2011/10/17

Fluxo Menstrual

A tal assembleia popular dos indignados fez-me lembrar uma amiga da minha irmã que vive numa comunidade hippie perto do Cercal do Alentejo. Durante a adolescência, não era diferente de nós, sentia-se de esquerda, era de esquerda. Era a esquerda que cuidava dos jovens, dos pobres, dos excluídos, das minorias. Uma pessoa tinha de ser de esquerda porque a defesa de um núcleo de direitos e valores parecia pertencer em exclusivo à esquerda. Depois, numa altura em que toda a gente, uns mais, outros menos, guinou à direita, - uma pessoa arranja um emprego, casa, tem filhos, que diabo, é a vida que nos torna mais conservadores, - a amiga da minha irmã não guinou nem à esquerda, nem à direita. Pura e simplesmente, saiu do caminho. Largou o emprego, pegou nas saias compridas e nas alpercatas, e foi viver para a tal comunidade hippie: é naturista, anarquista, ecológica, é pelo poli amor, tem horror a antibióticos e não vacina o filho. Até aí nada de mal. Cada um vive como quer e se há mulheres que acham que podem viver sem pensos higiénicos, empapando o fluxo menstrual em paninhos de algodão, isso é lá com elas. O problema é que a tal amiga da minha irmã e o namorado, um hippie alemão, chamado Rainbow, viviam de um subsídio de juventude que o exemplar estado alemão atribuía ao dito. Ou seja, a indignação e rebeldia do casal, não era sustentada pelos próprios, que passavam o dia em contemplações espúrias, era, isso sim, suportada pelo sistema que tanto desprezavam.


Nos dias que correm todos sentimos indignação, mas, a mim, aborrece-me que a minha indignação possa ser confundida com a indignação da amiga da minha irmã e de todos aqueles que, como ela, criticam o sistema, mas o que mais desejam é viver amparados por ele. Chateia-me que a minha indignação e a de muitos outros, por dispensar o folclore próprio da esquerda extremista, dos cartazes mal escritos, dos urros gratuitos ditos por mulheres mal depiladas, pouco valha e que a indignação da geração à rasca, dos indignados, dos acampados, mereça tanto aconchego.

(O Dr. Boaventura Santos, há anos, a coordenar o observatório permanente da justiça, que serve para pouco, mas também é suportado pelo Estado, anda em absoluto delírio. O Dr. Garcia Pereira também.)

2011/10/13

Intrusa

Ao pequeno-almoço, no meio das mensagens eróticas do Público, internacionais e cosmopolitas - japonesas, polacas, russas, brasileiras e africanas, sempre discretas, apresentando-se com palavras contidas e insinuantes -, topei com uma prostituta muito ordinária e óbvia, oferecendo os seus serviços sem o mínimo de encanto. Dizia assim: adoro fazer de macho, transformismo, dominação física e verbal, chuva dourada, São João do Estoril. Fiquei irritada com aquilo. Então, alguma vez os homens, distintos, de classe, quadros superiores, assessores, intelectuais, pais de família, condutores de audis e bmws, que procuram companhia nas mensagens eróticas do meu jornal têm interesse em quem lhes mije em cima? Ou por uma cavalona de carnes flácidas que os faça gemer com chicotes e pregos e máscaras de cabedal? Os homens que procuram companhia nas mensagens eróticas do meu jornal são, sei-o, verdadeiros cavalheiros, comedidos nas suas fantasias, sensíveis, recatados. Dêem-lhes umas mamas grandes e ficam satisfeitos.

O meu espanto foi tal ao encontrar aquela ordinária, ali, tentando os pobres condutores de bmws e de audis, que me engasguei com o pão de deus que, naquele momento, mastigava. Relaxou-se a glote e um bocadinho de coco desviou-se do caminho. Valeu-me a prontidão da senhora da loja de lingerie, uma simpatia, muito boa vendedora, intuitiva, impinge-me collants da Dorien Gray, a oito euros e meio o par, já percebeu que, independentemente da qualidade e da resistência da lycra, não resisto a comprar collants de uma marca tão literária. Também compro perfumes sem os cheirar só porque gosto do nome. Un Jardin Aprés La Mousson. Largou a amável senhora o pãozinho com sementes de sésamo, linhaça e girassol que comia delicadamente ao balcão e correu em meu auxílio. Bateu-me nas costas, com vigor, até o bocadinho de coco sair disparado pela minha narina direita. Bendita senhora.

2011/10/12

Ossos Ilíacos

O Joaquim tem um Fábio André, um Márcio e um Rúben Miguel na turma.

A mãe do Márcio é uma rapariga nova que usa um pearcing na língua. É preciso ignorar os castanheiros da índia, os choupos outoniços largando folhas pelo chão, é preciso ceder à tentação de espreitar as marquises que se debruçam sobre o recreio da escola - ali um quadro espelhado do pierrot e da columbina, ali um homem velho fumado à janela - e olhar a rapariga com atenção. Quem assim a olhar notará que, no preciso instante em que, no portão da escola, passa o filho para as mãos da auxiliar, enche os pulmões de ar, contrai o diafragma, retém a respiração por breves segundos, depois, liberta o ar pelo nariz com um ruído que mal se nota. Respira fundo. É de alívio que a rapariga respira. Entre o momento em que deixa o filho na escola até à hora a que o vai buscar volta a ser uma simples adolescente, pode passear com as amigas do bairro, mandar mensagens de telemóvel, marcar encontros à porta do centro comercial.

O pai do Fábio André é um homem gordo e suado. Trabalha no talho que fica numa das pracetas perto da escola. Já o vi de bata ensanguentada, mãos ferruginosas de desmanchar carcaças, fumando um cigarro à porta do talho. Tem um touro tatuado no braço que larga um bafo muito quente. Uma pessoa passa pelo touro tatuado e amedronta-se com o olhar furibundo do bicho. Os olhos do talhante são diferentes, olhos mansos de animal já morto.

Há também o pai do Rúben Miguel, seco, anda sempre de mãos nos bolsos e usa um brinquinho. É, no seu género, um homem atraente, apetecível, de cabelo grisalho, um príncipe, ali, nas torres e pracetas do bairro. Costuma vir sozinho trazer o filho à escola. Por vezes, porém, vem com a mulher, uma loira baixa, muito magra, os ossos ilíacos salientes espreitando por cima do cós das calças. A mulher, nota-se no modo como sorri, na gentileza do seu corpo que se abre como uma flor, ama o marido. Deseja-o. O homem, porém, gostaria de lhe fugir. Quando a encontra, ao final do dia, deitada na cama, sorrindo-lhe, puxando a colcha para trás, mostrando-lhe o corpo frágil, os ossos ilíacos que o magoam, pedindo-lhe a que ame e proteja, tem vontade de pegar numa almofada e sufocá-la lentamente.

2011/10/10

Henry Lee

Abas Largas

Devia ter oito ou nove anos. Pedalava sozinha pelo caminho do moinho quando uma mulher da aldeia meteu conversa comigo. Vinha dos campos, trazia uma bata de trabalho e um chapéu de abas largas que lhe escondia parte do rosto. Queria saber quem eu era. Parei a bicicleta e expliquei-lhe que era neta da vizinha Felicidade que vivia na casa da barra amarela. “Ah, és a filha do indiano retornado!”, disse a mulher com assumido despeito na voz, marcando a diferença, impondo entre nós um fosso intransponível. Não sabia o exacto significado da palavra retornado. Sabia apenas que era uma palavra terrível. Provocava em minha casa discussões e lágrimas. Às vezes, a palavra saía da boca da minha tia; outras vezes, escutava-a na boca do meu pai. Sendo a mesma palavra, parecia ter diferentes significados consoante fosse dita pela minha tia ou pelo meu pai. Talvez por isso, por essa versatilidade, eu não fosse capaz de lhe precisar o significado. Porém, mesmo não sabendo exactamente o que significava ser retornado, não quis naquela tarde ser a filha do indiano retornado. Tive vergonha de o ser, pressenti, pelo tom de voz da mulher, que era motivo de humilhação. “Não sou filha do retornado”, respondi e desatei a pedalar pelo caminho de terra batida, as silvas moendo-me as pernas, todos os bichos morrendo à minha passagem. Quando cheguei ao cimo da colina, olhei a aldeia branca, tão pura. Cá em baixo, no caminho, a mulher ficou rindo nas minhas costas. Eu vivia na sombra mágica da tia Dé, comunista, tão doce, mostrava-me livros, canções, falava de coisas bonitas, igualdade e liberdade. Ignorava o meu pai austero, magoado, revoltado, assumidamente salarazista. Desprezava-o, até. Foi nessa tarde, no cimo da colina do moinho, que comecei a ser filha do meu pai, a querer-lhe bem, a amá-lo de uma maneira absoluta que é a única maneira de o amar.

(maravilhosa, por ser íntima e pessoal, a crítica que o João Bonifácio escreveu ao livro da Dulce Maria Cardoso. Li-a na linha vermelha, interrompida durante muito tempo por causa de um homem que se atirou na estação de Arroios. Não fora o homem se atirar à linha e eu não teria encontrado tempo para ler a crítica do João Bonifácio e lembrar o amor que tenho ao meu pai. Encadeamento estranho da vida.)

2011/10/06

Bomba Relógio



Dois copos de vinho verde, bailarico na cozinha, o João a espreitar e a dizer "és tão bonita, mãe".

Poliedro

O homem diz que me vejo como um deserto. Vazia de tudo, crio miragens para me iludir, que engano os outros, falsificando-me. Ele a falar, eu a fugir-lhe, a fixar-me na jarra com hera que está em cima da secretária, a sentir-me de pechisbeque, feita de ouro falso, um halo dourado por fora, uma liga qualquer esverdeada, com cor de bolor, de humidade, por dentro. Remata, dizendo, que tenho uma personalidade caleidoscópica, que se multiplica, adequa, desvirtua com o intuito de se esconder. Utiliza outra palavra. Prismática. Enquanto ele fala penso numa palavra de que gosto muito. Poliedro. Termino cansada, corpo dorido, como se me tivessem dado uma sova. Quero fugir lá para fora, ver os melros e as prostitutas, feias e gordas, que se exibem no crepúsculo lilás do parque. Olhar para fora. Para não olhar para dentro.

2011/10/05

Asno de Ouro

O rapaz das arcadas anda a ler um livro da Herta Muller. Finjo não o ver quando me aparece pela frente, cigarro ao canto da boca, a afrontar o meu pedantismo literário. Também nunca li a Herta Muller. E não quero. Entretanto, continuo sem vontade de ler e, ontem, fui, tão regalada, durante a viagem de regresso a folhear uma revista que falava das orgias do José Castelo Branco. Não tarda nada, temo, crescer-me-ão unhas quadrangulares que pintarei de cores fortes. Os únicos livros que tenho levado para a cama são os do Milo Manara. Depois do orgasmo chegar, ainda com a respiração acelerada, narinas dilatadas, atiro os livros para cima da estante. Não quero que o João os encontre. Não estou preparada para a primeira ejaculação do meu filho.

Linda de Suza

Só um desprezo grande pelas mulheres pode levar a que, em vez da fotografia da Dulce Maria Cardoso, entrevistada pelo Carlos Vaz Marques, apresentada como tendo escrito o primeiro grande romance sobre os retornados, ponham na capa a mala de cartão da Linda de Suza. A capa da revista de Outubro não consegue ser tão má como a de Setembro, que bem podia ter a fotografia do Mário Cláudio, mas anda lá perto. Desde que a revista voltou com edição mensal, já lá vai um par de anos, ou mais, que me lembre, apenas três mulheres mereceram ser capa da Ler: a Margarida Rebelo Pinto - ao que consta, inexistente literariamente -, a Agustina Bessa Luís e a Lídia Jorge. Entre a misoginia pura e dura, a homossexualidade reprimida e experiências traumáticas com mães sexualmente abusadoras, alguma coisa explicará as opções da revista ler.

2011/10/03

Outono

Certeza

Não é que não goste de Portugal, mas nem a luz de Lisboa me encanta, nem a Amália me emociona, não gosto de pastéis de Belém, nem de desfiada de bacalhau, irritam-me os corações de filigrana e as santinhas flourescentes que se vendem nas lojas da Catarina Portas. Sinto desprendimento na despedida e indiferença no regresso. Gostar a sério, no sentido de pertença, de precisar de um lugar e das pessoas que nele habitam, gosto daquele bocadinho de país que vai de Santiago do Cacém até Sines e, na cidade, daquele outro pedaço de terra que se levanta em desordem e feiura e se estende pela Portela de Sacavém, Olivais e Moscavide. Lá diz o cantor: sou do mundo e sou da cama dos meus pais. Não fora o fardo do amor, educar, alimentar, promover o saudável convívio com a família materna e paterna, e teria fugido para o outro lado do mundo. Ia cuidar dos arrozais de Maina, beber kingfishers pelo crepúsculo, sentir no corpo a luz que atravessa as janelas de carepa, escutar o Rafael falar no alpendre da sua casa, no meio das jaqueiras com bócio.

