2012/09/04

Índia



(Chegou o meu cartão de overseas citizen of India. Recebi-o das mãos do meu pai com tanta alegria. Volto em Dezembro. E o Aamir Khan é lindo. Mete o Hrithik Roshan e o Abhishek Bachchan a um canto.)

2012/08/29

Dor


Diz-se que o tempo tudo cura, mas o silêncio é de melhor serventia, tudo apaga, não se falando das coisas é como se elas não existissem. Aconteceu o mesmo a Odete. Foram-se as agonias, o mal-estar inicial, calou frustrações, chegou o filho, sumiu-se de vez o sofrimento. A maternidade, para além da perpetuação da espécie, serve muitas vezes para secundarizar uma mulher. Foi nessa instrumentalização que o destino de Odete se cumpriu. Passados tantos anos, tantos domingos, uma vida inteira, ficou lá dentro uma coisinha, uma dor a saracotear no fundo do peito, uma dorzita que é quase nada, Odete já não dá por ela, fracota, extingue-a diariamente com uma alegria breve, uma gargalhada solta em frente da televisão, dois dedos de conversa com a Nanda, a satisfação de um casaco comprado nos saldos, custava sessenta e cinco euros e comprei-o a trinta, rica pechincha. Fica o casaco durante o inverno dentro do armário porque ganha borboto com muita facilidade, a fazenda é ordinária e a cor demasiado viva, inadequada à idade que tem, mas a alegria breve, essa que cala a dor, já ninguém a leva. 

2012/08/28

Aznavour



(Três da manhã, o Joquinhas às voltas na cama, sonha com piscinas e bisnagas de água, os outros a monte,  gozando o declínio das férias, eu a ler o manual de patologia médica que trouxe do Alentejo, as notas a esferográfica da minha mãe, desenhos de cisnes e tulipas, o cheiro a mofo das páginas amarelecidas. Trouxe também um livro de 1960 sobre desejo e perversão sexual, magnífico achado de verão; mas esse desconfio ser pertença da tia Dé.)

2012/08/25

Quelimane


Todas as famílias têm segredos. A minha é pródiga em histórias, incertezas, meias verdades, omissões, em calar a dor. Olho para os meus irmãos. Não vivo longe deles, sem as vozes dos filhos deles chamando-me tia. Um dia partiremos para Quelimane. Lá encontraremos o homem que engoliu o mar e, na sombra de uma árvore frondosa, enroscada numa capulana garrida, a menina que escutava canções do Roberto Carlos.

Dentro de casa

2012/08/02

Billie Jean (2)



(Mas antes deixo o original, melhor. Esta canção liga que é uma maravilha com S. Bartolomeu da Serra, o cheiro a porcos no crepúsculo, o moinho que foi do tio Manuel visto do quintal, os pessegueiros enxertados que davam frutos grená e que já só existem na minha memória,  as sopas de tomate feitas pela prima Filomena que custou a engravidar, tanto que chorou por não cumprir o seu destino de fêmea, o mar frio e revolto de São Torpes, os meus mortos e os meus vivos, que se fodam os que não são meus, só tenho amor aos meus, o café da associação de moradores onde uma brasileira de sobrolhos impecavelmente arranjados, a Denise, tira cafés amargos e suscita a lascívia dos homens que sossegam o cansaço do trabalho do campo, a minha filha namoricando o Artur, miúdo loiraço, com muito pêlo nas ventas, o mais pequeno correndo atrás dos gatos, o mais velho encostado ao meu corpo, amparo da minha solidão. )

Billie Jean



(Depois da santíssima trindade, Sérgio Godinho, Fausto e Chico Buarque, este é o homem mais bonito à face da terra. Nunca vi um nariz tão bonito. É lindo. E como é possível não se gostar do Michael Jackson? É preciso ter o cu muito dorido de enrabadelas intelectuais para não gostar do que é simplesmente perfeito. E, agora, vou de férias, que bem as mereço.)

2012/07/21

Les neiges du Kilimandjaro



(Fui à primeira sessão. Na sala, eu e uma velha de vestido roxo que me contou que, quando era da minha idade, fez um cruzeiro no Volga. Fartei-me de chorar. Tão bonito, o filme. Vou obrigar o meu pai, a minha mãe, a tia Dé e os miúdos mais velhos a irem vê-lo.)

2012/07/20

Inverno

2012/07/13

Alentejo



(Estou completamente viciada no Roque Popular, sobretudo, na Luzia, tão linda esta canção, hei-de tê-la ouvido mais cem vezes, hoje. E, em Agosto, falta pouco, volto à minha aldeia alentejana, que tem festa com frangos assados, baile, festeiros e festeiras, a Marisa cabeleireira, tão jeitosinha, e a Luísa nojenta, de tacões  de madeira e blusas transparentes, puta da Luísa - gorda e loira, tinha de ser loira, deslavada, imbecil, as loiras são quase sempre assim, convencem-se de que a palidez lhes mascara a primitiva insignificância -  roubou o namorado à minha prima Filomena, a maior suinicultora do litoral alentejano; em Agosto, a festa em S. Bartolomeu da Serra tem leilões de garrafas de vinho do porto e leitões, uma mulher de olhar permanentemente espantado, contam que foi resquício de mal de amor, também lá está a prima Laura, sentada a uma mesa de fórmica, umas vezes triste, outras alegre, nunca se sabe como está, é como calha, que a bipolaridade não é doença só de gente de inteligência superior, também marca os outros. Eu, entre eles que me recebem sempre com distância, danço com este e com aquele, os meus filhos correndo no adro da estação, descansando por fim em colos negros, alapando na Virtuosa e na Preciosa. Os meus avós, José e Felicidade, largam a cova nessa noite para ver os bisnetos. Sou menos infeliz em Agosto porque os sinto. Quis-lhes tanto. Quero que os meus filhos amem os meus pais exactamente como eu os amei. Como se pode gostar da merda do Algarve, havendo o Alentejo?)

2012/07/09

La Llorona



(Quando os miúdos me mimam, és a melhor mãe do mundo, dizem, dou-lhes para trás. Explico-lhe que a melhor mãe do mundo tive-a eu. Não há, nunca haverá outra igual. Cantava esta canção e eu, pequenina, ficava presa às palavras que lhe saíam da boca. Faz hoje 72 anos. Parabéns, meu primeiro amor, minha menina velha.)

2012/07/05

Mulher-árvore (4)


Sucede que a semente era embrião de uma árvore de grande porte, mastodôntica, cruzamento de sequóias e embondeiros, viera trazida num cargueiro senegalês que aportara em Lisboa num dia de vendaval; uma rajada mais forte, aparentada dos alísios tropicais, fizera-a voar para terra. A árvore cresceu, cresceu, cresceu, fez-se de copa ramalhuda, folhagem densa e luminosa, a mulher andava na rua e toda a gente lhe gabava o ornamento. Por altura do Natal, porém, começou a sentir desconforto, custava-lhe aguentar o peso da árvore. Tinha de a tirar. Fazia-o com pena. Gostava de acordar de manhã e sentir a líquida condutância do seu corpo arbóreo. Por causa da fotossintética mentolada melhorara substancialmente dos seus problemas respiratórios, deixara de usar o brisomax e o pulmicort. Na rua, muitas vezes, vinham bandos de pardais atrás de si, atraídos pelos frutos roxos que nasciam aos cachos, ficavam os passarinhos a aguar com vontade de bicar os abrunhos; às vezes, se tinha tempo, a mulher parava, deixava-se estar perfeitamente imóvel e punha-se a observar a aproximação dos pássaros. Repiu, piu, piu, faziam os pardais, deliciados com a polpa sumarenta e doce, estremeciam de satisfação, as bárbulas perdiam o tom pardacento, refulgiam em cores estranhas: ametista, magenta e aspargo. A mulher das narinas grandes não era, por isso, capaz de simplesmente a arrancar. Matar a árvore estava fora de questão.

Procurou ajuda junto de uma amiga jardineira, muito boa pessoa, que trabalhava na Câmara Municipal de Loures. A amiga logo reconheceu as suas limitações, estava habituada à manutenção das espécies comuns, não era especialista no transplante, tentara trazer quatro oliveiras centenárias – corriam risco de se perderem por causa da construção de uma nova estrada camarária - para o largo do tribunal, cumprira meticulosamente as etapas do transplante de árvores de porte médio, mesmo assim perdera duas, definharam lentamente até se tornarem troncos estrangulados. Aquela árvore exigia a intervenção de um sábio. Por sorte, explicou a jardineira, o maior sábio botânico europeu vivia em Portugal, chamava-se José Theophrastus e vivia em Paço de Arcos, numa vivenda recamada de azulejos cor de caramelo, junto à marginal.




2012/07/02

Mulher-árvore (3)


Durante algum tempo, sempre que a mulher se sentia tentada a guardar qualquer coisa dentro das narinas, lembrava as duas rãs que lá tivera hospedadas. Um dia, porém, enquanto passeava no porto, entre contentores e cargueiros encontrou, junto a um caixote de lixo, uma semente. Muito pequenina, com a forma de um feijão, tão bonita e estranha. A mulher quis guardá-la para a mostrar ao filho mais pequeno, que todos os dias chegava da escola com flores, folhas, pedras e paus para lhe oferecer, mas, nesse dia, por sorte ou azar, usava um vestido largo sem algibeiras. Levou a semente ao nariz. Sentiu um cheiro mentolado, cheiro de hortelã, poejo, lúcia-lima e erva-cidreira. O cheiro intenso pareceu-lhe muito adequado ao desentupimento das fossas nasais. É que, apesar de não ter diagnóstico definitivo, tanto podia ser rinite alérgica ou bronquite asmática, a mulher vivia numa permanente aflição, falta de ar, chiadeira e piadeira, sempre pingando um ranho aguado, nariz permanentemente trancado. Talvez o cheiro mentolado da semente ajudasse no tratamento da sua maleita. Enfiou-a no nariz e sentiu alívio imediato como se tivesse posto vinte gotas de cloridrato de nafazolina em cada narina. Nessa noite deitou-se e, ao contrário do habitual, dormiu um sono seguido. Sem sornadura. Foi assim durante duas semanas. Até que, numa manhã de Setembro, o inesperado aconteceu. Estava o filho mais pequeno, rapazinho chamado Quinzolas, cheio de caracóis dourados, tão bonito que mais parecia um anjinho barroco, sentado à mesa da cozinha a tomar o pequeno-almoço. Bebia o leite com cola-cao por uma palhinha encarnada antes de ir para a escola.  A mulher das narinas grandes entrou, queixando-se das sandálias novas que lhe apertavam muito os joanetes. Mal a viu, o menino engasgou-se, esguichou leite achocolatado pelo nariz e deu um grito, apontando para o rosto da mãe.


