2011/08/31

Nível

Posso falhar o editorial, a crónica do MEC, mas leio, com fidelidade diária, a meia dúzia de mensagens eróticas do Público. Interessam-me. Não há rabos, nem mamas gigantes, não se prometem regabofes, nem orgias, não há gays, nem travestis, nem peludinhas, nem rapadinhas. Não há quantidade, mas qualidade. Tudo é elevado, discreto, a prostituição apresentada como coisa distinta, secreta, aristocrata até. Esta semana, porém, três senhoras de alto nível, na sua vitrina do jornal, tem vindo, diariamente, à procura de cavalheiros educados para troca de meiguisses em apartamento de luxo. Se se tratasse de um anúncio publicado no diário de notícias ou no correio da manhã, uma pessoa ainda fechava os olhos. Agora, ali, no Público, no meio da Regina, balzaquiana, senhora culta, licenciada, elegante e do centro de massagem sensual para cavalheiros de nível, o erro ganha outra dimensão. Torna-se grosseiro e tacanho, sobretudo, profundamente desmotivante. Por muito empenhadas que as três senhoras de nível sejam, por muita competência prática que tenham no desempenho do seu ofício, boas mamadas, penetrações profundas e apertadinhas, qualquer cavalheiro de nível, educado, terá de declinar a amável convite. As meiguisses prometidas destoam da elevação geral da coisa. Parecem mal.

Rapaz

O rapaz trabalha no meu edifício. Anda sempre com um livro por baixo do braço. Todos os dias, pela hora do almoço, se senta nas arcadas, perto da saída de torniquetes, no exacto lugar onde, pela tardinha, as mulheres das empresas de limpeza, antes de iniciarem a última etapa do seu longo dia de trabalho, se sentam a comer sandes de chourição. Fuma cigarros solitários e, alheio ao burburinho cidade, lê. Pernas cruzadas, ligeiramente estático, rígido, pessoano. É assim todos os dias, esteja sol, vento, frio. Aguenta os chuviscos envergonhados, só a chuva maior o arranca dali. Concentrado, forçadamente concentrado, parece não notar o ruído da rua. Não repara na porteira do hotel de luxo, o cabelo preso num rabo-de-cavalo, cartola de fita vermelha, farda castanha de requinte pateta. Não sabe que, dentro do bolso da farda castanha, a porteira guarda um apito que, volta e meia, tira e sopra para chamar os táxis que levarão as esposas angolanas até à avenida da liberdade, onde comprarão, com a soberba própria das elites dos povos libertos, jeans armani e sandálias da christian louboutin. O rapaz parece também não escutar as conversas sobre futebol que chegam do quiosque dos jornais, a análise diária, exaustiva de cada lance polémico, de cada falta não assinalada. Não vê as raparigas que saem das seguradoras, vêm aos cachos, cigarro ao canto da boca, emancipadas, camisolas de fibra justas, decotes fundos, roliças, bronzeados ordinários. O rapaz é um estranho leitor: autista, rápido, sôfrego. Lê com urgência que é sempre um modo errado de se ler. Topo-lhe há muito tempo as leituras e, digo-o sem exagero, quase todos os dias, traz um livro novo.

Antes das férias, por exemplo, andou de volta dos clássicos russos. Numa semana – uma semana tem apenas sete dias – vi-o de roda de dois romances do Dostoievsky e do mais longo romance do Gogol. Como se pode despachar numa semana três obras-primas da literatura universal, duas densas, a outra divertida, mas todas merecedoras de tempo? Tamanha imaturidade irritou-me. Foi por causa do rapaz das arcadas, do seu modo de ler, imberbe, que decidi também levar um russo para as férias. Escolhi o Turgueniev. Gostei moderadamente do livro. Já estava farta do niilismo e da misoginia do tal Bazarov. Sou, sempre fui, pelo triunfo da emoção sobre a razão. Podia ter lido livro em menos noites. Porém, li-o devagar, poucas páginas de cada vez, uma leitura prolongada, preguiçosa, propositadamente indolente. Só para fazer pirraça ao rapaz das arcadas.

