(também o amo; no fundo, bem lá no fundo, por baixo do ódio, do desdém, da arrogância e do desprezo, sou uma mulherzinha cheia de amor para dar.)
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/01/22
Vício
O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se num vício. Eu percebo bem o que ele queria dizer. Sou depressiva há muitos anos e não sei como me livrar da tristeza que toma conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tive filhos para que a responsabilidade da maternidade soterrasse a tristeza. Já tentei preencher o tempo com merdas e merdinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Até já tentei tomar decisões ridiculamente fracturantes que espantassem dos meus dias a solidão que neles se instalou. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. A tristeza serve para desculpar a inércia e, sobretudo, a mediocridade.
Outubro/2008
(livrei-me do vício, mas ainda estranho.)
Outubro/2008
(livrei-me do vício, mas ainda estranho.)
2012/01/19
Pele de crocodilo
Na livraria, à hora de almoço, peguei num livro da Ana Teresa Pereira. Fartei-me de rir. Lá estava o seu universo habitual: o Ticiano, o Mahler, o Calvin Klein, o Marlon Brando, a National Gallery. Dizem os entendidos, críticos literários e perecíveis sucedâneos, que a Ana Teresa Pereira é boa escritora. Eles hão-de saber do assunto. Eu cá não a suporto. Também detestei, mas é que detestei mesmo, o Myra da Maria Velho da Costa. Levei-o de companhia para um julgamento em Monção que, feito em duas sessões, me obrigou a pernoitar no hotel das termas. Sozinha no quarto, chovia tanto lá fora, deitada com a Maria Velho da Costa. Não aguentei dois minutos a companhia, fui fumar para a janela e, mal me deitei, pus-me a pensar numa pessoa que eu cá sei e enfiei um dedo na vagina para afugentar a irritação. Os entendidos dizem que a Maria Velho da Costa também é muito boa escritora. Está visto que não percebo nada de literatura. Nadinha. E comprei, lá por Monção, numa boutique jeitosa que ficava ao lado de uma loja de plásticos, um vestido justo com padrão de pele de crocodilo. O vestido é giro que se farta e realça a minha latinidade. Cada vez que o visto, porém, lembro-me do camiseiro da tigresa prima, dona do Cesariny, tanto que a gozei, e afundo-me na minha idiossincrasia.
Aninhas e a graduação do amor (2)
Um dia, maçada com a encenação, sobretudo, aborrecida por aquela pergunta lhe interromper sempre as brincadeiras com as primas, num arroubo de sinceridade, que anos mais tarde não seria capaz de explicar em contínuas sessões de psicanálise feitas com um holandês na Rua de Pedrouços, Aninhas achou que, à pergunta da avó, devia responder com sinceridade. Gostava da avó, apreciava-lhe a firmeza e o protagonismo, mas, parecia-lhe, gostava um pouco mais do avô que sabia jogar ao burro em pé, à bisca lambida e que introduzira a indecência na sua vida.
Quando, naquela tarde, a avó lhe voltou a fazer a pergunta, não hesitou. Gosto mais do avô, respondeu e olhou-a de frente. As amigas estremeceram nas suas cadeiras, preparando-se para a recriminação e para o consolo. A avó ouviu a resposta, passou-lhe a mão pelo cabelo escuro, sorriu-lhe como se a resposta a não atingisse e explicou que apreciava muito a sua frontalidade. Aninhas julgou que tudo continuaria na mesma. Porém, no domingo seguinte, deu-se conta das consequências da sua sinceridade: a avó passara a amá-la menos. O amor, para a avó, exigia subserviência e submissão. A liberdade no amor era intolerável. Nunca mais lhe fez a tal pergunta - gostas mais da avozinha ou do avozinho? - mas, a partir dessa altura, nos lanches de domingo com as amigas, passou a pôr grande entusiasmo nos dotes de Luísa, irmã mais velha de Aninhas, feiota, não muito inteligente, mas muito esforçada. O esforço e a determinação são características habituais das mulheres feias, querem, desse modo, livrar-se da feiura com que nasceram. Raramente o conseguem.
