Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/09/08
2012/09/05
Pai
Estou tão feliz por regressar. Gostava de ir e nunca mais voltar. Ficar para sempre com o meu pai. Eu e ele. Mais ninguém. Há quem ache que o meu pai não merece o amor ancilar que lhe tenho. É sinal de fraqueza, pueril ingenuidade, a fonte de todos os meus problemas, inércia, frigidez, tristeza. É o que dizem os entendidos e há tantos entendidos na vida. Amar os santos é fácil e aborrecido; difícil é amar os ímpios, os impuros, os biliosos. Não sei viver de outra maneira. É para o meu pai que vivo, por ele que espero.
Noite
Não
sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram
sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma
cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a
beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava
estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que
a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e
eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da
estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas
de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo,
chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os
deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas
frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços
do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades
do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na
sua penumbra só eu existia.
(Setembro/2007)
Menina-Balão
Na
Índia, ao contrário de cá, os jornais não trazem mensagens eróticas. Shiva,
sempre entretido em cabriolices eróticas com as suas consortes, de lingam
erecto, não o permite. Em contrapartida, há em cada jornal uma longa secção de matrimonial. Trata-se, como o nome indica, de uma secção de
anúncios de quem procura parceiro para casar. As mensagens são de uma
especificidade impressionante. Nunca tinha visto nada igual. As brides e os grooms descrevem-se com rigor e exactidão. Num
quadradinho de papel condensam a informação necessária para despertar o
interesse de um potencial parceiro: idade, casta, religião, habilitações
-desengane-se quem pensa que na Índia são todos uns desgraçadinhos analfabetos,
na maior parte dos casos, principalmente nas cidades, o que está em causa é
saber se se tem uma especialização ou um doutoramento -, região, profissão,
salário e, claro, o tom da pele. Fiquei viciada na leitura daquela secção dos
jornais indianos. Por isso, quando a tarde caía sobre a casa de Maina e os
esquilos se escondiam nos ramos da mangueira, eu arrastava a cadeira de baloiço
para a varanda e entretinha-me a ler os anúncios dos casamentos, tentando
encontrar naquelas listas infindáveis correspondências que assegurassem aos
noivos um casamento feliz para a vida. Um dia, a Ria, a menina-balão, veio
sentar-se perto de mim. Espreitou o jornal e chamou, com a sua voz de trovão,
as outras crianças da casa que, entretidas a chupar limas, correram para perto
de nós. “Ana
Clara is reading the matrimonial! She is looking for an indian groom!”. Ri-me
do descaramento da menina-balão e belisquei-a. Depois, passámos o resto da
tarde à procura de um noivo indiano para mim.
(Maio/2007)
Lição em Pondá
Despimo-nos.
Eu, a sobrinha europeia. Ela, a tia goesa, a menina que o meu pai carregava por
caminhos sinuosos de chuva e lama até à escola. A nudez traz-nos a proximidade
que tardava em chegar. Assim despedidas, a tia Amália começa a lição. Primeiro
o saiote, bem apertado ligeiramente por cima da anca. O umbigo deve deixar-se
sempre destapado. É por aí que o corpo respira, explica. Se se cobrir o umbigo
o corpo sufoca. Depois a blusa que deve ser justa e tapar apenas o peito. Por
fim, o rectângulo que envolve o corpo como se fosse um casulo. Há quatro passos
essenciais que não se podem esquecer. O mais difícil é preguear decentemente a
parte de baixo. É preciso ter mãos habilidosas para o fazer. À medida que a tia
Amália fala, executa os gestos, enrolando-se na perfeição no tecido. Eu tento
imitá-la.
Sentada na cama,
Jessica come umas uvas pretas, muito doces e sem grainhas. Para me
tranquilizar, diz que, em vez do sari, poderei sempre usar um churidar.
