Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2011/12/05
Amante
2011/12/02
Almoço de família
O meu irmão desconhece a história do rapaz esquizofrénico e não se apercebe do estremecimento dos objectos frágeis da sala que acontece quando se prepara para comer. Olha a pirâmide de comida que se ergue em cima do garfo e, de repente, enfia-a na boca, mastiga vigorosamente essa primeira garfada, come com deleite, tanto prazer, fechando os olhos, assumindo a sua natureza mulata, o desejo rácico de vadiagem, gosto da minha família, dizem os seus olhos, gosto do meu apartamento espaçoso às portas da cidade, o bairro social do outro lado da estrada, as matronas ciganas, de arrecadas de ouro nas orelhas, olhando-me com superioridade, largando torpedos de palavrões quando passo em silêncio com os meus filhos quase mulatos, esses filhos que, quase brancos, são meus, tão meus, como eu nunca fui do meu pai e da minha mãe, gosto da minha mulher, das minhas irmãs e da minha sogra, que é alegre e me mima com gestos de amor verdadeiro, gosto, sobretudo, da minha televisão de última geração, comprada em dez prestações sem juros, tão bonita que ela fica em cima do móvel de cerejeira que trouxe do norte, olho a televisão e esqueço-me do resto, gosto de tudo isso, mas, se pudesse escolher, se fosse livre, voltava ao lugar onde nasci, a minha vida seria feita da lentidão africana, indolência, águas mornas, muitas mulheres redondas com o desejo à flor da pele, nádegas firmes, seios cheios, às refeições, esta comida que agora como, nesta sala de móveis de pau-preto, feita pelas mãos de uma mãe cujo ventre nunca habitei.
A minha cunhada está sentada ao lado do meu irmão. Dar-se-á conta da dor antiga que o marido cala? Não come. Vai mordiscando aqui e ali. Finge com esses gestos que é uma pessoa de pouco alimento, quer mostrar, há muito o percebi, que não tem culpa do corpo que tem, refegos, bolsas de gordura, mãos imensas, estômago dilatado, estrias, buraquinhos de celulite, a feiura de um corpo disforme, não é culpa sua. Está sempre a explicar, enquanto mordisca uma tâmara aqui, uma tosta com chutney de coentros ali, que quase não come, é assim, maior, porque faz retenção de líquidos, sofre de obstipação grave, está dias, semanas, meses sem evacuar, não há grânulos, chás, xaropes, iogurtes, cereais com fibras capazes de lhe fazer trabalhar a tripa. A minha cunhada pretende com o mordiscanço habitual e as justificações do costume enganar-nos, mas o engano e a mentira exigem certo brilhantismo; ela, a quem tanto devo por me ter feito tia e de quem gosto, não o tem. Na realidade, come imenso e, pior, come mal. Temo, por isso, a desgraça. Um dia, talvez aconteça durante um almoço de domingo, a grave obstipação de que padece cessará. Rebentará. A merda, há tantos anos acumulada nos interstícios do seu corpo, que a faz volumosa, sairá em golfadas revoltas, manchará os copos da cristaleira, as chávenas de café que a velha marquesa de Cascais ofereceu à minha mãe para se livrar do neto demente, os pingos do lustre que reflectem a luz que entra pelos vidros da marquise.
2011/11/20
2011/11/17
Aninhas e a intimidade
Aninhas estranhava a facilidade com que as outras mulheres se tornavam íntimas. Pouco depois de se conheceram, trocavam beijinhos, tratavam-se por tu, contavam segredos de fêmea, partilhavam ralações domésticas enquanto comiam mini pratos de lulas recheadas sobre mesas de fórmica. Aninhas não tinha vocação para a comiseração do género e não apreciava a devassa, assim, em pedaços de névoa cheirando a gordura, da vida familiar. A intimidade que essas mulheres partilhavam não lhe interessava, parecia-lhe banal e ordinária; envergonhava-a. Na realidade, por arrogância, Aninhas não era íntima de ninguém. Não era sequer íntima dos homens com quem dormia. Despia-se à frente deles, com as janelas abertas, a luz do dia iluminando-lhe o corpo. Tirava a roupa devagar, numa lentidão de gestos propositada, primeiro a parte de cima, abrir os botões da blusa, um a um, depois os sapatos, as meias de licra, o ruído de fecho da saia mordendo o silêncio. Aninhas gostava de mostrar o corpo porque sentia que era a única coisa que tinha para dar. Fazia questão de o mostrar, imaculado, puro, virgem, pronto para o sacrifício. Dormia com esses homens sem nada lhes revelar, não dando nada, não esperando deles nada em troca. Nunca chegava a ser íntima dos homens com quem dormia. Na verdade, o sexo, que Aninhas apreciava moderadamente, tinha isso de bom: era tão desinteressante que dispensava a intimidade.
