2012/09/17

Austeridade


Nanda continuou a frequentar a igreja. Refez a sua vida: passou a gastar a pensão de aposentação em restaurantes que serviam comida de inspiração italiana, lia os suplementos de fim-de-semana dos jornais, comprava guias gastronómicos, fazia listas, passava a semana a salivar; ao sábado, vestia umas calças escuras de cintura alta, um bolero de tricot azul com gola de rebuço, escolhia uma pochete de vidrinhos brilhantes, arrebicava o rosto com um blushe cor de pêssego e passava um baton forte pelos lábios. Sentava-se sozinha em restaurantes de ambiente elegante e descontraído, frequentados por homens de barba aparada, ligeiramente adamados, mulheres emancipadas que deixavam a prole com babás ucranianas. Os comensais habituais, limpavam os cantos da boca a guardanapos de pano, beberricavam roses frutados, tintos robustos e brancos frisantes, mantinham a conversa acesa, acordavam na essencialidade da austeridade, alongavam-se em análises profundas sobre a crise, desfiando, como se fossem seus, argumentos lidos em colunas de opinião; arrumada a situação económica do país, passavam a temas mundanos, falavam de férias em resorts turísticos, de mensalidades de colégios privados e peças de mobiliário vintage, compradas em lojas da Baixa. De viés, sem conseguir esconder o incómodo, olhavam Nanda, estranhando a presença daquela sexagenária solitária, o bolero de tricot sem requinte informal, as calças de cintura alta demasiado justas a acentuar a adiposidade do corpo velho; metia-lhes nojo ver os arrabaldes intrometerem-se na descontraída sofisticação das suas vidas. 

2012/09/13

Vivre sa vie




Fumo enquanto ela fuma. Aprendi com ela a olhar em volta, a observar os outros sem medo ou embaraço. Amo-a desde a primeira vez que a vi, aos dezoito anos, sozinha, em casa; a oral de direito romano era no dia a seguir e eu, tristemente cumpridora, a filha das boas notas, esqueci-a. Não revi a Lei das doze tábuas e durante o exame, as mãos velhas do Padre Samuel nas minhas pernas ainda tenras, lembrei-me dela. Um dia, convencida da singularidade de um homem, por sinal, jurista, convidei-o para ir vê-la. Passava o filme na Cinemateca e eu nunca o vira em tela grande, numa sala escura. Desculpou-se o tal jurista já não sei com o quê e recusou. Fui sozinha e não me senti só. A vida, alguém o disse, é uma enorme repetição. 

2012/09/09

Kanchanganga Bldg.

A primeira vez que fui a Bombaim fiquei em casa da minha prima Melinda. Vive na parte ocidental de Andheri, num apartamento pequeno com o marido e duas filhas. Uma das meninas chama-se Elaine e será, como já expliquei ao meu filho João, a minha futura nora. Os prédios em Bombaim têm nomes e aquele onde a Melinda vive chama-se Kanchanganga Bldg. Por ser tão alto e ter gradeamentos nas janelas - todos diferentes, todos ferrugentos, cada um ao gosto do seu proprietário - fez-me lembrar, ao primeiro olhar, uma torre medieval fortificada. Olhando para cima, vislumbrei, nesse primeiro dia, silhuetas de águias, gralhas, abutres. São aos milhares nos céus de Bombaim. Rondam os pássaros soturnos as torres de apartamentos no intuito de comer os desperdícios dos seus habitantes. São, simultaneamente, sinistros e belos. O Kanchanganga Bldg. tem um porteiro sorridente que assegura que a torre não é invadida pela amálgama de miseráveis que vive nos passeios da cidade. Usa uma farda puída e um boné que deve ter herdado do seu antecessor. Fica-lhe demasiado largo. Pela manhã abre as portas aos moradores que saem para os seus empregos e aos meninos que vão para a escola. Esvazia-se depois a torre. Ficam apenas algumas mulheres e as crianças mais jovens. Em cada piso os apartamentos desembocam num átrio circular que não serve apenas de passagem para a rua. O átrio é uma parte comum e funciona como prolongamento dos apartamentos. É aí, no átrio, que os habitantes deixam os sapatos antes de entrar nas suas casas e as mulheres conversam sobre assuntos domésticos. As portas dos apartamentos não são maciças. Têm uma espécie de portinhola que, se abrindo pela manhã, deixa antever o miolo dos apartamentos e os movimentos dos seus habitantes. A torre é habitada por católicos, hindus e muçulmanos. No átrio misturam-se os odores intensos das suas cozinhas. Ao lado das portas há pequenos oratórios com imagens de cristo, placas com luas crescentes e altares coloridos às divindades hindus. É uma miscelânea de deuses e de fés, convivendo de forma inesperadamente harmoniosa. Quando chega a tarde as mulheres dormitam e as crianças, sentadas no chão, sonham em ser iguais aos meninos prodígio que aparecem nos concursos televisivos. O porteiro aproveita o sossego da tarde. Sentado junto das caixas do correio olha gulosamente uma revista onde as actrizes da cidade aparecem seminuas. Na Índia, as mulheres vestem com decência, não usam decotes, não mostram as pernas, banham-se no mar vestidas. Ao anoitecer, quando a cidade fervilha em todo o seu esplendor, o porteiro volta a abrir as portas aos habitantes do prédio que regressam. Lá fora, os vendedores de tabaco e areca desmontam as suas bancas. Chegarão então os habitantes dos passeios, os corpos-sombra, quase invisíveis, quase mortos, os intocáveis que nascem, vivem e morrem na rua. O porteiro observa-os através dos vidros da entrada do Kanchanganga Bldg e agradece aos deuses a sua sorte.

