Nanda
continuou a frequentar a igreja. Refez a sua vida: passou a gastar a pensão de
aposentação em restaurantes que serviam comida de inspiração italiana, lia os
suplementos de fim-de-semana dos jornais, comprava guias gastronómicos, fazia
listas, passava a semana a salivar; ao sábado, vestia umas calças escuras de
cintura alta, um bolero de tricot azul com gola de rebuço, escolhia uma pochete
de vidrinhos brilhantes, arrebicava o rosto com um blushe cor de pêssego e
passava um baton forte pelos lábios. Sentava-se sozinha em restaurantes de
ambiente elegante e descontraído, frequentados por homens de barba aparada,
ligeiramente adamados, mulheres emancipadas que deixavam a prole com babás
ucranianas. Os comensais habituais, limpavam os cantos da boca a guardanapos de
pano, beberricavam roses frutados, tintos robustos e brancos frisantes,
mantinham a conversa acesa, acordavam na essencialidade da austeridade, alongavam-se
em análises profundas sobre a crise, desfiando, como se fossem seus, argumentos
lidos em colunas de opinião; arrumada a situação económica do país, passavam a
temas mundanos, falavam de férias em resorts turísticos, de mensalidades de
colégios privados e peças de mobiliário vintage, compradas em lojas da Baixa.
De viés, sem conseguir esconder o incómodo, olhavam Nanda, estranhando a
presença daquela sexagenária solitária, o bolero de tricot sem requinte
informal, as calças de cintura alta demasiado justas a acentuar a adiposidade
do corpo velho; metia-lhes nojo ver os arrabaldes intrometerem-se na
descontraída sofisticação das suas vidas.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2012/09/17
2012/09/13
Vivre sa vie
Fumo
enquanto ela fuma. Aprendi com ela a olhar em volta, a observar os outros sem
medo ou embaraço. Amo-a desde a primeira vez que a vi, aos dezoito anos,
sozinha, em casa; a oral de direito romano era no dia a seguir e eu,
tristemente cumpridora, a filha das boas notas, esqueci-a. Não revi a Lei das
doze tábuas e durante o exame, as mãos velhas do Padre Samuel nas minhas pernas
ainda tenras, lembrei-me dela. Um dia, convencida da singularidade de um homem,
por sinal, jurista, convidei-o para ir vê-la. Passava o filme na Cinemateca e
eu nunca o vira em tela grande, numa sala escura. Desculpou-se o tal jurista já
não sei com o quê e recusou. Fui sozinha e não me senti só. A vida, alguém o
disse, é uma enorme repetição.
2012/09/09
Kanchanganga Bldg.
A primeira vez que fui a Bombaim fiquei em
casa da minha prima Melinda. Vive na parte ocidental de Andheri, num
apartamento pequeno com o marido e duas filhas. Uma das meninas chama-se Elaine
e será, como já expliquei ao meu filho João, a minha futura nora. Os prédios em
Bombaim têm nomes e aquele onde a Melinda vive chama-se Kanchanganga Bldg. Por
ser tão alto e ter gradeamentos nas janelas - todos diferentes, todos
ferrugentos, cada um ao gosto do seu proprietário - fez-me lembrar, ao primeiro
olhar, uma torre medieval fortificada. Olhando para cima, vislumbrei, nesse
primeiro dia, silhuetas de águias, gralhas, abutres. São aos milhares nos céus
de Bombaim. Rondam os pássaros soturnos as torres de apartamentos no intuito de
comer os desperdícios dos seus habitantes. São, simultaneamente, sinistros e
belos. O Kanchanganga Bldg. tem um porteiro sorridente que assegura que a torre
não é invadida pela amálgama de miseráveis que vive nos passeios da cidade. Usa
uma farda puída e um boné que deve ter herdado do seu antecessor. Fica-lhe
demasiado largo. Pela manhã abre as portas aos moradores que saem para os seus
empregos e aos meninos que vão para a escola. Esvazia-se depois a torre. Ficam
apenas algumas mulheres e as crianças mais jovens. Em cada piso os apartamentos
desembocam num átrio circular que não serve apenas de passagem para a rua. O
átrio é uma parte comum e funciona como prolongamento dos apartamentos. É aí,
no átrio, que os habitantes deixam os sapatos antes de entrar nas suas casas e
as mulheres conversam sobre assuntos domésticos. As portas dos apartamentos não
são maciças. Têm uma espécie de portinhola que, se abrindo pela manhã, deixa
antever o miolo dos apartamentos e os movimentos dos seus habitantes. A torre é
habitada por católicos, hindus e muçulmanos. No átrio misturam-se os odores
intensos das suas cozinhas. Ao lado das portas há pequenos oratórios com
imagens de cristo, placas com luas crescentes e altares coloridos às divindades
hindus. É uma miscelânea de deuses e de fés, convivendo de forma
inesperadamente harmoniosa. Quando chega a tarde as mulheres dormitam e as
crianças, sentadas no chão, sonham em ser iguais aos meninos prodígio que
aparecem nos concursos televisivos. O porteiro aproveita o sossego da tarde.
Sentado junto das caixas do correio olha gulosamente uma revista onde as
actrizes da cidade aparecem seminuas. Na Índia, as mulheres vestem com
decência, não usam decotes, não mostram as pernas, banham-se no mar vestidas.
Ao anoitecer, quando a cidade fervilha em todo o seu esplendor, o porteiro
volta a abrir as portas aos habitantes do prédio que regressam. Lá fora, os
vendedores de tabaco e areca desmontam as suas bancas. Chegarão então os
habitantes dos passeios, os corpos-sombra, quase invisíveis, quase mortos, os
intocáveis que nascem, vivem e morrem na rua. O porteiro observa-os através dos
vidros da entrada do Kanchanganga Bldg e agradece aos deuses a sua sorte.
(Setembro/2008)
2012/09/08
2012/09/05
Pai
Estou tão feliz por regressar. Gostava de ir e nunca mais voltar. Ficar para sempre com o meu pai. Eu e ele. Mais ninguém. Há quem ache que o meu pai não merece o amor ancilar que lhe tenho. É sinal de fraqueza, pueril ingenuidade, a fonte de todos os meus problemas, inércia, frigidez, tristeza. É o que dizem os entendidos e há tantos entendidos na vida. Amar os santos é fácil e aborrecido; difícil é amar os ímpios, os impuros, os biliosos. Não sei viver de outra maneira. É para o meu pai que vivo, por ele que espero.
Noite
Não
sei explicar a noite. Não gosto da noite. Só as noites em Goa me trouxeram
sossego e felicidade. Assim que o meu pai adormecia, corria a buscar uma
cerveja ao frigorífico e fugia para o terraço. Arrastava uma cadeira para a
beirinha do estendal, afastava as roupas tesas que a Caetaninha deixava
estendidas pela manhã e acendia um cigarro. Esse era o instante preciso em que
a noite se transformava. Tornava-se mais intensa, ficava com corpo de mulher e
eu encostava-me nela. Passei as noites ali, no terraço, olhando a linha da
estrada que leva ao Seminário de Rachol. Escutava os ruídos: pássaros, matilhas
de cães passando nas várzeas, o vento afagando as folhas do tamarindo,
chupando-lhe o azedo dos frutos, o sacolejar da cerveja dentro da garrafa, os
deuses brincando junto do tulsi, a ventoinha no quarto do meu pai. Pelas
frestas do telhado chegava-me, por vezes, o ressonar da tia Maria e os soluços
do Cristo falante. Chora o Cristo falante noites inteiras porque tem saudades
do tio Rosário. Eu sei que tem. À noite, o mundo reduzia-se aos seus sons e na
sua penumbra só eu existia.
(Setembro/2007)
Menina-Balão
Na
Índia, ao contrário de cá, os jornais não trazem mensagens eróticas. Shiva,
sempre entretido em cabriolices eróticas com as suas consortes, de lingam
erecto, não o permite. Em contrapartida, há em cada jornal uma longa secção de matrimonial. Trata-se, como o nome indica, de uma secção de
anúncios de quem procura parceiro para casar. As mensagens são de uma
especificidade impressionante. Nunca tinha visto nada igual. As brides e os grooms descrevem-se com rigor e exactidão. Num
quadradinho de papel condensam a informação necessária para despertar o
interesse de um potencial parceiro: idade, casta, religião, habilitações
-desengane-se quem pensa que na Índia são todos uns desgraçadinhos analfabetos,
na maior parte dos casos, principalmente nas cidades, o que está em causa é
saber se se tem uma especialização ou um doutoramento -, região, profissão,
salário e, claro, o tom da pele. Fiquei viciada na leitura daquela secção dos
jornais indianos. Por isso, quando a tarde caía sobre a casa de Maina e os
esquilos se escondiam nos ramos da mangueira, eu arrastava a cadeira de baloiço
para a varanda e entretinha-me a ler os anúncios dos casamentos, tentando
encontrar naquelas listas infindáveis correspondências que assegurassem aos
noivos um casamento feliz para a vida. Um dia, a Ria, a menina-balão, veio
sentar-se perto de mim. Espreitou o jornal e chamou, com a sua voz de trovão,
as outras crianças da casa que, entretidas a chupar limas, correram para perto
de nós. “Ana
Clara is reading the matrimonial! She is looking for an indian groom!”. Ri-me
do descaramento da menina-balão e belisquei-a. Depois, passámos o resto da
tarde à procura de um noivo indiano para mim.
(Maio/2007)
Lição em Pondá
Despimo-nos.
Eu, a sobrinha europeia. Ela, a tia goesa, a menina que o meu pai carregava por
caminhos sinuosos de chuva e lama até à escola. A nudez traz-nos a proximidade
que tardava em chegar. Assim despedidas, a tia Amália começa a lição. Primeiro
o saiote, bem apertado ligeiramente por cima da anca. O umbigo deve deixar-se
sempre destapado. É por aí que o corpo respira, explica. Se se cobrir o umbigo
o corpo sufoca. Depois a blusa que deve ser justa e tapar apenas o peito. Por
fim, o rectângulo que envolve o corpo como se fosse um casulo. Há quatro passos
essenciais que não se podem esquecer. O mais difícil é preguear decentemente a
parte de baixo. É preciso ter mãos habilidosas para o fazer. À medida que a tia
Amália fala, executa os gestos, enrolando-se na perfeição no tecido. Eu tento
imitá-la.
Sentada na cama,
Jessica come umas uvas pretas, muito doces e sem grainhas. Para me
tranquilizar, diz que, em vez do sari, poderei sempre usar um churidar.