Mas, mesmo não muito gostando muito de Portugal, mesmo não sentido cá dentro o amor pela pátria, me incomoda a quantidade de pontapés e murraças que se têm dado a este país. Cansa tanta irresponsabilidade, tanta pouca-vergonha. Olhando para trás, para o passado recente, é inevitável perguntar: foi preciso chegar a este ponto para tomar as decisões que há muito precisavam de ser tomadas? Durante todos estes anos, com sucessivos governos, ninguém notou que o país se afundava? Muita gente viu, muita gente soube, ninguém esteve para se chatear. Um - assim se demonstra o disparate da sua governação - criou um ministério para a igualdade cuja essencialidade se provou com a extinção assim que a titular da pasta se cansou da luta; outro, tão cobardolas, preferiu fugir para a comissão europeia, pondo a vaidade pessoal à frente do compromisso com os eleitores; o seguinte, valha-nos deus, não teve tempo para mostrar a sua incompetência; o último foi um caso patológico de megalomania e mitomania. Assim vamos andando.

Porém, pior do que as dúvidas em relação ao passado são as certezas em relação ao futuro. No meio de tudo isto, confusão, angústia, da revolta que tarda em chegar, chega-nos a certeza de que, assim que existir uma folgazinha, assim que sobrarem meia dúzia de tostões para gastar, assim que se deixar de sentir o controlo de quem nos empresta dinheiro, voltará tudo ao mesmo. Ainda muitas rotundas se hão-de construir em Portugal.

2011/10/02

Rio

Passam velozes, solitários, como se fossem gazelas ou lebres, ou bafejando em manada, touros, bisontes, bois almiscarados. Um rapaz negro corre por cima do muro que separa o parque do rio. Movimenta-se na perfeição. Os homens correm com elegância, com passadas largas e pesadas, fazem estremecer o rio, espantam gaivotas, mergulhões, flamingos. Já as mulheres, as poucas que por ali andam, correm mal. Terão certamente corrido em meninas; desaprenderam, depois. Metem os pés para fora. Enrijecem os braços, não sabem o que lhes fazer. Abanam a cabeça como se fossem cães articulados, daqueles que, entre almofadas de renda, se colocam na parte de trás dos automóveis. Bufam como vacas. Quando são gordas, abanam as mamas, as carnes flácidas, largam uma gordura quente e amarela que se espalha por todo o lado. Um homem gordo corre como um touro, um rinoceronte, um elefante até. Uma mulher gorda corre como uma perua imensa, soltando gorgolejos insuportáveis. Glu-glu-glu-glu. Por vezes, tento imitar os homens-lebre. Acelero o ritmo. Corro mais depressa. Desisto pouco depois. Corro o risco morrer junto ao rio. Nunca serei uma lebre. Sou uma tartaruga. Vagarosa, tão velha. Corro com passos pequeninos de bicho antigo, mas chego sempre à meta.

2011/09/30

Ute Lemper

2011/09/28

Acesso Bloquesdo

Amo o Sérgio Godinho. Amo-o com um amor antigo e intenso. Lembro-me de escutar o Barnabé na aula de português da professora Maria dos Anjos, no ciclo, e sentir um arrebatamento e um deslumbre. Fui crescendo e fui descobrindo as suas canções. Conheço-as de cor e só não gosto do Fugitivo e da Canção da Velha Mãe. Se o Sérgio Godinho quisesse, casava-me com ele e cuidava dele na velhice que vem chegando. Perdoo-lhe tudo, até o facto de ter escrito canções para todas, Etelvinas, Carolinas, Paulas, Fátimas, Alices, e nunca ter escrito para as Anas desta vida (a Valsa da Ana não conta por razões óbvias). Aos vinte anos, odiava a Sheila e todas as legítimas que teve. Embalei os meus filhos a cantar as suas canções. A minha filha sabe de cor a Etelvina e anda a aprender o 2º andar, Direito. O Joaquim pede a Maré Alta, o Charlatão e o Coro das Velhas. O João finge que já não gosta das suas canções e eu permito-lhe esse fingimento. Os três gozam descaradamente comigo quando me vêem amarinhar pelo sofá para dar beijinhos às fotografias dele que estão penduradas na parede. Quando estou triste, acontece muitas vezes, a minha filha põe-no a cantar na cozinha e o meu coração alegra-se. Eu tenho a vida partida em mil pedaços, cola-a tu com dois abraços. Nunca serei capaz de amar um homem como amo o Sérgio Godinho. É um amor absoluto, inquestionável, perfeito, um amor de menina que nunca amadureceu. É por tanto o amar, tanto dele precisar, tanto o querer, que não tecerei nenhum comentário ao novo disco. Acesso bloqueado.

Beleza

A tia Dé odeia a Joana Amaral Dias. Quando a vê, empertigada, decotes generosos, camisolas justas, disfarçadamente penteada e maquilhada, cerra os punhos em direcção ao televisor e põe-se a rosnar baixinho, a arremedá-la, o desprezo é tanto que lhe toma conta do corpo, ganha uma cor estranha, entre o vermelho e o cinzento, e, por vezes, faz-lhe chocalhar a dentadura. Anda esta mulher a defender os trabalhadores! Tira essa tipa daí! e arranca-me o comando das mãos para mudar de canal. A tia Dé é uma comunista transviada, andou perdida de amores pelo Sócrates, mas já se arrependeu. Acha que a beleza é um atributo burguês, desnecessário, predicado ardiloso, dispensável, a moda é fascizante e os artifícios da maquilhagem não se compadecem com a luta das mulheres operárias. Nunca usou rímel, saltos altos, batons de cores vivas, verniz, raramente vai ao cabeleireiro. Em seu entender, as mulheres bonitas, sobretudo, as de esquerda, deviam mascara-se de feias. Não tenho dúvidas de que a tia Dé, se a escutasse, no geral, concordaria com os comentários da Joana Amaral Dias. Na verdade, a única coisa que amofina a minha tia é a beleza da outra, sobretudo, o descaramento de a mostrar e fazer uso dela. Curiosamente, é a única coisa que eu aprecio na Joana Amaral Dias.

Elevador

O rapaz das arcadas subiu comigo no elevador. Vinha com o cabelo ainda molhado e cheirava a manhãs de chuva, a mar, a tempestades, a coisas boas, sei lá ao que cheirava o rapaz das arcadas, só sei que cheirava bem e pronto. A semana passada andava a ler o Don de Lillo. Hoje, pela manhã, trazia um livro do Philip Roth. Nunca li nada do primeiro e aborreceu-me o segundo. Gosto do rapaz das arcadas - é um consolo ter um leitor na nossa vida, mesmo que seja um desconhecido de sapatilhas all star-, mas o seu entusiasmo literário faz-me sentir velha. Já não sou capaz de ler assim. Ando há quatro semanas de volta de um livro de contos da Alice Munro e não me importo. Não tenho vontade de ler. A culpa não é da escritora, é minha que ando em maré de postergar, só me apetece correr, mais nada. Forço-me à leitura. Leio uma ou duas páginas antes de adormecer. Se não coloquei ainda o livro da Alice Munro de lado foi por solidariedade com a classe dos contistas. Tenho admiração sincera por quem, tendo uma escrita exímia, opta por ser contista. Já percebi, já mo explicaram, que os contistas são uma classe menor no universo literário. Tolerados, mas não amados. Não se lêem e não se vendem. Ninguém quer ser contista. Os frequentadores de oficinas de escrita criativa (que se aprenderá em tais lugares?) e os aspirantes a escritores querem ser romancistas. A consagração, as vendas, as entrevistas, as cintas a anunciar segundas edições, os prémios, enfim, o sucesso, só chega para os romancistas. A opção, porém, parece-me tão arriscada. É que não é difícil ser um bom contista. A brevidade potencia a agudeza literária, em meia dúzia de páginas conta-se uma história, fixa-se um momento, não se aborrece ninguém, apresenta-se uma personagem, a contingência traz certo brilho às palavras. Pelo contrário, é tão fácil ser um mau romancista. Tenho a sensação de que muitos autores publicados poderiam ser bons contistas, mas preferem ser maus romancistas.

2011/09/24

José Niza

2011/09/22

Enfant

Nove bailarinos e um grupo de crianças movimentam-se num palco escuro que lembra a noite. A princípio, os corpos das crianças são transportados, manipulados, atirados, como se não fossem gente. São apenas objectos. Depois, ganham autonomia, vontade própria. Gostei pouco do espectáculo do Boris Charmatz. A minha filha, companheira forçada destas andanças, também, pobrezinha, que bem lhe vi os olhos muito abertos. Ao olhá-la, esqueci a desilusão recente, por mim não assumida, quando me anunciou a decisão de desistir do violino. Até me deu uma pontada, ai que me partes o coração, malandra, mas não dei parte de fraca. Não me importo, disse-lhe, ora essa, claro que não me importo, tu é que decides, se gostas mais da ginástica, deves optar pela ginástica, mas espero que sejas uma Olga Korbut, uma Nádia Comaneci, a melhor, campeã disto e daquilo, quero uma parede cheia de medalhas e troféus; acautela-te, porém, avisei-a, que tantas horas de treino diário te podem dar cabo do corpo, acabas triangular, dorso largo e masculino, sem mamas, sem rabo, atarracadinha como uma anã.

2011/09/21

Aninhas e o desejo

Dada a sua condição, corpo adormecido, meio morto, meio vivo, Aninhas pensava frequentemente no desejo e no prazer. Formara sobre esse assunto uma opinião empírica, que prescindia de análises comparativas, divagações desnecessárias, filosofias profundas; assentava apenas na sua vivência pessoal, nos homens que conhecera, nos casos que tivera, nas marcas que essas relações lhe iam deixando no corpo. Era uma análise sem grande préstimo, pressentia-o, na medida em que não servia para os outros. Tratava-se de uma teoria simples que se adequava à sua vida, explicava as suas atitudes, poupava-a à dor e humilhação. Tal teoria, que carregava dentro de si e que aprofundava, com vagar, nos tempos mortos, filas de trânsito, reuniões de turma dos filhos, salas de espera dos consultórios médicos, assentava na primazia do desejo sobre o prazer. Aninhas atribuía uma importância fundamental ao desejo, à capacidade de querer esmagar um corpo, uma boca, duas mãos, a curva de uma perna, o repouso de um ombro. Era o mais importante. Não se podia viver sem desejo. Encarava o prazer, pelo contrário, como coisa menor, um arrepio que chega, mata, desilude, rapidamente se esquece. O desejo era literário, o prazer simplesmente pornográfico. Era uma teoria que lhe convinha. Aninhas, gostando de literatura e de pornografia, sabia que podia viver sem o detalhe cirúrgico da pornografia, mas acabaria por definhar, mirrando até desaparecer, sem a liberdade da literatura.

2011/09/15

2011/09/14

Aravind Adiga

Acabei de ler o último livro do Aravind Adiga. Tive a Índia de volta à minha vida durante quinze dias. Cada um mata as saudades como pode e um livro é coisa boa para matar saudades. Encontrei lugares, pessoas, palavras. Bhel puri, idlis, chai, dosa, laque, salwar, gulab janum, seve, bandra, vakola. Voltei a Andheri West onde vive a minha prima Melinda numa torre igualzinha à cooperativa Vishram do livro, hindus moderados, jainistas, muçulmanos, católicos, as portas dos apartamentos escancaradas de par em par, toda a gente vivendo numa harmonia frágil que se estilhaça ao primeiro tremor ou desacato. Estive de novo em Juhu Beach, a Dá, de t-shirt amarela, voltou a pintar as mãos com hena, o meu pai voltou a regatear o preço da pintura, a mulher voltou a franzir-se com a avareza do meu pai, o João continuou lá atrás mordiscando uma maçaroca frita. Recordei a minha tarde sozinha em Bombaim, ficaram os miúdos a dormir a sesta com o meu pai, andei pelos mercados de rua, labirínticos, se me perco nesta cidade, ninguém me encontra, comprei goiabas, pulseiras de vidro, um sari branco, saiote e tudo, barato, tecido de fraca qualidade, mas branco, tanto que eu queria um sari branco. Comprei também vários saquinhos de bombay duck, não sei por que se chama assim, não é pato, como lhe chamam, nem peixe, como parece, é lagarto seco, envolto numa masala cor-de-laranja, picante, muito malcheirosa, come-se às tirinhas, frito em pouco óleo. É o meu petisco preferido quando acordo, de madrugada, com fome. Espalha-se o cheiro pelo apartamento, entranha-se nos tecidos e nas paredes, refilam os miúdos de manhã, é que não se aguenta o cheiro, dizem, olho-os de viés, tão europeus, pálidos, imaculados.

