Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/10/22
Felicidade
Trago ao pescoço um lenço de lã preto, velho,
que herdei da minha avó Felicidade. É um dos lenços que ela costumava usar na
cabeça. Aconchega-me o peito, esconde o decote. Gosto de o levar ao nariz e
procurar, em vão, resquícios mornos do cheiro dela. Toco no lenço e lembro que,
durante a adolescência, tive vergonha da minha avó, do seu ar provinciano, do
seu lenço de luto, sobretudo, das suas mãos. Mãos de bruxa, mãos em garra,
nodosas, ásperas, mãos de terra, de tanto e tanto que passou. Saber-me assim, ainda
que num passado distante, é coisa que dói. Queria, na altura, uma avó da
Avenida de Roma, igual às das minhas amigas, com cabelos armados pintados de
azul e cãezinhos de companhia no regaço. Não queria aquela. Que nunca lera um
livro. Nem uma revista. Que não sabia sequer escrever o seu nome. Hoje, não sei
porquê, veio-me uma saudade grande dela. Da avó que cantava canções que falavam
da lua, das giestas da serra, do alandroal. Da avó que contava histórias de
bandidos e animais fabulosos. Da avó que sabia jogar ao jangro, fazer flautas
de caninhas, chifres de lenços e bonecas de pano, esguias, muito feias e
imperfeitas.
2012/10/16
2012/10/15
Carrossel dos Esquisitos
O rapaz mais feio do meu curso casou com a rapariga mais feia do meu
curso. A feiura dos dois é coisa nunca vista. Excessiva num mundo onde a beleza
é quem mais ordena. Ele tem a pele muito seca, originada por uma qualquer
doença de pele, psoríase provavelmente. Volta e meia, as escamas da sua pele
soltam-se e deixam à descoberta manchas de um vermelho intenso e feio. Tem os dentes
salientes, a fazer lembrar um coelho gigante. Uma pessoa olha para ele e
espera, a qualquer momento, vê-lo cobrir-se de uma pelagem cinzenta e desatar a
saltitar, frenético, em busca de um prado verdinho. É juiz. Há alguns anos,
apanhei-o numa comarca do interior, muitíssimo sério, feioso dentro da sua
beca, cheia de cordões e pregas, a ditar despachos com uma voz fanhosa. Quis
atirar-me à cara a superioridade da sua casta. Deixei-o. Uma coisa é ser
magistrado. Outra é ser jurista de um instituto público.
Ela, a rapariga mais feia do meu curso,
sempre foi velha. Já o era na faculdade. Usava saias por cima do joelho e
calças vincadas. Tinha olhos pequeninos, a pele baça, o cabelo oleoso colado ao
rosto, sem vida, sem volume. Alta, movimentava-se com lentidão como se o corpo
lhe pesasse em demasia. Tinha, e tem, uns enormes pés voltados para fora, as
ancas largas, muito robustas, a maternidade entranhada nos ossos das bacia.
Deve ter seguido o notariado. Assentos, certidões, averbamentos, procurações, testamentos,
tudo ela há-de tratar com eficiência e sisudez, disfarçando o fastio que o
cheiro a papel velho lhe provoca. Eram ambos alunos aplicados. Não faltavam às
aulas, não frequentavam o bar, não fumavam, não bebiam, tinham notas medianas.
Eu desprezava-os porque eles simbolizavam tudo o que eu não queria da vida:
ordem, conformismo, rotina, previsibilidade.
Ultimamente, andava eu já tão esquecida dos
tristes anos em que andei na faculdade de direito, voltei a cruzar-me com eles.
Devem viver no meu bairro. Encontro-os no talho a pedir carne picada para fazer
almôndegas e na mercearia a comprar duzentos gramas de fiambre de peru. Andam
sempre juntos, de mãos dadas. Ele olha-a com amor. Ela deixa-se envolver pelo
amor dele que é como uma gaze diáfana, muito leve e delicada. São, de uma forma
quase escabrosa, felizes por se terem. Olho-os com uma pontinha de emoção e
muita vontade de chorar.
2012/10/12
Azeite
1ª parte
O homem abre o armário. Tira uma garrafa de vidro escuro. Explica: é
preciso que compreendas a divindade deste líquido, sagrado como o chão de um
cemitério; cheira a aloés, agaves, zambujos, alperceiros e laranjais, recorda a
rigidez láctea das rochas calcárias, nele se aninha o sopro do oceano e a doce
barbárie das figueiras da índia; tem moléculas antigas, leves e aristocratas,
também polifenóis, tocoferóis e carotenos, andam à solta, em carnavais de
concertina e gaita de beiço, dão-lhe um travo picante, acidez que mal se nota.