Sorrio-lhe. Não gosto nada de churidares. A única peça que gosto no churidar é
a dupata. Continuamos a lição. Por fim, com a ajuda de duas mulheres, consigo
vestir o sari. A minha tia apanha-me o cabelo. Manda-me andar. Olho-a. “You can’t walk in a sari like
you walk in your jeans. You have to
walk with grace, Ana Clara!.” Ando. Ela abana a cabeça. Diz que temos de
treinar o andar-de-sari. Reconheço-me nela. E, outra vez, vejo as mãos do meu
pai no seu corpo. Ela faz-me uma festa no rosto. Gosto da festa que ela me faz,
que é morna, como uma manhã de maio. Diz que pareço uma parsee por causa da
claridade da minha pele. Que estranho, penso, sou uma europeia escura e uma indiana
clara. Jessica, escura e gorda, continua a comer bagos de uva e ri-se.
(Março/2007)
Curtorim
Sento-me
no adro da igreja, que fica junto a uma lagoa cheia de nenúfares brancos.
Entardece. Na escadaria, três homens falam um português correcto e antigo, um
português sossegado, que não tem pressa de chegar a parte alguma, um português
doce e calmo. É a primeira vez que aqui, em Goa, escuto português falado
espontaneamente. Entardace. Lá dentro, o meu pai fala com o padre vigário, que
usou uma batina branca e umas sandálias nos pés durante a missa. Os três homens
continuam a conversar. Escuto-lhes as palavras. Percebo que falam sobre mim. Um
deles aproxima-se e, em inglês, com uma delicadeza a que não estou habituada,
pergunta-me se não sou familiar de um tal Alvito de Souza. Respondo-lhe em
português que não, que não conheço nenhum Alvito de Souza, que sou neta da
família Rebelo de Maina, a aldeia mesmo ali ao lado. O homem sorri e leva-me
para junto dos outros homens. Explicam-me que conhecem bem a minha família.
Apresentam-se: Rafael Viegas, Dr. Cunha Menezes e José Mascarenhas. Entardece.
A conversa escorre entre nós como se nos fossemos velhos conhecidos. Os goeses
têm uma identidade própria, são a simbiose perfeita entre o oriente e o
ocidente. Mas têm a fragilidade das porcelanas antigas que guardam dentro dos
louceiros de outros tempos. São como a fímbria do mar. Entardece. Lá dentro o
meu pai continua a sua conversa com o padre vigário. Não fala em português, mas
em concanim, língua labiríntica, e inglês, esse linguajar bárbaro e deslavado
que tomou conta destas paragens.
(Janeiro/2007)
Goa
A
tia Maria gostava tanto, tanto do Salazar que lhe chamavam " A favorita de
Salazar"; o meu pai foi deserdado por ter feito um filho a uma preta; o
meu tio Rosário gastava o dinheiro da família porque um Cristo falante lho
dizia para o fazer; o tio Inácio, o irmão mais novo da família esteve quase a
ser castrado, como era costume nas famílias bramanes, para assegurar a sua ida
para o seminário;em Rachol, os anjos do altar têm cabelos negros e há um poço,
fundo e imenso, habitado por morcegos; a terra é vermelha como o sangue; em
Chandor, a sua dama, D. Aida Menezes de Bragança, vive num palácio habitado
pelos fantasmas de outros tempos e, pelas janelas de carepa, espreita o adro da
igreja; em cada casa há um oratório, um presépio e uma estrela iluminada; os
arrozais são de um verde intenso e os palmares estendem-se, infindáveis, junto
às praias; a tia Amália ensinou-me a usar o sari e nunca me senti tão bonita na
vida; em Goa estou em casa.
(Janeiro/2007)
2012/09/04
2012/08/29
Dor
Diz-se que o tempo tudo cura, mas o
silêncio é de melhor serventia, tudo apaga, não se falando das coisas é como se
elas não existissem. Aconteceu o mesmo a Odete. Foram-se as agonias, o
mal-estar inicial, calou frustrações, chegou o filho, sumiu-se de vez o
sofrimento. A maternidade, para além da perpetuação da espécie, serve muitas
vezes para secundarizar uma mulher. Foi nessa instrumentalização que o destino
de Odete se cumpriu. Passados tantos anos, tantos domingos, uma vida inteira,
ficou lá dentro uma coisinha, uma dor a saracotear no fundo do peito, uma
dorzita que é quase nada, Odete já não dá por ela, fracota, extingue-a
diariamente com uma alegria breve, uma gargalhada solta em frente da televisão,
dois dedos de conversa com a Nanda, a satisfação de um casaco comprado nos
saldos, custava sessenta e cinco euros e comprei-o a trinta, rica pechincha.
Fica o casaco durante o inverno dentro do armário porque ganha borboto com
muita facilidade, a fazenda é ordinária e a cor demasiado viva, inadequada à idade
que tem, mas a alegria breve, essa que cala a dor, já ninguém a leva.
2012/08/28
Aznavour
(Três da manhã, o Joquinhas às voltas na cama, sonha com piscinas e bisnagas de água, os outros a monte, gozando o declínio das férias, eu a ler o manual de patologia médica que trouxe do Alentejo, as notas a esferográfica da minha mãe, desenhos de cisnes e tulipas, o cheiro a mofo das páginas amarelecidas. Trouxe também um livro de 1960 sobre desejo e perversão sexual, magnífico achado de verão; mas esse desconfio ser pertença da tia Dé.)
2012/08/25
Quelimane
Todas as famílias
têm segredos. A minha é pródiga em histórias, incertezas, meias
verdades, omissões, em calar a dor. Olho para os meus irmãos. Não vivo longe
deles, sem as vozes dos filhos deles chamando-me tia. Um dia partiremos para
Quelimane. Lá encontraremos o homem que engoliu o mar e, na sombra de uma
árvore frondosa, enroscada numa capulana garrida, a menina que escutava canções
do Roberto Carlos.
2012/08/02
Billie Jean (2)
(Mas antes deixo o original, melhor. Esta canção liga que é uma maravilha com S. Bartolomeu da Serra, o cheiro a porcos no crepúsculo, o moinho que foi do tio Manuel visto do quintal, os pessegueiros enxertados que davam frutos grená e que já só existem na minha memória, as sopas de tomate feitas pela prima Filomena que custou a engravidar, tanto que chorou por não cumprir o seu destino de fêmea, o mar frio e revolto de São Torpes, os meus mortos e os meus vivos, que se fodam os que não são meus, só tenho amor aos meus, o café da associação de moradores onde uma brasileira de sobrolhos impecavelmente arranjados, a Denise, tira cafés amargos e suscita a lascívia dos homens que sossegam o cansaço do trabalho do campo, a minha filha namoricando o Artur, miúdo loiraço, com muito pêlo nas ventas, o mais pequeno correndo atrás dos gatos, o mais velho encostado ao meu corpo, amparo da minha solidão. )
Billie Jean
(Depois da santíssima trindade, Sérgio Godinho, Fausto e Chico Buarque, este é o homem mais bonito à face da terra. Nunca vi um nariz tão bonito. É lindo. E como é possível não se gostar do Michael Jackson? É preciso ter o cu muito dorido de enrabadelas intelectuais para não gostar do que é simplesmente perfeito. E, agora, vou de férias, que bem as mereço.)
2012/07/21
Les neiges du Kilimandjaro
(Fui à primeira sessão. Na sala, eu e uma velha de vestido roxo que me contou que, quando era da minha idade, fez um cruzeiro no Volga. Fartei-me de chorar. Tão bonito, o filme. Vou obrigar o meu pai, a minha mãe, a tia Dé e os miúdos mais velhos a irem vê-lo.)
2012/07/13
Alentejo
(Estou completamente viciada no Roque Popular, sobretudo, na Luzia, tão linda esta canção, hei-de tê-la ouvido mais cem vezes, hoje. E, em Agosto, falta pouco, volto à minha aldeia alentejana, que tem festa com frangos assados, baile, festeiros e festeiras, a Marisa cabeleireira, tão jeitosinha, e a Luísa nojenta, de tacões de madeira e blusas transparentes, puta da Luísa - gorda e loira, tinha de ser loira, deslavada, imbecil, as loiras são quase sempre assim, convencem-se de que a palidez lhes mascara a primitiva insignificância - roubou o namorado à minha prima Filomena, a maior suinicultora do litoral alentejano; em Agosto, a festa em S. Bartolomeu da Serra tem leilões de garrafas de vinho do porto e leitões, uma mulher de olhar permanentemente espantado, contam que foi resquício de mal de amor, também lá está a prima Laura, sentada a uma mesa de fórmica, umas vezes triste, outras alegre, nunca se sabe como está, é como calha, que a bipolaridade não é doença só de gente de inteligência superior, também marca os outros. Eu, entre eles que me recebem sempre com distância, danço com este e com aquele, os meus filhos correndo no adro da estação, descansando por fim em colos negros, alapando na Virtuosa e na Preciosa. Os meus avós, José e Felicidade, largam a cova nessa noite para ver os bisnetos. Sou menos infeliz em Agosto porque os sinto. Quis-lhes tanto. Quero que os meus filhos amem os meus pais exactamente como eu os amei. Como se pode gostar da merda do Algarve, havendo o Alentejo?)
2012/07/09
La Llorona
(Quando os miúdos me mimam, és a melhor mãe do mundo, dizem, dou-lhes para trás. Explico-lhe que a melhor mãe do mundo tive-a eu. Não há, nunca haverá outra igual. Cantava esta canção e eu, pequenina, ficava presa às palavras que lhe saíam da boca. Faz hoje 72 anos. Parabéns, meu primeiro amor, minha menina velha.)
2012/07/05
Mulher-árvore (4)
Sucede que a semente
era embrião de uma árvore de grande porte, mastodôntica, cruzamento de sequóias
e embondeiros, viera trazida num cargueiro senegalês que aportara em Lisboa num
dia de vendaval; uma rajada mais forte, aparentada dos alísios tropicais,
fizera-a voar para terra. A árvore cresceu, cresceu, cresceu, fez-se de copa
ramalhuda, folhagem densa e luminosa, a mulher andava na rua e toda a gente lhe
gabava o ornamento. Por altura do Natal, porém, começou a sentir desconforto, custava-lhe
aguentar o peso da árvore. Tinha de a tirar. Fazia-o com pena. Gostava de
acordar de manhã e sentir a líquida condutância do seu corpo arbóreo. Por causa
da fotossintética mentolada melhorara substancialmente dos seus problemas
respiratórios, deixara de usar o brisomax e o pulmicort. Na rua, muitas vezes,
vinham bandos de pardais atrás de si, atraídos pelos frutos roxos que nasciam
aos cachos, ficavam os passarinhos a aguar com vontade de bicar os abrunhos; às
vezes, se tinha tempo, a mulher parava, deixava-se estar perfeitamente imóvel e
punha-se a observar a aproximação dos pássaros. Repiu, piu, piu, faziam os
pardais, deliciados com a polpa sumarenta e doce, estremeciam de satisfação, as
bárbulas perdiam o tom pardacento, refulgiam em cores estranhas: ametista, magenta
e aspargo. A mulher das narinas grandes não era, por isso, capaz de simplesmente
a arrancar. Matar a árvore estava fora de questão.