Persepolis

2011/09/13

Grau

A associação portuguesa de canonistas analisou o grau de homossexualidade necessário para anular um matrimónio. A notícia vinha no jornal. Explica a referida associação que a declaração de nulidade de um casamento católico, no qual um dos cônjuges é homossexual, depende do «grau» em que a sua homossexualidade se encontra. Só no caso de um dos cônjuges ser predominantemente homossexual, acidentalmente heterossexual ou exclusivamente homossexual se poderá, após perícia psiquiátrica que assim o ateste, declarar a nulidade de um casamento católico. Se um dos cônjuges for, pelo contrário, predominantemente heterossexual, acidentalmente homossexual ou exclusivamente heterossexual, não existe causa de nulidade. O cônjuge acidentalmente homossexual, querendo, está apto a desempenhar e a concretizar o fim do matrimónio. Deve, no entanto, renunciar, através de voto de castidade, aos desejos sombrios, perversos, imorais, carnais.

A graduação é um método prático, muito comum, mas, quase sempre, de difícil execução. Um grau mede a intensidade, a força de alguma coisa. Os parâmetros que se utilizam para atribuir determinado grau, mais ou menos intenso, têm de ser claros, previamente estabelecidos. Isto de medir a sexualidade de alguém não é nada fácil, mas a graduação proposta pela associação portuguesa de canonistas é demasiado confusa e imprecisa para ser levada a sério. Li a notícia e fiquei com tantas dúvidas. Como se distingue um exclusivamente homossexual de um predominantemente homossexual? De que serve a distinção se os efeitos são os mesmos? Ser predominantemente homossexual não implica ser acidentalmente heterossexual? Para quê o detalhe da distinção? E a intensidade do grau mede-se apenas em função das práticas sexuais ou também do desejo sexual não concretizado? E por que razão é que só os acidentalmente homossexuais podem, mediante voto de castidade, ser considerados aptos ao desempenho das funções matrimoniais? Por que se nega essa tábua de salvação aos predominantemente homossexuais? Até um exclusivamente homossexual, devoto, fiel nas suas convicções, obediente aos dogmas da sua fé, pode fazer um voto de castidade, renunciar àquilo que é, calar a vontade e o desejo, passar a ser apenas uma sombra, um espectro de olhos cegos, dedos queimados, capaz, no entanto, de vez em quando, com esforço e empenhamento, de se dar para cumprir os desígnios de procriação do casamento.

Estes assuntos não são fáceis. Não é simples graduar a sexualidade das pessoas, até porque – é a minha ignorante opinião - não há ninguém exclusivamente homossexual ou exclusivamente heterossexual. A ser alguma coisa, a ser essencial a classificação, de duas uma, ou somos predominantemente heterossexuais ou predominantemente homossexuais. A predominância não nega a liberdade do desejo, não impõe a prisão das certezas. Acho, por exemplo, que a maior parte das mulheres predominantemente heterossexual é acidentalmente homossexual. Podem nunca ter tido práticas sexuais com outras mulheres, não querem tê-las, mas constroem o desejo e a excitação a partir do corpo das outras mulheres.

Depois, não se percebe esta embirração da igreja em relação à homossexualidade que não é doença, nem distúrbio, nem desvio, mas opção livre que merece respeito cristão. Tanta genuína perversão por aí, tanta parafilia interessante para abordar, e só a aborrecida homossexualidade merece atenção. É injusto para os coprófilos, para os necrófilos, para os zoófilos, para os pedófilos, enfim, para os parafilos em geral. Uma coisa boa, porém, resulta da notícia do Público. Lendo-a, percebemos que, em relação às capacidades intelectuais dos canonistas da associação portuguesa de canonistas, deus, nosso senhor, poupou-nos à incerteza e à duvida, a questão do grau não se coloca: são exclusivamente cretinos, acidentalmente parvalhões, predominantemente idiotas.

2011/09/12

Capitão



(Lisboa-Santo Tirso)
(Por querer mais do que a vida...)

2011/09/11

Aninhas

Para além da casa, da profissão, dos filhos, do casamento sólido, Aninhas tinha também um amante. Conhecera-o há alguns anos nos jardins da fundação. Pouco depois de se mudarem para aquela zona da cidade, ganhara o hábito de passear nos jardins. Observava com atenção as moitas de rododendros, os jardins de buxo, conhecia a floração dos pilriteiros e dos morangueiros anões. Gostava de ler num recanto mais sombrio do jardim. Certa manhã, fora surpreendida por um homem que a interpelou sobre o livro que lia. Conversaram. O homem, professor de literatura moderna, achou graça ao desmerecimento que lhe mereciam os autores clássicos e consagrados. Aninhas não os lia. Achava-os enfadonhos mas assumia, com espantosa assertividade, esse aborrecimento. Após alguns telefonemas, aceitou almoçar com o professor de literatura moderna. Numa tarde de tédio, beijou-o, e numa tarde de maior fadiga, despiu-se e adormeceu nos seus braços. Encontravam-se, desde então, ocasionalmente num apartamento com marquises de alumínio, perto da Paiva Couceiro. A relação com o amante, apesar de intermitente, era estável e duradoura, de alicerces fundos, betonada. Exactamente como o seu casamento.

2011/09/07

2011/09/06

Aprendiza

O Joaquim anda por ali a matar todos os seus filhos com a espada de laser que recebeu no aniversário. A minha filha, aproveitando a distracção do irmão, que sempre reclama o trono, senta-se ao meu colo. Conto-lhe, a seu pedido, os pormenores de cada um dos partos. A dor que vem, toma conta de nós, uma dor tão grande, parece que rebentamos, uma dor que, de tão intensa e absurda, logo se esquece. Explico o que senti quando os vi pela primeira vez. A estranheza de não sentir amor quando nasceu o João. Estava à espera de sentir, ao primeiro olhar, um amor absoluto, era o que as outras mães contavam. Eu, em frente da incubadora, olhando aquela criança estranha, feia e frágil, desejei apenas não estar ali, quis ir-me embora e nunca mais voltar. O amor veio mais tarde, muito mais tarde, pelos seis meses, pelos nove, não sei, no tempo exacto, até lá era só instinto de protecção igual ao de qualquer outra fêmea.

Explico que, em relação a ela, não senti estranheza perante a ausência desse amor. Já sabia que custava a chegar. Senti, isso sim, deslumbre, eras tão bonita e perfeita, nasceste de olhos abertos, pronta para o mundo, exactamente como te imaginei e desejei. Já o Joaquim, esse que para aí anda de espada de laser em punho, foi diferente, o desespero fez-me amá-lo mal o vi, precisei de o amar, urgentemente, achei, imagina tu o disparate, que só o meu amor o podia salvar. A conversa continua. Busco pormenores: a luz na enfermaria de recobro, as enfermeiras do serviço de neonatologia, de batas coloridas e sapatos confortáveis, crocs cor de rosa e azul turquesa, o livro que levei para ler e não li, as flores que a Mila me ofereceu, eram ervilhas de cheiro, ou bocas de lobo, flores de cacho, perfumadas, tão difíceis de encontrar nas floristas em Lisboa.

Achas que os homens conseguiam dar à luz? pergunta a minha filha, pouco depois, provocadora, sabendo que não resisto à deixa. Largo o tom sentimental que uma pessoa sempre imprime ao deslindar de memórias bravas. Um homem era lá capaz de aguentar o martírio de nove meses de bucho cheio, nunca, jamais, em tempo algum, são uns miseráveis, todos sem excepção, do teu avô ao teu pai, passando pelos teus tios, amigos, colegas, primos, conhecidos, desconhecidos, grandes e pequenos, nem um se aproveita, até os teus irmãos, não obstante o esforço hercúleo que faço, hão-de aprender a mediocridade, terão, daqui a meia dúzia de anos, a imbecilidade própria do seu género. Ignomínia e presunção . Ela ri, com condescendência, do meu exagero, mas é uma boa aprendiza. Percebe que o desprezo é uma arma essencial na guerra. Usa-se para disfarçar o resto.

2011/09/04

Cova do Vapor

Este ano não posso ir com o meu pai à Índia. Fiquei triste, tão triste, uma saudade moendo por dentro. Pedi-lhe, em alternativa, para me levar à Cova do Vapor.

Mau

O novo disco do Chico Buarque é mau. Tão mau que o ofereci à minha irmã.

2011/08/31

Nível

Posso falhar o editorial, a crónica do MEC, mas leio, com fidelidade diária, a meia dúzia de mensagens eróticas do Público. Interessam-me. Não há rabos, nem mamas gigantes, não se prometem regabofes, nem orgias, não há gays, nem travestis, nem peludinhas, nem rapadinhas. Não há quantidade, mas qualidade. Tudo é elevado, discreto, a prostituição apresentada como coisa distinta, secreta, aristocrata até. Esta semana, porém, três senhoras de alto nível, na sua vitrina do jornal, tem vindo, diariamente, à procura de cavalheiros educados para troca de meiguisses em apartamento de luxo. Se se tratasse de um anúncio publicado no diário de notícias ou no correio da manhã, uma pessoa ainda fechava os olhos. Agora, ali, no Público, no meio da Regina, balzaquiana, senhora culta, licenciada, elegante e do centro de massagem sensual para cavalheiros de nível, o erro ganha outra dimensão. Torna-se grosseiro e tacanho, sobretudo, profundamente desmotivante. Por muito empenhadas que as três senhoras de nível sejam, por muita competência prática que tenham no desempenho do seu ofício, boas mamadas, penetrações profundas e apertadinhas, qualquer cavalheiro de nível, educado, terá de declinar a amável convite. As meiguisses prometidas destoam da elevação geral da coisa. Parecem mal.

Rapaz

O rapaz trabalha no meu edifício. Anda sempre com um livro por baixo do braço. Todos os dias, pela hora do almoço, se senta nas arcadas, perto da saída de torniquetes, no exacto lugar onde, pela tardinha, as mulheres das empresas de limpeza, antes de iniciarem a última etapa do seu longo dia de trabalho, se sentam a comer sandes de chourição. Fuma cigarros solitários e, alheio ao burburinho cidade, lê. Pernas cruzadas, ligeiramente estático, rígido, pessoano. É assim todos os dias, esteja sol, vento, frio. Aguenta os chuviscos envergonhados, só a chuva maior o arranca dali. Concentrado, forçadamente concentrado, parece não notar o ruído da rua. Não repara na porteira do hotel de luxo, o cabelo preso num rabo-de-cavalo, cartola de fita vermelha, farda castanha de requinte pateta. Não sabe que, dentro do bolso da farda castanha, a porteira guarda um apito que, volta e meia, tira e sopra para chamar os táxis que levarão as esposas angolanas até à avenida da liberdade, onde comprarão, com a soberba própria das elites dos povos libertos, jeans armani e sandálias da christian louboutin. O rapaz parece também não escutar as conversas sobre futebol que chegam do quiosque dos jornais, a análise diária, exaustiva de cada lance polémico, de cada falta não assinalada. Não vê as raparigas que saem das seguradoras, vêm aos cachos, cigarro ao canto da boca, emancipadas, camisolas de fibra justas, decotes fundos, roliças, bronzeados ordinários. O rapaz é um estranho leitor: autista, rápido, sôfrego. Lê com urgência que é sempre um modo errado de se ler. Topo-lhe há muito tempo as leituras e, digo-o sem exagero, quase todos os dias, traz um livro novo.

Antes das férias, por exemplo, andou de volta dos clássicos russos. Numa semana – uma semana tem apenas sete dias – vi-o de roda de dois romances do Dostoievsky e do mais longo romance do Gogol. Como se pode despachar numa semana três obras-primas da literatura universal, duas densas, a outra divertida, mas todas merecedoras de tempo? Tamanha imaturidade irritou-me. Foi por causa do rapaz das arcadas, do seu modo de ler, imberbe, que decidi também levar um russo para as férias. Escolhi o Turgueniev. Gostei moderadamente do livro. Já estava farta do niilismo e da misoginia do tal Bazarov. Sou, sempre fui, pelo triunfo da emoção sobre a razão. Podia ter lido livro em menos noites. Porém, li-o devagar, poucas páginas de cada vez, uma leitura prolongada, preguiçosa, propositadamente indolente. Só para fazer pirraça ao rapaz das arcadas.

