
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2011/11/15
Bonjour Tristesse

Amanuenses
2011/11/14
Rodovalho
Abro o papelote de alumínio, arranco peles, solto os lombos triangulares, enfio os dedos por baixo dos opérculos, junto da cabeça, para retirar os pedaços mais brancos e saborosos. Com a ponta dos dedos, parto os lombos em porções mais pequenas, tacteando, esfarelo um pouco, à cata de espinhas, tem muito cuidado a arranjar o peixe do teu filho, se o menino fica com uma espinha atravessada é uma desgraça, nem sabes a quantidade de crianças que apareciam no hospital engasgadas, tossiam, tossiam, arranhavam a garganta, pareciam cãezinhos a rosnar, um, lembro-me bem, morreu asfixiado com uma espinha de bacalhau enterrada na garganta, ninguém a conseguiu de lá tirar, assim costuma dizer a minha tia com quem, por segurança e prazer, aprendi a arranjar o peixe com as mãos. Amachuco o papelote de alumínio cheio de espinhas, escamas, peles, gorduras ocres, embaciadas, cheio de lixo. Salvo, porém, a cabeça do peixe que coloco num prato. Não há no peixe parte mais saborosa do que a cabeça, aí se concentra, de forma espantosa, todo o sabor do mar. Sento-me com o prato à minha frente. Pego na cabeça com as duas mãos e, com um pequeno esforço, abro-a em duas metades. Estalam os ossos. Partem-se os ossos. Chupo mandíbulas, maxilas, bolbos inesperados de carne, tacteio a fileira de dentes cónicos e finos, enfio os dedos nos globos oculares para soltar os olhos que vêm numa bolsa gelatinosa e escura. Mastigo as bolsas e parecem de areia. Por fim, fico apenas com a couraça central do crânio que enfio na boca; presa nos molares, trinco-a. Abre-se esse centro de massa encefálica, é uma coisinha de nada, uma massa aguada, de um branco sujo, sabor intenso. Chupo a mioleira do peixe.
Assim sentada na cozinha, chupando uma cabeça de peixe, recordo um homem cuja insignificância – tamanha – fez com que dele me esquecesse durante muitos anos. Chamava-se Paulo Henrique e foi meu pretendente. Fomos colegas na universidade. Empregou-se, pouco depois, fruto de conhecimentos privilegiados, numa sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos. Levava-me a almoçar. Também me levava a concertos na Gulbenkian e tamborilava os dedinhos. Levava-me a esses sítios com o propósito de me mostrar um certo estilo de vida, que me propunha, se me escolheres, parecia dizer, não tarda nada guiarás um audi, eu um bmw, seremos dois jovens adultos de sucesso, os nossos filhos poderão frequentar um colégio jesuíta, em meia dúzia de anos, se os juros se mantiverem baixos, podemos comprar uma casa de férias em Tróia.
Um dia, sabendo que eu gostava de peixe, levou-me a comer a um restaurante finório. Queria impressionar-me. O restaurante ficava ali para os lados de Entrecampos. Era um sítio de sombras, um luxo decadente de dourados oxidados e fetos artificiais. Um restaurante de adúlteros, de patrões e secretárias, de traições breves, repetidas, urgentes e essenciais. Cheirava aquele lugar ao sexo feito nos carros estacionados na escuridão junto ao rio, ao sexo feito nos quartos de hotéis baratos, pressentiam-se ali humidades, lingerie molhada, falos entumecidos, mamilos túrgidos sobre mesas postas com preceito, guardanapo de pano, copos de cristal, o pão colocado à esquerda, num pratinho com a faca da manteiga.
Veio o peixe, um rodovalho (não era sequer um linguado, não era um peixe fino, espalmado, era um peixe gordo, carnudo, mas uma pessoa, às vezes, tem de criar ocasiões para usar as palavras de que gosta muito), numa travessa de faiança branca, num carrinho de rodas que chiava, empurrado por um empregado de jaqueta branca. O empregado, muito sério, rigidez de empalamento no corpo, serviu-me um lombo que regou com um fiozinho de azeite, duas batatinhas oblongas e um raminho de grelos a acompanhar. O meu pretendente olhava-me e sorria com os olhos. Os seus olhos continuavam a falar. Se ficares comigo, diziam os seus olhos, ofereço-te a sofisticação que nunca tiveste, livras-te da tua avó de lenço preto à cabeça, da tenda de campismo do teu pai nas férias grandes, das roupas compradas em saldos pela tua mãe.