Procurou ajuda junto
de uma amiga jardineira, muito boa pessoa, que trabalhava na Câmara Municipal de
Loures. A amiga logo reconheceu as suas limitações, estava habituada à
manutenção das espécies comuns, não era especialista no transplante, tentara trazer
quatro oliveiras centenárias – corriam risco de se perderem por causa da
construção de uma nova estrada camarária - para o largo do tribunal, cumprira
meticulosamente as etapas do transplante de árvores de porte médio, mesmo assim
perdera duas, definharam lentamente até se tornarem troncos estrangulados. Aquela
árvore exigia a intervenção de um sábio. Por sorte, explicou a jardineira, o
maior sábio botânico europeu vivia em Portugal, chamava-se José Theophrastus e
vivia em Paço de Arcos, numa vivenda recamada de azulejos cor de caramelo,
junto à marginal.
2012/07/02
Mulher-árvore (3)
Durante algum tempo, sempre que a
mulher se sentia tentada a guardar qualquer coisa dentro das narinas, lembrava as
duas rãs que lá tivera hospedadas. Um dia, porém, enquanto passeava no porto,
entre contentores e cargueiros encontrou, junto a um caixote de lixo, uma
semente. Muito pequenina, com a forma de um feijão, tão bonita e estranha. A
mulher quis guardá-la para a mostrar ao filho mais pequeno, que todos os dias
chegava da escola com flores, folhas, pedras e paus para lhe oferecer, mas,
nesse dia, por sorte ou azar, usava um vestido largo sem algibeiras. Levou a
semente ao nariz. Sentiu um cheiro mentolado, cheiro de hortelã, poejo,
lúcia-lima e erva-cidreira. O cheiro intenso pareceu-lhe muito adequado ao
desentupimento das fossas nasais. É que, apesar de não ter diagnóstico
definitivo, tanto podia ser rinite alérgica ou bronquite asmática, a mulher
vivia numa permanente aflição, falta de ar, chiadeira e piadeira, sempre
pingando um ranho aguado, nariz permanentemente trancado. Talvez o cheiro
mentolado da semente ajudasse no tratamento da sua maleita. Enfiou-a no nariz e
sentiu alívio imediato como se tivesse posto vinte gotas de cloridrato de
nafazolina em cada narina. Nessa noite deitou-se e, ao contrário do habitual,
dormiu um sono seguido. Sem sornadura. Foi assim durante duas semanas. Até que,
numa manhã de Setembro, o inesperado aconteceu. Estava o filho mais pequeno,
rapazinho chamado Quinzolas, cheio de caracóis dourados, tão bonito que mais
parecia um anjinho barroco, sentado à mesa da cozinha a tomar o pequeno-almoço.
Bebia o leite com cola-cao por uma palhinha encarnada antes de ir para a
escola. A mulher das narinas grandes entrou, queixando-se das sandálias
novas que lhe apertavam muito os joanetes. Mal a viu, o menino engasgou-se,
esguichou leite achocolatado pelo nariz e deu um grito, apontando para o rosto
da mãe.
A mulher correu ao espelho da
casa de banho, assustada, talvez lhe tivesse nascido uma verruga com pêlos no
queixo ou talvez o cabelo tivesse embranquecido de um dia para o outro, já
ouvira falar de casos semelhantes. Sossegou mal se viu ao espelho: um pequeno
ramo, ligeiramente retorcido espreitava na sua narina esquerda; na ponta,
nascera uma folhinha encerada, a fazer lembrar as das japoneiras, assim de um
verde muito vivo e luminoso. O ambiente acolhedor, tal como fizera eclodir os
ovinhos das rãs guineenses, fizera germinar a semente mentolada. Nascera-lhe
uma árvore no nariz. A mulher ainda pensou em arrancá-la com uma pinça tal
como fazia aos dois pêlos que lhe nasciam no queixo por cima de uma cicatriz
antiga. Porém, ao segundo relance, resolveu deixá-la estar. Pois não havia quem
andasse de anilha de bovino no nariz, alargador na orelha, corpo tatuado,
postiços de gel em cima de unhas ratadas? Porque não haveria ela de andar nos
transportes públicos, no supermercado, trabalhar ao balcão do banco, participar
nas reuniões de condomínio, com uma pequena árvore pendurada no nariz?
2012/06/29
Mulher-árvore (2)
São duas rãs
papua-nova-guineenses, espécie raríssima, o mais pequeno vertebrado do mundo,
foram descobertas recentemente por um cientista libanês que passou três anos na
floresta birmanesa, vivendo rente ao chão, por baixo de uma seringueira. O libanês
descobriu-as por acaso enquanto defecava junto a um formigueiro. Têm apenas cincos
milímetros!, disse o velho maravilhado, língua bífida, silvando de alegria.
Caminhou, sanfonando, até uma sala cheia de livros encadernados; iam os livros
do chão ao tecto, arrumados sem ordem, sem método, abandonados em estantes de
metal. O velho sentou-se numa secretária de teca, ligou um tablet de última
geração e pesquisou durante algum tempo. Duas iguanas plácidas mastigavam um
livro enciclopédico que tratava da reprodução em cativeiro de caimões.
Devoravam páginas amarelecidas. Perante a facilidade de acesso do saber
digital, permanentemente actualizado, os livros já não tinham outra serventia
que não fosse aquela: ser papados. As rãs caganitas-de-tucano, retomou pouco
depois o velho, são assim chamadas porque o libanês, a princípio, as confundiu
com os dejectos de tal pássaro; alimentam-se de mosquitos dim-dim, melgas
dom-dom e, sobretudo, de formigas azuis. Ora, formigas azuis não se encontram
por estas zonas, mas mosquitos dim-dim tenho-os à farta para alimentar o salamandrim
de cauda roxa. E saiu, deixando a mulher das narinas grandes sozinha na
biblioteca com as iguanas plácidas; entrou, pouco depois, com uma caixinha redonda
nas mãos.
Paciente, sentado
numa poltrona muito velha, pôs-se a enfiar num palito os mosquitos que ia
tirando da caixinha. Pediu à mulher para reclinar a cabeça levemente para trás
e ficar imóvel. Enfiou a espetada na sua narina direita. Puxou-a, depois, muito
lentamente, saíram as duas rãs agarradas ao palito, acastanhadas, muito lambareiras,
mastigando freneticamente com as suas boquinhas de anfíbio os tais mosquitos
dim-dim. A sua pequenez realmente impressionava. A mulher agradeceu ao velho
que, como paga, pediu para ficar com os minúsculos animais, com sorte, talvez
formassem casal, poderia fazer criação, ter ninhadas de caganitas-de-tucano. A
piton amarela e o crocodilo do Nilo certamente apreciariam o petisco. Eram os maiores
animais que viviam no apartamento. Gostavam de anfíbios pequeninos em geral,
mas tinham predilecção por sapos touro recém-nascidos, não eram de visão
agradável, translúcidos e pelados, mas tinham um sabor intenso, faziam lembrar
jaquinzinhos e petingas. Ele próprio não dispensava o pitéu. Comia sempre um
pires de sapinhos ao final da tarde acompanhado por uma cerveja bem
fresquinha. Os sapinhos touro, assim comidos, ao natural, sem louro ou
coentros, só uma pitada de sal, eram uma iguaria, reconhecia-o. Mas as
caganitas-de-tucano deviam ser melhores.
2012/06/27
Mulher-árvore (1)
Era uma vez uma mulher que
tinha as narinas muito grandes. Não eram as narinas apenas abertas e suínas,
não, nada disso, eram narinas verdadeiramente grandes, autênticas divisões
espaçosas, amplas, onde se escutava o eco e o silêncio que vem de seguida. Por
as ter assim, tão grandes, a mulher servia-se delas como espaço de arrumos, guardando a tralha que já não queria em casa,
manuais escolares antigos dos filhos, brinquedos velhos, roupa fora de moda,
sapatos cambados.
Um dia, andava a passear
numa ribeira, as margens cheias de aloendros, um cheirinho tão doce e enjoativo
no ar, encontrou um seixo pequeno, do tamanho de uma amêijoa, rolado, liso,
irisado, muito bonito. Quis guardá-lo. Enfiou-o dentro da narina direita. Andou
com a pedrinha no nariz durante muito tempo. Não lhe causava incómodo. A mulher,
porém, não se dera conta do brinde que a pedrinha levava; dois ovinhos
minúsculos, amarelo esmaecido, que, com a humidade da cavidade nasal, não
tardaram a eclodir. A mulher passou a sentir um saracotear dentro da narigona,
muitas cócegas, como se uma lagarta de pezinhos de lã por ali andasse. Certa manhã, ao
acordar, ouviu um coaxo, a seguir outro, depois mais outro. Que era aquilo? Que
som estranho saía do seu corpo? Tentou espirrar a ver se se livrava do
incómodo, mas nada. Foi às urgências em busca de alívio. O médico, um ucraniano
de lábios muito finos e cabeleira despenteada, espreitou com uma lanterna
fininha. A senhora tem duas rãs na narina direita, estão lá muito ao fundo, escondidinhas
atrás de uma caixa cheia de livros e da bomba de hélio para encher balões,
mesmo lá atrás, onde é mais húmido e escuro, quase não as vejo, vai ser o cabo
dos trabalhos para as tirar de lá. Eu não consigo, explicou, por fim, amaciando
a cabeleira farta e demoníaca, talvez seja melhor consultar um herpetólogo. Não
foi fácil à mulher das narinas grandes encontrar um herpetólogo em Lisboa, os
poucos que havia andavam por longe, nas selvas cor de laranja da Malásia, de
galochas enfiadas, enterrados em pântanos e mangues, à cata de rãs, sapos,
salamandras, lagartos e cobras. A mulher soube porém que, em Algés, ali junto
do Aquário, vivia um velho estudioso que transformara o apartamento num imenso anfibiário-reptilário.
