Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2011/12/14
Revólver
De joelhos no chão, mangas arregaçadas, a minha mãe esfregava nesse banho de imersão de domingo as partes do corpo que ficavam esquecidas durante os duches da semana, pés, costas, orelhas, umbigo. Escutava-a e percebia que havia na sua voz uma pontinha de vingança, dava-lhe gozo desdenhar assim, ainda que indirectamente, as mulheres da família do meu pai, cunhadas, irmãs, sobrinhas, primas, sobretudo a sogra, feia, de lábios finos, cozidos, autoritária, a única mulher que o meu pai abertamente admirava: sozinha, que um marido fraco, dado ao queixume, à preguiça e à bebida, é como se não existisse, não tem serventia de espécie alguma, cuidara das propriedades da família e educara cinco filhos. Naquele tempo, não duvidava do conhecimento da minha mãe. Se ela dizia que as indianas eram assim, feiotas, logo eu as imaginava uns estafermos, magras, enfezadas, sem curvas, narizes de papagaio, cabelos oleosos, por baixo dos saris, pernas fininhas, tortas, arqueadas, deformadas.
Suspirava de alívio por não ter herdado as características físicas da minha avó paterna, Maria Aninhas Valadares, mas estranhava a importância que a minha mãe dava ao torneado das nossas pernas. Vivíamos num mundo de mulheres recentemente emancipadas - na certeza da legalidade escrita as mulheres eram iguais aos homens. Proibia-se a discriminação. As mulheres tinham exactamente os mesmos direitos que os homens. Bastava-lhes o seu trabalho, o seu valor e competência para serem reconhecidas. As mulheres haviam de ser amadas apenas pelas suas ideias, pela firmeza do seu carácter, pela sua sensibilidade, enfim, por essas coisas. A conversa da minha mãe, dando importância ao corpo, antecipando um tempo de volúpia e desejo, ofendia, e de que maneira, o meu precoce feminismo, era um retrocesso intolerável, um sinal de atavismo e ignorância. Havia, porém, muito acerto nas suas palavras. O corpo é uma arma e uma mulher deve usá-lo em todas as ocasiões: fazer pontaria, olhar pela mira telescópica e puxar o gatilho sem misericórdia ou piedade.
2011/12/12
Fila do Pão
Hoje, a fornada tarda e, por isso, a fila vai longa. O bairro envelheceu, está cheio de viúvos, enquanto esperam na bicha do pão, não sentem a solidão. Um homem indiano, também velho, é dos primeiros da fila. Magro, mas de uma magreza extrema que espanta, o seu corpo, de tão magro, tem a qualidade rara da translucidez. Na cabeça redonda, crânio lustroso, não se vê um único cabelo. As orelhas largas de abano desequilibram a fragilidade do rosto. Usa um bigode branco. Está imóvel, olhar fixo num ponto, alheio ao burburinho do corredor. Sempre que a fila avança, dá dois passos, depois, deixa-se ficar, esperando, absorto, corpo curvado como um junco soprado por um vento caprichoso. A aparência física, mas, sobretudo, a postura, um alheamento genuíno, uma leve arrogância aristocrata, a de quem nasceu numa casta superior e por isso dela pode abdicar, tornam a parecença inevitável: em que pensará o gandhi do bairro onde cresci?
Aproximam-se dois miúdos. Chegam ruidosos, cabelo empastado de gel, ar trocista, vestidos de gangas barrocas, cheias de brilhos e tachas. A sua chegada provoca um frémito de desconforto. São ciganos e vivem nos blocos de realojamento que a câmara construiu há pouco tempo. As famílias ciganas quebraram a paz do bairro. Trouxeram ruído, alguma violência. Há uma guerra não declarada entre os habitantes do bairro residencial e os que vivem nos blocos de habitação social. É uma guerra silenciosa, mas, como em todas as guerras, assenta num ódio que não conhece excepções. Odeiam-se todos os que estão do outro lado: homens, mulheres, velhos, deficientes, crianças como estas que se aproximam da fila do pão. Os dois rapazes observam os velhos com olhos de gavião. O esquema é sempre o mesmo. Precisam de encontrar o mais frágil, aquele que mais facilmente deixe entrar o medo, a vítima ideal que permita o pequeno furto, tão pequeno e irrelevante, que nem parece ser aquilo que é.
