Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/12/24
Rafael
A
camioneta chegou a Pangim depois da hora da sesta, no preciso instante em que o sol começava a decair e a cidade se preparava para a frescura
do entardecer. O início da noite traz às cidades do oriente uma aceleração de
corpos e movimentos, luzes explodem por todos os cantos como fogos de
artifício, misturam-se as conversas das pessoas com as conversas da gralhas que
descansam nas copas das árvores enquanto debicam frutos maduros que pingam mel
para os passeios. O início da noite não marca o fim do dia. Na Índia sempre
tive a sensação de que o dia continua noite fora. Só termina quando fechamos os
olhos. Procurei, no meio da multidão do terminal, Rafael, o amigo do meu pai, a
convite de quem viera a Pangim. Não me deixou sozinha por muito tempo. Conheci
Rafael o ano passado, no crepúsculo nacarado de Curtorim. É um goês alto.
Tem a robustez de um herói grego. Usa o cabelo branco puxado para trás e óculos
de aros pretos a marcar-lhe pesadamente o rosto. É um gigante delicado. É assim
que o vejo. Corremos ao bairro das Fontainhas onde estava hospedado em casa de
um amigo. “Venha,
venha. O meu amigo vive rodeado de coisas preciosas.”, disse ao chegarmos a uma casa antiga cor de
vinho. Perante o meu olhar inquisidor esclareceu: “Antiguidades!” Percival
Noronha, o dono da casa, é mais velho do que Rafael, rondará os oitenta anos.
Traz o corpo frágil. Há-de ter os ossos porosos e rendilhados. Ofereceu-me
chá e um bolo escuro de frutas que vinha embrulhado em papel pardo. Caetano, o
empregado que nos serviu, tinha o rosto puído pelos anos. Olhando em redor
vislumbrei vestígios de uma Goa que desaparece com lentidão. Como um corpo que
se afunda devagar nas águas densas e movediças de um pântano. As paredes
esmaecidas com retratos de gente já morta. O mobiliário indo-português, cheio
de arabescos e floreados, a fazer lembrar contorcionistas de circo. Livros e
mapas espalhados por todo o lado. Loiças chinesas antigas, com desenhos de
pagodes e pinheiros mansos, dormitavam nas vitrinas dos louceiros. Percival
pediu desculpa pela desarrumação da sala e contou a sua história: os cargos públicos
exercidos na Índia de Salazar, o interesse pela história de Goa, os convites
das universidades portuguesas para leccionar, as recepções organizadas para os
presidentes Mário Soares e Cavaco Silva, a paixão pela astronomia. De repente,
interrompeu o seu relato e levantou-se, dizendo que estava na hora do
lançamento do livro. Era para isso, para o lançamento de um livro na Fundação
Oriente, que eu viera ao encontro de Rafael. Ao entrar no jardim da fundação,
que fica na rua onde Percival mora, reparei que as pessoas se movimentavam com
a cerimónia própria daquelas ocasiões. Avistei apenas dois brancos: um homem
cujo rosto me pareceu vagamente familiar e uma mulher que espantava pela
informalidade. O cabelo curto num desalinho. A ausência de pulseiras, brincos
ou anéis. A roupa larga e sem corte. Achei-a feia, demasiado pálida. Fumava. Esse gesto
pareceu-me insuportavelmente masculino e inadequado.
2012/12/12
Quimioterapia
- A Graça chorou tanto hoje de manhã.
- Tem passado muito!
- Custa-me vê-la assim.
- Uma mártir!
- Contou que o marido continua a fazer-lhe a
vida negra.
- A maldade está-lhe no sangue…
- Diz-lhe coisas horríveis.
- As tareias de morte que tem apanhado!
- Ela nunca me diz directamente que o marido lhe bate.
- Envergonha-se. Não quer aborrecer-te com os problemas dela.
- Mas devia.
- Mesmo assim, fraquinho da quimioterapia, continua a bater-lhe!
- Nojento.
- Era melhor que morresse….
- Não digas isso.
- Não digo isso? Acabava-se o martírio.
- É sempre horrível desejar a morte de alguém.
- Achas que ela, no fundo, bem lá no fundo, não deseja o mesmo?
- Acho que sim. Se ele morresse era um alívio.
- Claro que era! Os homens são todos uns cabrões, filha.
- Pois são, mãe.