2011/08/29

Saramago (2)

Não sei explicar por que razão, passados tantos anos, recordei, com detalhe, este episódio enquanto assistia ao documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Talvez fosse apenas o sul a chamar por mim. Quando desliguei a televisão e o silêncio se instalou pensei assim: afinal gosto deste homem. No dia seguinte, partilhei o entusiasmo com a minha irmã. Gozou-me, como sempre faz, soltou uma casquinada valente, e disse qualquer coisa do tipo ó mana, és tão inconstante. A conversa é sempre a mesma. A minha inconstância é um axioma familiar. Ultrapassada a questão ideológica, a minha irmã percebeu que apenas a sordidez da vidinha privada podia reavivar o meu desprezo pelo Saramago. Então tu não sabes que ele batia na primeira mulher?, atirou ela com uma ponta de maldade, sabendo que poucas coisas me revoltam mais do que homens que batem em mulheres. Deves ser completamente louca, disse, e acabei, naquele preciso instante, a conversa, desligando-lhe o telefone na cara. Engoli em seco e meti O Ano da Morte de Ricardo Reis na mala de viagem. Livro extraordinário. Descoberta tão boa na frescura da noite alentejana. Li-o com espanto, deliciada, feliz por o estar a ler. Fiz listas de palavras. A minha filha quis saber por que é que, volta e meia, sublinhava o livro. Estou a caçar palavras, em cada página, caço uma palavra, expliquei e pusemo-nos a olhar a caçada.

Ainda não tirei a limpo se o Saramago batia ou não na primeira mulher. Não quero saber. Reconheço a sensatez dos que dizem que interessam os livros, não os escritores, interessa pouco aquilo que pensam sobre o mundo, é irrelevante a sua vida privada. Fossemos nós, leitores, à procura, em quem lemos, de exemplos de vida, heroicidade, liberdade, valores sólidos, e ficávamos à míngua, sem nada para ler. Está tudo muito bem. É assim mesmo que deve ser. E, no entanto, foi a descoberta da intimidade, a dança das rotinas diárias, a partilha de um amor maior que a vida, essa extraordinária capacidade de encontrar o sagrado nos gestos profanos, banais e indignos, que me levou a ler um escritor, por mim, há muito, proscrito.

Saramago (1)

Certa vez, explicaram-me o óbvio, que os homens não podem ser confundidos com as suas obras, é uma injustiça quando isso acontece, que visse o caso da Leni Riefenstahl, a luminosidade nas filmagens, as paradas nazis filmadas como um bailado, a técnica apurada. Escutei, em silêncio, o sermão. Por fim, disse que me estava nas tintas para a leni reifenstahl, fascista, grande puta nazi, nojenta, eu era lá capaz de apreciar a obra de uma mulher que andou a mamar no Hitler, e continuei a alimentar, anos fora, activa e dedicadamente, as minhas embirrações artísticas, sobretudo, as literárias. Entre os escritores, um ocupou, até este Agosto, o pódio do meu desprezo mais profundo e sincero: o Saramago. A embirração que lhe tinha, alicerçada em meia dúzia de coisitas sem importância – o comunismo senil e bacoco, a triste falta de liberdade, a visão injusta, manietada do mundo - ficou totalmente descontrolada quando, por ocasião da atribuição do Nobel, uma prima, juíza de profissão, por acaso, comunista, também, leitora exclusiva de leis, decretos-leis, despachos normativos, portarias, manuais de direito, decidiu ler, de empreitada, todos os livros do camarada. Cada vez que me encontrava nas festas de família, punha-me a par dos livrinhos já lidos e ficava horrorizada perante o meu desinteresse pela obra do nobelizado português. Já só me falta este e aquele, dizia ela, em jeito de desafio, arreganhando uma dentição perfeita. A literatura feita contabilidade, autêntico horror. No Saramago, nada me agastava mais, do que ouvi-lo, seco, esguio, frio, severo, falar constantemente do Nobel, atribuindo ao prémio uma importância que não tem. Sobretudo, eriçavam-se-me os pêlos quando o escutava dizer nubél, assim mesmo, nubél, tornando tónica a segunda sílaba, pronunciando a palavra à sueca, não à portuguesa, como toda a gente. Pobre coitado, pensava eu, podes ter ganho o nubél, mas não deixas de ser um serralheiro mecânico da Azinhaga do Ribatejo.

