2012/02/08

Chispe

Vou ao supermercado com os meus filhos. O mais velho desliza pelos corredores com as mãos enfiadas nos bolsos e as calças descaídas. A do meio saltita como se fosse uma libelinha, uma borboletinha, um bichinho delicado e frágil. O mais novo entretém-se a chupar os dedos, enterrado no carrinho que parece um trono. As pessoas que connosco se cruzam lançam sorrisos cheios de enlevo, como se, dessa forma, quisessem partilhar a nossa felicidade. A imagem de uma mãe com os seus filhos é sempre agradável, conforta-nos do vazio da vida, trata todas as maleitas do mundo, ameniza as quezílias do dia-a-dia. Há quem se meta com o bebé que, encantador, retribui com um sorriso baboso. Rejubilo com as minhas crias que me dão corpo e me tornam especial no corredor dos enlatados, na fila da peixaria, no açougue asséptico onde escolho embalagens de peru, galinha, coelho e, num devaneio incontrolável, um pedaço de chispe para fazer cachupa. Na caixa registadora, depois das pastilhas, chocolates e sacos de gomas, enquanto limpo o nariz da minha filha, topo com um escaparate cheiinho de revistas femininas, dessas revistas que toda a vida fiz questão de desprezar. Uma das revistas prende a minha atenção. Na capa, ao lado da imagem de uma miúda desgrenhada, magra e feia, oferecem-nos o kamasutra do sexo oral. O assunto interessa-me. Fosse eu uma mulher da má vida e seria conhecida, nos bordéis e lupanares desta cidade, pela exímia competência da minha boca. Faço deslizar a revista para o carrinho das compras e sorrio à menina da caixa, uma mulata bexigosa, que elogia os olhos dos meus filhos.

Janeiro/2009

2012/02/07

1970

Goa

Em Goa, soube hoje pela minha mãe, é tempo das ladainhas.

Centopeia

Esvai-se o metro no cruzamento da linha amarela com a linha vermelha. Na plataforma, forma-se uma multidão compacta, um só corpo, lagarta comprida, andam os passageiros devagar, aproveitando o aconchego da proximidade para espreitar os outros: aquela rapariga tem um lacrau tatuado por baixo da orelha, o homem pequeno traz hoje um olhar magoado, a mulher gorda cheira a lixívia, a creolina, a ajax oxi plus. Sigo na multidão. Vou doente, quase morta, trago vasos inflamados, tenho tonturas, dores de cabeça, está o meu universo interior coberto de espinhos, zangado; sinto, e isso é pior do que as universais quezílias, um pingo de muco a querer fugir da narina direita, não trago lenços de papel, já os procurei e não os encontro, se me cai o pingo, se se solta a gota, vou ter de levar a mão disfarçadamente à narina para compor a coisa, levá-la hirta até encontrar onde a limpar; dói-me a cabeça; podendo, dormia. Subo as escadas com pressa de chegar à superfície, mordo os calcanhares do homem da frente, que leva um livro forrado com uma folha branca; vira-se o homem para trás e olha-me, indignado, como que a dizer, a senhora tenha cuidado, há regras e preceitos para que a centopeia se movimente; quero pedir-lhe desculpe, explicar-lhe que respeito muito o compasso da centopeia, a última coisa que quero é atrasar-lhe o passo, tanto apreço que tenho pelos quilópedes em geral, peçonhentos, primitivos, mas com graça no andar, também eu preciso de chegar à superfície para respirar, mas, perceba o senhor, venho doente, tomei os medicamentos dos meus filhos a ver se arrebitava, todos os que encontrei lá por casa, de uma só vez, brufen, maxilase, aerius, benuron, zyrtec; o dobro da dose que lhes uso a dar, costuma resultar, mas, desta vez, sinto só uma espécie de tontura infernal que me põe trôpega, a culpa, está bem de ver, é dos miúdos que não tomam os medicamentos certos para a cura dos meus males. Continuamos a subir e esforço-me por ir devagar, sem precipitações ou atropelos. Volto, porém, a pisar o homem da frente, desta vez com mais força, fica descalço no meio das escadas; pára a centopeia, por minha culpa. Tarda em chegar à luz.

2012/02/03

Frio

Manatim

Estava ao balcão da cafetaria, a comer qualquer coisa, quando me lembrei da Rafaela, colega de outros tempos, paquidérmica, colossal e mastodôntica, quando a conheci andava de pernas e braços muito abertos, membros como barbatanas, fazia lembrar uma morsa, uma baleia, uma manatim do amazonas, enfim, era um ser imenso e aquático, andava de boca sempre aberta porque lhe custava muito a respirar; em dada altura, anunciou que ia colocar uma banda gástrica, questão de vida ou morte, toda a gente do sexto piso o soube, um alarido, passava horas ao telefone a falar com as amigas, a explicar todos os pormenores da intervenção que lhe estreitaria o estômago, horas e horas naquilo, não sei como era capaz, custa-me tanto falar. Finalmente chegou o dia, meteu baixa, enfiaram-lhe a anilha no bucho, acabando a baixa voltou, queixosa, dorida, com uma catrefada de comprimidos para tomar.

Meia dúzia de dias depois, começou a encolher, a mirrar, parecia milagre, feitiço, bruxedo antigo, mas dos bons, emagreceu, emagreceu, perdia peso às golfadas. Alta, meia mulata, sem as banhas do costume, tornou-se numa morena vistosa, assim que chegou ao ponto tratou de cumprir o seu destino: arranjou um amante. Era um homem mais velho, controlador de tráfego aéreo aposentado, que a esperava, pelo menos duas vezes por semana, à porta do serviço, na companhia de um cão fuçanhudo, cheio de baba. Mulher pouco silenciosa, tudo nela chocalhava e badalava, assim que o aposentado lhe ligava, dizia vou comer qualquer coisa à cafetaria, levantava-se e soltava uma risada maliciosa. O sexto piso punha-se à janela a espreitar aquela indecência, quem a viu e quem a vê, ainda há meia dúzia de meses era uma desgraçada, gorda, feia, um manatim do amazonas, agora, meio postiça, é certo, mas bem boa, com amante posto na Elias Garcia e tudo.

O marido da Rafaela também trabalhava no sexto piso, funcionário zeloso, obediente, coleccionador compulsivo. Soube da traição e calou, nunca ninguém lhe ouviu um queixume, um reparo, nada, nadinha, enfim, uma jóia de homem, homens assim, mansos e resignados, são muito difíceis de encontrar. Pouco depois, a Rafaela pediu o divórcio: ficou com a carrinha e um apartamento, o marido ficou com o filho e as colecções de bules e isqueiros. Um ano mais tarde, mudou de direcção e abateu-se um silêncio muito triste no sexto piso. A última vez que a vi foi precisamente ali, ao balcão da cafetaria, vinha na companhia do controlador de tráfego aéreo aposentado, fez-me uma festa, gabei-lhe o tom das unhas, explicou-me que era um dos violetas hipnóticos da dior, o orchid, mais luminoso, irisado; despedimo-nos com dois beijinhos. Invejei-lhe tanta coisa. À saída o cão fuçanhudo, esperava o dono, olhando a montra de húngaros, bolachas francesas, carpinetes de amêndoa e raivas de fruta.

(devia escrever; ao invés, vou dançar e beber.)

2012/02/02

Criola


(O guru da Rua de Pedrouços mandou-me dançar.)

Laidinha

Chamava-se Maria Adelaide. Fora sempre uma criança enfezada. Nascera com uma fenda leporina no maxilar superior. A mãe, uma doméstica muito crente, casada com um construtor civil de Fátima, chorou-lhe o nascimento como se do ventre lhe tivesse escorrido o ser mais infame à face da Terra. Aos dois anos foi operada para fechar a fissura que causava tanto embaraço nos passeios domingueiros. Ficou-lhe uma cicatriz grossa e vermelha, aos gomos, que parecia ter sido suturada por uma costureira inexperiente, com fio de estopa, a sangue frio, sem cuidado ou gentileza. Feiinha, de uma feiura quase comovente por causa da cicatriz que lhe ficara no rosto, sentia-se sempre posta de lado nas festas familiares. A mãe bem podia enfeitá-la de laçarotes e vesti-la de folhos que as primas Arlete e Gorete, as gémeas que viviam na Bobadela, robustas e sadias, sempre lhe mostravam que a beleza era requisito imprescindível para uma mulher ser feliz. Faziam questão de lhe mexer na cicatriz porque, como explicavam, parecia um bichinho de seda morto. Chegavam tios e tias, primos e primas para a celebração dos domingos pascais e para a ceia de natal. A vivenda que o pai mandara construir em Sacavém, mesmo à beira da estrada nacional, revestida de azulejos cor de caramelo, rebentava nesses dias de festa. Os homens sentavam-se nas poltronas de cabedal do salão a mastigar rodelas de chouriço assado e quadrados de queijo flamengo. As mulheres enfiavam-se na cozinha a admirar os novos conjuntos de taparuéres que a mãe adquiria compulsivamente. As crianças corriam para o quarto de Maria Adelaide onde havia uma estante só para as bonecas compradas em Badajoz. Em cima da colcha de renda branca, de pernas abertas, muito esticadas, uma sevilhana vestida de folhos vermelhos, travessa e mantilha, olhava-se, altiva, no espelho oval do pechiché. Maria Adelaide seguia o bando e metia a sevilhana a salvo, em cima do roupeiro, não fosse algum dos primos parti-la e a mãe apanhar um desgosto profundo. Um dia descobriram que Laidinha, era assim que a família a tratava, gostava do primo Renato, rapaz de uma beleza óbvia e ordinária. As primas fizeram uma algazarra. Correram a contar-lhe. O primo olhou-a de cima a baixo e deu uma gargalhada escarninha que ficou, para sempre, presa nas paredes do quarto. Foi a primeira vez que Maria Adelaide sentiu que Deus a gozava. Não voltou a brincar com os primos nas festas de família. Ficava sentada no salão, entre os homens, mordiscando azeitonas.

2012/02/01

Estrela


(Lisboa/Figueira da Foz)

2012/01/31

Aninhas e a escala ordinal

Assim que se interessava por um homem tratava de arranjar tempo para analisar o desejo, procurando medi-lo com a máxima precisão que conseguia. A escala que usava era simples, constituída apenas por três graus: desejo muito, desejo assim-assim, desejo pouco. Essa medição era essencial porque lhe permitia saber que fazer para retirar da relação o maior proveito possível. Se errasse na graduação do desejo, as consequências, não sendo catastróficas, podiam deixar-lhe no corpo cicatrizes de cerzidura leve, contínua. Quando o desejo, existindo, era de fraca intensidade, uma onda luminosa pouco ampla, de baixa frequência, luz de vela bruxuleando na escuridão, Aninhas abreviava o processo de sedução, saltava passos, insinuava-se, passava por frontal e disponível, passados dois ou três encontros, deitava-se com os homens que assim desejava. Tinha pouco ou nada a perder. A expectativa em relação a tais homens não era muita, a desilusão, se a houvesse, seria passageira, não deixaria marcas, nem sangue pisado.

Quando o desejo era assim-assim, nem carne, nem peixe, quando a análise não lhe permitia medição exacta, por imprudência, acabava por o tratar da mesma maneira: em pouco tempo, acabava na cama desses homens sem grande entusiasmo ou ilusões. Era quando o desejo a esmagava, ao ponto de com ele acordar, com ele se deitar, quando o desejo entrava nos seus sonhos, quando era intenso e sublimado, que Aninhas procurava preservá-lo. Não o queria morto. O único modo que conhecia de preservar esse desejo era não o concretizar, não cair no engano do corpo e do prazer. A não concretização do desejo exigia muito da sua parte: dissimulação, controlo absoluto, habilidade na mentira. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, o desejo acabaria por desaparecer, mas acreditava que assim o prolongava; rentabilizava-o.

Só uma vez se deitara com um homem que desejava muito. O seu desejo era primitivo, masculino, espontâneo, crescia como um tumor, sentia as metástases, um desejo que cansava, mas bom. Durante meses, de manhã à noite, viveu com essa vontade que a comia por dentro, corroendo vasos como ferrugem porosa, largando uma poalha invisível que se espalhava pelo seu avesso. Dava banho ao filho mais novo, esfregava a cabeça do pequeno com champô de camomila; fecha os olhos, meu amor, para não te arderem, dizia-lhe, e, nesse instante, imaginava as mãos daquele homem descendo pelo seu corpo. Estremecia, mas não se culpava. Cortava batatas em cubos para um assado de peixe e, enquanto os envolvia em colorau, agradecia o sossego da casa, as crianças em frente do televisor, pasmando pela tarde; no sossego da cozinha, junto à bancada de mármore, sentia o peso do corpo que desejava. O desejo nunca a largava, arrancava-a da monotonia, permitia-lhe a fuga. Era o desejo que lhe dava prazer.