2011/11/15
Bonjour Tristesse

Amanuenses
2011/11/14
Rodovalho
Abro o papelote de alumínio, arranco peles, solto os lombos triangulares, enfio os dedos por baixo dos opérculos, junto da cabeça, para retirar os pedaços mais brancos e saborosos. Com a ponta dos dedos, parto os lombos em porções mais pequenas, tacteando, esfarelo um pouco, à cata de espinhas, tem muito cuidado a arranjar o peixe do teu filho, se o menino fica com uma espinha atravessada é uma desgraça, nem sabes a quantidade de crianças que apareciam no hospital engasgadas, tossiam, tossiam, arranhavam a garganta, pareciam cãezinhos a rosnar, um, lembro-me bem, morreu asfixiado com uma espinha de bacalhau enterrada na garganta, ninguém a conseguiu de lá tirar, assim costuma dizer a minha tia com quem, por segurança e prazer, aprendi a arranjar o peixe com as mãos. Amachuco o papelote de alumínio cheio de espinhas, escamas, peles, gorduras ocres, embaciadas, cheio de lixo. Salvo, porém, a cabeça do peixe que coloco num prato. Não há no peixe parte mais saborosa do que a cabeça, aí se concentra, de forma espantosa, todo o sabor do mar. Sento-me com o prato à minha frente. Pego na cabeça com as duas mãos e, com um pequeno esforço, abro-a em duas metades. Estalam os ossos. Partem-se os ossos. Chupo mandíbulas, maxilas, bolbos inesperados de carne, tacteio a fileira de dentes cónicos e finos, enfio os dedos nos globos oculares para soltar os olhos que vêm numa bolsa gelatinosa e escura. Mastigo as bolsas e parecem de areia. Por fim, fico apenas com a couraça central do crânio que enfio na boca; presa nos molares, trinco-a. Abre-se esse centro de massa encefálica, é uma coisinha de nada, uma massa aguada, de um branco sujo, sabor intenso. Chupo a mioleira do peixe.
Assim sentada na cozinha, chupando uma cabeça de peixe, recordo um homem cuja insignificância – tamanha – fez com que dele me esquecesse durante muitos anos. Chamava-se Paulo Henrique e foi meu pretendente. Fomos colegas na universidade. Empregou-se, pouco depois, fruto de conhecimentos privilegiados, numa sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos. Levava-me a almoçar. Também me levava a concertos na Gulbenkian e tamborilava os dedinhos. Levava-me a esses sítios com o propósito de me mostrar um certo estilo de vida, que me propunha, se me escolheres, parecia dizer, não tarda nada guiarás um audi, eu um bmw, seremos dois jovens adultos de sucesso, os nossos filhos poderão frequentar um colégio jesuíta, em meia dúzia de anos, se os juros se mantiverem baixos, podemos comprar uma casa de férias em Tróia.
Um dia, sabendo que eu gostava de peixe, levou-me a comer a um restaurante finório. Queria impressionar-me. O restaurante ficava ali para os lados de Entrecampos. Era um sítio de sombras, um luxo decadente de dourados oxidados e fetos artificiais. Um restaurante de adúlteros, de patrões e secretárias, de traições breves, repetidas, urgentes e essenciais. Cheirava aquele lugar ao sexo feito nos carros estacionados na escuridão junto ao rio, ao sexo feito nos quartos de hotéis baratos, pressentiam-se ali humidades, lingerie molhada, falos entumecidos, mamilos túrgidos sobre mesas postas com preceito, guardanapo de pano, copos de cristal, o pão colocado à esquerda, num pratinho com a faca da manteiga.
Veio o peixe, um rodovalho (não era sequer um linguado, não era um peixe fino, espalmado, era um peixe gordo, carnudo, mas uma pessoa, às vezes, tem de criar ocasiões para usar as palavras de que gosta muito), numa travessa de faiança branca, num carrinho de rodas que chiava, empurrado por um empregado de jaqueta branca. O empregado, muito sério, rigidez de empalamento no corpo, serviu-me um lombo que regou com um fiozinho de azeite, duas batatinhas oblongas e um raminho de grelos a acompanhar. O meu pretendente olhava-me e sorria com os olhos. Os seus olhos continuavam a falar. Se ficares comigo, diziam os seus olhos, ofereço-te a sofisticação que nunca tiveste, livras-te da tua avó de lenço preto à cabeça, da tenda de campismo do teu pai nas férias grandes, das roupas compradas em saldos pela tua mãe.