2012/12/11
Sinos
Há dois sinos na minha vida. O sino da igreja de Nossa Senhora de Fátima que toca ao meio-dia e o sino da igreja de Moscavide que repica quando saio da estação de comboios e atravesso o parque de estacionamento à procura do carro. São dois sinos mansos, obedientes, disciplinados. É preciso estar com atenção para os escutar no turbilhão da cidade.
Irmã
Certa
vez instruí a minha irmã mais nova sobre o meu funeral. Uma mulher deve ser
previdente e cuidar de todos os seus assuntos, incluindo a morte. Se há coisa
que me aflige é imaginar-me enterrada num cemitério com vista para a cril ou
para a crel ou para a radial de Benfica. Junto a um retail park. Pedi-lhe que me enterrasse no cemitério da aldeia, perto dos nossos
avós, onde, mesmo morta, possa sentir o cheiro das figueiras e escutar o ronco
das motorizadas que, pela tarde, levam os velhos de volta para os montes. Que
tratasse de me arranjar uma campa rasa, com uma lápide branca, sem fotografias
ou epitáfios. Que me vestisse a saia antiga, rodada, de veludo cotelê, me
apanhasse o cabelo numa trança e colocasse nas orelhas as arrecadas incas que
nunca fui capaz de lhe oferecer. Se for tempo das dálias e dos cravos túnicos
que peça licença à vizinha Teresa e à Preciosa dos queijos, a que é belfa e usa
sempre um chapelinho de palha, para os apanhar dos canteiros e os coloque numa
jarrinha branca. Fi-la prometer que me enterraria sem a presença de estranhos.
Quero um funeral selecto. Com quem gosto. E preciso. Pai, mãe, tia, irmãos,
filhos, sobrinhos, as primas da aldeia. Mais ninguém. Pedi-lhe, ainda, que
cantasse o poema: Quando
eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar
chicotes, chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro
ajaezado à Andaluza... A um morto nada se recusa. E eu quero por força ir de
burro. Ai dela que não me faça
as vontades! Pobre e querida maninha. Hei-de voltar, pior do que fui, um
espectro medonho e terrível, para lhe fazer a vida negra.
(A minha irmã anda triste, a precisar de amparo. É uma novidade. Sempre foi ela que cuidou de nós.)
2012/11/24
Luzia
Por
insistência do marido - mais do que a aliviar do trabalho queria mostrar que
tinha folga financeira para contratar uma empregada doméstica -, arranjou uma
rapariga para ajudar na limpeza da casa e na preparação do jantar de
aniversário. A princípio sentiu-se embaraçada por ter quem trabalhasse sob sua
ordenança e supervisão. Nunca mandara em ninguém. Descendia de uma cadeia de
antepassados assalariados, a miséria havia de vir de longe, uma genealogia de penúria,
sofrimento e trabalho mal pago. Como podia quebrar essa linhagem de obediência
e servilismo? Que autoridade tinha para se fazer obedecer? A estranheza foi passageira.
Quando a empregada tocou à campainha pela manhã, Flandres sentiu uma alegria
semelhante à de uma criança que se prepara para brincar ao faz de conta. Não
podia deixar de se sentir animada! Preparava-se pela primeira vez na vida para
mandar. Era excitante, essa possibilidade de submeter os outros à sua vontade,
até aos seus caprichos!Não estava,
porém, habituada à assertividade da linguagem das patroas. Desconhecia que,
para alcançar bons resultados, uma criada deve tratar-se com frieza, ignorando
sentimentos, mágoas e amuos, uma criada não é bem gente, apenas um corpo de
trabalho, deve ser varada com palavras ríspidas e repreendida com a firmeza de
uma chibata que estala no lombo de uma mula. Flandres era inepta no ralho,
inábil na orientação. Pior, não sabia dar ordens, a cada instante, as transformava em pedidos.
- A
Luzia não se importa, por favor, de começar a picar as cebolas e os alhos para
o bacalhau?- e, com a sua boca bem desenhada, cheia de meiguice, largava um
sorriso encantador.