Desejou esse homem com fúria. De tanto o querer, por assim o querer, julgou que aquele desejo nunca se perderia. No dia em que finalmente concordou em encontrar-se com tal homem, numa pensão com vista para o casario da baixa e manchas de humidade no tecto, ao subir as escadas esconsas, atapetadas por uma passadeira de linóleo, com vasos de cóleos e avencas subindo por ali fora, sentiu vontade de chorar. O homem era um amante competente. Tratou-a sem urgência, pôs de lado a vocação animal que todos os homens transportam, interessou-se pelos seus sinais, esforçou-se para lhe dar prazer, quando se veio, fê-lo com muita discrição, em surdina, como se a não quisesse melindrar. Aninhas aninhou-se no arco do seu braço e percebeu que o desejo, intruso que durante tanto tempo lhe preenchera o vazio, se fora embora. Quando, na noite seguinte, se deitou na sua cama, procurou-o e não o encontrou. Ficara sem desejo e sem prazer. Sem nada.

2012/01/29

Kaawa Kaawa

2012/01/26

Mãe

Sai do consultório, de dentes novos, muito bonita, não há mãe mais bonita do que a minha, estalo de mulher quando era nova, como o meu pai, tão feio, foi capaz de a conquistar é coisa que ainda estamos por descobrir. Em vez de apanhar um riquexó e ir direita à aldeia, como lhe recomenda o meu pai, passeia sozinha por Margão, labirinto doce de lixo e confusão. No mercado, logo na entrada, duas hijras sorriem-lhe com os seus rostos funambulescos, a minha mãe sorri-lhes de volta, estranhando qualquer coisa, mas desconhecendo, que, por baixo dos saris, uma tem um pénis muito pequenino, mirrado pela toma de poções mágicas, a outra foi castrada em criança com uma adaga benzida por uma feiticeira muito velha. Aventura-se a minha mãe nos corredores do mercado, são serpentinas sem fim, preciso de comprar uma esfregona, sabonetes e um balde novo, o ano passado, recorda, andava, por aqui, às compras com a minha irmã e a Maria e um homem novo saiu do corredor das carnes, veio direito a mim e apalpou-me uma mama, uma mama de velha, a minha mama; fiquei quieta, sem saber o que fazer, um cheiro enjoativo soltou-se do homem e lembrei o dodol que a Maria me oferece pelo Natal, obrigada Maria, muito obrigada, não valia a pena estares com tanto trabalho e, por respeito como a pasta cruenta, escura da jagra, nem um esgar de nojo faço; o homem abocanhando a minha mama, eu a lembrar-me do dodol, um vómito subiu pela garganta; aconteceu no ano passado, pode acontecer outra vez, mas, coisa estranha, não tenho medo, não tenho medo do labirinto de serpentinas, nem das mulheres que parecem homens, nem dos homens que saltam da escuridão, sou uma mulher velha e trago o porta-moedas cheio de rupias.

Tia

Andava aflita, cheia de dores nas costas. Foi tratar-se a Pondá com o Antu, ortopedista de muita ciência, casado com a prima Diana, sobrinha preferida do meu pai: farmacêutica, escolheu um bom marido, emigrou para o Dubai, incansável trabalhadora, teve quatro filhos e educou-os com amor e disciplina, o mais velho é médico, a outra anda a estudar informática, os mais novos são uma jóia de rapazes, muito bons alunos. A minha prima tem a pele clara, é uma indiana branca; pinta sempre os lábios de vermelho, mas extraordinariamente, de lábios assim pintados, lume atiçado na boca, parece um anjo sereno. O Antu observou a minha tia e sossegou-a, receitou-lhe dez injecções para aliviar as dores e um esquema rígido de exercícios, a fazer todos os dias, para prevenir futuras crises de ciática. A tia Dé anuiu, sem perceber palavrinha do que o médico lhe disse; explicou-lho a minha mãe que domina na perfeição o inglês que se fala na Índia. Agora, mal acorda, no meio da sala, põe-se a fazer exercícios, cumprindo à risca o esquema que lhe deu o Antu. Isto custa-me, pensa, já não tenho idade para estas coisas, se a mulher que vem trazer o leite espreita pela janela, com aqueles olhos de morte que me assustam, pensa assim, lá está a branca chalupa, a mais gorda, a velha maluca, de camisa de noite, a fazer palhaçadas da terra dela; mas, lá fora, grasnam as gralhas e lembram o piar doce dos gaios e noitibós; à porta, está a garrafa de leite morno, ainda agora ordenhado, e tem o sabor denso do leite das vacas do vizinho Carlos; na cozinha, o pão fresco, muito branco, conforta-me como, na infância, me confortavam as fatias de pão azedo com manteiga de cor que calavam a fome e o frio; as minhas sobrinhas riem-se quando lhes digo que esta aldeia, tão longe, do outro lado do mundo, me lembra o lugar onde nasci, são boas raparigas, mas parvinhas de todo.

Pai

Sai de manhã, muito cedo, e volta pelo crepúsculo quando a neblina das queimadas de lixo cai sobre a aldeia. Passa o dia no terreno maior que lhe calhou nas partilhas do ano passado. Contratou uma pequena trupe de trabalhadores: duas mulheres de sari, crias amarradas à cintura, esguias, dobradas como juncos, limpam o mato; quatro rapazes escuros, uma escuridão que marca a vida, esquálidos, mortos de fome, muram a propriedade. Anda por ali o dia inteiro, olhando as várzeas abandonadas e os palmares cheios de casinhotos dos antigos manducares, agora, homens livres, a mesma miséria, a mesma indigência, a mesma servidão, mas livres, tão bonita, a liberdade. Quando chega para jantar, toma banho, veste um pijama fresco, senta-se em frente do prato de arroz branco com caril de couve-flor e, enquanto a minha mãe o penteia, como se fosse uma criança velha, dá conta dos seus pertences, naquele terreno, aquele maior perto das casas dos manducares, há vinte coqueiros, cinco jaqueiras, um tamarindo muito antigo de vagens gordas, duas mangueiras, algumas bananeiras e papaieiras; é um terreno que é uma beleza, já mo quiseram comprar, mas eu não quis, nem quero, vou deixá-lo num brinquinho, limpo, murado, cheio de fruta doce para os meus netos, vou deixá-lo assim e não sei por que o faço.

2012/01/24

Dalida

2012/01/23

Aninhas e a esmola

Às vezes, quando vinha de visita aos filhos, o marido pedia-lhe cama, assim, do nada, como se fosse uma esmola e Aninhas, por costume antigo, prática instituída, estivesse obrigada a dar-lha.

2012/01/22

Escuridão



(também o amo; no fundo, bem lá no fundo, por baixo do ódio, do desdém, da arrogância e do desprezo, sou uma mulherzinha cheia de amor para dar.)

Vício

O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se num vício. Eu percebo bem o que ele queria dizer. Sou depressiva há muitos anos e não sei como me livrar da tristeza que toma conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tive filhos para que a responsabilidade da maternidade soterrasse a tristeza. Já tentei preencher o tempo com merdas e merdinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Até já tentei tomar decisões ridiculamente fracturantes que espantassem dos meus dias a solidão que neles se instalou. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. A tristeza serve para desculpar a inércia e, sobretudo, a mediocridade.

Outubro/2008

(livrei-me do vício, mas ainda estranho.)

2012/01/20

Monção

2012/01/19

Pele de crocodilo

Na livraria, à hora de almoço, peguei num livro da Ana Teresa Pereira. Fartei-me de rir. Lá estava o seu universo habitual: o Ticiano, o Mahler, o Calvin Klein, o Marlon Brando, a National Gallery. Dizem os entendidos, críticos literários e perecíveis sucedâneos, que a Ana Teresa Pereira é boa escritora. Eles hão-de saber do assunto. Eu cá não a suporto. Também detestei, mas é que detestei mesmo, o Myra da Maria Velho da Costa. Levei-o de companhia para um julgamento em Monção que, feito em duas sessões, me obrigou a pernoitar no hotel das termas. Sozinha no quarto, chovia tanto lá fora, deitada com a Maria Velho da Costa. Não aguentei dois minutos a companhia, fui fumar para a janela e, mal me deitei, pus-me a pensar numa pessoa que eu cá sei e enfiei um dedo na vagina para afugentar a irritação. Os entendidos dizem que a Maria Velho da Costa também é muito boa escritora. Está visto que não percebo nada de literatura. Nadinha. E comprei, lá por Monção, numa boutique jeitosa que ficava ao lado de uma loja de plásticos, um vestido justo com padrão de pele de crocodilo. O vestido é giro que se farta e realça a minha latinidade. Cada vez que o visto, porém, lembro-me do camiseiro da tigresa prima, dona do Cesariny, tanto que a gozei, e afundo-me na minha idiossincrasia.

Aninhas e a graduação do amor (2)

Um dia, maçada com a encenação, sobretudo, aborrecida por aquela pergunta lhe interromper sempre as brincadeiras com as primas, num arroubo de sinceridade, que anos mais tarde não seria capaz de explicar em contínuas sessões de psicanálise feitas com um holandês na Rua de Pedrouços, Aninhas achou que, à pergunta da avó, devia responder com sinceridade. Gostava da avó, apreciava-lhe a firmeza e o protagonismo, mas, parecia-lhe, gostava um pouco mais do avô que sabia jogar ao burro em pé, à bisca lambida e que introduzira a indecência na sua vida.

Quando, naquela tarde, a avó lhe voltou a fazer a pergunta, não hesitou. Gosto mais do avô, respondeu e olhou-a de frente. As amigas estremeceram nas suas cadeiras, preparando-se para a recriminação e para o consolo. A avó ouviu a resposta, passou-lhe a mão pelo cabelo escuro, sorriu-lhe como se a resposta a não atingisse e explicou que apreciava muito a sua frontalidade. Aninhas julgou que tudo continuaria na mesma. Porém, no domingo seguinte, deu-se conta das consequências da sua sinceridade: a avó passara a amá-la menos. O amor, para a avó, exigia subserviência e submissão. A liberdade no amor era intolerável. Nunca mais lhe fez a tal pergunta - gostas mais da avozinha ou do avozinho? - mas, a partir dessa altura, nos lanches de domingo com as amigas, passou a pôr grande entusiasmo nos dotes de Luísa, irmã mais velha de Aninhas, feiota, não muito inteligente, mas muito esforçada. O esforço e a determinação são características habituais das mulheres feias, querem, desse modo, livrar-se da feiura com que nasceram. Raramente o conseguem.

Luísa tinha, sobretudo, muita habilidade com as mãos. Cozinhava, costurava e bordava na perfeição. Terminada a partida de gamão, a avó chamava-a. Levantava-se e, muito satisfeita, mostrava a barra em ponto richelieu que queria aplicar numa toalha de linho que a avó comprara nos saldos na Dinlar. Aninhas, entretida com as brincadeiras com as primas, fingia não notar a cena. Aprendera, desde então, que o amor se pode medir, exprimir-se numericamente através de um sistema métrico com medidas próprias e rudimentares. O amor nunca é incondicional ou absoluto. Aumenta e diminui conforme calha. E termina. Aninhas cedo se habituou à graduação do amor.

2012/01/18

Aninhas e a graduação do amor (1)

Lembrava-se da avó de lábios finos, pintados de vermelho, cabelo quase branco, quase azul, afagando o colar de pérolas como se fosse um animal moribundo, sentada no cadeirão de palhinha, na companhia das amigas que vinham pela tarde de domingo jogar gamão, beber chá e comer fatias de bolo mármore. Mal a partida terminava, as peças eram meticulosamente guardadas numa caixa de embutidos de marfim. A avó chamava-a com um esganiço de voz. Largava a brincadeira com as primas e vinha a correr. A avó ajeitava-lhe a gola do vestido de verão, para a compor diante das amigas, também elas de lábios trémulos e bichos mortos ao pescoço, e perguntava sem rodeios, de supetão, Aninhas, minha querida, gostas mais da avozinha ou do avozinho?

