2012/11/24

Luzia



Por insistência do marido - mais do que a aliviar do trabalho queria mostrar que tinha folga financeira para contratar uma empregada doméstica -, arranjou uma rapariga para ajudar na limpeza da casa e na preparação do jantar de aniversário. A princípio sentiu-se embaraçada por ter quem trabalhasse sob sua ordenança e supervisão. Nunca mandara em ninguém. Descendia de uma cadeia de antepassados assalariados, a miséria havia de vir de longe, uma genealogia de penúria, sofrimento e trabalho mal pago. Como podia quebrar essa linhagem de obediência e servilismo? Que autoridade tinha para se fazer obedecer? A estranheza foi passageira. Quando a empregada tocou à campainha pela manhã, Flandres sentiu uma alegria semelhante à de uma criança que se prepara para brincar ao faz de conta. Não podia deixar de se sentir animada! Preparava-se pela primeira vez na vida para mandar. Era excitante, essa possibilidade de submeter os outros à sua vontade, até aos seus caprichos!Não estava, porém, habituada à assertividade da linguagem das patroas. Desconhecia que, para alcançar bons resultados, uma criada deve tratar-se com frieza, ignorando sentimentos, mágoas e amuos, uma criada não é bem gente, apenas um corpo de trabalho, deve ser varada com palavras ríspidas e repreendida com a firmeza de uma chibata que estala no lombo de uma mula. Flandres era inepta no ralho, inábil na orientação. Pior, não sabia dar ordens, a cada instante, as transformava em pedidos.
- A Luzia não se importa, por favor, de começar a picar as cebolas e os alhos para o bacalhau?- e, com a sua boca bem desenhada, cheia de meiguice, largava um sorriso encantador.
Uma ordem nunca pode ser dada com a cortesia de um pedido, muito menos com a solicitude de uma súplica. Uma ordem bem dada não admite recusa ou hesitação, já os pedidos são totalmente falhos de potestade, dependem da vontade do interpelado, uma pessoa só os satisfaz se quiser. Luzia, a ajudanta daquele dia, ligeiramente anémica, cheiro de suor e detergentes entranhado nas carnes descoradas, rapidamente se deu conta da inexperiência de Flandres. Abusou da sua amabilidade, foi mesmo muito calona, deixou o salão mal limpo, bolas de cotão aos cantos, e, invocando uma repentina alergia, recusou-se limpar a casa de banho com lixívia e amoníaco. Pediu um detergente neutro que não lhe ardesse nas mãos. A princípio da tarde, depois de interpelada com tantos pedidos gentis, Luzia estava completamente liberta: não se sentia obrigada ao respeito subserviente que sempre se deve a uma patroa. Começou a dar palpites sobre a ornamentação das travessas e, vendo Flandres olhar para dois serviços de loiça, sem saber qual escolher, numa voz afectada e petulante, deu a sua opinião:
- Não gosto nada desse serviço com o cavalinho! – explicou, apontando com um gesto de desdém a loiça tradicional da fábrica de Sacavém. - a senhora use antes aquele com a cercadurinha dourada que é  mais moderno!
Flandres ouviu e acatou. Luzia era empregada, mas, de tanto ser mandada, aprendera a usar uma voz autoritária, cheia de sujeição e disciplina. 