Mas a vida, como se costuma dizer, é uma caixinha de surpresas e, quando menos esperamos, apanha-nos desprevenidos. Até as embirrações mais sólidas, que julgávamos de pedra e cal, enterradas no fundo do nosso ser, se vão embora. Aconteceu-me este verão. Precisamente com o Saramago. Apanhada de surpresa, numa noite vazia, de angústia leve, dormiam os miúdos, dei comigo a ver o documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Passava no segundo canal. Escutei a voz do escritor, vi o medo da morte dentro dos seus olhos, enterneci-me com a sua figura frágil, e lembrei o meu avô José, que não foi serralheiro mecânico, mas carpinteiro. Foi então, enquanto via o documentário, que lembrei um episódio esquecido da infância.

O meu avô, sentado no quintal, junto da porta de fitas da cozinha, as calças arregaçadas, os pés descalços, preparava-se para lavar os pés numa bacia de alumínio que refulgia com o sol da manhã. Eu andava por ali a brincar com a minha irmã e com a minha prima, não a que é hoje juíza, com essa brincávamos, de quinze em quinze dias, no apartamento dos pais na Buraca, mas com a Filomena, robusta e bonita, suinicultora de sucesso, tem agora onze pecuárias à sua responsabilidade, trinta e seis trabalhadores, romenos e ucranianos, não encontra um único português que queira sujar as mãos a limpar bosta de porco. No meio das cabriolices, reparei no meu avô descalço, deixei a brincadeira, e pedi-lhe para me deixar lavar-lhe os pés. Estranhou o pedido, mas anuiu com um sorriso. O sol aquecera a água, estava morna, peguei numa barra áspera de sabão azul e branco e lavei-lhe os pés. Primeiro um, depois outro, com vagar, como se fossem objectos frágeis. O meu avô agradeceu-me e deixou-se estar assim, de pés descalços descansando ao sol. Tirou o canivete do bolso e pôs-se a descascar um pêro. Olhando aquela pele muito branca, de porcelana, translúcida, uma pele delicada, virgem, macia, que contrastava com as unhas amarelas, grossas e torcidas, senti vontade de beijar os pés do meu avô. Se não o fiz, foi porque, já naquela altura, apesar da idade, me apercebi da inadequação daquele desejo.

2011/07/25

Femmes Infidèles



Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles.

(Volto em Setembro.)

I-Phone

Conheço um casal feliz. Digo-o, a sério que o digo mesmo, sem ponta de sarcasmo. Nunca discutem. Vivem em perfeita harmonia, sem preocupações ou arrelias. Têm uma vivenda em caxias, profissões de sucesso, uma empregada interna, que se chama Bela e é muito competente, faz lasagna de beringela e pinhões, saladas de melancia e hortelã, têm dois filhos, um cão e dois gatos persas, a Amélia e o Zorba. Viajam todos os anos. Tratam-se um ao outro por amor. Amor, diz ela e a voz fica macia, como um novelo de lã. Amor, diz ele e vê-se que há ali um misto de doçura e lascívia, um desejo carnívoro de a tomar, corpo todo, quando a vivenda repousa. Fizeram anos há pouco tempo. Ele ofereceu-lhe um i-phone. Ela, exactamente passado um mês, na festa de aniversário que lhe preparou, também lhe ofereceu um i-phone. É tão bom quando um casal se conhece assim, do avesso.