Estranha pergunta. Tão pequena, havia de ter sete, oito anos, a pergunta perecia-lhe uma charada, uma brincadeira, a pista de um jogo qualquer. Intuía, no entanto, a essencialidade da sua resposta. A avó vivia na vivenda grande, junto da baía, tinha muitos jarrões antigos espalhados pela casa e duas empregadas fardadas; o clã, filhos e netos, andava sempre de volta dela, tratando-a com deferência, muito mimo. Faziam-lhe as vontadinhas todas, isso percebia Aninhas, a avó queria ir passar a tarde a Lisboa, ver as montras da avenida, comprar conjuntos de atoalhados nos armazéns da baixa, lanchar duchesses e babás e logo havia quem se dispusesse a ir buscá-la e trazê-la; a avó precisava de ajuda com a papelada do banco e alguém largava o emprego, um dia inteiro, e vinha em seu socorro. Um dia, a avó telefonara para a mãe de Aninhas numa aflição, estava sem empregadas, uma fora visitar o pai moribundo a Lamego, a outra embuchara há pouco e andava, num histerismo de fêmea moderna, preocupada com derrames, em suma, estava sozinha, queria vestir uma cinta nova que lhe dava muito conforto à coluna e não conseguia; a mãe de Aninhas largou tudo, meteu-se no carro e foi ajudar a apertar os colchetes da cinta. A família gravitava como uma nebulosa em volta da avó por uma razão muito simples: Armandinha, assim se chamava a avó, era rica, tinha contas bancárias recheadas, muitas propriedades.

Ao avô, pelo contrário, o clã pouco ligava. Paixão de adolescência da avó, mais velho e ofensivamente pobre, o pai autorizara o casamento, mas exigira, para preservar o património familiar, que se casasse com separação de bens. Quinze anos mais velho, muito bebedolas, tinha o fígado num farrapo, fora-lhe há pouco tempo diagnosticado um cancro nos pulmões, era certo e sabido que morreria em breve, pobre como nascera. Talvez, por isso, por a morte, sempre certa, ser próxima e o dinheiro de pouco lhe valer, o avô fazia o que dava na real gana. Passava os dias fora de casa, aprendera a apreciar o putedo em geral, mas rejubilara com a chegada das brasileiras que sempre tinham um outro modo de amar. Chegava tarde, tropeçando nos jarrões, trazia o corpo das outras na ponta dos dedos, na barba grisalha, o cheiro doce das tropicais vaginas.

Entre a seriedade da avó e o serôdio deboche do avô, Aninhas sabia bem o que devia escolher. Despachava, por isso, o assunto. Gosto mais de si, avozinha, dizia numa vertigem, sem se preocupar, dava-lhe um beijo repenicado no rosto e ignorava o enlevo das amigas, Ai, Armandinha, que rica neta aqui tens!, diziam, chocalhando dentaduras, amordaçando a inveja. A avó aconchegava-se no cadeirão, satisfeita.

2012/01/17

Torrente

Não é costume, mas, ontem, senti uma torrencial vontade de insultar uma pessoa, dizer-lhe assim, muito calmamente, gozando cada palavra, vai-te foder, vai para o caralho, vai para a grande, escancarada, mal cheirosa e pustulenta puta que te pariu. Não o fiz porque, enfim, a minha esmerada educação o não permite e porque, conhecendo a mãe da dita pessoa, amável senhora, jamais seria capaz de a ofender. Andam agora os insultos a saracotear-me por dentro, a roçar-se nas paredes do esófago, em ricochetes violentos, já tenho três escaras e duas feridas vurmosas. Estou que não posso.

Rejeição

Para além do septuagenário algaliado e do anão bem apetrechado, também fui recentemente rejeitada por um psiquiatra. Foi, de longe, a rejeição que mais me humilhou, já que, pelos velhos e aleijadinhos em geral, sempre tenho alguma consideração.

Eclipse



(Não sou proveito; sou pura fama.)
(Lisboa-Fafe)

2012/01/16

Cesariny

Para cumprir uma obrigação familiar, um destes dias fui a um jantar de aniversário de uma prima por afinidade que vive no meio da cidade, num apartamento de luxo. A aniversariante, que tem umas mamas grandes e uma peida apetecível (é o que dizem, que eu de peidas percebo pouco), usava uns sapatos de verniz pretos, com saltos muito altos, e uma camisa de seda a imitar pele de tigre. É simpática, a prima. Aliás, é uma daquelas pessoas em quem a gente pensa e diz fulana é simpática e não lhe ocorre mais nada. Mas sabe fazer-se de senhora crescida. Sabe dar ordens à empregada, uma ucraniana, de pele muito clara e olhos frios. Sabe servir entradas, pratos cheios de gambas, nozes, lagosta, sobremesas requintadas, estrangeiras, naturalmente, que o que é nacional é mau, comezinho, deve evitar-se a todo o custo. No final, agradeceu a prima aos convidados com uma taça champanhe francês, aquele conhecido, Moet et Chandon ou lá como é que é. Fez um discurso emocionado. Bati palmas. Os amigos da prima também. Eles de camisa azul e calças de sarja creme vincadas, elas de vestido de alças, sandálias de cunha, beberricando champanhe e sacudindo madeixas loiras, afectadas, falando nasaladamente, metendo ditongos em palavras que os não têm.

Foi então que reparei no quadro. Um Cesariny, enorme e amarelo. O marido da prima, perante o meu interesse no quadro, perguntou-me se gostava. Antes que pudesse dizer-lhe que não explicou-me que a compra daquele quadro tinha sido um belo investimento. Esperava que o mesmo valorizasse assim que o pintor morresse. Olhei para o quadro preso naquela triste realidade. Lembrei-me da entrevista lida pela manhã, o Cesariny tão velho e saudavelmente louco, a falar dos urinóis de Lisboa, dos homens que amou e dos outros com quem se deitou, a falar, com desassombro, da vida e do que pode haver dentro dela. Lembrei-me de tudo isto e calei o chorrilho de disparates que esteve prestes a sair-me da boca. A tua mulher é boazona, mas burra que nem um calhau e tu és um prostituto, um chulo, um badameco armado aos cucos, um cobridor de fêmea que se veste de tigre e usa unhas de gel. Havia ela de ser de Camarate, da Brandoa ou da Cova da Piedade, tesa e retesa, a ver se te casavas com ela. Era o casavas. Quando ele se calou fugi para a cozinha. Fumei vários cigarros de seguida. Custa-me muito a minha cobardia. Deixei-me ficar a falar com a ucraniana de olhos glaciares.

(Outubro/2006)

2012/01/15

Vaca Profana



Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas.

2012/01/12

Lunarglide

Corro com o i-pod do meu filho enfiado no sutiã. Ele empresta-mo, contrafeito, se um dia descobre que o levo aninhado nas mamas acabam-se as cantiguinhas durante as corridas. O meu irmão comprou uma televisão por dois mil euros que o faz feliz e eu comprei uns ténis que são uma beleza.

2012/01/11

Cápsula

Coisa extraordinária: o rapaz das arcadas anda a ler exactamente o mesmo livro que eu. Vi-o na fila do pequeno-almoço, livro aberto, enquanto esperava meia torrada e um galão escuro. Pelas metades, a lida e a que lhe falta, está, como eu, na parte em que Mathea decide fazer uma cápsula do tempo. Tamanha coincidência desinquieta-me, deixa-me palpitante.

2012/01/10

Exosqueleto

Conheço três maçons, arraia-miúda, mas bem instalados na vida. Um é, conforme calha, ora assessor, ora adjunto, anda nisto há que tempos, nunca passou a chefe de gabinete, muito menos a secretário de estado, desconfio, por isso, ser de competência miserável, nem a maçonaria o consegue puxar para cima. Outro, advogado de televisão, é metódico, inteligente, calculista, passo a passo fará o seu caminho, chegará a deputado da nação ou coisa que o valha. O outro não sei bem o que é, só sei que está em Valência, onde é presidente de uma instituição importante. Tem muito tempo livre que ocupa a tirar cursos de gastronomia: já aprendeu a confeccionar arroz à valenciana e semi-frio de torrão de Alicante. São, sem excepção, de um aborrecimento constrangedor, espécie de insectos protegidos por um exosqueleto que lhes confere segurança e impunidade. Acreditam genuinamente no seu valor e isso, mais do que o resto, é que me causa estranheza. Em contrapartida, para compensar a monotonia de tal gente, conheço vagamente uma lésbica paquidérmica que, durante uma excursão às ilhas gregas, andou a papar a mulher do chefe de uma grande loja maçónica. É história que merece ser contada, com um ou outro pormenor da minha imaginação, que não sou capaz de a contar de outra maneira.

O velho grão-mestre, figura pública de segunda monta, foi, na sua época, autêntico sedutor. Contam que tinha uma amante nas principais capitais europeias. Visitava-as com regularidade, levando-lhes, de lembrança, cartuchos de rebuçados de Portalegre. Quando entrou na andropausa, as viagens de avião começaram a ser uma canseira e, para seu embaraço, percebeu que o instrumento já não dava andamento às necessidades de tanto mulherio. Resolveu, por isso, assentar e escolher fêmea única. Escolheu uma loira, vinte anos mais nova, de lábios carnudos, peito empinado, nádegas firmes. A loira, contam, casou-se por amor: venerava o velho maçon, bebia as suas palavras, o seu saber, administrativa de segunda classe na repartição de finanças do Cacém, depois de devidamente burilada, não tardou a ser requisitada para a divisão cultural da câmara municipal da capital, lia muito, aprendeu a apreciar um bom vinho e a falar de arte contemporânea. Era, além de esperta, dedicada ao marido. Nunca se esquecia da medicação para a hipertensão, pela manhã, e, à noite, diluía, num copo de água, seis gotas de um sonífero de ervas para assegurar ao marido um sono reparador.

Acontece que, durante a tal excursão às ilhas gregas, talvez tenha sido nefasta a influência de ninfas, harpias, sereias, a loira, para além do homeopático sonífero, passou a dissolver dois zoldipem no copo de água do marido. Tiro e queda. Passados dez minutos, dormia profundamente. Mal lhe topava a boca escancarada, o fiozinho de baba a escorrer, mal escutava o sornar baixinho, saltava da cama. Dava-lhe um beijinho, aconchegava-lhe a lençol e dizia volto já, meu amor. Enfiava os pés, de unhas impecavelmente pintadas, macios, calosidades raspadas em manicura das avenidas novas, nos chinelinhos de pelica, e ia bater à porta do quarto ao lado. Esperava-a a outra, transida de desejo, com o seu pijama de perna curta, mulher-homem, homem-mulher, mulher-paquiderme, pesadona, feia que sei lá o quê, fufona mesmo, sem graça, sem encanto, tristemente máscula, cabelo cortado à escovinha, beiços finos, voz grossa, o sabor do colutório na boca.

Poderão estranhar a escolha da loira, mas acontece que a outra, apesar de feia e pesada, sabia o que muitos homens não sabem. Tinha competência para o fornicanço porque sendo mulher sabia exactamente o que lhes dá prazer. Assim que a loira entrava com a sua camisa de noite, leve, esvoaçante, engalfinhavam-se as duas numa espiral de prazer que durava aí bem a sua meia hora. À cavalona custava acreditar a sorte que a bafejara, habituada a engates à porta do Finalmente, só lhe calhavam na rifa funcionárias públicas feias, gordas, deslavadas, aprimorava, por isso, a competência: gastava tempo no apalpanço das mamas, mordiscava os mamilos com vagar, sabendo dosear a intensidade da mordedura para que a dor não anulasse o prazer, descia por ali fora, lambia a vulva, lambia as nádegas e o buraco do cu, muito fechadinho, um botãozinho por desabrochar, depois, no momento certo, enfiava a língua na profundidade da loira. A loira gozava muito, de braços abertos, impando, mordendo os lábios, a culpa não era sua, que diabo, amava o marido, generoso grão-mestre que a livrava dos formulários das finanças e a tornara numa mulher esclarecida, moderna, sofisticada, mas há muito que o seu corpo voluptuoso pedia uma penetração decente. É que, bem vistas as coisas, a língua da outra, grossa, comprida, autêntico falo que crescia e entumecia quando entrava dentro de si, era maior, incomparavelmente mais competente, do que o pénis do velho maçon, cansado de tanto uso, envelhecido, mirradinho como uma salsicha frita de véspera. A loira não sentia culpa, mas, por respeito, assim que atingia o orgasmo afastava a paquidérmica criatura e sem esperar que o prazer da outra chegasse, corria a vestir-se, dizia até amanhã e ia deitar-se ao lado do marido. Dormia sossegada. De manhã, vestia um vestido branco e usava uma gargantilha com pedras de âmbar. Parecia uma estrela de cinema, passeando no buffet das carnes frias, o velho maçon trotando atrás. Sentavam-se numa mesa redonda. Comiam figos abraseados com mel e torradas com azeite virgem enquanto, petulantemente entusiasmados, falavam da cultura helénica.