A mulher correu ao espelho da casa de banho, assustada, talvez lhe tivesse nascido uma verruga com pêlos no queixo ou talvez o cabelo tivesse embranquecido de um dia para o outro, já ouvira falar de casos semelhantes. Sossegou mal se viu ao espelho: um pequeno ramo, ligeiramente retorcido espreitava na sua narina esquerda; na ponta, nascera uma folhinha encerada, a fazer lembrar as das japoneiras, assim de um verde muito vivo e luminoso. O ambiente acolhedor, tal como fizera eclodir os ovinhos das rãs guineenses, fizera germinar a semente mentolada. Nascera-lhe uma árvore no nariz. A mulher ainda pensou em arrancá-la com uma pinça tal como fazia aos dois pêlos que lhe nasciam no queixo por cima de uma cicatriz antiga. Porém, ao segundo relance, resolveu deixá-la estar. Pois não havia quem andasse de anilha de bovino no nariz, alargador na orelha, corpo tatuado, postiços de gel em cima de unhas ratadas? Porque não haveria ela de andar nos transportes públicos, no supermercado, trabalhar ao balcão do banco, participar nas reuniões de condomínio, com uma pequena árvore pendurada no nariz?

2012/06/29

Mulher-árvore (2)


São duas rãs papua-nova-guineenses, espécie raríssima, o mais pequeno vertebrado do mundo, foram descobertas recentemente por um cientista libanês que passou três anos na floresta birmanesa, vivendo rente ao chão, por baixo de uma seringueira. O libanês descobriu-as por acaso enquanto defecava junto a um formigueiro. Têm apenas cincos milímetros!, disse o velho maravilhado, língua bífida, silvando de alegria. Caminhou, sanfonando, até uma sala cheia de livros encadernados; iam os livros do chão ao tecto, arrumados sem ordem, sem método, abandonados em estantes de metal. O velho sentou-se numa secretária de teca, ligou um tablet de última geração e pesquisou durante algum tempo. Duas iguanas plácidas mastigavam um livro enciclopédico que tratava da reprodução em cativeiro de caimões. Devoravam páginas amarelecidas. Perante a facilidade de acesso do saber digital, permanentemente actualizado, os livros já não tinham outra serventia que não fosse aquela: ser papados. As rãs caganitas-de-tucano, retomou pouco depois o velho, são assim chamadas porque o libanês, a princípio, as confundiu com os dejectos de tal pássaro; alimentam-se de mosquitos dim-dim, melgas dom-dom e, sobretudo, de formigas azuis. Ora, formigas azuis não se encontram por estas zonas, mas mosquitos dim-dim tenho-os à farta para alimentar o salamandrim de cauda roxa. E saiu, deixando a mulher das narinas grandes sozinha na biblioteca com as iguanas plácidas; entrou, pouco depois, com uma caixinha redonda nas mãos.

Paciente, sentado numa poltrona muito velha, pôs-se a enfiar num palito os mosquitos que ia tirando da caixinha. Pediu à mulher para reclinar a cabeça levemente para trás e ficar imóvel. Enfiou a espetada na sua narina direita. Puxou-a, depois, muito lentamente, saíram as duas rãs agarradas ao palito, acastanhadas, muito lambareiras, mastigando freneticamente com as suas boquinhas de anfíbio os tais mosquitos dim-dim. A sua pequenez realmente impressionava. A mulher agradeceu ao velho que, como paga, pediu para ficar com os minúsculos animais, com sorte, talvez formassem casal, poderia fazer criação, ter ninhadas de caganitas-de-tucano. A piton amarela e o crocodilo do Nilo certamente apreciariam o petisco. Eram os maiores animais que viviam no apartamento. Gostavam de anfíbios pequeninos em geral, mas tinham predilecção por sapos touro recém-nascidos, não eram de visão agradável, translúcidos e pelados, mas tinham um sabor intenso, faziam lembrar jaquinzinhos e petingas. Ele próprio não dispensava o pitéu. Comia sempre um pires de sapinhos ao final da tarde acompanhado por uma cerveja bem fresquinha. Os sapinhos touro, assim comidos, ao natural, sem louro ou coentros, só uma pitada de sal, eram uma iguaria, reconhecia-o. Mas as caganitas-de-tucano deviam ser melhores. 

2012/06/27

Mulher-árvore (1)


Era uma vez uma mulher que tinha as narinas muito grandes. Não eram as narinas apenas abertas e suínas, não, nada disso, eram narinas verdadeiramente grandes, autênticas divisões espaçosas, amplas, onde se escutava o eco e o silêncio que vem de seguida. Por as ter assim, tão grandes, a mulher servia-se delas como espaço de arrumos, guardando a tralha que já não queria em casa, manuais escolares antigos dos filhos, brinquedos velhos, roupa fora de moda, sapatos cambados.

Um dia, andava a passear numa ribeira, as margens cheias de aloendros, um cheirinho tão doce e enjoativo no ar, encontrou um seixo pequeno, do tamanho de uma amêijoa, rolado, liso, irisado, muito bonito. Quis guardá-lo. Enfiou-o dentro da narina direita. Andou com a pedrinha no nariz durante muito tempo. Não lhe causava incómodo. A mulher, porém, não se dera conta do brinde que a pedrinha levava; dois ovinhos minúsculos, amarelo esmaecido, que, com a humidade da cavidade nasal, não tardaram a eclodir. A mulher passou a sentir um saracotear dentro da narigona, muitas cócegas, como se uma lagarta de pezinhos de lã por ali andasse. Certa manhã, ao acordar, ouviu um coaxo, a seguir outro, depois mais outro. Que era aquilo? Que som estranho saía do seu corpo? Tentou espirrar a ver se se livrava do incómodo, mas nada. Foi às urgências em busca de alívio. O médico, um ucraniano de lábios muito finos e cabeleira despenteada, espreitou com uma lanterna fininha. A senhora tem duas rãs na narina direita, estão lá muito ao fundo, escondidinhas atrás de uma caixa cheia de livros e da bomba de hélio para encher balões, mesmo lá atrás, onde é mais húmido e escuro, quase não as vejo, vai ser o cabo dos trabalhos para as tirar de lá. Eu não consigo, explicou, por fim, amaciando a cabeleira farta e demoníaca, talvez seja melhor consultar um herpetólogo. Não foi fácil à mulher das narinas grandes encontrar um herpetólogo em Lisboa, os poucos que havia andavam por longe, nas selvas cor de laranja da Malásia, de galochas enfiadas, enterrados em pântanos e mangues, à cata de rãs, sapos, salamandras, lagartos e cobras. A mulher soube porém que, em Algés, ali junto do Aquário, vivia um velho estudioso que transformara o apartamento num imenso anfibiário-reptilário. Procurou-o. O velho era um ser estranho, muito esguio e escorregadio, parecia movimentar-se como uma sanfona.  À conta de tantos anos vivendo no meio de cascavéis, serpentes e dragões de komodo, o seu corpo adquirira a primitiva aparência dos répteis: os braços cobertos por escamas granulares, locomoção ondulatória, uma língua fissurada apta a detectar vítimas e predadores. O velho enfiou um capacete de mineiro com uma luz azul, fez pontaria e espreitou para dentro da narina direita da mulher.

2012/06/26

Raoul

2012/06/25

Santinha

Tivemos, advogadas e juíza, que nos chegar perto da testemunha para que nos ouvisse. Gritámos-lhe as perguntas ao ouvido, sentindo-lhe um cheiro adocicado de lar de idosos. O velho respondeu, gagá, balbuciando umas frases com sentido, outras sem o ter. Chamou-nos santinhas - ó santinha, toda a gente no prédio sabia que o Capitão Matos tinha uma caçadeira e dormia a sesta com a Fernanda, por sinal, bem boa! - eu a escutá-lo, a moer para dentro, sabendo bem que, se em vez de mulheres, o estafermo do velho tivesse apanhado juiz e advogados, adoptaria outra postura, havia de se esmerar na formalidade sebosa, no unto subserviente, Sr. Doutor Advogado isto, Senhor Doutor Juiz aquilo. No final, a juíza agradeceu-lhe o depoimento. O velho levantou-se a custo e começou a andar devagar, tremelicando, apoiado numa bengala de madeira encerada. Em pouco tempo se finará, sete palmos de terra por cima, coroas de gerberas e cravos brancos a alindar. Ia a meio do caminho, passava pela minha bancada, quando pediu autorização à juíza para me dedicar uns versos. A santinha lá de cima, galhofeira, rubicunda, rubiácea, rubiforme, assando dentro da sua beca cheia de cordões e preguinhas, autorizou. O velho encheu o peito de ar. Explicou que na vida tivera quatro paixões: a rádio, a columbofilia, a poesia e as mulheres. Depois, abriu os braços, temi que ao largar a bengala se estatelasse no chão, fez da sala de audiências palco e debitou uns versos mal amanhados sobre uns olhos castanhos. Agradeci-lhe, no fim, como me competia, triste com a minha sina: só os velhinhos têm apreço pela minha pessoa. 