Quarenta Anos

Aninhas viu-se sozinha na noite dos seus quarenta anos. A empregada não lhe fez quaisquer perguntas. Deitou-lhe os filhos e recolhera já ao quarto onde se entretinha a ver telenovelas brasileiras com os sapatos de salto de vírgula calçados. O apartamento estava mergulhado em penumbra e sombras. Era uma escuridão que a consolava. Lá fora, a noite caíra sobre os jardins da fundação, escondendo as tílias, os pilriteiros, os rododendros; só o perfil, levemente assustador, das sequóias permanecia visível. Aninhas sentou-se no escritório. Faltava-lhe fazer uma coisa. Precisava de ligar para o apartamento das marquises de alumínio, na Paiva Couceiro. Custava-lhe mais acabar a relação com o amante do que a relação com o marido. O casamento assentava num contrato e Aninhas sabia que a dissolução dos contratos se encontra prevista na lei, tutelando interesses, dividindo patrimónios, acautelando as opções de cada um. A lei parametriza a vida; cuida, de forma asséptica e eficaz daquilo que começa, mas também de tudo o que termina. A relação com o amante, porém, não assentava em premissas definidas, era volátil, inexistente. Não havia direitos, nem deveres, nem salvaguardas. Assentava apenas em sentimentos.

Aninhas pensara durante a tarde. Nenhuma justificação lhe pareceu razoável, suficientemente plausível para acabar com aquela relação que pouco exigia e nada deixaria. Na penumbra do escritório lembrou-se então da frase que encontrara nessa manhã escrita na base da estátua na praça central da cidade. Discou o número da casa do amante. Já não te amo, Rui, disse-lhe com clareza, antes que ele pudesse cumprimentá-la. Era uma frase curta. Dita de supetão, não lhe exigia grande fingimento ou dissimulação. Porém, de tão absurda, ao dizê-la, teve vontade de soltar uma gargalha pequena. Coibiu-se, porém. Pressentia que o amante sofria do outro lado da linha. Talvez chorasse quando desligasse o telefone. Dificilmente encontraria nos corredores da faculdade uma mulher como Aninhas. Costumava desabafar, nas horas clandestinas que passavam no apartamento de marquises de alumínio, que as colegas cultivavam uma feminilidade esclarecida. Eram, mais coisa, menos coisa, uns estafermos. Não tiravam o buço e, no tempo quente, usavam vestidos pingões que mostravam corpos macilentos. Aninhas não lhe queria mal. O amante, no fundo, assegurados que estivessem os mínimos de beleza e voluptuosidade, acreditava na igualdade de géneros, nas relações assentes no diálogo, na genuidade dos sentimentos nobres, no amor, enfim. Era um bom homem, mas demasiado moderno para perceber que a sua decisão assentava em critérios de pura racionalidade. Não lhe podia explicar que já não precisava dele. Terminado o casamento, podia acabar com a relação que o sustentava. Aninhas sabia o que fazia: deitava-o ao lixo. Dispensava-o como aos sapatos com salto de vírgula que oferecia à empregada.


2011/07/21

Roda Viva



(tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.)

Afife

Não tenho dinheiro para mandar cantar um cego. Ando numa lufa-lufa, uma autêntica formiguinha, a ver se poupo o suficiente para, em Dezembro, sem grande rombo nas finanças domésticas, voltarmos à Índia. Vai sendo tempo do Joaquim conhecer a tia Maria, a preferida de Salazar, o cristo falante, os deuses crepusculares do quintal, sempre em folguedos perigosos, de penetrações fundas e posições estranhas, camuflados, parecem aranhas, muitos braços e muitas pernas, é preciso estar com muita atenção para os ver. Quero que conheça a mesa da cozinha corrida, os pratos de alumínio, as meninas da casa fazendo bolas de comida, metendo-as à boca, sorrindo. Quero que brinque no jardim de cóleos, crótons e filolendros da casa de Pondá, que me veja velha no rosto da tia Amália, no meio dos cóleos, crótons e filolendros da casa de Pondá, que faça festas aos gatos escanzelados do mercado de Margão, as peixeiras sentadas de cócoras, a saia do sari arregaçada, presa pela frente, para não se sujarem nas águas lodaçais, cheiinhas de ouro, escravas nos braços, arrecadas pesadas nos lóbulos das orelhas, cordões grossos à volta do pescoço, parecem as peixeiras de Afife, da Póvoa, da Nazaré, ser peixeira é arte universal e a aurífera ornamentação constitui em qualquer parte do mundo requisito essencial para bem se exercer a profissão. Lembro agora: quando era pequena, muito pequena, durante a primeira infância, queria ser peixeira, não me imaginava a ser outra coisa, muito menos o que hoje sou, nem sabia que podemos levar a vida assim, com cordas a prenderem-nos os pés e as mãos. Ia com a minha mãe à praça de Moscavide e especava em frente das peixeiras. Desejava ser como elas eram: poderosas. Mexer no peixe, sardinhas, carapaus, besugos, salmonetes, bicas, sentir-lhes o coração ainda a palpitar, o corpo quente, dizer assim, ainda está vivinho, depois, arrancar-lhes as tripas, o interior gelatinoso escorrendo pelas mãos, escamá-los, conversar com as freguesas, entregar-lhes a morte dentro de um saco de plástico. Se tivesse dinheiro, algum dinheiro, ia à Índia todos os anos e comprava um quadro da Armanda Passos.

