2012/04/29

Aninhas e a festa de Natal



Frequentava um jardim-de-infância perto do hospital onde a mãe trabalhava. As salas eram acolhedoras, o refeitório muito grande, o dormitório cheio de catres azuis onde as educadoras obrigavam os meninos a dormir a sesta. No Natal e na Páscoa organizava-se sempre uma festa. Os meninos representavam e cantavam canções para os pais vestidos de abelhas, passarinhos, flores. Naquele tempo, virgem de máquinas digitais, enquanto os filhos actuavam, os pais olhavam-nos sem se preocuparem em captar o momento daquilo a que não assistiam. Aplaudiam no fim. Após o espectáculo, era sempre servido um lanche partilhado no refeitório. As empregadas colocavam nas mesas corridas pilhas de pães-de-leite, bolos, travessas de coscorões ou azevias, se fosse Natal, folares de ovos envernizados, se fosse Páscoa, pratinhos de rissóis de camarão e croquetes de carne, bolinhos secos, húngaros, bolacha francesa, fidalguinhos de braga, torcidos de anis. Havia laranjada para os meninos e garrafas de vinho do Porto para os pais. Aninhas, todos os anos, corria pelo corredor para ver o que a mãe trouxera para o lanche. Se o bolo fosse bonito, encontrava em tal facto a certeza de um futuro radioso cheio de felicidade e alegria.

Lembra-se de um Natal em que, muito ansiosa, acabada a festa, quis saber o que a mãe trouxera para a lanche. Que sossegasse, explicou a mãe enquanto lhe tirava uma saia de papel frisado, saíra do hospital e passara pela Tarantela. Comprara um bolo muito bonito. Correu as mesas do refeitório à procura. Havia troncos de natal e lampreias de ovos, ciclóstomos com corpo de doçura. Quando finalmente a mãe lhe mostrou o bolo, suspirou de alívio. Era um bolo de pastelaria, redondo, pouco mais de um quilo, um pão-de-ló, recheado e coberto de doce de ovos, em cima o pasteleiro colocara dois cisnes de açúcar, um branco, outro azulado, nadavam num lago espelhado de glace. Ali estava um bolo que era uma beleza! Ao lado, um prato de papelão com uma fiada de pastéis de bacalhau. Do outro lado, um pratinho com fatias de bolo de iogurte. Sentiu pena dos meninos cujos pais traziam pastéis de bacalhau e fatias de bolo simples para o lanche partilhado. Tão bonito mãe, disse-lhe em jeito de agradecimento. Depois foi brincar para o recreio onde havia charcos da chuva, bandos de patos e uma torre de ferro onde prendia as pernas e, de cabeça para baixo, deixava o corpo balançar.

Os pais ficaram no refeitório conversando com as educadoras. Quando começou a chover, uma auxiliar chamou os meninos para dentro. Aninhas vinha transpirada da brincadeira. O refeitório estava quase vazio, a maior parte dos pais decidira partir não fosse o tempo piorar. Uma empregada varria já o chão com uma vassoura. Em cima das mesas corridas, os despojos do lanche começavam a ser retirados para a copa. Foi então que Aninhas reparou que o bolo, cuja beleza e sofisticação tanto apreciara, continuava ali, cor de marmelada, os cisnes nadando num lago de águas açucaradas. Ninguém lhe tocara. O prato de pastéis de bacalhau estava vazio e sobrava apenas uma fatia de bolo de iogurte. Escondeu o rosto no corpo da mãe que falava com a educadora, sentiu a fazenda áspera da sua saia e começou a chorar. Escutou fragmentos de conversa. “…desde a morte do irmão… sim…sabe não é fácil para uma criança tão pequena…” Aninhas sabia do que falavam. Depois de uma gravidez que lhe parecera demasiado longa, a mãe trouxera para casa um bebé quase morto. Estava enterrado num cemitério longe de casa. A mãe e a educadora convenciam-se de que o seu choro era causado pela morte desse estranho ser, morto, tão morto, feio, tão feio, que nunca chegou a ganhar vida. Esteve uma semana em casa, enfiado com a mãe no quarto, de vez em quando, escutava-se um piar de bicho doente, saiu aninhado num caixãozinho de madeira de pinho. A mãe chorou muito a sua morte. O pai não. Um filho doente, incapaz, deficiente, mais do que uma sina pesada, era sinal de fracasso. Estavam, porém, enganadas. Nem a morte do recém-nascido lhe causava tristeza nem as idas ao cemitério aos domingos a atormentavam. Havia um vendedor de castanhas junto ao portão e arranjos florais tão lindos sobre a brancura marmórea das campas. Naquele instante, porém, agarrada à saia da mãe, Aninhas agradeceu ao irmão a sua morte; podia, assim, disfarçar o seu choro egoísta nascido da certeza de um futuro escuro, sem felicidade ou alegria. 

