2013/07/09

Linfoma

É doloroso ler o que escreves, explicou ontem a minha mãe ao telefone. Escutei-a em silêncio e pedi-lhe desculpa. À noite, deitada na cama, o Joaquim muito transpirado, enrolado nas minhas pernas, dei com esta passagem no livro do Vergílio Ferreira : “Mentalmente pensei, bócio, linfoma, seria ele ainda? Estava sentado no passeio, uma caixa de esmolas ao lado. Seria já um seu descendente? Seria talvez um seu antepassado que viera vindo através de gerações até chegar ali com o seu saco de pelicano suspenso do queixo. Perguntei-lhe se ele era de Coimbra, ele disse-me o senhor compreende, lá já ninguém me ajudava por já estarem habituados à minha desgraça. E eu compreendi. Porque uma desgraça, como tudo, vai perdendo o ser com cada vez que se vê e o ver lho come.” Li e percebi que a minha tristeza é tal qual o aleijão do pelicano de que fala o escritor. De tão assumida, escancarada, exposta, perdeu impacto, tornou-se banal. É simplesmente maçadora. Não devia impressionar ou preocupar ninguém. Faz parte de mim.

Bárbara

Mas eu esperei infinitamente que você me não humilhasse, que percebesse que eu abrira uma porta e você não ficasse à porta. E eu pensei o que ele quer de mim? Poderá ele entender um corpo de mulher? Saberá ele a verdade de um seio, de uma boca, do sítio definitivo em que esse corpo se cumpre? Do sítio em que o animal tem o direito de existir? Ele vai beijar-me, pensei, vai conhecer as mãos com os meus seios, vai indagar do secreto do meu ser, da fonte do meu sangue e eu vou sentir que o seu amor também tem um corpo a acompanhar. Mas você não fez nada, nem sequer me beijou e eu tive asco e horror e desprezo por si.  

Na tua face, Vergílio Ferreira

2013/07/07

Calor

Corpo atravessado na cama. Nu, suado, salgado, morto. O quarto muito escuro. Fecho os olhos. Penso em punhos cortados, nos meus pés à beirinha da linha do comboio, nas caixas de comprimidos guardadas no armário da casa de banho. Não consigo evitar a tristeza, os pensamentos sombrios, a angústia patética. A tentação é sempre grande. Tenho vontade de retalhar com golpes fundos, muito dolorosos, o meu corpo. Mata-lo. Não o suporto na sua inapetência. Devia ceder de vez à loucura. Deixar de brincar ao faz de conta. Talvez conseguisse descansar. Dormir uma noite seguida. Chega o Joaquim, só de cuecas, óculos escuros na cabeça. Deita-te em cima de mim, peço-lhe. Ele trepa e deixa-se estar muito quieto como se compreendesse a essencialidade do gesto. Estás triste, pergunta. Estou, estou muito triste, respondo. Ficamos assim, corpos sobrepostos, durante algum tempo, a ver se a minha tristeza passa. Costuma passar.

2013/05/23

2013/05/14

Vaca Profana



(a inclinação natural do meu destino.)

Vermelho


Estou com um buço espectacularmente escuro e grande, não tarda nada terei uma bigodaça farta e revirada, onde pingos glutinosos de caldo verde poderão secar como estalactites. Voltei a roer as unhas até ao sabugo, ando com as polpas dos dedos inchadas e cheias de feridas. Tenho um molar estragado que, deixando um sabor fétido na boca, larga uma halitose potente. Cortei o cabelo tão curto, já o não consigo apanhar. Os meus pés, por causa das sabrinas baratas que uso sem meias, cheiram a chulé e os meus sovacos, apesar do desodorizante, não aguentam até ao final do dia sem libertar um cheiro recozido de suor. Como os primeiros dias de sol, o meu melasma, apesar da furiosa aplicação de cremes despigmentantes, nota-se cada vez mais e, por causa do mioma, este mês, o meu fluxo menstrual voltou a ser diluvioso e inconveniente: largo golfadas de mênstruo coagulado, mas de um vermelho intenso, muito bonito.