2012/01/09

2012/01/06

Cão

Pelo sistema de ventilação, oiço o cão do quarto andar ladrar à noite. Acendo mais um cigarro e bebo mais um copo de vinho - em copinho de licor, do enxoval que a minha mãe me fez - para parecer que é pouco. O cão do quarto andar, rafeiro sisudo, não sabe o que fazer à solidão que a noite traz. Eu também não.

Dark Places



(amo-a.)

2012/01/05

Tariq Ramadan

Há algum tempo, vi-o ser entrevistado pelo Nuno Rogeiro. Fiquei impressionada mal lhe escutei as primeiras frases. Falava dos xiitas, dos sunitas, dos salafistas, dos talibans, dos coptas, falava do fundamentalismo islâmico, sei lá, já não sei bem do que falava, nem me interessa, sei que falava sobre um desses temas que despertam emoções e sobre os quais toda a gente tem opinião. Ele, porém, falava sem paixão, com assertividade, alguma bonomia. Olhei a televisão e pensei “Raio de homem tão giro! Por que não há em Lisboa homens assim?”. Apanhei a entrevista a meio e foi o cabo dos trabalhos para lhe descobrir o nome. Lembro-me de ver a entrevista e ter pena do Nuno Rogeiro, tentando, com as suas momices, os seus sorrisinhos, os seus constantes apartes, comungar do mesmo nível de conhecimento, capacidade de análise política e, sobretudo, de sedução.

(Veio cá conferenciar à Gulbenkian o Tariq Ramadan e eu não pude ir ouvi-lo. Triste e sacrificada, a vida de uma mulher só.)

2012/01/03

Lisboa



(a solidão aberta nos lábios e nos dedos.)

2012/01/02

Vereda

Em Corturim, no coração da aldeia, há uma mercearia muito pequena onde tudo se vende. Entra-se e são tantos os cheiros e as cores, tamanha a confusão, que é preciso um minuto para a gente se habituar àquela escuridão cheia de sombras, perceber onde ficam as farinhas, os noodles que se cozinham sem saber e sem arte, o açúcar muito grosso que adoça sem nunca tornar terna a boca, as velas brancas estão ali, vêm num pacotinho de papel pardo que traz a imagem de uma santa amachucada pela solidão das peanhas e dos altares, o óleo em vasilhame está aqui, há fraldas descartáveis, caldos knorr, rolos de papel higiénico, batatas fritas, tudo o que o desenvolvimento traz e se precisa; sobretudo, mais do que a localização das mercearias, é preciso tempo para ignorar os sinais de intimidade que por todo lado se espalham, brinquedos de criança pelo chão, um bastão de críquete e dois gormitis adormecidos, o altar a Parvati, consorte de Shiva, deusa-mãe, que amou com pecado, bendito o fruto do seu ventre materno, o pilão enegrecido onde a mulher do homem da loja prepara massalas para o almoço, a portinhola de fitas que dá para um desvão de felicidade. Ao lado da mercearia, a paragem de riquexós é ponto de concentração dos homens da aldeia, pedem um copo de feni que levam para a rua, ficam ali no suão da monção ainda adormecida a comentar as notícias de quem chega de Margão, Pondá, das praias cheias de mulheres israelitas e russas, muito brancas, turistas quase despidas, de biquíni, que adormecem ao sol e acordam feias, escuras, tão pretas. No centro da aldeia, perto da paragem dos riquexós, fica a estação de correios, é um casebre quase abandonado, sem qualquer traço distintivo, sem sinal da instituição, sem marca administrativa. A primeira vez que lá entrei foi na companhia da Michele, casada com o meu primo Moreno que é bonitão, mesquinho e usa, na canícula de Janeiro, durante as missas de domingo, casacos de veludo cotelê, cor de mostarda, para mostrar que fugiu à boçalidade da aldeia. Ia a prima, nessa primeira vez, a mando da minha tia Maria, matriarca da casa de Maina, pagar a conta da electricidade. Estranhei haver duas filas, uma de homens, outra de mulheres. Olhou-me a prima, muito grávida e triste, nem sempre os casamentos arranjados são felizes, meteu o porta-moedas debaixo do braço, e perguntou se em Portugal não era assim, ali, na fila dos correios, como nas dos bancos, nas carruagens dos comboios, havia necessidade de separar os homens das mulheres para evitar o voraz instinto masculino, predadores que tocam mães, filhas e esposas, até das castas superiores. É em frente da estação dos correios, onde o desejo se separa em duas filas, obedecendo a uma moral frágil e moribunda, pouco antes da curva onde fica a loja das bebidas onde o meu pai compra grades de kingfisher, para mim, que as bebo de madrugada no terraço, na quietude da minha noite indiana, que nasce a vereda de sombras. A vereda de sombras leva a uma casa de um rosa esmaecido, um tom a fazer lembrar combinações de senhora, antigas, das que se usavam junto ao corpo e guardavam desejos proibidos. A casa tem um jardim pequeno, bem tratado, há duas jaqueiras perto do portão, tem beirais trabalhados e um alpendre que sossega quem chega. Nessa casa cor-de-rosa, vive um homem velho, de cabelo branco. Tem a beleza das coisas antigas.

(preparei a encomenda do Rafael e escrevi-lhe uma carta.)

2011/12/27

Puro Teatro

2011/12/26

Enfado

Já o expliquei: escrevo aqui muita mentira, criei uma personagem que, a muitos, causa nojo, a outros bacoca admiração; minto, exagero, invento. Vem a conversa a propósito dos homens que me escrevem a propor casório, a confessar paixões, a pedir encontros e das mulheres que, supondo-me com um pé lá e outro cá, me propõem o maravilhoso mundo do lesbianismo. Às queridas leitoras agradeço a sugestão, mas atrai-me o género fraco, é uma vergonha, bem sei, mas faz-me falta o penduricalho que os homens têm entre as pernas, é um pedaço extraordinário de carne, um músculo magnífico, não há vibrador ou dildo que se lhe compare.

Aos homens agradeço a disponibilidade. Não quero, porém, enganar ninguém e por isso esclareço: não tenho a graça da mestiçagem, nem o oriental encanto das fêmeas submissas, não cheiro a canela, nem a cravinho, depois de quatro gravidezes, o meu corpo ficou de monco caído, ancas largas, celulite, estrias, peitos moles, a última depressão deixou-me praticamente careca; ou seja, não sendo uma estampa, faço o que toda a gente faz no mundo virtual, pinto-me de outra mulher a ver se pinga alguma coisa. Mas, o corpo é o menos, pior o resto: sou fraca de espírito, de uma banalidade miserável, não tenho opiniões, nem rasgos, sentido de humor ou vontade. Tenho o dom do silêncio e da fuga e já não é nada mau. A minha banalidade, tamanha, levou aliás a algumas rejeições traumáticas que partilho para que não duvidem do que conto.

Já fui rejeitada por um septuagenário acamado e algaliado, velho brilhante, meio poeta, dândi, lia-me com devoção, andou durante meses a cortejar-me, falava do Luiz Pacheco, do Alberto Pimenta, do Manuel da Silva Ramos, não lhe resisti. Pois o estafermo do velho, no dia em que o visitei num apartamento na Passos Manuel, com um açafate de frutas exóticas para lhe oferecer, depois de meia hora de conversa, não escondeu a desilusão, sentia-se ofendido, enganado, rejeitou-me, truculento, explicou que dispensava futuras visitas, de resto, a brasileira, de rosto carunchoso, que lhe vinha dar banho uma vez por semana parecia-lhe companhia mais interessante, chegava-lhe bem, sabia várias modinhas nordestinas e tinha, além do mais, mãos maravilhosas para ensaboar e esfregar. Fiquei mortificada, branquinha como a cal, imaginava que para um quase morto a quase juventude de uma balzaquiana era irrecusável. Pedi desculpa, deixei o açafate de fruta em cima de uma cómoda de pau-preto e sai dali, lacrimante. Curada da humilhação do velho, procurei consolo num anão que começou a escrever-me no outono. Homenzinho vivaz, escrevia com desassombro. Disse-me logo que era anão, brincava com a sua pequenez e não se cansava de gabar o tamanho do seu instrumento erecto. Aquilo despertou-me a curiosidade. Marcámos um encontro. Após alguns almoços num restaurante perto do Poço do Borratém, o pobre não aguentou mais as minhas conversas. Tentando esconder o enfado, era um anão educadíssimo, explicou que se despedia de vez, tivera uma proposta de emprego no estrangeiro, embarcava no dia seguinte para a Argentina onde os anões eram muito apreciados na indústria pornográfica. À despedida, não subiu, como era costume, a uma cadeira para que o beijasse, tive de me agachar para lhe dar um casto beijinho na testa. Fiquei a vê-lo, tortinho como um caranguejo, mancando, o peso do magnífico pénis puxando-lhe o corpo para o lado direito.

2011/12/20

Correr


(hão-de dizer que tenho fraco gosto, mas acho-a linda.)

Correr

Aninhas e a explicação de matemática

Naquele tempo queria acordar no teu corpo. Era um corpo velho, do velho que começavas a ser, um corpo esponjoso que chegava pela tarde e trazia o cheiro da sala de espera do teu consultório. Vinhas para a explicação de matemática. Cheiravas à tua miséria e a tua miséria comovia-me.

2011/12/16

Correr

2011/12/14

Revólver

Enquanto nos esfregava com uma esponja áspera, a banheira cheia de água quente e espuma, sabonetes escorregadios, fugindo como peixes, azulejos embaciados, a minha mãe elogiava sempre as nossas pernas. Todas as semanas era a mesma conversa, graças a deus que vocês não têm pernas de indiana, ia dizendo, as mulheres da terra do vosso pai têm pernas de alicate, muito finas, parecem umas desgraçadinhas com poliomielite. Ria mansamente, a velhaca.

De joelhos no chão, mangas arregaçadas, a minha mãe esfregava nesse banho de imersão de domingo as partes do corpo que ficavam esquecidas durante os duches da semana, pés, costas, orelhas, umbigo. Escutava-a e percebia que havia na sua voz uma pontinha de vingança, dava-lhe gozo desdenhar assim, ainda que indirectamente, as mulheres da família do meu pai, cunhadas, irmãs, sobrinhas, primas, sobretudo a sogra, feia, de lábios finos, cozidos, autoritária, a única mulher que o meu pai abertamente admirava: sozinha, que um marido fraco, dado ao queixume, à preguiça e à bebida, é como se não existisse, não tem serventia de espécie alguma, cuidara das propriedades da família e educara cinco filhos. Naquele tempo, não duvidava do conhecimento da minha mãe. Se ela dizia que as indianas eram assim, feiotas, logo eu as imaginava uns estafermos, magras, enfezadas, sem curvas, narizes de papagaio, cabelos oleosos, por baixo dos saris, pernas fininhas, tortas, arqueadas, deformadas.

Suspirava de alívio por não ter herdado as características físicas da minha avó paterna, Maria Aninhas Valadares, mas estranhava a importância que a minha mãe dava ao torneado das nossas pernas. Vivíamos num mundo de mulheres recentemente emancipadas - na certeza da legalidade escrita as mulheres eram iguais aos homens. Proibia-se a discriminação. As mulheres tinham exactamente os mesmos direitos que os homens. Bastava-lhes o seu trabalho, o seu valor e competência para serem reconhecidas. As mulheres haviam de ser amadas apenas pelas suas ideias, pela firmeza do seu carácter, pela sua sensibilidade, enfim, por essas coisas. A conversa da minha mãe, dando importância ao corpo, antecipando um tempo de volúpia e desejo, ofendia, e de que maneira, o meu precoce feminismo, era um retrocesso intolerável, um sinal de atavismo e ignorância. Havia, porém, muito acerto nas suas palavras. O corpo é uma arma e uma mulher deve usá-lo em todas as ocasiões: fazer pontaria, olhar pela mira telescópica e puxar o gatilho sem misericórdia ou piedade.

2011/12/12

Tinariwen



(vício)

Fila do Pão

Pouco antes da segunda fornada da tarde começa a formar-se uma fila à porta da padaria, passa em frente do sapateiro, da tabacaria, do mini mercado do Iuri, onde tudo é limpo e apetecível, as frutas dispostas numa paleta de cores, os legumes borrifados, as mercearias organizadas em prateleiras de inox; a fila segue corredor fora e, por vezes, quando a fornada se atrasa, alonga-se até ao talho. Há outras padarias no centro comercial do bairro onde cresci, mas só ali, naquela padaria, se forma uma fila à hora da segunda fornada da tarde.

