2013/07/17

Miraflores

Planta carnívora

A modernidade exige-lhe artefactos: usa fiadas de pulseiras, colares coloridos e, quando ajeita o cabelo, mostra uma borboleta negra, tatuada no pescoço. É dada a misticismos, vitalismos e esoterismos, acredita no poder da risoterapia, da cristaloterapia e da cromoterapia, também pratica o reiki, o tai-chi e o kung-chi. Demora-se a explicar cada conceito, cada modalidade. No seu entender, explica muito séria, a felicidade pode facilmente alcançar-se com mantras, meia-hora de meditação por dia e uma alimentação livre de impurezas. Escuto-a sem a interromper. Tudo aquilo me parece disparatado e até um pouco triste. Tanto cuidado na escolha e acabo a falar com uma tipa que, rejeitando a tradição das suas origens, sem temer o ridículo da desadequação, parece admirar apenas a grandeza espiritual de países longínquos. Desprezo quem, encontrando nesse tipo de contemplação um sinal de mundividência, não se dá conta que tal apreço pelo exótico revela apenas provincianismo. Que estúpida, que grande estafermo, penso. Com um entusiasmo quase delirante, a rapariga põe-se a falar do espírito cósmico. A conversa desnorteia-me, afasta-me cada vez mais do meu propósito. Sinto  um profundo desalento durante o resto da refeição. Tudo o que oiço me parece despropositado, mesquinho, de uma frivolidade que me incomoda. Quando a rapariga se levanta para ir à casa de banho volto a olhá-la. A maquilhagem procura diluir a banalidade, boca apagada, lábios tão finos que mal se distinguem do resto do rosto, olhos espantadiços. O corpo, porém, hipnotiza, formas preenchidas no busto e quadril, a cintura marcada por um cinto de duas voltas. Fala de espiritualidade, mas é apenas matéria. O palavreado místico é um véu enganador, a carne é a sua vocação, o corpo funciona como a armadilha de uma planta carnívora. 

2013/07/16

Campanella

Sandra

Eu sentia-me esmagado de humilhação, como é que lhe havia de falar? Quem é que disse que o amor aproxima não sei quê? Não é verdade. Sou um homem experimentado – não é verdade. Se eu amasse pouco Sandra ou não a amasse, era-me muito mais fácil falar com ela, lidar com ela e com a irmã com quem quer que fosse dela, eu livre e independente. Amar é pôr ao alto e ao longe, treme-se como diante de um deus tresloucado. Amar muito é ter pouco de nós com que se possa ser gente. Amar é ser desgraçado e eu era. 

Para Sempre, Vergílio Ferreira

(Não pegava no Vergílio Ferreira há muito tempo. Que besta.)

2013/07/15

Aninhas e o beijo nipónico

Procurava uma palavra. Sentia cansaço, fome, o dia findo lá fora. Escurecera de repente e só o ecrã do computador brilhava no apartamento. Aninhas sentiu-se triste, aflitivamente só. Minimizou uma janela, maximizou outra. Procurou o filme do beijo nipónico. Deixou-se estar muito quieta a vê-lo. Duas jovens japonesas, de farda colegial, corpos óbvios, fecundos. Trocaram algumas palavras e começaram a beijar-se. Um beijo húmido, secreto. Aninhas baixou o volume para que os gemidos não se ouvissem no patim das escadas. Depois, despiu a camisa e libertou-se do sutiã. Humedeceu os dedos e tocou nos mamilos, sentiu-os firmes, cheios, teve vontade de os morder. Abriu ligeiramente as pernas e meteu a mão dentro das calças. Não tardou a sentir um orgasmo silencioso, bom, incapaz, porém, de suspender a realidade. Voltou a vestir a camisa, compôs o cabelo. Olhou em volta, por todo o lado, sinais de rotina, os chinelos do marido, a taça de gelado que o filho deixara em cima da mesa, os dois pretos de madeira que a empregada insistia em colocar no rebordo da estante. No ecrã, as colegiais japonesas continuavam a beijar-se. Aninhas deixou-se estar a olhá-las durante algum tempo, novamente fria, corpo feito pedra. Levou a mão ao nariz e, na ponta dos dedos, sentiu o seu cheiro, um cheiro adocicado, irritante, previsível, a lembrar calor, pedaços de jagra escura, passeios cheios de lixo. Ajeitou o corpo na cadeira e continuou a escrever.

