Tivemos,
advogadas e juíza, que nos chegar perto da testemunha para que nos ouvisse.
Gritámos-lhe as perguntas ao ouvido, sentindo-lhe um cheiro adocicado de lar de
idosos. O velho respondeu, gagá, balbuciando umas frases com sentido, outras
sem o ter. Chamou-nos santinhas - ó santinha, toda a gente no prédio sabia que
o Capitão Matos tinha uma caçadeira e dormia a sesta com a Fernanda, por sinal,
bem boa! - eu a escutá-lo, a moer para dentro, sabendo bem que, se em vez de
mulheres, o estafermo do velho tivesse apanhado juiz e advogados, adoptaria
outra postura, havia de se esmerar na formalidade sebosa, no unto subserviente,
Sr. Doutor Advogado isto, Senhor Doutor Juiz aquilo. No final, a juíza
agradeceu-lhe o depoimento. O velho levantou-se a custo e
começou a andar devagar, tremelicando, apoiado numa bengala de madeira
encerada. Em pouco tempo se finará, sete palmos de terra por cima, coroas de
gerberas e cravos brancos a alindar. Ia a meio do caminho, passava pela minha
bancada, quando pediu autorização à juíza para me dedicar uns versos. A
santinha lá de cima, galhofeira, rubicunda, rubiácea, rubiforme, assando dentro
da sua beca cheia de cordões e preguinhas, autorizou. O velho encheu o peito de
ar. Explicou que na vida tivera quatro paixões: a rádio, a columbofilia, a
poesia e as mulheres. Depois, abriu os braços, temi que ao largar a bengala se
estatelasse no chão, fez da sala de audiências palco e debitou uns versos mal
amanhados sobre uns olhos castanhos. Agradeci-lhe, no fim, como me
competia, triste com a minha sina: só os velhinhos têm apreço pela minha
pessoa.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/06/23
Dominó
Faço
a A5 e a Segunda Circular, já muito tarde, a cidade passa e são quase bonitos
os subúrbios assim, feitos de escuridão e luz; levo filhos e sobrinhos, dormem nos
bancos de trás, encostados uns aos outros, como peças de dominó: o Joaquim de
boca aberta, a Bia com a trança de rapunzel desfeita, a Dá esquecida da
tristeza com que acordou, choro porque preciso, tu não dizes que, às vezes,
também precisas de chorar, sou igual a ti, a mesma tristeza, mãe, a mesma
alegria, o Diogo com o corpo do meu irmão, africano sem o querer. Gosto de ser
tia tanto quanto gosto de ser mãe. Lembro o João que anda a acampar com o meu
pai por Espanha, repetindo gestos, visitando o Vale dos Caídos, outras memórias
do franquismo, lendo mapas, aprendendo, como eu aprendi, que o amor do meu pai
é um amor condicional, a mais pequena desilusão e perde-se. Lembro a minha mãe
e a minha tia, ando com vontade de comer sopa de tomate, disse a minha mãe,
hoje, à saída do Colombo, e chegou-me uma vontade de chorar tão grande. Se me
morrem os pais morro também. Sou filha. Mais do que mãe. Lembro o telefonema do
Pedro a meio da semana, tia, amo-te muito, disse para me confortar, a minha
irmã do outro lado explicando que ando sensível, a tia Ana anda tristonha, tens
de a animar. E animou. A sorte que tenho em os ter, a eles que são o meu
sangue, aos outros que chegaram: o Manuel, patrono querido que se fez cunhado, gosta
do Céline, do Jack London, do Durrell, do Proust, goza as minhas leituras; a Maria
de Lurdes, meio bronca, mas intrinsecamente boa, e isso é bem mais importante
do que saber falar de livros, de filmes, da merdice cultural, tão bem que nos
damos nas férias, falando de mundanices e bebendo minis ao final do dia enquanto
cozinhamos para os nossos filhos. Como se pode viver de costas voltadas para a
família? Somos como peças de dominó. Caindo uma, sou sempre eu a cair, caímos
todas.