2011/08/29

Saramago (2)

Não sei explicar por que razão, passados tantos anos, recordei, com detalhe, este episódio enquanto assistia ao documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Talvez fosse apenas o sul a chamar por mim. Quando desliguei a televisão e o silêncio se instalou pensei assim: afinal gosto deste homem. No dia seguinte, partilhei o entusiasmo com a minha irmã. Gozou-me, como sempre faz, soltou uma casquinada valente, e disse qualquer coisa do tipo ó mana, és tão inconstante. A conversa é sempre a mesma. A minha inconstância é um axioma familiar. Ultrapassada a questão ideológica, a minha irmã percebeu que apenas a sordidez da vidinha privada podia reavivar o meu desprezo pelo Saramago. Então tu não sabes que ele batia na primeira mulher?, atirou ela com uma ponta de maldade, sabendo que poucas coisas me revoltam mais do que homens que batem em mulheres. Deves ser completamente louca, disse, e acabei, naquele preciso instante, a conversa, desligando-lhe o telefone na cara. Engoli em seco e meti O Ano da Morte de Ricardo Reis na mala de viagem. Livro extraordinário. Descoberta tão boa na frescura da noite alentejana. Li-o com espanto, deliciada, feliz por o estar a ler. Fiz listas de palavras. A minha filha quis saber por que é que, volta e meia, sublinhava o livro. Estou a caçar palavras, em cada página, caço uma palavra, expliquei e pusemo-nos a olhar a caçada.

Ainda não tirei a limpo se o Saramago batia ou não na primeira mulher. Não quero saber. Reconheço a sensatez dos que dizem que interessam os livros, não os escritores, interessa pouco aquilo que pensam sobre o mundo, é irrelevante a sua vida privada. Fossemos nós, leitores, à procura, em quem lemos, de exemplos de vida, heroicidade, liberdade, valores sólidos, e ficávamos à míngua, sem nada para ler. Está tudo muito bem. É assim mesmo que deve ser. E, no entanto, foi a descoberta da intimidade, a dança das rotinas diárias, a partilha de um amor maior que a vida, essa extraordinária capacidade de encontrar o sagrado nos gestos profanos, banais e indignos, que me levou a ler um escritor, por mim, há muito, proscrito.

Saramago (1)

Certa vez, explicaram-me o óbvio, que os homens não podem ser confundidos com as suas obras, é uma injustiça quando isso acontece, que visse o caso da Leni Riefenstahl, a luminosidade nas filmagens, as paradas nazis filmadas como um bailado, a técnica apurada. Escutei, em silêncio, o sermão. Por fim, disse que me estava nas tintas para a leni reifenstahl, fascista, grande puta nazi, nojenta, eu era lá capaz de apreciar a obra de uma mulher que andou a mamar no Hitler, e continuei a alimentar, anos fora, activa e dedicadamente, as minhas embirrações artísticas, sobretudo, as literárias. Entre os escritores, um ocupou, até este Agosto, o pódio do meu desprezo mais profundo e sincero: o Saramago. A embirração que lhe tinha, alicerçada em meia dúzia de coisitas sem importância – o comunismo senil e bacoco, a triste falta de liberdade, a visão injusta, manietada do mundo - ficou totalmente descontrolada quando, por ocasião da atribuição do Nobel, uma prima, juíza de profissão, por acaso, comunista, também, leitora exclusiva de leis, decretos-leis, despachos normativos, portarias, manuais de direito, decidiu ler, de empreitada, todos os livros do camarada. Cada vez que me encontrava nas festas de família, punha-me a par dos livrinhos já lidos e ficava horrorizada perante o meu desinteresse pela obra do nobelizado português. Já só me falta este e aquele, dizia ela, em jeito de desafio, arreganhando uma dentição perfeita. A literatura feita contabilidade, autêntico horror. No Saramago, nada me agastava mais, do que ouvi-lo, seco, esguio, frio, severo, falar constantemente do Nobel, atribuindo ao prémio uma importância que não tem. Sobretudo, eriçavam-se-me os pêlos quando o escutava dizer nubél, assim mesmo, nubél, tornando tónica a segunda sílaba, pronunciando a palavra à sueca, não à portuguesa, como toda a gente. Pobre coitado, pensava eu, podes ter ganho o nubél, mas não deixas de ser um serralheiro mecânico da Azinhaga do Ribatejo.

Mas a vida, como se costuma dizer, é uma caixinha de surpresas e, quando menos esperamos, apanha-nos desprevenidos. Até as embirrações mais sólidas, que julgávamos de pedra e cal, enterradas no fundo do nosso ser, se vão embora. Aconteceu-me este verão. Precisamente com o Saramago. Apanhada de surpresa, numa noite vazia, de angústia leve, dormiam os miúdos, dei comigo a ver o documentário do Miguel Gonçalves Mendes. Passava no segundo canal. Escutei a voz do escritor, vi o medo da morte dentro dos seus olhos, enterneci-me com a sua figura frágil, e lembrei o meu avô José, que não foi serralheiro mecânico, mas carpinteiro. Foi então, enquanto via o documentário, que lembrei um episódio esquecido da infância.

O meu avô, sentado no quintal, junto da porta de fitas da cozinha, as calças arregaçadas, os pés descalços, preparava-se para lavar os pés numa bacia de alumínio que refulgia com o sol da manhã. Eu andava por ali a brincar com a minha irmã e com a minha prima, não a que é hoje juíza, com essa brincávamos, de quinze em quinze dias, no apartamento dos pais na Buraca, mas com a Filomena, robusta e bonita, suinicultora de sucesso, tem agora onze pecuárias à sua responsabilidade, trinta e seis trabalhadores, romenos e ucranianos, não encontra um único português que queira sujar as mãos a limpar bosta de porco. No meio das cabriolices, reparei no meu avô descalço, deixei a brincadeira, e pedi-lhe para me deixar lavar-lhe os pés. Estranhou o pedido, mas anuiu com um sorriso. O sol aquecera a água, estava morna, peguei numa barra áspera de sabão azul e branco e lavei-lhe os pés. Primeiro um, depois outro, com vagar, como se fossem objectos frágeis. O meu avô agradeceu-me e deixou-se estar assim, de pés descalços descansando ao sol. Tirou o canivete do bolso e pôs-se a descascar um pêro. Olhando aquela pele muito branca, de porcelana, translúcida, uma pele delicada, virgem, macia, que contrastava com as unhas amarelas, grossas e torcidas, senti vontade de beijar os pés do meu avô. Se não o fiz, foi porque, já naquela altura, apesar da idade, me apercebi da inadequação daquele desejo.

2011/07/25

Femmes Infidèles



Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles.

(Volto em Setembro.)

I-Phone

Conheço um casal feliz. Digo-o, a sério que o digo mesmo, sem ponta de sarcasmo. Nunca discutem. Vivem em perfeita harmonia, sem preocupações ou arrelias. Têm uma vivenda em caxias, profissões de sucesso, uma empregada interna, que se chama Bela e é muito competente, faz lasagna de beringela e pinhões, saladas de melancia e hortelã, têm dois filhos, um cão e dois gatos persas, a Amélia e o Zorba. Viajam todos os anos. Tratam-se um ao outro por amor. Amor, diz ela e a voz fica macia, como um novelo de lã. Amor, diz ele e vê-se que há ali um misto de doçura e lascívia, um desejo carnívoro de a tomar, corpo todo, quando a vivenda repousa. Fizeram anos há pouco tempo. Ele ofereceu-lhe um i-phone. Ela, exactamente passado um mês, na festa de aniversário que lhe preparou, também lhe ofereceu um i-phone. É tão bom quando um casal se conhece assim, do avesso.

Quarenta Anos

Aninhas viu-se sozinha na noite dos seus quarenta anos. A empregada não lhe fez quaisquer perguntas. Deitou-lhe os filhos e recolhera já ao quarto onde se entretinha a ver telenovelas brasileiras com os sapatos de salto de vírgula calçados. O apartamento estava mergulhado em penumbra e sombras. Era uma escuridão que a consolava. Lá fora, a noite caíra sobre os jardins da fundação, escondendo as tílias, os pilriteiros, os rododendros; só o perfil, levemente assustador, das sequóias permanecia visível. Aninhas sentou-se no escritório. Faltava-lhe fazer uma coisa. Precisava de ligar para o apartamento das marquises de alumínio, na Paiva Couceiro. Custava-lhe mais acabar a relação com o amante do que a relação com o marido. O casamento assentava num contrato e Aninhas sabia que a dissolução dos contratos se encontra prevista na lei, tutelando interesses, dividindo patrimónios, acautelando as opções de cada um. A lei parametriza a vida; cuida, de forma asséptica e eficaz daquilo que começa, mas também de tudo o que termina. A relação com o amante, porém, não assentava em premissas definidas, era volátil, inexistente. Não havia direitos, nem deveres, nem salvaguardas. Assentava apenas em sentimentos.

Aninhas pensara durante a tarde. Nenhuma justificação lhe pareceu razoável, suficientemente plausível para acabar com aquela relação que pouco exigia e nada deixaria. Na penumbra do escritório lembrou-se então da frase que encontrara nessa manhã escrita na base da estátua na praça central da cidade. Discou o número da casa do amante. Já não te amo, Rui, disse-lhe com clareza, antes que ele pudesse cumprimentá-la. Era uma frase curta. Dita de supetão, não lhe exigia grande fingimento ou dissimulação. Porém, de tão absurda, ao dizê-la, teve vontade de soltar uma gargalha pequena. Coibiu-se, porém. Pressentia que o amante sofria do outro lado da linha. Talvez chorasse quando desligasse o telefone. Dificilmente encontraria nos corredores da faculdade uma mulher como Aninhas. Costumava desabafar, nas horas clandestinas que passavam no apartamento de marquises de alumínio, que as colegas cultivavam uma feminilidade esclarecida. Eram, mais coisa, menos coisa, uns estafermos. Não tiravam o buço e, no tempo quente, usavam vestidos pingões que mostravam corpos macilentos. Aninhas não lhe queria mal. O amante, no fundo, assegurados que estivessem os mínimos de beleza e voluptuosidade, acreditava na igualdade de géneros, nas relações assentes no diálogo, na genuidade dos sentimentos nobres, no amor, enfim. Era um bom homem, mas demasiado moderno para perceber que a sua decisão assentava em critérios de pura racionalidade. Não lhe podia explicar que já não precisava dele. Terminado o casamento, podia acabar com a relação que o sustentava. Aninhas sabia o que fazia: deitava-o ao lixo. Dispensava-o como aos sapatos com salto de vírgula que oferecia à empregada.


2011/07/21

Roda Viva



(tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.)

Afife

Não tenho dinheiro para mandar cantar um cego. Ando numa lufa-lufa, uma autêntica formiguinha, a ver se poupo o suficiente para, em Dezembro, sem grande rombo nas finanças domésticas, voltarmos à Índia. Vai sendo tempo do Joaquim conhecer a tia Maria, a preferida de Salazar, o cristo falante, os deuses crepusculares do quintal, sempre em folguedos perigosos, de penetrações fundas e posições estranhas, camuflados, parecem aranhas, muitos braços e muitas pernas, é preciso estar com muita atenção para os ver. Quero que conheça a mesa da cozinha corrida, os pratos de alumínio, as meninas da casa fazendo bolas de comida, metendo-as à boca, sorrindo. Quero que brinque no jardim de cóleos, crótons e filolendros da casa de Pondá, que me veja velha no rosto da tia Amália, no meio dos cóleos, crótons e filolendros da casa de Pondá, que faça festas aos gatos escanzelados do mercado de Margão, as peixeiras sentadas de cócoras, a saia do sari arregaçada, presa pela frente, para não se sujarem nas águas lodaçais, cheiinhas de ouro, escravas nos braços, arrecadas pesadas nos lóbulos das orelhas, cordões grossos à volta do pescoço, parecem as peixeiras de Afife, da Póvoa, da Nazaré, ser peixeira é arte universal e a aurífera ornamentação constitui em qualquer parte do mundo requisito essencial para bem se exercer a profissão. Lembro agora: quando era pequena, muito pequena, durante a primeira infância, queria ser peixeira, não me imaginava a ser outra coisa, muito menos o que hoje sou, nem sabia que podemos levar a vida assim, com cordas a prenderem-nos os pés e as mãos. Ia com a minha mãe à praça de Moscavide e especava em frente das peixeiras. Desejava ser como elas eram: poderosas. Mexer no peixe, sardinhas, carapaus, besugos, salmonetes, bicas, sentir-lhes o coração ainda a palpitar, o corpo quente, dizer assim, ainda está vivinho, depois, arrancar-lhes as tripas, o interior gelatinoso escorrendo pelas mãos, escamá-los, conversar com as freguesas, entregar-lhes a morte dentro de um saco de plástico. Se tivesse dinheiro, algum dinheiro, ia à Índia todos os anos e comprava um quadro da Armanda Passos.