2012/04/16

Aninhas e a puta da velha

Aninhas odiava a puta da velha.

(lembrete.)

2012/04/11

Aviso

Aviso os estimados leitores que, fartinha da solidão do blogue, aderi ao facebook. Parece que é sítio com outra animação. Querendo, se para isso tiverdes paciência, podereis lá ler em registo breve - patético, mas genuíno -, sem pinga de mentira ou exagero, ao contrário do que aqui acontece, o interessante registo do meu dia a dia. Já me explicaram que o facebook não serve bem para aquilo e que a linguagem que uso também não é a mais indicada. Pelos vistos há regras e códigos de conduta facebookianos que desconheço. Paciência. É o que se arranja. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Já dizia a minha avó.

2012/04/09

Tabu

2012/04/08

Desgraça

"Que desgraça ser mulher! Entretanto, a pior desgraça quando se é mulher é, no fundo, não compreender que sê-lo é uma desgraça."

Kierkegaard, o grande, enorme, colossal cabrão.

Fecha a loja


(Fui correr para o meio das figueiras para fugir de sete crianças e de um cão. Entusiasmei-me com os frutos leitosos, as folhas tenrinhas, com os velhos à soleira da porta, pasmados, gozando os meus calções de licra; veio um cão muito pequeno, ladrava furioso, assustei-me, caí, vim de reboleta no alcatrão até ao sopé da vila. Acudiu-me uma velha de lenço à cabeça que me deu uma pinguinha de água e repreendeu o Zézinho, assim se chamava a fera.)

2012/04/04

Levítico

Descendo a rua, enquanto comia um folhado de galinha e alho francês, o último que estava na bandeja de alumínio da vitrina dos salgados, modernice de pronto-a-comer armado aos cucos, coisa desenxabida e requentada, uma desilusão, enfim; como dizia, enquanto descia a rua e comia o salgadinho para matar a fome, tomei uma decisão muito séria, verdadeira senhora decisão, ai, uma decisão que tem a frágil irrevogabilidade das decisões que tomo na minha vida: não fecho a loja, abro-a a outro tipo de clientela. Adiante. Pela tarde, em vez de trabalhar, pus-me a ler a bíblia online, aprendo muitas palavras, lembro-me de outras, depois utilizo-as em textozinhos como se fossem minhas, nadas e criadas na minha inspiração literária, como se me descessem por obra do espírito santo. Hoje deparei com palavras fantásticas: fressura, ranço, primícias, leprosos, sarna, tabernáculo, impingem, testículo mutilado. Gosto de ler a bíblia, é divertimento puro, gosto do absurdo delírio que lá encontro sobretudo no velho testamento. Mas, por vezes, aborreço-me, com certas e determinadas coisas que por lá se dizem; hoje, no levítico, encontrei o senhor Deus falando a Moisés e dizia-lhe assim Não tomarás mulher prostituta ou desonrada, nem tomarás mulher repudiada de seu marido, pois santo é a seu Deus. Puta que os pariu. Mais à frente, continua o Senhor Deus falando a Moisés, ainda de voz grave, trovões a ribombar, ondas gigantes, apoteose total, e explica Quando a filha de um sacerdote começar a prostituir-se, profana a seu pai, com fogo será queimada. Sei que uma pessoa, ao ler a bíblia, tem de dar um desconto, aquilo foi escrito há muito tempo e por homens, porém, é mais forte do que eu, a permanente secundarização da fêmea, o achincalhamento da mulher, a objectificação do ser menor, dão-me náuseas, chegam-me uns repentes misândricos, acho que Hipólita, chefa das amazonas, encarna em mim, fico capaz de mutilar, nem que seja à dentada, todos os testículos do mundo.