2012/06/22
Refeitório
Ao
meio dia e quinze estou sentada junto do balcão da fruta, de frente para a
linha de servir, a apreciar as movimentações dos que chegam e dos que estão, a
Fátima serve o peixe e a dieta, a Rosa cuida da fruta e do prato de menu, a
chefa, fascista do pior que há, cheia de vitiligo nos braços e na carranca de
superior hierárquica, serve a carne com uma soberba que espanta, medindo as
fatias de lombo assado, põe e tira, tira e põe, confirma a grossura à
contraluz, a medir, a sentir o peso, não vá descuidar-se e exagerar na dose do
mini-prato; a mim, que pouco como, não me causa mossa, não sei, porém, como
ainda ninguém lhe atirou com a avareza à fronha medonha. O rapaz das arcadas já
chegou. Está em frente da vitrina das sobremesas, mãos nos bolsos, hesita entre
uma gelatina de morango e uma bavaroise esbranquiçada de ananás. Vindo das
entranhas do edifício, chega, entretanto, o mefistofélico que me deixou há uma
semana um bilhetinho no tabuleiro. Desde esse dia passei a ter-lhe nojo, um
asco incontrolável de mulher esmagada. E, no entanto, não foi desagradável, nem
mal-educado, nem sequer rude. Limitou-se a convidar-me para tomar café. O
mefistofélico conhece o rapaz das arcadas, talvez trabalhem na mesma direcção,
pergunta-lhe o que anda a ler e olha-me pelo canto do olho. O rapaz paga a refeição e
senta-se na minha mesa, quatro lugares de intervalo, fico numa ponta, ele
noutra. Há meses que é assim. Costumava sentar-se perto da porta da saída, um dia sentou-se na minha mesa. Cumprimenta-me com um aceno breve, gesto que mal
se nota. Espio-lhe as leituras abertamente, esta semana anda a ler a história
universal da infâmia. Engulo a sopa de legumes e uma tacinha de arroz doce, por
vezes, distraio-me da leitura para falar à Rosa que tem família no Catembe e em
Mapusa. O rapaz come o menu completo sem nunca tirar os olhos do livro, uma
concentração que me aflige. Saberá ele que a Rosa se chama Rosa e que a Fátima,
viúva alegre, chorou mais a morte do caniche preto do que a do marido? Saberá
ele que a chefa do vitiligo tem uma neta chamada Virgínia Estefânea? Não sei.
Só sei que lemos juntos ao pequeno-almoço e, juntos, continuamos a ler durante a hora de almoço. Depois, até voltarmos cada um à sua secretária, ele senta-se a ler na ruidosa sombra das arcadas do edifício, eu vou escutar o terço na igreja ao lado. Temos, eu e o rapaz das arcadas,
a relação perfeita. Fazemos muita companhia um ao outro. Estamos solitariamente
acompanhados. Ou acompanhadamente sós. Qualquer coisa do tipo. É o
silêncio que nos une.
2012/06/20
Nós
Faz hoje um ano que tomei uma caixa de Xanax, disse a mulher ao empregado
do bar. Depois calou-se, estranhando as palavras que se tinham soltado da sua
boca. Nunca ninguém lhe falava desse dia. Nem o marido. Nem os irmãos. Nem os
pais. Nem a única amiga que tinha. Era como se não existisse. Como se outra, que
não ela, tivesse naquele dia rondado o bairro de Chelas à procura de espantar a
dor para os homens que, sonolentos, despertavam para a manhã. Como se outra,
que não ela, tivesse escutado os renhaus dengosos que as mulheres lhes lançavam
das janelas dos prédios de habitação social. No fundo, aquele dia só existia
para ela, para mais ninguém. Por isso o celebrava sem que os outros soubessem,
bebendo ao final do dia, num bar da rua de São Paulo. O empregado do bar voltou
e pousou no balcão um copo triangular, com gelo moído e hortelã fresca.
Sorriu-lhe de forma profissional, asséptica, como a querer dizer-lhe olhe que
eu também tenho os meus problemas, não estou com disposição para confissões.
Mas a mulher não o percebeu. Ou fingiu não o perceber. É triste uma pessoa falhar
até na morte, não acha? E, sem esperar pela resposta, começou a chupar o sal dos bordos do
copo.
(Faz hoje precisamente seis anos que tentei matar-me e, hoje, o médico da medicina do trabalho disse que eu era uma mulher bonita, tem três filhos, dizia, uma profissão, mas tantos nós por desatar. Aconselhou-me psicanálise. Não quero desatar os meus nós, gosto deles assim, cegos, brutos, alimentam-me. Tive vontade de o mandar para o caralho.)