2011/07/20

Teresa Torga



(mulher na democracia não é biombo de sala.)

Agualva-Cacém

O Sr. Guia está reformado há meia dúzia de anos. Sempre que vem ao serviço almoçar com a Laurentina da correspondência, sobe ao nono piso para me ver. A fugir, como quem cumpre uma obrigação, pergunta pelos filhos, pelo trabalho. Depois, a conversa é sempre a mesma: uma pena vivermos tão longe, tanto que gostava de te treinar, correr sozinha é bom, faz bem ao corpo e à alma, é assim uma espécie de bálsamo, mas não se avança, é preciso companhia para alargar a passada, para aumentar o ritmo, para não desistir, fazer repetições, aprender a respirar, se viesses correr comigo, num instantinho, te punha a correr a meia maratona. O Sr. Guia mora no Cacém, na outra ponta do burgo, é um atleta por quem tenho muita admiração. Com 67 anos, corre maratonas. Quando me vem com a conversa dos treinos, atiro-lhe sempre com a desculpa dos filhos, então o senhor não sabe que estou sozinha com três crianças, a calendarização para mim é um luxo, não tenho tempo sequer para respirar quanto mais para me comprometer, quando arranjo quem fique um bocadinho com eles, uma tia, uma prima, os avós, o pai, calço os ténis e corro. Pequeno, não é maior do que eu, muito magro, um bigodinho fino, o Sr. Guia tem uma voz antiquada, colocada, ligeiramente aguda, solta muitos ahs! Mal me calo, é com essa voz antiga que remata a conversa, ai, sua malandreca, estás é a arranjar desculpas para não treinares em condições! Acompanho-o ao elevador, pergunto-lhe pelas provas, pelos tempos, o meu interesse não é genuíno, mas gosto de lhe retribuir a generosidade e o entusiasmo.

Vem a conversa do Sr. Guia a propósito do R. que me levou os miúdos para a praia. Uma semana inteira sem os ver, os três ausentes, assim de uma assentada, não estou habituada, não sei que fazer com o tempo. Despedi-me deles e, mal virei costas, vi a solidão encostada à ombreira da porta do meu apartamento, prontinha para entrar e fazer-me companhia, oferecida, langorosa, como se estivesse sentada na sala de apresentação de um prostíbulo. Fingi não a ver e fechei-lhe a porta na cara, ainda a ouvi dizer ai, com a força, pensei eu, magoei-a no septo nasal, vulgo cana do nariz, feita de ossos moles, cartilagens alares, dói que se farta quanto batemos em algum lado. Entrei, pois, em casa, disposta a não deixar a solidão fazer de mim gato e sapato. Telefonei ao Sr. Guia a perguntar-lhe se ainda me queria treinar. Que sim, olha a pergunta, era um homem de palavra, tinha até muito gosto, que fosse ter com ele no dia seguinte, apanhas o comboio e saias em Agualva-Cacém, vou buscar-te à estação. Assim tem sido, apanho o comboio, lancho na cozinha da D. Cremilde, onde há flores de plástico, um naperão de linha mesclada em cima de uma mesa lacada, um televisor sempre ligado na tvi, como uma sandes de marmelada – é para teres energia!- e um iogurte sólido. O Sr. Guia chega com os seus calções azul, camiseta de alças, ar sério, esfregando as mãos. Saímos para correr.

