Não tenho dinheiro para mandar cantar um cego. Ando numa lufa-lufa, uma autêntica formiguinha, a ver se poupo o suficiente para, em Dezembro, sem grande rombo nas finanças domésticas, voltarmos à Índia. Vai sendo tempo do Joaquim conhecer a tia Maria, a preferida de Salazar, o cristo falante, os deuses crepusculares do quintal, sempre em folguedos perigosos, de penetrações fundas e posições estranhas, camuflados, parecem aranhas, muitos braços e muitas pernas, é preciso estar com muita atenção para os ver. Quero que conheça a mesa da cozinha corrida, os pratos de alumínio, as meninas da casa fazendo bolas de comida, metendo-as à boca, sorrindo. Quero que brinque no jardim de cóleos, crótons e filolendros da casa de Pondá, que me veja velha no rosto da tia Amália, no meio dos cóleos, crótons e filolendros da casa de Pondá, que faça festas aos gatos escanzelados do mercado de Margão, as peixeiras sentadas de cócoras, a saia do sari arregaçada, presa pela frente, para não se sujarem nas águas lodaçais, cheiinhas de ouro, escravas nos braços, arrecadas pesadas nos lóbulos das orelhas, cordões grossos à volta do pescoço, parecem as peixeiras de Afife, da Póvoa, da Nazaré, ser peixeira é arte universal e a aurífera ornamentação constitui em qualquer parte do mundo requisito essencial para bem se exercer a profissão. Lembro agora: quando era pequena, muito pequena, durante a primeira infância, queria ser peixeira, não me imaginava a ser outra coisa, muito menos o que hoje sou, nem sabia que podemos levar a vida assim, com cordas a prenderem-nos os pés e as mãos. Ia com a minha mãe à praça de Moscavide e especava em frente das peixeiras. Desejava ser como elas eram: poderosas. Mexer no peixe, sardinhas, carapaus, besugos, salmonetes, bicas, sentir-lhes o coração ainda a palpitar, o corpo quente, dizer assim, ainda está vivinho, depois, arrancar-lhes as tripas, o interior gelatinoso escorrendo pelas mãos, escamá-los, conversar com as freguesas, entregar-lhes a morte dentro de um saco de plástico. Se tivesse dinheiro, algum dinheiro, ia à Índia todos os anos e comprava um quadro da Armanda Passos.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2011/07/20
Agualva-Cacém
O Sr. Guia está reformado há meia dúzia de anos. Sempre que vem ao serviço almoçar com a Laurentina da correspondência, sobe ao nono piso para me ver. A fugir, como quem cumpre uma obrigação, pergunta pelos filhos, pelo trabalho. Depois, a conversa é sempre a mesma: uma pena vivermos tão longe, tanto que gostava de te treinar, correr sozinha é bom, faz bem ao corpo e à alma, é assim uma espécie de bálsamo, mas não se avança, é preciso companhia para alargar a passada, para aumentar o ritmo, para não desistir, fazer repetições, aprender a respirar, se viesses correr comigo, num instantinho, te punha a correr a meia maratona. O Sr. Guia mora no Cacém, na outra ponta do burgo, é um atleta por quem tenho muita admiração. Com 67 anos, corre maratonas. Quando me vem com a conversa dos treinos, atiro-lhe sempre com a desculpa dos filhos, então o senhor não sabe que estou sozinha com três crianças, a calendarização para mim é um luxo, não tenho tempo sequer para respirar quanto mais para me comprometer, quando arranjo quem fique um bocadinho com eles, uma tia, uma prima, os avós, o pai, calço os ténis e corro. Pequeno, não é maior do que eu, muito magro, um bigodinho fino, o Sr. Guia tem uma voz antiquada, colocada, ligeiramente aguda, solta muitos ahs! Mal me calo, é com essa voz antiga que remata a conversa, ai, sua malandreca, estás é a arranjar desculpas para não treinares em condições! Acompanho-o ao elevador, pergunto-lhe pelas provas, pelos tempos, o meu interesse não é genuíno, mas gosto de lhe retribuir a generosidade e o entusiasmo.