(Setembro/2008)

2012/09/08

2012/09/05

Pai

Estou tão feliz por regressar. Gostava de ir e nunca mais voltar. Ficar para sempre com o meu pai. Eu e ele. Mais ninguém. Há quem ache que o meu pai não merece o amor ancilar que lhe tenho. É sinal de fraqueza, pueril ingenuidade, a fonte de todos os meus problemas, inércia, frigidez, tristeza. É o que dizem os entendidos e há tantos entendidos na vida. Amar os santos é fácil e aborrecido; difícil é amar os ímpios, os impuros, os biliosos. Não sei viver de outra maneira. É para o meu pai que vivo, por ele que espero. 

Noite


Não sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo, chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na sua penumbra só eu existia.

(Setembro/2007)

Menina-Balão


Na Índia, ao contrário de cá, os jornais não trazem mensagens eróticas. Shiva, sempre entretido em cabriolices eróticas com as suas consortes, de lingam erecto, não o permite. Em contrapartida, há em cada jornal uma longa secção de matrimonial. Trata-se, como o nome indica, de uma secção de anúncios de quem procura parceiro para casar. As mensagens são de uma especificidade impressionante. Nunca tinha visto nada igual. As brides e os grooms descrevem-se com rigor e exactidão. Num quadradinho de papel condensam a informação necessária para despertar o interesse de um potencial parceiro: idade, casta, religião, habilitações -desengane-se quem pensa que na Índia são todos uns desgraçadinhos analfabetos, na maior parte dos casos, principalmente nas cidades, o que está em causa é saber se se tem uma especialização ou um doutoramento -, região, profissão, salário e, claro, o tom da pele. Fiquei viciada na leitura daquela secção dos jornais indianos. Por isso, quando a tarde caía sobre a casa de Maina e os esquilos se escondiam nos ramos da mangueira, eu arrastava a cadeira de baloiço para a varanda e entretinha-me a ler os anúncios dos casamentos, tentando encontrar naquelas listas infindáveis correspondências que assegurassem aos noivos um casamento feliz para a vida. Um dia, a Ria, a menina-balão, veio sentar-se perto de mim. Espreitou o jornal e chamou, com a sua voz de trovão, as outras crianças da casa que, entretidas a chupar limas, correram para perto de nós. Ana Clara is reading the matrimonial! She is looking for an indian groom!”. Ri-me do descaramento da menina-balão e belisquei-a. Depois, passámos o resto da tarde à procura de um noivo indiano para mim.

(Maio/2007)

Lição em Pondá


Despimo-nos. Eu, a sobrinha europeia. Ela, a tia goesa, a menina que o meu pai carregava por caminhos sinuosos de chuva e lama até à escola. A nudez traz-nos a proximidade que tardava em chegar. Assim despedidas, a tia Amália começa a lição. Primeiro o saiote, bem apertado ligeiramente por cima da anca. O umbigo deve deixar-se sempre destapado. É por aí que o corpo respira, explica. Se se cobrir o umbigo o corpo sufoca. Depois a blusa que deve ser justa e tapar apenas o peito. Por fim, o rectângulo que envolve o corpo como se fosse um casulo. Há quatro passos essenciais que não se podem esquecer. O mais difícil é preguear decentemente a parte de baixo. É preciso ter mãos habilidosas para o fazer. À medida que a tia Amália fala, executa os gestos, enrolando-se na perfeição no tecido. Eu tento imitá-la.