2011/07/20

Teresa Torga



(mulher na democracia não é biombo de sala.)

Agualva-Cacém

O Sr. Guia está reformado há meia dúzia de anos. Sempre que vem ao serviço almoçar com a Laurentina da correspondência, sobe ao nono piso para me ver. A fugir, como quem cumpre uma obrigação, pergunta pelos filhos, pelo trabalho. Depois, a conversa é sempre a mesma: uma pena vivermos tão longe, tanto que gostava de te treinar, correr sozinha é bom, faz bem ao corpo e à alma, é assim uma espécie de bálsamo, mas não se avança, é preciso companhia para alargar a passada, para aumentar o ritmo, para não desistir, fazer repetições, aprender a respirar, se viesses correr comigo, num instantinho, te punha a correr a meia maratona. O Sr. Guia mora no Cacém, na outra ponta do burgo, é um atleta por quem tenho muita admiração. Com 67 anos, corre maratonas. Quando me vem com a conversa dos treinos, atiro-lhe sempre com a desculpa dos filhos, então o senhor não sabe que estou sozinha com três crianças, a calendarização para mim é um luxo, não tenho tempo sequer para respirar quanto mais para me comprometer, quando arranjo quem fique um bocadinho com eles, uma tia, uma prima, os avós, o pai, calço os ténis e corro. Pequeno, não é maior do que eu, muito magro, um bigodinho fino, o Sr. Guia tem uma voz antiquada, colocada, ligeiramente aguda, solta muitos ahs! Mal me calo, é com essa voz antiga que remata a conversa, ai, sua malandreca, estás é a arranjar desculpas para não treinares em condições! Acompanho-o ao elevador, pergunto-lhe pelas provas, pelos tempos, o meu interesse não é genuíno, mas gosto de lhe retribuir a generosidade e o entusiasmo.

Vem a conversa do Sr. Guia a propósito do R. que me levou os miúdos para a praia. Uma semana inteira sem os ver, os três ausentes, assim de uma assentada, não estou habituada, não sei que fazer com o tempo. Despedi-me deles e, mal virei costas, vi a solidão encostada à ombreira da porta do meu apartamento, prontinha para entrar e fazer-me companhia, oferecida, langorosa, como se estivesse sentada na sala de apresentação de um prostíbulo. Fingi não a ver e fechei-lhe a porta na cara, ainda a ouvi dizer ai, com a força, pensei eu, magoei-a no septo nasal, vulgo cana do nariz, feita de ossos moles, cartilagens alares, dói que se farta quanto batemos em algum lado. Entrei, pois, em casa, disposta a não deixar a solidão fazer de mim gato e sapato. Telefonei ao Sr. Guia a perguntar-lhe se ainda me queria treinar. Que sim, olha a pergunta, era um homem de palavra, tinha até muito gosto, que fosse ter com ele no dia seguinte, apanhas o comboio e saias em Agualva-Cacém, vou buscar-te à estação. Assim tem sido, apanho o comboio, lancho na cozinha da D. Cremilde, onde há flores de plástico, um naperão de linha mesclada em cima de uma mesa lacada, um televisor sempre ligado na tvi, como uma sandes de marmelada – é para teres energia!- e um iogurte sólido. O Sr. Guia chega com os seus calções azul, camiseta de alças, ar sério, esfregando as mãos. Saímos para correr.

2011/07/16

Correr



(15 Klm. A meia maratona de Setembro que me aguarde.)

2011/07/13

GG

Almada

Isto é um caderno-diário, narcísico e ensimesmado. Que se lixe o país, a crise, os eurobonds, a moddys e o resto. Há quem leia este caderno-diário. Há quem goste. Há quem deteste. Há quem se esteja a borrifar, atitude tão sensata. Não tem comentários porque não quero. Tem mail por uma razão simples. Gosto de receber mensagens a elogiar-me o estilo, a virulência, a dizer que bem que escrevo. Fico radiante durante dois ou três dias. Por vezes, acontece o contrário. Escrevem-me a dizer que sou pretensiosa e coisa e tal, uma sopeira armada em intelectual. Mandam-me à merda, que é coisa ultrajante.

Há que saber insultar decentemente e com veemência. Não é difícil. Eu quando insulto alguém mando-o(a) para o caralho ou para a puta que o pariu. Não é original, mas cumpre com eficácia os desígnios do insulto. Aproveito a deixa para te esclarecer: não era a tua mãe que eu insultava quanto te chamava filho da puta. Era a ti. A tua mãe, no insulto, funcionava como nada, como um instrumento para te magoar. Eu era lá capaz de insultar a tua mãe. Coitadinha. Até me deu uma prenda de Natal tão útil. Um aspirador da Bosch, metalizado, com controlo de sucção na pega do tubo. Para terminar e retomando o fio à meada, peço um favor: elogiem-me à vontade, insultem-me quando vos apetecer, mas não me mandem mensagens a oferecer o ombro, a consolar-me, a achar que sou uma desgraçada de uma mãe sozinha, deprimida, suicida. Há quem aprecie esse tipo de lambuzadelas peganhentas, com consistência de ranho e cheiro putrefacto de traques inaudíveis de velhinha (sei do que falo). Não suporto a mediania de tais sentimentos. Provoca-me brotoeja, prurido, náusea, cefaleias e taquicardia.

(Estive em Almada, durante a tarde. Vista das janelas do tribunal, a cidade mostrou-se, luminosa, quase bonita, ela que é uma cidade feia. Cheirava bem. A madeira encerada, a casa antiga, de corredores frescos e limpos. Nunca uma cidade me cheirou assim.)

2011/07/12

Gotas

Ainda tão perto de Lisboa, ali quando a auto-estrada passa por Alhandra, a cimenteira, a capela no altinho, a linha do norte marcando o fim à vila, os álamos que deitam uma sombra baça, cheia de poeira, sobre os prédios antigos, iguais aos de Moscavide e Sacavém, ali, ainda tão perto de casa, a curva do rio a ver-se, e já eu ia leve, levezinha, a bater os dedos no volante, esquecida da carraça que me chupa o sangue e deixa os vasos quebradiços, os órgãos secos, a traqueia estrangulada em muitos nós, quero respirar e não consigo. Fui e voltei. Cheguei a casa, deviam ser nove da noite, retemperada, consolada, o bem que a música me faz, é preciso tão pouco para me animar. Mal abri a porta veio a prole enrolar-se nas minhas pernas. Beijos e abraços, gotas de mercúrio, inchando até serem uma só, também gosto muito de vocês, tanto, são a luz da minha vida, o melhor que a vida me deu, o resto que se lixe, não fossem vocês, ricos amores, e já me teria lançado ao mar, num lugar de águas escuras, profundas, onde um peixe antigo, luminoso, iridescente, de fiadas de dentes fininhos, me arrancasse o corpo ao pedaços.

Virei-me para a minha mãe. Pedi-lhe para os aturar mais uma hora. Calcei uns ténis. Lá fora, a noite abafava, nem uma brisa se levantava do rio, era uma noite de verão, estática, andavam as tainhas mais moles do que é costume, nadando aos círculos que o cerebelo carregado de nafta e gasolina deixa-as muito estúpidas, vinham com a cabeça à tona para olhar com os seus olhos amarelos as estrelas e a lua. Não se via ninguém. Passei apenas por um homem grisalho que passeava um cão minúsculo e levava pelas costas uma mochila das jornadas peninsulares de psiquiatria. Atrasei o passo. Corri durante uma hora. Voltei a casa. Despediu-se a avó. Tomei banho. Deitei-me. Olhei a secretária e o computador. Lembrei-me dos meus propósitos, tão boas as minhas intenções, agora que ninguém me reclama, agora que ninguém me cansa, hei-de escrever todas as noites, um bocadinho de lixo todas as noites. Não custa nada. Até ter um lixo de muitas páginas. Apaguei a luz. Mal a escuridão entrou no quarto, pensei em mamas, rabos, pénis muito tesos ejaculando para dentro de bocas. O orgasmo veio fácil, em meia dúzia de segundos, numa vertigem, sem esforço, uma coisa sem jeito nenhum, sensaborona, aguada, desoladora, profundamente triste.

Adormeci. Às três da manhã, bradou o mais pequeno. Preciso de ti, disse e subiu à minha cama com o coelho Botelho na mão. Primeira gota. Às quatro da manhã, veio a do meio, vestia uma camisa de noite cheia de anémonas, tão frágil, tão delicada, a minha filha, como uma gota de água. Tive um pesadelo contigo e com o pai, explicou. Fica, meu amor, que a noite não silencia os medos, nunca a escuridão os apazigua. Segunda gota. Às cinco da manhã, chegou o mais velho, um cristo cigano, sem dizer uma palavra, dormia ainda, dormia de olhos muito abertos, trazia o corpo fluído de prata. Ocupou na cama o lugar do pai. Terceira gota. Adormeci a um canto, meio corpo de fora, caindo para um abismo de espinhos e névoas. Acordei de madrugada, chilreavam os pardais e os melros nas árvores da praça, piu, piu, piu, piu, um frenesim matinal muito bom. O mais novo despertou com o alarido dos pássaros. Galgou o corpo da irmã e livrou-me do precipício. Beijou-me e adormeceu.

2011/07/02

2011/06/29

Under My Thumb

Armários Vazios

Dora Rosário tinha 38 anos. A filha descrevia-a como uma mulher sem idade e sem solução.

2011/06/27

Havana

Almoço na esplanada do centro budista da rua D. Estefânia. Tenho por companhia a única amiga da faculdade que me resta. As outras, fui-as perdendo à medida que fui tendo filhos. Um gato preto espreguiça-se, molengão, por baixo de um estendal de roupa velha, esgaçada pelo uso. Ao fundo, as ruínas de um edifício austero, um asilo, um hospício, erguem-se como um gigante furioso. Lembro o sonho desta noite. Voltei a sonhar com a minha morte. Fico ao corrente da vida de quem não me interessa. Gente que não vejo há quinze anos. Tomo consciência de que, do grupo da faculdade, fui a primeira a separar-me. Serei, porventura, por enquanto, a única. Essa vantagem conforta-me. Entre outras coisas, fico a saber que um dos meus pretendentes da faculdade - tive dois: um, socialista, pouco asseado, porco mesmo, patologicamente mentiroso; o outro, conservador, dado a fados, touros e putas - é um homem de sucesso. Acaba de comprar o seu primeiro carro de luxo, um porshe, e está a ponderar comprar uma casa em Havana por apreciar a vida nocturna, os mojitos e daiquiris, as mulheres que se compram. Emociona-se com a decadência do socialismo cubano. Ainda não sei muito bem o que sentir em relação a isto. O que sinto em relação a isto? Não sinto nada. Não sinto sequer nojo ou alívio. Dispenso o porshe e a casa em Havana. O que quero é um homem com sentido de humor.

(Por que é que as mulheres, quando instadas a se pronunciar sobre as qualidades que apreciam no sexo oposto, afirmam que o que procuram é um homem com sentido de humor? Que utilidade tem um homem com sentido de humor? Para que serve? A maior parte das mulheres raia a imbecilidade. Eu, quando quero rir, escuto a Maria de Medeiros cantar, oiço as entrevistas do João Marcelino ou leio as análises do António Perez Metelo.)

2011/06/25

Subúrbios



(Meti um anúncio no jornal e ninguém respondeu.)

2011/06/24

Igreja



(Abraão imolando o filho.)

2011/06/23

Perfil

Não percebo o entusiasmo à volta da ideia do cheque ensino. Quem põe os filhos num colégio, não procura apenas a excelência do ensino, o rigor e a exigência. Procura, sobretudo, a segurança da segregação social. É a segregação social que dá garantias de sucesso. Quem opta por certos e determinados colégios fica sossegado por saber que deixa os filhos numa espécie de condomínio privado, onde se ensina a caridade, se cultiva comedidamente a piedade, enobrece sempre o carácter, mas longe de pretos, ciganos, brancos que são como pretos, demais proscritos. É por essa razão, sobretudo por essa, que sujeitam os filhos a avaliações psicológicas, que se sujeitam eles próprios a entrevistas, onde explicam o que fazem e onde moram. Esmiúçam, ansiosos, detalhes e valores familiares, para se enquadrarem no perfil pretendido. O cheque ensino, em abstracto, elimina constrangimentos financeiros, permitindo que famílias mais pobres possam optar por estabelecimentos de ensino privados, mas não apaga o resto. Quem é da Brandoa, da Buraca, de Unhos, do Catujal, será sempre desses lugares. Os pais que escolhem o ensino privado, se, de repente, vissem a prole acompanhada pela prole das suas empregadas, procurariam rapidamente outro colégio onde a selecção se continuasse a fazer. Não condeno as preocupações dos pais que assim agissem. Percebo-os perfeitamente. Se a escola dos meus filhos fosse, assim de repente, por imposição do governo, inundada por camafeus pequenos, tratando-se por você, armados ao pingarelho, também eu correria a tirá-los de lá. Gosto pouco de misturas.

