Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2011/10/10
Abas Largas
Devia ter oito ou nove anos. Pedalava sozinha pelo caminho do moinho quando uma mulher da aldeia meteu conversa comigo. Vinha dos campos, trazia uma bata de trabalho e um chapéu de abas largas que lhe escondia parte do rosto. Queria saber quem eu era. Parei a bicicleta e expliquei-lhe que era neta da vizinha Felicidade que vivia na casa da barra amarela. “Ah, és a filha do indiano retornado!”, disse a mulher com assumido despeito na voz, marcando a diferença, impondo entre nós um fosso intransponível. Não sabia o exacto significado da palavra retornado. Sabia apenas que era uma palavra terrível. Provocava em minha casa discussões e lágrimas. Às vezes, a palavra saía da boca da minha tia; outras vezes, escutava-a na boca do meu pai. Sendo a mesma palavra, parecia ter diferentes significados consoante fosse dita pela minha tia ou pelo meu pai. Talvez por isso, por essa versatilidade, eu não fosse capaz de lhe precisar o significado. Porém, mesmo não sabendo exactamente o que significava ser retornado, não quis naquela tarde ser a filha do indiano retornado. Tive vergonha de o ser, pressenti, pelo tom de voz da mulher, que era motivo de humilhação. “Não sou filha do retornado”, respondi e desatei a pedalar pelo caminho de terra batida, as silvas moendo-me as pernas, todos os bichos morrendo à minha passagem. Quando cheguei ao cimo da colina, olhei a aldeia branca, tão pura. Cá em baixo, no caminho, a mulher ficou rindo nas minhas costas. Eu vivia na sombra mágica da tia Dé, comunista, tão doce, mostrava-me livros, canções, falava de coisas bonitas, igualdade e liberdade. Ignorava o meu pai austero, magoado, revoltado, assumidamente salarazista. Desprezava-o, até. Foi nessa tarde, no cimo da colina do moinho, que comecei a ser filha do meu pai, a querer-lhe bem, a amá-lo de uma maneira absoluta que é a única maneira de o amar.
(maravilhosa, por ser íntima e pessoal, a crítica que o João Bonifácio escreveu ao livro da Dulce Maria Cardoso. Li-a na linha vermelha, interrompida durante muito tempo por causa de um homem que se atirou na estação de Arroios. Não fora o homem se atirar à linha e eu não teria encontrado tempo para ler a crítica do João Bonifácio e lembrar o amor que tenho ao meu pai. Encadeamento estranho da vida.)
(maravilhosa, por ser íntima e pessoal, a crítica que o João Bonifácio escreveu ao livro da Dulce Maria Cardoso. Li-a na linha vermelha, interrompida durante muito tempo por causa de um homem que se atirou na estação de Arroios. Não fora o homem se atirar à linha e eu não teria encontrado tempo para ler a crítica do João Bonifácio e lembrar o amor que tenho ao meu pai. Encadeamento estranho da vida.)
2011/10/06
Bomba Relógio
Dois copos de vinho verde, bailarico na cozinha, o João a espreitar e a dizer "és tão bonita, mãe".
Poliedro
O homem diz que me vejo como um deserto. Vazia de tudo, crio miragens para me iludir, que engano os outros, falsificando-me. Ele a falar, eu a fugir-lhe, a fixar-me na jarra com hera que está em cima da secretária, a sentir-me de pechisbeque, feita de ouro falso, um halo dourado por fora, uma liga qualquer esverdeada, com cor de bolor, de humidade, por dentro. Remata, dizendo, que tenho uma personalidade caleidoscópica, que se multiplica, adequa, desvirtua com o intuito de se esconder. Utiliza outra palavra. Prismática. Enquanto ele fala penso numa palavra de que gosto muito. Poliedro. Termino cansada, corpo dorido, como se me tivessem dado uma sova. Quero fugir lá para fora, ver os melros e as prostitutas, feias e gordas, que se exibem no crepúsculo lilás do parque. Olhar para fora. Para não olhar para dentro.
2011/10/05
Asno de Ouro
O rapaz das arcadas anda a ler um livro da Herta Muller. Finjo não o ver quando me aparece pela frente, cigarro ao canto da boca, a afrontar o meu pedantismo literário. Também nunca li a Herta Muller. E não quero. Entretanto, continuo sem vontade de ler e, ontem, fui, tão regalada, durante a viagem de regresso a folhear uma revista que falava das orgias do José Castelo Branco. Não tarda nada, temo, crescer-me-ão unhas quadrangulares que pintarei de cores fortes. Os únicos livros que tenho levado para a cama são os do Milo Manara. Depois do orgasmo chegar, ainda com a respiração acelerada, narinas dilatadas, atiro os livros para cima da estante. Não quero que o João os encontre. Não estou preparada para a primeira ejaculação do meu filho.