2011/07/16

Correr



(15 Klm. A meia maratona de Setembro que me aguarde.)

2011/07/13

GG

Almada

Isto é um caderno-diário, narcísico e ensimesmado. Que se lixe o país, a crise, os eurobonds, a moddys e o resto. Há quem leia este caderno-diário. Há quem goste. Há quem deteste. Há quem se esteja a borrifar, atitude tão sensata. Não tem comentários porque não quero. Tem mail por uma razão simples. Gosto de receber mensagens a elogiar-me o estilo, a virulência, a dizer que bem que escrevo. Fico radiante durante dois ou três dias. Por vezes, acontece o contrário. Escrevem-me a dizer que sou pretensiosa e coisa e tal, uma sopeira armada em intelectual. Mandam-me à merda, que é coisa ultrajante.

Há que saber insultar decentemente e com veemência. Não é difícil. Eu quando insulto alguém mando-o(a) para o caralho ou para a puta que o pariu. Não é original, mas cumpre com eficácia os desígnios do insulto. Aproveito a deixa para te esclarecer: não era a tua mãe que eu insultava quanto te chamava filho da puta. Era a ti. A tua mãe, no insulto, funcionava como nada, como um instrumento para te magoar. Eu era lá capaz de insultar a tua mãe. Coitadinha. Até me deu uma prenda de Natal tão útil. Um aspirador da Bosch, metalizado, com controlo de sucção na pega do tubo. Para terminar e retomando o fio à meada, peço um favor: elogiem-me à vontade, insultem-me quando vos apetecer, mas não me mandem mensagens a oferecer o ombro, a consolar-me, a achar que sou uma desgraçada de uma mãe sozinha, deprimida, suicida. Há quem aprecie esse tipo de lambuzadelas peganhentas, com consistência de ranho e cheiro putrefacto de traques inaudíveis de velhinha (sei do que falo). Não suporto a mediania de tais sentimentos. Provoca-me brotoeja, prurido, náusea, cefaleias e taquicardia.

(Estive em Almada, durante a tarde. Vista das janelas do tribunal, a cidade mostrou-se, luminosa, quase bonita, ela que é uma cidade feia. Cheirava bem. A madeira encerada, a casa antiga, de corredores frescos e limpos. Nunca uma cidade me cheirou assim.)

2011/07/12

Gotas

Ainda tão perto de Lisboa, ali quando a auto-estrada passa por Alhandra, a cimenteira, a capela no altinho, a linha do norte marcando o fim à vila, os álamos que deitam uma sombra baça, cheia de poeira, sobre os prédios antigos, iguais aos de Moscavide e Sacavém, ali, ainda tão perto de casa, a curva do rio a ver-se, e já eu ia leve, levezinha, a bater os dedos no volante, esquecida da carraça que me chupa o sangue e deixa os vasos quebradiços, os órgãos secos, a traqueia estrangulada em muitos nós, quero respirar e não consigo. Fui e voltei. Cheguei a casa, deviam ser nove da noite, retemperada, consolada, o bem que a música me faz, é preciso tão pouco para me animar. Mal abri a porta veio a prole enrolar-se nas minhas pernas. Beijos e abraços, gotas de mercúrio, inchando até serem uma só, também gosto muito de vocês, tanto, são a luz da minha vida, o melhor que a vida me deu, o resto que se lixe, não fossem vocês, ricos amores, e já me teria lançado ao mar, num lugar de águas escuras, profundas, onde um peixe antigo, luminoso, iridescente, de fiadas de dentes fininhos, me arrancasse o corpo ao pedaços.

