2012/06/05

El enanito (6)


Pediu-me para o deixar na Almirante Reis. Larguei a melancolia que, assim como a acolho, também a despacho rapidamente, enxoto-a como insecto insignificante que é, muitos anos de depressão dão nisto, é o hábito, ganha-se calo, frieza e distância, uma pessoa aprende a relativizar o sofrimento, não há dor a que a gente não se habitue. Não vais para a Pensão S. Miguel, pois não? perguntei e finquei-lhe um olhar indignado, furibundo, chispante, como que a dizer largo-te já no meio da rua, ali ao pé daquele rapaz que passeia, sem trela e açaime, um pit-bull, se me disseres que a levas para o lugar dos nossos encontros. Não, olha que ideia, vamos ficar na Casa de Hóspedes Mirabel, é um sítio de gente séria, sem putedo, sem máquina de preservativos na entrada, sem lençóis amarelos a cheirar a lixívia, sem caixinhas de toalhetes em cima das mesas de cabeceira, fica um bocadinho mais abaixo, é um prédio azul antes de chegar àquele supermercado chinês onde tu gostas de comprar caldinhos de massa, barras de sésamo e novelas escritas em cantonês para teres a ilusão do mundo de lá. Sosseguei. Passou-me a irritação. A Moranguita chegou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, peguei-a ao colo e sentei-a na cadeira do meu filho mais novo, uma isofix da Chico, maravilha de cadeira, comprei-a numa promoção, ainda assim custou quase duzentos euros, mas não me arrependi, material ventilado, reforço lateral, apoio regulado para a cabeça, tem um arnês forrado, imobilidade absoluta, cinco anos de garantia; bati já duas vezes depois de a comprar, o mais velho rebentou com o lábio, a do meio deu um gangão violento, andei durante vários dias com o peito dorido, mas o mais pequeno, instalado no seu trono, nada. Segurança total.

Desci a Gago Coutinho devagar. Íamos em silêncio. A Moranguita dormitava lá atrás; pelo retrovisor, reparei que um quelóide avermelhado, lagartinha fibrosa, lhe marcava o peito. Sempre que vejo uma cicatriz, o relevo monstruoso, sinal de abertura, tenho vontade de lhe tocar. Uma cicatriz escarifica, é marca de imperfeição, tumefacção permanente, reconduz-nos à nossa fragilidade e insignificância. Fui o resto do caminho a espiar-lhe a rasgadura do corpo. O meu amigo, sentado ao meu lado, emudecera. De vez em quando, limpava os cantos da boca com um lenço de papel. Chegámos por fim aos Anjos, estacionei a Hiace em frente de um prédio pintado de azul claro, varandas de ferro, janelas de alumínio com venezianas amarelas. A Casa de Hóspedes Maribel era ali. Já no passeio, o meu amigo pediu-me emprestados quinhentos euros, que me pagaria assim que pudesse, era só para os primeiros tempos. Passei-lhe um cheque. Deu-me um beijo no rosto, és uma amiga impecável, Ana Clara, explicou, perdigotando, a adjectivação ficou-me a latejar na pele. Depois, pondo um ar sério, ofereceu-me o tal cacho de bananas, eram bananas especiais, não tinham nada a ver com as bananas chiquita que crescem em plantações infindáveis e são regadas com chuva de antibióticos e insecticidas, nada disso, fora apanhá-las mesmo antes de ir para aeroporto ao quintal do seu amigo Pablo, descendente directo de mapuches e olmecas, eram mágicas, quem as comia ganhava poderes esotéricos, a nefanda capacidade de adivinhar o futuro. Agradeci o presente, muito obrigada, tu sabes bem o que gosto de bananas. Começava a preocupar-me o delírio do meu amigo. Andei o resto da tarde de passeio com o cacho de bananas mágicas. Cheguei a Caxias passava das dez. Tive vergonha de confessar à minha irmã que o enanito do meu coração me trocara por outra. Mal me viram os miúdos enrolaram-se nas minhas pernas, veio-me assim uma sensação de estrangulamento e desmerecimento, de ingratidão insuportável, tanto que eu gostava de ser uma fêmea como deve ser, falando de criancinhas de manhã à noite, o meu João tem um coração de ouro, a minha Dá tem cinco a tudo e toca violino, o meu Joaquim canta todas as canções do Chico Buarque. Levei-os para casa. No dia seguinte, pedi à empregada que panasse as bananas mágicas com pão ralado e as fritasse em azeite para acompanhar um pedaço de picanha nacional. Sempre é mais barata. A minha filha gostou muito e, ao contrário do que é habitual, nessa noite, pediu para repetir o jantar.

2012/06/01

Sexta-feira




Serpentes emplumadas e diários remendados para digerir noite fora.  Mastigar um e depois outro, intervalando,  para não enjoar. Uma garrafa de vinho tinto que custou nove euros e um maço de cigarros. O Chico Buarque canta para a mulher que dança na cozinha, descalça, calças descaídas, t-shirt  justa e curta, corpo moribundo espreitando. Não há homem, nem sequer mulher,  que a livre da morte.  E, amanhã,  a mulher levanta-se às seis da manhã  para levar a filha ao campeonato nacional de ginástica. Como detesta a vidinha. Dizem, explicam-lhe,  que é mal-agradecida, injusta e imatura, que é estúpido, profundamente estúpido, querer da vida mais do que a rotina. Uma pessoa deve habituar-se à indiferença reptilária, gelada e escorregadia. Arrogância intolerável, essa de querer mais qualquer coisinha, primícias, liberdade,  a poesia espalhada pelo chão.

2012/05/08

El enanito (5)


Parou um bocadinho. Estava cansado. Ele falava, falava. Eu escutava, escutava. A Moranguita corria, corria. O meu amigo alçou a perninha curta, pôs-se em biquinhos de pés e, antes que pudesse ajudá-lo, dando impulso ao corpo atarracado, sentou-se na bagageira da Hiace. Depois, baixou a voz e explicou-me que resolvera abandonar em definitivo a indústria pornográfica, já não queria ser uma porno star, não estava para isso, não fora só a humilhação de o terem trocado por um burro, chegou o bicho como se fosse uma estrela, vagaroso e arrogante, puxado por uma arreata do mais macio couro, havia uma meda de feno chileno à porta do estúdio, para lhe encher o bandulho depois de cada cena, era sobretudo por estar farto de contracenar com mulheres de estatura maior. Cansava-se muito. As actrizes pornográficas, mais do que as outras, à conta de tanto enchimento e recauchutagem, eram autênticas cavalonas; injectavam-se com silicone, colágeno, às vezes, até com gordura animal, sobretudo de porco, que encomendavam pela internet, chegava um kit com seringa, duas bisnagas de sebo e um livrinho de instruções, não custava nada, só era preciso inspeccionar bem o produto antes da aplicação, às vezes, ganhava verdete, assim umas manchas jaspeadas que indicavam estar fora do prazo de validade. Pois essas mulheres insufladas tinham corpos que eram uma longura, não acabavam, intermináveis como o deserto do Kalahari e gelados como a tundra gronelandesa, nem imaginas, as mamas eram verdadeiras montanhas, as nádegas têm-nas infindáveis, gelatinosas, mas redondas e colossais, as vaginas são secretas, mas no pior sentido, fundas, buracos negros, autênticas cavernas, uma pessoa é capaz de se perder lá dentro e nunca mais ver a luz. 


Por exemplo, Ana Clara -  tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?

 Era por isso, por causa dessa fadiga, que, por mais estimulantes que lhe dessem a tomar, lhe custava a puxar o gatilho. Ali, no corpo da sua Moranguita, tudo estava mais à mão, concentrado. E, depois, isso é que era mesmo importante, amava-a. Foi aqui que achei que chegava de confissões. Enojou-me ligeiramente a conversa porque não acredito no amor. Acredito no amor parental, filial, fraternal, no amor que se baseia no sangue. Entre um homem e uma mulher não há amor. Há apenas rituais de acasalamento, uns breves, outros longos, capazes de durar a vida inteira. Tenho pois um leve desprezo por quem ama, mais ainda por quem desespera por não amar. Em todo o caso, para não o melindrar, disfarcei o enfado que a conversa me provocava. Pedi-lhe que chamasse a Morangita, tivera tempo mais do que suficiente para desentorpecer as pernas, tardava, ainda tinha de ir buscar os miúdos a Caxias, levar a do meio a uma festa de anos naquele centro comercial novo perto da Falagueira e passar por uma drogaria a comprar ácido muriático para a minha empregada limpar as juntas dos azulejos. Ele a falar-me da anã contorcionista, do burro de ouro, de sialorreia, do seu fracasso nos filmes pornográficos; eu a falar-lhe de filhos, de festas de aniversário em centros comerciais, da limpeza das juntas do chão da minha cozinha. Tive noção do remanso que é a minha vida e, naquela tarde, por breves instantes, senti um saracotear por dentro, vontade de chorar. Existência como a minha não se devia admitir.

2012/05/07

El enanito (4)


Fiquei ensimesmada, a pensar como se conjuga o contorcionismo com o prestamismo, sul-americanices, concluí, coisa de povos que ainda não evoluíram o bastante para chegar ao patamar da seriedade, do rigor, das contas certas, do défice controlado, tamanha liberdade e imaginação já não se usa por cá. Apaixonei-me mal a vi, continuava o meu amigo, vamos casar pela igreja, arranjar empregos, poupar para alugar um T1 e comprar dois passes sociais. Foi então que a sua Moranguita largou a fugir entre os carros, preciso dar às pernas, gritava num espanhol açucarado que me encantou, fonética cheia de modismos, quase parecia italiano, os trópicos nas línguas mãe dão-lhe outro sainete, um travo de rebelião de dígrafos e fonemas, até parece que as letras são gente. Porém, quando a vi em correria descontrolada, feliz por recuperar a marcha, começou a palpitar-me o coração, tal e qual como quando vou de passeio com o meu filho mais pequeno e o patife me larga a mão ao atravessar à rua. Temi que se perdesse ou, pior, tão pequenita, algum condutor, a bagageira cheia de malas, a pressa de chegar a casa, em manobra de arrecuo, a não visse e a atropelasse. A tragédia que seria. O meu amigo, percebendo a minha inquietação, sossegou-me, não te preocupes Ana Clara, a Moranguita está muito habituada, vivia numa urbe furiosa, cheia de chevrolets e cryslers, apesar de pequena, é mulher que nunca passa despercebida. Mudou de assunto com rapidez, nem imaginas a quantidade de pretendentes que tinha por lá, quando a conheci, andava a ser cortejada, mas à séria, com flores, mails dengosos e caixas de bombons recheados com creme de marula, por um protésico que ganhava rios de dinheiro a fazer dentaduras caninas; havia também o padre da sua paróquia, rapaz novo, empenhado na conversão dos infiéis, muito pior do que o protésico dentário, nunca me enganou, eu bem via como se animava quando levava a minha Moranguita para a confissão. Andava a tentar convencê-la a ir na procissão da Nossa Senhora del Bueno Parto, em cima de um estrado de tabuinhas, a fazer as vezes da santa, dizia que seria um quadro vivo da virgem santíssima, coisa nunca vista, havia de comover multidões, trazer a paz aos corações malsãos; tudo sem grande dispêndio, já que era exactamente do tamanho da imagem que estava no altar da igreja, servia-lhe a túnica branca, com cercadura dourada e também o véu que parecia feito de encomenda, não precisava de nenhum arranjo, por outro lado, não pesava mais do que a imagem feita em marfinite, podia usar-se o mesmo estrado de tabuinhas. O padre ainda lhe ofereceu uma caixa de bombons com recheio de creme de avelã. Ela não aceitou, para já, por gostar muito mais de bombons recheados com creme de marula, depois, porque lhe expliquei que não autorizava tamanho disparate, era o que mais faltava a minha Moranguita vestida de santa, a tarde inteira sob o sol abrasador, passeando por calles apinhadas de gente, mãos de velhas más, de bêbados, de tarados recalcados, de mães de família e de empregados bancários, a quererem tocar-lhe o manto para se livrarem da degenerescência e do pecado.