2013/05/09

Barbela

Andavam duas jovens mulheres a cirandar pela livraria. Qualquer coisa no modo como caminhavam lembrava a alegria tola das galinhas criadas no campo: acabam no prato, como as outras, mas têm a ilusão da liberdade e da dignidade. Tinham ar de leitoras do Nicholas Sparks, o que só as enalteceria, mas não eram: uma levava a Serpente Emplumada debaixo do braço e a outra, com uma voz meio fanhosa, cheia de entusiasmo, pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação  íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ” Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.

2013/05/07

Aninhas e o dono


Às vezes, a meio da noite, ia buscá-la à cama do filho e obrigava-a a voltar ao quarto. Não te faço nada, dizia calmamente, mas vens dormir na nossa cama. E puxava-a pelo braço. Como se fosse uma cadela, uma escrava, uma demente sem vontade própria. O filho cobria a cabeça com o edredão para não escutar  o que vinha a seguir: Aninhas tentava libertar-se, gritava muito alto, mordia os braços até os ver sangrar, batia com a cabeça nas paredes, rasgava a roupa do corpo e, assim, nua, tentava fugir para a rua. Com o tempo, porém,  acabou  por desistir da loucura. Isso custou–lhe mais do que o resto. Passou a ser obediente: percorria o corredor em silêncio, olhos caídos no chão, voltava ao quarto e deitava-se ao lado do dono. 

2013/05/05

Lobo Mau



(Foi à estante dos cds. Procurou qualquer coisa que não encontrou. Trouxe um disco do Nick Cave. Avisei-o que não era o género dele. Era música de crescidos. Expliquei-lhe que o senhor que cantava tinha uma voz muito grossa, parecida com a voz do lobo mau. Por teimosia, exigiu ouvi-lo. Gostou apenas de uma canção. Ouviu-a várias vezes, ignorando as restantes. Dançou enquanto dava comida ao peixinho vermelho. Depois piscou os olhos e disse "os lobos maus também sabem cantar canções de amor." É bom, ser mãe, mas não é suficiente para me tornar mulher.)

2013/05/03

Tia


“Mete aí uma pinguinha, filha!”, diz a tia Dé e estende-me uma chávena de café. Geralmente não se senta à mesa, se o faz, por ser almoço de domingo ou dia de festa, fica sentada à pontinha da cadeira, o corpo sempre tenso. Nunca tira o avental, raramente usa pratos ou copos. Debica em pires e chávenas de café. “Que raio de prazer podes ter em beber vinho numa chávena de café?”, pergunto-lhe. Ela não explica, não diz nada, limita-se a passar as mãos pelo cabelo completamente branco. Encolhe os ombros e começa a beber. Os seus olhos dizem sempre o mesmo: sou uma sombra, morri há muitos anos, num tempo tão antigo que parece de outra vida, sou um passarinho morto, tenho um coração solitário e palpitante, não sou mãe, não sou avó, não fui mulher, não deixo ruído, as minhas pantufas mal se ouvem. Sempre foi assim. Hei-de desaparecer sem que nenhum de vocês se dê conta.

Irmã


Vermelho. Paro no semáforo. Tenho os olhos inchados. Dói-me qualquer coisa por dentro. Não sei muito bem o que é ou se é sequer. Mexo com a mão no rasgão da flanela do pijama. Os rapazes do carro ao lado riem. Ri-se sempre dos imbecis e dos fracos. É suposto ser assim. Olho-os de volta. Trazem bonés na cabeça. Brincos. Sorrisos. Através do vidro embaciado, um rapaz moreno diz-me qualquer coisa. É tarde. Que horas são? Verde. Sigo. Dou voltas. Não sei onde estou. Aqui é o acelerador. Aqui a embraiagem. O travão é ali. Eu sou esta que está aqui. Chamo-me Ana e não hei-de enlouquecer. Tenho uma estrela da tarde e um barão trepador. Chego, por fim, à praceta da minha irmã. Está a chegar. Veste um poncho largo. Parece um anjo branco e tranquilo. Reconhece-me. Entra no carro. Encosto a minha cabeça no ombro dela. Digo-lhe que estou cansada.