Querido Diário

2011/06/22

Marguerita

Faz hoje um ano que tomei uma caixa de Xanax, disse a mulher ao empregado do bar. Depois calou-se, estranhando as palavras que se tinham soltado da sua boca. Nunca ninguém lhe falava desse dia. Nem o marido. Nem os irmãos. Nem os pais. Nem a única amiga que tinha. Era como se não existisse. Como se outra, que não ela, tivesse naquele dia rondado o bairro de Chelas à procura de espantar a dor para os homens que, sonolentos, despertavam para a manhã. Como se outra, que não ela, tivesse escutado os renhaus dengosos que as mulheres lhes lançavam das janelas dos prédios de habitação social. No fundo, aquele dia só existia para ela, para mais ninguém. Por isso o celebrava sem que os outros soubessem, bebendo ao final do dia, num bar da rua de São Paulo. O empregado do bar voltou e pousou no balcão um copo triangular, com gelo moído e hortelã fresca. Sorriu-lhe de forma profissional, asséptica, como a querer dizer-lhe olhe que eu também tenho os meus problemas, não estou com disposição para confissões. Mas a mulher não o percebeu. Ou fingiu não o perceber. É triste uma pessoa falhar até na morte, não acha? e, sem esperar pela resposta, começou a chupar o sal dos bordos do copo.

(Junho nunca mais acaba.)

2011/06/21

Verdes Anos

2011/06/20

Outra

Vinha a sair da estação, de vestido branco, confiante, as pernas bronzeadas do sol, a peitaça enfiada num wonderbra, empinada e postiça, o rabo firme de tantos agachamentos feitos nas aulas de ginástica, a frustração, o remorso, o cansaço como se não existissem. Vinha assim, como se fosse outra, a sentir-me bem, quando a ponta das minhas sandálias de camurça ficou presa na grelha de um respiradouro. Estatelei-me no chão. Fiquei de gatas na queda. Uma rapariga de unhas de gel, esboçou um sorriso, feliz com a minha humilhação. Foi o negro que costuma estar a distribuir papelinhos do professor karamba quem me levantou. Agradeci-lhe. Larguei a outra, peguei em mim, e, manca, caminhei até ao edifício onde trabalho.

2011/06/17

Cama

Teve os primeiros quatro filhos em casa. Como era costume naquele tempo. Pariu no seu quarto, deitada na cama, com a Virtuosa a amparar a queda dos meninos. Era uma cama muito velha, de pinho carunchoso, que ocupava quase toda a divisão. Em vez das habituais cercaduras de raminhos de flores, tinha um pavão pintado no meio da cabeceira. Parecia real. A cauda, raiada de verde e azul, aberta no seu esplendor. Uma pata levantada e o pescoço muito esticado, alongado ao limite, mostravam a altivez do bicho. Mas o que impressionava a Violante eram os olhos pequenos, maldosos e brilhantes que, por arte do artesão, a fixavam sempre. Violante podia estar perto da janela, à porta, sentada no bacio, que o animal lhe fincava os olhos pequeninos. Mesmo quando estava de costas sabia que o pavão a fitava. O bicho perseguia-a, sabia-o, mas não contava a ninguém. Sentindo-se permanentemente observada, nunca os seus gestos eram livres e espontâneos dentro do quarto. Por exemplo, era incapaz de soltar um peidinho. Por pequeno que fosse. Fazia um esforço, apertando com força as nádegas, para estrangular as bufas que queriam fugir-lhe do corpo. Também nunca enfiava o dedo no nariz e acanhava-se de ajeitar as cuecas por baixo da bata. O pavão, pintado na cabeceira de pinho, não lhe admitia a vulgaridade daqueles gestos.

Mesmo quando a noite se abatia sobre o quarto e o seu corpo se tornava difuso, ganhando a consistência das sombras, Violante continuava a sentir-se observada. O marido encavalitava-se nela. Tomava-a com um desejo brusco e urgente. Sabia que o pavão lá estava, olhando-a, exibindo o requinte rendilhado da sua cauda, mangando do seu corpo nu, de refegos e pregas, gozando o marido, inábil na arte de amar, apertando-a com desespero, grunhindo à medida que ejaculava. O bicho, com o seu despeito e altivez, mostrava-lhe que na cama, como no resto, o mundo se divide entre pobres e ricos. Os pobres amam como animais, de uma forma primitiva, sem pingo de afectação, dispensando sofismas e outros engodos, com muita pureza e brutalidade. Os ricos, por vezes, também amam assim. Mas é um excesso, um desaire que se esquece mal as luzes se acendem e os corpos se escondem em camisas de dormir brancas e pijamas de popelina.

Porém, mais do que às investidas nocturnas do marido custava a Violante que o pavão assistisse aos seus partos. Sentia que, durante o nascimento dos filhos, a devassa da sua intimidade era total. O bicho, do cimo da cama, estremecia com tanta curiosidade. Esticava-se todo, ela bem o via, para lhe ver o avesso, fixava os olhos na sua greta dolorosa, os lábios grossos, os pêlos hirsutos, dava conta da crueza da sua nudez. Naquele alarido do nascimento - a Virtuosa, sempre muito suada, pedindo-lhe para fazer força, o quarto abafando com o cheiro de entranhas e sangue -, o bicho dava largas à sua maldade e, facto tão extraordinário quanto a beleza dos meninos de Violante, ganhava vida. Escutava-o, passeando pelo quarto, patinhas de lã, transportando o seu corpo de tinta estalada. Pior, vendo-a ali presa, incapaz de se movimentar, as atenções todos postas na sua parte baixa, baixava-se e bicava-lhe a cabeça. Bicava-a com tanta força, tamanha maldade, que, no último parto, Violante sangrara. Ficou com a cabeça cheia de crostas escuras e grossas. A Virtuosa, habituada às maleitas das puérperas, rapidamente arranjou explicação. Era dos nervos. A maternidade exigia muitíssimo a uma mulher, abnegação, amor, paciência e o corpo, claro está, ressentia-se. Que esfregasse o couro cabeludo com azeite morno. Ajudaria a amaciar as crostas e o cabelo, até o seu, áspero e feioso, ganharia brilho. Violante escutou-a em silêncio e olhou o pavão com os olhos rasos de água. Quando engravidou do quinto filho decidiu que não o teria na presença do animal. Os tempos eram outros, havia luz eléctrica na maior parte da aldeia, numa das mercearias de Grândola vendiam-se cachos de bananas que chegavam do Brasil, muito perfumadas e doces, dizia-se que, em breve, iriam colocar uma televisão na casa do povo. Face a tanto progresso, Violante facilmente convenceu o marido de que não podia continuar a dar à luz na sua cama de pinho. Quando o ventre baixou e sentiu o menino encaixado, a cabeça fazendo pressão nos ossos da bacia, fez uma trouxa e pediu-lhe que a levasse ao hospital de Beja.

2011/06/16

Gorillaz



(Lisboa-Matosinhos)
(Apetece-me coisa e tal quando oiço esta canção.)
(Até me esqueço que sou frígida.)
(Não uso a palavra começada por f - singular na língua portuguesa pelo facto de não ter um único sinónimo - porque o meu pai me lê.)

2011/06/14

Diane Arbus


(eu, fantasma.)

Chacuti de galinha

Fomos visitar a campa dos meus avós. A minha mãe, mal entrámos, baixou a voz, procurou o tom adequado à solenidade do lugar e, assim que o encontrou, pôs-se a choramingar. O João trouxe um balde com água e, com um trapo, esfregou a campa. A Dá procurou pedrinhas para prender as rosas artificiais que comprámos no chinês perto da praça e que ficarão ali até o sol lhes comer a cor. O Joaquim galopou no meio das campas, tão lindas, muito brancas, cheias de anjos e vasos de flores de plástico. Só parou de galopar quando esbarrou na sebe de buxo e lhe descobriu o cheiro. Enterrou o nariz no meio das folhas e já não o tirou. Olhei-o e tive a certeza de que aquele menino me pertence. Um filho pode habitar-nos o corpo, ter as nossas feições, os nossos traços, carregar a nossa herança, e nunca chegar a ser nosso. Vendo os meus filhos tão à vontade cuidando dos nossos mortos, exigi antenção e expliquei-lhes que quero ser enterrada ali, perto do caminho dos montes. Assegurei-lhes que, se me enterrarem em Lisboa, voltarei espectro medonho, pior do que em vida, um demónio assustador para lhes atrapalhar a felicidade. Riram-se, como se a morte, a minha, fosse coisa muito distante e impossível. Foi então que a tia Dé, assim do nada, sem nunca ter falado em tal assunto, aproveitou a deixa para dizer que quer ser cremada. Disse-o de forma decidida, sem hesitações, com a mesma segurança com que, em nova, no serviço de politraumatizados de São José, se punha em cima de um doente quando era preciso imobilizá-lo. Com a mesma segurança com que, já aposentada, cantava a Grândola, Vila Morena, avental posto, pantufas nos pés, punho erguido no meio da sala, a desafiar os deuses de sândalo do meu pai. Olhei-a com surpresa, tanto amor. Deves estar completamente louca, disse-lhe calmamente. Esclareci que, no que dependesse de mim, nunca seria cremada, não a quero feita cinzas, uma poeira de nada, enfiada num pote, guardada num nicho ou numa gaveta. Na morte, como em vida, estaremos todos juntos, naquele cemitério pequeno, à volta de uma mesa, uma jarra de zinias, malvariscos e cristas de galo ao centro, escutando as histórias das inglesas bêbadas da Zambézia, comendo chacuti de galinha, azevias, churros e rodelas de batata-doce frita.

2011/06/09

Isabel Silvestre

8

(Só tenho dois destinos: uma aldeia portuguesa, outra goesa. São duas aldeias feiotas, mas são minhas. O resto do mundo interessa-me pouco.)

2011/06/07

Toque não consentido

Aparece aos domingos para visitar a filha. Volta e meia, tenta beijar-me. Diz que ainda me ama. Toca-me como se fosse uma prostituta. Roça as mãos no meu peito e no meu rabo. Aproveita os momentos em que a filha está presente, mas distraída a olhar para a televisão ou entretida a alimentar o peixinho encarnado. Sabe que não gritarei para não a assustar. Quero poupá-la ao sofrimento e à minha miséria. São gestos que mal se notam, não deixam marcas visíveis, mas que ele executa com a intenção de me humilhar, de me paralisar, para mostrar que continua a ser meu dono. Peço-lhe para parar. Sei que queres, diz-me com despeito. Eu nunca quis. À despedida, volta a olhar-me como que a avisar és um corpo que me pertence. Quando a porta se fecha e voltamos a ser só nós duas, arregaço as mangas e mordo os braços até magoar. Tenho nojo do que fomos. Mas também tenho medo. Não é fácil a gente livrar-se do medo.

2011/06/06

Azul

Três mulheres conversavam ruidosamente sobre a mesa do café, dedos esguios de unhas azuis, torcendo pacotinhos de açúcar vazios. Eram três mulheres e falavam na pausa do almoço, depois de terem comido mini pratos de arroz de pato e bacalhau com natas. Estavam sentadas numa mesa ao lado do balcão dos salgados. Da cozinha, chegava um cheiro denso de gordura saturada que se entranhava nos cabelos e nos tecidos. Um empregado, esguio, acelerava o serviço com gritos. De vez em quando, pelo canto do olho, enquanto esperava algum pedido, olhava o trio. A primeira mulher era bonita, de olhos rasgados e lábios grossos, uma beleza intensa, mas levemente ordinária que apetecia esmagar, lamber, magoar. Tinha as unhas pintadas de azul-turquesa. A segunda mulher era tão bonita como a primeira, mas de um modo diferente. A sua beleza era distante, intangível, virgem, como a de uma santa numa peanha. Trazia as unhas pintadas de azul metalizado. A terceira mulher era a mais bonita porque a sua beleza era, ao mesmo tempo, distante e próxima. Qualquer homem que a olhasse, assim sentada, torcendo um pacotinho de açúcar, sentir-se-ia inquieto por não saber como a classificar. Santa ou puta? Era essa inquietação, esse mistério, que a tornava única e, por isso, mais intensa a sua beleza. A terceira mulher trazia as unhas pintada de azul tempestade. O empregado do balcão dos salgados, porém, parecia não se interessar pela beleza das três mulheres. Dir-se-ia, pelo modo como as olhava, fixando-se nas mãos torcendo pacotinhos de açúcar vazio, apenas estar fascinado pela cor das suas unhas.