2012/05/06

El enanito (3)


Estava eu sentada de novo no banco desconfortável, lendo o livro que trazia dentro da mala, obra aclamada de um escritor suíço morto há pouco, coisa séria, densa, cheia de referências literárias e deambulações intimistas, fazendo um esforço para ler duas frases seguidas e as compreender, quando, finalmente, vi chegar o meu amigo. Vestia bermudas, calçava umas alpercatas coloridas que lhe sobravam nos pés, chinelava, por isso, perdera o pouco cabelo que tinha, chegava cansado, via-se bem, o rosto feio sulcado por muitas rugas finas, percebi que passara as passinhas do algarve lá pelas américas. Trazia pouca coisa, arrastava apenas um trolley médio que rolava devagarinho, chiando, pela rampa da saída e, coisa estranha, um cacho de bananas debaixo do braço. Corri para ele, meu bijouzinho, meu rico enanito, finalmente voltaste; abracei-o e, por hábito doméstico, levantei-o para o pegar ao colo, tal como faço com os meus filhos mais pequenos, senti-o, porém, espernear furiosamente, põe-me no chão, se faz favor, ordenou com uma frieza que não lhe conhecia. Obedeci, envergonhada do meu gesto. Baixei-me e, de cócoras, fechando os olhos, preparei-me para o beijar. Fiquei, no entanto, de boca à banda, o beijo perdido no espaço cosmopolita da aerogare. Sabes, Ana Clara, vim acompanhado, justificou-se. Estranhei a conversa, olhei em redor e não vi ninguém. O meu amigo, antes que pudesse perguntar-lhe pela companhia, começou a andar em direcção ao parque de estacionamento à procura do meu carro. Tenho uma carrinha velha, uma Toyota Hiace cor de ferrugem que dá nas vistas, herdei-a de um tio que era construtor civil e a usava para transportar o pessoal para os prédios que construía na outra banda, Corroios, Seixal e Coina; é uma carrinha antiga, gasta muito gasóleo, deita fumo preto ao arrancar, custa a estacionar e, sobretudo, embaraça os meus filhos quando me vêem chegar ao portão da escola onde uma manada de porsches cayennes espera a saída das crias. Não é uma viatura adequada ao meu bairro, nem sequer à minha rotina, mas não sou capaz de me desfazer dela. Razões sentimentais. Na verdade, gostava muito do meu tio. O meu amigo parou quando finalmente topou com a carrinha estacionada entre um mercedes de estofos de couro e um smart amarelo, conhecia-a bem porque, às vezes, por desfastio, para não enjoarmos da cama estreita do quarto 27 da Pensão S. Miguel, acabávamos a tarde em cabriolices lá dentro. Olhou em volta, com um ar muito comprometido. Só tínhamos dinheiro para uma passagem, explicou e a voz tinha uma quentura, certos arabescos e espirais, que eu também não conhecia. Curvou-se sobre o trolley, fez deslizar o fecho, abriu o saco e mostrou o conteúdo: era uma anã surpreendentemente pequena, vinha encolhida, dobrada sobre o corpo adormecido, parecia um feto aconchegado no ventre materno. Abriu os olhos e saltou do saco com desenvoltura, ajeitou a saia e explicou que trazia as pernas trôpegas de vir encolhida tantas horas dentro da sacola do companheiro. Uma anã proporcionada, sem cabeçorra, sem pernas curtas, sem braços curtos, mínima, ínfima, dava-me pela barriga da perna, muito bonita, cheia de curvas, parecia uma bonequinha. É a minha companheira, chama-se Maria Ivone, mas eu chamo-lhe Moranguita. Conhecia-a numa casa de penhores, onde trabalhava como contorcionista. 

2012/05/05

El enanito (2)


O regresso do meu amigo animou-me. Costumávamos dar belas passeatas ali pela Almirante Reis, encontrávamo-nos pelo meio-dia na esquina do Banco de Portugal, descíamos a avenida até ao Martim Moniz, comíamos qualquer coisa ao balcão, era, quase sempre, um prego e um copo de vinho verde no quiosque do chinês vesgo, depois, subíamos de novo até ao Intendente à cata de prostitutas, heroinómanos, chulos, alcoólicos, velhas de pele curtida; olhava-os como se fossem objectos preciosos, raridades de feira, tirava notas numa agenda, o meu amigo ria-se do meu entusiasmo, mas não o estranhava, percebia que por ali passava a minha emancipação. No final, acabávamos a tarde na Pensão S. Miguel, no quarto 27, tinha uma cama estreita, que nos chegava; num varandim enferrujado, duas floreiras com petúnias floridas disfarçavam o cheiro de mijo antigo que chegava da rua. Ele, a meio da entretenga, às vezes, dizia gostar de mim sobretudo por eu precisar da miséria dos outros para viver. Toda a gente tem válvulas de escape para aguentar a vida, mas a tua é de uma sofreguidão e tristeza que me comove. Deixava-o fazer análises, que fingisse à vontade ser discípulo de Freud se isso lhe enchia o ego, mas, sempre que se alongava na merdice psicanalítica, pedia-lhe que se calasse e para, com empenho, continuar a desempenhar o seu papel de cobridor. Eram umas tardes deliciosas, assim confortada, custava-me menos regressar ao meu bairro de empregadas brasileiras passeando pela tardinha meninas loiras de sobretudo azul, porsches cayenne rodando em avenidas floridas, como mamutes, gente saindo da mercearia gourmet com sacos cheios de iogurtes biológicos, massas frescas com tinta de choco, abacates, anonas e tomatinhos cereja.

Fiquei, pois, muito animada. Com sorte, voltaria a ter tardes de decadência e indecência para me consolar. Depois, há qualquer coisa no meu amigo anão que me atrai. Quando descemos a avenida de mãos dadas toda a gente nos olha: eu, razoavelmente portentosa - digo-o, sem exagero, por ser a mais pura das verdades -, rabo redondinho, cabelo muito preto, ondulando pelas costas, lábios vermelhos a desabrochar, olhos líquidos de fêmea infeliz; ele, pequenote, arqueado, hedionda cabeçorra, já meio careca, dentes tortos numa boca que saliva excessivamente. Devem achar que formamos um par insólito e estranho. O certo é que roubamos o protagonismo das putas retintas, dos bêbados, dos sem-abrigo que costumam parar à porta do talho do Karim que, jóia de rapaz, ao fim da tarde, faz panelonas de borrego guisado para matar a fome a quem a tem e ganhar o apreço de Alá. Roubar o protagonismo aos indigentes é sempre bom. Enche-me de vaidade e orgulho.

O meu amigo chegou no dia 1 de Maio. Passei uma hora em frente do espelho a escolher a indumentária certa, coisa simples, sem grandes arrebiques de sofisticação, mas que lhe acicatasse o desejo, entumecesse à primeira vista o mais que tudo e o fizesse esquecer o cansaço da viagem. Escolhi um vestido preto, justo, decotado, botas de cano alto. Pedi à minha irmã para cuidar dos miúdos. É que vou buscar o meu enanito ao aeroporto, expliquei. Ela aceitou prontamente, que não me preocupasse, ficaria com eles o tempo que fosse preciso, se precisares da noite para matar as saudades eu cá me arranjo, encomendo uma piza familiar, uma garrafa de dois litros de coca-cola e meto-os a ver filmes de enfiada. Agradeci-lhe. É uma irmã como não há outra, a minha única amiga, faz muita questão que, no meio da maternidade sufocante, arranje tempo para continuar a ser mulher. Quando cheguei ao aeroporto, estranhei um grupo de hare krishnas que para ali estava em cânticos mântricos. Esperei quase uma hora. Sentei-me num banco desconfortável e entretive-me a ver as carecas dos seguidores do guru indiano, tufos solitários de cabelos claros, dotis e kurtas cor de açafrão, dançavam e cantavam com a inépcia própria dos ocidentais tresmalhados. Senti fome, pedi uma empada de galinha e um sumol de laranja num café vazio. Enquanto comia lembrei-me das tardes na Pensão S. Miguel, ali ao lado do talho do Karim. O meu amigo anão, para além de sobredotado nas partes baixas, arrepio-me só de pensar, é um mineteiro muitíssimo experiente, sabe dar à língua, o que não é nada fácil de encontrar. Há homens que a entesam, um horror, fica aquele pedúnculo arroxeado, hirto e triangular, uma pichotinha de gato a fazer parelha com a outra, lambem-nos como se fôssemos um calipo de limão. Não se lambe uma vulva, não se percorrem os pequenos e grandes lábios, como se a língua, em vez de o ser, fosse um cajado de dureza hercúlea. O meu amigo anão nunca tentara metamorfosear sua língua, a sua mantinha a languidez própria e esperada de um músculo que não conhece a fadiga, a leveza do toque, sabia o que fazia e acertava sempre em cheio, nunca precisei de lhe agarrar na cabeça para lhe corrigir a pontaria. Enquanto ele cunilinguiava eu suspirava baixinho, mal se notava o meu prazer; na verdade, nunca fui mulher de exagerar, com urros, gritos e rolar de olhos, os meus folguedos. Atingia o orgasmo com intensidade, mas, ainda assim, nunca me libertava da envolvência. Pela janela aberta chegava o alarido dos miseráveis que, arengando, disputavam o segundo prato de guisado de borrego do Karim. 