2013/04/22

Mercúrio


Ainda tão perto de Lisboa, ali quando a auto-estrada passa por Alhandra, a cimenteira, a capela no altinho, a linha do norte marcando o fim à vila, os álamos que deitam uma sombra baça, cheia de poeira, sobre os prédios antigos, iguais aos de Moscavide e Sacavém, ali, ainda tão perto de casa, a curva do rio a ver-se, e já eu ia leve, levezinha, a bater os dedos no volante, esquecida da carraça que me chupa o sangue e deixa os vasos quebradiços, os órgãos secos, a traqueia estrangulada em muitos nós, quero respirar e não consigo. Fui e voltei. Cheguei a casa, deviam ser nove da noite, retemperada, consolada, o bem que a música me faz, é preciso tão pouco para me animar. Mal abri a porta veio a prole enrolar-se nas minhas pernas. Beijos e abraços, gotas de mercúrio, inchando até serem uma só, também gosto muito de vocês, tanto, são a luz da minha vida, o melhor que a vida me deu, o resto que se lixe, não fossem vocês, ricos amores, e já me teria lançado ao mar, num lugar de águas escuras, profundas, onde um peixe antigo, luminoso, iridescente, de fiadas de dentes fininhos, me arrancasse o corpo ao pedaços.

Virei-me para a minha mãe. Pedi-lhe para os aturar mais uma hora. Calcei uns ténis. Lá fora, a noite abafava, nem uma brisa se levantava do rio, era uma noite de verão, estática, andavam as tainhas mais moles do que é costume, nadando aos círculos que o cerebelo carregado de nafta e gasolina deixa-as muito estúpidas, vinham com a cabeça à tona para olhar com os seus olhos amarelos as estrelas e a lua. Não se via ninguém. Passei apenas por um homem grisalho que passeava um cão minúsculo e levava pelas costas uma mochila das jornadas peninsulares de psiquiatria. Atrasei o passo. Corri durante uma hora. Voltei a casa. Despediu-se a avó. Tomei banho. Deitei-me. Olhei a secretária e o computador. Lembrei-me dos meus propósitos, tão boas as minhas intenções, agora que ninguém me reclama, agora que ninguém me cansa, hei-de escrever todas as noites, um bocadinho de lixo todas as noites. Não custa nada. Até ter um lixo de muitas páginas. Apaguei a luz. Mal a escuridão entrou no quarto, pensei em mamas, rabos, pénis muito tesos ejaculando para dentro de bocas. O orgasmo veio fácil, em meia dúzia de segundos, numa vertigem, sem esforço, uma coisa sem jeito nenhum, sensaborona, aguada, desoladora, profundamente triste.

Adormeci. Às três da manhã, bradou o mais pequeno. Preciso de ti, disse e subiu à minha cama com o coelho Botelho na mão. Às quatro da manhã, veio a do meio, vestia uma camisa de noite cheia de anémonas, tão frágil, tão delicada, a minha filha, como uma gota de água. Tive um pesadelo contigo e com o pai, explicou. Fica, meu amor, que a noite não silencia os medos, nunca a escuridão os apazigua. Às cinco da manhã, chegou o mais velho, um cristo cigano, sem dizer uma palavra, dormia ainda, dormia de olhos muito abertos, trazia o corpo fluído de prata. Terceira gota. Ocupou na cama o lugar do pai. Adormeci a um canto, meio corpo de fora, caindo para um abismo de espinhos e névoas. Acordei de madrugada, chilreavam os pardais e os melros nas árvores da praça, piu, piu, piu, piu, um frenesim matinal muito bom. O mais novo despertou com o alarido dos pássaros. Galgou o corpo da irmã e livrou-me do precipício. Beijou-me e adormeceu. 