Luísa tinha, sobretudo, muita habilidade com as mãos. Cozinhava, costurava e bordava na perfeição. Terminada a partida de gamão, a avó chamava-a. Levantava-se e, muito satisfeita, mostrava a barra em ponto richelieu que queria aplicar numa toalha de linho que a avó comprara nos saldos na Dinlar. Aninhas, entretida com as brincadeiras com as primas, fingia não notar a cena. Aprendera, desde então, que o amor se pode medir, exprimir-se numericamente através de um sistema métrico com medidas próprias e rudimentares. O amor nunca é incondicional ou absoluto. Aumenta e diminui conforme calha. E termina. Aninhas cedo se habituou à graduação do amor.
2012/01/18
Aninhas e a graduação do amor (1)
Lembrava-se da avó de lábios finos, pintados de vermelho, cabelo quase branco, quase azul, afagando o colar de pérolas como se fosse um animal moribundo, sentada no cadeirão de palhinha, na companhia das amigas que vinham pela tarde de domingo jogar gamão, beber chá e comer fatias de bolo mármore. Mal a partida terminava, as peças eram meticulosamente guardadas numa caixa de embutidos de marfim. A avó chamava-a com um esganiço de voz. Largava a brincadeira com as primas e vinha a correr. A avó ajeitava-lhe a gola do vestido de verão, para a compor diante das amigas, também elas de lábios trémulos e bichos mortos ao pescoço, e perguntava sem rodeios, de supetão, Aninhas, minha querida, gostas mais da avozinha ou do avozinho?
Estranha pergunta. Tão pequena, havia de ter sete, oito anos, a pergunta perecia-lhe uma charada, uma brincadeira, a pista de um jogo qualquer. Intuía, no entanto, a essencialidade da sua resposta. A avó vivia na vivenda grande, junto da baía, tinha muitos jarrões antigos espalhados pela casa e duas empregadas fardadas; o clã, filhos e netos, andava sempre de volta dela, tratando-a com deferência, muito mimo. Faziam-lhe as vontadinhas todas, isso percebia Aninhas, a avó queria ir passar a tarde a Lisboa, ver as montras da avenida, comprar conjuntos de atoalhados nos armazéns da baixa, lanchar duchesses e babás e logo havia quem se dispusesse a ir buscá-la e trazê-la; a avó precisava de ajuda com a papelada do banco e alguém largava o emprego, um dia inteiro, e vinha em seu socorro. Um dia, a avó telefonara para a mãe de Aninhas numa aflição, estava sem empregadas, uma fora visitar o pai moribundo a Lamego, a outra embuchara há pouco e andava, num histerismo de fêmea moderna, preocupada com derrames, em suma, estava sozinha, queria vestir uma cinta nova que lhe dava muito conforto à coluna e não conseguia; a mãe de Aninhas largou tudo, meteu-se no carro e foi ajudar a apertar os colchetes da cinta. A família gravitava como uma nebulosa em volta da avó por uma razão muito simples: Armandinha, assim se chamava a avó, era rica, tinha contas bancárias recheadas, muitas propriedades.
Ao avô, pelo contrário, o clã pouco ligava. Paixão de adolescência da avó, mais velho e ofensivamente pobre, o pai autorizara o casamento, mas exigira, para preservar o património familiar, que se casasse com separação de bens. Quinze anos mais velho, muito bebedolas, tinha o fígado num farrapo, fora-lhe há pouco tempo diagnosticado um cancro nos pulmões, era certo e sabido que morreria em breve, pobre como nascera. Talvez, por isso, por a morte, sempre certa, ser próxima e o dinheiro de pouco lhe valer, o avô fazia o que dava na real gana. Passava os dias fora de casa, aprendera a apreciar o putedo em geral, mas rejubilara com a chegada das brasileiras que sempre tinham um outro modo de amar. Chegava tarde, tropeçando nos jarrões, trazia o corpo das outras na ponta dos dedos, na barba grisalha, o cheiro doce das tropicais vaginas.