2012/11/01

Inolvidable

Maria Adelaide


O médico explicou-lhe. Tratava-se de um carcinoma hepatocelular, as metástases encontravam-se já espalhadas pelo corpo. Faria tudo o que estava ao seu alcance para lhe aliviar as dores. Iniciaria de imediato os tratamentos quimioterápicos para a destruição das células tumorais. Avisou-a dos efeitos colaterais: náuseas, vómitos, diarreias, anemia, alopecia. Marcou nova consulta para daí a quinze dias. Despediu-se do médico com um aperto de mão e um sorriso. Queria sentir tristeza e não conseguia. Sabia que devia chorar. Meteu a guia de tratamento dentro da mala e saiu do consultório. Fez o caminho mais longo para casa. Andou durante bastante tempo tentando perceber o que sentia. Sem rodeios ou dramatismos: tinha um cancro e morreria em breve. Entrou no prédio onde morava passava das oito horas. Chamou o elevador que chegou aos guinchos. Entrou na cabine e olhou-se ao espelho. Só quando viu o seu ar macilento, a cicatriz no lábio superior, o cabelo num desalinho, os olhos encovados, o aborrecimento de uma vida plasmado no rosto feio, percebeu o que sentia. Era frustração e vergonha. Nada mais. A sensação de que Deus a gozava. Novamente. Nascera para ser gozada. Carregou no botão do oitavo andar. Nessa breve viagem, pareceu-lhe que o tempo se alongava. Dentro do tempo havia mais tempo. Dentro das horas mais minutos. Dentro dos minutos mais segundos. A vida passou-lhe diante dos olhos. Como se fosse um filme.

Chamava-se Maria Adelaide. Fora sempre uma criança enfezada. Nascera com uma fenda leporina no maxilar superior. A mãe, uma doméstica muito crente, casada com um construtor civil de Fátima, chorou-lhe o nascimento como se do ventre lhe tivesse escorrido o ser mais infame à face da Terra. Aos dois anos foi operada para fechar a fissura que causava tanto embaraço nos passeios domingueiros. Ficou-lhe uma cicatriz grossa e vermelha, aos gomos, que parecia ter sido suturada por uma costureira inexperiente, com fio de estopa, a sangue frio, sem cuidado ou gentileza. Feiinha, de uma feiura quase comovente por causa da cicatriz que lhe ficara no rosto, sentia-se sempre posta de lado nas festas familiares. A mãe bem podia enfeitá-la de laçarotes e vesti-la de folhos que as primas Arlete e Gorete, as gémeas que viviam na Bobadela, robustas e sadias, sempre lhe mostravam que a beleza era requisito imprescindível para uma mulher ser feliz. Faziam questão de lhe mexer na cicatriz porque, como explicavam, parecia um bichinho de seda morto. Chegavam tios e tias, primos e primas para a celebração dos domingos pascais e para a ceia de natal. A vivenda que o pai mandara construir em Sacavém, mesmo à beira da estrada nacional, revestida de azulejos cor de caramelo, rebentava nesses dias de festa. Os homens sentavam-se nas poltronas de cabedal do salão a mastigar rodelas de chouriço assado e quadrados de queijo flamengo. As mulheres enfiavam-se na cozinha a admirar os novos conjuntos de taparuéres que a mãe adquiria compulsivamente. As crianças corriam para o quarto de Maria Adelaide onde havia uma estante só para as bonecas compradas em Badajoz. Em cima da colcha de renda branca, de pernas abertas, muito esticadas, uma sevilhana vestida de folhos vermelhos, travessa e mantilha, olhava-se, altiva, no espelho oval do pechiché. Maria Adelaide seguia o bando e metia a sevilhana a salvo, em cima do roupeiro, não fosse algum dos primos parti-la e a mãe apanhar um desgosto profundo. Um dia descobriram que Laidinha, era assim que a família a tratava, gostava do primo Renato, rapaz de uma beleza óbvia e ordinária. As primas fizeram uma algazarra. Correram a contar-lhe. O primo olhou-a de cima a baixo e deu uma gargalhada escarninha que ficou, para sempre, presa nas paredes do quarto. Foi a primeira vez que Maria Adelaide sentiu que Deus a gozava. Não voltou a brincar com os primos nas festas de família. Ficava sentada no salão, entre os homens, mordiscando azeitonas.