2012/05/04

El enanito (1)


O meu amigo anão telefonou-me a semana passada de Buenos Aires. Contou-me as novidades. Tivera sucesso na indústria pornográfica. A vida correu-lhe bem durante os primeiros tempos. Mas, depois, teve assim uma espécie de esgotamento, passou a ter dificuldades de hasteamento, custava-lhe muito a enrijecer o instrumento. Ainda lhe deram a tomar uns comprimidos a ver se a coisa se compunha. Porém, no momento da verdade, estava sempre de mangalho encolhido, uma serpente velha, sem serventia alguma. O realizador decidiu tirar-lhe o protagonismo. Meteram-no num filme de furry fandom, cheio de figuras híbridas; ele de figura secundária, usava uma bandolete de crina, calções justinhos de cabedal e botins a fingir de cascos de cavalo. A princípio, não se importou com a mudança: dava descanso ao seu monumental instrumento, estava para ali, só tinha de ser passeado por uma gorducha que usava um chicote com brandura; às vezes, relinchava. O pior é que os botins com forma de casco apertavam-lhe muito os penantes. Eram tão apertados que a determinada altura lhe pareceu que os pés encolhiam, passou a sentir tonturas e, constantemente, uma sensação de desequilíbrio durante a marcha. À noite, tinha pesadelos em que aparecia vestido de quimono, olhos rasgados de chinesinha, os pés minguando, minguando, cada vez mais pequenos, pés de lírio entrapados em sapatos de cetim vermelho. Percebeu que se continuasse a fazer de cavalgadura miniatura, a usar os detestáveis botins, em breve, deixaria de andar. Foi explicar ao realizador que não aguentava tamanhas dores, não estava para ser pónei a vida toda, a bandoleta ainda vá que não vá, agora as botinhas de casco nem pensar, ia-se embora. Julgou que o realizador reconsiderasse, lhe arranjasse outro papel, afinal o seu primeiro filme El enanito e las siete monjas peludas fora um sucesso. Um anão, melhor dizendo, um enanito como ele, tão bem apetrechado, não era nada fácil de encontrar.

Para sua surpresa o outro aceitou sem mais a sua demissão. As figuras híbridas já cansavam. Homens touros, centauros, harpias. Estava tudo visto. Era um entusiasta da cultura clássica, decidira fazer uma adaptação livre do asno de ouro e arriscava usar um burro a sério. Já tinha em vista um burro abissínio, raça de robustez provada, erecto, o burro abissínio era animal para ter um pénis com quase cinquenta centímetros de comprimento e vinte de diâmetro. Engoli em seco, confessou do outro lado da linha o meu amigo anão, bem vês, não é fácil ser-se ultrapassado por um burro. E continuou: ainda me senti tentado a pedinchar que me deixassem ficar, nem que fosse a tomar conta do asno, porém, depois lembrei-me de que um homem, mesmo sendo anão, tem o seu orgulho e por isso despedi-me. Estou sem trabalho há mais de dois meses. Volto na próxima semana. Pedia-me, se não fosse muito incómodo, para o ir buscar ao aeroporto. Pensei com os meus botões: estás nas lonas, por isso regressas, vens-me pedir batatinhas depois de me teres partido o coração, ah, meu bijouzinho malandro, a tua sorte é que eu sou uma mulher apaixonada, incapaz de guardar rancor! Não te preocupes, lá estarei para te ir buscar, disse-lhe e desliguei o telefone com o corpo cheio de alegria.

2012/05/02

Aninhas e os sapatos de couro envernizado (2)


Ao final do dia, no caminho para casa, passou por uma sapataria que nunca lhe despertara interesse. Era uma sapataria que vendia apenas sapatos e malas italianas, estilo clássico, de irrepreensível sofisticação, modelos que podiam, sem causar embaraço, ser usados por rainhas e princesas em cerimónias de estado. Na montra, ao centro, estavam uns sapatos pretos de couro envernizado, simples, biqueira redonda, declive acentuado pelo salto de sete centímetros, perspectiva feminina de fuga. Entrou e pediu para os experimentar. Olhou a etiqueta do preço: trezentos e dez euros. Custava-lhe dar tanto dinheiro por uns sapatos, havia ainda nela laivos de uma juventude de punho erguido que lhe provocava um levíssimo sentimento de culpa por ceder à luxuria e à frivolidade. Pagou-os. Porém, mal saiu da loja, percebeu a irracionalidade do seu gesto. A compra de tais sapatos não era compatível com o seu desejo de morte. Para que queria uns sapatos de trezentos e dez euros se tomasse os setenta e três comprimidos, anti-depressivos, ansiolíticos, voltarens e clonixs, que estavam dentro da caixinha púrpura? Sentiu-se estúpida. Acontecia-lhe muitas vezes sentir-se assim, estúpida, ridícula, com vergonha da sua angústia, por não a ter coerente, estruturada, e, sobretudo, consequente. A verdade, porém, é que se tomasse os comprimidos corria o risco de não gozar os seus sapatos de couro envernizado. Talvez a mãe os escolhesse para os empregados da agência funerária lhos calçarem no funeral; deitada no caixão, numa ponta, um rosto morto de maquilhagem retocada, na outra, o brilho dos sapatos pretos. Ir a enterrar com uns sapatos italianos de trezentos e dez euros parecia-lhe um desperdício. Ou pior, muito pior, talvez o marido, vendo-os novos, a etiqueta a assegurar a genuinidade do couro, o luxo do produto, a sola por estrear, os oferecesse à namorada que certamente arranjaria para o ajudar a tomar conta dos dois rapazes. Aninhas tentou imaginar a nova namorada do marido. Unhas rectangulares, pintadas de vermelho, sobrancelhas aparadas, ordinária sem ter consciência de o ser, comum, anódina, levando os seus sapatos italianos na linha azul do metro, a caminho de um salão de estética dos subúrbios. Abriu a arcada das narinas e bufou brandamente.

Pela tardinha, quando chegou a casa, o filho mais novo pela mão, a primeira coisa que fez foi deitar fora os comprimidos da caixinha púrpura. A água da sanita tingiu-se de rosa clarinho por causa do revestimento entérico das cápsulas grenás que a mãe tomava para a artrite reumatóide. Depois, mudou de roupa e calçou os novos sapatos. Olhou-os e a elegância  era tamanha que lhe pareceu que os pés não lhe pertenciam. O salto acentuava a curva da sua perna. Apesar de bonita, Aninhas não suscitava desejo, paixão ou amor. Era apenas um valor seguro. A sua beleza, tal como a sua angústia, era ridícula e triste por ser inconsequente. Aqueceu o jantar, estudou geografia com o filho mais velho, leu várias histórias ao mais novo, despediu-se do marido que acabava a sempre o dia a ver séries de investigação criminal. Sempre com os sapatos do couro envernizado calçados. Só os descalçou quando se foi deitar. Nessa noite dormiu descansada, levou o sono até de manhã, sem espíritos de olhos doces, sem precipícios, sem nada.  

2012/05/01

Aninhas e os sapatos de couro envernizado (1)


Espíritos de luz perseguiram-na durante muito tempo por florestas e precipícios. As fantasmagóricas aparições eram parecidas com os seus filhos, as mesmas feições, corpos ainda tenros, olhos doces, redondos, bocas carnudas. Queriam abraçá-la. Fugiu-lhes durante toda a noite. Acordou cansada de tanto fugir. Levantou-se a custo. Entrou na casa de banho e evitou olhar-se ao espelho. Abriu o armário. Tirou uma caixinha púrpura onde guardava os comprimidos que roubava à mãe. Aninhas, em certos assuntos, era uma mulher racional, sem pinga de hesitação ou amedrontamento. Sempre que visitava os pais, inventava uma desculpa para ir ao escritório, abria o armário dos medicamentos, tirava um ou dois comprimidos das lamelas prateadas que a mãe organizava em tomas diárias, necessárias para o tratamento de várias doenças: depressão crónica, hipertiroidismo, diabetes, artrite reumatóide. Sentada na sanita, as calças do pijama enroladas no chão, o cheiro adocicado da urina a espalhar-se pela manhã, pôs-se a contá-los, setenta e um, setenta e dois, setenta e três, era já um cocktail de considerável letalidade, para além de anti-depressivos e ansiolíticos, tinha também vários analgésicos, aqui estão cinco clonixs e sete voltarens, não servem para matar, mas sempre ajudam à festa. Era assim, exactamente assim, que pensava. Estava a contar os comprimidos, questionando-se sobre a eficácia da dose, quando a voz do filho mais novo, chamando-a, chegou do quarto. Escondeu a caixinha no armário, atrás de uma embalagem de tampões. Arranjou-se, deixou os filhos na escola e foi trabalhar. À hora do almoço, comeu uma sopa de nabiças e um mini-prato de arroz de polvo. Volta e meia, lembrava-se da caixinha púrpura com os setenta e três comprimidos. Não tinha ainda tomado a decisão de os tomar, mas aliviava-a saber que os tinha ali, à mão de semear, prontos a livrá-la de uma angústia maior.

Marvin Gaye



Lucy

Li, por estes dias, um livro do Coetzee. Lá para o meio do romance há uma violação brutal, primitiva, africana no pior sentido, a fazer lembrar o tal profeta Joseph Koni de que ontem falava o jornal. A violência da cena, é muita, também é dada pela reacção da vítima, uma jovem mulher, que, não sendo assumidamente lésbica, prescinde da companhia dos homens. Essa mulher aceita a sujeição ao sujeito soberano. É essa inicial passividade, motivada por razões ideológicas, que, mais do que a violência física, violenta o leitor. É bom escritor, o Coetzee, dos que mais gosto de ler. Mas, consumada a violação, quando, em meia dúzia de linhas, se debruça sobre, como lhes chama, os assuntos de sangue das mulheres - menstruação, parto e violação - escreve o seguinte: violar uma lésbica é pior do que violar uma virgem: é um golpe mais forte. Li, sublinhei, reli, tenho pensado muito no assunto e juro que ainda não percebi. Deve ser preciso ser homem, ter certo discernimento, para perceber.

2012/04/29

Aninhas e a festa de Natal



Frequentava um jardim-de-infância perto do hospital onde a mãe trabalhava. As salas eram acolhedoras, o refeitório muito grande, o dormitório cheio de catres azuis onde as educadoras obrigavam os meninos a dormir a sesta. No Natal e na Páscoa organizava-se sempre uma festa. Os meninos representavam e cantavam canções para os pais vestidos de abelhas, passarinhos, flores. Naquele tempo, virgem de máquinas digitais, enquanto os filhos actuavam, os pais olhavam-nos sem se preocuparem em captar o momento daquilo a que não assistiam. Aplaudiam no fim. Após o espectáculo, era sempre servido um lanche partilhado no refeitório. As empregadas colocavam nas mesas corridas pilhas de pães-de-leite, bolos, travessas de coscorões ou azevias, se fosse Natal, folares de ovos envernizados, se fosse Páscoa, pratinhos de rissóis de camarão e croquetes de carne, bolinhos secos, húngaros, bolacha francesa, fidalguinhos de braga, torcidos de anis. Havia laranjada para os meninos e garrafas de vinho do Porto para os pais. Aninhas, todos os anos, corria pelo corredor para ver o que a mãe trouxera para o lanche. Se o bolo fosse bonito, encontrava em tal facto a certeza de um futuro radioso cheio de felicidade e alegria.