Uma
ordem nunca pode ser dada com a cortesia de um pedido, muito menos com a
solicitude de uma súplica. Uma ordem bem dada não admite recusa ou hesitação, já
os pedidos são totalmente falhos de potestade, dependem da vontade do
interpelado, uma pessoa só os satisfaz se quiser. Luzia, a ajudanta daquele dia,
ligeiramente anémica, cheiro de suor e detergentes entranhado nas carnes
descoradas, rapidamente se deu conta da inexperiência de Flandres. Abusou da
sua amabilidade, foi mesmo muito calona, deixou o salão mal limpo, bolas de
cotão aos cantos, e, invocando uma repentina alergia, recusou-se limpar a casa
de banho com lixívia e amoníaco. Pediu um detergente neutro que não lhe ardesse
nas mãos. A princípio da tarde, depois de interpelada com tantos pedidos gentis,
Luzia estava completamente liberta: não se sentia obrigada ao respeito
subserviente que sempre se deve a uma patroa. Começou a dar palpites sobre a
ornamentação das travessas e, vendo Flandres olhar para dois serviços de loiça,
sem saber qual escolher, numa voz afectada e petulante, deu a sua opinião:
- Não
gosto nada desse serviço com o cavalinho! – explicou, apontando com um gesto de
desdém a loiça tradicional da fábrica de Sacavém. - a senhora use antes aquele com
a cercadurinha dourada que é mais moderno!
Flandres
ouviu e acatou. Luzia era empregada, mas, de tanto ser mandada, aprendera a
usar uma voz autoritária, cheia de sujeição e disciplina.
2012/11/01
Maria Adelaide
O médico explicou-lhe. Tratava-se de um carcinoma hepatocelular, as metástases encontravam-se já espalhadas pelo corpo. Faria tudo o que estava ao seu alcance para lhe aliviar as dores. Iniciaria de imediato os tratamentos quimioterápicos para a destruição das células tumorais. Avisou-a dos efeitos colaterais: náuseas, vómitos, diarreias, anemia, alopecia. Marcou nova consulta para daí a quinze dias. Despediu-se do médico com um aperto de mão e um sorriso. Queria sentir tristeza e não conseguia. Sabia que devia chorar. Meteu a guia de tratamento dentro da mala e saiu do consultório. Fez o caminho mais longo para casa. Andou durante bastante tempo tentando perceber o que sentia. Sem rodeios ou dramatismos: tinha um cancro e morreria em breve. Entrou no prédio onde morava passava das oito horas. Chamou o elevador que chegou aos guinchos. Entrou na cabine e olhou-se ao espelho. Só quando viu o seu ar macilento, a cicatriz no lábio superior, o cabelo num desalinho, os olhos encovados, o aborrecimento de uma vida plasmado no rosto feio, percebeu o que sentia. Era frustração e vergonha. Nada mais. A sensação de que Deus a gozava. Novamente. Nascera para ser gozada. Carregou no botão do oitavo andar. Nessa breve viagem, pareceu-lhe que o tempo se alongava. Dentro do tempo havia mais tempo. Dentro das horas mais minutos. Dentro dos minutos mais segundos. A vida passou-lhe diante dos olhos. Como se fosse um filme.
Chamava-se Maria Adelaide. Fora sempre uma criança enfezada. Nascera com uma fenda leporina no maxilar superior. A mãe, uma doméstica muito crente, casada com um construtor civil de Fátima, chorou-lhe o nascimento como se do ventre lhe tivesse escorrido o ser mais infame à face da Terra. Aos dois anos foi operada para fechar a fissura que causava tanto embaraço nos passeios domingueiros. Ficou-lhe uma cicatriz grossa e vermelha, aos gomos, que parecia ter sido suturada por uma costureira inexperiente, com fio de estopa, a sangue frio, sem cuidado ou gentileza. Feiinha, de uma feiura quase comovente por causa da cicatriz que lhe ficara no rosto, sentia-se sempre posta de lado nas festas familiares. A mãe bem podia enfeitá-la de laçarotes e vesti-la de folhos que as primas Arlete e Gorete, as gémeas que viviam na Bobadela, robustas e sadias, sempre lhe mostravam que a beleza era requisito imprescindível para uma mulher ser feliz. Faziam questão de lhe mexer na cicatriz porque, como explicavam, parecia um bichinho de seda morto. Chegavam tios e tias, primos e primas para a celebração dos domingos pascais e para a ceia de natal. A vivenda que o pai mandara construir em Sacavém, mesmo à beira da estrada nacional, revestida de azulejos cor de caramelo, rebentava nesses dias de festa. Os homens sentavam-se nas poltronas de cabedal do salão a mastigar rodelas de chouriço assado e quadrados de queijo flamengo. As mulheres enfiavam-se na cozinha a admirar os novos conjuntos de taparuéres que a mãe adquiria compulsivamente. As crianças corriam para o quarto de Maria Adelaide onde havia uma estante só para as bonecas compradas em Badajoz. Em cima da colcha de renda branca, de pernas abertas, muito esticadas, uma sevilhana vestida de folhos vermelhos, travessa e mantilha, olhava-se, altiva, no espelho oval do pechiché. Maria Adelaide seguia o bando e metia a sevilhana a salvo, em cima do roupeiro, não fosse algum dos primos parti-la e a mãe apanhar um desgosto profundo. Um dia descobriram que Laidinha, era assim que a família a tratava, gostava do primo Renato, rapaz de uma beleza óbvia e ordinária. As primas fizeram uma algazarra. Correram a contar-lhe. O primo olhou-a de cima a baixo e deu uma gargalhada escarninha que ficou, para sempre, presa nas paredes do quarto. Foi a primeira vez que Maria Adelaide sentiu que Deus a gozava. Não voltou a brincar com os primos nas festas de família. Ficava sentada no salão, entre os homens, mordiscando azeitonas.