A adolescência passou sem atropelos, entre a escola secundária de Sacavém e o grupo de jovens da paróquia. Continuava feia, apagada, triste. Não teve borbulhas e o período menstrual apareceu-lhe aos doze anos, num dia de muito calor enquanto dormitava em cima da colcha de renda ao lado da sevilhana dos folhos vermelhos. Quando acordou, reparou que um sangue vivo manchara a colcha branca e a mantilha da boneca. A mãe ralhou-lhe por não puxar a coberta para trás e mandou-a tomar banho. Depois correu para o tanque a esfregar com sabão de seda a vestimenta da espanhola. Por essa altura nasceu-lhe também um buço de pêlos escuros que acentuava a cicatriz por cima do lábio. A mãe correu a pedir ao construtor civil cinquenta contos para várias sessões de depilação eléctrica que salvassem a filha da vergonha do hirsutismo. Foram as duas a uma esteticista de Camarate, que também era conhecida por ser muito boa calista. Feita a primeira sessão, arrancados os primeiros pêlos, a cicatriz inchou, como se fosse um animal furioso. No dia seguinte, Adelaide acordou dorida, cheia de crostas. Explicou à mãe que não voltava a Camarate. Sentia que a cicatriz rebentava e um abismo de novo se abria no rosto. Achou que Deus a gozava pela segunda vez. A esteticista veio à vivenda dos azulejos cor de caramelo. Aplicou-lhe emplastros de vinagre na cicatriz e passou a oxigenar-lhe o buço de quinze em quinze dias. Também recomendou um calicida oriental muito bom para os joanetes da mãe que a aliviava muitíssimo das dores que sentia nos pés ao final do dia.

Não quis estudar apesar da insistência dos pais. As gémeas Arlete e Gorete entraram em Direito e tornaram-se mulheres emancipadas, de cigarro ao canto da boca e cabelos ripados, pintados de cores estranhas. Acaju. Ameixa. Adelaide tirou um curso profissional de contabilidade e casou aos vinte e cinco anos com um amigo do grupo de jovens. O namorado era mais velho e tinha uma fé que a todos espantava. Fazia retiros constantemente. Rezava com muito fervor. Namoraram pouco tempo. Eduardo José, assim se chamava o namorado, quis casar mal se empregou na Repartição de Finanças de Sacavém. As primas vieram ao casamento, cheias de écharpes esvoaçantes, pochetes refulgentes, sapatos forrados de cetim. O primo Renato também veio. Casara-se com uma enfermeira parturiente da margem sul. Pouco depois do casamento, Adelaide descobriu por que razão o marido lhe suportava a feiura da cicatriz e o resto: a flacidez precoce do corpo, a mãe tão espampanante e impositiva, as conversas aborrecidas do pai sobre como era difícil encontrar pessoal que dominasse a técnica do assentamento da cerâmica e do azulejo. O marido fugia-lhe do quarto e continuava a passar os fins-de-semana em retiros espirituais. Percebeu que se forçara ao casamento para disfarçar certas tendências quando o encontrou, numa madrugada de Dezembro, na casa de banho masturbando-se com várias revistas espalhadas pelo chão. Eram homens com homens nas páginas das revistas e o marido, com as calças do pijama de flanela para baixo, olhando-os como se estivesse possuído por mil demónios. Maria Adelaide definhou a olhos vistos. Deus gozava-a pela terceira vez.

Aconselhou-se com a mãe. Não tinha mais ninguém a quem recorrer. A mãe escutou-a na vivenda de azulejos cor de caramelo. Explicou-lhe com inesperada clareza a natureza instrumental do casamento: era apenas um meio para se alcançar um fim. Maria Adelaide encontrou certo conforto no conselho. Chegou-se ao marido e disse-lhe que podia suportar o resto desde que tivessem um filho. Foi mãe aos vinte e nove anos. A menina que nasceu era muito bonita. Maria Adelaide rejubilou. Achou que a beleza da filha vingava o seu passado de permanente gozo: o lábio leporino à nascença, a mãe assim como era, a gargalhada do primo Renato no quarto das bonecas, o despeito das primas, o marido olhando imagens de homens nus. As primas, Arlete e Gorete, estranhavam a extraordinária beleza da menina. Não percebiam como podia a Laidinha ter tido uma menina tão linda. Mais parecia filha da Broke Sheilds. Descobriu-se, pouco depois, que a menina sofria de atrasos graves. Mal falava e babava-se muito. As primas voltaram a visitá-la e a consolá-la. Conseguiam suportar a beleza da filha agora que a sabiam tolinha. Deus voltava a gozá-la. Pela quarta vez.