Virei-me para a minha mãe. Pedi-lhe para os aturar mais uma hora. Calcei uns ténis. Lá fora, a noite abafava, nem uma brisa se levantava do rio, era uma noite de verão, estática, andavam as tainhas mais moles do que é costume, nadando aos círculos que o cerebelo carregado de nafta e gasolina deixa-as muito estúpidas, vinham com a cabeça à tona para olhar com os seus olhos amarelos as estrelas e a lua. Não se via ninguém. Passei apenas por um homem grisalho que passeava um cão minúsculo e levava pelas costas uma mochila das jornadas peninsulares de psiquiatria. Atrasei o passo. Corri durante uma hora. Voltei a casa. Despediu-se a avó. Tomei banho. Deitei-me. Olhei a secretária e o computador. Lembrei-me dos meus propósitos, tão boas as minhas intenções, agora que ninguém me reclama, agora que ninguém me cansa, hei-de escrever todas as noites, um bocadinho de lixo todas as noites. Não custa nada. Até ter um lixo de muitas páginas. Apaguei a luz. Mal a escuridão entrou no quarto, pensei em mamas, rabos, pénis muito tesos ejaculando para dentro de bocas. O orgasmo veio fácil, em meia dúzia de segundos, numa vertigem, sem esforço, uma coisa sem jeito nenhum, sensaborona, aguada, desoladora, profundamente triste.

Adormeci. Às três da manhã, bradou o mais pequeno. Preciso de ti, disse e subiu à minha cama com o coelho Botelho na mão. Primeira gota. Às quatro da manhã, veio a do meio, vestia uma camisa de noite cheia de anémonas, tão frágil, tão delicada, a minha filha, como uma gota de água. Tive um pesadelo contigo e com o pai, explicou. Fica, meu amor, que a noite não silencia os medos, nunca a escuridão os apazigua. Segunda gota. Às cinco da manhã, chegou o mais velho, um cristo cigano, sem dizer uma palavra, dormia ainda, dormia de olhos muito abertos, trazia o corpo fluído de prata. Ocupou na cama o lugar do pai. Terceira gota. Adormeci a um canto, meio corpo de fora, caindo para um abismo de espinhos e névoas. Acordei de madrugada, chilreavam os pardais e os melros nas árvores da praça, piu, piu, piu, piu, um frenesim matinal muito bom. O mais novo despertou com o alarido dos pássaros. Galgou o corpo da irmã e livrou-me do precipício. Beijou-me e adormeceu.

2011/07/02

2011/06/29

Under My Thumb

Armários Vazios

Dora Rosário tinha 38 anos. A filha descrevia-a como uma mulher sem idade e sem solução.

2011/06/27

Havana

Almoço na esplanada do centro budista da rua D. Estefânia. Tenho por companhia a única amiga da faculdade que me resta. As outras, fui-as perdendo à medida que fui tendo filhos. Um gato preto espreguiça-se, molengão, por baixo de um estendal de roupa velha, esgaçada pelo uso. Ao fundo, as ruínas de um edifício austero, um asilo, um hospício, erguem-se como um gigante furioso. Lembro o sonho desta noite. Voltei a sonhar com a minha morte. Fico ao corrente da vida de quem não me interessa. Gente que não vejo há quinze anos. Tomo consciência de que, do grupo da faculdade, fui a primeira a separar-me. Serei, porventura, por enquanto, a única. Essa vantagem conforta-me. Entre outras coisas, fico a saber que um dos meus pretendentes da faculdade - tive dois: um, socialista, pouco asseado, porco mesmo, patologicamente mentiroso; o outro, conservador, dado a fados, touros e putas - é um homem de sucesso. Acaba de comprar o seu primeiro carro de luxo, um porshe, e está a ponderar comprar uma casa em Havana por apreciar a vida nocturna, os mojitos e daiquiris, as mulheres que se compram. Emociona-se com a decadência do socialismo cubano. Ainda não sei muito bem o que sentir em relação a isto. O que sinto em relação a isto? Não sinto nada. Não sinto sequer nojo ou alívio. Dispenso o porshe e a casa em Havana. O que quero é um homem com sentido de humor.

(Por que é que as mulheres, quando instadas a se pronunciar sobre as qualidades que apreciam no sexo oposto, afirmam que o que procuram é um homem com sentido de humor? Que utilidade tem um homem com sentido de humor? Para que serve? A maior parte das mulheres raia a imbecilidade. Eu, quando quero rir, escuto a Maria de Medeiros cantar, oiço as entrevistas do João Marcelino ou leio as análises do António Perez Metelo.)

2011/06/25

Subúrbios



(Meti um anúncio no jornal e ninguém respondeu.)