2ª parte
A mulher pensa: tudo o que é divino é aborrecido e a maja desnuda continua,
em estático convite, pendurada no prado, já nada acontece quando por ela passo;
morri há muito tempo, mas esqueci-me de me levar a enterrar, mesmo morta deixo
entrar filetes de lava, gumes de faca, às vezes, touros solitários que
resfolegam uma bravura que cheira a urina. Entram e saem. Saem e entram. O
movimento é perpétuo, nunca termina. Deixa marcas de ripos e malhos. Esgaça-me
os panais.
3º parte
A mulher pega na garrafa. Olha-a. O homem acredita, por breves instantes,
que comunga da divina unção, falará talvez da purificação dos leprosos, dos
votos dos nazireus, de açafates de coscorões de ázimo e obreias de mel. A
mulher deixa cair a garrafa. Caminha sobre os vidros. Sabes, explica, por fim, sou
parecida com este líquido, livraram-me do ranço, rasparam-me o verdete, mas fico
sempre a boiar na bordadura dos corpos.
2012/09/28
2012/09/27
Foice e martelo
Voltei ao Porto. Trouxe da loja do Rui Carlos vários livros de uma tal Luísa Teles,
conhecida professora, que morreu há coisa de dois anos, sozinha num apartamento
de tectos estucados. Ao que parece era uma velha com muito mau feitio,
autêntico camafeu, deu-lhe uma convulsão, espumou da boca, arranhou o rosto com
as unhas azuladas e finou-se num instantinho.
Entre outras coisas, trouxe uma edição
muito bonita e sóbria - título e nome do autor emoldurados a vermelho e
cor-de-laranja - de “Uma abelha na chuva”. É um consolo olhar para um livro
assim. Também trouxe uma colectânea de poesia árabe. Não sou apreciadora
de poesia tal como não sou apreciadora de bacalhau ou de bebidas brancas. Sei
que é uma falha grave para quem alardeia o gosto da leitura. Vai daí, lá de vez em
quando, faço um esforço. Ainda este Verão, a Mila, enquanto molhávamos os pés
na água fria, me falou com emoção de um poema da Natália Correia. Fui à procura
dele, li-o e nada, nem ai, nem ui, palavras bonitinhas, coceguentas, pouco
mais. A poesia não me aquece, nem me arrefece, dá-me sonolência e um
aborrecimento de frígida. Trouxe mais quatro ou cinco livros de escritores
portugueses que são os que mais gosto de ler. Mas o grosso da escolha recaiu sobre vários livros da Agustina Bessa-Luís, antigas edições da Guimarães, que as
novas, as azuis, da defunta Babel dão-me calafrios, pretensiosas, feias, tão
canastronas.
O Rui Carlos, antes de me entregar os livros,
passou-os a pente fino, tirou bilhetes, contas, folhas, flores, vários esboços
de desenhos, duas cartas em papel translúcido, caligrafia inclinada, maiúsculas
dramáticas, de golpe acentuado. Perante o meu protesto, explicou que prometera
aos filhos da tal Luísa Teles preservar a intimidade da mãe. Fiz beicinho a ver
se o demovia. Sou um homem de palavra, Aninhas, escusas de fazer essa carinha
laroca, espetar o rabo nessa saia justa e bater as pálpebras, que não me
convences. Ficou um montinho de papéis em cima do tampo de mármore, o último
era um cartão de militante do PCP, bem vi a foice e o martelo; eu, aguada, a
olhar.
2012/09/21
Mata-moscas
Tivemos uma discussão medonha (detesto esta palavra, medonho, medonha, mas não sou capaz de encontrar sucedânea), ao final da tarde, na cozinha, os vizinhos escutando a nossa vida. Pela primeira vez na vida, não senti medo - tenho tanta vergonha do meu medo - , estranhei a minha segurança e certeza. Quando saiu, andei a confortar os miúdos, lambi-lhes as lágrimas, contei histórias, li em voz alta para o João adormecer. Depois, pus-me a ler a Agustina e descobri isto: "Era uma coisa maravilhosa esse abismo na vida de duas pessoas, com os seus tempos separados, de desejo, procriação e de trabalho. O amor era talvez uma longa rebelião absorvida pela paz de cada um". ´Refeita, fui buscar um mata-moscas e andei a matar meia dúzia de palavras-arremesso que insistiam em voar pela cozinha. Ficaram os seus corpos de queratina presos às paredes de azulejos azuis. Larguei o mata-moscas a um canto e senti fome. Fui buscar uma carcaça. Molhei o miolo no molho da carne assada. Comi pedaços grandes, cheios de gordura coalhada e cebola.