A sua escolha, hoje, não é difícil. Ó senhor, compre-nos aí dez pães, vá lá! O velho indiano não lhes responde. Mantém o olhar fixo. Parece não os ver. Os rapazes pedincham durante mais algum tempo. O silêncio do velho irrita os rapazes. O monhé não diz nada, diz entre dentes o que parece ser mais novo. Compra aí dez pães, ó velho!, a intimidação passa a ser clara, a coacção já não se disfarça, o preconceito assume-se. Insistem no insulto e na ameaça. O velho mantém a sua calma. Rosto sério e alheio. Parece estar num outro mundo. De onde lhe vem a calma? Por que não treme, de raiva, o seu corpo tão frágil? Por que não lhes responde? Os miúdos acabam por desistir. Envergonhados, o orgulho atingido, desaparecem no corredor. Por breves instantes, tudo sossega no corredor da fila do pão. Iuri, no seu mini mercado, corta uma melancia riscada em quartos. Na tabacaria, um homem retoma a leitura dos jornais.
A fila está prestes a avançar quando, do sapateiro, sai uma mulher que veste um salwar kameez de cor clara, mas indefinida. Cheira a sabonete de sândalo e curcuma. Aproxima-se do velho gandhi e fala-lhe muito alto, aos gritos para se fazer ouvir. Desculpa-se por o ter deixado tanto tempo sozinho, estava muita gente no sapateiro, mas valera a pena, conseguira arranjar uma dobradiça que servia na perfeição na bengala. O velho acena a cabeça em sinal de assentimento. A mulher abre o saco. Tira uma bengala dobrável de alumínio. O velho pega-lhe e, imediatamente, inicia movimentos pendulares, de lá para cá, de cá para lá, reconhece o espaço, larga a escuridão, os seus olhos estão na ponta de borracha da bengala. A mulher senta-o num dos bancos do corredor e toma o seu lugar na fila do pão. Sentado, translúcido, sereno, o velho não sente a guerra silenciosa que se passeia pelas ruas do bairro. Não sente medo. Nem ódio. Não se deu conta dos rapazes ciganos. Não os viu. Não os escutou. O velho gandhi vive em paz porque o mundo não lhe chega.
2011/12/06
Autofagia
Subo a rua do coliseu, sempre com o barrosão na minha mira, já deixou a filosofia, agora, pergunta-me pelo nome, pede um cartão, um número de telefone. Paro a olhar a montra de um talho. Ao centro, mesmo por baixo de uma fiada de carcaças, há um tabuleiro de alumínio com quatro magníficas mãos de vaca, enormes, as patas, tão bonitas, quatro patas de casco limpo, de um branco baço, deixo-me ficar em frente da montra a olhar aquelas mãos de vaca que não parecem reais, são feitas de cera. Lembram as velas que se vendem nos tendeiros de Fátima, forma de pernas, cabeças de anjos, braços, pés, mãos, corpos humanos esquartejados com precisão, comprados por peregrinos que chegam de camioneta e comem frangos assados e laranjadas nos parques à volta do santuário. Ficam os cotos de estearina a arder em capelas sombrias para cumprir promessas antigas, maleitas que se curam, maridos andarilhos que voltam, filhos que largam o vício.
Continuo a olhar as quatro mãos de vaca, quero guardar aquele instante, umas mãos de vaca assim não me aparecem pela frente todos os dias. O barrosão, corpo suado de subir a rua, inquieta-se, já não sabe o que fazer, estranha o meu interesse na montra do talho. A menina já provou mão de vaca com grão, é uma delícia, diz por fim. A autofagia do bicho entristece-me. Ouço-o em silêncio. Linda, a pronúncia do norte.
2011/12/05
Sensual Galego
(tão linda, esta canção.)
(na linha vermelha, hoje, encontrei um homem de olhares fatais.)
Amante
2011/12/02
Almoço de família
O meu irmão desconhece a história do rapaz esquizofrénico e não se apercebe do estremecimento dos objectos frágeis da sala que acontece quando se prepara para comer. Olha a pirâmide de comida que se ergue em cima do garfo e, de repente, enfia-a na boca, mastiga vigorosamente essa primeira garfada, come com deleite, tanto prazer, fechando os olhos, assumindo a sua natureza mulata, o desejo rácico de vadiagem, gosto da minha família, dizem os seus olhos, gosto do meu apartamento espaçoso às portas da cidade, o bairro social do outro lado da estrada, as matronas ciganas, de arrecadas de ouro nas orelhas, olhando-me com superioridade, largando torpedos de palavrões quando passo em silêncio com os meus filhos quase mulatos, esses filhos que, quase brancos, são meus, tão meus, como eu nunca fui do meu pai e da minha mãe, gosto da minha mulher, das minhas irmãs e da minha sogra, que é alegre e me mima com gestos de amor verdadeiro, gosto, sobretudo, da minha televisão de última geração, comprada em dez prestações sem juros, tão bonita que ela fica em cima do móvel de cerejeira que trouxe do norte, olho a televisão e esqueço-me do resto, gosto de tudo isso, mas, se pudesse escolher, se fosse livre, voltava ao lugar onde nasci, a minha vida seria feita da lentidão africana, indolência, águas mornas, muitas mulheres redondas com o desejo à flor da pele, nádegas firmes, seios cheios, às refeições, esta comida que agora como, nesta sala de móveis de pau-preto, feita pelas mãos de uma mãe cujo ventre nunca habitei.
