, urravam, arranhavam, arrancavam o pelame, desesperadas com tamanha dor e desilusão. Odete não tem dúvidas de que muitas, depois do coito, pegaram numa marreta e, com os músculos da vagina ainda a latejar, fizeram justiça pelas próprias mãos. À conta da pureza dessas primitivas mulheres, não sabiam fingir, não sabiam padecer em silêncio, deve ter havido muita mortandade nos tempos antigos. Foi preciso uma evolução grande para as mulheres aprenderem a fingir.

É assim que Odete pensa enquanto espera. O marido, entretanto, já lhe puxou as cuecas para baixo e já aproximou o volume duro do pénis. Odete continua. As mulheres foram, ao longo dos tempos, apurando o fingimento. Aprender a gemer, a impar, a revirar os olhos foi um marco decisivo na evolução. Ficam os homens mais excitados e o martírio acaba depressa. As mulheres, conclui Odete, aprenderam a fingir e essa aprendizagem, essa especialização, apurada e íntima do seu género, mostra que, para além de abnegadas, dão o que têm e o que não têm, são inteligentes. Afinal, remata, a cama mostra que as mulheres são mais sofisticadas e inteligentes do que os homens. É no preciso instante em que termina o seu raciocínio, talvez um pouco confuso, que o marido a penetra. Com violência, enterrando-se nela, no seu buraco escuro de paredes ásperas. Custa-lhe sempre esse momento. Odete não se habituou ainda a ter aquele pedaço de carne dentro de si. Reconhece então que de pouco vale às mulheres a inteligência e a sofisticação. O que interessa é a força física de um corpo capaz de amedrontar outro.

2011/04/13

Mulheres Cantoras

Fiz um esforço para acabar o último livro da Lídia Jorge, eu que gosto de a ler. Nem a morte de Madalena Micaia me tocou, nem a ambição voraz de Gisela Batista me assustou. E estremeci quando encontrei escrita a palavra que mais odeio na língua portuguesa. É uma palavra inócua, com um significado insignificante, mas não a suporto. Não sou capaz de a dizer, muito menos de a escrever, e se alguém, falando comigo, a soltar da boca, fica marcada a ferro e fogo. O facto da Lídia Jorge ter escrito a tal palavra é coisa que me desgosta profundamente. Hei-de matar a desilusão que é este livro assim como mato a desilusão que, por vezes, trazem as pessoas que amo. Lido o livro, gostei do epílogo. Pouco mais.