2012/09/18
Cedofeita
Sempre que vou ao Porto almoço com
o Rui Carlos que tem os dentes muito amarelos, usa boina e parece tão velho quanto
é. Hoje, enquanto almoçávamos na Chicana, estraçalhava eu uma pescada frita, ao
espiar a vigília de ontem, perguntei-lhe o que achava da privatização da RTP. Palitou
os dentes, aborrecido com a pergunta. Ó doutora, ó minha rica doutorinha, foi
dizendo com uma soberba que me irritou, querem instruir o povo, quando o que
povo quer ver é nádegas cheias e a desgraça dos outros para se sentir menos miserável.
Há que respeitar o povo e para o respeitar não é preciso pagar uma televisão pública. É
um engano pensar que os pobres e os remediados têm uma vocação latente para a erudição. E
continuou a palitar os dentes. És um bruto e já não tens idade para usar a fralda da camisa por fora, respondi-lhe, mas não
fui eu que falei. Foi a Nel. Não sou nada e toca a despachar a marmota, já
não temos muito tempo para ir ver o casario da Cedofeita. Lá fora, no silêncio da Avenida Rodrigues de Freitas, uma grávida desdentada pôs-se a gritar com duas crianças ramelosas.
2012/09/17
Nana
A
meio da tarde, quando lhe telefonei para lhe pedir o carro para ir fazer amanhã
um julgamento ao Porto - é a gasóleo, sempre ganho mais meia dúzia de tostões -
o meu pai goês, bruto, tantas vezes, mau, escutava a minha canção, lia as
minhas palavras e olhava Nana, a mais bela mulher. Como não amá-lo?
Austeridade
Nanda
continuou a frequentar a igreja. Refez a sua vida: passou a gastar a pensão de
aposentação em restaurantes que serviam comida de inspiração italiana, lia os
suplementos de fim-de-semana dos jornais, comprava guias gastronómicos, fazia
listas, passava a semana a salivar; ao sábado, vestia umas calças escuras de
cintura alta, um bolero de tricot azul com gola de rebuço, escolhia uma pochete
de vidrinhos brilhantes, arrebicava o rosto com um blushe cor de pêssego e
passava um baton forte pelos lábios. Sentava-se sozinha em restaurantes de
ambiente elegante e descontraído, frequentados por homens de barba aparada,
ligeiramente adamados, mulheres emancipadas que deixavam a prole com babás
ucranianas. Os comensais habituais, limpavam os cantos da boca a guardanapos de
pano, beberricavam roses frutados, tintos robustos e brancos frisantes,
mantinham a conversa acesa, acordavam na essencialidade da austeridade, alongavam-se
em análises profundas sobre a crise, desfiando, como se fossem seus, argumentos
lidos em colunas de opinião; arrumada a situação económica do país, passavam a
temas mundanos, falavam de férias em resorts turísticos, de mensalidades de
colégios privados e peças de mobiliário vintage, compradas em lojas da Baixa.
De viés, sem conseguir esconder o incómodo, olhavam Nanda, estranhando a
presença daquela sexagenária solitária, o bolero de tricot sem requinte
informal, as calças de cintura alta demasiado justas a acentuar a adiposidade
do corpo velho; metia-lhes nojo ver os arrabaldes intrometerem-se na
descontraída sofisticação das suas vidas.
2012/09/13
Vivre sa vie
Fumo
enquanto ela fuma. Aprendi com ela a olhar em volta, a observar os outros sem
medo ou embaraço. Amo-a desde a primeira vez que a vi, aos dezoito anos,
sozinha, em casa; a oral de direito romano era no dia a seguir e eu,
tristemente cumpridora, a filha das boas notas, esqueci-a. Não revi a Lei das
doze tábuas e durante o exame, as mãos velhas do Padre Samuel nas minhas pernas
ainda tenras, lembrei-me dela. Um dia, convencida da singularidade de um homem,
por sinal, jurista, convidei-o para ir vê-la. Passava o filme na Cinemateca e
eu nunca o vira em tela grande, numa sala escura. Desculpou-se o tal jurista já
não sei com o quê e recusou. Fui sozinha e não me senti só. A vida, alguém o
disse, é uma enorme repetição.