Lembra-se de um Natal em que, muito ansiosa, acabada a festa, quis saber o que a mãe trouxera para a lanche. Que sossegasse, explicou a mãe enquanto lhe tirava uma saia de papel frisado, saíra do hospital e passara pela Tarantela. Comprara um bolo muito bonito. Correu as mesas do refeitório à procura. Havia troncos de natal e lampreias de ovos, ciclóstomos com corpo de doçura. Quando finalmente a mãe lhe mostrou o bolo, suspirou de alívio. Era um bolo de pastelaria, redondo, pouco mais de um quilo, um pão-de-ló, recheado e coberto de doce de ovos, em cima o pasteleiro colocara dois cisnes de açúcar, um branco, outro azulado, nadavam num lago espelhado de glace. Ali estava um bolo que era uma beleza! Ao lado, um prato de papelão com uma fiada de pastéis de bacalhau. Do outro lado, um pratinho com fatias de bolo de iogurte. Sentiu pena dos meninos cujos pais traziam pastéis de bacalhau e fatias de bolo simples para o lanche partilhado. Tão bonito mãe, disse-lhe em jeito de agradecimento. Depois foi brincar para o recreio onde havia charcos da chuva, bandos de patos e uma torre de ferro onde prendia as pernas e, de cabeça para baixo, deixava o corpo balançar.

Os pais ficaram no refeitório conversando com as educadoras. Quando começou a chover, uma auxiliar chamou os meninos para dentro. Aninhas vinha transpirada da brincadeira. O refeitório estava quase vazio, a maior parte dos pais decidira partir não fosse o tempo piorar. Uma empregada varria já o chão com uma vassoura. Em cima das mesas corridas, os despojos do lanche começavam a ser retirados para a copa. Foi então que Aninhas reparou que o bolo, cuja beleza e sofisticação tanto apreciara, continuava ali, cor de marmelada, os cisnes nadando num lago de águas açucaradas. Ninguém lhe tocara. O prato de pastéis de bacalhau estava vazio e sobrava apenas uma fatia de bolo de iogurte. Escondeu o rosto no corpo da mãe que falava com a educadora, sentiu a fazenda áspera da sua saia e começou a chorar. Escutou fragmentos de conversa. “…desde a morte do irmão… sim…sabe não é fácil para uma criança tão pequena…” Aninhas sabia do que falavam. Depois de uma gravidez que lhe parecera demasiado longa, a mãe trouxera para casa um bebé quase morto. Estava enterrado num cemitério longe de casa. A mãe e a educadora convenciam-se de que o seu choro era causado pela morte desse estranho ser, morto, tão morto, feio, tão feio, que nunca chegou a ganhar vida. Esteve uma semana em casa, enfiado com a mãe no quarto, de vez em quando, escutava-se um piar de bicho doente, saiu aninhado num caixãozinho de madeira de pinho. A mãe chorou muito a sua morte. O pai não. Um filho doente, incapaz, deficiente, mais do que uma sina pesada, era sinal de fracasso. Estavam, porém, enganadas. Nem a morte do recém-nascido lhe causava tristeza nem as idas ao cemitério aos domingos a atormentavam. Havia um vendedor de castanhas junto ao portão e arranjos florais tão lindos sobre a brancura marmórea das campas. Naquele instante, porém, agarrada à saia da mãe, Aninhas agradeceu ao irmão a sua morte; podia, assim, disfarçar o seu choro egoísta nascido da certeza de um futuro escuro, sem felicidade ou alegria. 

2012/04/16

Aninhas e a puta da velha

Aninhas odiava a puta da velha.

(lembrete.)

2012/04/11

Aviso

Aviso os estimados leitores que, fartinha da solidão do blogue, aderi ao facebook. Parece que é sítio com outra animação. Querendo, se para isso tiverdes paciência, podereis lá ler em registo breve - patético, mas genuíno -, sem pinga de mentira ou exagero, ao contrário do que aqui acontece, o interessante registo do meu dia a dia. Já me explicaram que o facebook não serve bem para aquilo e que a linguagem que uso também não é a mais indicada. Pelos vistos há regras e códigos de conduta facebookianos que desconheço. Paciência. É o que se arranja. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Já dizia a minha avó.

2012/04/09

Tabu

2012/04/08

Desgraça

"Que desgraça ser mulher! Entretanto, a pior desgraça quando se é mulher é, no fundo, não compreender que sê-lo é uma desgraça."

Kierkegaard, o grande, enorme, colossal cabrão.

Fecha a loja


(Fui correr para o meio das figueiras para fugir de sete crianças e de um cão. Entusiasmei-me com os frutos leitosos, as folhas tenrinhas, com os velhos à soleira da porta, pasmados, gozando os meus calções de licra; veio um cão muito pequeno, ladrava furioso, assustei-me, caí, vim de reboleta no alcatrão até ao sopé da vila. Acudiu-me uma velha de lenço à cabeça que me deu uma pinguinha de água e repreendeu o Zézinho, assim se chamava a fera.)

2012/04/04

Levítico

Descendo a rua, enquanto comia um folhado de galinha e alho francês, o último que estava na bandeja de alumínio da vitrina dos salgados, modernice de pronto-a-comer armado aos cucos, coisa desenxabida e requentada, uma desilusão, enfim; como dizia, enquanto descia a rua e comia o salgadinho para matar a fome, tomei uma decisão muito séria, verdadeira senhora decisão, ai, uma decisão que tem a frágil irrevogabilidade das decisões que tomo na minha vida: não fecho a loja, abro-a a outro tipo de clientela. Adiante. Pela tarde, em vez de trabalhar, pus-me a ler a bíblia online, aprendo muitas palavras, lembro-me de outras, depois utilizo-as em textozinhos como se fossem minhas, nadas e criadas na minha inspiração literária, como se me descessem por obra do espírito santo. Hoje deparei com palavras fantásticas: fressura, ranço, primícias, leprosos, sarna, tabernáculo, impingem, testículo mutilado. Gosto de ler a bíblia, é divertimento puro, gosto do absurdo delírio que lá encontro sobretudo no velho testamento. Mas, por vezes, aborreço-me, com certas e determinadas coisas que por lá se dizem; hoje, no levítico, encontrei o senhor Deus falando a Moisés e dizia-lhe assim Não tomarás mulher prostituta ou desonrada, nem tomarás mulher repudiada de seu marido, pois santo é a seu Deus. Puta que os pariu. Mais à frente, continua o Senhor Deus falando a Moisés, ainda de voz grave, trovões a ribombar, ondas gigantes, apoteose total, e explica Quando a filha de um sacerdote começar a prostituir-se, profana a seu pai, com fogo será queimada. Sei que uma pessoa, ao ler a bíblia, tem de dar um desconto, aquilo foi escrito há muito tempo e por homens, porém, é mais forte do que eu, a permanente secundarização da fêmea, o achincalhamento da mulher, a objectificação do ser menor, dão-me náuseas, chegam-me uns repentes misândricos, acho que Hipólita, chefa das amazonas, encarna em mim, fico capaz de mutilar, nem que seja à dentada, todos os testículos do mundo.

2012/04/02

Ouro

Bill Withers

Amândio

Não inspira simpatia. Tem um corpo possante e robusto. Faz lembrar um pit-bull, um rottweiler, um desses cães de fila que os aficionados, de mangas cavas e braços tatuados, passeiam aos domingos pelos jardins da cidade. Usa óculos de aros escuros, pesados e antiquados, que lhe emolduram uns olhos pequenos, perspicazes e vivos. A voz é grave e nasalada. Fala sempre alto, num tom professoral, como se estivesse permanentemente a palestrar. Consta que tem uma cultura vastíssima, infindável, sabe tudo, cita de cor autores, obras, datas, deixa os seus interlocutores de queixo caído com tamanha sapiência. Não tem grande apreço pela opinião dos outros. Onde quer que esteja, seja qual for a ocasião, a sua opinião é sempre fundamentada, consolidada, irrefutável. É a que conta, a derradeira. Raramente sorri. Quando o faz é por cortesia. Chama-se Amândio e é padre. Durante a celebração da missa, como qualquer sacerdote, usa uma túnica branca, impecavelmente engomada, mas nunca prescinde de uma casula colorida que lhe dá certo protagonismo entre os círios tristonhos do altar. Não delega nos acólitos os rituais litúrgicos. Maneja o turíbulo com destreza, inundando o templo do cheiro enjoativo dos incensos. Os anjos do altar, às vezes, tossem brandamente com a fumarada que ele provoca e as senhoras que disputam os lugares das primeiras filas, na missa dominical das sete, encolhem-se quando, com vigor, sacode o aspersório e dele sai uma autêntica chuva de água benta que ameaça, com gotas gordas e abundantes, as mises de rolos domingueiras feitas nos cabeleireiros do bairro. Para além disso, é sabido, os resfriados podem ser fatais em certas alturas do ano.


Adopta um tom inflamado durante as homilias. Gesticula, procura acicatar os fiéis, falando de assuntos que muitos preferiam evitar: solidariedade, exclusão social, fé cristã. As suas missas nunca são enfadonhas. Não se prestam a sonolências e outros adormecimentos. Um dia, durante o abraço da paz, ouviu-se um telemóvel. Parecia um besouro estridente e histérico. Um silêncio tumular inundou a igreja e os anjos do altar entreolharam-se, amedrontados, temendo uma hecatombe. A dona do telefone, uma senhora gorda e suada, olhou para o lado, fingindo que o besouro não era seu. Depois, perante o olhar colérico e faiscante que vinha do altar, agarrou na malinha e saiu, tremelicando as carnes fartas e soltando ais pequeninos. Conheci-o à porta da igreja. Esperava que os meus filhos saíssem da catequese e vi-o chegar na companhia de uma tia. O Sr. Padre Amândio, disse a minha tia, muito devota e serena. Ele olhou-me com os tais olhos pequeninos e, do nada, disse que apreciava muito os meus traços exóticos. Antes que pudesse explicar-lhe a origem da minha mestiçagem, olhando para o livro que trazia nas mãos, de rajada, aconselhou-me a não perder tempo com leituras blasfemas, que o Saramago era um ignorante, uma cavalgadura que vivia nas trevas. Pobre desgraçado. Também ele, continuou, vivera na escuridão, mas vira a luz. Eu encolhi-me perante tal saraivada e, cobarde, incapaz de lhe confessar o meu agnosticismo, expliquei que também não era grande apreciadora da literatura do nosso nobelizado. A minha tia respirou de alívio e despediu-se.