2013/04/19

Aninhas e as caixinhas de broas

Devia ter pouco mais de dez anos quando lhe ofereceram um livro ilustrado de fábulas. Aninhas, muito morena, cabelo curto, unhas roídas, um anelzinho de prata no dedo indicador, passava horas a lê-lo.  Lia e relia. Tomava atenção aos detalhes dos desenhos. Sentia a rugosidade das folhas e cheirava-as. A sua vida ficou para sempre marcada pela moral intuitiva desses bichos: leões, cigarras, formigas, burros, cavalos, lobos, cegonhas, grous e ovelhas. Por exemplo, sempre que um homem a abandonava, Aninhas procurava ter a astúcia da raposa que, olhando um cacho de uvas cheias e maduras, por as não poder alcançar, diz que estão demasiado verdes. Nem sempre a técnica resultava. Largada há pouco tempo por um professor de semiótica, Aninhas tentava fixar-se apenas  nos seus defeitos: a desadequação entre a careca e o brinco que usava no lóbulo esquerdo, a pança flácida tocando o seu corpo, a facilidade com que as outras mulheres lhe mereciam o superlativo absoluto sintético. Inteligentíssimas. Lindíssimas. Interessantíssimas. Fecundíssimas. Porém, mal acordava, rosto inchado de sono, as pálpebras coladas de ramelas, Aninhas lembrava apenas aquilo que desejava esquecer: as caixinhas de broas que o professor lhe trouxera pelo natal, o seu cheiro a rios de água gelada, o modo como certa vez, na entrada de um prédio, lhe abocanhara os mamilos, mordendo-os, o retalhe do seu corpo imenso na paragem de autocarro.

2013/04/17

Urbano


Toda a gente tem direito às suas embirrações. Eu, que não sou mais nem menos do que os outros, tenho direito às minhas. Embirro com quase toda a gente que conheço; às tantas, reconheço, já nem sei bem por quê. É um modo de estar na vida como outro qualquer. Embirro com a Sofiazinha, com o Nuno, a Natércia e a Patrícia, embirro com quase todas as amigas da minha irmã, umas mais do que outras. Também embirrava com vários vizinhos dos meus pais, a preferência ia para o capitão do quinto direito, beato, salazarento, sempre de charuto ao canto da boca. Agora já gosto dele. A mulher perdeu de vez o tino, está completamente louca e eu sou muito sensível à loucura. Embirro com a Anabela Mota Ribeiro (uma embirração misturada com uma pontinha de inveja porque a acho verdadeiramente bela), com o Kalaf Angelo, com o valter hugo mãe e, ao ponto da náusea e arrancos vómicos, com a Michelle Obama, de sabrinas e corsários, plantando nabos e pepinos nos jardins da casa branca. Há muitos anos que desligo o televisor sempre que aparece o António José Seguro. Embirrava, e continuo a embirrar, mesmo depois de morto, enterrado, eternamente celebrado, com o Eduardo Prado Coelho. Enfim, são tudo embirrações ligeiras, inconsequentes, mas que me provocam uma sensação boa de alívio. Assim como um arroto bem dado.

Mas, às vezes, aparecem embirrações que são como carraças. Não me largam. Tornam-se fixações. Há muitos anos que embirro com o Urbano Tavares Rodrigues. É uma coisa visceral, uma reacção não controlável, basta-me topar-lhe com a fronha, o cabelo ondulado, o corpo magro e esguio, a pele velha, manchada, carcomida, para me fazer largar um esgar de nojo. A entrevista que deu há meia dúzia de meses ao Público, a propósito do seu novo livro, deixou-me num estado de irritação profunda. Não aceito mas compreendo o machismo assumido por um certo tipo de homens: conservadores, marialvas ou simplesmente boçais. Bate a bota com a perdigota, como é uso dizer-se. Mas, encontrar homens supostamente esclarecidos, desses que enchem a boca cada vez que falam de liberdade e erguem o punho por dá cá aquela palha, a falarem das mulheres como se fossem caça, reconduzindo-as sempre à sua condição menor é triste e desolador.