Desde essa altura, passou a pensar frequentemente na sua morte. Era uma suicida crónica, mas era uma suicida feliz. A ideia da morte aliviava-a sempre. Às vezes, durante a noite, quando estava triste, pensava no seu funeral e sentia-se logo melhor. Imaginava então o caixão descendo à terra, a laje branca, o primo Renato chegando com a enfermeira da margem sul. Via-se deitada, as mãos postas em cruz, uma renda cobrindo-lhe o rosto, tornando-o desfocado, disfarçando-lhe a cicatriz do lábio. Quase que ficava bonita assim, morta, vista através das rendas. As primas e as tias haviam de chegar-se perto e chorá-la com sinceridade. Sentia que a morte era um remédio para todos os seus males, mas também uma maneira de mostrar aos outros a sua força. Há tantos anos que pensava na morte que se acostumara a ela. A morte era a sua derradeira oportunidade de ser feliz. Que Deus lhe servisse agora, assim de repente, a morte, de bandeja, era coisa que não tolerava. Não queria que Deus lhe oferecesse um carcinoma hepatocelular, lhe tirasse o mérito da decisão, a espectacularidade do gesto trágico. Não aguentava que Deus a gozasse assim, tão descaradamente, como quando era pequena e soltara uma gargalhada no seu quarto. Por isso sentia vergonha e frustração.

Estremeceu quando o elevador chegou ao oitavo andar. Foi como se despertasse. Tomara uma decisão. Nessa noite, limpou a loiça do jantar, adormeceu a filha, telefonou à mãe que enviuvará há pouco e vivia ainda na vivenda revestida de azulejos cor de caramelo. Escutou o ronco do marido, aconchegou-lhe a roupa. Teve pena dele. Abriu a janela da sala, subiu para o parapeito e deixou-se cair. Nessa breve viagem, desde o momento em que os pés se soltaram da janela e o seu corpo tocou no chão da rua, Maria Adelaide voltou a sentir que o tempo se alongava. Dentro do tempo havia mais tempo. Dentro das horas mais minutos. Dentro dos minutos mais segundos. Uma eternidade.

2012/10/22

Vendaval




Felicidade


Trago ao pescoço um lenço de lã preto, velho, que herdei da minha avó Felicidade. É um dos lenços que ela costumava usar na cabeça. Aconchega-me o peito, esconde o decote. Gosto de o levar ao nariz e procurar, em vão, resquícios mornos do cheiro dela. Toco no lenço e lembro que, durante a adolescência, tive vergonha da minha avó, do seu ar provinciano, do seu lenço de luto, sobretudo, das suas mãos. Mãos de bruxa, mãos em garra, nodosas, ásperas, mãos de terra, de tanto e tanto que passou. Saber-me assim, ainda que num passado distante, é coisa que dói. Queria, na altura, uma avó da Avenida de Roma, igual às das minhas amigas, com cabelos armados pintados de azul e cãezinhos de companhia no regaço. Não queria aquela. Que nunca lera um livro. Nem uma revista. Que não sabia sequer escrever o seu nome. Hoje, não sei porquê, veio-me uma saudade grande dela. Da avó que cantava canções que falavam da lua, das giestas da serra, do alandroal. Da avó que contava histórias de bandidos e animais fabulosos. Da avó que sabia jogar ao jangro, fazer flautas de caninhas, chifres de lenços e bonecas de pano, esguias, muito feias e imperfeitas. 