Mal sabia ele que a sofisticação, depois de um período breve de apetecimento, começava naquele tempo a dar-me voltas ao estômago e que tenho da família uma visão assumidamente mafiosa, assente em muitos anos de discussões, gritos, reencontros. Dispenso os amigos, não cuido deles, mas se um dia me morre um irmão, um pai, um filho, morro também. Comi os lombos educadamente, fazendo um esforço para manter a boquinha fechada, limpando os beiços ao guardanapo de pano. No final, para tornar irrecusável o seu amor, o Paulo Henrique disse quanto ganhava. Era muito. Senti naquele momento uma vergonha muito grande por um homem assim me querer. Afinal que havia em mim que pudesse fazer aquele homem pensar que me podia ter? Olhei a cabeça do rodovalho defunto, o tal que não era, fugindo no carrinho que chiava, empurrado pelo empregado de jaqueta branca, e dei conta de um requisito essencial para escolher um homem. Precisava de encontrar alguém gostasse de me ver comer com as mãos.
2011/11/09
2011/11/06
Pripyat
2011/11/05
2011/11/04
Dr. Lucas
2011/11/02
Translucidez
Aproximam-se dois miúdos. Chegam ruidosos, cabelo empastado de gel, ar trocista, vestidos de gangas barrocas, cheias de brilhos e tachas. A sua chegada provoca um frémito de desconforto. São ciganos. Vivem nos blocos de realojamento que a câmara construiu há pouco tempo. As famílias ciganas quebraram a paz do bairro. Trouxeram ruído, alguma violência. Há uma guerra não declarada entre os habitantes do bairro residencial e os que vivem nos blocos de habitação social. É uma guerra silenciosa, mas, como em todas as guerras, assenta num ódio que não conhece excepções. Odeiam-se todos os que estão do outro lado: homens, mulheres, velhos, deficientes, crianças como estas que se aproximam da fila do pão. Os dois rapazes observam os velhos com olhos de gavião. O esquema é sempre o mesmo. Precisam de encontrar o mais frágil, aquele que mais facilmente deixe entrar o medo, a vítima ideal que permita o pequeno furto, tão pequeno e irrelevante, que nem parece ser aquilo que é.
(O nº 3 da revista The Printed Blog sai esta semana. Saio com ela.)
2011/11/01
Sangue do meu sangue
(Digo-lhe, num suspiro, és a única pessoa com quem gosto de vir ao cinema. Não tira os olhos do ecrã. Márcia não sabe que sopa há-de fazer amanhã. É mentira, diz, és uma mulher muito mentirosa, também gostas de vir com o avô.)
2011/10/28
Oriente
2011/10/18
Cozido à portuguesa
Aquelas tardes, passadas em frente à televisão, vendo os programas do oceanógrafo francês, eram obra do meu pai que nos incentivava a ver documentários, fossem de bicheza, de política, fossem sobre os bosquímanos da Namíbia ou sobre os aborígenes da Austrália, não havia grande critério na selecção que fazia, tudo servia para nos educar e, sobretudo, para nos libertar de um país que considerava confinado, de grades, bolores, líquenes. Ganhei com o meu pai o gosto pelos documentários. Ele manteve-o. Desde que a televisão de cabo chegou, carregada de canais temáticos, o meu pai tem dificuldade em seleccionar os documentários que quer ver, desconfio que, por vezes, fica baralhado com tanta informação. Os documentários sobre animais são os que mais gosta de ver. A minha mãe queixa-se que passa tardes inteiras a ver filmes sobre escaravelhos, térmites, aranhas peludas, um nojo, uma pessoa quer ver um programa de variedades, uma telenovela e não pode, diz ela, compungidamente, não compreendendo o interesse do meu pai por esse mundo de animais tão insignificantes que se estraçalham com a biqueira do sapato.
São essas tardes de domingo em que a minha família se juntava à volta de televisão para ver os documentários do Cousteau, a sala ainda a cheirar a farinheira, a chispe, a chouriço de sangue, que lembro, passados tantos anos, quando encontro o meu pai sentado em frente do televisor a ver os seus documentários. Aproveito esses momentos para disfarçadamente o observar. Enquanto se inteira da nidificação dos albatrozes, passa ele a ser o objecto de estudo. Vou ao armário, onde há garrafas de bebidas licorosas e vidros em forma de parra que vieram nos contentores de Moçambique, encho uma malguinha de madeira com aperitivos indianos e, enquanto debico lentilhas fritas, observo-o com atenção: o modo como o pijama lhe cai no corpo, os pés de barbatana, os tremores involuntários da cabeça, a boca ligeiramente aberta mostrando a prótese dentária que colocou num dentista em Margão. Tomo mentalmente nota do meio ambiente envolvente, as movimentações da casa, o cheiro que vem da cozinha, o ruído dos chinelos ortopédicos da tia Dé chiando no chão de madeira, a voz da minha mãe a falar com a minha filha.