Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/06/25
Santinha
2012/06/23
Dominó
2012/06/22
Refeitório
2012/06/20
Nós
2012/06/17
Pau de cabinda
2012/06/16
Aninhas e os dois amores
2012/06/14
Morte santa (1)
2012/06/13
2012/06/10
El enanito (7)
2012/06/05
El enanito (6)
2012/06/01
Sexta-feira
2012/05/08
El enanito (5)
Por exemplo, Ana Clara - tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?
2012/05/07
El enanito (4)
2012/05/06
El enanito (3)
2012/05/05
El enanito (2)
2012/05/04
El enanito (1)
2012/05/02
Aninhas e os sapatos de couro envernizado (2)
2012/05/01
Aninhas e os sapatos de couro envernizado (1)
Lucy
2012/04/29
Aninhas e a festa de Natal
Frequentava um jardim-de-infância perto do hospital onde a mãe trabalhava. As salas eram acolhedoras, o refeitório muito grande, o dormitório cheio de catres azuis onde as educadoras obrigavam os meninos a dormir a sesta. No Natal e na Páscoa organizava-se sempre uma festa. Os meninos representavam e cantavam canções para os pais vestidos de abelhas, passarinhos, flores. Naquele tempo, virgem de máquinas digitais, enquanto os filhos actuavam, os pais olhavam-nos sem se preocuparem em captar o momento daquilo a que não assistiam. Aplaudiam no fim. Após o espectáculo, era sempre servido um lanche partilhado no refeitório. As empregadas colocavam nas mesas corridas pilhas de pães-de-leite, bolos, travessas de coscorões ou azevias, se fosse Natal, folares de ovos envernizados, se fosse Páscoa, pratinhos de rissóis de camarão e croquetes de carne, bolinhos secos, húngaros, bolacha francesa, fidalguinhos de braga, torcidos de anis. Havia laranjada para os meninos e garrafas de vinho do Porto para os pais. Aninhas, todos os anos, corria pelo corredor para ver o que a mãe trouxera para o lanche. Se o bolo fosse bonito, encontrava em tal facto a certeza de um futuro radioso cheio de felicidade e alegria.
2012/04/16
2012/04/11
Aviso
Aviso os estimados leitores que, fartinha da solidão do blogue, aderi ao facebook. Parece que é sítio com outra animação. Querendo, se para isso tiverdes paciência, podereis lá ler em registo breve - patético, mas genuíno -, sem pinga de mentira ou exagero, ao contrário do que aqui acontece, o interessante registo do meu dia a dia. Já me explicaram que o facebook não serve bem para aquilo e que a linguagem que uso também não é a mais indicada. Pelos vistos há regras e códigos de conduta facebookianos que desconheço. Paciência. É o que se arranja. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Já dizia a minha avó.
2012/04/08
Fecha a loja
2012/04/04
Levítico
2012/04/02
Amândio
Não inspira simpatia. Tem um corpo possante e robusto. Faz lembrar um pit-bull, um rottweiler, um desses cães de fila que os aficionados, de mangas cavas e braços tatuados, passeiam aos domingos pelos jardins da cidade. Usa óculos de aros escuros, pesados e antiquados, que lhe emolduram uns olhos pequenos, perspicazes e vivos. A voz é grave e nasalada. Fala sempre alto, num tom professoral, como se estivesse permanentemente a palestrar. Consta que tem uma cultura vastíssima, infindável, sabe tudo, cita de cor autores, obras, datas, deixa os seus interlocutores de queixo caído com tamanha sapiência. Não tem grande apreço pela opinião dos outros. Onde quer que esteja, seja qual for a ocasião, a sua opinião é sempre fundamentada, consolidada, irrefutável. É a que conta, a derradeira. Raramente sorri. Quando o faz é por cortesia. Chama-se Amândio e é padre. Durante a celebração da missa, como qualquer sacerdote, usa uma túnica branca, impecavelmente engomada, mas nunca prescinde de uma casula colorida que lhe dá certo protagonismo entre os círios tristonhos do altar. Não delega nos acólitos os rituais litúrgicos. Maneja o turíbulo com destreza, inundando o templo do cheiro enjoativo dos incensos. Os anjos do altar, às vezes, tossem brandamente com a fumarada que ele provoca e as senhoras que disputam os lugares das primeiras filas, na missa dominical das sete, encolhem-se quando, com vigor, sacode o aspersório e dele sai uma autêntica chuva de água benta que ameaça, com gotas gordas e abundantes, as mises de rolos domingueiras feitas nos cabeleireiros do bairro. Para além disso, é sabido, os resfriados podem ser fatais em certas alturas do ano.