2012/10/16

Marvin Gaye



(gosto tanto, mas tanto, do Marvin Gaye, adoro-o, tão bonito, uma estampa de homem.)

Kilas e Rita

2012/10/15

Carrossel dos Esquisitos


O rapaz mais feio do meu curso casou com a rapariga mais feia do meu curso. A feiura dos dois é coisa nunca vista. Excessiva num mundo onde a beleza é quem mais ordena. Ele tem a pele muito seca, originada por uma qualquer doença de pele, psoríase provavelmente. Volta e meia, as escamas da sua pele soltam-se e deixam à descoberta manchas de um vermelho intenso e feio. Tem os dentes salientes, a fazer lembrar um coelho gigante. Uma pessoa olha para ele e espera, a qualquer momento, vê-lo cobrir-se de uma pelagem cinzenta e desatar a saltitar, frenético, em busca de um prado verdinho. É juiz. Há alguns anos, apanhei-o numa comarca do interior, muitíssimo sério, feioso dentro da sua beca, cheia de cordões e pregas, a ditar despachos com uma voz fanhosa. Quis atirar-me à cara a superioridade da sua casta. Deixei-o. Uma coisa é ser magistrado. Outra é ser jurista de um instituto público.

Ela, a rapariga mais feia do meu curso, sempre foi velha. Já o era na faculdade. Usava saias por cima do joelho e calças vincadas. Tinha olhos pequeninos, a pele baça, o cabelo oleoso colado ao rosto, sem vida, sem volume. Alta, movimentava-se com lentidão como se o corpo lhe pesasse em demasia. Tinha, e tem, uns enormes pés voltados para fora, as ancas largas, muito robustas, a maternidade entranhada nos ossos das bacia. Deve ter seguido o notariado. Assentos, certidões, averbamentos, procurações, testamentos, tudo ela há-de tratar com eficiência e sisudez, disfarçando o fastio que o cheiro a papel velho lhe provoca. Eram ambos alunos aplicados. Não faltavam às aulas, não frequentavam o bar, não fumavam, não bebiam, tinham notas medianas. Eu desprezava-os porque eles simbolizavam tudo o que eu não queria da vida: ordem, conformismo, rotina, previsibilidade.

Ultimamente, andava eu já tão esquecida dos tristes anos em que andei na faculdade de direito, voltei a cruzar-me com eles. Devem viver no meu bairro. Encontro-os no talho a pedir carne picada para fazer almôndegas e na mercearia a comprar duzentos gramas de fiambre de peru. Andam sempre juntos, de mãos dadas. Ele olha-a com amor. Ela deixa-se envolver pelo amor dele que é como uma gaze diáfana, muito leve e delicada. São, de uma forma quase escabrosa, felizes por se terem. Olho-os com uma pontinha de emoção e muita vontade de chorar.

2012/10/12

Filhos

O Joaquim perguntou-me ao jantar se eu era marinheira. A Madalena pediu-me para ensiná-la a arrotar e eu ensinei. O João anda longe, cheio de pêlos a nascer-lhe por todo o lado, e custa-me tanto. 

Azeite


1ª parte
O homem abre o armário. Tira uma garrafa de vidro escuro. Explica: é preciso que compreendas a divindade deste líquido, sagrado como o chão de um cemitério; cheira a aloés, agaves, zambujos, alperceiros e laranjais, recorda a rigidez láctea das rochas calcárias, nele se aninha o sopro do oceano e a doce barbárie das figueiras da índia; tem moléculas antigas, leves e aristocratas, também polifenóis, tocoferóis e carotenos, andam à solta, em carnavais de concertina e gaita de beiço, dão-lhe um travo picante, acidez que mal se nota.

2ª parte
A mulher pensa: tudo o que é divino é aborrecido e a maja desnuda continua, em estático convite, pendurada no prado, já nada acontece quando por ela passo; morri há muito tempo, mas esqueci-me de me levar a enterrar, mesmo morta deixo entrar filetes de lava, gumes de faca, às vezes, touros solitários que resfolegam uma bravura que cheira a urina. Entram e saem. Saem e entram. O movimento é perpétuo, nunca termina. Deixa marcas de ripos e malhos. Esgaça-me os panais.