A adolescência passou sem atropelos, entre a escola secundária de Sacavém e o grupo de jovens da paróquia. Continuava feia, apagada, triste. Não teve borbulhas e o período menstrual apareceu-lhe aos doze anos, num dia de muito calor enquanto dormitava em cima da colcha de renda ao lado da sevilhana dos folhos vermelhos. Quando acordou, reparou que um sangue vivo manchara a colcha branca e a mantilha da boneca. A mãe ralhou-lhe por não puxar a coberta para trás e mandou-a tomar banho. Depois correu para o tanque a esfregar com sabão de seda a vestimenta da espanhola. Por essa altura nasceu-lhe também um buço de pêlos escuros que acentuava a cicatriz por cima do lábio. A mãe correu a pedir ao construtor civil cinquenta contos para várias sessões de depilação eléctrica que salvassem a filha da vergonha do hirsutismo. Foram as duas a uma esteticista de Camarate, que também era conhecida por ser muito boa calista. Feita a primeira sessão, arrancados os primeiros pêlos, a cicatriz inchou, como se fosse um animal furioso. No dia seguinte, Adelaide acordou dorida, cheia de crostas. Explicou à mãe que não voltava a Camarate. Sentia que a cicatriz rebentava e um abismo de novo se abria no rosto. Achou que Deus a gozava pela segunda vez. A esteticista veio à vivenda dos azulejos cor de caramelo. Aplicou-lhe emplastros de vinagre na cicatriz e passou a oxigenar-lhe o buço de quinze em quinze dias. Também recomendou um calicida oriental muito bom para os joanetes da mãe que a aliviava muitíssimo das dores que sentia nos pés ao final do dia.
Não quis estudar apesar da insistência dos pais. As gémeas Arlete e Gorete entraram em Direito e tornaram-se mulheres emancipadas, de cigarro ao canto da boca e cabelos ripados, pintados de cores estranhas. Acaju. Ameixa. Adelaide tirou um curso profissional de contabilidade e casou aos vinte e cinco anos com um amigo do grupo de jovens. O namorado era mais velho e tinha uma fé que a todos espantava. Fazia retiros constantemente. Rezava com muito fervor. Namoraram pouco tempo. Eduardo José, assim se chamava o namorado, quis casar mal se empregou na Repartição de Finanças de Sacavém. As primas vieram ao casamento, cheias de écharpes esvoaçantes, pochetes refulgentes, sapatos forrados de cetim. O primo Renato também veio. Casara-se com uma enfermeira parturiente da margem sul. Pouco depois do casamento, Adelaide descobriu por que razão o marido lhe suportava a feiura da cicatriz e o resto: a flacidez precoce do corpo, a mãe tão espampanante e impositiva, as conversas aborrecidas do pai sobre como era difícil encontrar pessoal que dominasse a técnica do assentamento da cerâmica e do azulejo. O marido fugia-lhe do quarto e continuava a passar os fins-de-semana em retiros espirituais. Percebeu que se forçara ao casamento para disfarçar certas tendências quando o encontrou, numa madrugada de Dezembro, na casa de banho masturbando-se com várias revistas espalhadas pelo chão. Eram homens com homens nas páginas das revistas e o marido, com as calças do pijama de flanela para baixo, olhando-os como se estivesse possuído por mil demónios. Maria Adelaide definhou a olhos vistos. Deus gozava-a pela terceira vez.