Vem a conversa do Sr. Guia a propósito do R. que me levou os miúdos para a praia. Uma semana inteira sem os ver, os três ausentes, assim de uma assentada, não estou habituada, não sei que fazer com o tempo. Despedi-me deles e, mal virei costas, vi a solidão encostada à ombreira da porta do meu apartamento, prontinha para entrar e fazer-me companhia, oferecida, langorosa, como se estivesse sentada na sala de apresentação de um prostíbulo. Fingi não a ver e fechei-lhe a porta na cara, ainda a ouvi dizer ai, com a força, pensei eu, magoei-a no septo nasal, vulgo cana do nariz, feita de ossos moles, cartilagens alares, dói que se farta quanto batemos em algum lado. Entrei, pois, em casa, disposta a não deixar a solidão fazer de mim gato e sapato. Telefonei ao Sr. Guia a perguntar-lhe se ainda me queria treinar. Que sim, olha a pergunta, era um homem de palavra, tinha até muito gosto, que fosse ter com ele no dia seguinte, apanhas o comboio e saias em Agualva-Cacém, vou buscar-te à estação. Assim tem sido, apanho o comboio, lancho na cozinha da D. Cremilde, onde há flores de plástico, um naperão de linha mesclada em cima de uma mesa lacada, um televisor sempre ligado na tvi, como uma sandes de marmelada – é para teres energia!- e um iogurte sólido. O Sr. Guia chega com os seus calções azul, camiseta de alças, ar sério, esfregando as mãos. Saímos para correr.
Vem a conversa do Sr. Guia a propósito do R. que me levou os miúdos para a praia. Uma semana inteira sem os ver, os três ausentes, assim de uma assentada, não estou habituada, não sei que fazer com o tempo. Despedi-me deles e, mal virei costas, vi a solidão encostada à ombreira da porta do meu apartamento, prontinha para entrar e fazer-me companhia, oferecida, langorosa, como se estivesse sentada na sala de apresentação de um prostíbulo. Fingi não a ver e fechei-lhe a porta na cara, ainda a ouvi dizer ai, com a força, pensei eu, magoei-a no septo nasal, vulgo cana do nariz, feita de ossos moles, cartilagens alares, dói que se farta quanto batemos em algum lado. Entrei, pois, em casa, disposta a não deixar a solidão fazer de mim gato e sapato. Telefonei ao Sr. Guia a perguntar-lhe se ainda me queria treinar. Que sim, olha a pergunta, era um homem de palavra, tinha até muito gosto, que fosse ter com ele no dia seguinte, apanhas o comboio e saias em Agualva-Cacém, vou buscar-te à estação. Assim tem sido, apanho o comboio, lancho na cozinha da D. Cremilde, onde há flores de plástico, um naperão de linha mesclada em cima de uma mesa lacada, um televisor sempre ligado na tvi, como uma sandes de marmelada – é para teres energia!- e um iogurte sólido. O Sr. Guia chega com os seus calções azul, camiseta de alças, ar sério, esfregando as mãos. Saímos para correr.
2011/07/13
Almada
Isto é um caderno-diário, narcísico e ensimesmado. Que se lixe o país, a crise, os eurobonds, a moddys e o resto. Há quem leia este caderno-diário. Há quem goste. Há quem deteste. Há quem se esteja a borrifar, atitude tão sensata. Não tem comentários porque não quero. Tem mail por uma razão simples. Gosto de receber mensagens a elogiar-me o estilo, a virulência, a dizer que bem que escrevo. Fico radiante durante dois ou três dias. Por vezes, acontece o contrário. Escrevem-me a dizer que sou pretensiosa e coisa e tal, uma sopeira armada em intelectual. Mandam-me à merda, que é coisa ultrajante.
Há que saber insultar decentemente e com veemência. Não é difícil. Eu quando insulto alguém mando-o(a) para o caralho ou para a puta que o pariu. Não é original, mas cumpre com eficácia os desígnios do insulto. Aproveito a deixa para te esclarecer: não era a tua mãe que eu insultava quanto te chamava filho da puta. Era a ti. A tua mãe, no insulto, funcionava como nada, como um instrumento para te magoar. Eu era lá capaz de insultar a tua mãe. Coitadinha. Até me deu uma prenda de Natal tão útil. Um aspirador da Bosch, metalizado, com controlo de sucção na pega do tubo. Para terminar e retomando o fio à meada, peço um favor: elogiem-me à vontade, insultem-me quando vos apetecer, mas não me mandem mensagens a oferecer o ombro, a consolar-me, a achar que sou uma desgraçada de uma mãe sozinha, deprimida, suicida. Há quem aprecie esse tipo de lambuzadelas peganhentas, com consistência de ranho e cheiro putrefacto de traques inaudíveis de velhinha (sei do que falo). Não suporto a mediania de tais sentimentos. Provoca-me brotoeja, prurido, náusea, cefaleias e taquicardia.