Sentada na cama, Jessica come umas uvas pretas, muito doces e sem grainhas. Para me tranquilizar, diz que, em vez do sari, poderei sempre usar um churidar. Sorrio-lhe. Não gosto nada de churidares. A única peça que gosto no churidar é a dupata. Continuamos a lição. Por fim, com a ajuda de duas mulheres, consigo vestir o sari. A minha tia apanha-me o cabelo. Manda-me andar. Olho-a. “You can’t walk in a sari like you walk in your jeans. You have to walk with grace, Ana Clara!.” Ando. Ela abana a cabeça. Diz que temos de treinar o andar-de-sari. Reconheço-me nela. E, outra vez, vejo as mãos do meu pai no seu corpo. Ela faz-me uma festa no rosto. Gosto da festa que ela me faz, que é morna, como uma manhã de maio. Diz que pareço uma parsee por causa da claridade da minha pele. Que estranho, penso, sou uma europeia escura e uma indiana clara. Jessica, escura e gorda, continua a comer bagos de uva e ri-se.

(Março/2007)

Curtorim


Sento-me no adro da igreja, que fica junto a uma lagoa cheia de nenúfares brancos. Entardece. Na escadaria, três homens falam um português correcto e antigo, um português sossegado, que não tem pressa de chegar a parte alguma, um português doce e calmo. É a primeira vez que aqui, em Goa, escuto português falado espontaneamente. Entardace. Lá dentro, o meu pai fala com o padre vigário, que usou uma batina branca e umas sandálias nos pés durante a missa. Os três homens continuam a conversar. Escuto-lhes as palavras. Percebo que falam sobre mim. Um deles aproxima-se e, em inglês, com uma delicadeza a que não estou habituada, pergunta-me se não sou familiar de um tal Alvito de Souza. Respondo-lhe em português que não, que não conheço nenhum Alvito de Souza, que sou neta da família Rebelo de Maina, a aldeia mesmo ali ao lado. O homem sorri e leva-me para junto dos outros homens. Explicam-me que conhecem bem a minha família. Apresentam-se: Rafael Viegas, Dr. Cunha Menezes e José Mascarenhas. Entardece. A conversa escorre entre nós como se nos fossemos velhos conhecidos. Os goeses têm uma identidade própria, são a simbiose perfeita entre o oriente e o ocidente. Mas têm a fragilidade das porcelanas antigas que guardam dentro dos louceiros de outros tempos. São como a fímbria do mar. Entardece. Lá dentro o meu pai continua a sua conversa com o padre vigário. Não fala em português, mas em concanim, língua labiríntica, e inglês, esse linguajar bárbaro e deslavado que tomou conta destas paragens.

(Janeiro/2007)

Goa


A tia Maria gostava tanto, tanto do Salazar que lhe chamavam " A favorita de Salazar"; o meu pai foi deserdado por ter feito um filho a uma preta; o meu tio Rosário gastava o dinheiro da família porque um Cristo falante lho dizia para o fazer; o tio Inácio, o irmão mais novo da família esteve quase a ser castrado, como era costume nas famílias bramanes, para assegurar a sua ida para o seminário;em Rachol, os anjos do altar têm cabelos negros e há um poço, fundo e imenso, habitado por morcegos; a terra é vermelha como o sangue; em Chandor, a sua dama, D. Aida Menezes de Bragança, vive num palácio habitado pelos fantasmas de outros tempos e, pelas janelas de carepa, espreita o adro da igreja; em cada casa há um oratório, um presépio e uma estrela iluminada; os arrozais são de um verde intenso e os palmares estendem-se, infindáveis, junto às praias; a tia Amália ensinou-me a usar o sari e nunca me senti tão bonita na vida; em Goa estou em casa.

(Janeiro/2007)

2012/09/04

Índia



(Chegou o meu cartão de overseas citizen of India. Recebi-o das mãos do meu pai com tanta alegria. Volto em Dezembro. E o Aamir Khan é lindo. Mete o Hrithik Roshan e o Abhishek Bachchan a um canto.)

2012/08/29

Dor


Diz-se que o tempo tudo cura, mas o silêncio é de melhor serventia, tudo apaga, não se falando das coisas é como se elas não existissem. Aconteceu o mesmo a Odete. Foram-se as agonias, o mal-estar inicial, calou frustrações, chegou o filho, sumiu-se de vez o sofrimento. A maternidade, para além da perpetuação da espécie, serve muitas vezes para secundarizar uma mulher. Foi nessa instrumentalização que o destino de Odete se cumpriu. Passados tantos anos, tantos domingos, uma vida inteira, ficou lá dentro uma coisinha, uma dor a saracotear no fundo do peito, uma dorzita que é quase nada, Odete já não dá por ela, fracota, extingue-a diariamente com uma alegria breve, uma gargalhada solta em frente da televisão, dois dedos de conversa com a Nanda, a satisfação de um casaco comprado nos saldos, custava sessenta e cinco euros e comprei-o a trinta, rica pechincha. Fica o casaco durante o inverno dentro do armário porque ganha borboto com muita facilidade, a fazenda é ordinária e a cor demasiado viva, inadequada à idade que tem, mas a alegria breve, essa que cala a dor, já ninguém a leva. 

