Acordava durante a noite para comer, levantava-se da cama como um fantasma, atravessava o corredor, chegada à cozinha, metia à boca o sabor mais excessivo que encontrasse: oreos, picles de beterraba, azeitonas, às vezes, quando não era o excesso que procurava, abria a cartolina do cerelac e enfiava uma ou duas colheres de farinha na boca, ficava a pasta a amaciar durante algum tempo até se tornar num betume ligeiro que rapidamente engolia, voltava à cama e, assim, reconfortada, adormecia imediatamente. Sabia haver uma explicação de cariz sexual para os seus hábitos, mas não se dava ao trabalho de a procurar. Para além das insónias, tinha terrores nocturnos, pesadelos que vinham em catadupa, ficavam a noite toda, imagens muito nítidas que o dia nunca apagava, cores sombrias, verdes cinábrios e azuis cerúleos.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/02/10
2012/02/08
Chispe
Vou ao supermercado com os meus filhos. O mais velho desliza pelos corredores com as mãos enfiadas nos bolsos e as calças descaídas. A do meio saltita como se fosse uma libelinha, uma borboletinha, um bichinho delicado e frágil. O mais novo entretém-se a chupar os dedos, enterrado no carrinho que parece um trono. As pessoas que connosco se cruzam lançam sorrisos cheios de enlevo, como se, dessa forma, quisessem partilhar a nossa felicidade. A imagem de uma mãe com os seus filhos é sempre agradável, conforta-nos do vazio da vida, trata todas as maleitas do mundo, ameniza as quezílias do dia-a-dia. Há quem se meta com o bebé que, encantador, retribui com um sorriso baboso. Rejubilo com as minhas crias que me dão corpo e me tornam especial no corredor dos enlatados, na fila da peixaria, no açougue asséptico onde escolho embalagens de peru, galinha, coelho e, num devaneio incontrolável, um pedaço de chispe para fazer cachupa. Na caixa registadora, depois das pastilhas, chocolates e sacos de gomas, enquanto limpo o nariz da minha filha, topo com um escaparate cheiinho de revistas femininas, dessas revistas que toda a vida fiz questão de desprezar. Uma das revistas prende a minha atenção. Na capa, ao lado da imagem de uma miúda desgrenhada, magra e feia, oferecem-nos o kamasutra do sexo oral. O assunto interessa-me. Fosse eu uma mulher da má vida e seria conhecida, nos bordéis e lupanares desta cidade, pela exímia competência da minha boca. Faço deslizar a revista para o carrinho das compras e sorrio à menina da caixa, uma mulata bexigosa, que elogia os olhos dos meus filhos.
2012/02/07
Centopeia
Esvai-se o metro no cruzamento da linha amarela com a linha vermelha. Na plataforma, forma-se uma multidão compacta, um só corpo, lagarta comprida, andam os passageiros devagar, aproveitando o aconchego da proximidade para espreitar os outros: aquela rapariga tem um lacrau tatuado por baixo da orelha, o homem pequeno traz hoje um olhar magoado, a mulher gorda cheira a lixívia, a creolina, a ajax oxi plus. Sigo na multidão. Vou doente, quase morta, trago vasos inflamados, tenho tonturas, dores de cabeça, está o meu universo interior coberto de espinhos, zangado; sinto, e isso é pior do que as universais quezílias, um pingo de muco a querer fugir da narina direita, não trago lenços de papel, já os procurei e não os encontro, se me cai o pingo, se se solta a gota, vou ter de levar a mão disfarçadamente à narina para compor a coisa, levá-la hirta até encontrar onde a limpar; dói-me a cabeça; podendo, dormia. Subo as escadas com pressa de chegar à superfície, mordo os calcanhares do homem da frente, que leva um livro forrado com uma folha branca; vira-se o homem para trás e olha-me, indignado, como que a dizer, a senhora tenha cuidado, há regras e preceitos para que a centopeia se movimente; quero pedir-lhe desculpe, explicar-lhe que respeito muito o compasso da centopeia, a última coisa que quero é atrasar-lhe o passo, tanto apreço que tenho pelos quilópedes em geral, peçonhentos, primitivos, mas com graça no andar, também eu preciso de chegar à superfície para respirar, mas, perceba o senhor, venho doente, tomei os medicamentos dos meus filhos a ver se arrebitava, todos os que encontrei lá por casa, de uma só vez, brufen, maxilase, aerius, benuron, zyrtec; o dobro da dose que lhes uso a dar, costuma resultar, mas, desta vez, sinto só uma espécie de tontura infernal que me põe trôpega, a culpa, está bem de ver, é dos miúdos que não tomam os medicamentos certos para a cura dos meus males. Continuamos a subir e esforço-me por ir devagar, sem precipitações ou atropelos. Volto, porém, a pisar o homem da frente, desta vez com mais força, fica descalço no meio das escadas; pára a centopeia, por minha culpa. Tarda em chegar à luz.