(Estive em Almada, durante a tarde. Vista das janelas do tribunal, a cidade mostrou-se, luminosa, quase bonita, ela que é uma cidade feia. Cheirava bem. A madeira encerada, a casa antiga, de corredores frescos e limpos. Nunca uma cidade me cheirou assim.)
2011/07/12
Gotas
Ainda tão perto de Lisboa, ali quando a auto-estrada passa por Alhandra, a cimenteira, a capela no altinho, a linha do norte marcando o fim à vila, os álamos que deitam uma sombra baça, cheia de poeira, sobre os prédios antigos, iguais aos de Moscavide e Sacavém, ali, ainda tão perto de casa, a curva do rio a ver-se, e já eu ia leve, levezinha, a bater os dedos no volante, esquecida da carraça que me chupa o sangue e deixa os vasos quebradiços, os órgãos secos, a traqueia estrangulada em muitos nós, quero respirar e não consigo. Fui e voltei. Cheguei a casa, deviam ser nove da noite, retemperada, consolada, o bem que a música me faz, é preciso tão pouco para me animar. Mal abri a porta veio a prole enrolar-se nas minhas pernas. Beijos e abraços, gotas de mercúrio, inchando até serem uma só, também gosto muito de vocês, tanto, são a luz da minha vida, o melhor que a vida me deu, o resto que se lixe, não fossem vocês, ricos amores, e já me teria lançado ao mar, num lugar de águas escuras, profundas, onde um peixe antigo, luminoso, iridescente, de fiadas de dentes fininhos, me arrancasse o corpo ao pedaços.
Virei-me para a minha mãe. Pedi-lhe para os aturar mais uma hora. Calcei uns ténis. Lá fora, a noite abafava, nem uma brisa se levantava do rio, era uma noite de verão, estática, andavam as tainhas mais moles do que é costume, nadando aos círculos que o cerebelo carregado de nafta e gasolina deixa-as muito estúpidas, vinham com a cabeça à tona para olhar com os seus olhos amarelos as estrelas e a lua. Não se via ninguém. Passei apenas por um homem grisalho que passeava um cão minúsculo e levava pelas costas uma mochila das jornadas peninsulares de psiquiatria. Atrasei o passo. Corri durante uma hora. Voltei a casa. Despediu-se a avó. Tomei banho. Deitei-me. Olhei a secretária e o computador. Lembrei-me dos meus propósitos, tão boas as minhas intenções, agora que ninguém me reclama, agora que ninguém me cansa, hei-de escrever todas as noites, um bocadinho de lixo todas as noites. Não custa nada. Até ter um lixo de muitas páginas. Apaguei a luz. Mal a escuridão entrou no quarto, pensei em mamas, rabos, pénis muito tesos ejaculando para dentro de bocas. O orgasmo veio fácil, em meia dúzia de segundos, numa vertigem, sem esforço, uma coisa sem jeito nenhum, sensaborona, aguada, desoladora, profundamente triste.
Adormeci. Às três da manhã, bradou o mais pequeno. Preciso de ti, disse e subiu à minha cama com o coelho Botelho na mão. Primeira gota. Às quatro da manhã, veio a do meio, vestia uma camisa de noite cheia de anémonas, tão frágil, tão delicada, a minha filha, como uma gota de água. Tive um pesadelo contigo e com o pai, explicou. Fica, meu amor, que a noite não silencia os medos, nunca a escuridão os apazigua. Segunda gota. Às cinco da manhã, chegou o mais velho, um cristo cigano, sem dizer uma palavra, dormia ainda, dormia de olhos muito abertos, trazia o corpo fluído de prata. Ocupou na cama o lugar do pai. Terceira gota. Adormeci a um canto, meio corpo de fora, caindo para um abismo de espinhos e névoas. Acordei de madrugada, chilreavam os pardais e os melros nas árvores da praça, piu, piu, piu, piu, um frenesim matinal muito bom. O mais novo despertou com o alarido dos pássaros. Galgou o corpo da irmã e livrou-me do precipício. Beijou-me e adormeceu.