Sorrio-lhe. Não gosto nada de churidares. A única peça que gosto no churidar é
a dupata. Continuamos a lição. Por fim, com a ajuda de duas mulheres, consigo
vestir o sari. A minha tia apanha-me o cabelo. Manda-me andar. Olho-a. “You can’t walk in a sari like
you walk in your jeans. You have to
walk with grace, Ana Clara!.” Ando. Ela abana a cabeça. Diz que temos de
treinar o andar-de-sari. Reconheço-me nela. E, outra vez, vejo as mãos do meu
pai no seu corpo. Ela faz-me uma festa no rosto. Gosto da festa que ela me faz,
que é morna, como uma manhã de maio. Diz que pareço uma parsee por causa da
claridade da minha pele. Que estranho, penso, sou uma europeia escura e uma indiana
clara. Jessica, escura e gorda, continua a comer bagos de uva e ri-se.
(Março/2007)
Curtorim
Sento-me
no adro da igreja, que fica junto a uma lagoa cheia de nenúfares brancos.
Entardece. Na escadaria, três homens falam um português correcto e antigo, um
português sossegado, que não tem pressa de chegar a parte alguma, um português
doce e calmo. É a primeira vez que aqui, em Goa, escuto português falado
espontaneamente. Entardace. Lá dentro, o meu pai fala com o padre vigário, que
usou uma batina branca e umas sandálias nos pés durante a missa. Os três homens
continuam a conversar. Escuto-lhes as palavras. Percebo que falam sobre mim. Um
deles aproxima-se e, em inglês, com uma delicadeza a que não estou habituada,
pergunta-me se não sou familiar de um tal Alvito de Souza. Respondo-lhe em
português que não, que não conheço nenhum Alvito de Souza, que sou neta da
família Rebelo de Maina, a aldeia mesmo ali ao lado. O homem sorri e leva-me
para junto dos outros homens. Explicam-me que conhecem bem a minha família.
Apresentam-se: Rafael Viegas, Dr. Cunha Menezes e José Mascarenhas. Entardece.
A conversa escorre entre nós como se nos fossemos velhos conhecidos. Os goeses
têm uma identidade própria, são a simbiose perfeita entre o oriente e o
ocidente. Mas têm a fragilidade das porcelanas antigas que guardam dentro dos
louceiros de outros tempos. São como a fímbria do mar. Entardece. Lá dentro o
meu pai continua a sua conversa com o padre vigário. Não fala em português, mas
em concanim, língua labiríntica, e inglês, esse linguajar bárbaro e deslavado
que tomou conta destas paragens.
(Janeiro/2007)
Goa
A
tia Maria gostava tanto, tanto do Salazar que lhe chamavam " A favorita de
Salazar"; o meu pai foi deserdado por ter feito um filho a uma preta; o
meu tio Rosário gastava o dinheiro da família porque um Cristo falante lho
dizia para o fazer; o tio Inácio, o irmão mais novo da família esteve quase a
ser castrado, como era costume nas famílias bramanes, para assegurar a sua ida
para o seminário;em Rachol, os anjos do altar têm cabelos negros e há um poço,
fundo e imenso, habitado por morcegos; a terra é vermelha como o sangue; em
Chandor, a sua dama, D. Aida Menezes de Bragança, vive num palácio habitado
pelos fantasmas de outros tempos e, pelas janelas de carepa, espreita o adro da
igreja; em cada casa há um oratório, um presépio e uma estrela iluminada; os
arrozais são de um verde intenso e os palmares estendem-se, infindáveis, junto
às praias; a tia Amália ensinou-me a usar o sari e nunca me senti tão bonita na
vida; em Goa estou em casa.