Adopta um tom inflamado durante as homilias. Gesticula, procura acicatar os fiéis, falando de assuntos que muitos preferiam evitar: solidariedade, exclusão social, fé cristã. As suas missas nunca são enfadonhas. Não se prestam a sonolências e outros adormecimentos. Um dia, durante o abraço da paz, ouviu-se um telemóvel. Parecia um besouro estridente e histérico. Um silêncio tumular inundou a igreja e os anjos do altar entreolharam-se, amedrontados, temendo uma hecatombe. A dona do telefone, uma senhora gorda e suada, olhou para o lado, fingindo que o besouro não era seu. Depois, perante o olhar colérico e faiscante que vinha do altar, agarrou na malinha e saiu, tremelicando as carnes fartas e soltando ais pequeninos. Conheci-o à porta da igreja. Esperava que os meus filhos saíssem da catequese e vi-o chegar na companhia de uma tia. O Sr. Padre Amândio, disse a minha tia, muito devota e serena. Ele olhou-me com os tais olhos pequeninos e, do nada, disse que apreciava muito os meus traços exóticos. Antes que pudesse explicar-lhe a origem da minha mestiçagem, olhando para o livro que trazia nas mãos, de rajada, aconselhou-me a não perder tempo com leituras blasfemas, que o Saramago era um ignorante, uma cavalgadura que vivia nas trevas. Pobre desgraçado. Também ele, continuou, vivera na escuridão, mas vira a luz. Eu encolhi-me perante tal saraivada e, cobarde, incapaz de lhe confessar o meu agnosticismo, expliquei que também não era grande apreciadora da literatura do nosso nobelizado. A minha tia respirou de alívio e despediu-se.
No bairro onde cresci toda a gente conhece o Padre Amândio e a sua história. Ele não a esconde. Vindo da esquerda mais dura, encontrou Deus já tarde. Militou no partido comunista muitos anos, travou lutas, falou em comícios, distribuiu propaganda. Esteve preso. Viveu a revolução com o entusiasmo próprio dos que acreditam que o mundo pode ser um lugar melhor. Nos anos oitenta, quando sentiu que a sua crença no comunismo fraquejava, procurou Deus e, de uma forma extraordinária e simples, encontrou-o. Converteu-se. Deixou de ser um comunista feroz. Passou a ser um católico feroz. Foi ordenado padre com cinquenta anos. Acredita em Deus com a mesma força com que acreditava na ditadura do proletariado. Há muita gente no bairro que o admira. Outros olham-no com desconfiança. Não lhe apreciam a cultura enciclopédica, o estilo virulento, o passado esquerdista. A uns e a outros causa estranheza que um comunista, ateu confesso, se tenha tornado crente em Deus, fiel à sua palavra. Eu, triste e inquieta descrente, acho que a fé, com as devidas distâncias, é uma espécie de droga. Vicia. Quem a experimenta não sabe viver sem ela. Acreditar no comunismo não é muito diferente de acreditar em Deus. A fé conforta, apazigua, alivia. Torna-nos parte de alguma coisa, dá sentido à nossa vida, passamos a ter um propósito, algo a que nos dedicar. É preciso acreditar. Ser fiel. Seja lá no que for. Os que são pouco originais são fiéis a Deus, a Buda, a Shiva, à Nossa Senhora de Fátima, à Santinha da Ladeira. Muitos, são aos magotes, são fiéis a um clube de futebol. Acreditam piamente que o Benfica voltará a ser campeão. Vão rareando, mas ainda há os que são fiéis a um partido, a um ideal, a uma filosofia de vida. Há os que são fiéis a uma banda, a uma estrela pop, os que acreditam que o Michael Jackson padecia de vitiligo e nunca fez uma operação plástica ao nariz. Há os fiéis das novas seitas, que em tudo acreditam, no poder da cura, nos milagres em catadupa, pague três e leve quatro, que não estranham sequer os terminais de multibanco instalados nos altares para o pagamento do dízimo. Verde. Código. Verde. A sua alma está salva. Ámen.