2012/09/09
Kanchanganga Bldg.
A primeira vez que fui a Bombaim fiquei em
casa da minha prima Melinda. Vive na parte ocidental de Andheri, num
apartamento pequeno com o marido e duas filhas. Uma das meninas chama-se Elaine
e será, como já expliquei ao meu filho João, a minha futura nora. Os prédios em
Bombaim têm nomes e aquele onde a Melinda vive chama-se Kanchanganga Bldg. Por
ser tão alto e ter gradeamentos nas janelas - todos diferentes, todos
ferrugentos, cada um ao gosto do seu proprietário - fez-me lembrar, ao primeiro
olhar, uma torre medieval fortificada. Olhando para cima, vislumbrei, nesse
primeiro dia, silhuetas de águias, gralhas, abutres. São aos milhares nos céus
de Bombaim. Rondam os pássaros soturnos as torres de apartamentos no intuito de
comer os desperdícios dos seus habitantes. São, simultaneamente, sinistros e
belos. O Kanchanganga Bldg. tem um porteiro sorridente que assegura que a torre
não é invadida pela amálgama de miseráveis que vive nos passeios da cidade. Usa
uma farda puída e um boné que deve ter herdado do seu antecessor. Fica-lhe
demasiado largo. Pela manhã abre as portas aos moradores que saem para os seus
empregos e aos meninos que vão para a escola. Esvazia-se depois a torre. Ficam
apenas algumas mulheres e as crianças mais jovens. Em cada piso os apartamentos
desembocam num átrio circular que não serve apenas de passagem para a rua. O
átrio é uma parte comum e funciona como prolongamento dos apartamentos. É aí,
no átrio, que os habitantes deixam os sapatos antes de entrar nas suas casas e
as mulheres conversam sobre assuntos domésticos. As portas dos apartamentos não
são maciças. Têm uma espécie de portinhola que, se abrindo pela manhã, deixa
antever o miolo dos apartamentos e os movimentos dos seus habitantes. A torre é
habitada por católicos, hindus e muçulmanos. No átrio misturam-se os odores
intensos das suas cozinhas. Ao lado das portas há pequenos oratórios com
imagens de cristo, placas com luas crescentes e altares coloridos às divindades
hindus. É uma miscelânea de deuses e de fés, convivendo de forma
inesperadamente harmoniosa. Quando chega a tarde as mulheres dormitam e as
crianças, sentadas no chão, sonham em ser iguais aos meninos prodígio que
aparecem nos concursos televisivos. O porteiro aproveita o sossego da tarde.
Sentado junto das caixas do correio olha gulosamente uma revista onde as
actrizes da cidade aparecem seminuas. Na Índia, as mulheres vestem com
decência, não usam decotes, não mostram as pernas, banham-se no mar vestidas.
Ao anoitecer, quando a cidade fervilha em todo o seu esplendor, o porteiro
volta a abrir as portas aos habitantes do prédio que regressam. Lá fora, os
vendedores de tabaco e areca desmontam as suas bancas. Chegarão então os
habitantes dos passeios, os corpos-sombra, quase invisíveis, quase mortos, os
intocáveis que nascem, vivem e morrem na rua. O porteiro observa-os através dos
vidros da entrada do Kanchanganga Bldg e agradece aos deuses a sua sorte.
(Setembro/2008)
2012/09/08
2012/09/05
Pai
Estou tão feliz por regressar. Gostava de ir e nunca mais voltar. Ficar para sempre com o meu pai. Eu e ele. Mais ninguém. Há quem ache que o meu pai não merece o amor ancilar que lhe tenho. É sinal de fraqueza, pueril ingenuidade, a fonte de todos os meus problemas, inércia, frigidez, tristeza. É o que dizem os entendidos e há tantos entendidos na vida. Amar os santos é fácil e aborrecido; difícil é amar os ímpios, os impuros, os biliosos. Não sei viver de outra maneira. É para o meu pai que vivo, por ele que espero.
Noite
Não
sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram
sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma
cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a
beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava
estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que
a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e
eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da
estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas
de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo,
chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os
deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas
frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços
do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades
do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na
sua penumbra só eu existia.
(Setembro/2007)
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