2012/06/23

Jacaré

Dominó


Faço a A5 e a Segunda Circular, já muito tarde, a cidade passa e são quase bonitos os subúrbios assim, feitos de escuridão e luz; levo filhos e sobrinhos, dormem nos bancos de trás, encostados uns aos outros, como peças de dominó: o Joaquim de boca aberta, a Bia com a trança de rapunzel desfeita, a Dá esquecida da tristeza com que acordou, choro porque preciso, tu não dizes que, às vezes, também precisas de chorar, sou igual a ti, a mesma tristeza, mãe, a mesma alegria, o Diogo com o corpo do meu irmão, africano sem o querer. Gosto de ser tia tanto quanto gosto de ser mãe. Lembro o João que anda a acampar com o meu pai por Espanha, repetindo gestos, visitando o Vale dos Caídos, outras memórias do franquismo, lendo mapas, aprendendo, como eu aprendi, que o amor do meu pai é um amor condicional, a mais pequena desilusão e perde-se. Lembro a minha mãe e a minha tia, ando com vontade de comer sopa de tomate, disse a minha mãe, hoje, à saída do Colombo, e chegou-me uma vontade de chorar tão grande. Se me morrem os pais morro também. Sou filha. Mais do que mãe. Lembro o telefonema do Pedro a meio da semana, tia, amo-te muito, disse para me confortar, a minha irmã do outro lado explicando que ando sensível, a tia Ana anda tristonha, tens de a animar. E animou. A sorte que tenho em os ter, a eles que são o meu sangue, aos outros que chegaram: o Manuel, patrono querido que se fez cunhado, gosta do Céline, do Jack London, do Durrell, do Proust, goza as minhas leituras; a Maria de Lurdes, meio bronca, mas intrinsecamente boa, e isso é bem mais importante do que saber falar de livros, de filmes, da merdice cultural, tão bem que nos damos nas férias, falando de mundanices  e bebendo minis ao final do dia enquanto cozinhamos para os nossos filhos. Como se pode viver de costas voltadas para a família? Somos como peças de dominó. Caindo uma, sou sempre eu a cair, caímos todas. 

2012/06/22

Lana del Rey

Refeitório


Ao meio dia e quinze estou sentada junto do balcão da fruta, de frente para a linha de servir, a apreciar as movimentações dos que chegam e dos que estão, a Fátima serve o peixe e a dieta, a Rosa cuida da fruta e do prato de menu, a chefa, fascista do pior que há, cheia de vitiligo nos braços e na carranca de superior hierárquica, serve a carne com uma soberba que espanta, medindo as fatias de lombo assado, põe e tira, tira e põe, confirma a grossura à contraluz, a medir, a sentir o peso, não vá descuidar-se e exagerar na dose do mini-prato; a mim, que pouco como, não me causa mossa, não sei, porém, como ainda ninguém lhe atirou com a avareza à fronha medonha. O rapaz das arcadas já chegou. Está em frente da vitrina das sobremesas, mãos nos bolsos, hesita entre uma gelatina de morango e uma bavaroise esbranquiçada de ananás. Vindo das entranhas do edifício, chega, entretanto, o mefistofélico que me deixou há uma semana um bilhetinho no tabuleiro. Desde esse dia passei a ter-lhe nojo, um asco incontrolável de mulher esmagada. E, no entanto, não foi desagradável, nem mal-educado, nem sequer rude. Limitou-se a convidar-me para tomar café. O mefistofélico conhece o rapaz das arcadas, talvez trabalhem na mesma direcção, pergunta-lhe o que anda a ler e olha-me pelo canto do olho. O rapaz paga a refeição e senta-se na minha mesa, quatro lugares de intervalo, fico numa ponta, ele noutra. Há meses que é assim. Costumava sentar-se perto da porta da saída, um dia sentou-se na minha mesa. Cumprimenta-me com um aceno breve, gesto que mal se nota. Espio-lhe as leituras abertamente, esta semana anda a ler a história universal da infâmia. Engulo a sopa de legumes e uma tacinha de arroz doce, por vezes, distraio-me da leitura para falar à Rosa que tem família no Catembe e em Mapusa. O rapaz come o menu completo sem nunca tirar os olhos do livro, uma concentração que me aflige. Saberá ele que a Rosa se chama Rosa e que a Fátima, viúva alegre, chorou mais a morte do caniche preto do que a do marido? Saberá ele que a chefa do vitiligo tem uma neta chamada Virgínia Estefânea? Não sei. Só sei que lemos juntos ao pequeno-almoço e, juntos, continuamos a ler durante a hora de almoço. Depois, até voltarmos cada um à sua secretária, ele senta-se a ler na ruidosa sombra das arcadas do edifício, eu vou escutar o terço na igreja ao lado. Temos, eu e o rapaz das arcadas, a relação perfeita. Fazemos muita companhia um ao outro. Estamos solitariamente acompanhados. Ou acompanhadamente sós. Qualquer coisa do tipo. É o silêncio que nos une.

2012/06/20

Notícia



( E o rapaz que amei na faculdade, deu-me a conhecer esta canção nas escadas na biblioteca João Paulo II, casou com uma mulher que trata os filhos por você. É feliz.)

Nós

Faz hoje um ano que tomei uma caixa de Xanax, disse a mulher ao empregado do bar. Depois calou-se, estranhando as palavras que se tinham soltado da sua boca. Nunca ninguém lhe falava desse dia. Nem o marido. Nem os irmãos. Nem os pais. Nem a única amiga que tinha. Era como se não existisse. Como se outra, que não ela, tivesse naquele dia rondado o bairro de Chelas à procura de espantar a dor para os homens que, sonolentos, despertavam para a manhã. Como se outra, que não ela, tivesse escutado os renhaus dengosos que as mulheres lhes lançavam das janelas dos prédios de habitação social. No fundo, aquele dia só existia para ela, para mais ninguém. Por isso o celebrava sem que os outros soubessem, bebendo ao final do dia, num bar da rua de São Paulo. O empregado do bar voltou e pousou no balcão um copo triangular, com gelo moído e hortelã fresca. Sorriu-lhe de forma profissional, asséptica, como a querer dizer-lhe olhe que eu também tenho os meus problemas, não estou com disposição para confissões. Mas a mulher não o percebeu. Ou fingiu não o perceber. É triste uma pessoa falhar até na morte, não acha? E, sem esperar pela resposta, começou a chupar o sal dos bordos do copo.

(Faz hoje precisamente seis anos que tentei matar-me e, hoje, o médico da medicina do trabalho disse que eu era uma mulher bonita, tem três filhos, dizia, uma profissão, mas tantos nós por desatar. Aconselhou-me psicanálise. Não quero desatar os meus nós, gosto deles assim, cegos, brutos, alimentam-me. Tive vontade de o mandar para o caralho.)

2012/06/17

Sade shade of blue

Pau de cabinda


Ao final da tarde, andei na internet à procura de consultas de sexologia clínica. Encontrei uma no Hospital Júlio de Matos e outra em Santa Maria. Opto por ir a Santa Maria, dispenso o estigma do Júlio do Matos, ser frígida não é bem o mesmo que ter um parafuso a menos. Tenho os parafusinhos todos. Tenho a lucidez de perceber quem sou. Fiquei muito contente com a minha decisão, dizem-me que é importante procurar ajuda para os problemas que nos vão surgindo na vida, talvez haja um  equivalente do viagra ou do pau de cabinda para as mulheres; senti-me invencível, tanto que, apesar de estar no segundo dia da menstruação, dia de hemorragia forte, meti um tampão plus, sem aplicador, enfiei-o bem na fundura da minha vagina, lavei as mãos e fui correr.

2012/06/16

Guia

Aninhas e os dois amores


Aninhas, submissa e abnegada, dava-se a muitos homens, mas amava apenas dois. Um loiro, outro moreno, como na canção. Era feliz durante a noite, enquanto sonhava: deitava-se com um, acordava com outro. Despertava aliviada por nenhum desses homens a amar. 

2012/06/14

Estrela da tarde



(e a noite encheu-se de ausência, vazio, solidão.)

Morte santa (1)



A um canto, num cadeirão de napa, um homem dormia, estiolado, mãos de trabalho, rugosas, cheias de cortes, dedos inchados, unhas brancas de cimento; viera para cumprir a obrigação que se impunha, apresentar os seus sentimentos, dizer duas palavras à viúva, explicar-lhe que, no dia seguinte, por se iniciar a cofragem na obra, não poderia vir para o funeral. O cansaço, porém, fizera-o sentar-se no cadeirão, adormecera em pouco tempo. Dormia profundamente há já meia hora. Sornava sem alarido. Sentadas, junto de uma janela, como corvos espiando o bosque, duas velhas, casacos de lã escura, pés enfiados em pantufas, murmuravam rezas novas. Negrume de mulheres sós, escuridão funda e imensa. Estavam as velhas de olhos secos, mas expressão de pesar, como convém nestas ocasiões. Em lugar de destaque, a viúva, mãos postas no regaço, lábios tensos, parecia aliviada. Mulher indistinta, anódina, sem traços ou marcas, quase invisível. Ao centro, enfiado num caixão de pinho barato, recamado de cetim branco, o brilho dos tecidos baratos iluminando o velório, estava o morto, corpo robusto, rosto descoberto, vestindo um fato de três peças; nos pés, os sapatos que levara ao casamento da filha mais velha. Quando alguém chegava, dirigia-se à viúva, dizia breves palavras de consolo, partia pouco depois com a satisfação de uma obrigação cumprida. Quem chegava não olhava o morto. Ninguém se abeirou sobre o caixão para o chorar ou ver pela última vez o seu rosto. Homem mau, de costumes beras, nascera com a maldade no corpo. Viera para o prédio muito novo, sem passado, nem lembranças, casado com aquela mulher, trabalhava conforme calhava, um dia aqui, outro acolá.

Taciturno, pontapeava gatos, cães e crianças que se atravessassem no caminho, bebia muito, arranjava sempre zaragatas, engalfinhava-se em cenas de pancadaria, ficava com olhos inchados, equimoses, chagas abertas que custavam pouco a sarar, passados dois ou três dias aparecia como novo, entrava no café, pedia um copo de vinho, depois outro e mais outro. A ruindade parecia ter nele um efeito regenerador, o diabo que lhe vivia no corpo tratava-o com ligeireza mágica, punha-o bom num instante, assim, recomposto, sem marca de humana fragilidade, podia voltar a ser simplesmente mau. Tratava a mulher à pancada, as filhas também. Às vezes, trazia-as para a escada do prédio para lhes bater à vista de todos. Suas putas, suas grandes putas, ia dizendo enquanto lhes batia, as mulheres agachadas, mãos a proteger a cabeça, acostumadas àquilo, incapazes de se sentirem vítimas, aguardando apenas que se cansasse e recolhesse ao apartamento. Que a morte o tivesse vindo buscar assim, ligeirinha e benevolente - um ataque súbito enquanto dormia em frente do televisor, espumou da boca, levou as mãos ao peito, esperneou um instante, soltou dois gritos mudos e foi-se – era coisa que indignava muita gente. Quando se soube da notícia, pela manhã, houve até quem lamentasse ter tido uma morte assim, devia ter sofrido como a vizinha do rés-do-chão esquerdo, o carcinoma lento sugando-lhe tudo, desfazendo-a, arrancando-lhe o estômago e as tripas, deixando-a liquefeita por dentro; gemeu a coitadinha durante dois meses agarrada a um rosário da terra santa, abençoado por um bispo brasileiro, que encomendou através do canal televisivo de uma igreja evangélica neopentecostal.