O padre Amândio acreditava, com sinceridade, no comunismo. Depois, começou a ouvir falar de execuções, censura, falta de liberdade, presos políticos, miséria. Deve custar muito. Não há fiel que aguente tamanha dose de realidade. Deve ter tido uma ressaca dos diabos. Foi preciso arranjar um sucedâneo. Tal como os heroinómanos nos períodos de abstinência, também os fiéis, quando se apercebem da fragilidade das suas crenças, precisam de encontrar algo que substitua a fé estilhaçada. O padre Amândio, comunista convicto, - estou a imaginá-lo, de punho erguido, rosnando a internacional, querendo nacionalizar a fábrica de concentrado de tomate de Benavente -, no dia em que o mundo se lhe apresentou de outra forma, teve de procurar a fé noutra parte qualquer. Encontrou-a em Deus, que é magnânimo, infinitamente bom e se deixa amar por todos.
2012/03/30
Branca de Neve
2012/03/27
La gent normal
Lourenço Marques
Tratados os papéis, a minha mãe preparou-se para voltar. Vestiu-nos as melhores roupas. O meu irmão calçou os sapatos de verniz com fivela e penteou os caracóis com um pente de dentes largos. Porém, uma mulher branca, sozinha, com duas meninas e um menino mulato, que não era seu filho, levantava sérias inquietações aos zelosos guardas do aeroporto. Para seguir viagem, disseram, a minha mãe teria de arranjar uma autorização da mãe biológica do meu irmão. Nunca soubemos como a minha mãe conseguiu trazer o meu irmão, como evitou essa perda irreparável, como garantiu que continuássemos para sempre a ser três. Ela não conta. Mas eu desconfio que, ao contrário do Gomes, o ajudante-esquilo, a minha mãe sabia como as coisas funcionam em Moçambique. Nessa tarde, os guardas do balcão de embarque do aeroporto celebraram o dia. Tiveram com que pagar o amor ordinário das ruas esconsas da cidade. Comeram travessas róseas de camarão tigre. Beberam até os corpos adormecerem de cansaço. E não repararam na abóbada celeste que, nessa noite, se cobriu de estrelas violáceas, iguais às lágrimas grossas de uma menina que nunca chegou a cruzar o mar.
(O melhor dos jantares de família são as memórias laurentinas que desfiamos com descontida emoção até ao momento em que o meu pai, já bebido, começa a chamar filho da puta ao Armando Guebuza. Grandessíssimo filho da puta, é como ele diz. Nós calamo-nos, embaraçados. Não se ofende assim, por dá cá aquela palha, o presidente da república de um país.)