(Janeiro/2007)
2012/09/04
2012/08/29
Dor
Diz-se que o tempo tudo cura, mas o
silêncio é de melhor serventia, tudo apaga, não se falando das coisas é como se
elas não existissem. Aconteceu o mesmo a Odete. Foram-se as agonias, o
mal-estar inicial, calou frustrações, chegou o filho, sumiu-se de vez o
sofrimento. A maternidade, para além da perpetuação da espécie, serve muitas
vezes para secundarizar uma mulher. Foi nessa instrumentalização que o destino
de Odete se cumpriu. Passados tantos anos, tantos domingos, uma vida inteira,
ficou lá dentro uma coisinha, uma dor a saracotear no fundo do peito, uma
dorzita que é quase nada, Odete já não dá por ela, fracota, extingue-a
diariamente com uma alegria breve, uma gargalhada solta em frente da televisão,
dois dedos de conversa com a Nanda, a satisfação de um casaco comprado nos
saldos, custava sessenta e cinco euros e comprei-o a trinta, rica pechincha.
Fica o casaco durante o inverno dentro do armário porque ganha borboto com
muita facilidade, a fazenda é ordinária e a cor demasiado viva, inadequada à idade
que tem, mas a alegria breve, essa que cala a dor, já ninguém a leva.
2012/08/28
Aznavour
(Três da manhã, o Joquinhas às voltas na cama, sonha com piscinas e bisnagas de água, os outros a monte, gozando o declínio das férias, eu a ler o manual de patologia médica que trouxe do Alentejo, as notas a esferográfica da minha mãe, desenhos de cisnes e tulipas, o cheiro a mofo das páginas amarelecidas. Trouxe também um livro de 1960 sobre desejo e perversão sexual, magnífico achado de verão; mas esse desconfio ser pertença da tia Dé.)
2012/08/25
Quelimane
Todas as famílias
têm segredos. A minha é pródiga em histórias, incertezas, meias
verdades, omissões, em calar a dor. Olho para os meus irmãos. Não vivo longe
deles, sem as vozes dos filhos deles chamando-me tia. Um dia partiremos para
Quelimane. Lá encontraremos o homem que engoliu o mar e, na sombra de uma
árvore frondosa, enroscada numa capulana garrida, a menina que escutava canções
do Roberto Carlos.
2012/08/02
Billie Jean (2)
(Mas antes deixo o original, melhor. Esta canção liga que é uma maravilha com S. Bartolomeu da Serra, o cheiro a porcos no crepúsculo, o moinho que foi do tio Manuel visto do quintal, os pessegueiros enxertados que davam frutos grená e que já só existem na minha memória, as sopas de tomate feitas pela prima Filomena que custou a engravidar, tanto que chorou por não cumprir o seu destino de fêmea, o mar frio e revolto de São Torpes, os meus mortos e os meus vivos, que se fodam os que não são meus, só tenho amor aos meus, o café da associação de moradores onde uma brasileira de sobrolhos impecavelmente arranjados, a Denise, tira cafés amargos e suscita a lascívia dos homens que sossegam o cansaço do trabalho do campo, a minha filha namoricando o Artur, miúdo loiraço, com muito pêlo nas ventas, o mais pequeno correndo atrás dos gatos, o mais velho encostado ao meu corpo, amparo da minha solidão. )
Billie Jean
(Depois da santíssima trindade, Sérgio Godinho, Fausto e Chico Buarque, este é o homem mais bonito à face da terra. Nunca vi um nariz tão bonito. É lindo. E como é possível não se gostar do Michael Jackson? É preciso ter o cu muito dorido de enrabadelas intelectuais para não gostar do que é simplesmente perfeito. E, agora, vou de férias, que bem as mereço.)
2012/07/21
Les neiges du Kilimandjaro
(Fui à primeira sessão. Na sala, eu e uma velha de vestido roxo que me contou que, quando era da minha idade, fez um cruzeiro no Volga. Fartei-me de chorar. Tão bonito, o filme. Vou obrigar o meu pai, a minha mãe, a tia Dé e os miúdos mais velhos a irem vê-lo.)