2012/06/13

Rachmaninov



(e a noite encheu-se de sossego.)

2012/06/10

El enanito (7)




Depois de dias de hesitação, vou, não vou, vou, não vou, voltei à Almirante Reis. Pouca, nenhuma, a vontade de encontrar o meu amigo e a sua Moranguita. Custa-me a felicidade dos outros. Lisboa não é a minha cidade, nunca será, mas a Almirante Reis é a minha rua. Metamorfoseio-me se estou quinze dias sem lá ir. Começa a pele a secar, ganho impingens pruriginosas, coço-as até sangrar, os pêlos do buço crescem mais depressa, muito pretos e arrepiados, incham-me os olhos, até a voz se altera, perde robustez, fica um esganiço que se enrola nas palavras. Na quarta-feira, acordei com duas manchas alaranjadas no braço direito, resolvi meter um dia de férias. Larguei os miúdos na escola, o mais pequenino disse-me um segredo ao ouvido, e rumei à Almirante Reis. Fui descendo a avenida devagar. Mal cheguei à esquina com a Antero de Quental, encontrei o meu amigo, vestia uma bata ensanguentada, vinha de fazer uma entrega na Marisqueira do Lis, mas tinha tempo para uma bebida. Sentámo-nos na esplanada do chinês vesgo, cá fora, a gozar o fresco do mês de Outubro, eu a matar saudades da indigência, ele, perninhas bambas, baloiçando, sem chegar ao chão, a contar-me as novidades. Arranjei trabalho no talho do Karim. Ele tinha, como ajudante, um costa marfinense, uma besta grande, fazia para aí dez de mim, quatro dentes de ouro, evaporou-se de um dia para o outro, levou três frangos do campo, uma palete de codornizes e uma carcaça de vaca ainda por desmanchar. Deixou o Karim numa aflição. Ofereci-me para o ajudar. Ele aceitou e mandou fazer um estrado para eu chegar ao balcão; anda tão satisfeito com o meu trabalho que até já encomendou a um artífice lá da terra dele, cuteleiro do melhor que há, um estojo de facas para o retalhe de animais de pequeno porte: patos, coelhos, frangos, galinhas.

A Moranguita, continuou, é que ainda não encontrou trabalho. Vai fazendo uns biscates. Entretém-se a fazer croché, é muito habilidosa, umas mãos de oiro, faz pegas, bolsinhas para os telemóveis, vende-as na entrada do metro.  Anda a bordar uma toalha, toda a ponto richelieu, encomenda de uma finória qualquer, encavalita-se em cima de um bastidor especial que comprámos na Rua da Conceição, passa a noite naquilo. Também ajuda a limpar o altar da Igreja dos Anjos uma vez por semana. Para além de contorcionista, é exímia trepadora, mete-se em buraquinhos, nichos de santas, amarinha por ali acima, parece um sagui, leva uma flanela embebida em óleo de linhaça, deixa tudo num brinquinho.  O padre, um velho jesuíta, diz que nunca teve a igreja tão limpa, os rostos dos santos andam luzidios e os ornatos da talha dourada parecem feitos de sol e luz. Parou um pouco. Limpou a saliva que se acumulara na comissura dos lábios e cumprimentou uma matulona que ia a passar. Sabes, nos dias em que faz a limpeza aos santinhos, à noite, quando se deita, ainda leva aquele cheiro perfumado, cheiro de mirra, incenso, um cheiro muito oriental. Enfio o nariz nos pentelhinhos, andam tão macios, e perece que estou numa medina magrebina, cestos cheios de tâmaras, latoeiros, homens de cócoras fumando, como lagartas azuis, narguilés. Cheirá-la nesses dias basta-me. Depois, abruptamente, deu um salto, fez uma momice que me pareceu escusada, e despediu-se, desculpa, mas tenho de voltar ao trabalho que o Karim prometeu que, se houvesse pouco clientela, me ensinava a desossar uma galinha.

Dei-lhe um abraço, bebi mais um sumol e pedi a conta. Voltei a subir a Almirante Reis. Olhando a montra de uma sapataria, encontrei-me do outro lado, achei-me feia como um xarroco, primitiva como um rascasso, plana como uma tremelga. Estava eu na habitual comiseração, quando alguém me chamou. Olhei e vi um velho abonecado, lenço de seda, casaco assertoado, apoiado num andarilho de quatro pés. Reconheci-o imediatamente. Era o velho do açafate de fruta, o quase defunto da empregada brasileira, o miserável que me escorraçara sem dó nem piedade do seu apartamento sombrio da Passos Manuel, furioso com a minha iliteracia, como se pode viver, gritou-me naquela tarde, sem conhecer o decandentismo e o vitalismo moderno? Tivera uma franca melhoria, a brasileira dera-lhe a experimentar um chá de flor de fava, estava muito melhor, já não usava algália, largara de vez a literatura, tomava apenas o vigamed e o tryptanol para o coração. Estou como novo, rematou, vou ali abaixo à procura de carninha, alcatra, chambão do bom, tenho comido do melhor. Escutei-o em silêncio. Depois - não sei explicar porque o fiz - perguntei-lhe se lhe apetecia a minha companhia. Disse que sim. Pegou no andarilho de alumínio, largou um pingo de baba e pôs-se a andar a meu lado muito devagar.

2012/06/05

El enanito (6)


Pediu-me para o deixar na Almirante Reis. Larguei a melancolia que, assim como a acolho, também a despacho rapidamente, enxoto-a como insecto insignificante que é, muitos anos de depressão dão nisto, é o hábito, ganha-se calo, frieza e distância, uma pessoa aprende a relativizar o sofrimento, não há dor a que a gente não se habitue. Não vais para a Pensão S. Miguel, pois não? perguntei e finquei-lhe um olhar indignado, furibundo, chispante, como que a dizer largo-te já no meio da rua, ali ao pé daquele rapaz que passeia, sem trela e açaime, um pit-bull, se me disseres que a levas para o lugar dos nossos encontros. Não, olha que ideia, vamos ficar na Casa de Hóspedes Mirabel, é um sítio de gente séria, sem putedo, sem máquina de preservativos na entrada, sem lençóis amarelos a cheirar a lixívia, sem caixinhas de toalhetes em cima das mesas de cabeceira, fica um bocadinho mais abaixo, é um prédio azul antes de chegar àquele supermercado chinês onde tu gostas de comprar caldinhos de massa, barras de sésamo e novelas escritas em cantonês para teres a ilusão do mundo de lá. Sosseguei. Passou-me a irritação. A Moranguita chegou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, peguei-a ao colo e sentei-a na cadeira do meu filho mais novo, uma isofix da Chico, maravilha de cadeira, comprei-a numa promoção, ainda assim custou quase duzentos euros, mas não me arrependi, material ventilado, reforço lateral, apoio regulado para a cabeça, tem um arnês forrado, imobilidade absoluta, cinco anos de garantia; bati já duas vezes depois de a comprar, o mais velho rebentou com o lábio, a do meio deu um gangão violento, andei durante vários dias com o peito dorido, mas o mais pequeno, instalado no seu trono, nada. Segurança total.

Desci a Gago Coutinho devagar. Íamos em silêncio. A Moranguita dormitava lá atrás; pelo retrovisor, reparei que um quelóide avermelhado, lagartinha fibrosa, lhe marcava o peito. Sempre que vejo uma cicatriz, o relevo monstruoso, sinal de abertura, tenho vontade de lhe tocar. Uma cicatriz escarifica, é marca de imperfeição, tumefacção permanente, reconduz-nos à nossa fragilidade e insignificância. Fui o resto do caminho a espiar-lhe a rasgadura do corpo. O meu amigo, sentado ao meu lado, emudecera. De vez em quando, limpava os cantos da boca com um lenço de papel. Chegámos por fim aos Anjos, estacionei a Hiace em frente de um prédio pintado de azul claro, varandas de ferro, janelas de alumínio com venezianas amarelas. A Casa de Hóspedes Maribel era ali. Já no passeio, o meu amigo pediu-me emprestados quinhentos euros, que me pagaria assim que pudesse, era só para os primeiros tempos. Passei-lhe um cheque. Deu-me um beijo no rosto, és uma amiga impecável, Ana Clara, explicou, perdigotando, a adjectivação ficou-me a latejar na pele. Depois, pondo um ar sério, ofereceu-me o tal cacho de bananas, eram bananas especiais, não tinham nada a ver com as bananas chiquita que crescem em plantações infindáveis e são regadas com chuva de antibióticos e insecticidas, nada disso, fora apanhá-las mesmo antes de ir para aeroporto ao quintal do seu amigo Pablo, descendente directo de mapuches e olmecas, eram mágicas, quem as comia ganhava poderes esotéricos, a nefanda capacidade de adivinhar o futuro. Agradeci o presente, muito obrigada, tu sabes bem o que gosto de bananas. Começava a preocupar-me o delírio do meu amigo. Andei o resto da tarde de passeio com o cacho de bananas mágicas. Cheguei a Caxias passava das dez. Tive vergonha de confessar à minha irmã que o enanito do meu coração me trocara por outra. Mal me viram os miúdos enrolaram-se nas minhas pernas, veio-me assim uma sensação de estrangulamento e desmerecimento, de ingratidão insuportável, tanto que eu gostava de ser uma fêmea como deve ser, falando de criancinhas de manhã à noite, o meu João tem um coração de ouro, a minha Dá tem cinco a tudo e toca violino, o meu Joaquim canta todas as canções do Chico Buarque. Levei-os para casa. No dia seguinte, pedi à empregada que panasse as bananas mágicas com pão ralado e as fritasse em azeite para acompanhar um pedaço de picanha nacional. Sempre é mais barata. A minha filha gostou muito e, ao contrário do que é habitual, nessa noite, pediu para repetir o jantar.