2012/04/02

Ouro

Bill Withers

Amândio

Não inspira simpatia. Tem um corpo possante e robusto. Faz lembrar um pit-bull, um rottweiler, um desses cães de fila que os aficionados, de mangas cavas e braços tatuados, passeiam aos domingos pelos jardins da cidade. Usa óculos de aros escuros, pesados e antiquados, que lhe emolduram uns olhos pequenos, perspicazes e vivos. A voz é grave e nasalada. Fala sempre alto, num tom professoral, como se estivesse permanentemente a palestrar. Consta que tem uma cultura vastíssima, infindável, sabe tudo, cita de cor autores, obras, datas, deixa os seus interlocutores de queixo caído com tamanha sapiência. Não tem grande apreço pela opinião dos outros. Onde quer que esteja, seja qual for a ocasião, a sua opinião é sempre fundamentada, consolidada, irrefutável. É a que conta, a derradeira. Raramente sorri. Quando o faz é por cortesia. Chama-se Amândio e é padre. Durante a celebração da missa, como qualquer sacerdote, usa uma túnica branca, impecavelmente engomada, mas nunca prescinde de uma casula colorida que lhe dá certo protagonismo entre os círios tristonhos do altar. Não delega nos acólitos os rituais litúrgicos. Maneja o turíbulo com destreza, inundando o templo do cheiro enjoativo dos incensos. Os anjos do altar, às vezes, tossem brandamente com a fumarada que ele provoca e as senhoras que disputam os lugares das primeiras filas, na missa dominical das sete, encolhem-se quando, com vigor, sacode o aspersório e dele sai uma autêntica chuva de água benta que ameaça, com gotas gordas e abundantes, as mises de rolos domingueiras feitas nos cabeleireiros do bairro. Para além disso, é sabido, os resfriados podem ser fatais em certas alturas do ano.


Adopta um tom inflamado durante as homilias. Gesticula, procura acicatar os fiéis, falando de assuntos que muitos preferiam evitar: solidariedade, exclusão social, fé cristã. As suas missas nunca são enfadonhas. Não se prestam a sonolências e outros adormecimentos. Um dia, durante o abraço da paz, ouviu-se um telemóvel. Parecia um besouro estridente e histérico. Um silêncio tumular inundou a igreja e os anjos do altar entreolharam-se, amedrontados, temendo uma hecatombe. A dona do telefone, uma senhora gorda e suada, olhou para o lado, fingindo que o besouro não era seu. Depois, perante o olhar colérico e faiscante que vinha do altar, agarrou na malinha e saiu, tremelicando as carnes fartas e soltando ais pequeninos. Conheci-o à porta da igreja. Esperava que os meus filhos saíssem da catequese e vi-o chegar na companhia de uma tia. O Sr. Padre Amândio, disse a minha tia, muito devota e serena. Ele olhou-me com os tais olhos pequeninos e, do nada, disse que apreciava muito os meus traços exóticos. Antes que pudesse explicar-lhe a origem da minha mestiçagem, olhando para o livro que trazia nas mãos, de rajada, aconselhou-me a não perder tempo com leituras blasfemas, que o Saramago era um ignorante, uma cavalgadura que vivia nas trevas. Pobre desgraçado. Também ele, continuou, vivera na escuridão, mas vira a luz. Eu encolhi-me perante tal saraivada e, cobarde, incapaz de lhe confessar o meu agnosticismo, expliquei que também não era grande apreciadora da literatura do nosso nobelizado. A minha tia respirou de alívio e despediu-se.