2012/06/17
Pau de cabinda
Ao final da tarde, andei na internet à procura de consultas de
sexologia clínica. Encontrei uma no Hospital
Júlio de Matos e outra em Santa Maria. Opto por ir a Santa Maria, dispenso o
estigma do Júlio do Matos, ser frígida não é bem o mesmo que ter um parafuso a
menos. Tenho os parafusinhos todos. Tenho a lucidez de perceber quem sou. Fiquei muito contente com a minha decisão,
dizem-me que é importante procurar ajuda para os problemas que nos vão surgindo
na vida, talvez haja um equivalente do viagra ou do pau de cabinda para as
mulheres; senti-me invencível, tanto que, apesar de estar no segundo dia da menstruação,
dia de hemorragia forte, meti um tampão plus, sem aplicador, enfiei-o bem na
fundura da minha vagina, lavei as mãos e fui correr.
2012/06/16
Aninhas e os dois amores
Aninhas,
submissa e abnegada, dava-se a muitos homens, mas amava apenas dois. Um loiro,
outro moreno, como na canção. Era feliz durante a noite, enquanto sonhava: deitava-se
com um, acordava com outro. Despertava aliviada por nenhum desses homens a
amar.
2012/06/14
Morte santa (1)
A um canto, num cadeirão de napa, um homem dormia, estiolado,
mãos de trabalho, rugosas, cheias de cortes, dedos inchados, unhas brancas de
cimento; viera para cumprir a obrigação que se impunha, apresentar os seus
sentimentos, dizer duas palavras à viúva, explicar-lhe que, no dia seguinte, por
se iniciar a cofragem na obra, não poderia vir para o funeral. O cansaço,
porém, fizera-o sentar-se no cadeirão, adormecera em pouco tempo. Dormia
profundamente há já meia hora. Sornava sem alarido. Sentadas, junto de uma
janela, como corvos espiando o bosque, duas velhas, casacos de lã escura, pés
enfiados em pantufas, murmuravam rezas novas. Negrume de mulheres sós,
escuridão funda e imensa. Estavam as velhas de olhos secos, mas expressão de
pesar, como convém nestas ocasiões. Em lugar de destaque, a viúva, mãos postas
no regaço, lábios tensos, parecia aliviada. Mulher indistinta, anódina, sem
traços ou marcas, quase invisível. Ao centro, enfiado num caixão de pinho
barato, recamado de cetim branco, o brilho dos tecidos baratos iluminando o
velório, estava o morto, corpo robusto, rosto descoberto, vestindo um fato de
três peças; nos pés, os sapatos que levara ao casamento da filha mais velha.
Quando alguém chegava, dirigia-se à viúva, dizia breves palavras de consolo,
partia pouco depois com a satisfação de uma obrigação cumprida. Quem chegava
não olhava o morto. Ninguém se abeirou sobre o caixão para o chorar ou ver pela
última vez o seu rosto. Homem mau, de costumes beras, nascera com a maldade no
corpo. Viera para o prédio muito novo, sem passado, nem lembranças, casado com
aquela mulher, trabalhava conforme calhava, um dia aqui, outro acolá.
Taciturno, pontapeava gatos, cães e crianças que se
atravessassem no caminho, bebia muito, arranjava sempre zaragatas,
engalfinhava-se em cenas de pancadaria, ficava com olhos inchados, equimoses,
chagas abertas que custavam pouco a sarar, passados dois ou três dias aparecia
como novo, entrava no café, pedia um copo de vinho, depois outro e mais outro.
A ruindade parecia ter nele um efeito regenerador, o diabo que lhe vivia no
corpo tratava-o com ligeireza mágica, punha-o bom num instante, assim,
recomposto, sem marca de humana fragilidade, podia voltar a ser simplesmente
mau. Tratava a mulher à pancada, as filhas também. Às vezes, trazia-as para a
escada do prédio para lhes bater à vista de todos. Suas putas, suas grandes
putas, ia dizendo enquanto lhes batia, as mulheres agachadas, mãos a proteger a
cabeça, acostumadas àquilo, incapazes de se sentirem vítimas, aguardando apenas
que se cansasse e recolhesse ao apartamento. Que a morte o tivesse vindo
buscar assim, ligeirinha e benevolente - um ataque súbito enquanto dormia em
frente do televisor, espumou da boca, levou as mãos ao peito, esperneou um
instante, soltou dois gritos mudos e foi-se – era coisa que indignava muita gente.