Aconselhou-se com a mãe. Não tinha mais ninguém a quem recorrer. A mãe escutou-a na vivenda de azulejos cor de caramelo. Explicou-lhe com inesperada clareza a natureza instrumental do casamento: era apenas um meio para se alcançar um fim. Maria Adelaide encontrou certo conforto no conselho. Chegou-se ao marido e disse-lhe que podia suportar o resto desde que tivessem um filho. Foi mãe aos vinte e nove anos. A menina que nasceu era muito bonita. Maria Adelaide rejubilou. Achou que a beleza da filha vingava o seu passado de permanente gozo: o lábio leporino à nascença, a mãe assim como era, a gargalhada do primo Renato no quarto das bonecas, o despeito das primas, o marido olhando imagens de homens nus. As primas, Arlete e Gorete, estranhavam a extraordinária beleza da menina. Não percebiam como podia a Laidinha ter tido uma menina tão linda. Mais parecia filha da Broke Sheilds. Descobriu-se, pouco depois, que a menina sofria de atrasos graves. Mal falava e babava-se muito. As primas voltaram a visitá-la e a consolá-la. Conseguiam suportar a beleza da filha agora que a sabiam tolinha. Deus voltava a gozá-la. Pela quarta vez.
Desde essa altura, passou a pensar frequentemente na sua morte. Era uma suicida crónica, mas era uma suicida feliz. A ideia da morte aliviava-a sempre. Às vezes, durante a noite, quando estava triste, pensava no seu funeral e sentia-se logo melhor. Imaginava então o caixão descendo à terra, a laje branca, o primo Renato chegando com a enfermeira da margem sul. Via-se deitada, as mãos postas em cruz, uma renda cobrindo-lhe o rosto, tornando-o desfocado, disfarçando-lhe a cicatriz do lábio. Quase que ficava bonita assim, morta, vista através das rendas. As primas e as tias haviam de chegar-se perto e chorá-la com sinceridade. Sentia que a morte era um remédio para todos os seus males, mas também uma maneira de mostrar aos outros a sua força. Há tantos anos que pensava na morte que se acostumara a ela. A morte era a sua derradeira oportunidade de ser feliz. Que Deus lhe servisse agora, assim de repente, a morte, de bandeja, era coisa que não tolerava. Não queria que Deus lhe oferecesse um carcinoma hepatocelular, lhe tirasse o mérito da decisão, a espectacularidade do gesto trágico. Não aguentava que Deus a gozasse assim, tão descaradamente, como quando era pequena e soltara uma gargalhada no seu quarto. Por isso sentia vergonha e frustração.
Estremeceu quando o elevador chegou ao oitavo andar. Foi como se despertasse. Tomara uma decisão. Nessa noite, limpou a loiça do jantar, adormeceu a filha, telefonou à mãe que enviuvará há pouco e vivia ainda na vivenda revestida de azulejos cor de caramelo. Escutou o ronco do marido, aconchegou-lhe a roupa. Teve pena dele. Abriu a janela da sala, subiu para o parapeito e deixou-se cair. Nessa breve viagem, desde o momento em que os pés se soltaram da janela e o seu corpo tocou no chão da rua, Maria Adelaide voltou a sentir que o tempo se alongava. Dentro do tempo havia mais tempo. Dentro das horas mais minutos. Dentro dos minutos mais segundos. Uma eternidade.