Entre a seriedade da avó e o serôdio deboche do avô, Aninhas sabia bem o que devia escolher. Despachava, por isso, o assunto. Gosto mais de si, avozinha, dizia numa vertigem, sem se preocupar, dava-lhe um beijo repenicado no rosto e ignorava o enlevo das amigas, Ai, Armandinha, que rica neta aqui tens!, diziam, chocalhando dentaduras, amordaçando a inveja. A avó aconchegava-se no cadeirão, satisfeita.
Estranha pergunta. Tão pequena, havia de ter sete, oito anos, a pergunta perecia-lhe uma charada, uma brincadeira, a pista de um jogo qualquer. Intuía, no entanto, a essencialidade da sua resposta. A avó vivia na vivenda grande, junto da baía, tinha muitos jarrões antigos espalhados pela casa e duas empregadas fardadas; o clã, filhos e netos, andava sempre de volta dela, tratando-a com deferência, muito mimo. Faziam-lhe as vontadinhas todas, isso percebia Aninhas, a avó queria ir passar a tarde a Lisboa, ver as montras da avenida, comprar conjuntos de atoalhados nos armazéns da baixa, lanchar duchesses e babás e logo havia quem se dispusesse a ir buscá-la e trazê-la; a avó precisava de ajuda com a papelada do banco e alguém largava o emprego, um dia inteiro, e vinha em seu socorro. Um dia, a avó telefonara para a mãe de Aninhas numa aflição, estava sem empregadas, uma fora visitar o pai moribundo a Lamego, a outra embuchara há pouco e andava, num histerismo de fêmea moderna, preocupada com derrames, em suma, estava sozinha, queria vestir uma cinta nova que lhe dava muito conforto à coluna e não conseguia; a mãe de Aninhas largou tudo, meteu-se no carro e foi ajudar a apertar os colchetes da cinta. A família gravitava como uma nebulosa em volta da avó por uma razão muito simples: Armandinha, assim se chamava a avó, era rica, tinha contas bancárias recheadas, muitas propriedades.
Ao avô, pelo contrário, o clã pouco ligava. Paixão de adolescência da avó, mais velho e ofensivamente pobre, o pai autorizara o casamento, mas exigira, para preservar o património familiar, que se casasse com separação de bens. Quinze anos mais velho, muito bebedolas, tinha o fígado num farrapo, fora-lhe há pouco tempo diagnosticado um cancro nos pulmões, era certo e sabido que morreria em breve, pobre como nascera. Talvez, por isso, por a morte, sempre certa, ser próxima e o dinheiro de pouco lhe valer, o avô fazia o que dava na real gana. Passava os dias fora de casa, aprendera a apreciar o putedo em geral, mas rejubilara com a chegada das brasileiras que sempre tinham um outro modo de amar. Chegava tarde, tropeçando nos jarrões, trazia o corpo das outras na ponta dos dedos, na barba grisalha, o cheiro doce das tropicais vaginas.
Entre a seriedade da avó e o serôdio deboche do avô, Aninhas sabia bem o que devia escolher. Despachava, por isso, o assunto. Gosto mais de si, avozinha, dizia numa vertigem, sem se preocupar, dava-lhe um beijo repenicado no rosto e ignorava o enlevo das amigas, Ai, Armandinha, que rica neta aqui tens!, diziam, chocalhando dentaduras, amordaçando a inveja. A avó aconchegava-se no cadeirão, satisfeita.
2012/01/17
Torrente
Não é costume, mas, ontem, senti uma torrencial vontade de insultar uma pessoa, dizer-lhe assim, muito calmamente, gozando cada palavra, vai-te foder, vai para o caralho, vai para a grande, escancarada, mal cheirosa e pustulenta puta que te pariu. Não o fiz porque, enfim, a minha esmerada educação o não permite e porque, conhecendo a mãe da dita pessoa, amável senhora, jamais seria capaz de a ofender. Andam agora os insultos a saracotear-me por dentro, a roçar-se nas paredes do esófago, em ricochetes violentos, já tenho três escaras e duas feridas vurmosas. Estou que não posso.
