Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2011/09/11
Aninhas
2011/09/07
2011/09/06
Aprendiza
2011/09/04
Cova do Vapor
2011/08/31
Nível
Rapaz
Antes das férias, por exemplo, andou de volta dos clássicos russos. Numa semana – uma semana tem apenas sete dias – vi-o de roda de dois romances do Dostoievsky e do mais longo romance do Gogol. Como se pode despachar numa semana três obras-primas da literatura universal, duas densas, a outra divertida, mas todas merecedoras de tempo? Tamanha imaturidade irritou-me. Foi por causa do rapaz das arcadas, do seu modo de ler, imberbe, que decidi também levar um russo para as férias. Escolhi o Turgueniev. Gostei moderadamente do livro. Já estava farta do niilismo e da misoginia do tal Bazarov. Sou, sempre fui, pelo triunfo da emoção sobre a razão. Podia ter lido livro em menos noites. Porém, li-o devagar, poucas páginas de cada vez, uma leitura prolongada, preguiçosa, propositadamente indolente. Só para fazer pirraça ao rapaz das arcadas.
2011/08/29
Saramago (2)
Não sei explicar por que razão, passados tantos anos, recordei, com detalhe, este episódio enquanto assistia ao documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Talvez fosse apenas o sul a chamar por mim. Quando desliguei a televisão e o silêncio se instalou pensei assim: afinal gosto deste homem. No dia seguinte, partilhei o entusiasmo com a minha irmã. Gozou-me, como sempre faz, soltou uma casquinada valente, e disse qualquer coisa do tipo ó mana, és tão inconstante. A conversa é sempre a mesma. A minha inconstância é um axioma familiar. Ultrapassada a questão ideológica, a minha irmã percebeu que apenas a sordidez da vidinha privada podia reavivar o meu desprezo pelo Saramago. Então tu não sabes que ele batia na primeira mulher?, atirou ela com uma ponta de maldade, sabendo que poucas coisas me revoltam mais do que homens que batem em mulheres. Deves ser completamente louca, disse, e acabei, naquele preciso instante, a conversa, desligando-lhe o telefone na cara. Engoli em seco e meti O Ano da Morte de Ricardo Reis na mala de viagem. Livro extraordinário. Descoberta tão boa na frescura da noite alentejana. Li-o com espanto, deliciada, feliz por o estar a ler. Fiz listas de palavras. A minha filha quis saber por que é que, volta e meia, sublinhava o livro. Estou a caçar palavras, em cada página, caço uma palavra, expliquei e pusemo-nos a olhar a caçada.
Ainda não tirei a limpo se o Saramago batia ou não na primeira mulher. Não quero saber. Reconheço a sensatez dos que dizem que interessam os livros, não os escritores, interessa pouco aquilo que pensam sobre o mundo, é irrelevante a sua vida privada. Fossemos nós, leitores, à procura, em quem lemos, de exemplos de vida, heroicidade, liberdade, valores sólidos, e ficávamos à míngua, sem nada para ler. Está tudo muito bem. É assim mesmo que deve ser. E, no entanto, foi a descoberta da intimidade, a dança das rotinas diárias, a partilha de um amor maior que a vida, essa extraordinária capacidade de encontrar o sagrado nos gestos profanos, banais e indignos, que me levou a ler um escritor, por mim, há muito, proscrito.
Saramago (1)
Mas a vida, como se costuma dizer, é uma caixinha de surpresas e, quando menos esperamos, apanha-nos desprevenidos. Até as embirrações mais sólidas, que julgávamos de pedra e cal, enterradas no fundo do nosso ser, se vão embora. Aconteceu-me este verão. Precisamente com o Saramago. Apanhada de surpresa, numa noite vazia, de angústia leve, dormiam os miúdos, dei comigo a ver o documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Passava no segundo canal. Escutei a voz do escritor, vi o medo da morte dentro dos seus olhos, enterneci-me com a sua figura frágil, e lembrei o meu avô José, que não foi serralheiro mecânico, mas carpinteiro. Foi então, enquanto via o documentário, que lembrei um episódio esquecido da infância.
2011/07/25
Femmes Infidèles
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles.
(Volto em Setembro.)
I-Phone
Quarenta Anos
Aninhas pensara durante a tarde. Nenhuma justificação lhe pareceu razoável, suficientemente plausível para acabar com aquela relação que pouco exigia e nada deixaria. Na penumbra do escritório lembrou-se então da frase que encontrara nessa manhã escrita na base da estátua na praça central da cidade. Discou o número da casa do amante. Já não te amo, Rui, disse-lhe com clareza, antes que ele pudesse cumprimentá-la. Era uma frase curta. Dita de supetão, não lhe exigia grande fingimento ou dissimulação. Porém, de tão absurda, ao dizê-la, teve vontade de soltar uma gargalha pequena. Coibiu-se, porém. Pressentia que o amante sofria do outro lado da linha. Talvez chorasse quando desligasse o telefone. Dificilmente encontraria nos corredores da faculdade uma mulher como Aninhas. Costumava desabafar, nas horas clandestinas que passavam no apartamento de marquises de alumínio, que as colegas cultivavam uma feminilidade esclarecida. Eram, mais coisa, menos coisa, uns estafermos. Não tiravam o buço e, no tempo quente, usavam vestidos pingões que mostravam corpos macilentos. Aninhas não lhe queria mal. O amante, no fundo, assegurados que estivessem os mínimos de beleza e voluptuosidade, acreditava na igualdade de géneros, nas relações assentes no diálogo, na genuidade dos sentimentos nobres, no amor, enfim. Era um bom homem, mas demasiado moderno para perceber que a sua decisão assentava em critérios de pura racionalidade. Não lhe podia explicar que já não precisava dele. Terminado o casamento, podia acabar com a relação que o sustentava. Aninhas sabia o que fazia: deitava-o ao lixo. Dispensava-o como aos sapatos com salto de vírgula que oferecia à empregada.
2011/07/21
Afife
2011/07/20
Agualva-Cacém
Vem a conversa do Sr. Guia a propósito do R. que me levou os miúdos para a praia. Uma semana inteira sem os ver, os três ausentes, assim de uma assentada, não estou habituada, não sei que fazer com o tempo. Despedi-me deles e, mal virei costas, vi a solidão encostada à ombreira da porta do meu apartamento, prontinha para entrar e fazer-me companhia, oferecida, langorosa, como se estivesse sentada na sala de apresentação de um prostíbulo. Fingi não a ver e fechei-lhe a porta na cara, ainda a ouvi dizer ai, com a força, pensei eu, magoei-a no septo nasal, vulgo cana do nariz, feita de ossos moles, cartilagens alares, dói que se farta quanto batemos em algum lado. Entrei, pois, em casa, disposta a não deixar a solidão fazer de mim gato e sapato. Telefonei ao Sr. Guia a perguntar-lhe se ainda me queria treinar. Que sim, olha a pergunta, era um homem de palavra, tinha até muito gosto, que fosse ter com ele no dia seguinte, apanhas o comboio e saias em Agualva-Cacém, vou buscar-te à estação. Assim tem sido, apanho o comboio, lancho na cozinha da D. Cremilde, onde há flores de plástico, um naperão de linha mesclada em cima de uma mesa lacada, um televisor sempre ligado na tvi, como uma sandes de marmelada – é para teres energia!- e um iogurte sólido. O Sr. Guia chega com os seus calções azul, camiseta de alças, ar sério, esfregando as mãos. Saímos para correr.