2012/07/13
Alentejo
(Estou completamente viciada no Roque Popular, sobretudo, na Luzia, tão linda esta canção, hei-de tê-la ouvido mais cem vezes, hoje. E, em Agosto, falta pouco, volto à minha aldeia alentejana, que tem festa com frangos assados, baile, festeiros e festeiras, a Marisa cabeleireira, tão jeitosinha, e a Luísa nojenta, de tacões de madeira e blusas transparentes, puta da Luísa - gorda e loira, tinha de ser loira, deslavada, imbecil, as loiras são quase sempre assim, convencem-se de que a palidez lhes mascara a primitiva insignificância - roubou o namorado à minha prima Filomena, a maior suinicultora do litoral alentejano; em Agosto, a festa em S. Bartolomeu da Serra tem leilões de garrafas de vinho do porto e leitões, uma mulher de olhar permanentemente espantado, contam que foi resquício de mal de amor, também lá está a prima Laura, sentada a uma mesa de fórmica, umas vezes triste, outras alegre, nunca se sabe como está, é como calha, que a bipolaridade não é doença só de gente de inteligência superior, também marca os outros. Eu, entre eles que me recebem sempre com distância, danço com este e com aquele, os meus filhos correndo no adro da estação, descansando por fim em colos negros, alapando na Virtuosa e na Preciosa. Os meus avós, José e Felicidade, largam a cova nessa noite para ver os bisnetos. Sou menos infeliz em Agosto porque os sinto. Quis-lhes tanto. Quero que os meus filhos amem os meus pais exactamente como eu os amei. Como se pode gostar da merda do Algarve, havendo o Alentejo?)
2012/07/09
La Llorona
(Quando os miúdos me mimam, és a melhor mãe do mundo, dizem, dou-lhes para trás. Explico-lhe que a melhor mãe do mundo tive-a eu. Não há, nunca haverá outra igual. Cantava esta canção e eu, pequenina, ficava presa às palavras que lhe saíam da boca. Faz hoje 72 anos. Parabéns, meu primeiro amor, minha menina velha.)
2012/07/05
Mulher-árvore (4)
Sucede que a semente
era embrião de uma árvore de grande porte, mastodôntica, cruzamento de sequóias
e embondeiros, viera trazida num cargueiro senegalês que aportara em Lisboa num
dia de vendaval; uma rajada mais forte, aparentada dos alísios tropicais,
fizera-a voar para terra. A árvore cresceu, cresceu, cresceu, fez-se de copa
ramalhuda, folhagem densa e luminosa, a mulher andava na rua e toda a gente lhe
gabava o ornamento. Por altura do Natal, porém, começou a sentir desconforto, custava-lhe
aguentar o peso da árvore. Tinha de a tirar. Fazia-o com pena. Gostava de
acordar de manhã e sentir a líquida condutância do seu corpo arbóreo. Por causa
da fotossintética mentolada melhorara substancialmente dos seus problemas
respiratórios, deixara de usar o brisomax e o pulmicort. Na rua, muitas vezes,
vinham bandos de pardais atrás de si, atraídos pelos frutos roxos que nasciam
aos cachos, ficavam os passarinhos a aguar com vontade de bicar os abrunhos; às
vezes, se tinha tempo, a mulher parava, deixava-se estar perfeitamente imóvel e
punha-se a observar a aproximação dos pássaros. Repiu, piu, piu, faziam os
pardais, deliciados com a polpa sumarenta e doce, estremeciam de satisfação, as
bárbulas perdiam o tom pardacento, refulgiam em cores estranhas: ametista, magenta
e aspargo. A mulher das narinas grandes não era, por isso, capaz de simplesmente
a arrancar. Matar a árvore estava fora de questão.