No bairro onde cresci toda a gente conhece o Padre Amândio e a sua história. Ele não a esconde. Vindo da esquerda mais dura, encontrou Deus já tarde. Militou no partido comunista muitos anos, travou lutas, falou em comícios, distribuiu propaganda. Esteve preso. Viveu a revolução com o entusiasmo próprio dos que acreditam que o mundo pode ser um lugar melhor. Nos anos oitenta, quando sentiu que a sua crença no comunismo fraquejava, procurou Deus e, de uma forma extraordinária e simples, encontrou-o. Converteu-se. Deixou de ser um comunista feroz. Passou a ser um católico feroz. Foi ordenado padre com cinquenta anos. Acredita em Deus com a mesma força com que acreditava na ditadura do proletariado. Há muita gente no bairro que o admira. Outros olham-no com desconfiança. Não lhe apreciam a cultura enciclopédica, o estilo virulento, o passado esquerdista. A uns e a outros causa estranheza que um comunista, ateu confesso, se tenha tornado crente em Deus, fiel à sua palavra. Eu, triste e inquieta descrente, acho que a fé, com as devidas distâncias, é uma espécie de droga. Vicia. Quem a experimenta não sabe viver sem ela. Acreditar no comunismo não é muito diferente de acreditar em Deus. A fé conforta, apazigua, alivia. Torna-nos parte de alguma coisa, dá sentido à nossa vida, passamos a ter um propósito, algo a que nos dedicar. É preciso acreditar. Ser fiel. Seja lá no que for. Os que são pouco originais são fiéis a Deus, a Buda, a Shiva, à Nossa Senhora de Fátima, à Santinha da Ladeira. Muitos, são aos magotes, são fiéis a um clube de futebol. Acreditam piamente que o Benfica voltará a ser campeão. Vão rareando, mas ainda há os que são fiéis a um partido, a um ideal, a uma filosofia de vida. Há os que são fiéis a uma banda, a uma estrela pop, os que acreditam que o Michael Jackson padecia de vitiligo e nunca fez uma operação plástica ao nariz. Há os fiéis das novas seitas, que em tudo acreditam, no poder da cura, nos milagres em catadupa, pague três e leve quatro, que não estranham sequer os terminais de multibanco instalados nos altares para o pagamento do dízimo. Verde. Código. Verde. A sua alma está salva. Ámen.


O padre Amândio acreditava, com sinceridade, no comunismo. Depois, começou a ouvir falar de execuções, censura, falta de liberdade, presos políticos, miséria. Deve custar muito. Não há fiel que aguente tamanha dose de realidade. Deve ter tido uma ressaca dos diabos. Foi preciso arranjar um sucedâneo. Tal como os heroinómanos nos períodos de abstinência, também os fiéis, quando se apercebem da fragilidade das suas crenças, precisam de encontrar algo que substitua a fé estilhaçada. O padre Amândio, comunista convicto, - estou a imaginá-lo, de punho erguido, rosnando a internacional, querendo nacionalizar a fábrica de concentrado de tomate de Benavente -, no dia em que o mundo se lhe apresentou de outra forma, teve de procurar a fé noutra parte qualquer. Encontrou-a em Deus, que é magnânimo, infinitamente bom e se deixa amar por todos.

2012/03/30

Branca de Neve


(Escrevo no silêncio da noite, dorme o apartamento, ouço-lhe a respiração, é um organismo vivo. Irene é velha como eu começo a ser. Descobri, hoje, dois pintelhos iracundos, brancos, branquinhos como a neve. Envelheço.)

2012/03/27

La gent normal


(a catalã que encontro todas as tardes na esplanada do meu bairro tem um rosto esguio de cavalgadura, berra amiúde com as filhas e ralha aos sogros, muito velhos, pouco ri, mulher cheia de pêlo na venta; gosto dela.)

Lourenço Marques

Certo dia chegou um papelinho oficial a comunicar que o meu pai tinha quinze dias para abandonar o país. Se ficasse, avisavam, corria o risco de ser preso por traição, por infame conivência com a anterior potência colonizadora. A ordem de expulsão era assinada, numa letrinha redonda que sugeria certo recato, por um tal Armando Guebuza. Ficou a minha mãe sozinha no apartamento de Lourenço Marques, na Avenida Central, com três filhos, o trabalho no dispensário, uma vida inteira para despachar em caixotes e contentores. Como se embalam as memórias, os hipopótamos descansando nos lagos, as nuvens taurinas abatendo-se na baía, o chão encerado da casa de Tete? Como se encaixota o cheiro doce das mulheres, a brancura fosforescente dos dentes do meninos? A minha mãe teve apenas ajuda de um amigo, o Gomes, um homem pequenino, com uns dentes muito salientes, a fazer lembrar um esquilo gigante, que se desfazia em diligências, ia buscar um papel ali, carimbava outro acolá, dizia Solange é preciso você fazer isto ou tratar daquilo. Contudo, pobre esquilo, era incapaz de um gesto arriscado, de um suborno, de mover uma influência, de dar uma palavrinha a um chefe de repartição para acelerar o caso da minha mãe. Cumpria escrupulosamente as regras estabelecidas pela administração do recém-nascido país que desprezava com dissimulação. Apesar da catadupa de dificuldades, a minha mãe conseguiu embalar tudo. Ficou só a Vitória, empregada-menina, chorando a um canto da cozinha amarela, dizendo que também queria vir para a metrópole. Por muito que a minha mãe lhe explicasse que a nossa vida futura era uma incerteza, que não se podia responsabilizar por ela, a Vitória derramava lágrimas grossas, violáceas como a noite. Assegurava que, se preciso fosse, cruzaria os mares enfiada num contentor, sentada na cadeira de palhinha onde costumava dar de mamar à minha irmã.