Linda de Suza
Só um desprezo grande pelas mulheres pode levar a que, em vez da fotografia da Dulce Maria Cardoso, entrevistada pelo Carlos Vaz Marques, apresentada como tendo escrito o primeiro grande romance sobre os retornados, ponham na capa a mala de cartão da Linda de Suza. A capa da revista de Outubro não consegue ser tão má como a de Setembro, que bem podia ter a fotografia do Mário Cláudio, mas anda lá perto. Desde que a revista voltou com edição mensal, já lá vai um par de anos, ou mais, que me lembre, apenas três mulheres mereceram ser capa da Ler: a Margarida Rebelo Pinto - ao que consta, inexistente literariamente -, a Agustina Bessa Luís e a Lídia Jorge. Entre a misoginia pura e dura, a homossexualidade reprimida e experiências traumáticas com mães sexualmente abusadoras, alguma coisa explicará as opções da revista ler.
2011/10/03
Certeza
Não é que não goste de Portugal, mas nem a luz de Lisboa me encanta, nem a Amália me emociona, não gosto de pastéis de Belém, nem de desfiada de bacalhau, irritam-me os corações de filigrana e as santinhas flourescentes que se vendem nas lojas da Catarina Portas. Sinto desprendimento na despedida e indiferença no regresso. Gostar a sério, no sentido de pertença, de precisar de um lugar e das pessoas que nele habitam, gosto daquele bocadinho de país que vai de Santiago do Cacém até Sines e, na cidade, daquele outro pedaço de terra que se levanta em desordem e feiura e se estende pela Portela de Sacavém, Olivais e Moscavide. Lá diz o cantor: sou do mundo e sou da cama dos meus pais. Não fora o fardo do amor, educar, alimentar, promover o saudável convívio com a família materna e paterna, e teria fugido para o outro lado do mundo. Ia cuidar dos arrozais de Maina, beber kingfishers pelo crepúsculo, sentir no corpo a luz que atravessa as janelas de carepa, escutar o Rafael falar no alpendre da sua casa, no meio das jaqueiras com bócio.
Mas, mesmo não muito gostando muito de Portugal, mesmo não sentido cá dentro o amor pela pátria, me incomoda a quantidade de pontapés e murraças que se têm dado a este país. Cansa tanta irresponsabilidade, tanta pouca-vergonha. Olhando para trás, para o passado recente, é inevitável perguntar: foi preciso chegar a este ponto para tomar as decisões que há muito precisavam de ser tomadas? Durante todos estes anos, com sucessivos governos, ninguém notou que o país se afundava? Muita gente viu, muita gente soube, ninguém esteve para se chatear. Um - assim se demonstra o disparate da sua governação - criou um ministério para a igualdade cuja essencialidade se provou com a extinção assim que a titular da pasta se cansou da luta; outro, tão cobardolas, preferiu fugir para a comissão europeia, pondo a vaidade pessoal à frente do compromisso com os eleitores; o seguinte, valha-nos deus, não teve tempo para mostrar a sua incompetência; o último foi um caso patológico de megalomania e mitomania. Assim vamos andando.
Porém, pior do que as dúvidas em relação ao passado são as certezas em relação ao futuro. No meio de tudo isto, confusão, angústia, da revolta que tarda em chegar, chega-nos a certeza de que, assim que existir uma folgazinha, assim que sobrarem meia dúzia de tostões para gastar, assim que se deixar de sentir o controlo de quem nos empresta dinheiro, voltará tudo ao mesmo. Ainda muitas rotundas se hão-de construir em Portugal.