Quando se soube da notícia, pela manhã, houve até quem lamentasse ter tido uma
morte assim, devia ter sofrido como a vizinha do rés-do-chão esquerdo, o
carcinoma lento sugando-lhe tudo, desfazendo-a, arrancando-lhe o estômago e as
tripas, deixando-a liquefeita por dentro; gemeu a coitadinha durante dois meses
agarrada a um rosário da terra santa, abençoado por um bispo brasileiro, que
encomendou através do canal televisivo de uma igreja evangélica neopentecostal.
2012/06/13
2012/06/10
El enanito (7)
Depois de dias de hesitação, vou, não vou, vou, não vou, voltei à Almirante
Reis. Pouca, nenhuma, a vontade de encontrar o meu amigo e a sua Moranguita. Custa-me
a felicidade dos outros. Lisboa não é a minha cidade, nunca será, mas a
Almirante Reis é a minha rua. Metamorfoseio-me se estou quinze dias sem lá ir.
Começa a pele a secar, ganho impingens pruriginosas, coço-as até sangrar, os pêlos
do buço crescem mais depressa, muito pretos e arrepiados, incham-me os olhos, até
a voz se altera, perde robustez, fica um esganiço que se enrola nas palavras. Na
quarta-feira, acordei com duas manchas alaranjadas no braço direito, resolvi
meter um dia de férias. Larguei os miúdos na escola, o mais pequenino disse-me
um segredo ao ouvido, e rumei à Almirante Reis. Fui descendo a avenida devagar.
Mal cheguei à esquina com a Antero de Quental, encontrei o meu amigo, vestia
uma bata ensanguentada, vinha de fazer uma entrega na Marisqueira do Lis, mas
tinha tempo para uma bebida. Sentámo-nos na esplanada do chinês vesgo, cá fora,
a gozar o fresco do mês de Outubro, eu a matar saudades da indigência, ele,
perninhas bambas, baloiçando, sem chegar ao chão, a contar-me as novidades. Arranjei trabalho no talho do Karim. Ele tinha, como ajudante, um costa
marfinense, uma besta grande, fazia para aí dez de mim, quatro dentes de ouro, evaporou-se
de um dia para o outro, levou três frangos do campo, uma palete de codornizes e
uma carcaça de vaca ainda por desmanchar. Deixou o Karim numa aflição. Ofereci-me
para o ajudar. Ele aceitou e mandou fazer um estrado para eu chegar ao balcão; anda
tão satisfeito com o meu trabalho que até já encomendou a um artífice lá da
terra dele, cuteleiro do melhor que há, um estojo de facas para o retalhe de
animais de pequeno porte: patos, coelhos, frangos, galinhas.
A Moranguita, continuou, é que ainda não
encontrou trabalho. Vai fazendo uns biscates. Entretém-se a fazer croché, é
muito habilidosa, umas mãos de oiro, faz pegas, bolsinhas para os telemóveis,
vende-as na entrada do metro. Anda a bordar uma toalha, toda a ponto richelieu,
encomenda de uma finória qualquer, encavalita-se em cima de um bastidor
especial que comprámos na Rua da Conceição, passa a noite naquilo. Também ajuda
a limpar o altar da Igreja dos Anjos uma vez por semana. Para além de
contorcionista, é exímia trepadora, mete-se em buraquinhos, nichos de santas,
amarinha por ali acima, parece um sagui, leva uma flanela embebida em óleo de
linhaça, deixa tudo num brinquinho. O padre, um velho jesuíta, diz que
nunca teve a igreja tão limpa, os rostos dos santos andam luzidios e os ornatos
da talha dourada parecem feitos de sol e luz. Parou um pouco. Limpou a saliva
que se acumulara na comissura dos lábios e cumprimentou uma matulona que ia a
passar. Sabes, nos dias em que faz a limpeza aos santinhos, à noite, quando se
deita, ainda leva aquele cheiro perfumado, cheiro de mirra, incenso, um cheiro muito
oriental. Enfio o nariz nos pentelhinhos, andam tão macios, e perece que estou
numa medina magrebina, cestos cheios de tâmaras, latoeiros, homens de cócoras
fumando, como lagartas azuis, narguilés. Cheirá-la nesses dias basta-me. Depois,
abruptamente, deu um salto, fez uma momice que me pareceu escusada, e
despediu-se, desculpa, mas tenho de voltar ao trabalho que o Karim prometeu
que, se houvesse pouco clientela, me ensinava a desossar uma galinha.