Ontem, rondando os escaparates da livraria do costume, dei de caras com o livro sobre o qual o escritor tão entusiasticamente falara ao Público. Parece que esteve dois dias sem dormir para escrever a primeira novela. Basta ler as duas primeiras páginas para perceber que leva ao limite do absurdo a sua ilusão de grande macho cobridor: há uma enfermeira que desfalece com os orgasmos que o narrador (ele, só pode ser ele!) lhe provoca numa sala com cheiro a clorofórmio e, mais adiante, logo na página a seguir, há uma empregada de limpeza que o venera. A sopeira chora quando o beija pela primeira vez e agradece quando o narrador lhe ensina a chupar devidamente o caralho. É tudo tão tristemente insultuoso que uma mulher fica sem saber se há-de rir ou chorar. Se não estivéssemos em crise, se não me tivessem papado subsídios e prémios, se não me tivessem cortado o salário com o qual sustento a minha prole, bem que comprava o merdoso livro do merdoso escritor Urbano Tavares Rodrigues. A minha vida é um martírio, sou uma autêntica penitente, devia ter direito a alguma diversão.


(O Urbano Tavares Rodrigues, escritor menor, foi casado com a Maria Judite de Carvalho, escritora maior, infelizmente sempre colocada na sua sombra.)

2013/04/16

Aninhas e o trevo de quatro folhas


Gostava de passear com os filhos nos jardins e parques da cidade. Procuravam rãs, patos, borboletas, lagartas, chapins, libélulas, papagaios. Cheiravam flores, sementes, folhas, caules, raízes, paus. Espreitavam grutas, tocas, troncos, lagos, todos os recantos sombrios, bons para namorar. Na primeira tarde de sol, a filha lendo na sombra de uma árvore, os mais pequenos esbulhando um formigueiro com varas fininhas de amieiro, no meio das ervas altas dos clorófitos, Aninhas encontrou um trevo de quatro folhas. Quando se preparava para o arrancar, notou o seu reflexo nas vidraças da biblioteca que ficava no meio do parque: um corpo deslassado do resto, um fruto maduro prestes a apodrecer. Fechou os olhos e desejou: nunca mais a força bruta, quero apenas o prazer, sem o sofrimento da paixão, sem o aborrecimento do casamento. Voltou a abrir os olhos e procurou os filhos. Meteu o trevo à boca e mastigou-o.

2013/04/08

2013/04/05

Al Green

2013/04/03

Acordar


Foi assim durante muito tempo. Muitos anos. O meu despertar era sempre igual. Acordava triste e desesperada. Procurava o corpo na penumbra do quarto, desejando não o encontrar. Talvez alguém, durante o sono, compadecendo-se da minha dor, o tivesse levado para longe. Quando o encontrava, ao meu corpo, adormecido a um canto qualquer, pontapeava-o com violência para que se erguesse. Como se fosse um vagabundo que se despreza. Erguia-se o meu corpo, tão estiolado, tão frágil, entrava dentro dele e corria à cozinha a arranjar os pequenos-almoços dos meus filhos. Habituei-me à tristeza, é como a solidão, fere, mas deixa em nós qualquer coisa, bela e única, que não se sabe explicar. Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente. É personagem de anúncio de cerveja ou de telemóveis. Nunca me habituei, no entanto, ao desespero, ao choro louco, ao conforto das imagens sombrias, um parapeito para saltar, um rio de água barrenta, os bolsos cheios de pedras, os pulsos cortados com uma lâmina, lágrimas de sangue empapando a alcatifa cor de laranja do escritório do meu pai, sessenta comprimidos letais tomados ao pequeno-almoço como no poema. Hoje, voltei a acordar triste. Não me importo que a tristeza volte. É uma amiga para a vida. Se vier só, abro-lhe a porta, deixo-a instalar-se dentro de mim. É o desespero que me assusta.

Abril

2013/03/29

Verdes Anos