A minha cunhada está sentada ao lado do meu irmão. Dar-se-á conta da dor antiga que o marido cala? Não come. Vai mordiscando aqui e ali. Finge com esses gestos que é uma pessoa de pouco alimento, quer mostrar, há muito o percebi, que não tem culpa do corpo que tem, refegos, bolsas de gordura, mãos imensas, estômago dilatado, estrias, buraquinhos de celulite, a feiura de um corpo disforme, não é culpa sua. Está sempre a explicar, enquanto mordisca uma tâmara aqui, uma tosta com chutney de coentros ali, que quase não come, é assim, maior, porque faz retenção de líquidos, sofre de obstipação grave, está dias, semanas, meses sem evacuar, não há grânulos, chás, xaropes, iogurtes, cereais com fibras capazes de lhe fazer trabalhar a tripa. A minha cunhada pretende com o mordiscanço habitual e as justificações do costume enganar-nos, mas o engano e a mentira exigem certo brilhantismo; ela, a quem tanto devo por me ter feito tia e de quem gosto, não o tem. Na realidade, come imenso e, pior, come mal. Temo, por isso, a desgraça. Um dia, talvez aconteça durante um almoço de domingo, a grave obstipação de que padece cessará. Rebentará. A merda, há tantos anos acumulada nos interstícios do seu corpo, que a faz volumosa, sairá em golfadas revoltas, manchará os copos da cristaleira, as chávenas de café que a velha marquesa de Cascais ofereceu à minha mãe para se livrar do neto demente, os pingos do lustre que reflectem a luz que entra pelos vidros da marquise.
2011/11/20
2011/11/17
Aninhas e a intimidade
Aninhas estranhava a facilidade com que as outras mulheres se tornavam íntimas. Pouco depois de se conheceram, trocavam beijinhos, tratavam-se por tu, contavam segredos de fêmea, partilhavam ralações domésticas enquanto comiam mini pratos de lulas recheadas sobre mesas de fórmica. Aninhas não tinha vocação para a comiseração do género e não apreciava a devassa, assim, em pedaços de névoa cheirando a gordura, da vida familiar. A intimidade que essas mulheres partilhavam não lhe interessava, parecia-lhe banal e ordinária; envergonhava-a. Na realidade, por arrogância, Aninhas não era íntima de ninguém. Não era sequer íntima dos homens com quem dormia. Despia-se à frente deles, com as janelas abertas, a luz do dia iluminando-lhe o corpo. Tirava a roupa devagar, numa lentidão de gestos propositada, primeiro a parte de cima, abrir os botões da blusa, um a um, depois os sapatos, as meias de licra, o ruído de fecho da saia mordendo o silêncio. Aninhas gostava de mostrar o corpo porque sentia que era a única coisa que tinha para dar. Fazia questão de o mostrar, imaculado, puro, virgem, pronto para o sacrifício. Dormia com esses homens sem nada lhes revelar, não dando nada, não esperando deles nada em troca. Nunca chegava a ser íntima dos homens com quem dormia. Na verdade, o sexo, que Aninhas apreciava moderadamente, tinha isso de bom: era tão desinteressante que dispensava a intimidade.