Procurou-o. O velho era um ser estranho, muito esguio e escorregadio, parecia
movimentar-se como uma sanfona. À conta de tantos anos vivendo no meio de
cascavéis, serpentes e dragões de komodo, o seu corpo adquirira a primitiva
aparência dos répteis: os braços cobertos por escamas granulares, locomoção
ondulatória, uma língua fissurada apta a detectar vítimas e predadores. O velho
enfiou um capacete de mineiro com uma luz azul, fez pontaria e espreitou para
dentro da narina direita da mulher.
2012/06/25
Santinha
Tivemos,
advogadas e juíza, que nos chegar perto da testemunha para que nos ouvisse.
Gritámos-lhe as perguntas ao ouvido, sentindo-lhe um cheiro adocicado de lar de
idosos. O velho respondeu, gagá, balbuciando umas frases com sentido, outras
sem o ter. Chamou-nos santinhas - ó santinha, toda a gente no prédio sabia que
o Capitão Matos tinha uma caçadeira e dormia a sesta com a Fernanda, por sinal,
bem boa! - eu a escutá-lo, a moer para dentro, sabendo bem que, se em vez de
mulheres, o estafermo do velho tivesse apanhado juiz e advogados, adoptaria
outra postura, havia de se esmerar na formalidade sebosa, no unto subserviente,
Sr. Doutor Advogado isto, Senhor Doutor Juiz aquilo. No final, a juíza
agradeceu-lhe o depoimento. O velho levantou-se a custo e
começou a andar devagar, tremelicando, apoiado numa bengala de madeira
encerada. Em pouco tempo se finará, sete palmos de terra por cima, coroas de
gerberas e cravos brancos a alindar. Ia a meio do caminho, passava pela minha
bancada, quando pediu autorização à juíza para me dedicar uns versos. A
santinha lá de cima, galhofeira, rubicunda, rubiácea, rubiforme, assando dentro
da sua beca cheia de cordões e preguinhas, autorizou. O velho encheu o peito de
ar. Explicou que na vida tivera quatro paixões: a rádio, a columbofilia, a
poesia e as mulheres. Depois, abriu os braços, temi que ao largar a bengala se
estatelasse no chão, fez da sala de audiências palco e debitou uns versos mal
amanhados sobre uns olhos castanhos. Agradeci-lhe, no fim, como me
competia, triste com a minha sina: só os velhinhos têm apreço pela minha
pessoa.
2012/06/23
Dominó
Faço
a A5 e a Segunda Circular, já muito tarde, a cidade passa e são quase bonitos
os subúrbios assim, feitos de escuridão e luz; levo filhos e sobrinhos, dormem nos
bancos de trás, encostados uns aos outros, como peças de dominó: o Joaquim de
boca aberta, a Bia com a trança de rapunzel desfeita, a Dá esquecida da
tristeza com que acordou, choro porque preciso, tu não dizes que, às vezes,
também precisas de chorar, sou igual a ti, a mesma tristeza, mãe, a mesma
alegria, o Diogo com o corpo do meu irmão, africano sem o querer. Gosto de ser
tia tanto quanto gosto de ser mãe. Lembro o João que anda a acampar com o meu
pai por Espanha, repetindo gestos, visitando o Vale dos Caídos, outras memórias
do franquismo, lendo mapas, aprendendo, como eu aprendi, que o amor do meu pai
é um amor condicional, a mais pequena desilusão e perde-se. Lembro a minha mãe
e a minha tia, ando com vontade de comer sopa de tomate, disse a minha mãe,
hoje, à saída do Colombo, e chegou-me uma vontade de chorar tão grande. Se me
morrem os pais morro também. Sou filha. Mais do que mãe. Lembro o telefonema do
Pedro a meio da semana, tia, amo-te muito, disse para me confortar, a minha
irmã do outro lado explicando que ando sensível, a tia Ana anda tristonha, tens
de a animar. E animou. A sorte que tenho em os ter, a eles que são o meu
sangue, aos outros que chegaram: o Manuel, patrono querido que se fez cunhado, gosta
do Céline, do Jack London, do Durrell, do Proust, goza as minhas leituras; a Maria
de Lurdes, meio bronca, mas intrinsecamente boa, e isso é bem mais importante
do que saber falar de livros, de filmes, da merdice cultural, tão bem que nos
damos nas férias, falando de mundanices e bebendo minis ao final do dia enquanto
cozinhamos para os nossos filhos. Como se pode viver de costas voltadas para a
família? Somos como peças de dominó. Caindo uma, sou sempre eu a cair, caímos
todas.
2012/06/22
Refeitório
Ao
meio dia e quinze estou sentada junto do balcão da fruta, de frente para a
linha de servir, a apreciar as movimentações dos que chegam e dos que estão, a
Fátima serve o peixe e a dieta, a Rosa cuida da fruta e do prato de menu, a
chefa, fascista do pior que há, cheia de vitiligo nos braços e na carranca de
superior hierárquica, serve a carne com uma soberba que espanta, medindo as
fatias de lombo assado, põe e tira, tira e põe, confirma a grossura à
contraluz, a medir, a sentir o peso, não vá descuidar-se e exagerar na dose do
mini-prato; a mim, que pouco como, não me causa mossa, não sei, porém, como
ainda ninguém lhe atirou com a avareza à fronha medonha. O rapaz das arcadas já
chegou. Está em frente da vitrina das sobremesas, mãos nos bolsos, hesita entre
uma gelatina de morango e uma bavaroise esbranquiçada de ananás. Vindo das
entranhas do edifício, chega, entretanto, o mefistofélico que me deixou há uma
semana um bilhetinho no tabuleiro. Desde esse dia passei a ter-lhe nojo, um
asco incontrolável de mulher esmagada. E, no entanto, não foi desagradável, nem
mal-educado, nem sequer rude. Limitou-se a convidar-me para tomar café. O
mefistofélico conhece o rapaz das arcadas, talvez trabalhem na mesma direcção,
pergunta-lhe o que anda a ler e olha-me pelo canto do olho. O rapaz paga a refeição e
senta-se na minha mesa, quatro lugares de intervalo, fico numa ponta, ele
noutra. Há meses que é assim. Costumava sentar-se perto da porta da saída, um dia sentou-se na minha mesa. Cumprimenta-me com um aceno breve, gesto que mal
se nota. Espio-lhe as leituras abertamente, esta semana anda a ler a história
universal da infâmia. Engulo a sopa de legumes e uma tacinha de arroz doce, por
vezes, distraio-me da leitura para falar à Rosa que tem família no Catembe e em
Mapusa. O rapaz come o menu completo sem nunca tirar os olhos do livro, uma
concentração que me aflige. Saberá ele que a Rosa se chama Rosa e que a Fátima,
viúva alegre, chorou mais a morte do caniche preto do que a do marido? Saberá
ele que a chefa do vitiligo tem uma neta chamada Virgínia Estefânea? Não sei.
Só sei que lemos juntos ao pequeno-almoço e, juntos, continuamos a ler durante a hora de almoço. Depois, até voltarmos cada um à sua secretária, ele senta-se a ler na ruidosa sombra das arcadas do edifício, eu vou escutar o terço na igreja ao lado. Temos, eu e o rapaz das arcadas,
a relação perfeita. Fazemos muita companhia um ao outro. Estamos solitariamente
acompanhados. Ou acompanhadamente sós. Qualquer coisa do tipo. É o
silêncio que nos une.
2012/06/20
Nós
Faz hoje um ano que tomei uma caixa de Xanax, disse a mulher ao empregado
do bar. Depois calou-se, estranhando as palavras que se tinham soltado da sua
boca. Nunca ninguém lhe falava desse dia. Nem o marido. Nem os irmãos. Nem os
pais. Nem a única amiga que tinha. Era como se não existisse. Como se outra, que
não ela, tivesse naquele dia rondado o bairro de Chelas à procura de espantar a
dor para os homens que, sonolentos, despertavam para a manhã. Como se outra,
que não ela, tivesse escutado os renhaus dengosos que as mulheres lhes lançavam
das janelas dos prédios de habitação social. No fundo, aquele dia só existia
para ela, para mais ninguém. Por isso o celebrava sem que os outros soubessem,
bebendo ao final do dia, num bar da rua de São Paulo. O empregado do bar voltou
e pousou no balcão um copo triangular, com gelo moído e hortelã fresca.
Sorriu-lhe de forma profissional, asséptica, como a querer dizer-lhe olhe que
eu também tenho os meus problemas, não estou com disposição para confissões.
Mas a mulher não o percebeu. Ou fingiu não o perceber. É triste uma pessoa falhar
até na morte, não acha? E, sem esperar pela resposta, começou a chupar o sal dos bordos do
copo.
(Faz hoje precisamente seis anos que tentei matar-me e, hoje, o médico da medicina do trabalho disse que eu era uma mulher bonita, tem três filhos, dizia, uma profissão, mas tantos nós por desatar. Aconselhou-me psicanálise. Não quero desatar os meus nós, gosto deles assim, cegos, brutos, alimentam-me. Tive vontade de o mandar para o caralho.)
2012/06/17
Pau de cabinda
Ao final da tarde, andei na internet à procura de consultas de
sexologia clínica. Encontrei uma no Hospital
Júlio de Matos e outra em Santa Maria. Opto por ir a Santa Maria, dispenso o
estigma do Júlio do Matos, ser frígida não é bem o mesmo que ter um parafuso a
menos. Tenho os parafusinhos todos. Tenho a lucidez de perceber quem sou. Fiquei muito contente com a minha decisão,
dizem-me que é importante procurar ajuda para os problemas que nos vão surgindo
na vida, talvez haja um equivalente do viagra ou do pau de cabinda para as
mulheres; senti-me invencível, tanto que, apesar de estar no segundo dia da menstruação,
dia de hemorragia forte, meti um tampão plus, sem aplicador, enfiei-o bem na
fundura da minha vagina, lavei as mãos e fui correr.
2012/06/16
Aninhas e os dois amores
Aninhas,
submissa e abnegada, dava-se a muitos homens, mas amava apenas dois. Um loiro,
outro moreno, como na canção. Era feliz durante a noite, enquanto sonhava: deitava-se
com um, acordava com outro. Despertava aliviada por nenhum desses homens a
amar.