2012/10/22
Felicidade
Trago ao pescoço um lenço de lã preto, velho,
que herdei da minha avó Felicidade. É um dos lenços que ela costumava usar na
cabeça. Aconchega-me o peito, esconde o decote. Gosto de o levar ao nariz e
procurar, em vão, resquícios mornos do cheiro dela. Toco no lenço e lembro que,
durante a adolescência, tive vergonha da minha avó, do seu ar provinciano, do
seu lenço de luto, sobretudo, das suas mãos. Mãos de bruxa, mãos em garra,
nodosas, ásperas, mãos de terra, de tanto e tanto que passou. Saber-me assim, ainda
que num passado distante, é coisa que dói. Queria, na altura, uma avó da
Avenida de Roma, igual às das minhas amigas, com cabelos armados pintados de
azul e cãezinhos de companhia no regaço. Não queria aquela. Que nunca lera um
livro. Nem uma revista. Que não sabia sequer escrever o seu nome. Hoje, não sei
porquê, veio-me uma saudade grande dela. Da avó que cantava canções que falavam
da lua, das giestas da serra, do alandroal. Da avó que contava histórias de
bandidos e animais fabulosos. Da avó que sabia jogar ao jangro, fazer flautas
de caninhas, chifres de lenços e bonecas de pano, esguias, muito feias e
imperfeitas.
2012/10/16
2012/10/15
Carrossel dos Esquisitos
O rapaz mais feio do meu curso casou com a rapariga mais feia do meu
curso. A feiura dos dois é coisa nunca vista. Excessiva num mundo onde a beleza
é quem mais ordena. Ele tem a pele muito seca, originada por uma qualquer
doença de pele, psoríase provavelmente. Volta e meia, as escamas da sua pele
soltam-se e deixam à descoberta manchas de um vermelho intenso e feio. Tem os dentes
salientes, a fazer lembrar um coelho gigante. Uma pessoa olha para ele e
espera, a qualquer momento, vê-lo cobrir-se de uma pelagem cinzenta e desatar a
saltitar, frenético, em busca de um prado verdinho. É juiz. Há alguns anos,
apanhei-o numa comarca do interior, muitíssimo sério, feioso dentro da sua
beca, cheia de cordões e pregas, a ditar despachos com uma voz fanhosa. Quis
atirar-me à cara a superioridade da sua casta. Deixei-o. Uma coisa é ser
magistrado. Outra é ser jurista de um instituto público.
Ela, a rapariga mais feia do meu curso,
sempre foi velha. Já o era na faculdade. Usava saias por cima do joelho e
calças vincadas. Tinha olhos pequeninos, a pele baça, o cabelo oleoso colado ao
rosto, sem vida, sem volume. Alta, movimentava-se com lentidão como se o corpo
lhe pesasse em demasia. Tinha, e tem, uns enormes pés voltados para fora, as
ancas largas, muito robustas, a maternidade entranhada nos ossos das bacia.
Deve ter seguido o notariado. Assentos, certidões, averbamentos, procurações, testamentos,
tudo ela há-de tratar com eficiência e sisudez, disfarçando o fastio que o
cheiro a papel velho lhe provoca. Eram ambos alunos aplicados. Não faltavam às
aulas, não frequentavam o bar, não fumavam, não bebiam, tinham notas medianas.
Eu desprezava-os porque eles simbolizavam tudo o que eu não queria da vida:
ordem, conformismo, rotina, previsibilidade.
Ultimamente, andava eu já tão esquecida dos
tristes anos em que andei na faculdade de direito, voltei a cruzar-me com eles.
Devem viver no meu bairro. Encontro-os no talho a pedir carne picada para fazer
almôndegas e na mercearia a comprar duzentos gramas de fiambre de peru. Andam
sempre juntos, de mãos dadas. Ele olha-a com amor. Ela deixa-se envolver pelo
amor dele que é como uma gaze diáfana, muito leve e delicada. São, de uma forma
quase escabrosa, felizes por se terem. Olho-os com uma pontinha de emoção e
muita vontade de chorar.
2012/10/12
Azeite
1ª parte
O homem abre o armário. Tira uma garrafa de vidro escuro. Explica: é
preciso que compreendas a divindade deste líquido, sagrado como o chão de um
cemitério; cheira a aloés, agaves, zambujos, alperceiros e laranjais, recorda a
rigidez láctea das rochas calcárias, nele se aninha o sopro do oceano e a doce
barbárie das figueiras da índia; tem moléculas antigas, leves e aristocratas,
também polifenóis, tocoferóis e carotenos, andam à solta, em carnavais de
concertina e gaita de beiço, dão-lhe um travo picante, acidez que mal se nota.
2ª parte
A mulher pensa: tudo o que é divino é aborrecido e a maja desnuda continua,
em estático convite, pendurada no prado, já nada acontece quando por ela passo;
morri há muito tempo, mas esqueci-me de me levar a enterrar, mesmo morta deixo
entrar filetes de lava, gumes de faca, às vezes, touros solitários que
resfolegam uma bravura que cheira a urina. Entram e saem. Saem e entram. O
movimento é perpétuo, nunca termina. Deixa marcas de ripos e malhos. Esgaça-me
os panais.