2012/03/26
Aninhas e o olho-mágico
A campainha tocava por volta das duas horas. A Alzira interrompia a limpeza da cozinha, fechava a torneira do lava-loiças, panelas e tachos deixados num transitório descanso dentro da cuba de inox, limpava as mãos molhadas ao avental da farda, caminhava lentamente pelo corredor em direcção à porta. Quem é?, perguntava e sabia de antemão a resposta, ainda assim punha-se em biquinhos de pés a espreitar pelo olho mágico, a porta abria-se logo de seguida, faça favor de entrar, Senhor Doutor, a menina Aninhas já está no quarto à sua espera. Olhava-te a Alzira demoradamente, eras nessa altura um homem bonito, elegância trabalhada, ainda a podridão da velhice não te chegara, usavas fatos de dois botões, camisas brancas feitas por medida, botões de punho, um anel brasonado no dedo mindinho. Venha que levo-o até lá, depois, se quiser, posso arranjar-lhes um lanche. Davas-lhe uma pancadinha do braço para sentires a firmeza do corpo, gozavas em silêncio o atrevimento, deixa estar Alzira, conheço bem o caminho; metias-lhe uma nota de quinhentos escudos no bolso da farda, não vale a pena preocupares-te com o lanche, almocei uma feijoada à transmontana, ainda estou a arrotar a morcela e couve lombarda, e chegavas-lhe o rosto, boca aberta, para que ela sentisse no teu hálito a verdade do que dizias. A tua mão entrava então no bolso de renda pontilhada da farda, tocava o osso ilíaco, saliência tão estranha, onde se sente a finitude do corpo, espécie de cabo, lugar sombrio onde alguma coisa termina e outra começa; esse toque, breve, fazia despertar o seu corpo adormecido, o teu também despertava que uma empregada doméstica é sempre mulher de muita serventia.
Esperava-te no quarto. Escutava os teus passos e a tua aproximação, saber-te do outro lado, fazia crescer o meu desejo. Às vezes, tão grande era, fazia tremer-me. Tens frio, Aninhas?, dizias ao entrar e sem mais começavas a despir-me. Na cozinha, a Alzira tirava a nota de quinhentos escudos do bolso, olhava com desprezo a cuba de inox, deixava os tachos e panelas para depois. Ficava à coca. Apurava os sentidos, escutava com aprumo de tísica os ruídos, os estores baixando, as cortinas corridas, a chave rodando na fechadura, uma, duas voltas, porta fechada, sossego garantido para a explicação de matemática. O meu abandono, esse meu desfalecimento de presa fácil, dava-lhe ânsias de liberdade, estava certa de que o teu método de ensino era único, talvez a bissectriz e os números primos se decorassem melhor na escuridão, talvez o cálculo algébrico se apreendesse melhor na liberdade da nudez.
A Alzira ia até ao salão, abria o bar do móvel de mogno, enchia um copinho de aguardente de pêra. Esquecia a loiça, o arrumo da cozinha, punha-se à janela a gozar a vista o rio. Escorripichava o copinho de aguardente. Volta e meia dava estalinhos para aguentar a adstringência na língua, a aspereza que lhe corria pela garganta. Saías pela tardinha, pouco antes da chegada do meu pai, tão triste que ele ficava por nunca se cruzar contigo, tanto que queria agradecer-te a disponibilidade para me preparares para os exames finais, tenho de telefonar ao César, dizia, é um amigo do peito, amigo para a vida, estima-o muito, Aninhas, que como o César há poucos, o que ele nos tem valido depois da morte da tua mãe. A Alzira levava-te à porta. Cambaleava e tinha olhos de carneiro mal morto, era da doçura invisível da aguardente, levava os botões da farda desapertados para deixar fugir certos calores. Arfava. Um dia - bebera dois copos de aguardente que lhe trouxeram coragem -, à saída, explicou-te que não queria ser empregada a vida inteira, andava a estudar à noite, gostava muito de aprender, mas tinha muita dificuldade com a matemática, o Senhor Doutor, desculpe o atrevimento, também me podia dar explicações de matemática. Disseste que sim, era só combinar. Ela agradeceu, fechou a porta. Depois, elevou o corpo para te espreitar pelo olho mágico.