Dei-lhe um abraço, bebi mais um sumol e
pedi a conta. Voltei a subir a Almirante Reis. Olhando a montra de uma
sapataria, encontrei-me do outro lado, achei-me feia como um xarroco, primitiva
como um rascasso, plana como uma tremelga. Estava eu na habitual comiseração,
quando alguém me chamou. Olhei e vi um velho abonecado, lenço de seda, casaco
assertoado, apoiado num andarilho de quatro pés. Reconheci-o imediatamente. Era
o velho do açafate de fruta, o quase defunto da empregada brasileira, o miserável
que me escorraçara sem dó nem piedade do seu apartamento sombrio da Passos
Manuel, furioso com a minha iliteracia, como se pode viver, gritou-me naquela
tarde, sem conhecer o decandentismo e o vitalismo moderno? Tivera uma franca
melhoria, a brasileira dera-lhe a experimentar um chá de flor de fava, estava muito
melhor, já não usava algália, largara de vez a literatura, tomava apenas o
vigamed e o tryptanol para o coração. Estou como novo, rematou, vou ali abaixo
à procura de carninha, alcatra, chambão do bom, tenho comido do melhor.
Escutei-o em silêncio. Depois - não sei explicar porque o fiz - perguntei-lhe
se lhe apetecia a minha companhia. Disse que sim. Pegou no andarilho de
alumínio, largou um pingo de baba e pôs-se a andar a meu lado muito devagar.
2012/06/05
El enanito (6)
Pediu-me para o deixar
na Almirante Reis. Larguei a melancolia que, assim como a acolho, também a
despacho rapidamente, enxoto-a como insecto insignificante que é, muitos anos
de depressão dão nisto, é o hábito, ganha-se calo, frieza e distância, uma
pessoa aprende a relativizar o sofrimento, não há dor a que a gente não se
habitue. Não vais para a Pensão S. Miguel, pois não? perguntei e finquei-lhe um
olhar indignado, furibundo, chispante, como que a dizer largo-te já no meio da
rua, ali ao pé daquele rapaz que passeia, sem trela e açaime, um pit-bull, se
me disseres que a levas para o lugar dos nossos encontros. Não, olha que ideia,
vamos ficar na Casa de Hóspedes Mirabel, é um sítio de gente séria, sem putedo,
sem máquina de preservativos na entrada, sem lençóis amarelos a cheirar a
lixívia, sem caixinhas de toalhetes em cima das mesas de cabeceira, fica um
bocadinho mais abaixo, é um prédio azul antes de chegar àquele supermercado
chinês onde tu gostas de comprar caldinhos de massa, barras de sésamo e novelas
escritas em cantonês para teres a ilusão do mundo de lá. Sosseguei. Passou-me a
irritação. A Moranguita chegou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, peguei-a
ao colo e sentei-a na cadeira do meu filho mais novo, uma isofix da Chico, maravilha
de cadeira, comprei-a numa promoção, ainda assim custou quase duzentos euros,
mas não me arrependi, material ventilado, reforço lateral, apoio regulado para a
cabeça, tem um arnês forrado, imobilidade absoluta, cinco anos de garantia; bati
já duas vezes depois de a comprar, o mais velho rebentou com o lábio, a do meio
deu um gangão violento, andei durante vários dias com o peito dorido, mas o
mais pequeno, instalado no seu trono, nada. Segurança total.
Desci a Gago
Coutinho devagar. Íamos em silêncio. A Moranguita dormitava lá atrás; pelo retrovisor,
reparei que um quelóide avermelhado, lagartinha fibrosa, lhe marcava o peito. Sempre
que vejo uma cicatriz, o relevo monstruoso, sinal de abertura, tenho vontade de
lhe tocar. Uma cicatriz escarifica, é marca de imperfeição, tumefacção
permanente, reconduz-nos à nossa fragilidade e insignificância. Fui o resto do
caminho a espiar-lhe a rasgadura do corpo. O meu amigo, sentado ao meu lado,
emudecera. De vez em quando, limpava os cantos da boca com um lenço de papel. Chegámos
por fim aos Anjos, estacionei a Hiace em frente de um prédio pintado de azul
claro, varandas de ferro, janelas de alumínio com venezianas amarelas. A Casa
de Hóspedes Maribel era ali. Já no passeio, o meu amigo pediu-me emprestados
quinhentos euros, que me pagaria assim que pudesse, era só para os primeiros
tempos. Passei-lhe um cheque. Deu-me um beijo no rosto, és uma amiga impecável,
Ana Clara, explicou, perdigotando, a adjectivação ficou-me a latejar na pele.