Hoje, a fornada tarda e, por isso, a fila vai longa. O bairro envelheceu, está cheio de viúvos, enquanto esperam na bicha do pão, não sentem a solidão. Um homem indiano, também velho, é dos primeiros da fila. Magro, mas de uma magreza extrema que espanta, o seu corpo, de tão magro, tem a qualidade rara da translucidez. Na cabeça redonda, crânio lustroso, não se vê um único cabelo. As orelhas largas de abano desequilibram a fragilidade do rosto. Usa um bigode branco. Está imóvel, olhar fixo num ponto, alheio ao burburinho do corredor. Sempre que a fila avança, dá dois passos, depois, deixa-se ficar, esperando, absorto, corpo curvado como um junco soprado por um vento caprichoso. A aparência física, mas, sobretudo, a postura, um alheamento genuíno, uma leve arrogância aristocrata, a de quem nasceu numa casta superior e por isso dela pode abdicar, tornam a parecença inevitável: em que pensará o gandhi do bairro onde cresci?

Aproximam-se dois miúdos. Chegam ruidosos, cabelo empastado de gel, ar trocista, vestidos de gangas barrocas, cheias de brilhos e tachas. A sua chegada provoca um frémito de desconforto. São ciganos e vivem nos blocos de realojamento que a câmara construiu há pouco tempo. As famílias ciganas quebraram a paz do bairro. Trouxeram ruído, alguma violência. Há uma guerra não declarada entre os habitantes do bairro residencial e os que vivem nos blocos de habitação social. É uma guerra silenciosa, mas, como em todas as guerras, assenta num ódio que não conhece excepções. Odeiam-se todos os que estão do outro lado: homens, mulheres, velhos, deficientes, crianças como estas que se aproximam da fila do pão. Os dois rapazes observam os velhos com olhos de gavião. O esquema é sempre o mesmo. Precisam de encontrar o mais frágil, aquele que mais facilmente deixe entrar o medo, a vítima ideal que permita o pequeno furto, tão pequeno e irrelevante, que nem parece ser aquilo que é.

A sua escolha, hoje, não é difícil. Ó senhor, compre-nos aí dez pães, vá lá! O velho indiano não lhes responde. Mantém o olhar fixo. Parece não os ver. Os rapazes pedincham durante mais algum tempo. O silêncio do velho irrita os rapazes. O monhé não diz nada, diz entre dentes o que parece ser mais novo. Compra aí dez pães, ó velho!, a intimidação passa a ser clara, a coacção já não se disfarça, o preconceito assume-se. Insistem no insulto e na ameaça. O velho mantém a sua calma. Rosto sério e alheio. Parece estar num outro mundo. De onde lhe vem a calma? Por que não treme, de raiva, o seu corpo tão frágil? Por que não lhes responde? Os miúdos acabam por desistir. Envergonhados, o orgulho atingido, desaparecem no corredor. Por breves instantes, tudo sossega no corredor da fila do pão. Iuri, no seu mini mercado, corta uma melancia riscada em quartos. Na tabacaria, um homem retoma a leitura dos jornais.

A fila está prestes a avançar quando, do sapateiro, sai uma mulher que veste um salwar kameez de cor clara, mas indefinida. Cheira a sabonete de sândalo e curcuma. Aproxima-se do velho gandhi e fala-lhe muito alto, aos gritos para se fazer ouvir. Desculpa-se por o ter deixado tanto tempo sozinho, estava muita gente no sapateiro, mas valera a pena, conseguira arranjar uma dobradiça que servia na perfeição na bengala. O velho acena a cabeça em sinal de assentimento. A mulher abre o saco. Tira uma bengala dobrável de alumínio. O velho pega-lhe e, imediatamente, inicia movimentos pendulares, de lá para cá, de cá para lá, reconhece o espaço, larga a escuridão, os seus olhos estão na ponta de borracha da bengala. A mulher senta-o num dos bancos do corredor e toma o seu lugar na fila do pão. Sentado, translúcido, sereno, o velho não sente a guerra silenciosa que se passeia pelas ruas do bairro. Não sente medo. Nem ódio. Não se deu conta dos rapazes ciganos. Não os viu. Não os escutou. O velho gandhi vive em paz porque o mundo não lhe chega.

2011/12/08

Sozinho

2011/12/06

Mãe

Autofagia

Vem atrás de mim, num passo pesado, próprio da sua raça, desde a fnac da rua de santa catarina até ao jardim da parada, um boi barrosão. Que me conhece, bufa o bicho, a menina, desculpe, não tirou o curso de filosofia em Braga, não estudou o Hegel, o existencialismo do Kierkegaard e o pessimismo do Schopenhauer. Possante, costados largos, traz um brinco de prata no lóbulo da orelha esquerda e um casaco escuro de cangalheiro, o cabedal, todo escavacado, liberta um cheiro intenso de naftalina e fumo. O barrosão nada sabe de mim, não me conhece, está-se nas tintas para o que sou, penso e sinto, é o meu corpo, as minhas pernas, a sugestão da fundura da minha vagina, o cheiro do meu suor, que o excita. As palavras com que me aborda são delicadas, procuram disfarçar o impulso sexual, o instinto predatório, a necessidade de encontrar uma fêmea apta à perpetuação da espécie. Se pudesse, não tenho dúvidas, cobria-me ali no turbilhão da baixa portuense, à vista do pedinte que toca acordeão e das mulheres que andam às compras de natal, cheias de sacos e listas, num desespero que entristece e magoa.

Subo a rua do coliseu, sempre com o barrosão na minha mira, já deixou a filosofia, agora, pergunta-me pelo nome, pede um cartão, um número de telefone. Paro a olhar a montra de um talho. Ao centro, mesmo por baixo de uma fiada de carcaças, há um tabuleiro de alumínio com quatro magníficas mãos de vaca, enormes, as patas, tão bonitas, quatro patas de casco limpo, de um branco baço, deixo-me ficar em frente da montra a olhar aquelas mãos de vaca que não parecem reais, são feitas de cera. Lembram as velas que se vendem nos tendeiros de Fátima, forma de pernas, cabeças de anjos, braços, pés, mãos, corpos humanos esquartejados com precisão, comprados por peregrinos que chegam de camioneta e comem frangos assados e laranjadas nos parques à volta do santuário. Ficam os cotos de estearina a arder em capelas sombrias para cumprir promessas antigas, maleitas que se curam, maridos andarilhos que voltam, filhos que largam o vício.

Continuo a olhar as quatro mãos de vaca, quero guardar aquele instante, umas mãos de vaca assim não me aparecem pela frente todos os dias. O barrosão, corpo suado de subir a rua, inquieta-se, já não sabe o que fazer, estranha o meu interesse na montra do talho. A menina já provou mão de vaca com grão, é uma delícia, diz por fim. A autofagia do bicho entristece-me. Ouço-o em silêncio. Linda, a pronúncia do norte.

2011/12/05

Sensual Galego



(tão linda, esta canção.)
(na linha vermelha, hoje, encontrei um homem de olhares fatais.)

Amante

Hoje, uma mulher oferecia-se nas mensagens eróticas do público como amante profissional. Amante é das palavras mais bonitas que existem na língua portuguesa. Leio o jornal e, nos últimos tempos, só vejo números, análises, desgraças, epitáfios, muitas opiniões esclarecidas, leio uma em determinado sentido e concordo, leio outra, mais à frente, em sentido contrário, e também concordo, fico tão baralhada, afinal, penso, és uma maria vai com as outras, uma analfabeta, uma mulher fácil, sem espinha, sem pensamento estruturado, sem opinião. Nos tempos que correm não ter opinião é ignomínia. Encontrar, logo pela manhã, ao pequeno-almoço, assim do nada, no meio do entulho, a palavra amante é uma coisa absolutamente maravilhosa.

2011/12/02

Almoço de família

Entra o sol pelos vidros da marquise, reflecte-se nos pingos do lustre da sala. A minha irmã come com uma delicadeza forçada, uma tensão permanente que se nota no modo como manuseia os talheres, no esforço que faz para manter a boca fechada enquanto mastiga, na forma como corta os alimentos, ficam quadrados perfeitos de cabrito morrendo no molho betuminoso cor de terra. O modo como come parece mostrar o desejo, não totalmente assumido, de rejeitar uma herança. Gosto da minha irmã, tanto que, por vezes, não suporto a sua ausência, mas não gosto de a ver comer. É diferente com o meu irmão. Enche o garfo de arroz branco e chacuti e deixa-o momentaneamente imobilizado em frente da boca como se esperasse o tiro da partida. O tempo pára. Estremecem, nesse breve instante, os copos na cristaleira de pau-preto e gemem as chávenas de café que a minha mãe herdou do rapaz esquizofrénico com quem namorou antes de casar. Era um rapaz de boas famílias, costuma contar, alto e loiro, vivia num palacete cheio de balaústres em Cascais, em frente do mar, a avó do rapaz fumava boquilha e gostava muito de mim, era gente cheia de dinheiro, comiam cornucópias recheadas de creme de ovos e chá preto ao lanche, a senhora deu-me o serviço de café antigo e um conjunto de colherzinhas de prata, de cabo torcido, aquelas que estão guardadas no estojo do faqueiro que veio de Lourenço Marques; o rapaz era educado e bonito, eu gostava dele, acho que o amei, mas, volta e meia, em momentos de delírio maior, ajoelhava-se à minha frente, mãos em concha, olhar manso de penitente, punha-se a rezar ladainhas incompreensíveis, via-me como uma santa, não aguentei tamanha devoção, queria ser mulher, acabei o namoro, mas fiquei com o serviço de café e as colheres de prata.

O meu irmão desconhece a história do rapaz esquizofrénico e não se apercebe do estremecimento dos objectos frágeis da sala que acontece quando se prepara para comer. Olha a pirâmide de comida que se ergue em cima do garfo e, de repente, enfia-a na boca, mastiga vigorosamente essa primeira garfada, come com deleite, tanto prazer, fechando os olhos, assumindo a sua natureza mulata, o desejo rácico de vadiagem, gosto da minha família, dizem os seus olhos, gosto do meu apartamento espaçoso às portas da cidade, o bairro social do outro lado da estrada, as matronas ciganas, de arrecadas de ouro nas orelhas, olhando-me com superioridade, largando torpedos de palavrões quando passo em silêncio com os meus filhos quase mulatos, esses filhos que, quase brancos, são meus, tão meus, como eu nunca fui do meu pai e da minha mãe, gosto da minha mulher, das minhas irmãs e da minha sogra, que é alegre e me mima com gestos de amor verdadeiro, gosto, sobretudo, da minha televisão de última geração, comprada em dez prestações sem juros, tão bonita que ela fica em cima do móvel de cerejeira que trouxe do norte, olho a televisão e esqueço-me do resto, gosto de tudo isso, mas, se pudesse escolher, se fosse livre, voltava ao lugar onde nasci, a minha vida seria feita da lentidão africana, indolência, águas mornas, muitas mulheres redondas com o desejo à flor da pele, nádegas firmes, seios cheios, às refeições, esta comida que agora como, nesta sala de móveis de pau-preto, feita pelas mãos de uma mãe cujo ventre nunca habitei.

A minha cunhada está sentada ao lado do meu irmão. Dar-se-á conta da dor antiga que o marido cala? Não come. Vai mordiscando aqui e ali. Finge com esses gestos que é uma pessoa de pouco alimento, quer mostrar, há muito o percebi, que não tem culpa do corpo que tem, refegos, bolsas de gordura, mãos imensas, estômago dilatado, estrias, buraquinhos de celulite, a feiura de um corpo disforme, não é culpa sua. Está sempre a explicar, enquanto mordisca uma tâmara aqui, uma tosta com chutney de coentros ali, que quase não come, é assim, maior, porque faz retenção de líquidos, sofre de obstipação grave, está dias, semanas, meses sem evacuar, não há grânulos, chás, xaropes, iogurtes, cereais com fibras capazes de lhe fazer trabalhar a tripa. A minha cunhada pretende com o mordiscanço habitual e as justificações do costume enganar-nos, mas o engano e a mentira exigem certo brilhantismo; ela, a quem tanto devo por me ter feito tia e de quem gosto, não o tem. Na realidade, come imenso e, pior, come mal. Temo, por isso, a desgraça. Um dia, talvez aconteça durante um almoço de domingo, a grave obstipação de que padece cessará. Rebentará. A merda, há tantos anos acumulada nos interstícios do seu corpo, que a faz volumosa, sairá em golfadas revoltas, manchará os copos da cristaleira, as chávenas de café que a velha marquesa de Cascais ofereceu à minha mãe para se livrar do neto demente, os pingos do lustre que reflectem a luz que entra pelos vidros da marquise.