2013/07/14

Coisas preferidas



(Ler em igrejas, correr, fumar, beber, ver o João chegar, escutar-lhe a voz e sentir-lhe o cheiro, cortar as unhas dos meus filhos, ler para os meus filhos, cantar para os meus filhos, caminhar sozinha.)

Aninhas e a quiromante

Está acostumada aos pequenos acidentes que por vezes acontecem. Mete os lençóis a lavar a noventa graus e o edredão, volta e meia, tem de ir a limpar à lavandaria. Cada vez que lá vai, Aninhas tem de se sujeitar ao sorriso da empregada, uma brasileira já íntima da freguesia, sempre disposta a esquecer o serviço por dois dedos de conversa. É uma mulher vivaça, muito afogueada dos vapores que se soltam dos ferros com caldeira, esbagachada em vestidos justos, mostrando uma mamas enormes, imensas, que parecem não ter fim. Mas a brasileira da lavandaria não é só concupiscência exuberante: tem dons especiais, é uma espécie de quiromante. Sagaz, dotada de uma intuição apurada, é capaz de ler a vida de uma pessoa a partir de manchas e nódoas como outros a lêem das linhas das mãos e das borras de café. O cheiro a bafio é sinal de não querer largar o passado. Punhos e golas de camisa puídos revelam perseverança, desejo de alcançar uma vida monetária desafogada. Nódoas salpicadas em toalhas de festa são sinal de afectos intensos e espontâneos. Roupa amarfanhada, com pequenos rasgões nas costuras, mostram inflexibilidade e desentendimentos. Uma coberta de cama, cheia de manchas amareladas, revela frenesim no momento da separação dos corpos, é sinal mais que evidente de exacerbação sexual. Da última vez que Aninhas levou a colcha a limpar, a brasileira largou-lhe um sorriso retrincado e, depois de um instante a chupar os dentes para tirar um pedaço de febra entalado entre os molares, foi dizendo que as manchas já estavam muito entranhadas, da próxima vez, que trouxesse a colcha no dia seguinte, esfregando logo com vinagre branco e álcool talvez a coisa se compusesse. Continuou a chupar os dentes e, sem vacilar, entregou-lhe o volume plastificado. Aninhas sentiu um estremeção no peito e jurou nunca mais ali entrar.

2013/07/13

Notícia

2013/07/11

Carepas

De costas, numa cadeira de rodas, uma mulher espera. Pela postura, a cabeça mole, caída, percebo que a deficiência não é apenas física. Entro na tabacaria e rapidamente a esqueço. Folheio revistas e jornais, escrevo o meu nome num bloco cheio de garatujas coloridas para perceber o traço de canetas e esferográficas. O poeta anda por ali a comprar jornais. Olhando-o, olhos caídos para o chão como se tivesse medo do mundo, lembro a pobreza discursiva da minha escrita. À saída, volto a dar de caras com a mulher na cadeira de rodas. Continua sozinha. Como se alguém ali a tivesse propositadamente abandonado. Sorri-me, um sorriso cheio de pureza e fealdade. Faltam-lhe vários dentes na boca torcida como um parafuso. Os olhos, velhos, estão metidos em covas escuras. Tem, e é isso que mais impressiona, o rosto coberto de escamas vermelhas. Umas carepas de sarna, de seborreia, de caspa, não sei bem do que são. Com uma mão muito branca, em forma de garra, a mulher arranca pedaços de crosta que ficam acumulados por baixo da sujidade esverdeada das unhas demasiado compridas. Desvio o olhar, agoniada. Imagino-me a cuidar de uma irmã, uma tia, uma filha assim. Talvez fizesse o mesmo. Abandonava-a na frescura climatizada de um centro comercial e ia à minha vida.

(Na tabacaria, foi com esse propósito que ali entrei, comprei um caderno. Quero escrever com liberdade sem que me acusem de egoísmo. Censuro-me bastante aqui.)