2011/10/02
Rio
Passam velozes, solitários, como se fossem gazelas ou lebres, ou bafejando em manada, touros, bisontes, bois almiscarados. Um rapaz negro corre por cima do muro que separa o parque do rio. Movimenta-se na perfeição. Os homens correm com elegância, com passadas largas e pesadas, fazem estremecer o rio, espantam gaivotas, mergulhões, flamingos. Já as mulheres, as poucas que por ali andam, correm mal. Terão certamente corrido em meninas; desaprenderam, depois. Metem os pés para fora. Enrijecem os braços, não sabem o que lhes fazer. Abanam a cabeça como se fossem cães articulados, daqueles que, entre almofadas de renda, se colocam na parte de trás dos automóveis. Bufam como vacas. Quando são gordas, abanam as mamas, as carnes flácidas, largam uma gordura quente e amarela que se espalha por todo o lado. Um homem gordo corre como um touro, um rinoceronte, um elefante até. Uma mulher gorda corre como uma perua imensa, soltando gorgolejos insuportáveis. Glu-glu-glu-glu. Por vezes, tento imitar os homens-lebre. Acelero o ritmo. Corro mais depressa. Desisto pouco depois. Corro o risco morrer junto ao rio. Nunca serei uma lebre. Sou uma tartaruga. Vagarosa, tão velha. Corro com passos pequeninos de bicho antigo, mas chego sempre à meta.
2011/09/30
2011/09/28
Acesso Bloquesdo
Amo o Sérgio Godinho. Amo-o com um amor antigo e intenso. Lembro-me de escutar o Barnabé na aula de português da professora Maria dos Anjos, no ciclo, e sentir um arrebatamento e um deslumbre. Fui crescendo e fui descobrindo as suas canções. Conheço-as de cor e só não gosto do Fugitivo e da Canção da Velha Mãe. Se o Sérgio Godinho quisesse, casava-me com ele e cuidava dele na velhice que vem chegando. Perdoo-lhe tudo, até o facto de ter escrito canções para todas, Etelvinas, Carolinas, Paulas, Fátimas, Alices, e nunca ter escrito para as Anas desta vida (a Valsa da Ana não conta por razões óbvias). Aos vinte anos, odiava a Sheila e todas as legítimas que teve. Embalei os meus filhos a cantar as suas canções. A minha filha sabe de cor a Etelvina e anda a aprender o 2º andar, Direito. O Joaquim pede a Maré Alta, o Charlatão e o Coro das Velhas. O João finge que já não gosta das suas canções e eu permito-lhe esse fingimento. Os três gozam descaradamente comigo quando me vêem amarinhar pelo sofá para dar beijinhos às fotografias dele que estão penduradas na parede. Quando estou triste, acontece muitas vezes, a minha filha põe-no a cantar na cozinha e o meu coração alegra-se. Eu tenho a vida partida em mil pedaços, cola-a tu com dois abraços. Nunca serei capaz de amar um homem como amo o Sérgio Godinho. É um amor absoluto, inquestionável, perfeito, um amor de menina que nunca amadureceu. É por tanto o amar, tanto dele precisar, tanto o querer, que não tecerei nenhum comentário ao novo disco. Acesso bloqueado.
Beleza
A tia Dé odeia a Joana Amaral Dias. Quando a vê, empertigada, decotes generosos, camisolas justas, disfarçadamente penteada e maquilhada, cerra os punhos em direcção ao televisor e põe-se a rosnar baixinho, a arremedá-la, o desprezo é tanto que lhe toma conta do corpo, ganha uma cor estranha, entre o vermelho e o cinzento, e, por vezes, faz-lhe chocalhar a dentadura. Anda esta mulher a defender os trabalhadores! Tira essa tipa daí! e arranca-me o comando das mãos para mudar de canal. A tia Dé é uma comunista transviada, andou perdida de amores pelo Sócrates, mas já se arrependeu. Acha que a beleza é um atributo burguês, desnecessário, predicado ardiloso, dispensável, a moda é fascizante e os artifícios da maquilhagem não se compadecem com a luta das mulheres operárias. Nunca usou rímel, saltos altos, batons de cores vivas, verniz, raramente vai ao cabeleireiro. Em seu entender, as mulheres bonitas, sobretudo, as de esquerda, deviam mascara-se de feias. Não tenho dúvidas de que a tia Dé, se a escutasse, no geral, concordaria com os comentários da Joana Amaral Dias. Na verdade, a única coisa que amofina a minha tia é a beleza da outra, sobretudo, o descaramento de a mostrar e fazer uso dela. Curiosamente, é a única coisa que eu aprecio na Joana Amaral Dias.