3º parte
A mulher pega na garrafa. Olha-a. O homem acredita, por breves instantes,
que comunga da divina unção, falará talvez da purificação dos leprosos, dos
votos dos nazireus, de açafates de coscorões de ázimo e obreias de mel. A
mulher deixa cair a garrafa. Caminha sobre os vidros. Sabes, explica, por fim, sou
parecida com este líquido, livraram-me do ranço, rasparam-me o verdete, mas fico
sempre a boiar na bordadura dos corpos.
2012/09/28
2012/09/27
Foice e martelo
Voltei ao Porto. Trouxe da loja do Rui Carlos vários livros de uma tal Luísa Teles,
conhecida professora, que morreu há coisa de dois anos, sozinha num apartamento
de tectos estucados. Ao que parece era uma velha com muito mau feitio,
autêntico camafeu, deu-lhe uma convulsão, espumou da boca, arranhou o rosto com
as unhas azuladas e finou-se num instantinho.
Entre outras coisas, trouxe uma edição
muito bonita e sóbria - título e nome do autor emoldurados a vermelho e
cor-de-laranja - de “Uma abelha na chuva”. É um consolo olhar para um livro
assim. Também trouxe uma colectânea de poesia árabe. Não sou apreciadora
de poesia tal como não sou apreciadora de bacalhau ou de bebidas brancas. Sei
que é uma falha grave para quem alardeia o gosto da leitura. Vai daí, lá de vez em
quando, faço um esforço. Ainda este Verão, a Mila, enquanto molhávamos os pés
na água fria, me falou com emoção de um poema da Natália Correia. Fui à procura
dele, li-o e nada, nem ai, nem ui, palavras bonitinhas, coceguentas, pouco
mais. A poesia não me aquece, nem me arrefece, dá-me sonolência e um
aborrecimento de frígida. Trouxe mais quatro ou cinco livros de escritores
portugueses que são os que mais gosto de ler. Mas o grosso da escolha recaiu sobre vários livros da Agustina Bessa-Luís, antigas edições da Guimarães, que as
novas, as azuis, da defunta Babel dão-me calafrios, pretensiosas, feias, tão
canastronas.
O Rui Carlos, antes de me entregar os livros,
passou-os a pente fino, tirou bilhetes, contas, folhas, flores, vários esboços
de desenhos, duas cartas em papel translúcido, caligrafia inclinada, maiúsculas
dramáticas, de golpe acentuado. Perante o meu protesto, explicou que prometera
aos filhos da tal Luísa Teles preservar a intimidade da mãe. Fiz beicinho a ver
se o demovia. Sou um homem de palavra, Aninhas, escusas de fazer essa carinha
laroca, espetar o rabo nessa saia justa e bater as pálpebras, que não me
convences. Ficou um montinho de papéis em cima do tampo de mármore, o último
era um cartão de militante do PCP, bem vi a foice e o martelo; eu, aguada, a
olhar.
2012/09/21
Mata-moscas
Tivemos uma discussão medonha (detesto esta palavra, medonho, medonha, mas não sou capaz de encontrar sucedânea), ao final da tarde, na cozinha, os vizinhos escutando a nossa vida. Pela primeira vez na vida, não senti medo - tenho tanta vergonha do meu medo - , estranhei a minha segurança e certeza. Quando saiu, andei a confortar os miúdos, lambi-lhes as lágrimas, contei histórias, li em voz alta para o João adormecer. Depois, pus-me a ler a Agustina e descobri isto: "Era uma coisa maravilhosa esse abismo na vida de duas pessoas, com os seus tempos separados, de desejo, procriação e de trabalho. O amor era talvez uma longa rebelião absorvida pela paz de cada um". ´Refeita, fui buscar um mata-moscas e andei a matar meia dúzia de palavras-arremesso que insistiam em voar pela cozinha. Ficaram os seus corpos de queratina presos às paredes de azulejos azuis. Larguei o mata-moscas a um canto e senti fome. Fui buscar uma carcaça. Molhei o miolo no molho da carne assada. Comi pedaços grandes, cheios de gordura coalhada e cebola.
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