Havia sempre flores frescas nas jarras. O quarto estava
limpo, arejado, perfumado. A cama feita com os meus lençóis preferidos. Na
fruteira, em lugar de destaque, para que a visse mal entrasse na cozinha, uma
papaia madura. Essas pequenas atenções da minha mãe amorteciam o desconsolo do
regresso, faziam-me esquecer a liberdade das férias, longe da disciplina do meu
pai e da preocupação excessiva da minha tia. Agora sou eu que preparo o
regresso dos meus filhos. A Madalena volta hoje do estágio, chega no comboio
das onze, frágil, bonita, com os dentes tão tortos. Passei a tarde a arranjar
tudo para que se sinta feliz por voltar a casa, a nossa casa: comprei ramos de
cravinas, obriguei o Joaquim a fazer um desenho colorido para embrulhar uma
tablete de chocolate salgado, há bacalhau com natas no forno, figos no
frigorífico, uma conchanata no congelador.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2013/08/02
2013/08/01
Pilriteiro
Dos ramos espinhosos nasciam
folhas enceradas que faziam lembrar asas frágeis de insecto. Na
Primavera, a árvore cobria-se de flores muito perfumadas e, no Outono, de pequenos frutos vermelhos que pareciam romãs e cresciam
em cachos. Quis muitas vezes trincar aquelas maçãs liliputianas. Tomar-lhes o
gosto. Porém, a tia Dé, quando me via perto de tal árvore, as mãos fechadas
escondendo as bagas, abria muitos os olhos. Adivinhando a minha vontade de as trincar, explicava que tais frutos eram venenosos, certa
vez até aparecera no hospital um menino, tão pequenino, muito doente
por ter comido aquelas bagas. Depois, com rispidez, dava-me palmadas nas mãos até eu as abrir e largar os
frutos vermelhos. Nunca soube o nome de tal árvore. Encontrava-a no jardim do
Campo de Santana, perto do infantário, talhada em sebes vivas, também nos jardins do Seminário dos
Olivais onde o cheiro das amoras maduras tornava as tardes de Agosto mais quentes. Sempre que via a tal arvorezinha chegava-me uma vontade urgente de lhe trincar os frutos. Mas logo me
lembrava dos avisos da minha tia. Imaginava, então, que se trincasse uma
daquelas bagas vermelhas cairia no chão tal qual a Branca de Neve
quando provou a maçã. Se provasse as bagas de tal árvore, imaginava eu, pequena, unhas sempre roídas, passaria o resto da vida enfiada num esquife frio de cristal. Por
isso, por temor, nunca desobedeci à minha tia. Apertava os pequenos frutos nas mãos até os esmagar. Uma decepção profunda tomava conta de mim
quando lhes via o interior grumoso e pálido. Queria que tivessem uma polpa vermelha, dramática, sinal de paixão e doçura. Hoje, quando cruzo o parque da Fundação, ignoro os avisos para não pisar a relva e não apanhar flores e frutos. Apanho sempre meia dúzia de bagas das árvores que
crescem junto do Centro de Arte Moderna. Enfio-as nos bolsos. As bagas
continuam sem cheiro. Apodrecem nos meus bolsos até ao dia em que as meterei à boca.
(Voltei a pegar no livro que, para além de castelos merovíngios, fala de pirliteiros e pirlitos. Cedo, voltarei a abandoná-lo.)
2013/07/30
Für Elise
Um dia, para além dos habituais pacotes
de pinhoadas e amores, a prima Laura trouxe-lhe da feira de Grândola uma bonequinha
musical. Era uma figura de porcelana áspera, uma dama antiga, cabelo aos cachos,
vestido enfunado com um remate de folhos, uma cadelinha dengosa nos braços. Por
baixo do vestido havia uma pequena manivela que, torcida, fazia a boneca dançar ao som de uma melodia triste. A minha avó adorou o presente e, muitas
vezes, mostrava-me a pequena estatueta, insistindo na sua beleza e
maravilhando-se com a música sombria, mas bonita, que se libertava do seu
avesso. Dava-lhe corda e, muito quieta, vestida de negro, lenço de lã na cabeça,
escutava o arranhar melodioso das palhetas metálicas no pequeno carrilhão. Eu
não dizia nada. Olhava a minha avó com distância e condescendência. Achava a
boneca um objecto de mau gosto, bastante foleiro com as suas cores garridas e
traços grosseiros. Desprovida de qualquer beleza evidente, sem marcas de erudição
estética, a boneca causava-me naquela altura um arrepio de nojo. Passados
tantos anos, morta, enterrada, quase esquecida a minha avó, a lembrança dessa
pequena boneca de loiça liberta em mim reflexões frívolas, tremores poéticos,
as melancolias mais íntimas.
2013/07/29
2013/07/25
Marcador preto
Escrevo no caderno com um marcador preto. Tenho páginas e
páginas escritas, coisas sem interesse, as banalidades do costume, sobretudo
notas sobre os outros: a mulher-elefante que todos os dia chega ao café,
cigarro ao canto da boca, voz grossa, a expectoração solta a notar-se em cada
gargalhada, o marido da Graça esperando no carro, tão acabado do cancro, quase
morto, as mãos da minha irmã, o cheiro dos pés do Joaquim, os olhos da minha
mãe, o meu pai de pijama pedalando na marquise da sala para afugentar as
atrapalhações da idade. São apenas impressões, desabafos, nada que mereça a correcção
de uma segunda leitura. E, no entanto, gosto de olhar essas páginas ligeiras,
mas fecundas, cheias de vida. Reaprendi a escrever e, depois de anos de
abandono, tomei posse da minha caligrafia, ligeiramente inclinada para a
direita, correndo, arrepiada, fora de margens e linhas, cheia de golpes, hastes
longas, exageros. Enquanto escrevo deslumbro-me com a habilidade e a velocidade
da minha mão.