Depois, pondo um ar sério, ofereceu-me o tal cacho de bananas, eram bananas
especiais, não tinham nada a ver com as bananas chiquita que crescem em
plantações infindáveis e são regadas com chuva de antibióticos e insecticidas,
nada disso, fora apanhá-las mesmo antes de ir para aeroporto ao quintal do seu
amigo Pablo, descendente directo de mapuches e olmecas, eram mágicas, quem as
comia ganhava poderes esotéricos, a nefanda capacidade de adivinhar o futuro. Agradeci o
presente, muito obrigada, tu sabes bem o que gosto de bananas. Começava a
preocupar-me o delírio do meu amigo. Andei o resto da tarde de passeio com o
cacho de bananas mágicas. Cheguei a Caxias passava das dez. Tive vergonha de
confessar à minha irmã que o enanito do meu coração me trocara por outra. Mal
me viram os miúdos enrolaram-se nas minhas pernas, veio-me assim uma sensação
de estrangulamento e desmerecimento, de ingratidão insuportável, tanto que eu
gostava de ser uma fêmea como deve ser, falando de criancinhas de manhã à noite,
o meu João tem um coração de ouro, a minha Dá tem cinco a tudo e toca violino,
o meu Joaquim canta todas as canções do Chico Buarque. Levei-os para casa. No
dia seguinte, pedi à empregada que panasse as bananas mágicas com pão
ralado e as fritasse em azeite para acompanhar um pedaço de picanha nacional. Sempre
é mais barata. A minha filha gostou muito e, ao contrário do que é habitual, nessa
noite, pediu para repetir o jantar.
2012/06/01
Sexta-feira
Serpentes emplumadas e diários remendados para digerir noite
fora. Mastigar um e depois outro,
intervalando, para não enjoar. Uma
garrafa de vinho tinto que custou nove euros e um maço de cigarros. O Chico Buarque
canta para a mulher que dança na cozinha, descalça, calças descaídas,
t-shirt justa e curta, corpo moribundo
espreitando. Não há homem, nem sequer mulher, que a livre da morte. E, amanhã,
a mulher levanta-se às seis da manhã para levar a filha ao campeonato nacional de
ginástica. Como detesta a vidinha. Dizem, explicam-lhe, que é mal-agradecida, injusta e imatura, que é
estúpido, profundamente estúpido, querer da vida mais do que a rotina. Uma
pessoa deve habituar-se à indiferença reptilária, gelada e escorregadia. Arrogância
intolerável, essa de querer mais qualquer coisinha, primícias, liberdade, a poesia espalhada pelo chão.
2012/05/08
El enanito (5)
Parou um
bocadinho. Estava cansado. Ele falava, falava. Eu escutava, escutava. A
Moranguita corria, corria. O meu amigo alçou a perninha curta, pôs-se em
biquinhos de pés e, antes que pudesse ajudá-lo, dando impulso ao corpo
atarracado, sentou-se na bagageira da Hiace. Depois, baixou a voz e explicou-me
que resolvera abandonar em definitivo a indústria pornográfica, já não queria
ser uma porno star, não estava para isso, não fora só a humilhação de o terem
trocado por um burro, chegou o bicho como se fosse uma estrela, vagaroso e
arrogante, puxado por uma arreata do mais macio couro, havia uma meda de feno chileno
à porta do estúdio, para lhe encher o bandulho depois de cada cena, era
sobretudo por estar farto de contracenar com mulheres de estatura maior.
Cansava-se muito. As actrizes pornográficas, mais do que as outras, à conta de
tanto enchimento e recauchutagem, eram autênticas cavalonas; injectavam-se com
silicone, colágeno, às vezes, até com gordura animal, sobretudo de porco, que encomendavam
pela internet, chegava um kit com seringa, duas bisnagas de sebo e um livrinho
de instruções, não custava nada, só era preciso inspeccionar bem o produto
antes da aplicação, às vezes, ganhava verdete, assim umas manchas jaspeadas que
indicavam estar fora do prazo de validade. Pois essas mulheres insufladas tinham
corpos que eram uma longura, não acabavam, intermináveis como o deserto do
Kalahari e gelados como a tundra gronelandesa, nem imaginas, as mamas eram
verdadeiras montanhas, as nádegas têm-nas infindáveis, gelatinosas, mas
redondas e colossais, as vaginas são secretas, mas no pior sentido, fundas,
buracos negros, autênticas cavernas, uma pessoa é capaz de se perder lá dentro
e nunca mais ver a luz.