2012/06/14
Morte santa (1)
A um canto, num cadeirão de napa, um homem dormia, estiolado,
mãos de trabalho, rugosas, cheias de cortes, dedos inchados, unhas brancas de
cimento; viera para cumprir a obrigação que se impunha, apresentar os seus
sentimentos, dizer duas palavras à viúva, explicar-lhe que, no dia seguinte, por
se iniciar a cofragem na obra, não poderia vir para o funeral. O cansaço,
porém, fizera-o sentar-se no cadeirão, adormecera em pouco tempo. Dormia
profundamente há já meia hora. Sornava sem alarido. Sentadas, junto de uma
janela, como corvos espiando o bosque, duas velhas, casacos de lã escura, pés
enfiados em pantufas, murmuravam rezas novas. Negrume de mulheres sós,
escuridão funda e imensa. Estavam as velhas de olhos secos, mas expressão de
pesar, como convém nestas ocasiões. Em lugar de destaque, a viúva, mãos postas
no regaço, lábios tensos, parecia aliviada. Mulher indistinta, anódina, sem
traços ou marcas, quase invisível. Ao centro, enfiado num caixão de pinho
barato, recamado de cetim branco, o brilho dos tecidos baratos iluminando o
velório, estava o morto, corpo robusto, rosto descoberto, vestindo um fato de
três peças; nos pés, os sapatos que levara ao casamento da filha mais velha.
Quando alguém chegava, dirigia-se à viúva, dizia breves palavras de consolo,
partia pouco depois com a satisfação de uma obrigação cumprida. Quem chegava
não olhava o morto. Ninguém se abeirou sobre o caixão para o chorar ou ver pela
última vez o seu rosto. Homem mau, de costumes beras, nascera com a maldade no
corpo. Viera para o prédio muito novo, sem passado, nem lembranças, casado com
aquela mulher, trabalhava conforme calhava, um dia aqui, outro acolá.
Taciturno, pontapeava gatos, cães e crianças que se
atravessassem no caminho, bebia muito, arranjava sempre zaragatas,
engalfinhava-se em cenas de pancadaria, ficava com olhos inchados, equimoses,
chagas abertas que custavam pouco a sarar, passados dois ou três dias aparecia
como novo, entrava no café, pedia um copo de vinho, depois outro e mais outro.
A ruindade parecia ter nele um efeito regenerador, o diabo que lhe vivia no
corpo tratava-o com ligeireza mágica, punha-o bom num instante, assim,
recomposto, sem marca de humana fragilidade, podia voltar a ser simplesmente
mau. Tratava a mulher à pancada, as filhas também. Às vezes, trazia-as para a
escada do prédio para lhes bater à vista de todos. Suas putas, suas grandes
putas, ia dizendo enquanto lhes batia, as mulheres agachadas, mãos a proteger a
cabeça, acostumadas àquilo, incapazes de se sentirem vítimas, aguardando apenas
que se cansasse e recolhesse ao apartamento. Que a morte o tivesse vindo
buscar assim, ligeirinha e benevolente - um ataque súbito enquanto dormia em
frente do televisor, espumou da boca, levou as mãos ao peito, esperneou um
instante, soltou dois gritos mudos e foi-se – era coisa que indignava muita gente.
Quando se soube da notícia, pela manhã, houve até quem lamentasse ter tido uma
morte assim, devia ter sofrido como a vizinha do rés-do-chão esquerdo, o
carcinoma lento sugando-lhe tudo, desfazendo-a, arrancando-lhe o estômago e as
tripas, deixando-a liquefeita por dentro; gemeu a coitadinha durante dois meses
agarrada a um rosário da terra santa, abençoado por um bispo brasileiro, que
encomendou através do canal televisivo de uma igreja evangélica neopentecostal.
2012/06/13
2012/06/10
El enanito (7)
Depois de dias de hesitação, vou, não vou, vou, não vou, voltei à Almirante
Reis. Pouca, nenhuma, a vontade de encontrar o meu amigo e a sua Moranguita. Custa-me
a felicidade dos outros. Lisboa não é a minha cidade, nunca será, mas a
Almirante Reis é a minha rua. Metamorfoseio-me se estou quinze dias sem lá ir.
Começa a pele a secar, ganho impingens pruriginosas, coço-as até sangrar, os pêlos
do buço crescem mais depressa, muito pretos e arrepiados, incham-me os olhos, até
a voz se altera, perde robustez, fica um esganiço que se enrola nas palavras. Na
quarta-feira, acordei com duas manchas alaranjadas no braço direito, resolvi
meter um dia de férias. Larguei os miúdos na escola, o mais pequenino disse-me
um segredo ao ouvido, e rumei à Almirante Reis. Fui descendo a avenida devagar.
Mal cheguei à esquina com a Antero de Quental, encontrei o meu amigo, vestia
uma bata ensanguentada, vinha de fazer uma entrega na Marisqueira do Lis, mas
tinha tempo para uma bebida. Sentámo-nos na esplanada do chinês vesgo, cá fora,
a gozar o fresco do mês de Outubro, eu a matar saudades da indigência, ele,
perninhas bambas, baloiçando, sem chegar ao chão, a contar-me as novidades. Arranjei trabalho no talho do Karim. Ele tinha, como ajudante, um costa
marfinense, uma besta grande, fazia para aí dez de mim, quatro dentes de ouro, evaporou-se
de um dia para o outro, levou três frangos do campo, uma palete de codornizes e
uma carcaça de vaca ainda por desmanchar. Deixou o Karim numa aflição. Ofereci-me
para o ajudar. Ele aceitou e mandou fazer um estrado para eu chegar ao balcão; anda
tão satisfeito com o meu trabalho que até já encomendou a um artífice lá da
terra dele, cuteleiro do melhor que há, um estojo de facas para o retalhe de
animais de pequeno porte: patos, coelhos, frangos, galinhas.
A Moranguita, continuou, é que ainda não
encontrou trabalho. Vai fazendo uns biscates. Entretém-se a fazer croché, é
muito habilidosa, umas mãos de oiro, faz pegas, bolsinhas para os telemóveis,
vende-as na entrada do metro. Anda a bordar uma toalha, toda a ponto richelieu,
encomenda de uma finória qualquer, encavalita-se em cima de um bastidor
especial que comprámos na Rua da Conceição, passa a noite naquilo. Também ajuda
a limpar o altar da Igreja dos Anjos uma vez por semana. Para além de
contorcionista, é exímia trepadora, mete-se em buraquinhos, nichos de santas,
amarinha por ali acima, parece um sagui, leva uma flanela embebida em óleo de
linhaça, deixa tudo num brinquinho. O padre, um velho jesuíta, diz que
nunca teve a igreja tão limpa, os rostos dos santos andam luzidios e os ornatos
da talha dourada parecem feitos de sol e luz. Parou um pouco. Limpou a saliva
que se acumulara na comissura dos lábios e cumprimentou uma matulona que ia a
passar. Sabes, nos dias em que faz a limpeza aos santinhos, à noite, quando se
deita, ainda leva aquele cheiro perfumado, cheiro de mirra, incenso, um cheiro muito
oriental. Enfio o nariz nos pentelhinhos, andam tão macios, e perece que estou
numa medina magrebina, cestos cheios de tâmaras, latoeiros, homens de cócoras
fumando, como lagartas azuis, narguilés. Cheirá-la nesses dias basta-me. Depois,
abruptamente, deu um salto, fez uma momice que me pareceu escusada, e
despediu-se, desculpa, mas tenho de voltar ao trabalho que o Karim prometeu
que, se houvesse pouco clientela, me ensinava a desossar uma galinha.
Dei-lhe um abraço, bebi mais um sumol e
pedi a conta. Voltei a subir a Almirante Reis. Olhando a montra de uma
sapataria, encontrei-me do outro lado, achei-me feia como um xarroco, primitiva
como um rascasso, plana como uma tremelga. Estava eu na habitual comiseração,
quando alguém me chamou. Olhei e vi um velho abonecado, lenço de seda, casaco
assertoado, apoiado num andarilho de quatro pés. Reconheci-o imediatamente. Era
o velho do açafate de fruta, o quase defunto da empregada brasileira, o miserável
que me escorraçara sem dó nem piedade do seu apartamento sombrio da Passos
Manuel, furioso com a minha iliteracia, como se pode viver, gritou-me naquela
tarde, sem conhecer o decandentismo e o vitalismo moderno? Tivera uma franca
melhoria, a brasileira dera-lhe a experimentar um chá de flor de fava, estava muito
melhor, já não usava algália, largara de vez a literatura, tomava apenas o
vigamed e o tryptanol para o coração. Estou como novo, rematou, vou ali abaixo
à procura de carninha, alcatra, chambão do bom, tenho comido do melhor.
Escutei-o em silêncio. Depois - não sei explicar porque o fiz - perguntei-lhe
se lhe apetecia a minha companhia. Disse que sim. Pegou no andarilho de
alumínio, largou um pingo de baba e pôs-se a andar a meu lado muito devagar.
2012/06/05
El enanito (6)
Pediu-me para o deixar
na Almirante Reis. Larguei a melancolia que, assim como a acolho, também a
despacho rapidamente, enxoto-a como insecto insignificante que é, muitos anos
de depressão dão nisto, é o hábito, ganha-se calo, frieza e distância, uma
pessoa aprende a relativizar o sofrimento, não há dor a que a gente não se
habitue. Não vais para a Pensão S. Miguel, pois não? perguntei e finquei-lhe um
olhar indignado, furibundo, chispante, como que a dizer largo-te já no meio da
rua, ali ao pé daquele rapaz que passeia, sem trela e açaime, um pit-bull, se
me disseres que a levas para o lugar dos nossos encontros. Não, olha que ideia,
vamos ficar na Casa de Hóspedes Mirabel, é um sítio de gente séria, sem putedo,
sem máquina de preservativos na entrada, sem lençóis amarelos a cheirar a
lixívia, sem caixinhas de toalhetes em cima das mesas de cabeceira, fica um
bocadinho mais abaixo, é um prédio azul antes de chegar àquele supermercado
chinês onde tu gostas de comprar caldinhos de massa, barras de sésamo e novelas
escritas em cantonês para teres a ilusão do mundo de lá. Sosseguei. Passou-me a
irritação. A Moranguita chegou. Antes que pudesse dizer alguma coisa, peguei-a
ao colo e sentei-a na cadeira do meu filho mais novo, uma isofix da Chico, maravilha
de cadeira, comprei-a numa promoção, ainda assim custou quase duzentos euros,
mas não me arrependi, material ventilado, reforço lateral, apoio regulado para a
cabeça, tem um arnês forrado, imobilidade absoluta, cinco anos de garantia; bati
já duas vezes depois de a comprar, o mais velho rebentou com o lábio, a do meio
deu um gangão violento, andei durante vários dias com o peito dorido, mas o
mais pequeno, instalado no seu trono, nada. Segurança total.