No bairro onde cresci toda a gente conhece o Padre Amândio e a sua história. Ele não a esconde. Vindo da esquerda mais dura, encontrou Deus já tarde. Militou no partido comunista muitos anos, travou lutas, falou em comícios, distribuiu propaganda. Esteve preso. Viveu a revolução com o entusiasmo próprio dos que acreditam que o mundo pode ser um lugar melhor. Nos anos oitenta, quando sentiu que a sua crença no comunismo fraquejava, procurou Deus e, de uma forma extraordinária e simples, encontrou-o. Converteu-se. Deixou de ser um comunista feroz. Passou a ser um católico feroz. Foi ordenado padre com cinquenta anos. Acredita em Deus com a mesma força com que acreditava na ditadura do proletariado. Há muita gente no bairro que o admira. Outros olham-no com desconfiança. Não lhe apreciam a cultura enciclopédica, o estilo virulento, o passado esquerdista. A uns e a outros causa estranheza que um comunista, ateu confesso, se tenha tornado crente em Deus, fiel à sua palavra. Eu, triste e inquieta descrente, acho que a fé, com as devidas distâncias, é uma espécie de droga. Vicia. Quem a experimenta não sabe viver sem ela. Acreditar no comunismo não é muito diferente de acreditar em Deus. A fé conforta, apazigua, alivia. Torna-nos parte de alguma coisa, dá sentido à nossa vida, passamos a ter um propósito, algo a que nos dedicar. É preciso acreditar. Ser fiel. Seja lá no que for. Os que são pouco originais são fiéis a Deus, a Buda, a Shiva, à Nossa Senhora de Fátima, à Santinha da Ladeira. Muitos, são aos magotes, são fiéis a um clube de futebol. Acreditam piamente que o Benfica voltará a ser campeão. Vão rareando, mas ainda há os que são fiéis a um partido, a um ideal, a uma filosofia de vida. Há os que são fiéis a uma banda, a uma estrela pop, os que acreditam que o Michael Jackson padecia de vitiligo e nunca fez uma operação plástica ao nariz. Há os fiéis das novas seitas, que em tudo acreditam, no poder da cura, nos milagres em catadupa, pague três e leve quatro, que não estranham sequer os terminais de multibanco instalados nos altares para o pagamento do dízimo. Verde. Código. Verde. A sua alma está salva. Ámen.


O padre Amândio acreditava, com sinceridade, no comunismo. Depois, começou a ouvir falar de execuções, censura, falta de liberdade, presos políticos, miséria. Deve custar muito. Não há fiel que aguente tamanha dose de realidade. Deve ter tido uma ressaca dos diabos. Foi preciso arranjar um sucedâneo. Tal como os heroinómanos nos períodos de abstinência, também os fiéis, quando se apercebem da fragilidade das suas crenças, precisam de encontrar algo que substitua a fé estilhaçada. O padre Amândio, comunista convicto, - estou a imaginá-lo, de punho erguido, rosnando a internacional, querendo nacionalizar a fábrica de concentrado de tomate de Benavente -, no dia em que o mundo se lhe apresentou de outra forma, teve de procurar a fé noutra parte qualquer. Encontrou-a em Deus, que é magnânimo, infinitamente bom e se deixa amar por todos.

2012/03/30

Branca de Neve


(Escrevo no silêncio da noite, dorme o apartamento, ouço-lhe a respiração, é um organismo vivo. Irene é velha como eu começo a ser. Descobri, hoje, dois pintelhos iracundos, brancos, branquinhos como a neve. Envelheço.)

2012/03/27

La gent normal


(a catalã que encontro todas as tardes na esplanada do meu bairro tem um rosto esguio de cavalgadura, berra amiúde com as filhas e ralha aos sogros, muito velhos, pouco ri, mulher cheia de pêlo na venta; gosto dela.)

Lourenço Marques

Certo dia chegou um papelinho oficial a comunicar que o meu pai tinha quinze dias para abandonar o país. Se ficasse, avisavam, corria o risco de ser preso por traição, por infame conivência com a anterior potência colonizadora. A ordem de expulsão era assinada, numa letrinha redonda que sugeria certo recato, por um tal Armando Guebuza. Ficou a minha mãe sozinha no apartamento de Lourenço Marques, na Avenida Central, com três filhos, o trabalho no dispensário, uma vida inteira para despachar em caixotes e contentores. Como se embalam as memórias, os hipopótamos descansando nos lagos, as nuvens taurinas abatendo-se na baía, o chão encerado da casa de Tete? Como se encaixota o cheiro doce das mulheres, a brancura fosforescente dos dentes do meninos? A minha mãe teve apenas ajuda de um amigo, o Gomes, um homem pequenino, com uns dentes muito salientes, a fazer lembrar um esquilo gigante, que se desfazia em diligências, ia buscar um papel ali, carimbava outro acolá, dizia Solange é preciso você fazer isto ou tratar daquilo. Contudo, pobre esquilo, era incapaz de um gesto arriscado, de um suborno, de mover uma influência, de dar uma palavrinha a um chefe de repartição para acelerar o caso da minha mãe. Cumpria escrupulosamente as regras estabelecidas pela administração do recém-nascido país que desprezava com dissimulação. Apesar da catadupa de dificuldades, a minha mãe conseguiu embalar tudo. Ficou só a Vitória, empregada-menina, chorando a um canto da cozinha amarela, dizendo que também queria vir para a metrópole. Por muito que a minha mãe lhe explicasse que a nossa vida futura era uma incerteza, que não se podia responsabilizar por ela, a Vitória derramava lágrimas grossas, violáceas como a noite. Assegurava que, se preciso fosse, cruzaria os mares enfiada num contentor, sentada na cadeira de palhinha onde costumava dar de mamar à minha irmã.

Tratados os papéis, a minha mãe preparou-se para voltar. Vestiu-nos as melhores roupas. O meu irmão calçou os sapatos de verniz com fivela e penteou os caracóis com um pente de dentes largos. Porém, uma mulher branca, sozinha, com duas meninas e um menino mulato, que não era seu filho, levantava sérias inquietações aos zelosos guardas do aeroporto. Para seguir viagem, disseram, a minha mãe teria de arranjar uma autorização da mãe biológica do meu irmão. Nunca soubemos como a minha mãe conseguiu trazer o meu irmão, como evitou essa perda irreparável, como garantiu que continuássemos para sempre a ser três. Ela não conta. Mas eu desconfio que, ao contrário do Gomes, o ajudante-esquilo, a minha mãe sabia como as coisas funcionam em Moçambique. Nessa tarde, os guardas do balcão de embarque do aeroporto celebraram o dia. Tiveram com que pagar o amor ordinário das ruas esconsas da cidade. Comeram travessas róseas de camarão tigre. Beberam até os corpos adormecerem de cansaço. E não repararam na abóbada celeste que, nessa noite, se cobriu de estrelas violáceas, iguais às lágrimas grossas de uma menina que nunca chegou a cruzar o mar.

(O melhor dos jantares de família são as memórias laurentinas que desfiamos com descontida emoção até ao momento em que o meu pai, já bebido, começa a chamar filho da puta ao Armando Guebuza. Grandessíssimo filho da puta, é como ele diz. Nós calamo-nos, embaraçados. Não se ofende assim, por dá cá aquela palha, o presidente da república de um país.)

2012/03/26

Aninhas e o olho-mágico

A campainha tocava por volta das duas horas. A Alzira interrompia a limpeza da cozinha, fechava a torneira do lava-loiças, panelas e tachos deixados num transitório descanso dentro da cuba de inox, limpava as mãos molhadas ao avental da farda, caminhava lentamente pelo corredor em direcção à porta. Quem é?, perguntava e sabia de antemão a resposta, ainda assim punha-se em biquinhos de pés a espreitar pelo olho mágico, a porta abria-se logo de seguida, faça favor de entrar, Senhor Doutor, a menina Aninhas já está no quarto à sua espera. Olhava-te a Alzira demoradamente, eras nessa altura um homem bonito, elegância trabalhada, ainda a podridão da velhice não te chegara, usavas fatos de dois botões, camisas brancas feitas por medida, botões de punho, um anel brasonado no dedo mindinho. Venha que levo-o até lá, depois, se quiser, posso arranjar-lhes um lanche. Davas-lhe uma pancadinha do braço para sentires a firmeza do corpo, gozavas em silêncio o atrevimento, deixa estar Alzira, conheço bem o caminho; metias-lhe uma nota de quinhentos escudos no bolso da farda, não vale a pena preocupares-te com o lanche, almocei uma feijoada à transmontana, ainda estou a arrotar a morcela e couve lombarda, e chegavas-lhe o rosto, boca aberta, para que ela sentisse no teu hálito a verdade do que dizias. A tua mão entrava então no bolso de renda pontilhada da farda, tocava o osso ilíaco, saliência tão estranha, onde se sente a finitude do corpo, espécie de cabo, lugar sombrio onde alguma coisa termina e outra começa; esse toque, breve, fazia despertar o seu corpo adormecido, o teu também despertava que uma empregada doméstica é sempre mulher de muita serventia.

Esperava-te no quarto. Escutava os teus passos e a tua aproximação, saber-te do outro lado, fazia crescer o meu desejo. Às vezes, tão grande era, fazia tremer-me. Tens frio, Aninhas?, dizias ao entrar e sem mais começavas a despir-me. Na cozinha, a Alzira tirava a nota de quinhentos escudos do bolso, olhava com desprezo a cuba de inox, deixava os tachos e panelas para depois. Ficava à coca. Apurava os sentidos, escutava com aprumo de tísica os ruídos, os estores baixando, as cortinas corridas, a chave rodando na fechadura, uma, duas voltas, porta fechada, sossego garantido para a explicação de matemática. O meu abandono, esse meu desfalecimento de presa fácil, dava-lhe ânsias de liberdade, estava certa de que o teu método de ensino era único, talvez a bissectriz e os números primos se decorassem melhor na escuridão, talvez o cálculo algébrico se apreendesse melhor na liberdade da nudez.

A Alzira ia até ao salão, abria o bar do móvel de mogno, enchia um copinho de aguardente de pêra. Esquecia a loiça, o arrumo da cozinha, punha-se à janela a gozar a vista o rio. Escorripichava o copinho de aguardente. Volta e meia dava estalinhos para aguentar a adstringência na língua, a aspereza que lhe corria pela garganta. Saías pela tardinha, pouco antes da chegada do meu pai, tão triste que ele ficava por nunca se cruzar contigo, tanto que queria agradecer-te a disponibilidade para me preparares para os exames finais, tenho de telefonar ao César, dizia, é um amigo do peito, amigo para a vida, estima-o muito, Aninhas, que como o César há poucos, o que ele nos tem valido depois da morte da tua mãe. A Alzira levava-te à porta. Cambaleava e tinha olhos de carneiro mal morto, era da doçura invisível da aguardente, levava os botões da farda desapertados para deixar fugir certos calores. Arfava. Um dia - bebera dois copos de aguardente que lhe trouxeram coragem -, à saída, explicou-te que não queria ser empregada a vida inteira, andava a estudar à noite, gostava muito de aprender, mas tinha muita dificuldade com a matemática, o Senhor Doutor, desculpe o atrevimento, também me podia dar explicações de matemática. Disseste que sim, era só combinar. Ela agradeceu, fechou a porta. Depois, elevou o corpo para te espreitar pelo olho mágico.