3º parte
A mulher pega na garrafa. Olha-a. O homem acredita, por breves instantes, que comunga da divina unção, falará talvez da purificação dos leprosos, dos votos dos nazireus, de açafates de coscorões de ázimo e obreias de mel. A mulher deixa cair a garrafa. Caminha sobre os vidros. Sabes, explica, por fim, sou parecida com este líquido, livraram-me do ranço, rasparam-me o verdete, mas fico sempre a boiar na bordadura dos corpos.

2012/09/28

The Big Chill



(Sexta-feira, noite de filme com a Dá e o João.)

2012/09/27

Filhos



Foice e martelo


Voltei ao Porto. Trouxe da loja do Rui Carlos vários livros de uma tal Luísa Teles, conhecida professora, que morreu há coisa de dois anos, sozinha num apartamento de tectos estucados. Ao que parece era uma velha com muito mau feitio, autêntico camafeu, deu-lhe uma convulsão, espumou da boca, arranhou o rosto com as unhas azuladas e finou-se num instantinho.

Entre outras coisas, trouxe uma edição muito bonita e sóbria - título e nome do autor emoldurados a vermelho e cor-de-laranja - de “Uma abelha na chuva”. É um consolo olhar para um livro assim.  Também trouxe uma colectânea de poesia árabe. Não sou apreciadora de poesia tal como não sou apreciadora de bacalhau ou de bebidas brancas. Sei que é uma falha grave para quem alardeia o gosto da leitura. Vai daí, lá de vez em quando, faço um esforço. Ainda este Verão, a Mila, enquanto molhávamos os pés na água fria, me falou com emoção de um poema da Natália Correia. Fui à procura dele, li-o e nada, nem ai, nem ui, palavras bonitinhas, coceguentas, pouco mais. A poesia não me aquece, nem me arrefece, dá-me sonolência e um aborrecimento de frígida. Trouxe mais quatro ou cinco livros de escritores portugueses que são os que mais gosto de ler. Mas o grosso da escolha recaiu sobre vários livros da Agustina Bessa-Luís, antigas edições da Guimarães, que as novas, as azuis, da defunta Babel dão-me calafrios, pretensiosas, feias, tão canastronas.

O Rui Carlos, antes de me entregar os livros, passou-os a pente fino, tirou bilhetes, contas, folhas, flores, vários esboços de desenhos, duas cartas em papel translúcido, caligrafia inclinada, maiúsculas dramáticas, de golpe acentuado. Perante o meu protesto, explicou que prometera aos filhos da tal Luísa Teles preservar a intimidade da mãe. Fiz beicinho a ver se o demovia. Sou um homem de palavra, Aninhas, escusas de fazer essa carinha laroca, espetar o rabo nessa saia justa e bater as pálpebras, que não me convences. Ficou um montinho de papéis em cima do tampo de mármore, o último era um cartão de militante do PCP, bem vi a foice e o martelo; eu, aguada, a olhar.

2012/09/21

Mata-moscas


Tivemos uma discussão medonha (detesto esta palavra, medonho, medonha, mas não sou capaz de encontrar sucedânea), ao final da tarde, na cozinha, os vizinhos escutando a nossa vida. Pela primeira vez na vida, não senti medo  - tenho tanta vergonha do meu medo - , estranhei a minha segurança e certeza. Quando saiu,  andei a confortar os miúdos, lambi-lhes as lágrimas, contei histórias, li em voz alta para o João adormecer. Depois, pus-me a ler a Agustina e descobri isto: "Era uma coisa maravilhosa esse abismo na vida de duas pessoas, com os seus tempos separados, de desejo, procriação e de trabalho. O amor era talvez uma longa rebelião absorvida pela paz de cada um". ´Refeita, fui buscar um mata-moscas e andei a matar meia dúzia de palavras-arremesso que insistiam em voar pela cozinha. Ficaram os seus corpos de queratina presos às paredes de azulejos azuis. Larguei o mata-moscas a um canto e senti fome. Fui buscar uma carcaça. Molhei o miolo no molho da carne assada. Comi pedaços grandes, cheios de gordura coalhada e cebola. 