Virei-me para a minha mãe. Pedi-lhe para os aturar mais uma hora. Calcei uns ténis. Lá fora, a noite abafava, nem uma brisa se levantava do rio, era uma noite de verão, estática, andavam as tainhas mais moles do que é costume, nadando aos círculos que o cerebelo carregado de nafta e gasolina deixa-as muito estúpidas, vinham com a cabeça à tona para olhar com os seus olhos amarelos as estrelas e a lua. Não se via ninguém. Passei apenas por um homem grisalho que passeava um cão minúsculo e levava pelas costas uma mochila das jornadas peninsulares de psiquiatria. Atrasei o passo. Corri durante uma hora. Voltei a casa. Despediu-se a avó. Tomei banho. Deitei-me. Olhei a secretária e o computador. Lembrei-me dos meus propósitos, tão boas as minhas intenções, agora que ninguém me reclama, agora que ninguém me cansa, hei-de escrever todas as noites, um bocadinho de lixo todas as noites. Não custa nada. Até ter um lixo de muitas páginas. Apaguei a luz. Mal a escuridão entrou no quarto, pensei em mamas, rabos, pénis muito tesos ejaculando para dentro de bocas. O orgasmo veio fácil, em meia dúzia de segundos, numa vertigem, sem esforço, uma coisa sem jeito nenhum, sensaborona, aguada, desoladora, profundamente triste.
Adormeci. Às três da manhã, bradou o mais pequeno. Preciso de ti, disse e subiu à minha cama com o coelho Botelho na mão. Primeira gota. Às quatro da manhã, veio a do meio, vestia uma camisa de noite cheia de anémonas, tão frágil, tão delicada, a minha filha, como uma gota de água. Tive um pesadelo contigo e com o pai, explicou. Fica, meu amor, que a noite não silencia os medos, nunca a escuridão os apazigua. Segunda gota. Às cinco da manhã, chegou o mais velho, um cristo cigano, sem dizer uma palavra, dormia ainda, dormia de olhos muito abertos, trazia o corpo fluído de prata. Ocupou na cama o lugar do pai. Terceira gota. Adormeci a um canto, meio corpo de fora, caindo para um abismo de espinhos e névoas. Acordei de madrugada, chilreavam os pardais e os melros nas árvores da praça, piu, piu, piu, piu, um frenesim matinal muito bom. O mais novo despertou com o alarido dos pássaros. Galgou o corpo da irmã e livrou-me do precipício. Beijou-me e adormeceu.
2011/07/02
2011/06/29
Armários Vazios
Dora Rosário tinha 38 anos. A filha descrevia-a como uma mulher sem idade e sem solução.
2011/06/27
Havana
Almoço na esplanada do centro budista da rua D. Estefânia. Tenho por companhia a única amiga da faculdade que me resta. As outras, fui-as perdendo à medida que fui tendo filhos. Um gato preto espreguiça-se, molengão, por baixo de um estendal de roupa velha, esgaçada pelo uso. Ao fundo, as ruínas de um edifício austero, um asilo, um hospício, erguem-se como um gigante furioso. Lembro o sonho desta noite. Voltei a sonhar com a minha morte. Fico ao corrente da vida de quem não me interessa. Gente que não vejo há quinze anos. Tomo consciência de que, do grupo da faculdade, fui a primeira a separar-me. Serei, porventura, por enquanto, a única. Essa vantagem conforta-me. Entre outras coisas, fico a saber que um dos meus pretendentes da faculdade - tive dois: um, socialista, pouco asseado, porco mesmo, patologicamente mentiroso; o outro, conservador, dado a fados, touros e putas - é um homem de sucesso. Acaba de comprar o seu primeiro carro de luxo, um porshe, e está a ponderar comprar uma casa em Havana por apreciar a vida nocturna, os mojitos e daiquiris, as mulheres que se compram. Emociona-se com a decadência do socialismo cubano. Ainda não sei muito bem o que sentir em relação a isto. O que sinto em relação a isto? Não sinto nada. Não sinto sequer nojo ou alívio. Dispenso o porshe e a casa em Havana. O que quero é um homem com sentido de humor.
(Por que é que as mulheres, quando instadas a se pronunciar sobre as qualidades que apreciam no sexo oposto, afirmam que o que procuram é um homem com sentido de humor? Que utilidade tem um homem com sentido de humor? Para que serve? A maior parte das mulheres raia a imbecilidade. Eu, quando quero rir, escuto a Maria de Medeiros cantar, oiço as entrevistas do João Marcelino ou leio as análises do António Perez Metelo.)