2013/07/10

Sal do deserto

Hoje, à hora do almoço, deitei-me com um homem e lambi-o. Não gostei do homem nem do sabor do seu suor, asséptico, com um ligeiro travo a bolor e medicamento. Na casa de banho, enquanto me arranjava, bochechei a boca com água e cuspi. Como se estivesse no dentista. Ao olhar-me no espelho, lembrei-me da rosa do deserto que a Cilinha, minha madrinha, costumava guardar na cómoda do seu quarto. Feita de areia e sal, de uma cor muito bonita, misteriosa, foi objecto que durante anos exerceu sobre mim um fascínio muito grande. Sempre que visitava os meus padrinhos no apartamento de Benfica, corria ao quarto deles, procurava a rosa do deserto e ficava a olhá-la. Depois encostava a flor de pedra à boca para sentir nos lábios o sabor do deserto. Hoje, ao olhar-me no espelho, depois de lamber a pele de outro homem, percebi finalmente ao que sabe o teu corpo: ao sal do deserto.

2013/07/09

Linfoma

É doloroso ler o que escreves, explicou ontem a minha mãe ao telefone. Escutei-a em silêncio e pedi-lhe desculpa. À noite, deitada na cama, o Joaquim muito transpirado, enrolado nas minhas pernas, dei com esta passagem no livro do Vergílio Ferreira : “Mentalmente pensei, bócio, linfoma, seria ele ainda? Estava sentado no passeio, uma caixa de esmolas ao lado. Seria já um seu descendente? Seria talvez um seu antepassado que viera vindo através de gerações até chegar ali com o seu saco de pelicano suspenso do queixo. Perguntei-lhe se ele era de Coimbra, ele disse-me o senhor compreende, lá já ninguém me ajudava por já estarem habituados à minha desgraça. E eu compreendi. Porque uma desgraça, como tudo, vai perdendo o ser com cada vez que se vê e o ver lho come.” Li e percebi que a minha tristeza é tal qual o aleijão do pelicano de que fala o escritor. De tão assumida, escancarada, exposta, perdeu impacto, tornou-se banal. É simplesmente maçadora. Não devia impressionar ou preocupar ninguém. Faz parte de mim.

Bárbara

Mas eu esperei infinitamente que você me não humilhasse, que percebesse que eu abrira uma porta e você não ficasse à porta. E eu pensei o que ele quer de mim? Poderá ele entender um corpo de mulher? Saberá ele a verdade de um seio, de uma boca, do sítio definitivo em que esse corpo se cumpre? Do sítio em que o animal tem o direito de existir? Ele vai beijar-me, pensei, vai conhecer as mãos com os meus seios, vai indagar do secreto do meu ser, da fonte do meu sangue e eu vou sentir que o seu amor também tem um corpo a acompanhar. Mas você não fez nada, nem sequer me beijou e eu tive asco e horror e desprezo por si.  

Na tua face, Vergílio Ferreira

2013/07/07

Calor

Corpo atravessado na cama. Nu, suado, salgado, morto. O quarto muito escuro. Fecho os olhos. Penso em punhos cortados, nos meus pés à beirinha da linha do comboio, nas caixas de comprimidos guardadas no armário da casa de banho. Não consigo evitar a tristeza, os pensamentos sombrios, a angústia patética. A tentação é sempre grande. Tenho vontade de retalhar com golpes fundos, muito dolorosos, o meu corpo. Mata-lo. Não o suporto na sua inapetência. Devia ceder de vez à loucura. Deixar de brincar ao faz de conta. Talvez conseguisse descansar. Dormir uma noite seguida. Chega o Joaquim, só de cuecas, óculos escuros na cabeça. Deita-te em cima de mim, peço-lhe. Ele trepa e deixa-se estar muito quieto como se compreendesse a essencialidade do gesto. Estás triste, pergunta. Estou, estou muito triste, respondo. Ficamos assim, corpos sobrepostos, durante algum tempo, a ver se a minha tristeza passa. Costuma passar.

2013/05/23

2013/05/14

Vaca Profana



(a inclinação natural do meu destino.)