2011/12/01

Ler



(Esta é a minha identidade. Que se foda o fado.)

2011/11/25

Anna

2011/11/20

Roda Viva



(há a rapariga do apito, a anã bem penteada, o menino que entretanto envelheceu, o homem de bigode preto e perna traçada.)

2011/11/17

Aninhas e a intimidade

Aninhas estranhava a facilidade com que as outras mulheres se tornavam íntimas. Pouco depois de se conheceram, trocavam beijinhos, tratavam-se por tu, contavam segredos de fêmea, partilhavam ralações domésticas enquanto comiam mini pratos de lulas recheadas sobre mesas de fórmica. Aninhas não tinha vocação para a comiseração do género e não apreciava a devassa, assim, em pedaços de névoa cheirando a gordura, da vida familiar. A intimidade que essas mulheres partilhavam não lhe interessava, parecia-lhe banal e ordinária; envergonhava-a. Na realidade, por arrogância, Aninhas não era íntima de ninguém. Não era sequer íntima dos homens com quem dormia. Despia-se à frente deles, com as janelas abertas, a luz do dia iluminando-lhe o corpo. Tirava a roupa devagar, numa lentidão de gestos propositada, primeiro a parte de cima, abrir os botões da blusa, um a um, depois os sapatos, as meias de licra, o ruído de fecho da saia mordendo o silêncio. Aninhas gostava de mostrar o corpo porque sentia que era a única coisa que tinha para dar. Fazia questão de o mostrar, imaculado, puro, virgem, pronto para o sacrifício. Dormia com esses homens sem nada lhes revelar, não dando nada, não esperando deles nada em troca. Nunca chegava a ser íntima dos homens com quem dormia. Na verdade, o sexo, que Aninhas apreciava moderadamente, tinha isso de bom: era tão desinteressante que dispensava a intimidade.

2011/11/16

Dentro



(fui de Lisboa a Tavira a escutá-lo; o bem que me fez.)

2011/11/15

Bonjour Tristesse



Uma vez por mês, esta a exacta periodicidade da sua visita, chega-me uma tristeza grande. Não traz desespero, nem pensamentos sombrios; há muito tempo que não imagino pulsos cortados, nem pés descalços sobre o parapeito de uma janela, nem o vento frio na plataforma de uma estação de comboios. A tristeza traz só tédio, escava um buraco no meu corpo, ali se aninha e descansa. Anda comigo durante dois ou três dias. Depois, como chega, vai-se embora.

Amanuenses

O rapaz das arcadas virou a cabeça para tentar identificar o livro que eu levava debaixo do braço. No edifício onde ambos trabalhamos há muitos leitores: leitores de jornais de distribuição gratuita, de jornais desportivos, leitores de revistas cor-de-rosa, leitores de biografias de rainhas, leitores de livros de auto-ajuda, leitores de romances escritos por apresentadores de televisão. Há certamente, no edifício onde trabalho, muitos outros leitores, gente que gosta de ler, que encontra na literatura uma companhia silenciosa e que define alguns critérios de exigência literária para escolher um livro. Porém, só eu e o rapaz das arcadas gostamos de mostrar os livros que lemos. Mostramo-los um ao outro, num jogo diário, absurdo e inconsequente, mas, sobretudo, mostramo-los aos outros funcionários do edifício, aos colegas de serviço, aos seguranças do átrio central, aos estagiários que fazem fila junto dos torniquetes da entrada. Queremos com esse gesto mostrar a inquietude que trazemos colada à pele, dizer-lhes que aquele não é o nosso mundo, que estamos ali por necessidade, é o destino truculento e zombeteiro que nos obriga ao cansaço do trabalho e ao aborrecimento da vida amanuense. É uma atitude tão parva que até enjoa.

2011/11/14

Rodovalho

Abro o papelote de alumínio, arranco peles, solto os lombos triangulares, enfio os dedos por baixo dos opérculos, junto da cabeça, para retirar os pedaços mais brancos e saborosos. Com a ponta dos dedos, parto os lombos em porções mais pequenas, tacteando, esfarelo um pouco, à cata de espinhas, tem muito cuidado a arranjar o peixe do teu filho, se o menino fica com uma espinha atravessada é uma desgraça, nem sabes a quantidade de crianças que apareciam no hospital engasgadas, tossiam, tossiam, arranhavam a garganta, pareciam cãezinhos a rosnar, um, lembro-me bem, morreu asfixiado com uma espinha de bacalhau enterrada na garganta, ninguém a conseguiu de lá tirar, assim costuma dizer a minha tia com quem, por segurança e prazer, aprendi a arranjar o peixe com as mãos. Amachuco o papelote de alumínio cheio de espinhas, escamas, peles, gorduras ocres, embaciadas, cheio de lixo. Salvo, porém, a cabeça do peixe que coloco num prato. Não há no peixe parte mais saborosa do que a cabeça, aí se concentra, de forma espantosa, todo o sabor do mar. Sento-me com o prato à minha frente. Pego na cabeça com as duas mãos e, com um pequeno esforço, abro-a em duas metades. Estalam os ossos. Partem-se os ossos. Chupo mandíbulas, maxilas, bolbos inesperados de carne, tacteio a fileira de dentes cónicos e finos, enfio os dedos nos globos oculares para soltar os olhos que vêm numa bolsa gelatinosa e escura. Mastigo as bolsas e parecem de areia. Por fim, fico apenas com a couraça central do crânio que enfio na boca; presa nos molares, trinco-a. Abre-se esse centro de massa encefálica, é uma coisinha de nada, uma massa aguada, de um branco sujo, sabor intenso. Chupo a mioleira do peixe.

Assim sentada na cozinha, chupando uma cabeça de peixe, recordo um homem cuja insignificância – tamanha – fez com que dele me esquecesse durante muitos anos. Chamava-se Paulo Henrique e foi meu pretendente. Fomos colegas na universidade. Empregou-se, pouco depois, fruto de conhecimentos privilegiados, numa sociedade anónima de capitais exclusivamente públicos. Levava-me a almoçar. Também me levava a concertos na Gulbenkian e tamborilava os dedinhos. Levava-me a esses sítios com o propósito de me mostrar um certo estilo de vida, que me propunha, se me escolheres, parecia dizer, não tarda nada guiarás um audi, eu um bmw, seremos dois jovens adultos de sucesso, os nossos filhos poderão frequentar um colégio jesuíta, em meia dúzia de anos, se os juros se mantiverem baixos, podemos comprar uma casa de férias em Tróia.

Um dia, sabendo que eu gostava de peixe, levou-me a comer a um restaurante finório. Queria impressionar-me. O restaurante ficava ali para os lados de Entrecampos. Era um sítio de sombras, um luxo decadente de dourados oxidados e fetos artificiais. Um restaurante de adúlteros, de patrões e secretárias, de traições breves, repetidas, urgentes e essenciais. Cheirava aquele lugar ao sexo feito nos carros estacionados na escuridão junto ao rio, ao sexo feito nos quartos de hotéis baratos, pressentiam-se ali humidades, lingerie molhada, falos entumecidos, mamilos túrgidos sobre mesas postas com preceito, guardanapo de pano, copos de cristal, o pão colocado à esquerda, num pratinho com a faca da manteiga.

Veio o peixe, um rodovalho (não era sequer um linguado, não era um peixe fino, espalmado, era um peixe gordo, carnudo, mas uma pessoa, às vezes, tem de criar ocasiões para usar as palavras de que gosta muito), numa travessa de faiança branca, num carrinho de rodas que chiava, empurrado por um empregado de jaqueta branca. O empregado, muito sério, rigidez de empalamento no corpo, serviu-me um lombo que regou com um fiozinho de azeite, duas batatinhas oblongas e um raminho de grelos a acompanhar. O meu pretendente olhava-me e sorria com os olhos. Os seus olhos continuavam a falar. Se ficares comigo, diziam os seus olhos, ofereço-te a sofisticação que nunca tiveste, livras-te da tua avó de lenço preto à cabeça, da tenda de campismo do teu pai nas férias grandes, das roupas compradas em saldos pela tua mãe.

Mal sabia ele que a sofisticação, depois de um período breve de apetecimento, começava naquele tempo a dar-me voltas ao estômago e que tenho da família uma visão assumidamente mafiosa, assente em muitos anos de discussões, gritos, reencontros. Dispenso os amigos, não cuido deles, mas se um dia me morre um irmão, um pai, um filho, morro também. Comi os lombos educadamente, fazendo um esforço para manter a boquinha fechada, limpando os beiços ao guardanapo de pano. No final, para tornar irrecusável o seu amor, o Paulo Henrique disse quanto ganhava. Era muito. Senti naquele momento uma vergonha muito grande por um homem assim me querer. Afinal que havia em mim que pudesse fazer aquele homem pensar que me podia ter? Olhei a cabeça do rodovalho defunto, o tal que não era, fugindo no carrinho que chiava, empurrado pelo empregado de jaqueta branca, e dei conta de um requisito essencial para escolher um homem. Precisava de encontrar alguém gostasse de me ver comer com as mãos.

2011/11/09

Verdes Anos

2011/11/06

Pripyat

No dia a seguir ao acidente, a cidade despertou na sua rotina, ignorando a dimensão da tragédia. Os jovens casais de cientistas, engenheiros, técnicos de manutenção, despediram-se com um beijinho. Um homem pediu à mulher que, se arranjasse beterrabas e repolho no mercado, lhe preparasse um borsch com natas azedas para o jantar; uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas de pepino e pães de ázimo; dois velhos planearam uma pescaria no rio, num recanto fresco, perto de um bosque de abetos, onde nadavam trutas gordas; uma mulher apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu, sem a saber explicar, a nostalgia aguda dos espaços vazios. Nessa manhã, a vida continuou como se nada fosse, porém, a radioactividade, bicho invisível, já se havia espalhado por toda a cidade, entrara nas casas, gotejara pelos algerozes, penetrara nos solos, espreitara pelas frinchas, procurara o coração dos objectos, dos animais e das pessoas para aí se instalar.

2011/11/05

2011/11/04

Dr. Lucas

A minha tia trabalhou muitos anos no bloco operatório do Hospital de São José. À noite, quando se deitava - eu e a minha irmã Susana, muito quentinhas, encostadas ao seu corpo - falava sempre do dia de trabalho. Hoje chegou ao bloco um homem desfeito, politraumatizado, não levava cinto de segurança, o carro onde seguia foi para a sucata; a mulher que estava na cama 5 morreu depois do almoço, deixou marido e uma menina pequenina, coitadinha; um rapaz chegou do hospital de Beja, foi atropelado por um tractor, a noiva passa os dias a chorar na sala de espera, não come, não dorme, só chora. Havia nas histórias da minha tia um realismo tal, tão intenso e absurdo, que as tornava distantes, não nos tocava. Nesse recontar dos seus dias, deitada connosco, uma de cada lado, falava das colegas, a Gamito, a Domingas, a Conceição Anselmo, simpáticas, solteiras também, comunistas também, ofereciam-nos livros de fábulas, bonecas de trapo, tabletes de chocolate Regina. A minha tia falava também muito de um médico. Os seus olhos sorriam quando falava desse homem. Dr. Lucas, dizia ela e, instantaneamente, o rosto iluminava-se, uma felicidade absoluta fazia com que os músculos das extremidades da boca flectissem, sorria. O Dr. Lucas só me quer a mim no bloco operatório, repetia a minha tia; essa preferência trazia-lhe uma alegria breve que não conseguia disfarçar. Deitadas na cama, à espera que nos lesse mais um capítulo das Minas do Rei Salomão, percebíamos que não era por causa do brio profissional que a tia Dé ficava feliz por assistir o tal médico no bloco operatório. A minha tia amava o Dr. Lucas. Muitas vezes, tentei imaginar esse homem. Nunca consegui escolher para ele um rosto. Havia aquele nome, Lucas, que exigia certo exotismo de traços e havia o entusiasmo, a coragem de lidar com a morte, tudo aquilo requeria um rosto único, forte, marcante, o rosto de um herói grego. As minhas capacidades de inventar rostos para as pessoas, que, mais tarde, vim a apurar, eram naquela altura ainda muito limitadas. Cada vez que a minha tia falava do Dr. Lucas, eu colocava-lhe um rosto diferente, banal, incapaz de se recordar.