Página 112



Passo a vida a sonhar com um encontro, uma livraria e uma página.

2012/09/18

Cedofeita


Sempre que vou ao Porto almoço com o Rui Carlos que tem os dentes muito amarelos, usa boina e parece tão velho quanto é. Hoje, enquanto almoçávamos na Chicana, estraçalhava eu uma pescada frita, ao espiar a vigília de ontem, perguntei-lhe o que achava da privatização da RTP. Palitou os dentes, aborrecido com a pergunta. Ó doutora, ó minha rica doutorinha, foi dizendo com uma soberba que me irritou, querem instruir o povo, quando o que povo quer ver é nádegas cheias e a desgraça dos outros para se sentir menos miserável. Há que respeitar o povo e para o respeitar não é preciso pagar uma televisão pública. É um engano pensar que os pobres e os remediados têm uma vocação latente para a erudição. E continuou a palitar os dentes. És um bruto e já não tens idade para usar a fralda da camisa por fora, respondi-lhe, mas não fui eu que falei. Foi a Nel. Não sou nada e toca a despachar a marmota, já não temos muito tempo para ir ver o casario da Cedofeita. Lá fora, no silêncio da Avenida Rodrigues de Freitas, uma grávida desdentada pôs-se a gritar com duas crianças ramelosas.

2012/09/17

Nana


A meio da tarde, quando lhe telefonei para lhe pedir o carro para ir fazer amanhã um julgamento ao Porto - é a gasóleo, sempre ganho mais meia dúzia de tostões - o meu pai goês, bruto, tantas vezes, mau, escutava a minha canção, lia as minhas palavras e olhava Nana, a mais bela mulher. Como não amá-lo? 

Austeridade


Nanda continuou a frequentar a igreja. Refez a sua vida: passou a gastar a pensão de aposentação em restaurantes que serviam comida de inspiração italiana, lia os suplementos de fim-de-semana dos jornais, comprava guias gastronómicos, fazia listas, passava a semana a salivar; ao sábado, vestia umas calças escuras de cintura alta, um bolero de tricot azul com gola de rebuço, escolhia uma pochete de vidrinhos brilhantes, arrebicava o rosto com um blushe cor de pêssego e passava um baton forte pelos lábios. Sentava-se sozinha em restaurantes de ambiente elegante e descontraído, frequentados por homens de barba aparada, ligeiramente adamados, mulheres emancipadas que deixavam a prole com babás ucranianas. Os comensais habituais, limpavam os cantos da boca a guardanapos de pano, beberricavam roses frutados, tintos robustos e brancos frisantes, mantinham a conversa acesa, acordavam na essencialidade da austeridade, alongavam-se em análises profundas sobre a crise, desfiando, como se fossem seus, argumentos lidos em colunas de opinião; arrumada a situação económica do país, passavam a temas mundanos, falavam de férias em resorts turísticos, de mensalidades de colégios privados e peças de mobiliário vintage, compradas em lojas da Baixa. De viés, sem conseguir esconder o incómodo, olhavam Nanda, estranhando a presença daquela sexagenária solitária, o bolero de tricot sem requinte informal, as calças de cintura alta demasiado justas a acentuar a adiposidade do corpo velho; metia-lhes nojo ver os arrabaldes intrometerem-se na descontraída sofisticação das suas vidas. 

