Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2011/09/28
Acesso Bloquesdo
Beleza
Elevador
2011/09/22
Enfant
2011/09/21
Aninhas e o desejo
2011/09/15
2011/09/14
Aravind Adiga
2011/09/13
Grau
A graduação é um método prático, muito comum, mas, quase sempre, de difícil execução. Um grau mede a intensidade, a força de alguma coisa. Os parâmetros que se utilizam para atribuir determinado grau, mais ou menos intenso, têm de ser claros, previamente estabelecidos. Isto de medir a sexualidade de alguém não é nada fácil, mas a graduação proposta pela associação portuguesa de canonistas é demasiado confusa e imprecisa para ser levada a sério. Li a notícia e fiquei com tantas dúvidas. Como se distingue um exclusivamente homossexual de um predominantemente homossexual? De que serve a distinção se os efeitos são os mesmos? Ser predominantemente homossexual não implica ser acidentalmente heterossexual? Para quê o detalhe da distinção? E a intensidade do grau mede-se apenas em função das práticas sexuais ou também do desejo sexual não concretizado? E por que razão é que só os acidentalmente homossexuais podem, mediante voto de castidade, ser considerados aptos ao desempenho das funções matrimoniais? Por que se nega essa tábua de salvação aos predominantemente homossexuais? Até um exclusivamente homossexual, devoto, fiel nas suas convicções, obediente aos dogmas da sua fé, pode fazer um voto de castidade, renunciar àquilo que é, calar a vontade e o desejo, passar a ser apenas uma sombra, um espectro de olhos cegos, dedos queimados, capaz, no entanto, de vez em quando, com esforço e empenhamento, de se dar para cumprir os desígnios de procriação do casamento.
Estes assuntos não são fáceis. Não é simples graduar a sexualidade das pessoas, até porque – é a minha ignorante opinião - não há ninguém exclusivamente homossexual ou exclusivamente heterossexual. A ser alguma coisa, a ser essencial a classificação, de duas uma, ou somos predominantemente heterossexuais ou predominantemente homossexuais. A predominância não nega a liberdade do desejo, não impõe a prisão das certezas. Acho, por exemplo, que a maior parte das mulheres predominantemente heterossexual é acidentalmente homossexual. Podem nunca ter tido práticas sexuais com outras mulheres, não querem tê-las, mas constroem o desejo e a excitação a partir do corpo das outras mulheres.
Depois, não se percebe esta embirração da igreja em relação à homossexualidade que não é doença, nem distúrbio, nem desvio, mas opção livre que merece respeito cristão. Tanta genuína perversão por aí, tanta parafilia interessante para abordar, e só a aborrecida homossexualidade merece atenção. É injusto para os coprófilos, para os necrófilos, para os zoófilos, para os pedófilos, enfim, para os parafilos em geral. Uma coisa boa, porém, resulta da notícia do Público. Lendo-a, percebemos que, em relação às capacidades intelectuais dos canonistas da associação portuguesa de canonistas, deus, nosso senhor, poupou-nos à incerteza e à duvida, a questão do grau não se coloca: são exclusivamente cretinos, acidentalmente parvalhões, predominantemente idiotas.
2011/09/11
Aninhas
2011/09/07
2011/09/06
Aprendiza
2011/09/04
Cova do Vapor
2011/08/31
Nível
Rapaz
Antes das férias, por exemplo, andou de volta dos clássicos russos. Numa semana – uma semana tem apenas sete dias – vi-o de roda de dois romances do Dostoievsky e do mais longo romance do Gogol. Como se pode despachar numa semana três obras-primas da literatura universal, duas densas, a outra divertida, mas todas merecedoras de tempo? Tamanha imaturidade irritou-me. Foi por causa do rapaz das arcadas, do seu modo de ler, imberbe, que decidi também levar um russo para as férias. Escolhi o Turgueniev. Gostei moderadamente do livro. Já estava farta do niilismo e da misoginia do tal Bazarov. Sou, sempre fui, pelo triunfo da emoção sobre a razão. Podia ter lido livro em menos noites. Porém, li-o devagar, poucas páginas de cada vez, uma leitura prolongada, preguiçosa, propositadamente indolente. Só para fazer pirraça ao rapaz das arcadas.
2011/08/29
Saramago (2)
Não sei explicar por que razão, passados tantos anos, recordei, com detalhe, este episódio enquanto assistia ao documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Talvez fosse apenas o sul a chamar por mim. Quando desliguei a televisão e o silêncio se instalou pensei assim: afinal gosto deste homem. No dia seguinte, partilhei o entusiasmo com a minha irmã. Gozou-me, como sempre faz, soltou uma casquinada valente, e disse qualquer coisa do tipo ó mana, és tão inconstante. A conversa é sempre a mesma. A minha inconstância é um axioma familiar. Ultrapassada a questão ideológica, a minha irmã percebeu que apenas a sordidez da vidinha privada podia reavivar o meu desprezo pelo Saramago. Então tu não sabes que ele batia na primeira mulher?, atirou ela com uma ponta de maldade, sabendo que poucas coisas me revoltam mais do que homens que batem em mulheres. Deves ser completamente louca, disse, e acabei, naquele preciso instante, a conversa, desligando-lhe o telefone na cara. Engoli em seco e meti O Ano da Morte de Ricardo Reis na mala de viagem. Livro extraordinário. Descoberta tão boa na frescura da noite alentejana. Li-o com espanto, deliciada, feliz por o estar a ler. Fiz listas de palavras. A minha filha quis saber por que é que, volta e meia, sublinhava o livro. Estou a caçar palavras, em cada página, caço uma palavra, expliquei e pusemo-nos a olhar a caçada.
Ainda não tirei a limpo se o Saramago batia ou não na primeira mulher. Não quero saber. Reconheço a sensatez dos que dizem que interessam os livros, não os escritores, interessa pouco aquilo que pensam sobre o mundo, é irrelevante a sua vida privada. Fossemos nós, leitores, à procura, em quem lemos, de exemplos de vida, heroicidade, liberdade, valores sólidos, e ficávamos à míngua, sem nada para ler. Está tudo muito bem. É assim mesmo que deve ser. E, no entanto, foi a descoberta da intimidade, a dança das rotinas diárias, a partilha de um amor maior que a vida, essa extraordinária capacidade de encontrar o sagrado nos gestos profanos, banais e indignos, que me levou a ler um escritor, por mim, há muito, proscrito.
Saramago (1)
Mas a vida, como se costuma dizer, é uma caixinha de surpresas e, quando menos esperamos, apanha-nos desprevenidos. Até as embirrações mais sólidas, que julgávamos de pedra e cal, enterradas no fundo do nosso ser, se vão embora. Aconteceu-me este verão. Precisamente com o Saramago. Apanhada de surpresa, numa noite vazia, de angústia leve, dormiam os miúdos, dei comigo a ver o documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Passava no segundo canal. Escutei a voz do escritor, vi o medo da morte dentro dos seus olhos, enterneci-me com a sua figura frágil, e lembrei o meu avô José, que não foi serralheiro mecânico, mas carpinteiro. Foi então, enquanto via o documentário, que lembrei um episódio esquecido da infância.