Uma manhã de sábado, luminosa, ao fugir da minha irmã, bati com o queixo na esquina do frigorífico. Abriu-se uma fenda grande e profunda, pingos muito vermelhos de bordos irregulares caíram no chão da cozinha forrado a linóleo. Os meus pais acudiram. Enfiaram-me no carro e levaram-me ao bloco operatório onde a minha tia estava de serviço. No banco de trás, o carro atravessando o Areeiro e a Almirante Reis, mão no queixo a empapar o sangue com uma compressa, as unhas roídas, ia consolada com a minha dor. Finamente teria oportunidade de conhecer o tal médico. Tenho esse dia muito presente. Levava um gancho azul da Heidi a prender-me o cabelo, um gancho metalizado, o que eu gostava do brilho desse gancho, tive um desgosto quando o perdi. Vestia uma saia de pregas e uma camisola de gola alta, em tons alaranjados, que me picava muito no pescoço. Tenho esta capacidade extraordinária de recordar minúcias, detalhes, fixar-me naquilo que é irrelevante. É uma capacidade que não tem préstimo nenhum, mas tanto que gosto de a ter. Nessa manhã, a gola da camisola a picar-me o pescoço, deitada numa maca que me sobrava, olhos postos nas luzes brilhantes do bloco operatório, pareciam óvnis, procurei por todo o lado o tal Dr. Lucas. Porém, porque não estava de serviço ou porque, estando, ninguém o chamou pelo nome, não o conheci. Na verdade, nunca cheguei a conhecer tal homem. Anos mais tarde, a minha tia deixou o bloco operatório de São José, foi para a maternidade Magalhães Coutinho e, com o tempo, deixou de falar desse homem que nunca ganhou um rosto.

(Lembro-me muito do Dr. Lucas. Talvez por ter agora a idade da minha tia quando o amou.)

2011/11/02

Gentia



(amo-o.)
(país de parolos que agora se esforça por gostar de fadistas boazonas.)

Translucidez

Aproximam-se dois miúdos. Chegam ruidosos, cabelo empastado de gel, ar trocista, vestidos de gangas barrocas, cheias de brilhos e tachas. A sua chegada provoca um frémito de desconforto. São ciganos. Vivem nos blocos de realojamento que a câmara construiu há pouco tempo. As famílias ciganas quebraram a paz do bairro. Trouxeram ruído, alguma violência. Há uma guerra não declarada entre os habitantes do bairro residencial e os que vivem nos blocos de habitação social. É uma guerra silenciosa, mas, como em todas as guerras, assenta num ódio que não conhece excepções. Odeiam-se todos os que estão do outro lado: homens, mulheres, velhos, deficientes, crianças como estas que se aproximam da fila do pão. Os dois rapazes observam os velhos com olhos de gavião. O esquema é sempre o mesmo. Precisam de encontrar o mais frágil, aquele que mais facilmente deixe entrar o medo, a vítima ideal que permita o pequeno furto, tão pequeno e irrelevante, que nem parece ser aquilo que é.

(O nº 3 da revista The Printed Blog sai esta semana. Saio com ela.)

2011/11/01

Sangue do meu sangue



(Digo-lhe, num suspiro, és a única pessoa com quem gosto de vir ao cinema. Não tira os olhos do ecrã. Márcia não sabe que sopa há-de fazer amanhã. É mentira, diz, és uma mulher muito mentirosa, também gostas de vir com o avô.)

2011/10/28

Oriente

Corro durante horas, quando a noite cai, as mulheres chinesas chegam para jogar a sorte no casino, há um pintor num primeiro andar, pingam as telas no parapeito, faço a subida do hospital, uma, duas, três vezes, já não me canso, levo a boca fechada, levo o corpo fechado, cosido, cozido, cruzo-me com enfermeiras que terminam o turno, lembro a minha mãe de farda posta, tantas nervurinhas, os sapatos de calfe brancos que lhe moiam os pés, o chapéu engomado sobre o cabelo penteado, o filho que lhe morreu e que todos esquecemos, ficou ela, sozinha, com essa lembrança. Subo as escadas do pavilhão em passo rápido, está o parque deserto, tanta melancolia e solidão na noite de Lisboa. Como é bonita a tristeza. Corro para cansar o corpo, para o adormecer.

2011/10/27

Prosa

2011/10/18

Cozido à portuguesa

Aos domingos, a minha mãe e a minha tia faziam cozido à portuguesa para o almoço. Era uma opção que não compreendia e não aprovava: detestava as carnes gelatinosas, as outras fibrosas, as metades de batata e de nabo desenxabidas, as tiras de couve acastanhadas por causa da cozedura excessiva, só o chouriço de sangue, com sabor intenso a vinagre, textura coalhada, despertava em mim algum interesse. Adorava o arroz que a tia Dé fazia com o chouriço de sangue. Porém, apesar de não gostar de cozido à portuguesa, fazia um esforço para acabar depressa o que a minha mãe me punha no prato. Até as metades de nabo eu engolia, apesar do vómito que se assomava à garganta. Não tardaria a começar o programa do Cousteau e, à hora que começasse, queria estar despachada para mergulhar no mundo silencioso dos corais, das baleias, dos cardumes nadando em espirais, dos tubarões com fiadas sucessivas de dentes em ziguezague, dos homens marinheiros de pele crestada, deve ser bom beijar um marinheiro e sentir o sal na boca.

Aquelas tardes, passadas em frente à televisão, vendo os programas do oceanógrafo francês, eram obra do meu pai que nos incentivava a ver documentários, fossem de bicheza, de política, fossem sobre os bosquímanos da Namíbia ou sobre os aborígenes da Austrália, não havia grande critério na selecção que fazia, tudo servia para nos educar e, sobretudo, para nos libertar de um país que considerava confinado, de grades, bolores, líquenes. Ganhei com o meu pai o gosto pelos documentários. Ele manteve-o. Desde que a televisão de cabo chegou, carregada de canais temáticos, o meu pai tem dificuldade em seleccionar os documentários que quer ver, desconfio que, por vezes, fica baralhado com tanta informação. Os documentários sobre animais são os que mais gosta de ver. A minha mãe queixa-se que passa tardes inteiras a ver filmes sobre escaravelhos, térmites, aranhas peludas, um nojo, uma pessoa quer ver um programa de variedades, uma telenovela e não pode, diz ela, compungidamente, não compreendendo o interesse do meu pai por esse mundo de animais tão insignificantes que se estraçalham com a biqueira do sapato.

São essas tardes de domingo em que a minha família se juntava à volta de televisão para ver os documentários do Cousteau, a sala ainda a cheirar a farinheira, a chispe, a chouriço de sangue, que lembro, passados tantos anos, quando encontro o meu pai sentado em frente do televisor a ver os seus documentários. Aproveito esses momentos para disfarçadamente o observar. Enquanto se inteira da nidificação dos albatrozes, passa ele a ser o objecto de estudo. Vou ao armário, onde há garrafas de bebidas licorosas e vidros em forma de parra que vieram nos contentores de Moçambique, encho uma malguinha de madeira com aperitivos indianos e, enquanto debico lentilhas fritas, observo-o com atenção: o modo como o pijama lhe cai no corpo, os pés de barbatana, os tremores involuntários da cabeça, a boca ligeiramente aberta mostrando a prótese dentária que colocou num dentista em Margão. Tomo mentalmente nota do meio ambiente envolvente, as movimentações da casa, o cheiro que vem da cozinha, o ruído dos chinelos ortopédicos da tia Dé chiando no chão de madeira, a voz da minha mãe a falar com a minha filha.

2011/10/17

Fluxo Menstrual

A tal assembleia popular dos indignados fez-me lembrar uma amiga da minha irmã que vive numa comunidade hippie perto do Cercal do Alentejo. Durante a adolescência, não era diferente de nós, sentia-se de esquerda, era de esquerda. Era a esquerda que cuidava dos jovens, dos pobres, dos excluídos, das minorias. Uma pessoa tinha de ser de esquerda porque a defesa de um núcleo de direitos e valores parecia pertencer em exclusivo à esquerda. Depois, numa altura em que toda a gente, uns mais, outros menos, guinou à direita, - uma pessoa arranja um emprego, casa, tem filhos, que diabo, é a vida que nos torna mais conservadores, - a amiga da minha irmã não guinou nem à esquerda, nem à direita. Pura e simplesmente, saiu do caminho. Largou o emprego, pegou nas saias compridas e nas alpercatas, e foi viver para a tal comunidade hippie: é naturista, anarquista, ecológica, é pelo poli amor, tem horror a antibióticos e não vacina o filho. Até aí nada de mal. Cada um vive como quer e se há mulheres que acham que podem viver sem pensos higiénicos, empapando o fluxo menstrual em paninhos de algodão, isso é lá com elas. O problema é que a tal amiga da minha irmã e o namorado, um hippie alemão, chamado Rainbow, viviam de um subsídio de juventude que o exemplar estado alemão atribuía ao dito. Ou seja, a indignação e rebeldia do casal, não era sustentada pelos próprios, que passavam o dia em contemplações espúrias, era, isso sim, suportada pelo sistema que tanto desprezavam.


Nos dias que correm todos sentimos indignação, mas, a mim, aborrece-me que a minha indignação possa ser confundida com a indignação da amiga da minha irmã e de todos aqueles que, como ela, criticam o sistema, mas o que mais desejam é viver amparados por ele. Chateia-me que a minha indignação e a de muitos outros, por dispensar o folclore próprio da esquerda extremista, dos cartazes mal escritos, dos urros gratuitos ditos por mulheres mal depiladas, pouco valha e que a indignação da geração à rasca, dos indignados, dos acampados, mereça tanto aconchego.

(O Dr. Boaventura Santos, há anos, a coordenar o observatório permanente da justiça, que serve para pouco, mas também é suportado pelo Estado, anda em absoluto delírio. O Dr. Garcia Pereira também.)

2011/10/13

Intrusa

Ao pequeno-almoço, no meio das mensagens eróticas do Público, internacionais e cosmopolitas - japonesas, polacas, russas, brasileiras e africanas, sempre discretas, apresentando-se com palavras contidas e insinuantes -, topei com uma prostituta muito ordinária e óbvia, oferecendo os seus serviços sem o mínimo de encanto. Dizia assim: adoro fazer de macho, transformismo, dominação física e verbal, chuva dourada, São João do Estoril. Fiquei irritada com aquilo. Então, alguma vez os homens, distintos, de classe, quadros superiores, assessores, intelectuais, pais de família, condutores de audis e bmws, que procuram companhia nas mensagens eróticas do meu jornal têm interesse em quem lhes mije em cima? Ou por uma cavalona de carnes flácidas que os faça gemer com chicotes e pregos e máscaras de cabedal? Os homens que procuram companhia nas mensagens eróticas do meu jornal são, sei-o, verdadeiros cavalheiros, comedidos nas suas fantasias, sensíveis, recatados. Dêem-lhes umas mamas grandes e ficam satisfeitos.

O meu espanto foi tal ao encontrar aquela ordinária, ali, tentando os pobres condutores de bmws e de audis, que me engasguei com o pão de deus que, naquele momento, mastigava. Relaxou-se a glote e um bocadinho de coco desviou-se do caminho. Valeu-me a prontidão da senhora da loja de lingerie, uma simpatia, muito boa vendedora, intuitiva, impinge-me collants da Dorien Gray, a oito euros e meio o par, já percebeu que, independentemente da qualidade e da resistência da lycra, não resisto a comprar collants de uma marca tão literária. Também compro perfumes sem os cheirar só porque gosto do nome. Un Jardin Aprés La Mousson. Largou a amável senhora o pãozinho com sementes de sésamo, linhaça e girassol que comia delicadamente ao balcão e correu em meu auxílio. Bateu-me nas costas, com vigor, até o bocadinho de coco sair disparado pela minha narina direita. Bendita senhora.

2011/10/12

Ossos Ilíacos

O Joaquim tem um Fábio André, um Márcio e um Rúben Miguel na turma.

A mãe do Márcio é uma rapariga nova que usa um pearcing na língua. É preciso ignorar os castanheiros da índia, os choupos outoniços largando folhas pelo chão, é preciso ceder à tentação de espreitar as marquises que se debruçam sobre o recreio da escola - ali um quadro espelhado do pierrot e da columbina, ali um homem velho fumado à janela - e olhar a rapariga com atenção. Quem assim a olhar notará que, no preciso instante em que, no portão da escola, passa o filho para as mãos da auxiliar, enche os pulmões de ar, contrai o diafragma, retém a respiração por breves segundos, depois, liberta o ar pelo nariz com um ruído que mal se nota. Respira fundo. É de alívio que a rapariga respira. Entre o momento em que deixa o filho na escola até à hora a que o vai buscar volta a ser uma simples adolescente, pode passear com as amigas do bairro, mandar mensagens de telemóvel, marcar encontros à porta do centro comercial.