Por exemplo, Ana Clara - tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?
Por exemplo, Ana Clara - tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?
Era por isso, por causa dessa fadiga, que, por
mais estimulantes que lhe dessem a tomar, lhe custava a puxar o gatilho. Ali,
no corpo da sua Moranguita, tudo estava mais à mão, concentrado. E, depois, isso
é que era mesmo importante, amava-a. Foi aqui que achei que chegava de
confissões. Enojou-me ligeiramente a conversa porque não acredito no amor.
Acredito no amor parental, filial, fraternal, no amor que se baseia no sangue. Entre
um homem e uma mulher não há amor. Há apenas rituais de acasalamento, uns
breves, outros longos, capazes de durar a vida inteira. Tenho pois um leve
desprezo por quem ama, mais ainda por quem desespera por não amar. Em todo o
caso, para não o melindrar, disfarcei o enfado que a conversa me provocava. Pedi-lhe
que chamasse a Morangita, tivera tempo mais do que suficiente para
desentorpecer as pernas, tardava, ainda tinha de ir buscar os miúdos a Caxias,
levar a do meio a uma festa de anos naquele centro comercial novo perto da Falagueira
e passar por uma drogaria a comprar ácido muriático para a minha empregada limpar
as juntas dos azulejos. Ele a falar-me da anã contorcionista, do burro de ouro,
de sialorreia, do seu fracasso nos filmes pornográficos; eu a falar-lhe de
filhos, de festas de aniversário em centros comerciais, da limpeza das juntas
do chão da minha cozinha. Tive noção do remanso que é a minha vida e, naquela
tarde, por breves instantes, senti um saracotear por dentro, vontade de chorar.
Existência como a minha não se devia admitir.
2012/05/07
El enanito (4)
Fiquei ensimesmada,
a pensar como se conjuga o contorcionismo com o prestamismo, sul-americanices, concluí,
coisa de povos que ainda não evoluíram o bastante para chegar ao patamar da
seriedade, do rigor, das contas certas, do défice controlado, tamanha liberdade
e imaginação já não se usa por cá. Apaixonei-me mal a vi, continuava o meu
amigo, vamos casar pela igreja, arranjar empregos, poupar para alugar um T1 e comprar
dois passes sociais. Foi então que a sua Moranguita largou a fugir entre os
carros, preciso dar às pernas, gritava num espanhol açucarado que me encantou, fonética
cheia de modismos, quase parecia italiano, os trópicos nas línguas mãe dão-lhe outro
sainete, um travo de rebelião de dígrafos e fonemas, até parece que as letras são
gente. Porém, quando a vi em correria descontrolada, feliz por recuperar a
marcha, começou a palpitar-me o coração, tal e qual como quando vou de passeio
com o meu filho mais pequeno e o patife me larga a mão ao atravessar à rua. Temi
que se perdesse ou, pior, tão pequenita, algum condutor, a bagageira cheia de
malas, a pressa de chegar a casa, em manobra de arrecuo, a não visse e a
atropelasse. A tragédia que seria. O meu amigo, percebendo a minha inquietação,
sossegou-me, não te preocupes Ana Clara, a Moranguita está muito habituada,
vivia numa urbe furiosa, cheia de chevrolets e cryslers, apesar de pequena, é
mulher que nunca passa despercebida. Mudou de assunto com rapidez, nem imaginas
a quantidade de pretendentes que tinha por lá, quando a conheci, andava a ser
cortejada, mas à séria, com flores, mails dengosos e caixas de bombons recheados
com creme de marula, por um protésico que ganhava rios de dinheiro a fazer
dentaduras caninas; havia também o padre da sua paróquia, rapaz novo, empenhado
na conversão dos infiéis, muito pior do que o protésico dentário, nunca me
enganou, eu bem via como se animava quando levava a minha Moranguita para a
confissão. Andava a tentar convencê-la a ir na procissão da Nossa Senhora del
Bueno Parto, em cima de um estrado de tabuinhas, a fazer as vezes da santa, dizia
que seria um quadro vivo da virgem santíssima, coisa nunca vista, havia de
comover multidões, trazer a paz aos corações malsãos; tudo sem grande dispêndio,
já que era exactamente do tamanho da imagem que estava no altar da igreja,
servia-lhe a túnica branca, com cercadura dourada e também o véu que parecia feito de
encomenda, não precisava de nenhum arranjo, por outro lado, não pesava mais do
que a imagem feita em marfinite, podia usar-se o mesmo estrado de tabuinhas. O
padre ainda lhe ofereceu uma caixa de bombons com recheio de creme de avelã.