2012/09/13

Vivre sa vie




Fumo enquanto ela fuma. Aprendi com ela a olhar em volta, a observar os outros sem medo ou embaraço. Amo-a desde a primeira vez que a vi, aos dezoito anos, sozinha, em casa; a oral de direito romano era no dia a seguir e eu, tristemente cumpridora, a filha das boas notas, esqueci-a. Não revi a Lei das doze tábuas e durante o exame, as mãos velhas do Padre Samuel nas minhas pernas ainda tenras, lembrei-me dela. Um dia, convencida da singularidade de um homem, por sinal, jurista, convidei-o para ir vê-la. Passava o filme na Cinemateca e eu nunca o vira em tela grande, numa sala escura. Desculpou-se o tal jurista já não sei com o quê e recusou. Fui sozinha e não me senti só. A vida, alguém o disse, é uma enorme repetição. 

2012/09/09

Kanchanganga Bldg.

A primeira vez que fui a Bombaim fiquei em casa da minha prima Melinda. Vive na parte ocidental de Andheri, num apartamento pequeno com o marido e duas filhas. Uma das meninas chama-se Elaine e será, como já expliquei ao meu filho João, a minha futura nora. Os prédios em Bombaim têm nomes e aquele onde a Melinda vive chama-se Kanchanganga Bldg. Por ser tão alto e ter gradeamentos nas janelas - todos diferentes, todos ferrugentos, cada um ao gosto do seu proprietário - fez-me lembrar, ao primeiro olhar, uma torre medieval fortificada. Olhando para cima, vislumbrei, nesse primeiro dia, silhuetas de águias, gralhas, abutres. São aos milhares nos céus de Bombaim. Rondam os pássaros soturnos as torres de apartamentos no intuito de comer os desperdícios dos seus habitantes. São, simultaneamente, sinistros e belos. O Kanchanganga Bldg. tem um porteiro sorridente que assegura que a torre não é invadida pela amálgama de miseráveis que vive nos passeios da cidade. Usa uma farda puída e um boné que deve ter herdado do seu antecessor. Fica-lhe demasiado largo. Pela manhã abre as portas aos moradores que saem para os seus empregos e aos meninos que vão para a escola. Esvazia-se depois a torre. Ficam apenas algumas mulheres e as crianças mais jovens. Em cada piso os apartamentos desembocam num átrio circular que não serve apenas de passagem para a rua. O átrio é uma parte comum e funciona como prolongamento dos apartamentos. É aí, no átrio, que os habitantes deixam os sapatos antes de entrar nas suas casas e as mulheres conversam sobre assuntos domésticos. As portas dos apartamentos não são maciças. Têm uma espécie de portinhola que, se abrindo pela manhã, deixa antever o miolo dos apartamentos e os movimentos dos seus habitantes. A torre é habitada por católicos, hindus e muçulmanos. No átrio misturam-se os odores intensos das suas cozinhas. Ao lado das portas há pequenos oratórios com imagens de cristo, placas com luas crescentes e altares coloridos às divindades hindus. É uma miscelânea de deuses e de fés, convivendo de forma inesperadamente harmoniosa. Quando chega a tarde as mulheres dormitam e as crianças, sentadas no chão, sonham em ser iguais aos meninos prodígio que aparecem nos concursos televisivos. O porteiro aproveita o sossego da tarde. Sentado junto das caixas do correio olha gulosamente uma revista onde as actrizes da cidade aparecem seminuas. Na Índia, as mulheres vestem com decência, não usam decotes, não mostram as pernas, banham-se no mar vestidas. Ao anoitecer, quando a cidade fervilha em todo o seu esplendor, o porteiro volta a abrir as portas aos habitantes do prédio que regressam. Lá fora, os vendedores de tabaco e areca desmontam as suas bancas. Chegarão então os habitantes dos passeios, os corpos-sombra, quase invisíveis, quase mortos, os intocáveis que nascem, vivem e morrem na rua. O porteiro observa-os através dos vidros da entrada do Kanchanganga Bldg e agradece aos deuses a sua sorte.

(Setembro/2008)