O pai do Fábio André é um homem gordo e suado. Trabalha no talho que fica numa das pracetas perto da escola. Já o vi de bata ensanguentada, mãos ferruginosas de desmanchar carcaças, fumando um cigarro à porta do talho. Tem um touro tatuado no braço que larga um bafo muito quente. Uma pessoa passa pelo touro tatuado e amedronta-se com o olhar furibundo do bicho. Os olhos do talhante são diferentes, olhos mansos de animal já morto.

Há também o pai do Rúben Miguel, seco, anda sempre de mãos nos bolsos e usa um brinquinho. É, no seu género, um homem atraente, apetecível, de cabelo grisalho, um príncipe, ali, nas torres e pracetas do bairro. Costuma vir sozinho trazer o filho à escola. Por vezes, porém, vem com a mulher, uma loira baixa, muito magra, os ossos ilíacos salientes espreitando por cima do cós das calças. A mulher, nota-se no modo como sorri, na gentileza do seu corpo que se abre como uma flor, ama o marido. Deseja-o. O homem, porém, gostaria de lhe fugir. Quando a encontra, ao final do dia, deitada na cama, sorrindo-lhe, puxando a colcha para trás, mostrando-lhe o corpo frágil, os ossos ilíacos que o magoam, pedindo-lhe a que ame e proteja, tem vontade de pegar numa almofada e sufocá-la lentamente.

2011/10/10

Henry Lee

Abas Largas

Devia ter oito ou nove anos. Pedalava sozinha pelo caminho do moinho quando uma mulher da aldeia meteu conversa comigo. Vinha dos campos, trazia uma bata de trabalho e um chapéu de abas largas que lhe escondia parte do rosto. Queria saber quem eu era. Parei a bicicleta e expliquei-lhe que era neta da vizinha Felicidade que vivia na casa da barra amarela. “Ah, és a filha do indiano retornado!”, disse a mulher com assumido despeito na voz, marcando a diferença, impondo entre nós um fosso intransponível. Não sabia o exacto significado da palavra retornado. Sabia apenas que era uma palavra terrível. Provocava em minha casa discussões e lágrimas. Às vezes, a palavra saía da boca da minha tia; outras vezes, escutava-a na boca do meu pai. Sendo a mesma palavra, parecia ter diferentes significados consoante fosse dita pela minha tia ou pelo meu pai. Talvez por isso, por essa versatilidade, eu não fosse capaz de lhe precisar o significado. Porém, mesmo não sabendo exactamente o que significava ser retornado, não quis naquela tarde ser a filha do indiano retornado. Tive vergonha de o ser, pressenti, pelo tom de voz da mulher, que era motivo de humilhação. “Não sou filha do retornado”, respondi e desatei a pedalar pelo caminho de terra batida, as silvas moendo-me as pernas, todos os bichos morrendo à minha passagem. Quando cheguei ao cimo da colina, olhei a aldeia branca, tão pura. Cá em baixo, no caminho, a mulher ficou rindo nas minhas costas. Eu vivia na sombra mágica da tia Dé, comunista, tão doce, mostrava-me livros, canções, falava de coisas bonitas, igualdade e liberdade. Ignorava o meu pai austero, magoado, revoltado, assumidamente salarazista. Desprezava-o, até. Foi nessa tarde, no cimo da colina do moinho, que comecei a ser filha do meu pai, a querer-lhe bem, a amá-lo de uma maneira absoluta que é a única maneira de o amar.

(maravilhosa, por ser íntima e pessoal, a crítica que o João Bonifácio escreveu ao livro da Dulce Maria Cardoso. Li-a na linha vermelha, interrompida durante muito tempo por causa de um homem que se atirou na estação de Arroios. Não fora o homem se atirar à linha e eu não teria encontrado tempo para ler a crítica do João Bonifácio e lembrar o amor que tenho ao meu pai. Encadeamento estranho da vida.)

2011/10/06

Bomba Relógio



Dois copos de vinho verde, bailarico na cozinha, o João a espreitar e a dizer "és tão bonita, mãe".

Poliedro

O homem diz que me vejo como um deserto. Vazia de tudo, crio miragens para me iludir, que engano os outros, falsificando-me. Ele a falar, eu a fugir-lhe, a fixar-me na jarra com hera que está em cima da secretária, a sentir-me de pechisbeque, feita de ouro falso, um halo dourado por fora, uma liga qualquer esverdeada, com cor de bolor, de humidade, por dentro. Remata, dizendo, que tenho uma personalidade caleidoscópica, que se multiplica, adequa, desvirtua com o intuito de se esconder. Utiliza outra palavra. Prismática. Enquanto ele fala penso numa palavra de que gosto muito. Poliedro. Termino cansada, corpo dorido, como se me tivessem dado uma sova. Quero fugir lá para fora, ver os melros e as prostitutas, feias e gordas, que se exibem no crepúsculo lilás do parque. Olhar para fora. Para não olhar para dentro.

2011/10/05

Asno de Ouro

O rapaz das arcadas anda a ler um livro da Herta Muller. Finjo não o ver quando me aparece pela frente, cigarro ao canto da boca, a afrontar o meu pedantismo literário. Também nunca li a Herta Muller. E não quero. Entretanto, continuo sem vontade de ler e, ontem, fui, tão regalada, durante a viagem de regresso a folhear uma revista que falava das orgias do José Castelo Branco. Não tarda nada, temo, crescer-me-ão unhas quadrangulares que pintarei de cores fortes. Os únicos livros que tenho levado para a cama são os do Milo Manara. Depois do orgasmo chegar, ainda com a respiração acelerada, narinas dilatadas, atiro os livros para cima da estante. Não quero que o João os encontre. Não estou preparada para a primeira ejaculação do meu filho.

Linda de Suza

Só um desprezo grande pelas mulheres pode levar a que, em vez da fotografia da Dulce Maria Cardoso, entrevistada pelo Carlos Vaz Marques, apresentada como tendo escrito o primeiro grande romance sobre os retornados, ponham na capa a mala de cartão da Linda de Suza. A capa da revista de Outubro não consegue ser tão má como a de Setembro, que bem podia ter a fotografia do Mário Cláudio, mas anda lá perto. Desde que a revista voltou com edição mensal, já lá vai um par de anos, ou mais, que me lembre, apenas três mulheres mereceram ser capa da Ler: a Margarida Rebelo Pinto - ao que consta, inexistente literariamente -, a Agustina Bessa Luís e a Lídia Jorge. Entre a misoginia pura e dura, a homossexualidade reprimida e experiências traumáticas com mães sexualmente abusadoras, alguma coisa explicará as opções da revista ler.

2011/10/03

Outono

Certeza

Não é que não goste de Portugal, mas nem a luz de Lisboa me encanta, nem a Amália me emociona, não gosto de pastéis de Belém, nem de desfiada de bacalhau, irritam-me os corações de filigrana e as santinhas flourescentes que se vendem nas lojas da Catarina Portas. Sinto desprendimento na despedida e indiferença no regresso. Gostar a sério, no sentido de pertença, de precisar de um lugar e das pessoas que nele habitam, gosto daquele bocadinho de país que vai de Santiago do Cacém até Sines e, na cidade, daquele outro pedaço de terra que se levanta em desordem e feiura e se estende pela Portela de Sacavém, Olivais e Moscavide. Lá diz o cantor: sou do mundo e sou da cama dos meus pais. Não fora o fardo do amor, educar, alimentar, promover o saudável convívio com a família materna e paterna, e teria fugido para o outro lado do mundo. Ia cuidar dos arrozais de Maina, beber kingfishers pelo crepúsculo, sentir no corpo a luz que atravessa as janelas de carepa, escutar o Rafael falar no alpendre da sua casa, no meio das jaqueiras com bócio.

Mas, mesmo não muito gostando muito de Portugal, mesmo não sentido cá dentro o amor pela pátria, me incomoda a quantidade de pontapés e murraças que se têm dado a este país. Cansa tanta irresponsabilidade, tanta pouca-vergonha. Olhando para trás, para o passado recente, é inevitável perguntar: foi preciso chegar a este ponto para tomar as decisões que há muito precisavam de ser tomadas? Durante todos estes anos, com sucessivos governos, ninguém notou que o país se afundava? Muita gente viu, muita gente soube, ninguém esteve para se chatear. Um - assim se demonstra o disparate da sua governação - criou um ministério para a igualdade cuja essencialidade se provou com a extinção assim que a titular da pasta se cansou da luta; outro, tão cobardolas, preferiu fugir para a comissão europeia, pondo a vaidade pessoal à frente do compromisso com os eleitores; o seguinte, valha-nos deus, não teve tempo para mostrar a sua incompetência; o último foi um caso patológico de megalomania e mitomania. Assim vamos andando.

Porém, pior do que as dúvidas em relação ao passado são as certezas em relação ao futuro. No meio de tudo isto, confusão, angústia, da revolta que tarda em chegar, chega-nos a certeza de que, assim que existir uma folgazinha, assim que sobrarem meia dúzia de tostões para gastar, assim que se deixar de sentir o controlo de quem nos empresta dinheiro, voltará tudo ao mesmo. Ainda muitas rotundas se hão-de construir em Portugal.

2011/10/02

Rio

Passam velozes, solitários, como se fossem gazelas ou lebres, ou bafejando em manada, touros, bisontes, bois almiscarados. Um rapaz negro corre por cima do muro que separa o parque do rio. Movimenta-se na perfeição. Os homens correm com elegância, com passadas largas e pesadas, fazem estremecer o rio, espantam gaivotas, mergulhões, flamingos. Já as mulheres, as poucas que por ali andam, correm mal. Terão certamente corrido em meninas; desaprenderam, depois. Metem os pés para fora. Enrijecem os braços, não sabem o que lhes fazer. Abanam a cabeça como se fossem cães articulados, daqueles que, entre almofadas de renda, se colocam na parte de trás dos automóveis. Bufam como vacas. Quando são gordas, abanam as mamas, as carnes flácidas, largam uma gordura quente e amarela que se espalha por todo o lado. Um homem gordo corre como um touro, um rinoceronte, um elefante até. Uma mulher gorda corre como uma perua imensa, soltando gorgolejos insuportáveis. Glu-glu-glu-glu. Por vezes, tento imitar os homens-lebre. Acelero o ritmo. Corro mais depressa. Desisto pouco depois. Corro o risco morrer junto ao rio. Nunca serei uma lebre. Sou uma tartaruga. Vagarosa, tão velha. Corro com passos pequeninos de bicho antigo, mas chego sempre à meta.

2011/09/30

Ute Lemper

2011/09/28

Acesso Bloquesdo

Amo o Sérgio Godinho. Amo-o com um amor antigo e intenso. Lembro-me de escutar o Barnabé na aula de português da professora Maria dos Anjos, no ciclo, e sentir um arrebatamento e um deslumbre. Fui crescendo e fui descobrindo as suas canções. Conheço-as de cor e só não gosto do Fugitivo e da Canção da Velha Mãe. Se o Sérgio Godinho quisesse, casava-me com ele e cuidava dele na velhice que vem chegando. Perdoo-lhe tudo, até o facto de ter escrito canções para todas, Etelvinas, Carolinas, Paulas, Fátimas, Alices, e nunca ter escrito para as Anas desta vida (a Valsa da Ana não conta por razões óbvias). Aos vinte anos, odiava a Sheila e todas as legítimas que teve. Embalei os meus filhos a cantar as suas canções. A minha filha sabe de cor a Etelvina e anda a aprender o 2º andar, Direito. O Joaquim pede a Maré Alta, o Charlatão e o Coro das Velhas. O João finge que já não gosta das suas canções e eu permito-lhe esse fingimento. Os três gozam descaradamente comigo quando me vêem amarinhar pelo sofá para dar beijinhos às fotografias dele que estão penduradas na parede. Quando estou triste, acontece muitas vezes, a minha filha põe-no a cantar na cozinha e o meu coração alegra-se. Eu tenho a vida partida em mil pedaços, cola-a tu com dois abraços. Nunca serei capaz de amar um homem como amo o Sérgio Godinho. É um amor absoluto, inquestionável, perfeito, um amor de menina que nunca amadureceu. É por tanto o amar, tanto dele precisar, tanto o querer, que não tecerei nenhum comentário ao novo disco. Acesso bloqueado.