2012/06/01

Sexta-feira




Serpentes emplumadas e diários remendados para digerir noite fora.  Mastigar um e depois outro, intervalando,  para não enjoar. Uma garrafa de vinho tinto que custou nove euros e um maço de cigarros. O Chico Buarque canta para a mulher que dança na cozinha, descalça, calças descaídas, t-shirt  justa e curta, corpo moribundo espreitando. Não há homem, nem sequer mulher,  que a livre da morte.  E, amanhã,  a mulher levanta-se às seis da manhã  para levar a filha ao campeonato nacional de ginástica. Como detesta a vidinha. Dizem, explicam-lhe,  que é mal-agradecida, injusta e imatura, que é estúpido, profundamente estúpido, querer da vida mais do que a rotina. Uma pessoa deve habituar-se à indiferença reptilária, gelada e escorregadia. Arrogância intolerável, essa de querer mais qualquer coisinha, primícias, liberdade,  a poesia espalhada pelo chão.

2012/05/08

El enanito (5)


Parou um bocadinho. Estava cansado. Ele falava, falava. Eu escutava, escutava. A Moranguita corria, corria. O meu amigo alçou a perninha curta, pôs-se em biquinhos de pés e, antes que pudesse ajudá-lo, dando impulso ao corpo atarracado, sentou-se na bagageira da Hiace. Depois, baixou a voz e explicou-me que resolvera abandonar em definitivo a indústria pornográfica, já não queria ser uma porno star, não estava para isso, não fora só a humilhação de o terem trocado por um burro, chegou o bicho como se fosse uma estrela, vagaroso e arrogante, puxado por uma arreata do mais macio couro, havia uma meda de feno chileno à porta do estúdio, para lhe encher o bandulho depois de cada cena, era sobretudo por estar farto de contracenar com mulheres de estatura maior. Cansava-se muito. As actrizes pornográficas, mais do que as outras, à conta de tanto enchimento e recauchutagem, eram autênticas cavalonas; injectavam-se com silicone, colágeno, às vezes, até com gordura animal, sobretudo de porco, que encomendavam pela internet, chegava um kit com seringa, duas bisnagas de sebo e um livrinho de instruções, não custava nada, só era preciso inspeccionar bem o produto antes da aplicação, às vezes, ganhava verdete, assim umas manchas jaspeadas que indicavam estar fora do prazo de validade. Pois essas mulheres insufladas tinham corpos que eram uma longura, não acabavam, intermináveis como o deserto do Kalahari e gelados como a tundra gronelandesa, nem imaginas, as mamas eram verdadeiras montanhas, as nádegas têm-nas infindáveis, gelatinosas, mas redondas e colossais, as vaginas são secretas, mas no pior sentido, fundas, buracos negros, autênticas cavernas, uma pessoa é capaz de se perder lá dentro e nunca mais ver a luz. 


Por exemplo, Ana Clara -  tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?

 Era por isso, por causa dessa fadiga, que, por mais estimulantes que lhe dessem a tomar, lhe custava a puxar o gatilho. Ali, no corpo da sua Moranguita, tudo estava mais à mão, concentrado. E, depois, isso é que era mesmo importante, amava-a. Foi aqui que achei que chegava de confissões. Enojou-me ligeiramente a conversa porque não acredito no amor. Acredito no amor parental, filial, fraternal, no amor que se baseia no sangue. Entre um homem e uma mulher não há amor. Há apenas rituais de acasalamento, uns breves, outros longos, capazes de durar a vida inteira. Tenho pois um leve desprezo por quem ama, mais ainda por quem desespera por não amar. Em todo o caso, para não o melindrar, disfarcei o enfado que a conversa me provocava. Pedi-lhe que chamasse a Morangita, tivera tempo mais do que suficiente para desentorpecer as pernas, tardava, ainda tinha de ir buscar os miúdos a Caxias, levar a do meio a uma festa de anos naquele centro comercial novo perto da Falagueira e passar por uma drogaria a comprar ácido muriático para a minha empregada limpar as juntas dos azulejos. Ele a falar-me da anã contorcionista, do burro de ouro, de sialorreia, do seu fracasso nos filmes pornográficos; eu a falar-lhe de filhos, de festas de aniversário em centros comerciais, da limpeza das juntas do chão da minha cozinha. Tive noção do remanso que é a minha vida e, naquela tarde, por breves instantes, senti um saracotear por dentro, vontade de chorar. Existência como a minha não se devia admitir.

2012/05/07

El enanito (4)


Fiquei ensimesmada, a pensar como se conjuga o contorcionismo com o prestamismo, sul-americanices, concluí, coisa de povos que ainda não evoluíram o bastante para chegar ao patamar da seriedade, do rigor, das contas certas, do défice controlado, tamanha liberdade e imaginação já não se usa por cá. Apaixonei-me mal a vi, continuava o meu amigo, vamos casar pela igreja, arranjar empregos, poupar para alugar um T1 e comprar dois passes sociais. Foi então que a sua Moranguita largou a fugir entre os carros, preciso dar às pernas, gritava num espanhol açucarado que me encantou, fonética cheia de modismos, quase parecia italiano, os trópicos nas línguas mãe dão-lhe outro sainete, um travo de rebelião de dígrafos e fonemas, até parece que as letras são gente. Porém, quando a vi em correria descontrolada, feliz por recuperar a marcha, começou a palpitar-me o coração, tal e qual como quando vou de passeio com o meu filho mais pequeno e o patife me larga a mão ao atravessar à rua. Temi que se perdesse ou, pior, tão pequenita, algum condutor, a bagageira cheia de malas, a pressa de chegar a casa, em manobra de arrecuo, a não visse e a atropelasse. A tragédia que seria. O meu amigo, percebendo a minha inquietação, sossegou-me, não te preocupes Ana Clara, a Moranguita está muito habituada, vivia numa urbe furiosa, cheia de chevrolets e cryslers, apesar de pequena, é mulher que nunca passa despercebida. Mudou de assunto com rapidez, nem imaginas a quantidade de pretendentes que tinha por lá, quando a conheci, andava a ser cortejada, mas à séria, com flores, mails dengosos e caixas de bombons recheados com creme de marula, por um protésico que ganhava rios de dinheiro a fazer dentaduras caninas; havia também o padre da sua paróquia, rapaz novo, empenhado na conversão dos infiéis, muito pior do que o protésico dentário, nunca me enganou, eu bem via como se animava quando levava a minha Moranguita para a confissão. Andava a tentar convencê-la a ir na procissão da Nossa Senhora del Bueno Parto, em cima de um estrado de tabuinhas, a fazer as vezes da santa, dizia que seria um quadro vivo da virgem santíssima, coisa nunca vista, havia de comover multidões, trazer a paz aos corações malsãos; tudo sem grande dispêndio, já que era exactamente do tamanho da imagem que estava no altar da igreja, servia-lhe a túnica branca, com cercadura dourada e também o véu que parecia feito de encomenda, não precisava de nenhum arranjo, por outro lado, não pesava mais do que a imagem feita em marfinite, podia usar-se o mesmo estrado de tabuinhas. O padre ainda lhe ofereceu uma caixa de bombons com recheio de creme de avelã. Ela não aceitou, para já, por gostar muito mais de bombons recheados com creme de marula, depois, porque lhe expliquei que não autorizava tamanho disparate, era o que mais faltava a minha Moranguita vestida de santa, a tarde inteira sob o sol abrasador, passeando por calles apinhadas de gente, mãos de velhas más, de bêbados, de tarados recalcados, de mães de família e de empregados bancários, a quererem tocar-lhe o manto para se livrarem da degenerescência e do pecado.

2012/05/06

El enanito (3)


Estava eu sentada de novo no banco desconfortável, lendo o livro que trazia dentro da mala, obra aclamada de um escritor suíço morto há pouco, coisa séria, densa, cheia de referências literárias e deambulações intimistas, fazendo um esforço para ler duas frases seguidas e as compreender, quando, finalmente, vi chegar o meu amigo. Vestia bermudas, calçava umas alpercatas coloridas que lhe sobravam nos pés, chinelava, por isso, perdera o pouco cabelo que tinha, chegava cansado, via-se bem, o rosto feio sulcado por muitas rugas finas, percebi que passara as passinhas do algarve lá pelas américas. Trazia pouca coisa, arrastava apenas um trolley médio que rolava devagarinho, chiando, pela rampa da saída e, coisa estranha, um cacho de bananas debaixo do braço. Corri para ele, meu bijouzinho, meu rico enanito, finalmente voltaste; abracei-o e, por hábito doméstico, levantei-o para o pegar ao colo, tal como faço com os meus filhos mais pequenos, senti-o, porém, espernear furiosamente, põe-me no chão, se faz favor, ordenou com uma frieza que não lhe conhecia. Obedeci, envergonhada do meu gesto. Baixei-me e, de cócoras, fechando os olhos, preparei-me para o beijar. Fiquei, no entanto, de boca à banda, o beijo perdido no espaço cosmopolita da aerogare. Sabes, Ana Clara, vim acompanhado, justificou-se. Estranhei a conversa, olhei em redor e não vi ninguém. O meu amigo, antes que pudesse perguntar-lhe pela companhia, começou a andar em direcção ao parque de estacionamento à procura do meu carro. Tenho uma carrinha velha, uma Toyota Hiace cor de ferrugem que dá nas vistas, herdei-a de um tio que era construtor civil e a usava para transportar o pessoal para os prédios que construía na outra banda, Corroios, Seixal e Coina; é uma carrinha antiga, gasta muito gasóleo, deita fumo preto ao arrancar, custa a estacionar e, sobretudo, embaraça os meus filhos quando me vêem chegar ao portão da escola onde uma manada de porsches cayennes espera a saída das crias. Não é uma viatura adequada ao meu bairro, nem sequer à minha rotina, mas não sou capaz de me desfazer dela. Razões sentimentais. Na verdade, gostava muito do meu tio. O meu amigo parou quando finalmente topou com a carrinha estacionada entre um mercedes de estofos de couro e um smart amarelo, conhecia-a bem porque, às vezes, por desfastio, para não enjoarmos da cama estreita do quarto 27 da Pensão S. Miguel, acabávamos a tarde em cabriolices lá dentro. Olhou em volta, com um ar muito comprometido. Só tínhamos dinheiro para uma passagem, explicou e a voz tinha uma quentura, certos arabescos e espirais, que eu também não conhecia. Curvou-se sobre o trolley, fez deslizar o fecho, abriu o saco e mostrou o conteúdo: era uma anã surpreendentemente pequena, vinha encolhida, dobrada sobre o corpo adormecido, parecia um feto aconchegado no ventre materno. Abriu os olhos e saltou do saco com desenvoltura, ajeitou a saia e explicou que trazia as pernas trôpegas de vir encolhida tantas horas dentro da sacola do companheiro. Uma anã proporcionada, sem cabeçorra, sem pernas curtas, sem braços curtos, mínima, ínfima, dava-me pela barriga da perna, muito bonita, cheia de curvas, parecia uma bonequinha. É a minha companheira, chama-se Maria Ivone, mas eu chamo-lhe Moranguita. Conhecia-a numa casa de penhores, onde trabalhava como contorcionista. 