Vermelho


Estou com um buço espectacularmente escuro e grande, não tarda nada terei uma bigodaça farta e revirada, onde pingos glutinosos de caldo verde poderão secar como estalactites. Voltei a roer as unhas até ao sabugo, ando com as polpas dos dedos inchadas e cheias de feridas. Tenho um molar estragado que, deixando um sabor fétido na boca, larga uma halitose potente. Cortei o cabelo tão curto, já o não consigo apanhar. Os meus pés, por causa das sabrinas baratas que uso sem meias, cheiram a chulé e os meus sovacos, apesar do desodorizante, não aguentam até ao final do dia sem libertar um cheiro recozido de suor. Como os primeiros dias de sol, o meu melasma, apesar da furiosa aplicação de cremes despigmentantes, nota-se cada vez mais e, por causa do mioma, este mês, o meu fluxo menstrual voltou a ser diluvioso e inconveniente: largo golfadas de mênstruo coagulado, mas de um vermelho intenso, muito bonito.

2013/05/09

Barbela

Andavam duas jovens mulheres a cirandar pela livraria. Qualquer coisa no modo como caminhavam lembrava a alegria tola das galinhas criadas no campo: acabam no prato, como as outras, mas têm a ilusão da liberdade e da dignidade. Tinham ar de leitoras do Nicholas Sparks, o que só as enalteceria, mas não eram: uma levava a Serpente Emplumada debaixo do braço e a outra, com uma voz meio fanhosa, cheia de entusiasmo, pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação  íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ” Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.

2013/05/07

Aninhas e o dono


Às vezes, a meio da noite, ia buscá-la à cama do filho e obrigava-a a voltar ao quarto. Não te faço nada, dizia calmamente, mas vens dormir na nossa cama. E puxava-a pelo braço. Como se fosse uma cadela, uma escrava, uma demente sem vontade própria. O filho cobria a cabeça com o edredão para não escutar  o que vinha a seguir: Aninhas tentava libertar-se, gritava muito alto, mordia os braços até os ver sangrar, batia com a cabeça nas paredes, rasgava a roupa do corpo e, assim, nua, tentava fugir para a rua. Com o tempo, porém,  acabou  por desistir da loucura. Isso custou–lhe mais do que o resto. Passou a ser obediente: percorria o corredor em silêncio, olhos caídos no chão, voltava ao quarto e deitava-se ao lado do dono. 

2013/05/05

Lobo Mau



(Foi à estante dos cds. Procurou qualquer coisa que não encontrou. Trouxe um disco do Nick Cave. Avisei-o que não era o género dele. Era música de crescidos. Expliquei-lhe que o senhor que cantava tinha uma voz muito grossa, parecida com a voz do lobo mau. Por teimosia, exigiu ouvi-lo. Gostou apenas de uma canção. Ouviu-a várias vezes, ignorando as restantes. Dançou enquanto dava comida ao peixinho vermelho. Depois piscou os olhos e disse "os lobos maus também sabem cantar canções de amor." É bom, ser mãe, mas não é suficiente para me tornar mulher.)

2013/05/03

Tia


“Mete aí uma pinguinha, filha!”, diz a tia Dé e estende-me uma chávena de café. Geralmente não se senta à mesa, se o faz, por ser almoço de domingo ou dia de festa, fica sentada à pontinha da cadeira, o corpo sempre tenso. Nunca tira o avental, raramente usa pratos ou copos. Debica em pires e chávenas de café. “Que raio de prazer podes ter em beber vinho numa chávena de café?”, pergunto-lhe. Ela não explica, não diz nada, limita-se a passar as mãos pelo cabelo completamente branco. Encolhe os ombros e começa a beber. Os seus olhos dizem sempre o mesmo: sou uma sombra, morri há muitos anos, num tempo tão antigo que parece de outra vida, sou um passarinho morto, tenho um coração solitário e palpitante, não sou mãe, não sou avó, não fui mulher, não deixo ruído, as minhas pantufas mal se ouvem. Sempre foi assim. Hei-de desaparecer sem que nenhum de vocês se dê conta.