2012/02/03
Manatim
Estava ao balcão da cafetaria, a comer qualquer coisa, quando me lembrei da Rafaela, colega de outros tempos, paquidérmica, colossal e mastodôntica, quando a conheci andava de pernas e braços muito abertos, membros como barbatanas, fazia lembrar uma morsa, uma baleia, uma manatim do amazonas, enfim, era um ser imenso e aquático, andava de boca sempre aberta porque lhe custava muito a respirar; em dada altura, anunciou que ia colocar uma banda gástrica, questão de vida ou morte, toda a gente do sexto piso o soube, um alarido, passava horas ao telefone a falar com as amigas, a explicar todos os pormenores da intervenção que lhe estreitaria o estômago, horas e horas naquilo, não sei como era capaz, custa-me tanto falar. Finalmente chegou o dia, meteu baixa, enfiaram-lhe a anilha no bucho, acabando a baixa voltou, queixosa, dorida, com uma catrefada de comprimidos para tomar.
Meia dúzia de dias depois, começou a encolher, a mirrar, parecia milagre, feitiço, bruxedo antigo, mas dos bons, emagreceu, emagreceu, perdia peso às golfadas. Alta, meia mulata, sem as banhas do costume, tornou-se numa morena vistosa, assim que chegou ao ponto tratou de cumprir o seu destino: arranjou um amante. Era um homem mais velho, controlador de tráfego aéreo aposentado, que a esperava, pelo menos duas vezes por semana, à porta do serviço, na companhia de um cão fuçanhudo, cheio de baba. Mulher pouco silenciosa, tudo nela chocalhava e badalava, assim que o aposentado lhe ligava, dizia vou comer qualquer coisa à cafetaria, levantava-se e soltava uma risada maliciosa. O sexto piso punha-se à janela a espreitar aquela indecência, quem a viu e quem a vê, ainda há meia dúzia de meses era uma desgraçada, gorda, feia, um manatim do amazonas, agora, meio postiça, é certo, mas bem boa, com amante posto na Elias Garcia e tudo.
O marido da Rafaela também trabalhava no sexto piso, funcionário zeloso, obediente, coleccionador compulsivo. Soube da traição e calou, nunca ninguém lhe ouviu um queixume, um reparo, nada, nadinha, enfim, uma jóia de homem, homens assim, mansos e resignados, são muito difíceis de encontrar. Pouco depois, a Rafaela pediu o divórcio: ficou com a carrinha e um apartamento, o marido ficou com o filho e as colecções de bules e isqueiros. Um ano mais tarde, mudou de direcção e abateu-se um silêncio muito triste no sexto piso. A última vez que a vi foi precisamente ali, ao balcão da cafetaria, vinha na companhia do controlador de tráfego aéreo aposentado, fez-me uma festa, gabei-lhe o tom das unhas, explicou-me que era um dos violetas hipnóticos da dior, o orchid, mais luminoso, irisado; despedimo-nos com dois beijinhos. Invejei-lhe tanta coisa. À saída o cão fuçanhudo, esperava o dono, olhando a montra de húngaros, bolachas francesas, carpinetes de amêndoa e raivas de fruta.
(devia escrever; ao invés, vou dançar e beber.)