Ela não aceitou, para já, por gostar muito mais de bombons recheados com creme
de marula, depois, porque lhe expliquei que não autorizava tamanho disparate, era
o que mais faltava a minha Moranguita vestida de santa, a tarde inteira sob o
sol abrasador, passeando por calles apinhadas de gente, mãos de velhas más, de bêbados,
de tarados recalcados, de mães de família e de empregados bancários, a quererem
tocar-lhe o manto para se livrarem da degenerescência e do pecado.
2012/05/06
El enanito (3)
Estava eu sentada
de novo no banco desconfortável, lendo o livro que trazia dentro da mala, obra aclamada
de um escritor suíço morto há pouco, coisa séria, densa, cheia de referências literárias
e deambulações intimistas, fazendo um esforço para ler duas frases seguidas e
as compreender, quando, finalmente, vi chegar o meu amigo. Vestia bermudas,
calçava umas alpercatas coloridas que lhe sobravam nos pés, chinelava, por
isso, perdera o pouco cabelo que tinha, chegava cansado, via-se bem, o rosto
feio sulcado por muitas rugas finas, percebi que passara as passinhas do
algarve lá pelas américas. Trazia pouca coisa, arrastava apenas um trolley médio
que rolava devagarinho, chiando, pela rampa da saída e, coisa estranha, um
cacho de bananas debaixo do braço. Corri para ele, meu bijouzinho, meu rico
enanito, finalmente voltaste; abracei-o e, por hábito doméstico, levantei-o
para o pegar ao colo, tal como faço com os meus filhos mais pequenos, senti-o,
porém, espernear furiosamente, põe-me no chão, se faz favor, ordenou com uma
frieza que não lhe conhecia. Obedeci, envergonhada do meu gesto. Baixei-me e,
de cócoras, fechando os olhos, preparei-me para o beijar. Fiquei, no entanto, de
boca à banda, o beijo perdido no espaço cosmopolita da aerogare. Sabes, Ana
Clara, vim acompanhado, justificou-se. Estranhei a conversa, olhei em redor e
não vi ninguém. O meu amigo, antes que pudesse perguntar-lhe pela companhia,
começou a andar em direcção ao parque de estacionamento à procura do meu carro.
Tenho uma carrinha velha, uma Toyota Hiace cor de ferrugem que dá nas vistas,
herdei-a de um tio que era construtor civil e a usava para transportar o
pessoal para os prédios que construía na outra banda, Corroios, Seixal e Coina;
é uma carrinha antiga, gasta muito gasóleo, deita fumo preto ao arrancar, custa
a estacionar e, sobretudo, embaraça os meus filhos quando me vêem chegar ao
portão da escola onde uma manada de porsches cayennes espera a saída das crias.
Não é uma viatura adequada ao meu bairro, nem sequer à minha rotina, mas não
sou capaz de me desfazer dela. Razões sentimentais. Na verdade, gostava muito
do meu tio. O meu amigo parou quando finalmente topou com a carrinha estacionada
entre um mercedes de estofos de couro e um smart amarelo, conhecia-a bem porque,
às vezes, por desfastio, para não enjoarmos da cama estreita do quarto 27 da
Pensão S. Miguel, acabávamos a tarde em cabriolices lá dentro. Olhou em volta,
com um ar muito comprometido. Só tínhamos dinheiro para uma passagem, explicou
e a voz tinha uma quentura, certos arabescos e espirais, que eu também não
conhecia. Curvou-se sobre o trolley, fez deslizar o fecho, abriu o saco e mostrou
o conteúdo: era uma anã surpreendentemente pequena, vinha encolhida, dobrada
sobre o corpo adormecido, parecia um feto aconchegado no ventre materno. Abriu
os olhos e saltou do saco com desenvoltura, ajeitou a saia e explicou que
trazia as pernas trôpegas de vir encolhida tantas horas dentro da sacola do
companheiro. Uma anã proporcionada, sem cabeçorra, sem pernas curtas, sem
braços curtos, mínima, ínfima, dava-me pela barriga da perna, muito bonita, cheia
de curvas, parecia uma bonequinha. É a minha companheira, chama-se Maria Ivone,
mas eu chamo-lhe Moranguita. Conhecia-a numa casa de penhores, onde trabalhava
como contorcionista.
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