2012/01/16
Cesariny
Para cumprir uma obrigação familiar, um destes dias fui a um jantar de aniversário de uma prima por afinidade que vive no meio da cidade, num apartamento de luxo. A aniversariante, que tem umas mamas grandes e uma peida apetecível (é o que dizem, que eu de peidas percebo pouco), usava uns sapatos de verniz pretos, com saltos muito altos, e uma camisa de seda a imitar pele de tigre. É simpática, a prima. Aliás, é uma daquelas pessoas em quem a gente pensa e diz fulana é simpática e não lhe ocorre mais nada. Mas sabe fazer-se de senhora crescida. Sabe dar ordens à empregada, uma ucraniana, de pele muito clara e olhos frios. Sabe servir entradas, pratos cheios de gambas, nozes, lagosta, sobremesas requintadas, estrangeiras, naturalmente, que o que é nacional é mau, comezinho, deve evitar-se a todo o custo. No final, agradeceu a prima aos convidados com uma taça champanhe francês, aquele conhecido, Moet et Chandon ou lá como é que é. Fez um discurso emocionado. Bati palmas. Os amigos da prima também. Eles de camisa azul e calças de sarja creme vincadas, elas de vestido de alças, sandálias de cunha, beberricando champanhe e sacudindo madeixas loiras, afectadas, falando nasaladamente, metendo ditongos em palavras que os não têm.
Foi então que reparei no quadro. Um Cesariny, enorme e amarelo. O marido da prima, perante o meu interesse no quadro, perguntou-me se gostava. Antes que pudesse dizer-lhe que não explicou-me que a compra daquele quadro tinha sido um belo investimento. Esperava que o mesmo valorizasse assim que o pintor morresse. Olhei para o quadro preso naquela triste realidade. Lembrei-me da entrevista lida pela manhã, o Cesariny tão velho e saudavelmente louco, a falar dos urinóis de Lisboa, dos homens que amou e dos outros com quem se deitou, a falar, com desassombro, da vida e do que pode haver dentro dela. Lembrei-me de tudo isto e calei o chorrilho de disparates que esteve prestes a sair-me da boca. A tua mulher é boazona, mas burra que nem um calhau e tu és um prostituto, um chulo, um badameco armado aos cucos, um cobridor de fêmea que se veste de tigre e usa unhas de gel. Havia ela de ser de Camarate, da Brandoa ou da Cova da Piedade, tesa e retesa, a ver se te casavas com ela. Era o casavas. Quando ele se calou fugi para a cozinha. Fumei vários cigarros de seguida. Custa-me muito a minha cobardia. Deixei-me ficar a falar com a ucraniana de olhos glaciares.
Foi então que reparei no quadro. Um Cesariny, enorme e amarelo. O marido da prima, perante o meu interesse no quadro, perguntou-me se gostava. Antes que pudesse dizer-lhe que não explicou-me que a compra daquele quadro tinha sido um belo investimento. Esperava que o mesmo valorizasse assim que o pintor morresse. Olhei para o quadro preso naquela triste realidade. Lembrei-me da entrevista lida pela manhã, o Cesariny tão velho e saudavelmente louco, a falar dos urinóis de Lisboa, dos homens que amou e dos outros com quem se deitou, a falar, com desassombro, da vida e do que pode haver dentro dela. Lembrei-me de tudo isto e calei o chorrilho de disparates que esteve prestes a sair-me da boca. A tua mulher é boazona, mas burra que nem um calhau e tu és um prostituto, um chulo, um badameco armado aos cucos, um cobridor de fêmea que se veste de tigre e usa unhas de gel. Havia ela de ser de Camarate, da Brandoa ou da Cova da Piedade, tesa e retesa, a ver se te casavas com ela. Era o casavas. Quando ele se calou fugi para a cozinha. Fumei vários cigarros de seguida. Custa-me muito a minha cobardia. Deixei-me ficar a falar com a ucraniana de olhos glaciares.
(Outubro/2006)
2012/01/15
Vaca Profana
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas.