2012/05/05

El enanito (2)


O regresso do meu amigo animou-me. Costumávamos dar belas passeatas ali pela Almirante Reis, encontrávamo-nos pelo meio-dia na esquina do Banco de Portugal, descíamos a avenida até ao Martim Moniz, comíamos qualquer coisa ao balcão, era, quase sempre, um prego e um copo de vinho verde no quiosque do chinês vesgo, depois, subíamos de novo até ao Intendente à cata de prostitutas, heroinómanos, chulos, alcoólicos, velhas de pele curtida; olhava-os como se fossem objectos preciosos, raridades de feira, tirava notas numa agenda, o meu amigo ria-se do meu entusiasmo, mas não o estranhava, percebia que por ali passava a minha emancipação. No final, acabávamos a tarde na Pensão S. Miguel, no quarto 27, tinha uma cama estreita, que nos chegava; num varandim enferrujado, duas floreiras com petúnias floridas disfarçavam o cheiro de mijo antigo que chegava da rua. Ele, a meio da entretenga, às vezes, dizia gostar de mim sobretudo por eu precisar da miséria dos outros para viver. Toda a gente tem válvulas de escape para aguentar a vida, mas a tua é de uma sofreguidão e tristeza que me comove. Deixava-o fazer análises, que fingisse à vontade ser discípulo de Freud se isso lhe enchia o ego, mas, sempre que se alongava na merdice psicanalítica, pedia-lhe que se calasse e para, com empenho, continuar a desempenhar o seu papel de cobridor. Eram umas tardes deliciosas, assim confortada, custava-me menos regressar ao meu bairro de empregadas brasileiras passeando pela tardinha meninas loiras de sobretudo azul, porsches cayenne rodando em avenidas floridas, como mamutes, gente saindo da mercearia gourmet com sacos cheios de iogurtes biológicos, massas frescas com tinta de choco, abacates, anonas e tomatinhos cereja.

Fiquei, pois, muito animada. Com sorte, voltaria a ter tardes de decadência e indecência para me consolar. Depois, há qualquer coisa no meu amigo anão que me atrai. Quando descemos a avenida de mãos dadas toda a gente nos olha: eu, razoavelmente portentosa - digo-o, sem exagero, por ser a mais pura das verdades -, rabo redondinho, cabelo muito preto, ondulando pelas costas, lábios vermelhos a desabrochar, olhos líquidos de fêmea infeliz; ele, pequenote, arqueado, hedionda cabeçorra, já meio careca, dentes tortos numa boca que saliva excessivamente. Devem achar que formamos um par insólito e estranho. O certo é que roubamos o protagonismo das putas retintas, dos bêbados, dos sem-abrigo que costumam parar à porta do talho do Karim que, jóia de rapaz, ao fim da tarde, faz panelonas de borrego guisado para matar a fome a quem a tem e ganhar o apreço de Alá. Roubar o protagonismo aos indigentes é sempre bom. Enche-me de vaidade e orgulho.

O meu amigo chegou no dia 1 de Maio. Passei uma hora em frente do espelho a escolher a indumentária certa, coisa simples, sem grandes arrebiques de sofisticação, mas que lhe acicatasse o desejo, entumecesse à primeira vista o mais que tudo e o fizesse esquecer o cansaço da viagem. Escolhi um vestido preto, justo, decotado, botas de cano alto. Pedi à minha irmã para cuidar dos miúdos. É que vou buscar o meu enanito ao aeroporto, expliquei. Ela aceitou prontamente, que não me preocupasse, ficaria com eles o tempo que fosse preciso, se precisares da noite para matar as saudades eu cá me arranjo, encomendo uma piza familiar, uma garrafa de dois litros de coca-cola e meto-os a ver filmes de enfiada. Agradeci-lhe. É uma irmã como não há outra, a minha única amiga, faz muita questão que, no meio da maternidade sufocante, arranje tempo para continuar a ser mulher. Quando cheguei ao aeroporto, estranhei um grupo de hare krishnas que para ali estava em cânticos mântricos. Esperei quase uma hora. Sentei-me num banco desconfortável e entretive-me a ver as carecas dos seguidores do guru indiano, tufos solitários de cabelos claros, dotis e kurtas cor de açafrão, dançavam e cantavam com a inépcia própria dos ocidentais tresmalhados. Senti fome, pedi uma empada de galinha e um sumol de laranja num café vazio. Enquanto comia lembrei-me das tardes na Pensão S. Miguel, ali ao lado do talho do Karim. O meu amigo anão, para além de sobredotado nas partes baixas, arrepio-me só de pensar, é um mineteiro muitíssimo experiente, sabe dar à língua, o que não é nada fácil de encontrar. Há homens que a entesam, um horror, fica aquele pedúnculo arroxeado, hirto e triangular, uma pichotinha de gato a fazer parelha com a outra, lambem-nos como se fôssemos um calipo de limão. Não se lambe uma vulva, não se percorrem os pequenos e grandes lábios, como se a língua, em vez de o ser, fosse um cajado de dureza hercúlea. O meu amigo anão nunca tentara metamorfosear sua língua, a sua mantinha a languidez própria e esperada de um músculo que não conhece a fadiga, a leveza do toque, sabia o que fazia e acertava sempre em cheio, nunca precisei de lhe agarrar na cabeça para lhe corrigir a pontaria. Enquanto ele cunilinguiava eu suspirava baixinho, mal se notava o meu prazer; na verdade, nunca fui mulher de exagerar, com urros, gritos e rolar de olhos, os meus folguedos. Atingia o orgasmo com intensidade, mas, ainda assim, nunca me libertava da envolvência. Pela janela aberta chegava o alarido dos miseráveis que, arengando, disputavam o segundo prato de guisado de borrego do Karim. 

2012/05/04

El enanito (1)


O meu amigo anão telefonou-me a semana passada de Buenos Aires. Contou-me as novidades. Tivera sucesso na indústria pornográfica. A vida correu-lhe bem durante os primeiros tempos. Mas, depois, teve assim uma espécie de esgotamento, passou a ter dificuldades de hasteamento, custava-lhe muito a enrijecer o instrumento. Ainda lhe deram a tomar uns comprimidos a ver se a coisa se compunha. Porém, no momento da verdade, estava sempre de mangalho encolhido, uma serpente velha, sem serventia alguma. O realizador decidiu tirar-lhe o protagonismo. Meteram-no num filme de furry fandom, cheio de figuras híbridas; ele de figura secundária, usava uma bandolete de crina, calções justinhos de cabedal e botins a fingir de cascos de cavalo. A princípio, não se importou com a mudança: dava descanso ao seu monumental instrumento, estava para ali, só tinha de ser passeado por uma gorducha que usava um chicote com brandura; às vezes, relinchava. O pior é que os botins com forma de casco apertavam-lhe muito os penantes. Eram tão apertados que a determinada altura lhe pareceu que os pés encolhiam, passou a sentir tonturas e, constantemente, uma sensação de desequilíbrio durante a marcha. À noite, tinha pesadelos em que aparecia vestido de quimono, olhos rasgados de chinesinha, os pés minguando, minguando, cada vez mais pequenos, pés de lírio entrapados em sapatos de cetim vermelho. Percebeu que se continuasse a fazer de cavalgadura miniatura, a usar os detestáveis botins, em breve, deixaria de andar. Foi explicar ao realizador que não aguentava tamanhas dores, não estava para ser pónei a vida toda, a bandoleta ainda vá que não vá, agora as botinhas de casco nem pensar, ia-se embora. Julgou que o realizador reconsiderasse, lhe arranjasse outro papel, afinal o seu primeiro filme El enanito e las siete monjas peludas fora um sucesso. Um anão, melhor dizendo, um enanito como ele, tão bem apetrechado, não era nada fácil de encontrar.

Para sua surpresa o outro aceitou sem mais a sua demissão. As figuras híbridas já cansavam. Homens touros, centauros, harpias. Estava tudo visto. Era um entusiasta da cultura clássica, decidira fazer uma adaptação livre do asno de ouro e arriscava usar um burro a sério. Já tinha em vista um burro abissínio, raça de robustez provada, erecto, o burro abissínio era animal para ter um pénis com quase cinquenta centímetros de comprimento e vinte de diâmetro. Engoli em seco, confessou do outro lado da linha o meu amigo anão, bem vês, não é fácil ser-se ultrapassado por um burro. E continuou: ainda me senti tentado a pedinchar que me deixassem ficar, nem que fosse a tomar conta do asno, porém, depois lembrei-me de que um homem, mesmo sendo anão, tem o seu orgulho e por isso despedi-me. Estou sem trabalho há mais de dois meses. Volto na próxima semana. Pedia-me, se não fosse muito incómodo, para o ir buscar ao aeroporto. Pensei com os meus botões: estás nas lonas, por isso regressas, vens-me pedir batatinhas depois de me teres partido o coração, ah, meu bijouzinho malandro, a tua sorte é que eu sou uma mulher apaixonada, incapaz de guardar rancor! Não te preocupes, lá estarei para te ir buscar, disse-lhe e desliguei o telefone com o corpo cheio de alegria.