2012/03/23

Setembro

2012/03/21

Aznavour



(Lisboa/Penafiel)

2012/03/20

Liberdade



(tenho a liberdade do silêncio.)

2012/03/14

Aretha


(Lisboa/Prado do Repouso)

2012/03/13

Av. do Uruguai

Atirou-se do sétimo andar de um prédio de Benfica. Era uma mulher apagada, de silêncios prolongados, com uma vida aparentemente calma. Enviuvou cedo de um funcionário das finanças e, por isso, vivia com a filha na Avenida do Uruguai. Tratava da casa, ajudava na educação dos netos, fazia as compras na praça, preparava o jantar. Sempre em silêncio. Coleccionava a teleculinária e deitava-se depois de ver a telenovela. As manhãs de domingo passava-as no cemitério, tratando da campa do marido. Levava-lhe flores frescas. Cravos aninhados em nuvens fofas de gipsófila. Lavava o verdete do mármore com um paninho embebido em vinagre. Gostava muito de frutas cristalizadas. Quando a visitávamos no apartamento da Avenida do Uruguai, a minha mãe levava-lhe um cartucho de frutas comprado numa mercearia de Moscavide. No dia em que se matou, fez canja de galinha, uma panela enorme, muito mais do que a quantidade habitual, para que fosse servida aos que viessem velá-la. E deixou os anéis e os brincos em cima da cómoda, sobre um naperão de linha fina, para que ninguém lhos tirasse. Sempre estranhei a sua morte por ser uma mulher simples, com uma vida simples, de hábitos simples. Achava, naquele tempo, que se suicidavam apenas os escritores, os pintores, as poetizas, enfim, os tolos que esperam demais da vida. O suicídio, parecia-me, exigia sensibilidade e a minha tia Lucília não a tinha.

2012/03/11

Glenn Gould



(Não percebo a ponta de um corno de música clássica, e tenho pena, mas gosto obsessivamente disto. Não há nada, nem na literatura, nem na pintura, nem no cinema, nem em porra nenhuma, nem sequer na vida, nos filhos, nos afectos, misérias e paixões, mais belo do que a fuga desta toccata.)

Vergonha



(escutei, escuta-se, o sussurrar do Glenn Gould.)

2012/03/10

Correr


(noite.)

Correr



(madrugada.)

2012/03/08

Charles Aznavour


(Lisboa/Gaia)

2012/03/07

Outubro

Morri no princípio de Outubro. Enterraram-me num cemitério com vista para a auto-estrada do sul. Passei os primeiros dias entretida, inteirando-me da minha nova condição, descobrindo como é estar morta. Escutei o restolhar das folhas dos eucaliptos e pude fazê-lo durante longos minutos, concentrando-me apenas no ruído das copas, isolando-o do resto do mundo até se tornar insuportável. Vagueei por alamedas, paralelas e perpendiculares, olhando as campas, lendo inscrições, observando a estatuária: gárgulas, anjos, cristos lacrimosos, conchas de mãos piedosas. Cheirei as flores frescas das coroas fúnebres e desfiz com as minhas mãos invisíveis corolas frágeis. No princípio da noite, quando a escuridão era ainda clara, os portões do cemitério eram sempre fechados com estrondo. As mulheres vestidas de preto voltavam para os seus apartamentos de marquises de alumínio e sentavam-se sozinhas em frente do televisor.Uma quietude insuportável abatia-se sobre o lugar e eu voltava então ao meu corpo, deitado num caixão de cetim branco. Encaixava perfeitamente nele. Uma noite, porém, senti desconforto ao voltar a mim. O corpo inchara e eu sobrava dentro dele. Aninhei-me no canto esquerdo e procurei adormecer. Um reco-reco pequeno, um barulhinho persistente, fez-me despertar. Pensei que fossem térmitas alimentando-se do pinho do caixão. Abri os olhos. Vi duas lagartas gordas, brancas, cegas, sorrindo-me. Uma das lagartas tinha boca de ventosa e mordiscava a ponta esquerda do meu coração. Enervei-me. Não vivo sem corpo. Mesmo morta, preciso dele. Não encontro conforto na imaterialidade, só compreendo o que é concreto, comum, palpável. Enxotei as lagartas que fugiram como toupeiras. Decidi partir. Tentei ressuscitar que é a única maneira que conheço de largar a morte. Não consegui. É muito difícil. É preciso ser deus, filho de deus, parente de deus, amigo de deus, para o conseguir. Na manhã seguinte, estava eu entretida a observar o namoro de dois pardais, vi chegar pela alameda os meus três filhos. Não traziam flores. Vinham com olhos líquidos de abandono. Nessa noite, deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.

2012/03/05

Fanny Ardant et moi


(este também é giro que se farta.)

2012/03/03

Aninhas e a Muralha da China

Nos dias que antecederam a sua chegada, os idólatras trataram de arranjar credenciais para o escutar. O velho apareceu no primeiro dia para ser homenageado e, no terceiro, para falar numa mesa de gente distinta. Orelhas largas, totalmente calvo, a muitos pareceu um ex-heroinómano, anos seguidos de seringa enfiada na veia e garrote no braço. Uma jovem escritora que esperava vê-lo ainda composto, com meia dúzia de cabelos brancos e barba grisalha não aparada, ao vê-lo, pálido, cadavérico, gigante encovado, soltou um grito de espanto. Logo se controlou. Escrevera um primeiro romance, sensação da temporada literária, cheio de clítoris molhados e pachachinhas satisfeitas, tivera críticas jeitosas, tornara-se numa mulher emancipada, moderna e livre, de uma vez por todas tinha de se habituar a desmerecer o invólucro, apreciar apenas o ontos intelectual. O velho, do palanque, protegido pela paliçada da primeira fila, não notou a agitação da debutante. Levantou-se e começou a falar: domínio da palavra e do silêncio.

Um editor-crítico-escritor, três em um, espécie de santíssima trindade, ao escutá-lo, sentiu uma quentura galopante, abrasão que começou nas extremidades, pés e mãos, se espalhou por todo o corpo e, numa implosão inesperada, se concentrou no astro flamejante. Felizmente era dotado de um asteróide de reduzidas dimensões; hirto, teso, oclusivo, o seu pénis não era maior do que o seu dedo indicador. Olhou em redor. Apercebeu-se da comoção da plateia, uma matrona que conhecia vagamente, escritora também, de fiadas de colares tribais ao pescoço, fêmea erudita, aborrecida, feia e feminista, estava tomada pela emoção. O editor-crítico-escritor também gostava do velho, lera-lhe a obra de fio a pavio, gozava o momento como o resto da plateia. Porém, era a lembrança de certos pretos que apareciam nas suas histórias, generosos penetradores, que lhe entumecia o mini-pénis. A lembrança atiçou-lhe o desejo, sentiu o pequeno asteróide enchendo, enchendo, quando mais lembrava os pretos, seus mangalhos e doces cus, mais o desejo se acendia, tinha agora o asteróide inundado, temeu que entupisse. Com a sua delicada mão de conimbricense – é sabido, são delicadas as mãos de todos os conimbricenses - bateu ali mesmo uma punheta. Veio-se num instante, um revirar de olhos, estremecimento breve, e já está. Deixou-se estar a ouvir o resto da peroração, de cuecas molhadas, muito aliviado. O velho, lá do palco, continuava a falar, explicava que a loucura é requisito essencial à escrita literária.

A matrona das fiadas de colares tribais ao pescoço entrou em êxtase. Fechou os olhos e concordou com um meneio da cabeça, como que a dizer é bem verdade, nós, artistas, intelectuais, somos loucos, todos loucos, ai, louquinhos da silva que a normalidade é coisa de gente menor, dessa gente que se levanta às sete horas para ir trabalhar, paga as contas da luz e da água, que vai ao supermercado ao sábado de manhã e à bola ao domingo, que tem filhos e se basta com esse amor. O velho calou-se. A ovação foi enorme, duas senhoras que estavam na segunda fila, septuagenárias, sapatos ortopédicos nos pés, com ar de quem papa hóstias ao domingo e frequenta cursos de pintura a óleo para aprender a pintar paisagens marítimas, bateram palmas tão freneticamente que ficaram de mãos ardentes. O velho agradeceu. Saiu para o átrio, mas logo o rodearam como abutres: uns queriam dar-lhe uma palavrinha, outros mostrar-se íntimos, os puros queriam apenas agradecer a crueza da escrita, os mais atrevidos pediam para tirar uma fotografia, não se importa que tire uma fotografia a seu lado? e postavam-se de sorriso no rosto; o velho disse que sim, deixou-se estar, escutou o clique e sentiu que, apesar de ainda estar vivo, tinha em si a desoladora imortalidade das pedras: tiravam-lhe fotografias como se fosse a muralha da China ou as ruínas do coliseu de Roma.

O velho saiu. Caminhou durante algum tempo junto ao mar. No hotel, pediu as chaves na recepção e subiu ao quarto. No terceiro andar, o elevador parou e entrou uma mulher bonita, sulidão por todo o lado, pele morena e quente, narinas dilatadas como que a avisar do mau génio dos trópicos, cabelo preto caído pelas costas, olhos redondos pintados com khol. Sorriu-lhe. Gosto dos seus livros, explicou e, num gesto estudado, abriu o casaco de astracã, mostrando o corpo nu: peitos cheios, bons de abocanhar, mamilos que pareciam frutos delicados, bons de se chupar, pintelhada fresca e perfumada, caracolinhos negros como tições, bons de se cheirar. O velho agradeceu o vislumbre e passou os dedos ancilosados pelo corpo da mulher. Era, apesar dos livros que escrevera, um velho distinto, educado e conservador: sabia que uma mulher que se oferece assim merece pelo menos um afago.

(Em dada altura da minha vida, como a Aninhas, li muito o Rubem Fonseca: muitos livros e de enfiada, desejei ser apenas língua e orifícios. Tanta fartura causou-me certo desarranjo intestinal; andei, durante alguns dias, doente, pele macilenta, cheia de cólicas violentas, soltando gases e peidinhos, o intestino feito num oito, ora preso, ora liberto, bipolar. Até que, por fim, tive uma enorme descarga diarreica e limpei a tripa. Jurei para nunca mais apanhar barrigadas literárias, não se deve abusar dos escritores. Tal como não se deve abusar de gulodices. Aprendi a intervalar.)

2012/02/29

Vida Selvagem


(Estou tão feliz que enjoa: assinei a tal coisa, calhando vou à terra onde nasci, a minha filha escreveu um texto maravilhoso - onde a diaba aprendeu a escrever assim, com tamanha densidade e delicadeza? - e o guru da rua de Pedrouços, entre pêndulos, quiromâncias, grânulos e afins, assegurou-me que vai matar-me a frigidez.)