Elevador
O rapaz das arcadas subiu comigo no elevador. Vinha com o cabelo ainda molhado e cheirava a manhãs de chuva, a mar, a tempestades, a coisas boas, sei lá ao que cheirava o rapaz das arcadas, só sei que cheirava bem e pronto. A semana passada andava a ler o Don de Lillo. Hoje, pela manhã, trazia um livro do Philip Roth. Nunca li nada do primeiro e aborreceu-me o segundo. Gosto do rapaz das arcadas - é um consolo ter um leitor na nossa vida, mesmo que seja um desconhecido de sapatilhas all star-, mas o seu entusiasmo literário faz-me sentir velha. Já não sou capaz de ler assim. Ando há quatro semanas de volta de um livro de contos da Alice Munro e não me importo. Não tenho vontade de ler. A culpa não é da escritora, é minha que ando em maré de postergar, só me apetece correr, mais nada. Forço-me à leitura. Leio uma ou duas páginas antes de adormecer. Se não coloquei ainda o livro da Alice Munro de lado foi por solidariedade com a classe dos contistas. Tenho admiração sincera por quem, tendo uma escrita exímia, opta por ser contista. Já percebi, já mo explicaram, que os contistas são uma classe menor no universo literário. Tolerados, mas não amados. Não se lêem e não se vendem. Ninguém quer ser contista. Os frequentadores de oficinas de escrita criativa (que se aprenderá em tais lugares?) e os aspirantes a escritores querem ser romancistas. A consagração, as vendas, as entrevistas, as cintas a anunciar segundas edições, os prémios, enfim, o sucesso, só chega para os romancistas. A opção, porém, parece-me tão arriscada. É que não é difícil ser um bom contista. A brevidade potencia a agudeza literária, em meia dúzia de páginas conta-se uma história, fixa-se um momento, não se aborrece ninguém, apresenta-se uma personagem, a contingência traz certo brilho às palavras. Pelo contrário, é tão fácil ser um mau romancista. Tenho a sensação de que muitos autores publicados poderiam ser bons contistas, mas preferem ser maus romancistas.
2011/09/22
Enfant
Nove bailarinos e um grupo de crianças movimentam-se num palco escuro que lembra a noite. A princípio, os corpos das crianças são transportados, manipulados, atirados, como se não fossem gente. São apenas objectos. Depois, ganham autonomia, vontade própria. Gostei pouco do espectáculo do Boris Charmatz. A minha filha, companheira forçada destas andanças, também, pobrezinha, que bem lhe vi os olhos muito abertos. Ao olhá-la, esqueci a desilusão recente, por mim não assumida, quando me anunciou a decisão de desistir do violino. Até me deu uma pontada, ai que me partes o coração, malandra, mas não dei parte de fraca. Não me importo, disse-lhe, ora essa, claro que não me importo, tu é que decides, se gostas mais da ginástica, deves optar pela ginástica, mas espero que sejas uma Olga Korbut, uma Nádia Comaneci, a melhor, campeã disto e daquilo, quero uma parede cheia de medalhas e troféus; acautela-te, porém, avisei-a, que tantas horas de treino diário te podem dar cabo do corpo, acabas triangular, dorso largo e masculino, sem mamas, sem rabo, atarracadinha como uma anã.
2011/09/21
Aninhas e o desejo
Dada a sua condição, corpo adormecido, meio morto, meio vivo, Aninhas pensava frequentemente no desejo e no prazer. Formara sobre esse assunto uma opinião empírica, que prescindia de análises comparativas, divagações desnecessárias, filosofias profundas; assentava apenas na sua vivência pessoal, nos homens que conhecera, nos casos que tivera, nas marcas que essas relações lhe iam deixando no corpo. Era uma análise sem grande préstimo, pressentia-o, na medida em que não servia para os outros. Tratava-se de uma teoria simples que se adequava à sua vida, explicava as suas atitudes, poupava-a à dor e humilhação. Tal teoria, que carregava dentro de si e que aprofundava, com vagar, nos tempos mortos, filas de trânsito, reuniões de turma dos filhos, salas de espera dos consultórios médicos, assentava na primazia do desejo sobre o prazer. Aninhas atribuía uma importância fundamental ao desejo, à capacidade de querer esmagar um corpo, uma boca, duas mãos, a curva de uma perna, o repouso de um ombro. Era o mais importante. Não se podia viver sem desejo. Encarava o prazer, pelo contrário, como coisa menor, um arrepio que chega, mata, desilude, rapidamente se esquece. O desejo era literário, o prazer simplesmente pornográfico. Era uma teoria que lhe convinha. Aninhas, gostando de literatura e de pornografia, sabia que podia viver sem o detalhe cirúrgico da pornografia, mas acabaria por definhar, mirrando até desaparecer, sem a liberdade da literatura.