(Por que é que as mulheres, quando instadas a se pronunciar sobre as qualidades que apreciam no sexo oposto, afirmam que o que procuram é um homem com sentido de humor? Que utilidade tem um homem com sentido de humor? Para que serve? A maior parte das mulheres raia a imbecilidade. Eu, quando quero rir, escuto a Maria de Medeiros cantar, oiço as entrevistas do João Marcelino ou leio as análises do António Perez Metelo.)
2011/06/23
Perfil
Não percebo o entusiasmo à volta da ideia do cheque ensino. Quem põe os filhos num colégio, não procura apenas a excelência do ensino, o rigor e a exigência. Procura, sobretudo, a segurança da segregação social. É a segregação social que dá garantias de sucesso. Quem opta por certos e determinados colégios fica sossegado por saber que deixa os filhos numa espécie de condomínio privado, onde se ensina a caridade, se cultiva comedidamente a piedade, enobrece sempre o carácter, mas longe de pretos, ciganos, brancos que são como pretos, demais proscritos. É por essa razão, sobretudo por essa, que sujeitam os filhos a avaliações psicológicas, que se sujeitam eles próprios a entrevistas, onde explicam o que fazem e onde moram. Esmiúçam, ansiosos, detalhes e valores familiares, para se enquadrarem no perfil pretendido. O cheque ensino, em abstracto, elimina constrangimentos financeiros, permitindo que famílias mais pobres possam optar por estabelecimentos de ensino privados, mas não apaga o resto. Quem é da Brandoa, da Buraca, de Unhos, do Catujal, será sempre desses lugares. Os pais que escolhem o ensino privado, se, de repente, vissem a prole acompanhada pela prole das suas empregadas, procurariam rapidamente outro colégio onde a selecção se continuasse a fazer. Não condeno as preocupações dos pais que assim agissem. Percebo-os perfeitamente. Se a escola dos meus filhos fosse, assim de repente, por imposição do governo, inundada por camafeus pequenos, tratando-se por você, armados ao pingarelho, também eu correria a tirá-los de lá. Gosto pouco de misturas.
2011/06/22
Marguerita
Faz hoje um ano que tomei uma caixa de Xanax, disse a mulher ao empregado do bar. Depois calou-se, estranhando as palavras que se tinham soltado da sua boca. Nunca ninguém lhe falava desse dia. Nem o marido. Nem os irmãos. Nem os pais. Nem a única amiga que tinha. Era como se não existisse. Como se outra, que não ela, tivesse naquele dia rondado o bairro de Chelas à procura de espantar a dor para os homens que, sonolentos, despertavam para a manhã. Como se outra, que não ela, tivesse escutado os renhaus dengosos que as mulheres lhes lançavam das janelas dos prédios de habitação social. No fundo, aquele dia só existia para ela, para mais ninguém. Por isso o celebrava sem que os outros soubessem, bebendo ao final do dia, num bar da rua de São Paulo. O empregado do bar voltou e pousou no balcão um copo triangular, com gelo moído e hortelã fresca. Sorriu-lhe de forma profissional, asséptica, como a querer dizer-lhe olhe que eu também tenho os meus problemas, não estou com disposição para confissões. Mas a mulher não o percebeu. Ou fingiu não o perceber. É triste uma pessoa falhar até na morte, não acha? e, sem esperar pela resposta, começou a chupar o sal dos bordos do copo.
(Junho nunca mais acaba.)
2011/06/21
2011/06/20
Outra
Vinha a sair da estação, de vestido branco, confiante, as pernas bronzeadas do sol, a peitaça enfiada num wonderbra, empinada e postiça, o rabo firme de tantos agachamentos feitos nas aulas de ginástica, a frustração, o remorso, o cansaço como se não existissem. Vinha assim, como se fosse outra, a sentir-me bem, quando a ponta das minhas sandálias de camurça ficou presa na grelha de um respiradouro. Estatelei-me no chão. Fiquei de gatas na queda. Uma rapariga de unhas de gel, esboçou um sorriso, feliz com a minha humilhação. Foi o negro que costuma estar a distribuir papelinhos do professor karamba quem me levantou. Agradeci-lhe. Larguei a outra, peguei em mim, e, manca, caminhei até ao edifício onde trabalho.