2012/02/02
Laidinha
Chamava-se Maria Adelaide. Fora sempre uma criança enfezada. Nascera com uma fenda leporina no maxilar superior. A mãe, uma doméstica muito crente, casada com um construtor civil de Fátima, chorou-lhe o nascimento como se do ventre lhe tivesse escorrido o ser mais infame à face da Terra. Aos dois anos foi operada para fechar a fissura que causava tanto embaraço nos passeios domingueiros. Ficou-lhe uma cicatriz grossa e vermelha, aos gomos, que parecia ter sido suturada por uma costureira inexperiente, com fio de estopa, a sangue frio, sem cuidado ou gentileza. Feiinha, de uma feiura quase comovente por causa da cicatriz que lhe ficara no rosto, sentia-se sempre posta de lado nas festas familiares. A mãe bem podia enfeitá-la de laçarotes e vesti-la de folhos que as primas Arlete e Gorete, as gémeas que viviam na Bobadela, robustas e sadias, sempre lhe mostravam que a beleza era requisito imprescindível para uma mulher ser feliz. Faziam questão de lhe mexer na cicatriz porque, como explicavam, parecia um bichinho de seda morto. Chegavam tios e tias, primos e primas para a celebração dos domingos pascais e para a ceia de natal. A vivenda que o pai mandara construir em Sacavém, mesmo à beira da estrada nacional, revestida de azulejos cor de caramelo, rebentava nesses dias de festa. Os homens sentavam-se nas poltronas de cabedal do salão a mastigar rodelas de chouriço assado e quadrados de queijo flamengo. As mulheres enfiavam-se na cozinha a admirar os novos conjuntos de taparuéres que a mãe adquiria compulsivamente. As crianças corriam para o quarto de Maria Adelaide onde havia uma estante só para as bonecas compradas em Badajoz. Em cima da colcha de renda branca, de pernas abertas, muito esticadas, uma sevilhana vestida de folhos vermelhos, travessa e mantilha, olhava-se, altiva, no espelho oval do pechiché. Maria Adelaide seguia o bando e metia a sevilhana a salvo, em cima do roupeiro, não fosse algum dos primos parti-la e a mãe apanhar um desgosto profundo. Um dia descobriram que Laidinha, era assim que a família a tratava, gostava do primo Renato, rapaz de uma beleza óbvia e ordinária. As primas fizeram uma algazarra. Correram a contar-lhe. O primo olhou-a de cima a baixo e deu uma gargalhada escarninha que ficou, para sempre, presa nas paredes do quarto. Foi a primeira vez que Maria Adelaide sentiu que Deus a gozava. Não voltou a brincar com os primos nas festas de família. Ficava sentada no salão, entre os homens, mordiscando azeitonas.
2012/01/31
Aninhas e a escala ordinal
Assim que se interessava por um homem tratava de arranjar tempo para analisar o desejo, procurando medi-lo com a máxima precisão que conseguia. A escala que usava era simples, constituída apenas por três graus: desejo muito, desejo assim-assim, desejo pouco. Essa medição era essencial porque lhe permitia saber que fazer para retirar da relação o maior proveito possível. Se errasse na graduação do desejo, as consequências, não sendo catastróficas, podiam deixar-lhe no corpo cicatrizes de cerzidura leve, contínua. Quando o desejo, existindo, era de fraca intensidade, uma onda luminosa pouco ampla, de baixa frequência, luz de vela bruxuleando na escuridão, Aninhas abreviava o processo de sedução, saltava passos, insinuava-se, passava por frontal e disponível, passados dois ou três encontros, deitava-se com os homens que assim desejava. Tinha pouco ou nada a perder. A expectativa em relação a tais homens não era muita, a desilusão, se a houvesse, seria passageira, não deixaria marcas, nem sangue pisado.