2011/11/15
Bonjour Tristesse

Amanuenses
2011/11/14
Rodovalho
Abro o papelote de alumínio, arranco peles, solto os lombos triangulares, enfio os dedos por baixo dos opérculos, junto da cabeça, para retirar os pedaços mais brancos e saborosos. Com a ponta dos dedos, parto os lombos em porções mais pequenas, tacteando, esfarelo um pouco, à cata de espinhas, tem muito cuidado a arranjar o peixe do teu filho, se o menino fica com uma espinha atravessada é uma desgraça, nem sabes a quantidade de crianças que apareciam no hospital engasgadas, tossiam, tossiam, arranhavam a garganta, pareciam cãezinhos a rosnar, um, lembro-me bem, morreu asfixiado com uma espinha de bacalhau enterrada na garganta, ninguém a conseguiu de lá tirar, assim costuma dizer a minha tia com quem, por segurança e prazer, aprendi a arranjar o peixe com as mãos. Amachuco o papelote de alumínio cheio de espinhas, escamas, peles, gorduras ocres, embaciadas, cheio de lixo. Salvo, porém, a cabeça do peixe que coloco num prato. Não há no peixe parte mais saborosa do que a cabeça, aí se concentra, de forma espantosa, todo o sabor do mar. Sento-me com o prato à minha frente. Pego na cabeça com as duas mãos e, com um pequeno esforço, abro-a em duas metades. Estalam os ossos. Partem-se os ossos. Chupo mandíbulas, maxilas, bolbos inesperados de carne, tacteio a fileira de dentes cónicos e finos, enfio os dedos nos globos oculares para soltar os olhos que vêm numa bolsa gelatinosa e escura. Mastigo as bolsas e parecem de areia. Por fim, fico apenas com a couraça central do crânio que enfio na boca; presa nos molares, trinco-a. Abre-se esse centro de massa encefálica, é uma coisinha de nada, uma massa aguada, de um branco sujo, sabor intenso. Chupo a mioleira do peixe.
Assim sentada na cozinha, chupando uma cabeça de peixe, recordo um homem cuja insignificância – tamanha – fez com que dele me esquecesse durante muitos anos. Chamava-se Paulo Henrique e foi meu pretendente. Fomos colegas na universidade. Empregou-se, pouco depois, fruto de conhecimentos privilegiados, numa sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos. Levava-me a almoçar. Também me levava a concertos na Gulbenkian e tamborilava os dedinhos. Levava-me a esses sítios com o propósito de me mostrar um certo estilo de vida, que me propunha, se me escolheres, parecia dizer, não tarda nada guiarás um audi, eu um bmw, seremos dois jovens adultos de sucesso, os nossos filhos poderão frequentar um colégio jesuíta, em meia dúzia de anos, se os juros se mantiverem baixos, podemos comprar uma casa de férias em Tróia.
Um dia, sabendo que eu gostava de peixe, levou-me a comer a um restaurante finório. Queria impressionar-me. O restaurante ficava ali para os lados de Entrecampos. Era um sítio de sombras, um luxo decadente de dourados oxidados e fetos artificiais. Um restaurante de adúlteros, de patrões e secretárias, de traições breves, repetidas, urgentes e essenciais. Cheirava aquele lugar ao sexo feito nos carros estacionados na escuridão junto ao rio, ao sexo feito nos quartos de hotéis baratos, pressentiam-se ali humidades, lingerie molhada, falos entumecidos, mamilos túrgidos sobre mesas postas com preceito, guardanapo de pano, copos de cristal, o pão colocado à esquerda, num pratinho com a faca da manteiga.
Veio o peixe, um rodovalho (não era sequer um linguado, não era um peixe fino, espalmado, era um peixe gordo, carnudo, mas uma pessoa, às vezes, tem de criar ocasiões para usar as palavras de que gosta muito), numa travessa de faiança branca, num carrinho de rodas que chiava, empurrado por um empregado de jaqueta branca. O empregado, muito sério, rigidez de empalamento no corpo, serviu-me um lombo que regou com um fiozinho de azeite, duas batatinhas oblongas e um raminho de grelos a acompanhar. O meu pretendente olhava-me e sorria com os olhos. Os seus olhos continuavam a falar. Se ficares comigo, diziam os seus olhos, ofereço-te a sofisticação que nunca tiveste, livras-te da tua avó de lenço preto à cabeça, da tenda de campismo do teu pai nas férias grandes, das roupas compradas em saldos pela tua mãe.
Mal sabia ele que a sofisticação, depois de um período breve de apetecimento, começava naquele tempo a dar-me voltas ao estômago e que tenho da família uma visão assumidamente mafiosa, assente em muitos anos de discussões, gritos, reencontros. Dispenso os amigos, não cuido deles, mas se um dia me morre um irmão, um pai, um filho, morro também. Comi os lombos educadamente, fazendo um esforço para manter a boquinha fechada, limpando os beiços ao guardanapo de pano. No final, para tornar irrecusável o seu amor, o Paulo Henrique disse quanto ganhava. Era muito. Senti naquele momento uma vergonha muito grande por um homem assim me querer. Afinal que havia em mim que pudesse fazer aquele homem pensar que me podia ter? Olhei a cabeça do rodovalho defunto, o tal que não era, fugindo no carrinho que chiava, empurrado pelo empregado de jaqueta branca, e dei conta de um requisito essencial para escolher um homem. Precisava de encontrar alguém gostasse de me ver comer com as mãos.