2012/02/27

Apartamento

Idalina, a grande

O cemitério fica longe da aldeia. Vários ciprestes guardam os mortos e lançam sobre as campas uma caruma perfumada que as mulheres, aos domingos, se apressam a varrer com vassourinhas de estopa. Atrás do portão, dois anjos baços espreitam o céu que ameaça com nuvens pardas. Um carreiro serpenteia entre campas, mausoléus e jazigos. Idalina, agachada no chão, ajeita cravos e crisântemos entre os pés de cameleira que trouxe do quintal. Depois, com uma flanela húmida, limpa a campa do meu sogro. Trabalha lá em casa há muitos anos. Planta batatas, couves, cebolas, alfaces. Cuida dos pessegueiros, das laranjeiras, das oliveiras, da vinha, das pereiras, das macieiras, das nespereiras. Esfola coelhos e degola galinhas. Passou a vida entre França e aquela aldeia perto de Ourém. É descarada e muito feia. Em cada frase, diz uma asneira. A minha sogra queixa-se. Acha-a velhaca, preguiçosa e mentirosa. Gosto dela. É uma festa quando chega. Tem sempre coisas para contar. O marido chama-se José. É um homem de sorriso manso, ar de mosquinha morta, parece uma coisinha de nada perto dela. Pois o José, esse tal José, pai das suas quatro filhas, avô de vários netos, bisavô de uma Caroline e de um Mickael, ia-lhe dando cabo da alegria. Os estragos que um homem pode fazer na vida de uma mulher. A Idalina vive com uma irmã mais nova, deficiente e muda. A pobre passa os dias a comer caramelos e a brincar com bonecas. Volta e meia, porém, amarinham-lhe uns calores pelo corpo e esquece as bonecas. Põe-se, muito oferecida, à janela a meter-se com os homens que passam na rua. Como não fala, gesticula e afaga o baixo-ventre. Às vezes, lança uns grunhidos de foca. Há coisa de dois anos, a irmã da Idalina apareceu grávida. A princípio, quando deu pela gravidez, a Idalina desconfiou de um vizinho muito bêbado, o Goela, que, quando voltava da taberna, olhava a muda como quem olha uma presa fácil. Lá estava ela, gorda, quase imóvel, silenciosa, mascando ursinhos de goma, adormecendo as bonecas na aduela da porta. Umas vezes, oferecendo-se; outras, não. O José, sempre rindo, confiando na imbecilidade da cunhada, não dava opinião sobre tão delicado assunto. Ia levando a vida como podia. Até que a muda, certo dia, fartou-se de atribuírem injustamente a paternidade ao Goela, tão feio e malcheiroso. Apontando para o bucho cheio, prestes a rebentar, terá grunhido, com a sua boca cheia de dentes podres, o nome do cunhado.

Quando a Idalina descobriu o feito do marido - já andava desconfiava dos sorrisos nervosos do parvalhão - deu-lhe uma tareia que se ouviu na aldeia inteira. Ameaçou capá-lo com uma tesoura de poda. Uivou o desgraçado. Quanto mais ele gritava, pedindo-lhe desculpa, culpando o vinho, mais vontade ela tinha de o matar. Deixou-o roxinho de dor, o corpo marcado, uma vértebra fissurada, várias peladas no couro cabeludo, os testículos muito encolhidos, prometendo para sempre recato e recolhimento. Depois, esteve trinta dias fechada em casa, mal comia, não se lavava, não via televisão, nem as telenovelas a animavam, passava os dias enfiada na cama, cozendo a dor e pensando na vida. Definhou. Dava-se conta da gravidade dos factos, da humilhação, sabia que a honra, se a tinha, lhe exigia mudança. Uma mulher passa a vida ao lado de um homem, aguenta tudo, acostuma-se ao seu cheiro, aos tabefes, aos encontrões, às suas rotinas, ao vazio que sempre deixa na cama, à arrogância do género, mas há coisas que uma mulher não pode perdoar. Durante esse tempo de recolhimento pensou em separar-se do marido; ninguém na aldeia a recriminaria por tal decisão. Tinha motivos de sobra. A mudança, porém, essa mudança que se impunha como única saída possível, exigia-lhe em demasia: assumir a pequeneza do marido, confessar a sua vergonha e fragilidade, sobretudo, tornar verdadeira uma história que, por ora, não passava de uma suposição. Idalina tomou a decisão mais difícil. Ao trigésimo primeiro dia, saiu da cama, lavou-se, vestiu-se, entrou no café da aldeia, pediu um galão escuro e um papo-seco com manteiga e chouriço. Comeu, com ávido apetite, para matar a fome de muitos dias. Sentiu nela os olhos das mulheres e dos homens da aldeia. Todos esperavam o anúncio da mudança. Idalina comeu em silêncio, deu um arroto pequenino para aliviar da gordura do conduto, depois explicou que ia para casa preparar o almoço do seu José. Acompanhou a gravidez da irmã. Tratou da criança que nasceu perfeitinha e muito bonita. Recambiou o marido para França durante alguns meses para deixar assentar a vergonha e o falatório. Agora, anda com a menina para todo o lado, mostrando, com orgulho, a sua beleza. Olha o mundo de frente. Nunca se arrependeu de não ter mudado a sua vida, largando o marido, abandonando o previsível conforto da vida conjugal. Quem trataria do pobre coitado? Ai de quem ouse fazer um comentário mais acintoso ou tratá-la como uma desgraçada. Toda a gente teme que ela faça o que fez ao marido e, por fim, dê uso à tesoura de poda. Idalina, a grande.

2012/02/26

Inverno



(Trancão/Santa Apolónia. Duas horas, vinte quilómetros.)

2012/02/23

Homem



(quem não ama o José Afonso não vale um caralho.)

2012/02/19

D. Ligeirinha



(O Jocas gosta do careto e das ovelhas e diz que cheiro à lua; meu rico menino.)

2012/02/18

Barão Trepador

Desato-lhe os cordões das botas. Tiro-lhe as meias. Estão transpiradas. Pego-lhe nos pés. São já do tamanho dos meus. Cheiro-lhos. Como se ele fosse um cristo ignoto e eu uma virgem mãe. Beijo-lhe o sinal que tem no dedo mais pequenino do pé esquerdo. Digo Gosto tanto do cheiro dos teus pés. Ele não responde. Limita-se a sorrir, mostrando os dentes novos, definitivos, enormes, que lhe estão a crescer na boca. PerguntoAchas que sou maluquinha por gostar do cheiro dos teus pés? Ele volta a sorrir. Atira-se para trás. Suspira. Depois responde. Um pouco. Acho que és uma mãe um pouco louca. São estas as exactas palavras que lhe saem da boca. Volto a pegar-lhe nos pés. Esfrego-os no meu rosto. Às vezes, muitas vezes, tenho a sensação de o sufocar com os meus gestos. Não sou capaz de não lhe tocar. Tantas vezes que desejo ter um ventre enorme elástico onde ele novamente se aninhe e sossegue. Tenho por ele, mais do que por ela, um amor táctil, quase obsceno. Chegará um dia em que ele não me deixará cheirar-lhe os pés, nem me contará os sonhos, nem me pedirá ajuda para colar cromos na caderneta. Estranhará a minha nudez, esconder-me-á a sua. Abrirá assim fissuras irreparáveis na nossa intimidade. Deixarei de me reconhecer no seu corpo, nos olhos, na boca, nas mãos, na sua pele de maltês e andarilho, escura como a de um cigano. O seu corpo deixará de ser o meu corpo.
Junho/2007

(passou a esconder-me a sua nudez; faço questão de continuar a mostrar-lhe a minha.)

2012/02/17

Cortinas


(Lisboa/Tavira)

2012/02/16

Petromax

A avó morreu e a minha mãe começou a trabalhar em casa. É um trabalho duro. Chegam uns homens que se fecham com ela no quarto. Na primeira noite, tive medo que eles ma levassem. Ela sossegou-me. Explicou que tinha de ficar deitada na cama e adormecer. Quando amanhecesse voltaríamos a ser só nós duas. Mas eu ouvi risos no quarto da minha mãe e pareceu-me que a raiva lhe morria na garganta. Na segunda noite, não sei que me deu, entrei no quarto e vi-a deitada na cama com um homem. Despi-me e deitei-me entre eles. Agarrei-me ao corpo nu da minha mãe e chorei um rio de muitas lágrimas silenciosas.Tira-me esta gaja daqui!, gritou o homem à minha mãe. Na terceira noite, ela acendeu um petromax e levou-me para o barracão onde a avó costumava guardar as batatas e as cebolas. Pediu-me para ali ficar. Mal ela rodou a chave da porta dei um pontapé no candeeiro que se apagou. Na escuridão, arranquei todas as palavras que costumam estar presas dentro de mim. Fugiram-me da boca. Eram morcegos loucos. Voavam em espirais, batiam no tecto, chiavam, faziam ricochete e enterravam-se no meu corpo como facas afiadas, pedras, como balas.

Na quarta noite, veio outro homem. Era careca e não tinha pestanas. Usava uma cruz ao peito. Foi nessa noite, na noite do homem sem pestanas, que a minha mãe me levou, pela primeira vez, para a capoeira. Tinha nascido uma ninhada à galinha pedrês e entretive-me a brincar com os pintos. Não gritei e a minha mãe pôde trabalhar em sossego. A partir daí, sempre que ela tem trabalho ou precisa de ir a algum lado, fico na capoeira. Passo lá muito tempo. Pela rede entram lagartas das couves, caracóis, grilos e escaravelhos. Sentada na serapilheira, com a Branquinha ao meu colo, consigo observar tudo. Vejo as sombras do dia e da noite. Conheço as árvores do quintal e os gatos que por cá aparecem. São cinco: dois malhados, um branco, um amarelo e um preto. Passo muito tempo a olhar as nuvens e as estrelas. Os pássaros voam em bandos ruidosos e desenham figuras no céu. Gosto de ver as nascer as folhas do castanheiro-da-índia. Não há cor mais bonita do que o verde das primeiras folhas. É o verde das coisas que são novas, tenras, das coisas que não eram e passam a ser. Consigo distinguir o cheiro da flor de laranjeira do da flor do limoeiro. No quintal, sentada na capoeira, vejo o que mais ninguém vê: os gritos que se soltam do poço e a avó que desce a ladeira com a sachola ao ombro. Na capoeira não há quem me estranhe e ninguém me limpa o rosto com toalhetes perfumados.

2012/02/15

Arcade Fire

2012/02/14

Pequeno-almoço

O mundo também se divide entre pessoas que pedem torradas aparadas e pessoas que pedem simplesmente torradas.