Mal sabia ele que a sofisticação, depois de um período breve de apetecimento, começava naquele tempo a dar-me voltas ao estômago e que tenho da família uma visão assumidamente mafiosa, assente em muitos anos de discussões, gritos, reencontros. Dispenso os amigos, não cuido deles, mas se um dia me morre um irmão, um pai, um filho, morro também. Comi os lombos educadamente, fazendo um esforço para manter a boquinha fechada, limpando os beiços ao guardanapo de pano. No final, para tornar irrecusável o seu amor, o Paulo Henrique disse quanto ganhava. Era muito. Senti naquele momento uma vergonha muito grande por um homem assim me querer. Afinal que havia em mim que pudesse fazer aquele homem pensar que me podia ter? Olhei a cabeça do rodovalho defunto, o tal que não era, fugindo no carrinho que chiava, empurrado pelo empregado de jaqueta branca, e dei conta de um requisito essencial para escolher um homem. Precisava de encontrar alguém gostasse de me ver comer com as mãos.
2011/11/09
2011/11/06
Pripyat
2011/11/05
2011/11/04
Dr. Lucas
2011/11/02
Translucidez
Aproximam-se dois miúdos. Chegam ruidosos, cabelo empastado de gel, ar trocista, vestidos de gangas barrocas, cheias de brilhos e tachas. A sua chegada provoca um frémito de desconforto. São ciganos. Vivem nos blocos de realojamento que a câmara construiu há pouco tempo. As famílias ciganas quebraram a paz do bairro. Trouxeram ruído, alguma violência. Há uma guerra não declarada entre os habitantes do bairro residencial e os que vivem nos blocos de habitação social. É uma guerra silenciosa, mas, como em todas as guerras, assenta num ódio que não conhece excepções. Odeiam-se todos os que estão do outro lado: homens, mulheres, velhos, deficientes, crianças como estas que se aproximam da fila do pão. Os dois rapazes observam os velhos com olhos de gavião. O esquema é sempre o mesmo. Precisam de encontrar o mais frágil, aquele que mais facilmente deixe entrar o medo, a vítima ideal que permita o pequeno furto, tão pequeno e irrelevante, que nem parece ser aquilo que é.
(O nº 3 da revista The Printed Blog sai esta semana. Saio com ela.)
2011/11/01
Sangue do meu sangue
(Digo-lhe, num suspiro, és a única pessoa com quem gosto de vir ao cinema. Não tira os olhos do ecrã. Márcia não sabe que sopa há-de fazer amanhã. É mentira, diz, és uma mulher muito mentirosa, também gostas de vir com o avô.)
2011/10/28
Oriente
2011/10/18
Cozido à portuguesa
Aquelas tardes, passadas em frente à televisão, vendo os programas do oceanógrafo francês, eram obra do meu pai que nos incentivava a ver documentários, fossem de bicheza, de política, fossem sobre os bosquímanos da Namíbia ou sobre os aborígenes da Austrália, não havia grande critério na selecção que fazia, tudo servia para nos educar e, sobretudo, para nos libertar de um país que considerava confinado, de grades, bolores, líquenes. Ganhei com o meu pai o gosto pelos documentários. Ele manteve-o. Desde que a televisão de cabo chegou, carregada de canais temáticos, o meu pai tem dificuldade em seleccionar os documentários que quer ver, desconfio que, por vezes, fica baralhado com tanta informação. Os documentários sobre animais são os que mais gosta de ver. A minha mãe queixa-se que passa tardes inteiras a ver filmes sobre escaravelhos, térmites, aranhas peludas, um nojo, uma pessoa quer ver um programa de variedades, uma telenovela e não pode, diz ela, compungidamente, não compreendendo o interesse do meu pai por esse mundo de animais tão insignificantes que se estraçalham com a biqueira do sapato.
São essas tardes de domingo em que a minha família se juntava à volta de televisão para ver os documentários do Cousteau, a sala ainda a cheirar a farinheira, a chispe, a chouriço de sangue, que lembro, passados tantos anos, quando encontro o meu pai sentado em frente do televisor a ver os seus documentários. Aproveito esses momentos para disfarçadamente o observar. Enquanto se inteira da nidificação dos albatrozes, passa ele a ser o objecto de estudo. Vou ao armário, onde há garrafas de bebidas licorosas e vidros em forma de parra que vieram nos contentores de Moçambique, encho uma malguinha de madeira com aperitivos indianos e, enquanto debico lentilhas fritas, observo-o com atenção: o modo como o pijama lhe cai no corpo, os pés de barbatana, os tremores involuntários da cabeça, a boca ligeiramente aberta mostrando a prótese dentária que colocou num dentista em Margão. Tomo mentalmente nota do meio ambiente envolvente, as movimentações da casa, o cheiro que vem da cozinha, o ruído dos chinelos ortopédicos da tia Dé chiando no chão de madeira, a voz da minha mãe a falar com a minha filha.