2011/09/15
2011/09/14
Aravind Adiga
Acabei de ler o último livro do Aravind Adiga. Tive a Índia de volta à minha vida durante quinze dias. Cada um mata as saudades como pode e um livro é coisa boa para matar saudades. Encontrei lugares, pessoas, palavras. Bhel puri, idlis, chai, dosa, laque, salwar, gulab janum, seve, bandra, vakola. Voltei a Andheri West onde vive a minha prima Melinda numa torre igualzinha à cooperativa Vishram do livro, hindus moderados, jainistas, muçulmanos, católicos, as portas dos apartamentos escancaradas de par em par, toda a gente vivendo numa harmonia frágil que se estilhaça ao primeiro tremor ou desacato. Estive de novo em Juhu Beach, a Dá, de t-shirt amarela, voltou a pintar as mãos com hena, o meu pai voltou a regatear o preço da pintura, a mulher voltou a franzir-se com a avareza do meu pai, o João continuou lá atrás mordiscando uma maçaroca frita. Recordei a minha tarde sozinha em Bombaim, ficaram os miúdos a dormir a sesta com o meu pai, andei pelos mercados de rua, labirínticos, se me perco nesta cidade, ninguém me encontra, comprei goiabas, pulseiras de vidro, um sari branco, saiote e tudo, barato, tecido de fraca qualidade, mas branco, tanto que eu queria um sari branco. Comprei também vários saquinhos de bombay duck, não sei por que se chama assim, não é pato, como lhe chamam, nem peixe, como parece, é lagarto seco, envolto numa masala cor-de-laranja, picante, muito malcheirosa, come-se às tirinhas, frito em pouco óleo. É o meu petisco preferido quando acordo, de madrugada, com fome. Espalha-se o cheiro pelo apartamento, entranha-se nos tecidos e nas paredes, refilam os miúdos de manhã, é que não se aguenta o cheiro, dizem, olho-os de viés, tão europeus, pálidos, imaculados.
2011/09/13
Grau
A associação portuguesa de canonistas analisou o grau de homossexualidade necessário para anular um matrimónio. A notícia vinha no jornal. Explica a referida associação que a declaração de nulidade de um casamento católico, no qual um dos cônjuges é homossexual, depende do «grau» em que a sua homossexualidade se encontra. Só no caso de um dos cônjuges ser predominantemente homossexual, acidentalmente heterossexual ou exclusivamente homossexual se poderá, após perícia psiquiátrica que assim o ateste, declarar a nulidade de um casamento católico. Se um dos cônjuges for, pelo contrário, predominantemente heterossexual, acidentalmente homossexual ou exclusivamente heterossexual, não existe causa de nulidade. O cônjuge acidentalmente homossexual, querendo, está apto a desempenhar e a concretizar o fim do matrimónio. Deve, no entanto, renunciar, através de voto de castidade, aos desejos sombrios, perversos, imorais, carnais.
A graduação é um método prático, muito comum, mas, quase sempre, de difícil execução. Um grau mede a intensidade, a força de alguma coisa. Os parâmetros que se utilizam para atribuir determinado grau, mais ou menos intenso, têm de ser claros, previamente estabelecidos. Isto de medir a sexualidade de alguém não é nada fácil, mas a graduação proposta pela associação portuguesa de canonistas é demasiado confusa e imprecisa para ser levada a sério. Li a notícia e fiquei com tantas dúvidas. Como se distingue um exclusivamente homossexual de um predominantemente homossexual? De que serve a distinção se os efeitos são os mesmos? Ser predominantemente homossexual não implica ser acidentalmente heterossexual? Para quê o detalhe da distinção? E a intensidade do grau mede-se apenas em função das práticas sexuais ou também do desejo sexual não concretizado? E por que razão é que só os acidentalmente homossexuais podem, mediante voto de castidade, ser considerados aptos ao desempenho das funções matrimoniais? Por que se nega essa tábua de salvação aos predominantemente homossexuais? Até um exclusivamente homossexual, devoto, fiel nas suas convicções, obediente aos dogmas da sua fé, pode fazer um voto de castidade, renunciar àquilo que é, calar a vontade e o desejo, passar a ser apenas uma sombra, um espectro de olhos cegos, dedos queimados, capaz, no entanto, de vez em quando, com esforço e empenhamento, de se dar para cumprir os desígnios de procriação do casamento.