2012/05/02

Aninhas e os sapatos de couro envernizado (2)


Ao final do dia, no caminho para casa, passou por uma sapataria que nunca lhe despertara interesse. Era uma sapataria que vendia apenas sapatos e malas italianas, estilo clássico, de irrepreensível sofisticação, modelos que podiam, sem causar embaraço, ser usados por rainhas e princesas em cerimónias de estado. Na montra, ao centro, estavam uns sapatos pretos de couro envernizado, simples, biqueira redonda, declive acentuado pelo salto de sete centímetros, perspectiva feminina de fuga. Entrou e pediu para os experimentar. Olhou a etiqueta do preço: trezentos e dez euros. Custava-lhe dar tanto dinheiro por uns sapatos, havia ainda nela laivos de uma juventude de punho erguido que lhe provocava um levíssimo sentimento de culpa por ceder à luxuria e à frivolidade. Pagou-os. Porém, mal saiu da loja, percebeu a irracionalidade do seu gesto. A compra de tais sapatos não era compatível com o seu desejo de morte. Para que queria uns sapatos de trezentos e dez euros se tomasse os setenta e três comprimidos, anti-depressivos, ansiolíticos, voltarens e clonixs, que estavam dentro da caixinha púrpura? Sentiu-se estúpida. Acontecia-lhe muitas vezes sentir-se assim, estúpida, ridícula, com vergonha da sua angústia, por não a ter coerente, estruturada, e, sobretudo, consequente. A verdade, porém, é que se tomasse os comprimidos corria o risco de não gozar os seus sapatos de couro envernizado. Talvez a mãe os escolhesse para os empregados da agência funerária lhos calçarem no funeral; deitada no caixão, numa ponta, um rosto morto de maquilhagem retocada, na outra, o brilho dos sapatos pretos. Ir a enterrar com uns sapatos italianos de trezentos e dez euros parecia-lhe um desperdício. Ou pior, muito pior, talvez o marido, vendo-os novos, a etiqueta a assegurar a genuinidade do couro, o luxo do produto, a sola por estrear, os oferecesse à namorada que certamente arranjaria para o ajudar a tomar conta dos dois rapazes. Aninhas tentou imaginar a nova namorada do marido. Unhas rectangulares, pintadas de vermelho, sobrancelhas aparadas, ordinária sem ter consciência de o ser, comum, anódina, levando os seus sapatos italianos na linha azul do metro, a caminho de um salão de estética dos subúrbios. Abriu a arcada das narinas e bufou brandamente.

Pela tardinha, quando chegou a casa, o filho mais novo pela mão, a primeira coisa que fez foi deitar fora os comprimidos da caixinha púrpura. A água da sanita tingiu-se de rosa clarinho por causa do revestimento entérico das cápsulas grenás que a mãe tomava para a artrite reumatóide. Depois, mudou de roupa e calçou os novos sapatos. Olhou-os e a elegância  era tamanha que lhe pareceu que os pés não lhe pertenciam. O salto acentuava a curva da sua perna. Apesar de bonita, Aninhas não suscitava desejo, paixão ou amor. Era apenas um valor seguro. A sua beleza, tal como a sua angústia, era ridícula e triste por ser inconsequente. Aqueceu o jantar, estudou geografia com o filho mais velho, leu várias histórias ao mais novo, despediu-se do marido que acabava a sempre o dia a ver séries de investigação criminal. Sempre com os sapatos do couro envernizado calçados. Só os descalçou quando se foi deitar. Nessa noite dormiu descansada, levou o sono até de manhã, sem espíritos de olhos doces, sem precipícios, sem nada.  

2012/05/01

Aninhas e os sapatos de couro envernizado (1)


Espíritos de luz perseguiram-na durante muito tempo por florestas e precipícios. As fantasmagóricas aparições eram parecidas com os seus filhos, as mesmas feições, corpos ainda tenros, olhos doces, redondos, bocas carnudas. Queriam abraçá-la. Fugiu-lhes durante toda a noite. Acordou cansada de tanto fugir. Levantou-se a custo. Entrou na casa de banho e evitou olhar-se ao espelho. Abriu o armário. Tirou uma caixinha púrpura onde guardava os comprimidos que roubava à mãe. Aninhas, em certos assuntos, era uma mulher racional, sem pinga de hesitação ou amedrontamento. Sempre que visitava os pais, inventava uma desculpa para ir ao escritório, abria o armário dos medicamentos, tirava um ou dois comprimidos das lamelas prateadas que a mãe organizava em tomas diárias, necessárias para o tratamento de várias doenças: depressão crónica, hipertiroidismo, diabetes, artrite reumatóide. Sentada na sanita, as calças do pijama enroladas no chão, o cheiro adocicado da urina a espalhar-se pela manhã, pôs-se a contá-los, setenta e um, setenta e dois, setenta e três, era já um cocktail de considerável letalidade, para além de anti-depressivos e ansiolíticos, tinha também vários analgésicos, aqui estão cinco clonixs e sete voltarens, não servem para matar, mas sempre ajudam à festa. Era assim, exactamente assim, que pensava. Estava a contar os comprimidos, questionando-se sobre a eficácia da dose, quando a voz do filho mais novo, chamando-a, chegou do quarto. Escondeu a caixinha no armário, atrás de uma embalagem de tampões. Arranjou-se, deixou os filhos na escola e foi trabalhar. À hora do almoço, comeu uma sopa de nabiças e um mini-prato de arroz de polvo. Volta e meia, lembrava-se da caixinha púrpura com os setenta e três comprimidos. Não tinha ainda tomado a decisão de os tomar, mas aliviava-a saber que os tinha ali, à mão de semear, prontos a livrá-la de uma angústia maior.

Marvin Gaye



Lucy

Li, por estes dias, um livro do Coetzee. Lá para o meio do romance há uma violação brutal, primitiva, africana no pior sentido, a fazer lembrar o tal profeta Joseph Koni de que ontem falava o jornal. A violência da cena, é muita, também é dada pela reacção da vítima, uma jovem mulher, que, não sendo assumidamente lésbica, prescinde da companhia dos homens. Essa mulher aceita a sujeição ao sujeito soberano. É essa inicial passividade, motivada por razões ideológicas, que, mais do que a violência física, violenta o leitor. É bom escritor, o Coetzee, dos que mais gosto de ler. Mas, consumada a violação, quando, em meia dúzia de linhas, se debruça sobre, como lhes chama, os assuntos de sangue das mulheres - menstruação, parto e violação - escreve o seguinte: violar uma lésbica é pior do que violar uma virgem: é um golpe mais forte. Li, sublinhei, reli, tenho pensado muito no assunto e juro que ainda não percebi. Deve ser preciso ser homem, ter certo discernimento, para perceber.

2012/04/29

Aninhas e a festa de Natal



Frequentava um jardim-de-infância perto do hospital onde a mãe trabalhava. As salas eram acolhedoras, o refeitório muito grande, o dormitório cheio de catres azuis onde as educadoras obrigavam os meninos a dormir a sesta. No Natal e na Páscoa organizava-se sempre uma festa. Os meninos representavam e cantavam canções para os pais vestidos de abelhas, passarinhos, flores. Naquele tempo, virgem de máquinas digitais, enquanto os filhos actuavam, os pais olhavam-nos sem se preocuparem em captar o momento daquilo a que não assistiam. Aplaudiam no fim. Após o espectáculo, era sempre servido um lanche partilhado no refeitório. As empregadas colocavam nas mesas corridas pilhas de pães-de-leite, bolos, travessas de coscorões ou azevias, se fosse Natal, folares de ovos envernizados, se fosse Páscoa, pratinhos de rissóis de camarão e croquetes de carne, bolinhos secos, húngaros, bolacha francesa, fidalguinhos de braga, torcidos de anis. Havia laranjada para os meninos e garrafas de vinho do Porto para os pais. Aninhas, todos os anos, corria pelo corredor para ver o que a mãe trouxera para o lanche. Se o bolo fosse bonito, encontrava em tal facto a certeza de um futuro radioso cheio de felicidade e alegria.

Lembra-se de um Natal em que, muito ansiosa, acabada a festa, quis saber o que a mãe trouxera para a lanche. Que sossegasse, explicou a mãe enquanto lhe tirava uma saia de papel frisado, saíra do hospital e passara pela Tarantela. Comprara um bolo muito bonito. Correu as mesas do refeitório à procura. Havia troncos de natal e lampreias de ovos, ciclóstomos com corpo de doçura. Quando finalmente a mãe lhe mostrou o bolo, suspirou de alívio. Era um bolo de pastelaria, redondo, pouco mais de um quilo, um pão-de-ló, recheado e coberto de doce de ovos, em cima o pasteleiro colocara dois cisnes de açúcar, um branco, outro azulado, nadavam num lago espelhado de glace. Ali estava um bolo que era uma beleza! Ao lado, um prato de papelão com uma fiada de pastéis de bacalhau. Do outro lado, um pratinho com fatias de bolo de iogurte. Sentiu pena dos meninos cujos pais traziam pastéis de bacalhau e fatias de bolo simples para o lanche partilhado. Tão bonito mãe, disse-lhe em jeito de agradecimento. Depois foi brincar para o recreio onde havia charcos da chuva, bandos de patos e uma torre de ferro onde prendia as pernas e, de cabeça para baixo, deixava o corpo balançar.

Os pais ficaram no refeitório conversando com as educadoras. Quando começou a chover, uma auxiliar chamou os meninos para dentro. Aninhas vinha transpirada da brincadeira. O refeitório estava quase vazio, a maior parte dos pais decidira partir não fosse o tempo piorar. Uma empregada varria já o chão com uma vassoura. Em cima das mesas corridas, os despojos do lanche começavam a ser retirados para a copa. Foi então que Aninhas reparou que o bolo, cuja beleza e sofisticação tanto apreciara, continuava ali, cor de marmelada, os cisnes nadando num lago de águas açucaradas. Ninguém lhe tocara. O prato de pastéis de bacalhau estava vazio e sobrava apenas uma fatia de bolo de iogurte. Escondeu o rosto no corpo da mãe que falava com a educadora, sentiu a fazenda áspera da sua saia e começou a chorar. Escutou fragmentos de conversa. “…desde a morte do irmão… sim…sabe não é fácil para uma criança tão pequena…” Aninhas sabia do que falavam. Depois de uma gravidez que lhe parecera demasiado longa, a mãe trouxera para casa um bebé quase morto. Estava enterrado num cemitério longe de casa. A mãe e a educadora convenciam-se de que o seu choro era causado pela morte desse estranho ser, morto, tão morto, feio, tão feio, que nunca chegou a ganhar vida. Esteve uma semana em casa, enfiado com a mãe no quarto, de vez em quando, escutava-se um piar de bicho doente, saiu aninhado num caixãozinho de madeira de pinho. A mãe chorou muito a sua morte. O pai não. Um filho doente, incapaz, deficiente, mais do que uma sina pesada, era sinal de fracasso. Estavam, porém, enganadas. Nem a morte do recém-nascido lhe causava tristeza nem as idas ao cemitério aos domingos a atormentavam. Havia um vendedor de castanhas junto ao portão e arranjos florais tão lindos sobre a brancura marmórea das campas. Naquele instante, porém, agarrada à saia da mãe, Aninhas agradeceu ao irmão a sua morte; podia, assim, disfarçar o seu choro egoísta nascido da certeza de um futuro escuro, sem felicidade ou alegria. 