Quando o desejo era assim-assim, nem carne, nem peixe, quando a análise não lhe permitia medição exacta, por imprudência, acabava por o tratar da mesma maneira: em pouco tempo, acabava na cama desses homens sem grande entusiasmo ou ilusões. Era quando o desejo a esmagava, ao ponto de com ele acordar, com ele se deitar, quando o desejo entrava nos seus sonhos, quando era intenso e sublimado, que Aninhas procurava preservá-lo. Não o queria morto. O único modo que conhecia de preservar esse desejo era não o concretizar, não cair no engano do corpo e do prazer. A não concretização do desejo exigia muito da sua parte: dissimulação, controlo absoluto, habilidade na mentira. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, o desejo acabaria por desaparecer, mas acreditava que assim o prolongava; rentabilizava-o.
Só uma vez se deitara com um homem que desejava muito. O seu desejo era primitivo, masculino, espontâneo, crescia como um tumor, sentia as metástases, um desejo que cansava, mas bom. Durante meses, de manhã à noite, viveu com essa vontade que a comia por dentro, corroendo vasos como ferrugem porosa, largando uma poalha invisível que se espalhava pelo seu avesso. Dava banho ao filho mais novo, esfregava a cabeça do pequeno com champô de camomila; fecha os olhos, meu amor, para não te arderem, dizia-lhe, e, nesse instante, imaginava as mãos daquele homem descendo pelo seu corpo. Estremecia, mas não se culpava. Cortava batatas em cubos para um assado de peixe e, enquanto os envolvia em colorau, agradecia o sossego da casa, as crianças em frente do televisor, pasmando pela tarde; no sossego da cozinha, junto à bancada de mármore, sentia o peso do corpo que desejava. O desejo nunca a largava, arrancava-a da monotonia, permitia-lhe a fuga. Era o desejo que lhe dava prazer.
Desejou esse homem com fúria. De tanto o querer, por assim o querer, julgou que aquele desejo nunca se perderia. No dia em que finalmente concordou em encontrar-se com tal homem, numa pensão com vista para o casario da baixa e manchas de humidade no tecto, ao subir as escadas esconsas, atapetadas por uma passadeira de linóleo, com vasos de cóleos e avencas subindo por ali fora, sentiu vontade de chorar. O homem era um amante competente. Tratou-a sem urgência, pôs de lado a vocação animal que todos os homens transportam, interessou-se pelos seus sinais, esforçou-se para lhe dar prazer, quando se veio, fê-lo com muita discrição, em surdina, como se a não quisesse melindrar. Aninhas aninhou-se no arco do seu braço e percebeu que o desejo, intruso que durante tanto tempo lhe preenchera o vazio, se fora embora. Quando, na noite seguinte, se deitou na sua cama, procurou-o e não o encontrou. Ficara sem desejo e sem prazer. Sem nada.
2012/01/29
2012/01/26
Mãe
Sai do consultório, de dentes novos, muito bonita, não há mãe mais bonita do que a minha, estalo de mulher quando era nova, como o meu pai, tão feio, foi capaz de a conquistar é coisa que ainda estamos por descobrir. Em vez de apanhar um riquexó e ir direita à aldeia, como lhe recomenda o meu pai, passeia sozinha por Margão, labirinto doce de lixo e confusão. No mercado, logo na entrada, duas hijras sorriem-lhe com os seus rostos funambulescos, a minha mãe sorri-lhes de volta, estranhando qualquer coisa, mas desconhecendo, que, por baixo dos saris, uma tem um pénis muito pequenino, mirrado pela toma de poções mágicas, a outra foi castrada em criança com uma adaga benzida por uma feiticeira muito velha. Aventura-se a minha mãe nos corredores do mercado, são serpentinas sem fim, preciso de comprar uma esfregona, sabonetes e um balde novo, o ano passado, recorda, andava, por aqui, às compras com a minha irmã e a Maria e um homem novo saiu do corredor das carnes, veio direito a mim e apalpou-me uma mama, uma mama de velha, a minha mama; fiquei quieta, sem saber o que fazer, um cheiro enjoativo soltou-se do homem e lembrei o dodol que a Maria me oferece pelo Natal, obrigada Maria, muito obrigada, não valia a pena estares com tanto trabalho e, por respeito como a pasta cruenta, escura da jagra, nem um esgar de nojo faço; o homem abocanhando a minha mama, eu a lembrar-me do dodol, um vómito subiu pela garganta; aconteceu no ano passado, pode acontecer outra vez, mas, coisa estranha, não tenho medo, não tenho medo do labirinto de serpentinas, nem das mulheres que parecem homens, nem dos homens que saltam da escuridão, sou uma mulher velha e trago o porta-moedas cheio de rupias.