Procurou ajuda junto
de uma amiga jardineira, muito boa pessoa, que trabalhava na Câmara Municipal de
Loures. A amiga logo reconheceu as suas limitações, estava habituada à
manutenção das espécies comuns, não era especialista no transplante, tentara trazer
quatro oliveiras centenárias – corriam risco de se perderem por causa da
construção de uma nova estrada camarária - para o largo do tribunal, cumprira
meticulosamente as etapas do transplante de árvores de porte médio, mesmo assim
perdera duas, definharam lentamente até se tornarem troncos estrangulados. Aquela
árvore exigia a intervenção de um sábio. Por sorte, explicou a jardineira, o
maior sábio botânico europeu vivia em Portugal, chamava-se José Theophrastus e
vivia em Paço de Arcos, numa vivenda recamada de azulejos cor de caramelo,
junto à marginal.
2012/07/02
Mulher-árvore (3)
Durante algum tempo, sempre que a
mulher se sentia tentada a guardar qualquer coisa dentro das narinas, lembrava as
duas rãs que lá tivera hospedadas. Um dia, porém, enquanto passeava no porto,
entre contentores e cargueiros encontrou, junto a um caixote de lixo, uma
semente. Muito pequenina, com a forma de um feijão, tão bonita e estranha. A
mulher quis guardá-la para a mostrar ao filho mais pequeno, que todos os dias
chegava da escola com flores, folhas, pedras e paus para lhe oferecer, mas,
nesse dia, por sorte ou azar, usava um vestido largo sem algibeiras. Levou a
semente ao nariz. Sentiu um cheiro mentolado, cheiro de hortelã, poejo,
lúcia-lima e erva-cidreira. O cheiro intenso pareceu-lhe muito adequado ao
desentupimento das fossas nasais. É que, apesar de não ter diagnóstico
definitivo, tanto podia ser rinite alérgica ou bronquite asmática, a mulher
vivia numa permanente aflição, falta de ar, chiadeira e piadeira, sempre
pingando um ranho aguado, nariz permanentemente trancado. Talvez o cheiro
mentolado da semente ajudasse no tratamento da sua maleita. Enfiou-a no nariz e
sentiu alívio imediato como se tivesse posto vinte gotas de cloridrato de
nafazolina em cada narina. Nessa noite deitou-se e, ao contrário do habitual,
dormiu um sono seguido. Sem sornadura. Foi assim durante duas semanas. Até que,
numa manhã de Setembro, o inesperado aconteceu. Estava o filho mais pequeno,
rapazinho chamado Quinzolas, cheio de caracóis dourados, tão bonito que mais
parecia um anjinho barroco, sentado à mesa da cozinha a tomar o pequeno-almoço.
Bebia o leite com cola-cao por uma palhinha encarnada antes de ir para a
escola. A mulher das narinas grandes entrou, queixando-se das sandálias
novas que lhe apertavam muito os joanetes. Mal a viu, o menino engasgou-se,
esguichou leite achocolatado pelo nariz e deu um grito, apontando para o rosto
da mãe.
A mulher correu ao espelho da
casa de banho, assustada, talvez lhe tivesse nascido uma verruga com pêlos no
queixo ou talvez o cabelo tivesse embranquecido de um dia para o outro, já
ouvira falar de casos semelhantes. Sossegou mal se viu ao espelho: um pequeno
ramo, ligeiramente retorcido espreitava na sua narina esquerda; na ponta,
nascera uma folhinha encerada, a fazer lembrar as das japoneiras, assim de um
verde muito vivo e luminoso. O ambiente acolhedor, tal como fizera eclodir os
ovinhos das rãs guineenses, fizera germinar a semente mentolada. Nascera-lhe
uma árvore no nariz. A mulher ainda pensou em arrancá-la com uma pinça tal
como fazia aos dois pêlos que lhe nasciam no queixo por cima de uma cicatriz
antiga. Porém, ao segundo relance, resolveu deixá-la estar. Pois não havia quem
andasse de anilha de bovino no nariz, alargador na orelha, corpo tatuado,
postiços de gel em cima de unhas ratadas? Porque não haveria ela de andar nos
transportes públicos, no supermercado, trabalhar ao balcão do banco, participar
nas reuniões de condomínio, com uma pequena árvore pendurada no nariz?
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