2012/01/12
Lunarglide
Corro com o i-pod do meu filho enfiado no sutiã. Ele empresta-mo, contrafeito, se um dia descobre que o levo aninhado nas mamas acabam-se as cantiguinhas durante as corridas. O meu irmão comprou uma televisão por dois mil euros que o faz feliz e eu comprei uns ténis que são uma beleza.
2012/01/11
Cápsula
Coisa extraordinária: o rapaz das arcadas anda a ler exactamente o mesmo livro que eu. Vi-o na fila do pequeno-almoço, livro aberto, enquanto esperava meia torrada e um galão escuro. Pelas metades, a lida e a que lhe falta, está, como eu, na parte em que Mathea decide fazer uma cápsula do tempo. Tamanha coincidência desinquieta-me, deixa-me palpitante.
2012/01/10
Exosqueleto
Conheço três maçons, arraia-miúda, mas bem instalados na vida. Um é, conforme calha, ora assessor, ora adjunto, anda nisto há que tempos, nunca passou a chefe de gabinete, muito menos a secretário de estado, desconfio, por isso, ser de competência miserável, nem a maçonaria o consegue puxar para cima. Outro, advogado de televisão, é metódico, inteligente, calculista, passo a passo fará o seu caminho, chegará a deputado da nação ou coisa que o valha. O outro não sei bem o que é, só sei que está em Valência, onde é presidente de uma instituição importante. Tem muito tempo livre que ocupa a tirar cursos de gastronomia: já aprendeu a confeccionar arroz à valenciana e semi-frio de torrão de Alicante. São, sem excepção, de um aborrecimento constrangedor, espécie de insectos protegidos por um exosqueleto que lhes confere segurança e impunidade. Acreditam genuinamente no seu valor e isso, mais do que o resto, é que me causa estranheza. Em contrapartida, para compensar a monotonia de tal gente, conheço vagamente uma lésbica paquidérmica que, durante uma excursão às ilhas gregas, andou a papar a mulher do chefe de uma grande loja maçónica. É história que merece ser contada, com um ou outro pormenor da minha imaginação, que não sou capaz de a contar de outra maneira.
O velho grão-mestre, figura pública de segunda monta, foi, na sua época, autêntico sedutor. Contam que tinha uma amante nas principais capitais europeias. Visitava-as com regularidade, levando-lhes, de lembrança, cartuchos de rebuçados de Portalegre. Quando entrou na andropausa, as viagens de avião começaram a ser uma canseira e, para seu embaraço, percebeu que o instrumento já não dava andamento às necessidades de tanto mulherio. Resolveu, por isso, assentar e escolher fêmea única. Escolheu uma loira, vinte anos mais nova, de lábios carnudos, peito empinado, nádegas firmes. A loira, contam, casou-se por amor: venerava o velho maçon, bebia as suas palavras, o seu saber, administrativa de segunda classe na repartição de finanças do Cacém, depois de devidamente burilada, não tardou a ser requisitada para a divisão cultural da câmara municipal da capital, lia muito, aprendeu a apreciar um bom vinho e a falar de arte contemporânea. Era, além de esperta, dedicada ao marido. Nunca se esquecia da medicação para a hipertensão, pela manhã, e, à noite, diluía, num copo de água, seis gotas de um sonífero de ervas para assegurar ao marido um sono reparador.
Acontece que, durante a tal excursão às ilhas gregas, talvez tenha sido nefasta a influência de ninfas, harpias, sereias, a loira, para além do homeopático sonífero, passou a dissolver dois zoldipem no copo de água do marido. Tiro e queda. Passados dez minutos, dormia profundamente. Mal lhe topava a boca escancarada, o fiozinho de baba a escorrer, mal escutava o sornar baixinho, saltava da cama. Dava-lhe um beijinho, aconchegava-lhe a lençol e dizia volto já, meu amor. Enfiava os pés, de unhas impecavelmente pintadas, macios, calosidades raspadas em manicura das avenidas novas, nos chinelinhos de pelica, e ia bater à porta do quarto ao lado. Esperava-a a outra, transida de desejo, com o seu pijama de perna curta, mulher-homem, homem-mulher, mulher-paquiderme, pesadona, feia que sei lá o quê, fufona mesmo, sem graça, sem encanto, tristemente máscula, cabelo cortado à escovinha, beiços finos, voz grossa, o sabor do colutório na boca.