(gosto de segundas-feiras e não gosto nada de azul.)

Massamá

Ao pequeno-almoço, enquanto pedia um pão-de-deus e um copo de leite ao Sr. Domingos, vi, na televisão do refeitório, o Pedro Passos Coelho a sair de casa, uma matilha de fotógrafos de roda dele, gente à porta de uma pastelaria-gelataria-sala-de-chá de toldos cor de laranja, uma mulher de bermudas e chinelos enfiados nos pés a apontar para a câmara de televisão, sussurrando qualquer coisa a uma menina que levava pela mão. O facto do Pedro Passos Coelho morar em Massamá diz alguma coisa sobre aquilo que ele é e é bom aquilo que diz.

Americano

Dou o dito por não dito. Larguei o grande romancista americano a meio. Já não podia com o homem. Depois de uma semana a patinar, a fazer um esforço patético para ler duas ou três páginas, larguei o livro com um gesto dramático. Bufei de aborrecimento e corri à procura de quem me animasse. Peguei num livro de contos do José Rodrigues Miguéis e, coisa tão boa, tirei o corpo de misérias. Regalei-me durante duas horas a ler na minha língua e descobrindo frases muito simples, outras tão belas e misteriosas, como esta: a loucura parece uma porta aberta para o mundo das larvas. Li as notas que a minha irmã escreveu a lápis enquanto estudava a obra do escritor. Lembrei esses tempos da universidade em que a desilusão era para ambas apenas um pressentimento, não uma certeza. Não percebo nada de literatura, só gosto de ler, mas sei que um conto de quinze páginas do José Rodrigues Miguéis mete a um canto o romance de setecentas páginas do grande romancista americano.

2011/06/02

Último

Gosto do Damião, açoreano, pronúncia cerrada, não se percebe uma palavra, uma palavrinha sequer, agressivo, rosnando como um cão, sentado na alcatifa felpuda, a jogar ao stop, sempre agarrado ao busto do Vitorino Nemésio. Também gosto do Roberto Leal, meias pelo joelho, maravilhoso na sua filosofia de meia tigela e nas suas palavras de amparo. A Luciana Abreu também não está nada mal. O Último a Sair é dos programas mais divertidos da televisão e mostra como, para se ter graça, não é preciso andar a reboque do estilo gato fedorento. A televisão está cheia de humoristas novos e são quase sempre imitações ordinárias do Ricardo Araújo Pereira. Não há nada mais triste do que alguém querer ter piada e não a ter. Deus nosso senhor, infindável na sua glória, magnânimo na sua justiça, recompense o Bruno Nogueira, o João Quadros e o Frederico Pombares, criadores do programa, por nos fazerem rir numa altura em que, fossemos sérios, responsáveis, nórdicos, andaríamos de sobrolho carregado, aguardando, solenes, preocupados, dilacerados, o resultado de dia cinco.

2011/06/01

A gente normal

Torel

A caminho, apercebi-me dos anos que passaram desde a última vez em que lá estive. Como é possível ter estado tantos anos sem lá ir? Temi que o lugar estivesse diferente: o arvoredo composto, flores postas em cachos de cor de acordo com as instruções de uma qualquer arquitecta paisagista, tubinhos de irrigação nos canteiros como serpentes mortas, candeeiros modernaços, um parque infantil de estruturas ergonómicas e coloridas no lugar da fonte velha, meninos brincando, felizes. Temi que, à semelhança de outros espaços, o jardim tivesse sido objecto de requalificação. Já não encontraria velhos moendo-se, ao sol, com o jogo da sueca, nem bichos-de-conta gigantes, nem musgo, nem verdete, nem sentiria o cheiro da sebe de buxo aparada. Sobretudo, temi, não me encontraria, pequena, um anelzinho de prata no dedo, as unhas roídas, sentada nas raízes de uma árvore, comendo croquetes de carne. Temi que o jardim da minha infância se tivesse tornado num lugar vivo, eu que gosto dele morto.

2011/05/30

Medíocre

Pela manhã, a caminho de Almada, a chuva caindo sobre o rio, a cidade melancólica ficando para trás, pus-me a pensar nas razões pelas quais gostava de tentar escrever um livro. Não foi preciso muito tempo para perceber a razão principal: quero escrever apenas para impressionar o meu pai e os meus filhos. Aos olhos do meu pai, que me ama, sou medíocre. Sou uma promessa que nunca se cumpriu. Um desperdício de vida. Sucumbi à rotina dos dias e serei incapaz de deixar uma marca. Aos olhos dos meus filhos, sou o oposto. Cada um deles, para além do amor que sempre se tem a uma mãe, tem por mim uma admiração que me assusta. Quero escrever para que o meu pai deixe de me considerar medíocre. Quero escrever para que os meus filhos nunca comecem a achar-me medíocre.

Verdes Anos



(a emoção, tão grande e funda, de descobrir esta canção.)

Família

Deixou cá a minha mãe, muito lacrimosa, preocupada com os medicamentos que não tomará e com as restrições alimentares que não cumprirá. Com a desculpa do problema das partilhas que urge resolver, meteu-se no avião e voltou à Índia. Levou muitas garrafas de uisqui e vinho do porto na bagagem que, desconfio, hão-de servir para subornar funcionários judiciais subalternos. Só regressará daqui a dois meses. Vai dando notícias pelo skype. Ontem, contou, foi à praia com a tia Maria, a Fátima, a Melinda e as meninas da casa. A tia Maria é a matriarca da casa de Maina e tem seis netos. Cinco, para seu desespero, enorme frustração, são raparigas. Cinco dotes, cinco casamentos que terão de ser por si planeados. Não é nada fácil encontrar cinco noivos católicos, de famílias brâmanes, com formação superior. É a conjugação destes factores - religião, casta, formação académica - que torna a procura tão difícil. Imagino. Na praia, a tia Maria, a filha e a nora, sentaram-se vestidas, debaixo de um enorme guarda-sol. O sol é inimigo, não pelas maleitas e degenerescências que provoca, mas pela escuridão ordinária que deixa no corpo e é coisa das castas inferiores. As meninas, Lara (a delicada), Ellaine (a bela), Rhia (a inquieta), Lhea (a invejosa), molharam-se até aos joelhos, gozando o mar enquanto lhes é permitido mostrar o corpo. Mais meia dúzia de anos, e, como as suas mães, terão de ficar vestidas debaixo do guarda-sol. Se quiserem tomar banho, terão de o fazer vestidas, a ganga inchando, uma armadura de chumbo selando-lhes o corpo. A nudez será privilégio do leito conjugal. Os seus corpos serão propriedade dos maridos engenheiros, médicos, advogados, farmacêuticos, católicos e brâmanes, assim seja a tia Maria capaz de as bem casar.

2011/05/27

Roda Viva

2011/05/26

Arma

Vesti um vestido branco, justo, de bom corte, e calcei umas sandálias de salto alto. No comboio, na rua, nos corredores do edifício, no tribunal, no portão da escola, senti olhares pousados em mim. Uma morena vestida de branco dá sempre nas vistas. Um advogado, magrinho, olhos aguados, cabelo ralo, de palavra fácil, apresentou-se com um galanteio. É um prazer trabalhar com uma colega tão bonita, explicou e sentou-se ao meu lado. Durante o julgamento deixei a toga aberta para que pudesse apreciar uma nesga das minhas pernas cruzadas. No final, quando despi a toga, senti que os quarenta aprendizes de polícia que assistiam ao julgamento me olharam como fêmea. O juiz foi cortês na despedida e, pareceu-me, se pudesse, teria lambido o meu braço. Acabei o dia, enfiada num pijama puído, a fumar no estendal, com a certeza de que não há nada melhor do que nos quererem pelo nosso corpo. O corpo é uma arma.

Bifidus activo

Rafaela acordou cedo. Com um passo pesado dirigiu-se à casa de banho. Mal acendeu a luz, os bichinhos que se alimentam da escuridão, esgueiraram-se pelas frinchas do rodapé. Ainda tentou esmagar um com o seu pé paquidérmico, mas não consegiu. Sentou-se na sanita de olhos fechados e boca aberta. Sornou baixinho enquanto um jacto de mijo amarelo, morno, afogou os seus sonhos nocturnos. O ruído do filho a abrir as gavetas da cómoda fê-la despertar. Enfiou-se na cabine do duche e lavou-se com um gel de banho cujo aroma era anunciado na televisão como sendo exótico e oriental. Era o cheiro das cerejeiras do Japão que o anúncio prometia. Rafaela não resistia à poesia da publicidade. Por mais que o marido a incitasse a comprar marcas brancas, enchia sempre o carrinho do supermercado com os produtos mais caros que a televisão aconselhava. Dos cereais de fibra com frutos secos aos toalhetes hidratantes para limpar o rabo, das águas minerais com sabores a fruta às bolachas maria com antioxidantes, a sua despensa era um regalo para os publicitários, técnicos de vendas, especialistas em promoções e talões de desconto. Rafaela era um alvo fácil porque, como se costuma dizer, era burra que nem uma porta. Muitas vezes imaginava-se a ser abordada na rua para falar das propriedades do último iogurte com bifidus activo. Havia de falar com segurança das melhorias que notara no trânsito intestinal e também no desaparecimento da sensação de inchamento. Depois, enfiaria uma colher de iogurte pelas goelas abaixo e faria um sorriso encantador.

2011/05/25

Dimokransa



1) Pedro Lomba; 2) Luís Osório; 3)Nuno Costa Santos; 4) Mayra Andrade; 5) Mónica Marques. De Lisboa a Vila Nova de Famalicão são muitas horas a conduzir. Entretenho-me a fazer listas. Listas pequeninas.

Sansão (2)

Sento-me na cadeira. A menina coloca-me um resguardo preto gigante e, por cima, uma toalha cor-de-salmão. Lava-me a cabeça. Com as pontas dos dedos, executa movimentos circulares. Sinto-me nua, exposta, assim, sentada, de cabeça inclinada para trás, com uma mulher jovem a massajar-me a nuca. Há qualquer coisa neste gesto. Não me incomoda escancarar-me numa consulta de ginecologia. Abrir as pernas, sentir uma dedeira em latex, gelada, hirta, a percorrer-me por dentro. É um gesto asséptico e inócuo. Já a lavagem do cabelo sugere-me pensamentos impudicos e secretos. Quando termina a tarefa, a menina que lava as cabeças enrola o turco. Mal me sento, tiro a toalha e começo a secar o cabelo. Volto a olhar-me no espelho. Molhado, o cabelo torna-se ainda mais comprido. Pela primeira vez, consigo fazer uma trança, uma trança grossa, como se fosse a crina de um cavalo. Sempre gostei de penteados fora de moda, que ninguém usa, a não ser as velhas e as inadequadas. Gosto de tranças e de carrapitos, espirais de cabelo cheias de ganchos e elásticos, uma redezinha transparente por cima.


O cabeleireiro chega, por fim. Conheço-o. Não é a primeira vez que me corta o cabelo. Vejo-o muitas vezes, à porta do salão, no intervalo entre dois cortes, a fumar cigarros. Acho-o triste. Nunca o vi sorrir. Está sempre tenso como se, permanentemente, lhe faltasse alguém. Depois de me cumprimentar pergunta, com um sumiço de voz, como quero o cabelo. “Curto, muito curto”. Ele olha-me. Sabe que quando uma mulher arrisca tanto é porque alguma coisa se passa na sua vida. Das duas uma. Ou tem vontade de fechar um capítulo da sua vida e começar de novo, tornando-se numa outra pessoa, ou, então, precisa de se flagelar, de se penitenciar, de se magoar. Cortar o cabelo equivale a uma expiação. Ele senta-se num banco alto, com rodas, e engole uma pergunta qualquer que estava prestes a fugir-lhe da boca. Começa a cortar enquanto cantarola baixinho uma canção. Tesoura em riste, com precisão, vai-me decepando o cabelo. Ceifa-o com golpes profundos. Eu, como quando era pequena, desvio o olhar do espelho oval e começo a contar os vidrinhos de verniz que estão no interior de um cesto de verga.