2012/08/28

Aznavour



(Três da manhã, o Joquinhas às voltas na cama, sonha com piscinas e bisnagas de água, os outros a monte,  gozando o declínio das férias, eu a ler o manual de patologia médica que trouxe do Alentejo, as notas a esferográfica da minha mãe, desenhos de cisnes e tulipas, o cheiro a mofo das páginas amarelecidas. Trouxe também um livro de 1960 sobre desejo e perversão sexual, magnífico achado de verão; mas esse desconfio ser pertença da tia Dé.)

2012/08/25

Quelimane


Todas as famílias têm segredos. A minha é pródiga em histórias, incertezas, meias verdades, omissões, em calar a dor. Olho para os meus irmãos. Não vivo longe deles, sem as vozes dos filhos deles chamando-me tia. Um dia partiremos para Quelimane. Lá encontraremos o homem que engoliu o mar e, na sombra de uma árvore frondosa, enroscada numa capulana garrida, a menina que escutava canções do Roberto Carlos.

Dentro de casa

2012/08/02

Billie Jean (2)



(Mas antes deixo o original, melhor. Esta canção liga que é uma maravilha com S. Bartolomeu da Serra, o cheiro a porcos no crepúsculo, o moinho que foi do tio Manuel visto do quintal, os pessegueiros enxertados que davam frutos grená e que já só existem na minha memória,  as sopas de tomate feitas pela prima Filomena que custou a engravidar, tanto que chorou por não cumprir o seu destino de fêmea, o mar frio e revolto de São Torpes, os meus mortos e os meus vivos, que se fodam os que não são meus, só tenho amor aos meus, o café da associação de moradores onde uma brasileira de sobrolhos impecavelmente arranjados, a Denise, tira cafés amargos e suscita a lascívia dos homens que sossegam o cansaço do trabalho do campo, a minha filha namoricando o Artur, miúdo loiraço, com muito pêlo nas ventas, o mais pequeno correndo atrás dos gatos, o mais velho encostado ao meu corpo, amparo da minha solidão. )

Billie Jean



(Depois da santíssima trindade, Sérgio Godinho, Fausto e Chico Buarque, este é o homem mais bonito à face da terra. Nunca vi um nariz tão bonito. É lindo. E como é possível não se gostar do Michael Jackson? É preciso ter o cu muito dorido de enrabadelas intelectuais para não gostar do que é simplesmente perfeito. E, agora, vou de férias, que bem as mereço.)

2012/07/21

Les neiges du Kilimandjaro



(Fui à primeira sessão. Na sala, eu e uma velha de vestido roxo que me contou que, quando era da minha idade, fez um cruzeiro no Volga. Fartei-me de chorar. Tão bonito, o filme. Vou obrigar o meu pai, a minha mãe, a tia Dé e os miúdos mais velhos a irem vê-lo.)

2012/07/20

Inverno

2012/07/13

Alentejo



(Estou completamente viciada no Roque Popular, sobretudo, na Luzia, tão linda esta canção, hei-de tê-la ouvido mais cem vezes, hoje. E, em Agosto, falta pouco, volto à minha aldeia alentejana, que tem festa com frangos assados, baile, festeiros e festeiras, a Marisa cabeleireira, tão jeitosinha, e a Luísa nojenta, de tacões  de madeira e blusas transparentes, puta da Luísa - gorda e loira, tinha de ser loira, deslavada, imbecil, as loiras são quase sempre assim, convencem-se de que a palidez lhes mascara a primitiva insignificância -  roubou o namorado à minha prima Filomena, a maior suinicultora do litoral alentejano; em Agosto, a festa em S. Bartolomeu da Serra tem leilões de garrafas de vinho do porto e leitões, uma mulher de olhar permanentemente espantado, contam que foi resquício de mal de amor, também lá está a prima Laura, sentada a uma mesa de fórmica, umas vezes triste, outras alegre, nunca se sabe como está, é como calha, que a bipolaridade não é doença só de gente de inteligência superior, também marca os outros. Eu, entre eles que me recebem sempre com distância, danço com este e com aquele, os meus filhos correndo no adro da estação, descansando por fim em colos negros, alapando na Virtuosa e na Preciosa. Os meus avós, José e Felicidade, largam a cova nessa noite para ver os bisnetos. Sou menos infeliz em Agosto porque os sinto. Quis-lhes tanto. Quero que os meus filhos amem os meus pais exactamente como eu os amei. Como se pode gostar da merda do Algarve, havendo o Alentejo?)