Poderão estranhar a escolha da loira, mas acontece que a outra, apesar de feia e pesada, sabia o que muitos homens não sabem. Tinha competência para o fornicanço porque sendo mulher sabia exactamente o que lhes dá prazer. Assim que a loira entrava com a sua camisa de noite, leve, esvoaçante, engalfinhavam-se as duas numa espiral de prazer que durava aí bem a sua meia hora. À cavalona custava acreditar a sorte que a bafejara, habituada a engates à porta do Finalmente, só lhe calhavam na rifa funcionárias públicas feias, gordas, deslavadas, aprimorava, por isso, a competência: gastava tempo no apalpanço das mamas, mordiscava os mamilos com vagar, sabendo dosear a intensidade da mordedura para que a dor não anulasse o prazer, descia por ali fora, lambia a vulva, lambia as nádegas e o buraco do cu, muito fechadinho, um botãozinho por desabrochar, depois, no momento certo, enfiava a língua na profundidade da loira. A loira gozava muito, de braços abertos, impando, mordendo os lábios, a culpa não era sua, que diabo, amava o marido, generoso grão-mestre que a livrava dos formulários das finanças e a tornara numa mulher esclarecida, moderna, sofisticada, mas há muito que o seu corpo voluptuoso pedia uma penetração decente. É que, bem vistas as coisas, a língua da outra, grossa, comprida, autêntico falo que crescia e entumecia quando entrava dentro de si, era maior, incomparavelmente mais competente, do que o pénis do velho maçon, cansado de tanto uso, envelhecido, mirradinho como uma salsicha frita de véspera. A loira não sentia culpa, mas, por respeito, assim que atingia o orgasmo afastava a paquidérmica criatura e sem esperar que o prazer da outra chegasse, corria a vestir-se, dizia até amanhã e ia deitar-se ao lado do marido. Dormia sossegada. De manhã, vestia um vestido branco e usava uma gargantilha com pedras de âmbar. Parecia uma estrela de cinema, passeando no buffet das carnes frias, o velho maçon trotando atrás. Sentavam-se numa mesa redonda. Comiam figos abraseados com mel e torradas com azeite virgem enquanto, petulantemente entusiasmados, falavam da cultura helénica.
O velho grão-mestre, figura pública de segunda monta, foi, na sua época, autêntico sedutor. Contam que tinha uma amante nas principais capitais europeias. Visitava-as com regularidade, levando-lhes, de lembrança, cartuchos de rebuçados de Portalegre. Quando entrou na andropausa, as viagens de avião começaram a ser uma canseira e, para seu embaraço, percebeu que o instrumento já não dava andamento às necessidades de tanto mulherio. Resolveu, por isso, assentar e escolher fêmea única. Escolheu uma loira, vinte anos mais nova, de lábios carnudos, peito empinado, nádegas firmes. A loira, contam, casou-se por amor: venerava o velho maçon, bebia as suas palavras, o seu saber, administrativa de segunda classe na repartição de finanças do Cacém, depois de devidamente burilada, não tardou a ser requisitada para a divisão cultural da câmara municipal da capital, lia muito, aprendeu a apreciar um bom vinho e a falar de arte contemporânea. Era, além de esperta, dedicada ao marido. Nunca se esquecia da medicação para a hipertensão, pela manhã, e, à noite, diluía, num copo de água, seis gotas de um sonífero de ervas para assegurar ao marido um sono reparador.