2011/06/17
Cama
Teve os primeiros quatro filhos em casa. Como era costume naquele tempo. Pariu no seu quarto, deitada na cama, com a Virtuosa a amparar a queda dos meninos. Era uma cama muito velha, de pinho carunchoso, que ocupava quase toda a divisão. Em vez das habituais cercaduras de raminhos de flores, tinha um pavão pintado no meio da cabeceira. Parecia real. A cauda, raiada de verde e azul, aberta no seu esplendor. Uma pata levantada e o pescoço muito esticado, alongado ao limite, mostravam a altivez do bicho. Mas o que impressionava a Violante eram os olhos pequenos, maldosos e brilhantes que, por arte do artesão, a fixavam sempre. Violante podia estar perto da janela, à porta, sentada no bacio, que o animal lhe fincava os olhos pequeninos. Mesmo quando estava de costas sabia que o pavão a fitava. O bicho perseguia-a, sabia-o, mas não contava a ninguém. Sentindo-se permanentemente observada, nunca os seus gestos eram livres e espontâneos dentro do quarto. Por exemplo, era incapaz de soltar um peidinho. Por pequeno que fosse. Fazia um esforço, apertando com força as nádegas, para estrangular as bufas que queriam fugir-lhe do corpo. Também nunca enfiava o dedo no nariz e acanhava-se de ajeitar as cuecas por baixo da bata. O pavão, pintado na cabeceira de pinho, não lhe admitia a vulgaridade daqueles gestos.
Mesmo quando a noite se abatia sobre o quarto e o seu corpo se tornava difuso, ganhando a consistência das sombras, Violante continuava a sentir-se observada. O marido encavalitava-se nela. Tomava-a com um desejo brusco e urgente. Sabia que o pavão lá estava, olhando-a, exibindo o requinte rendilhado da sua cauda, mangando do seu corpo nu, de refegos e pregas, gozando o marido, inábil na arte de amar, apertando-a com desespero, grunhindo à medida que ejaculava. O bicho, com o seu despeito e altivez, mostrava-lhe que na cama, como no resto, o mundo se divide entre pobres e ricos. Os pobres amam como animais, de uma forma primitiva, sem pingo de afectação, dispensando sofismas e outros engodos, com muita pureza e brutalidade. Os ricos, por vezes, também amam assim. Mas é um excesso, um desaire que se esquece mal as luzes se acendem e os corpos se escondem em camisas de dormir brancas e pijamas de popelina.
Porém, mais do que às investidas nocturnas do marido custava a Violante que o pavão assistisse aos seus partos. Sentia que, durante o nascimento dos filhos, a devassa da sua intimidade era total. O bicho, do cimo da cama, estremecia com tanta curiosidade. Esticava-se todo, ela bem o via, para lhe ver o avesso, fixava os olhos na sua greta dolorosa, os lábios grossos, os pêlos hirsutos, dava conta da crueza da sua nudez. Naquele alarido do nascimento - a Virtuosa, sempre muito suada, pedindo-lhe para fazer força, o quarto abafando com o cheiro de entranhas e sangue -, o bicho dava largas à sua maldade e, facto tão extraordinário quanto a beleza dos meninos de Violante, ganhava vida. Escutava-o, passeando pelo quarto, patinhas de lã, transportando o seu corpo de tinta estalada. Pior, vendo-a ali presa, incapaz de se movimentar, as atenções todos postas na sua parte baixa, baixava-se e bicava-lhe a cabeça. Bicava-a com tanta força, tamanha maldade, que, no último parto, Violante sangrara. Ficou com a cabeça cheia de crostas escuras e grossas. A Virtuosa, habituada às maleitas das puérperas, rapidamente arranjou explicação. Era dos nervos. A maternidade exigia muitíssimo a uma mulher, abnegação, amor, paciência e o corpo, claro está, ressentia-se. Que esfregasse o couro cabeludo com azeite morno. Ajudaria a amaciar as crostas e o cabelo, até o seu, áspero e feioso, ganharia brilho. Violante escutou-a em silêncio e olhou o pavão com os olhos rasos de água. Quando engravidou do quinto filho decidiu que não o teria na presença do animal. Os tempos eram outros, havia luz eléctrica na maior parte da aldeia, numa das mercearias de Grândola vendiam-se cachos de bananas que chegavam do Brasil, muito perfumadas e doces, dizia-se que, em breve, iriam colocar uma televisão na casa do povo. Face a tanto progresso, Violante facilmente convenceu o marido de que não podia continuar a dar à luz na sua cama de pinho. Quando o ventre baixou e sentiu o menino encaixado, a cabeça fazendo pressão nos ossos da bacia, fez uma trouxa e pediu-lhe que a levasse ao hospital de Beja.
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