2012/04/16

Aninhas e a puta da velha

Aninhas odiava a puta da velha.

(lembrete.)

2012/04/11

Aviso

Aviso os estimados leitores que, fartinha da solidão do blogue, aderi ao facebook. Parece que é sítio com outra animação. Querendo, se para isso tiverdes paciência, podereis lá ler em registo breve - patético, mas genuíno -, sem pinga de mentira ou exagero, ao contrário do que aqui acontece, o interessante registo do meu dia a dia. Já me explicaram que o facebook não serve bem para aquilo e que a linguagem que uso também não é a mais indicada. Pelos vistos há regras e códigos de conduta facebookianos que desconheço. Paciência. É o que se arranja. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Já dizia a minha avó.

2012/04/09

Tabu

2012/04/08

Desgraça

"Que desgraça ser mulher! Entretanto, a pior desgraça quando se é mulher é, no fundo, não compreender que sê-lo é uma desgraça."

Kierkegaard, o grande, enorme, colossal cabrão.

Fecha a loja


(Fui correr para o meio das figueiras para fugir de sete crianças e de um cão. Entusiasmei-me com os frutos leitosos, as folhas tenrinhas, com os velhos à soleira da porta, pasmados, gozando os meus calções de licra; veio um cão muito pequeno, ladrava furioso, assustei-me, caí, vim de reboleta no alcatrão até ao sopé da vila. Acudiu-me uma velha de lenço à cabeça que me deu uma pinguinha de água e repreendeu o Zézinho, assim se chamava a fera.)

2012/04/04

Levítico

Descendo a rua, enquanto comia um folhado de galinha e alho francês, o último que estava na bandeja de alumínio da vitrina dos salgados, modernice de pronto-a-comer armado aos cucos, coisa desenxabida e requentada, uma desilusão, enfim; como dizia, enquanto descia a rua e comia o salgadinho para matar a fome, tomei uma decisão muito séria, verdadeira senhora decisão, ai, uma decisão que tem a frágil irrevogabilidade das decisões que tomo na minha vida: não fecho a loja, abro-a a outro tipo de clientela. Adiante. Pela tarde, em vez de trabalhar, pus-me a ler a bíblia online, aprendo muitas palavras, lembro-me de outras, depois utilizo-as em textozinhos como se fossem minhas, nadas e criadas na minha inspiração literária, como se me descessem por obra do espírito santo. Hoje deparei com palavras fantásticas: fressura, ranço, primícias, leprosos, sarna, tabernáculo, impingem, testículo mutilado. Gosto de ler a bíblia, é divertimento puro, gosto do absurdo delírio que lá encontro sobretudo no velho testamento. Mas, por vezes, aborreço-me, com certas e determinadas coisas que por lá se dizem; hoje, no levítico, encontrei o senhor Deus falando a Moisés e dizia-lhe assim Não tomarás mulher prostituta ou desonrada, nem tomarás mulher repudiada de seu marido, pois santo é a seu Deus. Puta que os pariu. Mais à frente, continua o Senhor Deus falando a Moisés, ainda de voz grave, trovões a ribombar, ondas gigantes, apoteose total, e explica Quando a filha de um sacerdote começar a prostituir-se, profana a seu pai, com fogo será queimada. Sei que uma pessoa, ao ler a bíblia, tem de dar um desconto, aquilo foi escrito há muito tempo e por homens, porém, é mais forte do que eu, a permanente secundarização da fêmea, o achincalhamento da mulher, a objectificação do ser menor, dão-me náuseas, chegam-me uns repentes misândricos, acho que Hipólita, chefa das amazonas, encarna em mim, fico capaz de mutilar, nem que seja à dentada, todos os testículos do mundo.

2012/04/02

Ouro

Bill Withers

Amândio

Não inspira simpatia. Tem um corpo possante e robusto. Faz lembrar um pit-bull, um rottweiler, um desses cães de fila que os aficionados, de mangas cavas e braços tatuados, passeiam aos domingos pelos jardins da cidade. Usa óculos de aros escuros, pesados e antiquados, que lhe emolduram uns olhos pequenos, perspicazes e vivos. A voz é grave e nasalada. Fala sempre alto, num tom professoral, como se estivesse permanentemente a palestrar. Consta que tem uma cultura vastíssima, infindável, sabe tudo, cita de cor autores, obras, datas, deixa os seus interlocutores de queixo caído com tamanha sapiência. Não tem grande apreço pela opinião dos outros. Onde quer que esteja, seja qual for a ocasião, a sua opinião é sempre fundamentada, consolidada, irrefutável. É a que conta, a derradeira. Raramente sorri. Quando o faz é por cortesia. Chama-se Amândio e é padre. Durante a celebração da missa, como qualquer sacerdote, usa uma túnica branca, impecavelmente engomada, mas nunca prescinde de uma casula colorida que lhe dá certo protagonismo entre os círios tristonhos do altar. Não delega nos acólitos os rituais litúrgicos. Maneja o turíbulo com destreza, inundando o templo do cheiro enjoativo dos incensos. Os anjos do altar, às vezes, tossem brandamente com a fumarada que ele provoca e as senhoras que disputam os lugares das primeiras filas, na missa dominical das sete, encolhem-se quando, com vigor, sacode o aspersório e dele sai uma autêntica chuva de água benta que ameaça, com gotas gordas e abundantes, as mises de rolos domingueiras feitas nos cabeleireiros do bairro. Para além disso, é sabido, os resfriados podem ser fatais em certas alturas do ano.


Adopta um tom inflamado durante as homilias. Gesticula, procura acicatar os fiéis, falando de assuntos que muitos preferiam evitar: solidariedade, exclusão social, fé cristã. As suas missas nunca são enfadonhas. Não se prestam a sonolências e outros adormecimentos. Um dia, durante o abraço da paz, ouviu-se um telemóvel. Parecia um besouro estridente e histérico. Um silêncio tumular inundou a igreja e os anjos do altar entreolharam-se, amedrontados, temendo uma hecatombe. A dona do telefone, uma senhora gorda e suada, olhou para o lado, fingindo que o besouro não era seu. Depois, perante o olhar colérico e faiscante que vinha do altar, agarrou na malinha e saiu, tremelicando as carnes fartas e soltando ais pequeninos. Conheci-o à porta da igreja. Esperava que os meus filhos saíssem da catequese e vi-o chegar na companhia de uma tia. O Sr. Padre Amândio, disse a minha tia, muito devota e serena. Ele olhou-me com os tais olhos pequeninos e, do nada, disse que apreciava muito os meus traços exóticos. Antes que pudesse explicar-lhe a origem da minha mestiçagem, olhando para o livro que trazia nas mãos, de rajada, aconselhou-me a não perder tempo com leituras blasfemas, que o Saramago era um ignorante, uma cavalgadura que vivia nas trevas. Pobre desgraçado. Também ele, continuou, vivera na escuridão, mas vira a luz. Eu encolhi-me perante tal saraivada e, cobarde, incapaz de lhe confessar o meu agnosticismo, expliquei que também não era grande apreciadora da literatura do nosso nobelizado. A minha tia respirou de alívio e despediu-se.


No bairro onde cresci toda a gente conhece o Padre Amândio e a sua história. Ele não a esconde. Vindo da esquerda mais dura, encontrou Deus já tarde. Militou no partido comunista muitos anos, travou lutas, falou em comícios, distribuiu propaganda. Esteve preso. Viveu a revolução com o entusiasmo próprio dos que acreditam que o mundo pode ser um lugar melhor. Nos anos oitenta, quando sentiu que a sua crença no comunismo fraquejava, procurou Deus e, de uma forma extraordinária e simples, encontrou-o. Converteu-se. Deixou de ser um comunista feroz. Passou a ser um católico feroz. Foi ordenado padre com cinquenta anos. Acredita em Deus com a mesma força com que acreditava na ditadura do proletariado. Há muita gente no bairro que o admira. Outros olham-no com desconfiança. Não lhe apreciam a cultura enciclopédica, o estilo virulento, o passado esquerdista. A uns e a outros causa estranheza que um comunista, ateu confesso, se tenha tornado crente em Deus, fiel à sua palavra. Eu, triste e inquieta descrente, acho que a fé, com as devidas distâncias, é uma espécie de droga. Vicia. Quem a experimenta não sabe viver sem ela. Acreditar no comunismo não é muito diferente de acreditar em Deus. A fé conforta, apazigua, alivia. Torna-nos parte de alguma coisa, dá sentido à nossa vida, passamos a ter um propósito, algo a que nos dedicar. É preciso acreditar. Ser fiel. Seja lá no que for. Os que são pouco originais são fiéis a Deus, a Buda, a Shiva, à Nossa Senhora de Fátima, à Santinha da Ladeira. Muitos, são aos magotes, são fiéis a um clube de futebol. Acreditam piamente que o Benfica voltará a ser campeão. Vão rareando, mas ainda há os que são fiéis a um partido, a um ideal, a uma filosofia de vida. Há os que são fiéis a uma banda, a uma estrela pop, os que acreditam que o Michael Jackson padecia de vitiligo e nunca fez uma operação plástica ao nariz. Há os fiéis das novas seitas, que em tudo acreditam, no poder da cura, nos milagres em catadupa, pague três e leve quatro, que não estranham sequer os terminais de multibanco instalados nos altares para o pagamento do dízimo. Verde. Código. Verde. A sua alma está salva. Ámen.


O padre Amândio acreditava, com sinceridade, no comunismo. Depois, começou a ouvir falar de execuções, censura, falta de liberdade, presos políticos, miséria. Deve custar muito. Não há fiel que aguente tamanha dose de realidade. Deve ter tido uma ressaca dos diabos. Foi preciso arranjar um sucedâneo. Tal como os heroinómanos nos períodos de abstinência, também os fiéis, quando se apercebem da fragilidade das suas crenças, precisam de encontrar algo que substitua a fé estilhaçada. O padre Amândio, comunista convicto, - estou a imaginá-lo, de punho erguido, rosnando a internacional, querendo nacionalizar a fábrica de concentrado de tomate de Benavente -, no dia em que o mundo se lhe apresentou de outra forma, teve de procurar a fé noutra parte qualquer. Encontrou-a em Deus, que é magnânimo, infinitamente bom e se deixa amar por todos.