2011/10/17
Fluxo Menstrual
(O Dr. Boaventura Santos, há anos, a coordenar o observatório permanente da justiça, que serve para pouco, mas também é suportado pelo Estado, anda em absoluto delírio. O Dr. Garcia Pereira também.)
2011/10/13
Intrusa
O meu espanto foi tal ao encontrar aquela ordinária, ali, tentando os pobres condutores de bmws e de audis, que me engasguei com o pão de deus que, naquele momento, mastigava. Relaxou-se a glote e um bocadinho de coco desviou-se do caminho. Valeu-me a prontidão da senhora da loja de lingerie, uma simpatia, muito boa vendedora, intuitiva, impinge-me collants da Dorien Gray, a oito euros e meio o par, já percebeu que, independentemente da qualidade e da resistência da lycra, não resisto a comprar collants de uma marca tão literária. Também compro perfumes sem os cheirar só porque gosto do nome. Un Jardin Aprés La Mousson. Largou a amável senhora o pãozinho com sementes de sésamo, linhaça e girassol que comia delicadamente ao balcão e correu em meu auxílio. Bateu-me nas costas, com vigor, até o bocadinho de coco sair disparado pela minha narina direita. Bendita senhora.
2011/10/12
Ossos Ilíacos
A mãe do Márcio é uma rapariga nova que usa um pearcing na língua. É preciso ignorar os castanheiros da índia, os choupos outoniços largando folhas pelo chão, é preciso ceder à tentação de espreitar as marquises que se debruçam sobre o recreio da escola - ali um quadro espelhado do pierrot e da columbina, ali um homem velho fumado à janela - e olhar a rapariga com atenção. Quem assim a olhar notará que, no preciso instante em que, no portão da escola, passa o filho para as mãos da auxiliar, enche os pulmões de ar, contrai o diafragma, retém a respiração por breves segundos, depois, liberta o ar pelo nariz com um ruído que mal se nota. Respira fundo. É de alívio que a rapariga respira. Entre o momento em que deixa o filho na escola até à hora a que o vai buscar volta a ser uma simples adolescente, pode passear com as amigas do bairro, mandar mensagens de telemóvel, marcar encontros à porta do centro comercial.
O pai do Fábio André é um homem gordo e suado. Trabalha no talho que fica numa das pracetas perto da escola. Já o vi de bata ensanguentada, mãos ferruginosas de desmanchar carcaças, fumando um cigarro à porta do talho. Tem um touro tatuado no braço que larga um bafo muito quente. Uma pessoa passa pelo touro tatuado e amedronta-se com o olhar furibundo do bicho. Os olhos do talhante são diferentes, olhos mansos de animal já morto.
Há também o pai do Rúben Miguel, seco, anda sempre de mãos nos bolsos e usa um brinquinho. É, no seu género, um homem atraente, apetecível, de cabelo grisalho, um príncipe, ali, nas torres e pracetas do bairro. Costuma vir sozinho trazer o filho à escola. Por vezes, porém, vem com a mulher, uma loira baixa, muito magra, os ossos ilíacos salientes espreitando por cima do cós das calças. A mulher, nota-se no modo como sorri, na gentileza do seu corpo que se abre como uma flor, ama o marido. Deseja-o. O homem, porém, gostaria de lhe fugir. Quando a encontra, ao final do dia, deitada na cama, sorrindo-lhe, puxando a colcha para trás, mostrando-lhe o corpo frágil, os ossos ilíacos que o magoam, pedindo-lhe a que ame e proteja, tem vontade de pegar numa almofada e sufocá-la lentamente.
2011/10/10
Abas Largas
(maravilhosa, por ser íntima e pessoal, a crítica que o João Bonifácio escreveu ao livro da Dulce Maria Cardoso. Li-a na linha vermelha, interrompida durante muito tempo por causa de um homem que se atirou na estação de Arroios. Não fora o homem se atirar à linha e eu não teria encontrado tempo para ler a crítica do João Bonifácio e lembrar o amor que tenho ao meu pai. Encadeamento estranho da vida.)
2011/10/06
Bomba Relógio
Dois copos de vinho verde, bailarico na cozinha, o João a espreitar e a dizer "és tão bonita, mãe".