Desci a Gago
Coutinho devagar. Íamos em silêncio. A Moranguita dormitava lá atrás; pelo retrovisor,
reparei que um quelóide avermelhado, lagartinha fibrosa, lhe marcava o peito. Sempre
que vejo uma cicatriz, o relevo monstruoso, sinal de abertura, tenho vontade de
lhe tocar. Uma cicatriz escarifica, é marca de imperfeição, tumefacção
permanente, reconduz-nos à nossa fragilidade e insignificância. Fui o resto do
caminho a espiar-lhe a rasgadura do corpo. O meu amigo, sentado ao meu lado,
emudecera. De vez em quando, limpava os cantos da boca com um lenço de papel. Chegámos
por fim aos Anjos, estacionei a Hiace em frente de um prédio pintado de azul
claro, varandas de ferro, janelas de alumínio com venezianas amarelas. A Casa
de Hóspedes Maribel era ali. Já no passeio, o meu amigo pediu-me emprestados
quinhentos euros, que me pagaria assim que pudesse, era só para os primeiros
tempos. Passei-lhe um cheque. Deu-me um beijo no rosto, és uma amiga impecável,
Ana Clara, explicou, perdigotando, a adjectivação ficou-me a latejar na pele.
Depois, pondo um ar sério, ofereceu-me o tal cacho de bananas, eram bananas
especiais, não tinham nada a ver com as bananas chiquita que crescem em
plantações infindáveis e são regadas com chuva de antibióticos e insecticidas,
nada disso, fora apanhá-las mesmo antes de ir para aeroporto ao quintal do seu
amigo Pablo, descendente directo de mapuches e olmecas, eram mágicas, quem as
comia ganhava poderes esotéricos, a nefanda capacidade de adivinhar o futuro. Agradeci o
presente, muito obrigada, tu sabes bem o que gosto de bananas. Começava a
preocupar-me o delírio do meu amigo. Andei o resto da tarde de passeio com o
cacho de bananas mágicas. Cheguei a Caxias passava das dez. Tive vergonha de
confessar à minha irmã que o enanito do meu coração me trocara por outra. Mal
me viram os miúdos enrolaram-se nas minhas pernas, veio-me assim uma sensação
de estrangulamento e desmerecimento, de ingratidão insuportável, tanto que eu
gostava de ser uma fêmea como deve ser, falando de criancinhas de manhã à noite,
o meu João tem um coração de ouro, a minha Dá tem cinco a tudo e toca violino,
o meu Joaquim canta todas as canções do Chico Buarque. Levei-os para casa. No
dia seguinte, pedi à empregada que panasse as bananas mágicas com pão
ralado e as fritasse em azeite para acompanhar um pedaço de picanha nacional. Sempre
é mais barata. A minha filha gostou muito e, ao contrário do que é habitual, nessa
noite, pediu para repetir o jantar.
2012/06/01
Sexta-feira
Serpentes emplumadas e diários remendados para digerir noite
fora. Mastigar um e depois outro,
intervalando, para não enjoar. Uma
garrafa de vinho tinto que custou nove euros e um maço de cigarros. O Chico Buarque
canta para a mulher que dança na cozinha, descalça, calças descaídas,
t-shirt justa e curta, corpo moribundo
espreitando. Não há homem, nem sequer mulher, que a livre da morte. E, amanhã,
a mulher levanta-se às seis da manhã para levar a filha ao campeonato nacional de
ginástica. Como detesta a vidinha. Dizem, explicam-lhe, que é mal-agradecida, injusta e imatura, que é
estúpido, profundamente estúpido, querer da vida mais do que a rotina. Uma
pessoa deve habituar-se à indiferença reptilária, gelada e escorregadia. Arrogância
intolerável, essa de querer mais qualquer coisinha, primícias, liberdade, a poesia espalhada pelo chão.
2012/05/08
El enanito (5)
Parou um
bocadinho. Estava cansado. Ele falava, falava. Eu escutava, escutava. A
Moranguita corria, corria. O meu amigo alçou a perninha curta, pôs-se em
biquinhos de pés e, antes que pudesse ajudá-lo, dando impulso ao corpo
atarracado, sentou-se na bagageira da Hiace. Depois, baixou a voz e explicou-me
que resolvera abandonar em definitivo a indústria pornográfica, já não queria
ser uma porno star, não estava para isso, não fora só a humilhação de o terem
trocado por um burro, chegou o bicho como se fosse uma estrela, vagaroso e
arrogante, puxado por uma arreata do mais macio couro, havia uma meda de feno chileno
à porta do estúdio, para lhe encher o bandulho depois de cada cena, era
sobretudo por estar farto de contracenar com mulheres de estatura maior.
Cansava-se muito. As actrizes pornográficas, mais do que as outras, à conta de
tanto enchimento e recauchutagem, eram autênticas cavalonas; injectavam-se com
silicone, colágeno, às vezes, até com gordura animal, sobretudo de porco, que encomendavam
pela internet, chegava um kit com seringa, duas bisnagas de sebo e um livrinho
de instruções, não custava nada, só era preciso inspeccionar bem o produto
antes da aplicação, às vezes, ganhava verdete, assim umas manchas jaspeadas que
indicavam estar fora do prazo de validade. Pois essas mulheres insufladas tinham
corpos que eram uma longura, não acabavam, intermináveis como o deserto do
Kalahari e gelados como a tundra gronelandesa, nem imaginas, as mamas eram
verdadeiras montanhas, as nádegas têm-nas infindáveis, gelatinosas, mas
redondas e colossais, as vaginas são secretas, mas no pior sentido, fundas,
buracos negros, autênticas cavernas, uma pessoa é capaz de se perder lá dentro
e nunca mais ver a luz.
Por exemplo, Ana Clara - tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?
Por exemplo, Ana Clara - tanto que gosto de ouvi-lo dizer o meu nome! - para que tenhas uma ideia, numa cena de preliminares lambidelas, das mais subtis às mais porcalhonas, eu levava uma eternidade a chegar do dedinho do pé ao lóbulo da orelha. Amarinhava, lambia, beijava, chegava cansado lá acima, estourado, lábios dormentes; língua seca, sequinha, áspera como um esfregão verde da loiça, o que não é nada bom sinal para quem sofre de sialorreia. Quedei, achando que, pobrezinho, contraíra alguma doença venérea, gonorreia, sífilis, pior, condiloma, imaginei-lhe a genitália cheia de verrugas, lesões, a glande recamada de excrescências cor de terra, ele percebeu a minha preocupação, explicou que não era nada disso, sialorreia, Ana Clara, produzo muita saliva, salivo excessivamente, então tu não sabes que ando sempre com um lencinho no bolso para limpar os cantos da boca?
Era por isso, por causa dessa fadiga, que, por
mais estimulantes que lhe dessem a tomar, lhe custava a puxar o gatilho. Ali,
no corpo da sua Moranguita, tudo estava mais à mão, concentrado. E, depois, isso
é que era mesmo importante, amava-a. Foi aqui que achei que chegava de
confissões. Enojou-me ligeiramente a conversa porque não acredito no amor.
Acredito no amor parental, filial, fraternal, no amor que se baseia no sangue. Entre
um homem e uma mulher não há amor. Há apenas rituais de acasalamento, uns
breves, outros longos, capazes de durar a vida inteira. Tenho pois um leve
desprezo por quem ama, mais ainda por quem desespera por não amar. Em todo o
caso, para não o melindrar, disfarcei o enfado que a conversa me provocava. Pedi-lhe
que chamasse a Morangita, tivera tempo mais do que suficiente para
desentorpecer as pernas, tardava, ainda tinha de ir buscar os miúdos a Caxias,
levar a do meio a uma festa de anos naquele centro comercial novo perto da Falagueira
e passar por uma drogaria a comprar ácido muriático para a minha empregada limpar
as juntas dos azulejos. Ele a falar-me da anã contorcionista, do burro de ouro,
de sialorreia, do seu fracasso nos filmes pornográficos; eu a falar-lhe de
filhos, de festas de aniversário em centros comerciais, da limpeza das juntas
do chão da minha cozinha. Tive noção do remanso que é a minha vida e, naquela
tarde, por breves instantes, senti um saracotear por dentro, vontade de chorar.
Existência como a minha não se devia admitir.
2012/05/07
El enanito (4)
Fiquei ensimesmada,
a pensar como se conjuga o contorcionismo com o prestamismo, sul-americanices, concluí,
coisa de povos que ainda não evoluíram o bastante para chegar ao patamar da
seriedade, do rigor, das contas certas, do défice controlado, tamanha liberdade
e imaginação já não se usa por cá. Apaixonei-me mal a vi, continuava o meu
amigo, vamos casar pela igreja, arranjar empregos, poupar para alugar um T1 e comprar
dois passes sociais. Foi então que a sua Moranguita largou a fugir entre os
carros, preciso dar às pernas, gritava num espanhol açucarado que me encantou, fonética
cheia de modismos, quase parecia italiano, os trópicos nas línguas mãe dão-lhe outro
sainete, um travo de rebelião de dígrafos e fonemas, até parece que as letras são
gente. Porém, quando a vi em correria descontrolada, feliz por recuperar a
marcha, começou a palpitar-me o coração, tal e qual como quando vou de passeio
com o meu filho mais pequeno e o patife me larga a mão ao atravessar à rua. Temi
que se perdesse ou, pior, tão pequenita, algum condutor, a bagageira cheia de
malas, a pressa de chegar a casa, em manobra de arrecuo, a não visse e a
atropelasse. A tragédia que seria. O meu amigo, percebendo a minha inquietação,
sossegou-me, não te preocupes Ana Clara, a Moranguita está muito habituada,
vivia numa urbe furiosa, cheia de chevrolets e cryslers, apesar de pequena, é
mulher que nunca passa despercebida. Mudou de assunto com rapidez, nem imaginas
a quantidade de pretendentes que tinha por lá, quando a conheci, andava a ser
cortejada, mas à séria, com flores, mails dengosos e caixas de bombons recheados
com creme de marula, por um protésico que ganhava rios de dinheiro a fazer
dentaduras caninas; havia também o padre da sua paróquia, rapaz novo, empenhado
na conversão dos infiéis, muito pior do que o protésico dentário, nunca me
enganou, eu bem via como se animava quando levava a minha Moranguita para a
confissão. Andava a tentar convencê-la a ir na procissão da Nossa Senhora del
Bueno Parto, em cima de um estrado de tabuinhas, a fazer as vezes da santa, dizia
que seria um quadro vivo da virgem santíssima, coisa nunca vista, havia de
comover multidões, trazer a paz aos corações malsãos; tudo sem grande dispêndio,
já que era exactamente do tamanho da imagem que estava no altar da igreja,
servia-lhe a túnica branca, com cercadura dourada e também o véu que parecia feito de
encomenda, não precisava de nenhum arranjo, por outro lado, não pesava mais do
que a imagem feita em marfinite, podia usar-se o mesmo estrado de tabuinhas. O
padre ainda lhe ofereceu uma caixa de bombons com recheio de creme de avelã.