Tratados os papéis, a minha mãe preparou-se para voltar. Vestiu-nos as melhores roupas. O meu irmão calçou os sapatos de verniz com fivela e penteou os caracóis com um pente de dentes largos. Porém, uma mulher branca, sozinha, com duas meninas e um menino mulato, que não era seu filho, levantava sérias inquietações aos zelosos guardas do aeroporto. Para seguir viagem, disseram, a minha mãe teria de arranjar uma autorização da mãe biológica do meu irmão. Nunca soubemos como a minha mãe conseguiu trazer o meu irmão, como evitou essa perda irreparável, como garantiu que continuássemos para sempre a ser três. Ela não conta. Mas eu desconfio que, ao contrário do Gomes, o ajudante-esquilo, a minha mãe sabia como as coisas funcionam em Moçambique. Nessa tarde, os guardas do balcão de embarque do aeroporto celebraram o dia. Tiveram com que pagar o amor ordinário das ruas esconsas da cidade. Comeram travessas róseas de camarão tigre. Beberam até os corpos adormecerem de cansaço. E não repararam na abóbada celeste que, nessa noite, se cobriu de estrelas violáceas, iguais às lágrimas grossas de uma menina que nunca chegou a cruzar o mar.

(O melhor dos jantares de família são as memórias laurentinas que desfiamos com descontida emoção até ao momento em que o meu pai, já bebido, começa a chamar filho da puta ao Armando Guebuza. Grandessíssimo filho da puta, é como ele diz. Nós calamo-nos, embaraçados. Não se ofende assim, por dá cá aquela palha, o presidente da república de um país.)

2012/03/26

Aninhas e o olho-mágico

A campainha tocava por volta das duas horas. A Alzira interrompia a limpeza da cozinha, fechava a torneira do lava-loiças, panelas e tachos deixados num transitório descanso dentro da cuba de inox, limpava as mãos molhadas ao avental da farda, caminhava lentamente pelo corredor em direcção à porta. Quem é?, perguntava e sabia de antemão a resposta, ainda assim punha-se em biquinhos de pés a espreitar pelo olho mágico, a porta abria-se logo de seguida, faça favor de entrar, Senhor Doutor, a menina Aninhas já está no quarto à sua espera. Olhava-te a Alzira demoradamente, eras nessa altura um homem bonito, elegância trabalhada, ainda a podridão da velhice não te chegara, usavas fatos de dois botões, camisas brancas feitas por medida, botões de punho, um anel brasonado no dedo mindinho. Venha que levo-o até lá, depois, se quiser, posso arranjar-lhes um lanche. Davas-lhe uma pancadinha do braço para sentires a firmeza do corpo, gozavas em silêncio o atrevimento, deixa estar Alzira, conheço bem o caminho; metias-lhe uma nota de quinhentos escudos no bolso da farda, não vale a pena preocupares-te com o lanche, almocei uma feijoada à transmontana, ainda estou a arrotar a morcela e couve lombarda, e chegavas-lhe o rosto, boca aberta, para que ela sentisse no teu hálito a verdade do que dizias. A tua mão entrava então no bolso de renda pontilhada da farda, tocava o osso ilíaco, saliência tão estranha, onde se sente a finitude do corpo, espécie de cabo, lugar sombrio onde alguma coisa termina e outra começa; esse toque, breve, fazia despertar o seu corpo adormecido, o teu também despertava que uma empregada doméstica é sempre mulher de muita serventia.