Sansão (1)

Sinto, de imediato, o cheiro enjoativo das tintas, dos champos, das ceras, dos vernizes, dos cremes-amaciadores, das máscaras capilares. Está quase vazio. Há apenas duas mulheres. Uma está sentada lá atrás e lava a cabeça. A outra está sentada em frente dos espelhos ovais. Uma rapariga de cabelo vermelho seca-lhe o cabelo. A mulher é velha. Usa um fato cor de cereja e uns sapatos rasos de pala. Pintou o cabelo de cinzento, com matizes azulados. Nunca percebi o que leva as mulheres velhas, quase mortas, a pintar o cabelo de azul, roxo, grená, cor-de-rosa. “Quero cortar o cabelo”, digo à rapariga que está na recepção. “Tem preferência por alguém?”, pergunta-me, enquanto fecha um livro de capa azulada que fala de anjos e demónios. Digo que não com um gesto. Indica-me uma cadeira. Dispo o casaco. Tiro os brincos. Retiro os inúmeros ganchos e elásticos que me prendem o cabelo. Enquanto me solto, olho-me. O meu cabelo está comprido, muito comprido, nunca o tive assim. É um cabelo forte e crespo. Tem uma ondulação indefinida que sempre detestei. Desde pequenina que o gabam. Por ser forte. Pela cor que tem. Piche, pez, breu, noite, alcatrão, escuridão, negrume.

Sempre foi assim. Em criança, quando rumava ao cabeleireiro com a minha mãe, as cabeleireiras elogiavam-no sempre. Chamavam-se umas às outras para ver a força do meu cabelo. Eu sentia-me uma espécie de Sansão aprisionado num corpo de menina. A dona do cabeleireiro, uma senhora redonda e feia, com muitos anéis nos dedos, cujo nome não recordo, era quase careca. Por baixo dos poucos cabelos, via-se a pele lustrosa do crânio. Sempre que me via, sentada na cadeira, a fugir com os olhos para o chão para evitar conversas de circunstância, pegava nas madeixas do meu cabelo e dizia “Que sorte, a tua. Quem me dera ter um décimo do teu cabelo!”. Eu fazia-lhe um sorriso, muito forçado, sabe Deus o que me custava aquele sorriso amarelecido e falso, e desviava de novo o olhar para outro canto qualquer do salão. Para os carrinhos cheios de rolos, molas, escovas e tesouras. Ou para os escaparates com frascos bojudos, outros esguios, de cores variadas e apetecíveis. A verdade, porém, é que aquela mulher, gorda, de crânio lustroso, me assustava. Quando ela me dizia aquilo, eu, pequena, sentada na cadeira, imaginava-a uma Dalila feiosa e furiosa, uma espécie de feiticeira, capaz de me lançar um feitiço para se apoderar do meu cabelo.

2011/05/20

Storia Storia

Calor de Agosto

Matou-a com trinta e quatro golpes de faca. Atingiu-a nos braços, nas pernas, no tronco, vazou-lhe uma vista. O médico legista explicou que, pelas marcas, se percebia que a ponta da faca fora torcida depois de enterrada no olho. Para justificar tanta facada, o assassino explicou ao juiz que encontrara, naquela tarde de Agosto, um outro homem em casa. O ciúme falou mais alto. Pegou numa faca e, enquanto o calor abafava o apartamento, escorrendo pelas paredes, metendo-se dentro das loiças do armário, espojando-se nos sofás, esfaqueou a mulher. O calor era muito e talvez tenha sido esse calor de Agosto, tão ardente, que lhe ateou a raiva e permitiu que o ódio se apoderasse de si. Talvez, continuou o homem, se estivesse um dia mais fresco, a raiva não tivesse ardido como ardeu.

Com o calor de Agosto, num instante, a fagulha se ateou e incendiou-lhe o corpo. A culpa, via-se bem, era dele, que não era homem para a não assumir, mas também do calor, do maldito calor de Agosto. O juiz escutou o assassino em silêncio e, sem se dar conta, encontrou alguma beleza nas suas palavras. As vizinhas, durante o julgamento, contaram os pormenores daquela vida. A pancadaria era muita e as discussões permanentes. Discutiam por tudo e por nada. Por causa do dinheiro, por causa do choro do menino, que tinha muitas cólicas, mas, sobretudo, por causa da televisão. Ele queria ver o domingo desportivo; ela queria ver as telenovelas. Os gritos interrompiam o silêncio da noite. Eram gritos lancinantes. Pareciam arrancados de dentro. O homem chamava muitos nomes à mulher, nomes indecentes, porcos e ordinários, nomes que custava repetir ali, na sala de audiências, na presença dos senhores doutores juízes. Porém, explicaram as depoentes, quando amanhecia, a porta do apartamento abria-se e saiam os dois, homem e mulher, a caminho da paragem do autocarro. Como se nada se tivesse passado. Às vezes, quando a mulher trazia o corpo mais moído da pancada, o homem aliviava-lhe a carga e levava o bebé ao colo. Uma mulher contou que, muitas vezes, enquanto ele lhe batia, ela pedia “Amor, por favor, não me batas na cabeça”.

(Esta frase, lida num jornal, não me larga. Acho que nunca me largará.)

2011/05/18

Músculos

O grande romancista americano pesa que se farta. Hão-de os meus bicípites e tricípites braquiais andar mais inchados tal é o esforço matinal que faço para levar o saco do ginásio, o taparuere com as sobras do jantar, nos dias de aguaceiro, o chapéu de chuva e, debaixo do braço, aninhado, o grande romancista americano. Vale a pena o esforço porque o grande romancista escreve como poucos sobre o quotidiano, com enganadora leveza, como se fosse o quotidiano coisa de somenos, mas, de repente, sem que se espere, é incisivo e brutal. E depois, muito importante, sabe escrever sobre sexo. Trata o tema com habilidade que é coisa que a maior parte dos escritores não consegue fazer. Lembro, por exemplo, o Gonçalo M. Tavares e a forma asséptica, fria, gelada, como descreve o acto sexual. Gostando de o ler, tenho um certo horror ao homem quando o imagino na cama com uma mulher. Não há grande poesia na forma como o Jonathan Frazen escreve sobre sexo. Há, sobretudo, sinceridade. Dispenso a conversa das fezes feitas em chocolate que nunca me deu para devaneios e taras escatológicas. Mas ler sobre um homem que se deita sobre o sexo de uma mulher, esmagando-o com o rosto, para depois o escavar, como se dela se quisesse encher é um consolo na minha rotina. Leio-o e, instantaneamente, sinto os meus músculos adutores contraindo-se, contraindo-se, para morder o vazio.

2011/05/17

Bavaroise

Certa manhã, ninguém esperava, chegaram ao bairro camarário três camionetas de uma empresa de construção civil. Armaram-se rapidamente os andaimes, foram amarinhando pelas paredes acima como ervas daninhas, serpenteando em espirais, endemoninhadas. Assim que os prédios ficaram cobertos com uma talagarça de escoras e plataformas suspensas, o nº 1 do bairro camarário, edifício igual aos restantes que compunham o aglomerado, bloco maciço, quadrangular, de seis andares, três apartamentos de dois quartos por cada piso, começou a ser pintado. Um exército, pequeno e ordenado, de homens vestidos com fatos macaco azul petróleo, tratou de tudo com brio e profissionalismo. Lavaram as fachadas do edifício com máquinas de alta pressão. Com escovas de aço limparam manchas antigas de humidade e musgo. Taparam frestas, fissuras, rachaduras. No dia seguinte, quando voltaram, com trinchas e rolos gigantes, começaram a aplicar a primeira demão de uma tinta betuminosa, muito cremosa e espessa que, às crianças mais pequenas que por ali andavam, fazia lembrar mousses, bavaroises, sorvetes, outras doçuras a que não estavam acostumados, mas conheciam das rubricas culinárias dos programas de televisão.

2011/05/16

Alice

2011/05/13

Bia e o mar (2)

Correu, pois, a menina à mãe que estava a fazer uma sopa de tomate para o almoço. Já fizera o refogado de tomate, cebola, alho. Já fritara o toucinho. Já lhe juntara água para fazer o caldo. Estava naquele momento a escalfar os ovos. A entrada repentina da Bia na cozinha, aos gritos, pedindo-lhe para ir à praia, posso ir, não posso?, posso?, deixe lá!, fê-la bater os ovos com mais força na borda do tacho, abriram-se duas gemas que se derramaram em fios. Acabou por ceder perante a insistência da filha. Apareceu-me à porta, muito encolhida, molengona, como costume, vestida de preto, a perguntar se a companhia da Bia não incomodava...

Chegámos à praia devia ser quase quatro horas. É uma praia pequenina. O areal estende-se entre duas arribas. É uma praia de rochas, algas, de caranguejos pretos espojados ao sol, onde há sempre barcos de carga na linha do horizonte e se vê, ao longe, o casario de Sines e as chaminés da central eléctrica. Fica perto da rotunda onde a prostituta anã, na torreira do sol, aguarda a chegada dos velhos de boina que a levam para o pinhal e a deitam na caruma. Reparei que a Bia se deixou estar, durante muito tempo, a olhar o mar. Abeirei-me dela. Explicou, então, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que era a primeira vez que estava perto do mar. Já o vira de passagem, da estrada, quando fora a um casamento a Vila Nova, mas nunca estivera assim tão pertinho. Perante a minha surpresa, tentou justificar. O meu pai trabalha na oficina a semana toda e, ao domingo, gosta de jogar às cartas no café. A minha mãe não gosta da praia. O egoísmo dos pais da Bia aborreceu-me. De que serve ter um filho e não lhe mostrar o mar? Ou a noite? A aldeia fica a vinte quilómetros da costa e a Bia, nos seus dez anos, nunca vira o mar. A mãe nunca largou o parapeito da janela, o pai nunca largou a oficina, o irmão nunca despiu a farda para a levarem a ver o mar. Olhei a Bia com admiração e uma pontinha de inveja porque, ao contrário de mim, terá memória do momento mágico em que tocou no mar. Ficou a tarde toda dentro de água e eu de vigia com medo de tanto afoitamento. Só saiu para comer a sandes de presunto que a mãe lhe mandou para o lanche. Comeu-a a fugir, a tiritar de frio. Depois, voltou a enfiar-se na água, como se o mar lhe pudesse fugir, como se fosse coisa passageira, um acidente na sua vida.

(a Bia gostou do mar e o mar, tenho a certeza, gostou muito da Bia.)

2011/05/11

Bia e o mar (1)

É a companhia da minha filha na aldeia. Têm a mesma idade, mas a Bia é robusta e grande. Andam sempre aos segredinhos, gostam de brincar às modelos e às secretárias, fingindo que são adultas, iniciando-se na coreografia de gestos forçados, fazendo beicinho, compondo a voz. O ano passado, andavam elas entretidas a experimentar sapatos velhos, perguntei à Bia se queria ir connosco à praia. A cara, redonda e sadia, de olhos claros, iluminou-se e correu a pedir autorização à mãe, a Maria da Luz, que é da minha idade, mas tem já dois filhos homens. Um deles é militar, esteve numa missão no Iraque e é assim uma espécie de herói da aldeia por ter estado naquela lonjura de areias, ruínas e camelos. A Maria da Luz também tem os olhos claros, mas é feia e desleixada. Usa sempre o cabelo oleoso e faltam-lhe vários dentes. É costureira, mas sem préstimo ou engenho, que a preguiça, tomando-lhe conta do corpo, a impede de aceitar até os trabalhos mais simples: chulear uma bainha ou substituir um fecho. A Maria da Luz gosta é de estar de janela, a olhar a rua, desde a escola primária até ao silos da suinicultura, rindo e falando com a Marisa, a dona do salão, e com a Preciosa que faz queijos e é mãe do Albano por quem tive uma paixão intensa no verão dos meus treze anos. Recordo que interrompia a brincadeira com as minhas primas com a desculpa de ter de ir beber água. Corria à cozinha, cujas janelas davam para os campos, e entretinha-me a olhá-lo no monte do moinho, ajudando o pai. Olhava-o e estremecia só de lhe imaginar o corpo suado, as mãos tisnadas do trabalho no campo, as pernas nuas roçando os fenos, as ortigas, as estevas. Mas a história do Albano merece outra atenção porque o amor que lhe tive foi um amor breve que não passou do desejo e por isso foi perfeito. Volto à Bia.

2011/05/10

Andorinha

Mostrei a tatuagem aos meus filhos. O mais velho, horrorizado, explicou-me que não tenho estilo para uma tatuagem. A minha filha do meio, indignada, arrepelando os cabelos, em estado de pura histeria, gritou-me que já não tenho idade para usar tatuagens. Valeu-me o mais pequeno que ainda encontra poesia nas coisas. Olhou o desenho, tocou-lhe e exclamou “Tens um passarinho tão bonito a voar no braço!”