Ela não aceitou, para já, por gostar muito mais de bombons recheados com creme
de marula, depois, porque lhe expliquei que não autorizava tamanho disparate, era
o que mais faltava a minha Moranguita vestida de santa, a tarde inteira sob o
sol abrasador, passeando por calles apinhadas de gente, mãos de velhas más, de bêbados,
de tarados recalcados, de mães de família e de empregados bancários, a quererem
tocar-lhe o manto para se livrarem da degenerescência e do pecado.
2012/05/06
El enanito (3)
Estava eu sentada
de novo no banco desconfortável, lendo o livro que trazia dentro da mala, obra aclamada
de um escritor suíço morto há pouco, coisa séria, densa, cheia de referências literárias
e deambulações intimistas, fazendo um esforço para ler duas frases seguidas e
as compreender, quando, finalmente, vi chegar o meu amigo. Vestia bermudas,
calçava umas alpercatas coloridas que lhe sobravam nos pés, chinelava, por
isso, perdera o pouco cabelo que tinha, chegava cansado, via-se bem, o rosto
feio sulcado por muitas rugas finas, percebi que passara as passinhas do
algarve lá pelas américas. Trazia pouca coisa, arrastava apenas um trolley médio
que rolava devagarinho, chiando, pela rampa da saída e, coisa estranha, um
cacho de bananas debaixo do braço. Corri para ele, meu bijouzinho, meu rico
enanito, finalmente voltaste; abracei-o e, por hábito doméstico, levantei-o
para o pegar ao colo, tal como faço com os meus filhos mais pequenos, senti-o,
porém, espernear furiosamente, põe-me no chão, se faz favor, ordenou com uma
frieza que não lhe conhecia. Obedeci, envergonhada do meu gesto. Baixei-me e,
de cócoras, fechando os olhos, preparei-me para o beijar. Fiquei, no entanto, de
boca à banda, o beijo perdido no espaço cosmopolita da aerogare. Sabes, Ana
Clara, vim acompanhado, justificou-se. Estranhei a conversa, olhei em redor e
não vi ninguém. O meu amigo, antes que pudesse perguntar-lhe pela companhia,
começou a andar em direcção ao parque de estacionamento à procura do meu carro.
Tenho uma carrinha velha, uma Toyota Hiace cor de ferrugem que dá nas vistas,
herdei-a de um tio que era construtor civil e a usava para transportar o
pessoal para os prédios que construía na outra banda, Corroios, Seixal e Coina;
é uma carrinha antiga, gasta muito gasóleo, deita fumo preto ao arrancar, custa
a estacionar e, sobretudo, embaraça os meus filhos quando me vêem chegar ao
portão da escola onde uma manada de porsches cayennes espera a saída das crias.
Não é uma viatura adequada ao meu bairro, nem sequer à minha rotina, mas não
sou capaz de me desfazer dela. Razões sentimentais. Na verdade, gostava muito
do meu tio. O meu amigo parou quando finalmente topou com a carrinha estacionada
entre um mercedes de estofos de couro e um smart amarelo, conhecia-a bem porque,
às vezes, por desfastio, para não enjoarmos da cama estreita do quarto 27 da
Pensão S. Miguel, acabávamos a tarde em cabriolices lá dentro. Olhou em volta,
com um ar muito comprometido. Só tínhamos dinheiro para uma passagem, explicou
e a voz tinha uma quentura, certos arabescos e espirais, que eu também não
conhecia. Curvou-se sobre o trolley, fez deslizar o fecho, abriu o saco e mostrou
o conteúdo: era uma anã surpreendentemente pequena, vinha encolhida, dobrada
sobre o corpo adormecido, parecia um feto aconchegado no ventre materno. Abriu
os olhos e saltou do saco com desenvoltura, ajeitou a saia e explicou que
trazia as pernas trôpegas de vir encolhida tantas horas dentro da sacola do
companheiro. Uma anã proporcionada, sem cabeçorra, sem pernas curtas, sem
braços curtos, mínima, ínfima, dava-me pela barriga da perna, muito bonita, cheia
de curvas, parecia uma bonequinha. É a minha companheira, chama-se Maria Ivone,
mas eu chamo-lhe Moranguita. Conhecia-a numa casa de penhores, onde trabalhava
como contorcionista.
2012/05/05
El enanito (2)
O regresso do
meu amigo animou-me. Costumávamos dar belas passeatas ali pela Almirante Reis, encontrávamo-nos
pelo meio-dia na esquina do Banco de Portugal, descíamos a avenida até ao
Martim Moniz, comíamos qualquer coisa ao balcão, era, quase sempre, um prego e
um copo de vinho verde no quiosque do chinês vesgo, depois, subíamos de novo
até ao Intendente à cata de prostitutas, heroinómanos, chulos, alcoólicos,
velhas de pele curtida; olhava-os como se fossem objectos preciosos, raridades
de feira, tirava notas numa agenda, o meu amigo ria-se do meu entusiasmo, mas
não o estranhava, percebia que por ali passava a minha emancipação. No final,
acabávamos a tarde na Pensão S. Miguel, no quarto 27, tinha uma cama estreita,
que nos chegava; num varandim enferrujado, duas floreiras com petúnias floridas
disfarçavam o cheiro de mijo antigo que chegava da rua. Ele, a meio da
entretenga, às vezes, dizia gostar de mim sobretudo por eu precisar da miséria
dos outros para viver. Toda a gente tem válvulas de escape para aguentar a
vida, mas a tua é de uma sofreguidão e tristeza que me comove. Deixava-o fazer
análises, que fingisse à vontade ser discípulo de Freud se isso lhe enchia o
ego, mas, sempre que se alongava na merdice psicanalítica, pedia-lhe que se
calasse e para, com empenho, continuar a desempenhar o seu papel de cobridor. Eram
umas tardes deliciosas, assim confortada, custava-me menos regressar ao meu
bairro de empregadas brasileiras passeando pela tardinha meninas loiras de
sobretudo azul, porsches cayenne rodando em avenidas floridas, como mamutes,
gente saindo da mercearia gourmet com sacos cheios de iogurtes biológicos, massas
frescas com tinta de choco, abacates, anonas e tomatinhos cereja.
Fiquei, pois,
muito animada. Com sorte, voltaria a ter tardes de decadência e indecência para
me consolar. Depois, há qualquer coisa no meu amigo anão que me atrai. Quando descemos
a avenida de mãos dadas toda a gente nos olha: eu, razoavelmente portentosa - digo-o,
sem exagero, por ser a mais pura das verdades -, rabo redondinho, cabelo muito
preto, ondulando pelas costas, lábios vermelhos a desabrochar, olhos líquidos de
fêmea infeliz; ele, pequenote, arqueado, hedionda cabeçorra, já meio careca, dentes
tortos numa boca que saliva excessivamente. Devem achar que formamos um par insólito
e estranho. O certo é que roubamos o protagonismo das putas retintas, dos
bêbados, dos sem-abrigo que costumam parar à porta do talho do Karim que, jóia
de rapaz, ao fim da tarde, faz panelonas de borrego guisado para matar a fome a
quem a tem e ganhar o apreço de Alá. Roubar o protagonismo aos indigentes é sempre
bom. Enche-me de vaidade e orgulho.
O meu amigo chegou
no dia 1 de Maio. Passei uma hora em frente do espelho a escolher a indumentária
certa, coisa simples, sem grandes arrebiques de sofisticação, mas que lhe
acicatasse o desejo, entumecesse à primeira vista o mais que tudo e o fizesse
esquecer o cansaço da viagem. Escolhi um vestido preto, justo, decotado, botas
de cano alto. Pedi à minha irmã para cuidar dos miúdos. É que vou buscar o meu
enanito ao aeroporto, expliquei. Ela aceitou prontamente, que não me
preocupasse, ficaria com eles o tempo que fosse preciso, se precisares da noite
para matar as saudades eu cá me arranjo, encomendo uma piza familiar, uma
garrafa de dois litros de coca-cola e meto-os a ver filmes de enfiada. Agradeci-lhe.
É uma irmã como não há outra, a minha única amiga, faz muita questão que, no
meio da maternidade sufocante, arranje tempo para continuar a ser mulher.
Quando cheguei ao aeroporto, estranhei um grupo de hare krishnas que para ali estava
em cânticos mântricos. Esperei quase uma hora. Sentei-me num banco
desconfortável e entretive-me a ver as carecas dos seguidores do guru indiano, tufos
solitários de cabelos claros, dotis e kurtas cor de açafrão, dançavam e
cantavam com a inépcia própria dos ocidentais tresmalhados. Senti fome, pedi
uma empada de galinha e um sumol de laranja num café vazio. Enquanto comia
lembrei-me das tardes na Pensão S. Miguel, ali ao lado do talho do Karim. O meu
amigo anão, para além de sobredotado nas partes baixas, arrepio-me só de
pensar, é um mineteiro muitíssimo experiente, sabe dar à língua, o que não é nada
fácil de encontrar. Há homens que a entesam, um horror, fica aquele pedúnculo arroxeado,
hirto e triangular, uma pichotinha de gato a fazer parelha com a outra, lambem-nos
como se fôssemos um calipo de limão. Não se lambe uma vulva, não se percorrem
os pequenos e grandes lábios, como se a língua, em vez de o ser, fosse um
cajado de dureza hercúlea. O meu amigo anão nunca tentara metamorfosear sua língua,
a sua mantinha a languidez própria e esperada de um músculo que não conhece a
fadiga, a leveza do toque, sabia o que fazia e acertava sempre em cheio, nunca
precisei de lhe agarrar na cabeça para lhe corrigir a pontaria. Enquanto ele cunilinguiava
eu suspirava baixinho, mal se notava o meu prazer; na verdade, nunca fui mulher
de exagerar, com urros, gritos e rolar de olhos, os meus folguedos. Atingia o
orgasmo com intensidade, mas, ainda assim, nunca me libertava da envolvência. Pela
janela aberta chegava o alarido dos miseráveis que, arengando, disputavam o
segundo prato de guisado de borrego do Karim.