Rotina

2012/02/10

Aninhas e o verde cinábrio

Acordava durante a noite para comer, levantava-se da cama como um fantasma, atravessava o corredor, chegada à cozinha, metia à boca o sabor mais excessivo que encontrasse: oreos, picles de beterraba, azeitonas, às vezes, quando não era o excesso que procurava, abria a cartolina do cerelac e enfiava uma ou duas colheres de farinha na boca, ficava a pasta a amaciar durante algum tempo até se tornar num betume ligeiro que rapidamente engolia, voltava à cama e, assim, reconfortada, adormecia imediatamente. Sabia haver uma explicação de cariz sexual para os seus hábitos, mas não se dava ao trabalho de a procurar. Para além das insónias, tinha terrores nocturnos, pesadelos que vinham em catadupa, ficavam a noite toda, imagens muito nítidas que o dia nunca apagava, cores sombrias, verdes cinábrios e azuis cerúleos.

2012/02/09

Gado


(Lisboa/Mealhada)

2012/02/08

Alentejo


(Lisboa/Moura)

Chispe

Vou ao supermercado com os meus filhos. O mais velho desliza pelos corredores com as mãos enfiadas nos bolsos e as calças descaídas. A do meio saltita como se fosse uma libelinha, uma borboletinha, um bichinho delicado e frágil. O mais novo entretém-se a chupar os dedos, enterrado no carrinho que parece um trono. As pessoas que connosco se cruzam lançam sorrisos cheios de enlevo, como se, dessa forma, quisessem partilhar a nossa felicidade. A imagem de uma mãe com os seus filhos é sempre agradável, conforta-nos do vazio da vida, trata todas as maleitas do mundo, ameniza as quezílias do dia-a-dia. Há quem se meta com o bebé que, encantador, retribui com um sorriso baboso. Rejubilo com as minhas crias que me dão corpo e me tornam especial no corredor dos enlatados, na fila da peixaria, no açougue asséptico onde escolho embalagens de peru, galinha, coelho e, num devaneio incontrolável, um pedaço de chispe para fazer cachupa. Na caixa registadora, depois das pastilhas, chocolates e sacos de gomas, enquanto limpo o nariz da minha filha, topo com um escaparate cheiinho de revistas femininas, dessas revistas que toda a vida fiz questão de desprezar. Uma das revistas prende a minha atenção. Na capa, ao lado da imagem de uma miúda desgrenhada, magra e feia, oferecem-nos o kamasutra do sexo oral. O assunto interessa-me. Fosse eu uma mulher da má vida e seria conhecida, nos bordéis e lupanares desta cidade, pela exímia competência da minha boca. Faço deslizar a revista para o carrinho das compras e sorrio à menina da caixa, uma mulata bexigosa, que elogia os olhos dos meus filhos.

Janeiro/2009

2012/02/07

1970

Goa

Em Goa, soube hoje pela minha mãe, é tempo das ladainhas.

Centopeia

Esvai-se o metro no cruzamento da linha amarela com a linha vermelha. Na plataforma, forma-se uma multidão compacta, um só corpo, lagarta comprida, andam os passageiros devagar, aproveitando o aconchego da proximidade para espreitar os outros: aquela rapariga tem um lacrau tatuado por baixo da orelha, o homem pequeno traz hoje um olhar magoado, a mulher gorda cheira a lixívia, a creolina, a ajax oxi plus. Sigo na multidão. Vou doente, quase morta, trago vasos inflamados, tenho tonturas, dores de cabeça, está o meu universo interior coberto de espinhos, zangado; sinto, e isso é pior do que as universais quezílias, um pingo de muco a querer fugir da narina direita, não trago lenços de papel, já os procurei e não os encontro, se me cai o pingo, se se solta a gota, vou ter de levar a mão disfarçadamente à narina para compor a coisa, levá-la hirta até encontrar onde a limpar; dói-me a cabeça; podendo, dormia. Subo as escadas com pressa de chegar à superfície, mordo os calcanhares do homem da frente, que leva um livro forrado com uma folha branca; vira-se o homem para trás e olha-me, indignado, como que a dizer, a senhora tenha cuidado, há regras e preceitos para que a centopeia se movimente; quero pedir-lhe desculpe, explicar-lhe que respeito muito o compasso da centopeia, a última coisa que quero é atrasar-lhe o passo, tanto apreço que tenho pelos quilópedes em geral, peçonhentos, primitivos, mas com graça no andar, também eu preciso de chegar à superfície para respirar, mas, perceba o senhor, venho doente, tomei os medicamentos dos meus filhos a ver se arrebitava, todos os que encontrei lá por casa, de uma só vez, brufen, maxilase, aerius, benuron, zyrtec; o dobro da dose que lhes uso a dar, costuma resultar, mas, desta vez, sinto só uma espécie de tontura infernal que me põe trôpega, a culpa, está bem de ver, é dos miúdos que não tomam os medicamentos certos para a cura dos meus males. Continuamos a subir e esforço-me por ir devagar, sem precipitações ou atropelos. Volto, porém, a pisar o homem da frente, desta vez com mais força, fica descalço no meio das escadas; pára a centopeia, por minha culpa. Tarda em chegar à luz.

2012/02/03

Frio

Manatim

Estava ao balcão da cafetaria, a comer qualquer coisa, quando me lembrei da Rafaela, colega de outros tempos, paquidérmica, colossal e mastodôntica, quando a conheci andava de pernas e braços muito abertos, membros como barbatanas, fazia lembrar uma morsa, uma baleia, uma manatim do amazonas, enfim, era um ser imenso e aquático, andava de boca sempre aberta porque lhe custava muito a respirar; em dada altura, anunciou que ia colocar uma banda gástrica, questão de vida ou morte, toda a gente do sexto piso o soube, um alarido, passava horas ao telefone a falar com as amigas, a explicar todos os pormenores da intervenção que lhe estreitaria o estômago, horas e horas naquilo, não sei como era capaz, custa-me tanto falar. Finalmente chegou o dia, meteu baixa, enfiaram-lhe a anilha no bucho, acabando a baixa voltou, queixosa, dorida, com uma catrefada de comprimidos para tomar.

Meia dúzia de dias depois, começou a encolher, a mirrar, parecia milagre, feitiço, bruxedo antigo, mas dos bons, emagreceu, emagreceu, perdia peso às golfadas. Alta, meia mulata, sem as banhas do costume, tornou-se numa morena vistosa, assim que chegou ao ponto tratou de cumprir o seu destino: arranjou um amante. Era um homem mais velho, controlador de tráfego aéreo aposentado, que a esperava, pelo menos duas vezes por semana, à porta do serviço, na companhia de um cão fuçanhudo, cheio de baba. Mulher pouco silenciosa, tudo nela chocalhava e badalava, assim que o aposentado lhe ligava, dizia vou comer qualquer coisa à cafetaria, levantava-se e soltava uma risada maliciosa. O sexto piso punha-se à janela a espreitar aquela indecência, quem a viu e quem a vê, ainda há meia dúzia de meses era uma desgraçada, gorda, feia, um manatim do amazonas, agora, meio postiça, é certo, mas bem boa, com amante posto na Elias Garcia e tudo.

O marido da Rafaela também trabalhava no sexto piso, funcionário zeloso, obediente, coleccionador compulsivo. Soube da traição e calou, nunca ninguém lhe ouviu um queixume, um reparo, nada, nadinha, enfim, uma jóia de homem, homens assim, mansos e resignados, são muito difíceis de encontrar. Pouco depois, a Rafaela pediu o divórcio: ficou com a carrinha e um apartamento, o marido ficou com o filho e as colecções de bules e isqueiros. Um ano mais tarde, mudou de direcção e abateu-se um silêncio muito triste no sexto piso. A última vez que a vi foi precisamente ali, ao balcão da cafetaria, vinha na companhia do controlador de tráfego aéreo aposentado, fez-me uma festa, gabei-lhe o tom das unhas, explicou-me que era um dos violetas hipnóticos da dior, o orchid, mais luminoso, irisado; despedimo-nos com dois beijinhos. Invejei-lhe tanta coisa. À saída o cão fuçanhudo, esperava o dono, olhando a montra de húngaros, bolachas francesas, carpinetes de amêndoa e raivas de fruta.

(devia escrever; ao invés, vou dançar e beber.)

2012/02/02

Criola


(O guru da Rua de Pedrouços mandou-me dançar.)

Laidinha

Chamava-se Maria Adelaide. Fora sempre uma criança enfezada. Nascera com uma fenda leporina no maxilar superior. A mãe, uma doméstica muito crente, casada com um construtor civil de Fátima, chorou-lhe o nascimento como se do ventre lhe tivesse escorrido o ser mais infame à face da Terra. Aos dois anos foi operada para fechar a fissura que causava tanto embaraço nos passeios domingueiros. Ficou-lhe uma cicatriz grossa e vermelha, aos gomos, que parecia ter sido suturada por uma costureira inexperiente, com fio de estopa, a sangue frio, sem cuidado ou gentileza. Feiinha, de uma feiura quase comovente por causa da cicatriz que lhe ficara no rosto, sentia-se sempre posta de lado nas festas familiares. A mãe bem podia enfeitá-la de laçarotes e vesti-la de folhos que as primas Arlete e Gorete, as gémeas que viviam na Bobadela, robustas e sadias, sempre lhe mostravam que a beleza era requisito imprescindível para uma mulher ser feliz. Faziam questão de lhe mexer na cicatriz porque, como explicavam, parecia um bichinho de seda morto. Chegavam tios e tias, primos e primas para a celebração dos domingos pascais e para a ceia de natal. A vivenda que o pai mandara construir em Sacavém, mesmo à beira da estrada nacional, revestida de azulejos cor de caramelo, rebentava nesses dias de festa. Os homens sentavam-se nas poltronas de cabedal do salão a mastigar rodelas de chouriço assado e quadrados de queijo flamengo. As mulheres enfiavam-se na cozinha a admirar os novos conjuntos de taparuéres que a mãe adquiria compulsivamente. As crianças corriam para o quarto de Maria Adelaide onde havia uma estante só para as bonecas compradas em Badajoz. Em cima da colcha de renda branca, de pernas abertas, muito esticadas, uma sevilhana vestida de folhos vermelhos, travessa e mantilha, olhava-se, altiva, no espelho oval do pechiché. Maria Adelaide seguia o bando e metia a sevilhana a salvo, em cima do roupeiro, não fosse algum dos primos parti-la e a mãe apanhar um desgosto profundo. Um dia descobriram que Laidinha, era assim que a família a tratava, gostava do primo Renato, rapaz de uma beleza óbvia e ordinária. As primas fizeram uma algazarra. Correram a contar-lhe. O primo olhou-a de cima a baixo e deu uma gargalhada escarninha que ficou, para sempre, presa nas paredes do quarto. Foi a primeira vez que Maria Adelaide sentiu que Deus a gozava. Não voltou a brincar com os primos nas festas de família. Ficava sentada no salão, entre os homens, mordiscando azeitonas.

2012/02/01

Estrela


(Lisboa/Figueira da Foz)