Acontece que, durante a tal excursão às ilhas gregas, talvez tenha sido nefasta a influência de ninfas, harpias, sereias, a loira, para além do homeopático sonífero, passou a dissolver dois zoldipem no copo de água do marido. Tiro e queda. Passados dez minutos, dormia profundamente. Mal lhe topava a boca escancarada, o fiozinho de baba a escorrer, mal escutava o sornar baixinho, saltava da cama. Dava-lhe um beijinho, aconchegava-lhe a lençol e dizia volto já, meu amor. Enfiava os pés, de unhas impecavelmente pintadas, macios, calosidades raspadas em manicura das avenidas novas, nos chinelinhos de pelica, e ia bater à porta do quarto ao lado. Esperava-a a outra, transida de desejo, com o seu pijama de perna curta, mulher-homem, homem-mulher, mulher-paquiderme, pesadona, feia que sei lá o quê, fufona mesmo, sem graça, sem encanto, tristemente máscula, cabelo cortado à escovinha, beiços finos, voz grossa, o sabor do colutório na boca.
Poderão estranhar a escolha da loira, mas acontece que a outra, apesar de feia e pesada, sabia o que muitos homens não sabem. Tinha competência para o fornicanço porque sendo mulher sabia exactamente o que lhes dá prazer. Assim que a loira entrava com a sua camisa de noite, leve, esvoaçante, engalfinhavam-se as duas numa espiral de prazer que durava aí bem a sua meia hora. À cavalona custava acreditar a sorte que a bafejara, habituada a engates à porta do Finalmente, só lhe calhavam na rifa funcionárias públicas feias, gordas, deslavadas, aprimorava, por isso, a competência: gastava tempo no apalpanço das mamas, mordiscava os mamilos com vagar, sabendo dosear a intensidade da mordedura para que a dor não anulasse o prazer, descia por ali fora, lambia a vulva, lambia as nádegas e o buraco do cu, muito fechadinho, um botãozinho por desabrochar, depois, no momento certo, enfiava a língua na profundidade da loira. A loira gozava muito, de braços abertos, impando, mordendo os lábios, a culpa não era sua, que diabo, amava o marido, generoso grão-mestre que a livrava dos formulários das finanças e a tornara numa mulher esclarecida, moderna, sofisticada, mas há muito que o seu corpo voluptuoso pedia uma penetração decente. É que, bem vistas as coisas, a língua da outra, grossa, comprida, autêntico falo que crescia e entumecia quando entrava dentro de si, era maior, incomparavelmente mais competente, do que o pénis do velho maçon, cansado de tanto uso, envelhecido, mirradinho como uma salsicha frita de véspera. A loira não sentia culpa, mas, por respeito, assim que atingia o orgasmo afastava a paquidérmica criatura e sem esperar que o prazer da outra chegasse, corria a vestir-se, dizia até amanhã e ia deitar-se ao lado do marido. Dormia sossegada. De manhã, vestia um vestido branco e usava uma gargantilha com pedras de âmbar. Parecia uma estrela de cinema, passeando no buffet das carnes frias, o velho maçon trotando atrás. Sentavam-se numa mesa redonda. Comiam figos abraseados com mel e torradas com azeite virgem enquanto, petulantemente entusiasmados, falavam da cultura helénica.
2012/01/09
2012/01/06
Cão
Pelo sistema de ventilação, oiço o cão do quarto andar ladrar à noite. Acendo mais um cigarro e bebo mais um copo de vinho - em copinho de licor, do enxoval que a minha mãe me fez - para parecer que é pouco. O cão do quarto andar, rafeiro sisudo, não sabe o que fazer à solidão que a noite traz. Eu também não.
2012/01/05
Tariq Ramadan
Há algum tempo, vi-o ser entrevistado pelo Nuno Rogeiro. Fiquei impressionada mal lhe escutei as primeiras frases. Falava dos xiitas, dos sunitas, dos salafistas, dos talibans, dos coptas, falava do fundamentalismo islâmico, sei lá, já não sei bem do que falava, nem me interessa, sei que falava sobre um desses temas que despertam emoções e sobre os quais toda a gente tem opinião. Ele, porém, falava sem paixão, com assertividade, alguma bonomia. Olhei a televisão e pensei “Raio de homem tão giro! Por que não há em Lisboa homens assim?”. Apanhei a entrevista a meio e foi o cabo dos trabalhos para lhe descobrir o nome. Lembro-me de ver a entrevista e ter pena do Nuno Rogeiro, tentando, com as suas momices, os seus sorrisinhos, os seus constantes apartes, comungar do mesmo nível de conhecimento, capacidade de análise política e, sobretudo, de sedução.