Estes assuntos não são fáceis. Não é simples graduar a sexualidade das pessoas, até porque – é a minha ignorante opinião - não há ninguém exclusivamente homossexual ou exclusivamente heterossexual. A ser alguma coisa, a ser essencial a classificação, de duas uma, ou somos predominantemente heterossexuais ou predominantemente homossexuais. A predominância não nega a liberdade do desejo, não impõe a prisão das certezas. Acho, por exemplo, que a maior parte das mulheres predominantemente heterossexual é acidentalmente homossexual. Podem nunca ter tido práticas sexuais com outras mulheres, não querem tê-las, mas constroem o desejo e a excitação a partir do corpo das outras mulheres.
Depois, não se percebe esta embirração da igreja em relação à homossexualidade que não é doença, nem distúrbio, nem desvio, mas opção livre que merece respeito cristão. Tanta genuína perversão por aí, tanta parafilia interessante para abordar, e só a aborrecida homossexualidade merece atenção. É injusto para os coprófilos, para os necrófilos, para os zoófilos, para os pedófilos, enfim, para os parafilos em geral. Uma coisa boa, porém, resulta da notícia do Público. Lendo-a, percebemos que, em relação às capacidades intelectuais dos canonistas da associação portuguesa de canonistas, deus, nosso senhor, poupou-nos à incerteza e à duvida, a questão do grau não se coloca: são exclusivamente cretinos, acidentalmente parvalhões, predominantemente idiotas.
A graduação é um método prático, muito comum, mas, quase sempre, de difícil execução. Um grau mede a intensidade, a força de alguma coisa. Os parâmetros que se utilizam para atribuir determinado grau, mais ou menos intenso, têm de ser claros, previamente estabelecidos. Isto de medir a sexualidade de alguém não é nada fácil, mas a graduação proposta pela associação portuguesa de canonistas é demasiado confusa e imprecisa para ser levada a sério. Li a notícia e fiquei com tantas dúvidas. Como se distingue um exclusivamente homossexual de um predominantemente homossexual? De que serve a distinção se os efeitos são os mesmos? Ser predominantemente homossexual não implica ser acidentalmente heterossexual? Para quê o detalhe da distinção? E a intensidade do grau mede-se apenas em função das práticas sexuais ou também do desejo sexual não concretizado? E por que razão é que só os acidentalmente homossexuais podem, mediante voto de castidade, ser considerados aptos ao desempenho das funções matrimoniais? Por que se nega essa tábua de salvação aos predominantemente homossexuais? Até um exclusivamente homossexual, devoto, fiel nas suas convicções, obediente aos dogmas da sua fé, pode fazer um voto de castidade, renunciar àquilo que é, calar a vontade e o desejo, passar a ser apenas uma sombra, um espectro de olhos cegos, dedos queimados, capaz, no entanto, de vez em quando, com esforço e empenhamento, de se dar para cumprir os desígnios de procriação do casamento.
Estes assuntos não são fáceis. Não é simples graduar a sexualidade das pessoas, até porque – é a minha ignorante opinião - não há ninguém exclusivamente homossexual ou exclusivamente heterossexual. A ser alguma coisa, a ser essencial a classificação, de duas uma, ou somos predominantemente heterossexuais ou predominantemente homossexuais. A predominância não nega a liberdade do desejo, não impõe a prisão das certezas. Acho, por exemplo, que a maior parte das mulheres predominantemente heterossexual é acidentalmente homossexual. Podem nunca ter tido práticas sexuais com outras mulheres, não querem tê-las, mas constroem o desejo e a excitação a partir do corpo das outras mulheres.
Depois, não se percebe esta embirração da igreja em relação à homossexualidade que não é doença, nem distúrbio, nem desvio, mas opção livre que merece respeito cristão. Tanta genuína perversão por aí, tanta parafilia interessante para abordar, e só a aborrecida homossexualidade merece atenção. É injusto para os coprófilos, para os necrófilos, para os zoófilos, para os pedófilos, enfim, para os parafilos em geral. Uma coisa boa, porém, resulta da notícia do Público. Lendo-a, percebemos que, em relação às capacidades intelectuais dos canonistas da associação portuguesa de canonistas, deus, nosso senhor, poupou-nos à incerteza e à duvida, a questão do grau não se coloca: são exclusivamente cretinos, acidentalmente parvalhões, predominantemente idiotas.
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