Esperava-te no quarto. Escutava os teus passos e a tua aproximação, saber-te do outro lado, fazia crescer o meu desejo. Às vezes, tão grande era, fazia tremer-me. Tens frio, Aninhas?, dizias ao entrar e sem mais começavas a despir-me. Na cozinha, a Alzira tirava a nota de quinhentos escudos do bolso, olhava com desprezo a cuba de inox, deixava os tachos e panelas para depois. Ficava à coca. Apurava os sentidos, escutava com aprumo de tísica os ruídos, os estores baixando, as cortinas corridas, a chave rodando na fechadura, uma, duas voltas, porta fechada, sossego garantido para a explicação de matemática. O meu abandono, esse meu desfalecimento de presa fácil, dava-lhe ânsias de liberdade, estava certa de que o teu método de ensino era único, talvez a bissectriz e os números primos se decorassem melhor na escuridão, talvez o cálculo algébrico se apreendesse melhor na liberdade da nudez.

A Alzira ia até ao salão, abria o bar do móvel de mogno, enchia um copinho de aguardente de pêra. Esquecia a loiça, o arrumo da cozinha, punha-se à janela a gozar a vista o rio. Escorripichava o copinho de aguardente. Volta e meia dava estalinhos para aguentar a adstringência na língua, a aspereza que lhe corria pela garganta. Saías pela tardinha, pouco antes da chegada do meu pai, tão triste que ele ficava por nunca se cruzar contigo, tanto que queria agradecer-te a disponibilidade para me preparares para os exames finais, tenho de telefonar ao César, dizia, é um amigo do peito, amigo para a vida, estima-o muito, Aninhas, que como o César há poucos, o que ele nos tem valido depois da morte da tua mãe. A Alzira levava-te à porta. Cambaleava e tinha olhos de carneiro mal morto, era da doçura invisível da aguardente, levava os botões da farda desapertados para deixar fugir certos calores. Arfava. Um dia - bebera dois copos de aguardente que lhe trouxeram coragem -, à saída, explicou-te que não queria ser empregada a vida inteira, andava a estudar à noite, gostava muito de aprender, mas tinha muita dificuldade com a matemática, o Senhor Doutor, desculpe o atrevimento, também me podia dar explicações de matemática. Disseste que sim, era só combinar. Ela agradeceu, fechou a porta. Depois, elevou o corpo para te espreitar pelo olho mágico.

2012/03/23

Setembro

2012/03/21

Aznavour



(Lisboa/Penafiel)

2012/03/20

Liberdade



(tenho a liberdade do silêncio.)

2012/03/14

Aretha


(Lisboa/Prado do Repouso)

2012/03/13

Av. do Uruguai

Atirou-se do sétimo andar de um prédio de Benfica. Era uma mulher apagada, de silêncios prolongados, com uma vida aparentemente calma. Enviuvou cedo de um funcionário das finanças e, por isso, vivia com a filha na Avenida do Uruguai. Tratava da casa, ajudava na educação dos netos, fazia as compras na praça, preparava o jantar. Sempre em silêncio. Coleccionava a teleculinária e deitava-se depois de ver a telenovela. As manhãs de domingo passava-as no cemitério, tratando da campa do marido. Levava-lhe flores frescas. Cravos aninhados em nuvens fofas de gipsófila. Lavava o verdete do mármore com um paninho embebido em vinagre. Gostava muito de frutas cristalizadas. Quando a visitávamos no apartamento da Avenida do Uruguai, a minha mãe levava-lhe um cartucho de frutas comprado numa mercearia de Moscavide. No dia em que se matou, fez canja de galinha, uma panela enorme, muito mais do que a quantidade habitual, para que fosse servida aos que viessem velá-la. E deixou os anéis e os brincos em cima da cómoda, sobre um naperão de linha fina, para que ninguém lhos tirasse. Sempre estranhei a sua morte por ser uma mulher simples, com uma vida simples, de hábitos simples. Achava, naquele tempo, que se suicidavam apenas os escritores, os pintores, as poetizas, enfim, os tolos que esperam demais da vida. O suicídio, parecia-me, exigia sensibilidade e a minha tia Lucília não a tinha.

2012/03/11

Glenn Gould



(Não percebo a ponta de um corno de música clássica, e tenho pena, mas gosto obsessivamente disto. Não há nada, nem na literatura, nem na pintura, nem no cinema, nem em porra nenhuma, nem sequer na vida, nos filhos, nos afectos, misérias e paixões, mais belo do que a fuga desta toccata.)