Tia
Andava aflita, cheia de dores nas costas. Foi tratar-se a Pondá com o Antu, ortopedista de muita ciência, casado com a prima Diana, sobrinha preferida do meu pai: farmacêutica, escolheu um bom marido, emigrou para o Dubai, incansável trabalhadora, teve quatro filhos e educou-os com amor e disciplina, o mais velho é médico, a outra anda a estudar informática, os mais novos são uma jóia de rapazes, muito bons alunos. A minha prima tem a pele clara, é uma indiana branca; pinta sempre os lábios de vermelho, mas extraordinariamente, de lábios assim pintados, lume atiçado na boca, parece um anjo sereno. O Antu observou a minha tia e sossegou-a, receitou-lhe dez injecções para aliviar as dores e um esquema rígido de exercícios, a fazer todos os dias, para prevenir futuras crises de ciática. A tia Dé anuiu, sem perceber palavrinha do que o médico lhe disse; explicou-lho a minha mãe que domina na perfeição o inglês que se fala na Índia. Agora, mal acorda, no meio da sala, põe-se a fazer exercícios, cumprindo à risca o esquema que lhe deu o Antu. Isto custa-me, pensa, já não tenho idade para estas coisas, se a mulher que vem trazer o leite espreita pela janela, com aqueles olhos de morte que me assustam, pensa assim, lá está a branca chalupa, a mais gorda, a velha maluca, de camisa de noite, a fazer palhaçadas da terra dela; mas, lá fora, grasnam as gralhas e lembram o piar doce dos gaios e noitibós; à porta, está a garrafa de leite morno, ainda agora ordenhado, e tem o sabor denso do leite das vacas do vizinho Carlos; na cozinha, o pão fresco, muito branco, conforta-me como, na infância, me confortavam as fatias de pão azedo com manteiga de cor que calavam a fome e o frio; as minhas sobrinhas riem-se quando lhes digo que esta aldeia, tão longe, do outro lado do mundo, me lembra o lugar onde nasci, são boas raparigas, mas parvinhas de todo.
Pai
Sai de manhã, muito cedo, e volta pelo crepúsculo quando a neblina das queimadas de lixo cai sobre a aldeia. Passa o dia no terreno maior que lhe calhou nas partilhas do ano passado. Contratou uma pequena trupe de trabalhadores: duas mulheres de sari, crias amarradas à cintura, esguias, dobradas como juncos, limpam o mato; quatro rapazes escuros, uma escuridão que marca a vida, esquálidos, mortos de fome, muram a propriedade. Anda por ali o dia inteiro, olhando as várzeas abandonadas e os palmares cheios de casinhotos dos antigos manducares, agora, homens livres, a mesma miséria, a mesma indigência, a mesma servidão, mas livres, tão bonita, a liberdade. Quando chega para jantar, toma banho, veste um pijama fresco, senta-se em frente do prato de arroz branco com caril de couve-flor e, enquanto a minha mãe o penteia, como se fosse uma criança velha, dá conta dos seus pertences, naquele terreno, aquele maior perto das casas dos manducares, há vinte coqueiros, cinco jaqueiras, um tamarindo muito antigo de vagens gordas, duas mangueiras, algumas bananeiras e papaieiras; é um terreno que é uma beleza, já mo quiseram comprar, mas eu não quis, nem quero, vou deixá-lo num brinquinho, limpo, murado, cheio de fruta doce para os meus netos, vou deixá-lo assim e não sei por que o faço.
2012/01/23
Aninhas e a esmola
Às vezes, quando vinha de visita aos filhos, o marido pedia-lhe cama, assim, do nada, como se fosse uma esmola e Aninhas, por costume antigo, prática instituída, estivesse obrigada a dar-lha.
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