(Veio cá conferenciar à Gulbenkian o Tariq Ramadan e eu não pude ir ouvi-lo. Triste e sacrificada, a vida de uma mulher só.)
(Veio cá conferenciar à Gulbenkian o Tariq Ramadan e eu não pude ir ouvi-lo. Triste e sacrificada, a vida de uma mulher só.)
2012/01/02
Vereda
Em Corturim, no coração da aldeia, há uma mercearia muito pequena onde tudo se vende. Entra-se e são tantos os cheiros e as cores, tamanha a confusão, que é preciso um minuto para a gente se habituar àquela escuridão cheia de sombras, perceber onde ficam as farinhas, os noodles que se cozinham sem saber e sem arte, o açúcar muito grosso que adoça sem nunca tornar terna a boca, as velas brancas estão ali, vêm num pacotinho de papel pardo que traz a imagem de uma santa amachucada pela solidão das peanhas e dos altares, o óleo em vasilhame está aqui, há fraldas descartáveis, caldos knorr, rolos de papel higiénico, batatas fritas, tudo o que o desenvolvimento traz e se precisa; sobretudo, mais do que a localização das mercearias, é preciso tempo para ignorar os sinais de intimidade que por todo lado se espalham, brinquedos de criança pelo chão, um bastão de críquete e dois gormitis adormecidos, o altar a Parvati, consorte de Shiva, deusa-mãe, que amou com pecado, bendito o fruto do seu ventre materno, o pilão enegrecido onde a mulher do homem da loja prepara massalas para o almoço, a portinhola de fitas que dá para um desvão de felicidade. Ao lado da mercearia, a paragem de riquexós é ponto de concentração dos homens da aldeia, pedem um copo de feni que levam para a rua, ficam ali no suão da monção ainda adormecida a comentar as notícias de quem chega de Margão, Pondá, das praias cheias de mulheres israelitas e russas, muito brancas, turistas quase despidas, de biquíni, que adormecem ao sol e acordam feias, escuras, tão pretas. No centro da aldeia, perto da paragem dos riquexós, fica a estação de correios, é um casebre quase abandonado, sem qualquer traço distintivo, sem sinal da instituição, sem marca administrativa. A primeira vez que lá entrei foi na companhia da Michele, casada com o meu primo Moreno que é bonitão, mesquinho e usa, na canícula de Janeiro, durante as missas de domingo, casacos de veludo cotelê, cor de mostarda, para mostrar que fugiu à boçalidade da aldeia. Ia a prima, nessa primeira vez, a mando da minha tia Maria, matriarca da casa de Maina, pagar a conta da electricidade. Estranhei haver duas filas, uma de homens, outra de mulheres. Olhou-me a prima, muito grávida e triste, nem sempre os casamentos arranjados são felizes, meteu o porta-moedas debaixo do braço, e perguntou se em Portugal não era assim, ali, na fila dos correios, como nas dos bancos, nas carruagens dos comboios, havia necessidade de separar os homens das mulheres para evitar o voraz instinto masculino, predadores que tocam mães, filhas e esposas, até das castas superiores. É em frente da estação dos correios, onde o desejo se separa em duas filas, obedecendo a uma moral frágil e moribunda, pouco antes da curva onde fica a loja das bebidas onde o meu pai compra grades de kingfisher, para mim, que as bebo de madrugada no terraço, na quietude da minha noite indiana, que nasce a vereda de sombras. A vereda de sombras leva a uma casa de um rosa esmaecido, um tom a fazer lembrar combinações de senhora, antigas, das que se usavam junto ao corpo e guardavam desejos proibidos. A casa tem um jardim pequeno, bem tratado, há duas jaqueiras perto do portão, tem beirais trabalhados e um alpendre que sossega quem chega. Nessa casa cor-de-rosa, vive um homem velho, de cabelo branco. Tem a beleza das coisas antigas.
(preparei a encomenda do Rafael e escrevi-lhe uma carta.)
(preparei a encomenda do Rafael e escrevi-lhe uma carta.)
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