2012/05/04
El enanito (1)
O meu amigo anão
telefonou-me a semana passada de Buenos Aires. Contou-me as novidades. Tivera sucesso
na indústria pornográfica. A vida correu-lhe bem durante os primeiros tempos.
Mas, depois, teve assim uma espécie de esgotamento, passou a ter dificuldades
de hasteamento, custava-lhe muito a enrijecer o instrumento. Ainda lhe deram a
tomar uns comprimidos a ver se a coisa se compunha. Porém, no momento da verdade,
estava sempre de mangalho encolhido, uma serpente velha, sem serventia alguma.
O realizador decidiu tirar-lhe o protagonismo. Meteram-no num filme de furry
fandom, cheio de figuras híbridas; ele de figura secundária, usava uma
bandolete de crina, calções justinhos de cabedal e botins a fingir de cascos de
cavalo. A princípio, não se importou com a mudança: dava descanso ao seu
monumental instrumento, estava para ali, só tinha de ser passeado por uma
gorducha que usava um chicote com brandura; às vezes, relinchava. O pior é que
os botins com forma de casco apertavam-lhe muito os penantes. Eram tão apertados
que a determinada altura lhe pareceu que os pés encolhiam, passou a sentir
tonturas e, constantemente, uma sensação de desequilíbrio durante a marcha. À
noite, tinha pesadelos em que aparecia vestido de quimono, olhos rasgados de
chinesinha, os pés minguando, minguando, cada vez mais pequenos, pés de lírio entrapados
em sapatos de cetim vermelho. Percebeu que se continuasse a fazer de
cavalgadura miniatura, a usar os detestáveis botins, em breve, deixaria de
andar. Foi explicar ao realizador que não aguentava tamanhas dores, não estava
para ser pónei a vida toda, a bandoleta ainda vá que não vá, agora as botinhas
de casco nem pensar, ia-se embora. Julgou que o realizador reconsiderasse, lhe
arranjasse outro papel, afinal o seu primeiro filme El enanito e las siete monjas peludas fora um sucesso. Um anão, melhor
dizendo, um enanito como ele, tão bem apetrechado, não era nada fácil de
encontrar.
Para sua surpresa
o outro aceitou sem mais a sua demissão. As figuras híbridas já cansavam.
Homens touros, centauros, harpias. Estava tudo visto. Era um entusiasta da
cultura clássica, decidira fazer uma adaptação livre do asno de ouro e arriscava
usar um burro a sério. Já tinha em vista um burro abissínio, raça de robustez
provada, erecto, o burro abissínio era animal para ter um pénis com quase
cinquenta centímetros de comprimento e vinte de diâmetro. Engoli em seco, confessou
do outro lado da linha o meu amigo anão, bem vês, não é fácil ser-se
ultrapassado por um burro. E continuou: ainda me senti tentado a pedinchar que me
deixassem ficar, nem que fosse a tomar conta do asno, porém, depois lembrei-me de que um homem, mesmo sendo anão, tem o seu orgulho e por isso despedi-me. Estou
sem trabalho há mais de dois meses. Volto na próxima semana. Pedia-me, se não
fosse muito incómodo, para o ir buscar ao aeroporto. Pensei com os meus botões:
estás nas lonas, por isso regressas, vens-me pedir batatinhas depois de me
teres partido o coração, ah, meu bijouzinho malandro, a tua sorte é que eu sou
uma mulher apaixonada, incapaz de guardar rancor! Não te preocupes, lá estarei
para te ir buscar, disse-lhe e desliguei o telefone com o corpo cheio de
alegria.
2012/05/02
Aninhas e os sapatos de couro envernizado (2)
Ao final do dia, no caminho para casa, passou por uma sapataria que nunca
lhe despertara interesse. Era uma sapataria que vendia apenas sapatos e malas
italianas, estilo clássico, de irrepreensível sofisticação, modelos que podiam,
sem causar embaraço, ser usados por rainhas e princesas em cerimónias de
estado. Na montra, ao centro, estavam uns sapatos pretos de couro envernizado, simples,
biqueira redonda, declive acentuado pelo salto de sete centímetros, perspectiva
feminina de fuga. Entrou e pediu para os experimentar. Olhou a etiqueta do
preço: trezentos e dez euros. Custava-lhe dar tanto dinheiro por uns sapatos, havia
ainda nela laivos de uma juventude de punho erguido que lhe provocava um
levíssimo sentimento de culpa por ceder à luxuria e à frivolidade. Pagou-os.
Porém, mal saiu da loja, percebeu a irracionalidade do seu gesto. A compra de
tais sapatos não era compatível com o seu desejo de morte. Para que queria uns
sapatos de trezentos e dez euros se tomasse os setenta e três comprimidos,
anti-depressivos, ansiolíticos, voltarens e clonixs, que estavam dentro da
caixinha púrpura? Sentiu-se estúpida. Acontecia-lhe muitas vezes sentir-se
assim, estúpida, ridícula, com vergonha da sua angústia, por não a ter
coerente, estruturada, e, sobretudo, consequente. A verdade, porém, é que se
tomasse os comprimidos corria o risco de não gozar os seus sapatos de couro
envernizado. Talvez a mãe os escolhesse para os empregados da agência funerária lhos
calçarem no funeral; deitada no caixão, numa ponta, um rosto morto de
maquilhagem retocada, na outra, o brilho dos sapatos pretos. Ir a enterrar com
uns sapatos italianos de trezentos e dez euros parecia-lhe um desperdício. Ou
pior, muito pior, talvez o marido, vendo-os novos, a etiqueta a assegurar a
genuinidade do couro, o luxo do produto, a sola por estrear, os oferecesse à
namorada que certamente arranjaria para o ajudar a tomar conta dos dois
rapazes. Aninhas tentou imaginar a nova namorada do marido. Unhas
rectangulares, pintadas de vermelho, sobrancelhas aparadas, ordinária sem ter consciência de o ser, comum, anódina, levando
os seus sapatos italianos na linha azul do metro, a caminho de um salão de
estética dos subúrbios. Abriu a arcada
das narinas e bufou brandamente.
Pela tardinha, quando chegou a casa, o filho mais novo pela mão, a primeira
coisa que fez foi deitar fora os comprimidos da caixinha púrpura. A água da
sanita tingiu-se de rosa clarinho por causa do revestimento entérico das cápsulas
grenás que a mãe tomava para a artrite reumatóide. Depois, mudou de roupa e
calçou os novos sapatos. Olhou-os e a elegância era tamanha que lhe
pareceu que os pés não lhe pertenciam. O salto acentuava a curva da sua perna.
Apesar de bonita, Aninhas não suscitava desejo, paixão ou amor. Era apenas um
valor seguro. A sua beleza, tal como a sua angústia, era ridícula e triste por
ser inconsequente. Aqueceu o jantar, estudou geografia com o filho mais velho,
leu várias histórias ao mais novo, despediu-se do marido que acabava a sempre o
dia a ver séries de investigação criminal. Sempre com os sapatos do couro
envernizado calçados. Só os descalçou quando se foi deitar. Nessa noite dormiu
descansada, levou o sono até de manhã, sem espíritos de olhos doces, sem
precipícios, sem nada.
2012/05/01
Aninhas e os sapatos de couro envernizado (1)
Espíritos de luz
perseguiram-na durante muito tempo por florestas e precipícios. As
fantasmagóricas aparições eram parecidas com os seus filhos, as mesmas feições,
corpos ainda tenros, olhos doces, redondos, bocas carnudas. Queriam abraçá-la.
Fugiu-lhes durante toda a noite. Acordou cansada de tanto fugir. Levantou-se a
custo. Entrou na casa de banho e evitou olhar-se ao espelho. Abriu o armário.
Tirou uma caixinha púrpura onde guardava os comprimidos que roubava à mãe. Aninhas,
em certos assuntos, era uma mulher racional, sem pinga de hesitação ou
amedrontamento. Sempre que visitava os pais, inventava uma desculpa para ir ao
escritório, abria o armário dos medicamentos, tirava um ou dois comprimidos das
lamelas prateadas que a mãe organizava em tomas diárias, necessárias para o
tratamento de várias doenças: depressão crónica, hipertiroidismo, diabetes,
artrite reumatóide. Sentada na sanita, as calças do pijama enroladas no chão, o
cheiro adocicado da urina a espalhar-se pela manhã, pôs-se a contá-los, setenta
e um, setenta e dois, setenta e três, era já um cocktail de considerável
letalidade, para além de anti-depressivos e ansiolíticos, tinha também vários
analgésicos, aqui estão cinco clonixs e sete voltarens, não servem para matar,
mas sempre ajudam à festa. Era assim, exactamente assim, que pensava. Estava a contar
os comprimidos, questionando-se sobre a eficácia da dose, quando a voz do filho
mais novo, chamando-a, chegou do quarto. Escondeu a caixinha no armário, atrás
de uma embalagem de tampões. Arranjou-se, deixou os filhos na escola e foi
trabalhar. À hora do almoço, comeu uma sopa de nabiças e um mini-prato de arroz
de polvo. Volta e meia, lembrava-se da caixinha púrpura com os setenta e três
comprimidos. Não tinha ainda tomado a decisão de os tomar, mas aliviava-a saber
que os tinha ali, à mão de semear, prontos a livrá-la de uma angústia maior.
Lucy
Li, por estes dias, um livro do Coetzee. Lá para o meio do romance há uma violação brutal, primitiva, africana no pior sentido, a fazer lembrar o tal profeta Joseph Koni de que ontem falava o jornal. A violência da cena, é muita, também é dada pela reacção da vítima, uma jovem mulher, que, não sendo assumidamente lésbica, prescinde da companhia dos homens. Essa mulher aceita a sujeição ao sujeito soberano. É essa inicial passividade, motivada por razões ideológicas, que, mais do que a violência física, violenta o leitor. É bom escritor, o Coetzee, dos que mais gosto de ler. Mas, consumada a violação, quando, em meia dúzia de linhas, se debruça sobre, como lhes chama, os assuntos de sangue das mulheres - menstruação, parto e violação - escreve o seguinte: violar uma lésbica é pior do que violar uma virgem: é um golpe mais forte. Li, sublinhei, reli, tenho pensado muito no assunto e juro que ainda não percebi. Deve ser preciso ser homem, ter certo discernimento, para perceber.
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