2013/07/24
Solipsista
Solipsista.
Nossa Senhora do Carmo. Ombros nus. Vestido branco. Alinhavos vermelhos. A
velha má da mantilha preta. Fantasmagoria. Malaquias imolando o filho. O cutelo
ao alto. Luz coada pelos vitrais. Noventa anjos. A pele das mãos rebentada.
Tomo conta de ti e dos teus filhos. Rosto tortulhado. Cabeças de pus esverdeado.
Pontos negros. Carnes secas. Unhas roídas até ao sabugo. O cheiro das flores de
figueira. Duas figueiras em Xabregas, outra numa esquina da cidade, crescendo
num canteiro de fetos velhos. Um cipreste de gálbulos languinhosos. Uma mosca
vareja. Uma porta de fitas. Amostras de cremes firmantes, clareantes,
hidratantes. Farmacopeia variada. Duas manchas de pano. Uma sombra picada de
bexigas. É um poeta muito, muito, muito bom. A sério? A sério. A palavra grunho
impressa. O sexo dos textos. O tempo das mulheres. Um livro na Rua de São
Domingos de Benfica. Uma cama na Rua Passos Manuel. As mãos do homem no corpo da mulher. Tomo conta de ti e
dos teus filhos. Uma tosse cheia de gosma. Um arfar pesado. Uma pinça
arrancando pêlos negros do buço. Sarro atrás da torneira do lavatório. Outros
sarros. Duas irmãs descalças apanhando bolotas para matar a fome. Mãe. Tia. O
vento morno. O sino marcando o início da tarde. Uma mulher deitada no meio da
rua mais feia da cidade. Mãos entrelaçadas. Olhos fechados. Palavras novas e
advérbios interrogativos. Porque chorava? Porque o tratava mal? Por que chorava? Por que o tratava mal? A certeza da
ignorância. Duas sardinheiras no canteiro da escola de yoga.
(livre associação.)
(livre associação.)
(Almeida
Garrett, Viagens na Minha Terra: “Joaninha,
Joaninha, porque tens tu os olhos verdes?; Eça de Queirós, Os Maias: “Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?)
2013/07/23
Vício
O Flaubert
aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele,
pode tornar-se num vício. Percebo bem o que queria dizer. Sou depressiva há muitos anos, mais de vinte, e não sei como
me livrar da tristeza quando ela decide tomar conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e
psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tomei muitos comprimidos, lamelas e lamelas de comprimidos. Já falei com um padre. Já tive filhos para que a maternidade, me secundarizando, acabasse de vez com a tristeza. Já tentei preencher o tempo com coisinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros.
Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu
não a tenho. Sou de vícios e fraquezas.
(São cinco da manhã. Há três noites que não durmo. Fico de olhos abertos a olhar a escuridão, a escutar a cómoda estalar com o calor. Podia aproveitar a espertina para escrever sobre as duas mulheres que encontrei no cemitério, sentadas em banquinhos de lona, sossegadas, a limpar uma campa. Achei-as muito bonitas, ali no meio da brancura funérea, tratando os seus mortos. Não sou capaz. Espero apenas que amanheça. O dia é sempre melhor do que a noite. Está cheio de ruído, o silêncio não pesa.)
2013/07/21
Domingo
No escuro da sala, peguei-lhe na mão e sussurrei-lhe ao ouvido "amo-te". Depois, estivemos sentadas num banco, em silêncio, a olhar o Joaquim correr no parque, irrequieto como um cabritinho, os pés de dedos gordos enfiados nas sandálias baratas. Gostava que ele nunca crescesse, que ficasse assim para sempre, pequenino, a depender de mim, a fazer-me companhia, a ser a minha muleta, acabei por lhe confessar. Ele vai crescer, mas podes sempre ter outro filho, respondeu, segura, serena, certa das palavras que usa. E com quem?, perguntei-lhe, atrapalhada com aquela conversa. Ela respondeu. Pergunto-me muitas vezes como é possível que esta criança seja minha filha. Às vezes, aliás muitas vezes, parece que é ela a mãe e eu a filha.
2013/07/20
Aninhas e a flictena
Aninhas, nas noites de Inverno, enquanto
esperava que o professor de semiótica ligasse, sentada em frente da televisão, acendia sempre um aquecedor eléctrico de resistências incandescentes. Costumava ter os pés
frios e os dois filamentos cor de laranja, brilhando na escuridão,
davam-lhe algum consolo. O lume é uma
companhia, lembrava-se de ouvir a avó dizer quando era pequena. O pequeno radiador eléctrico, com as suas lágrimas de
fogo contido, pousada aos pés, era um triste substituto dessas fogueiras.
Fazia-lhe companhia.Mas deve ter-se cuidado com as
companhias que as há perigosas. Uma noite, em que adormecera a ver um documentário sobre crocodilos, acordou com um cheiro intenso de borracha queimada.
Deixara os pés demasiado perto do aquecedor e a sola das pantufas amolecia com o calor das resistências ligadas na potência
máxima. Em vez de se descalçar, assustada, levantou-se com um salto. O peso do
corpo pressionou os pés sobre as solas que ferviam. A pele ficou apenas
superficialmente queimada, mas a erupção de uma flictena obrigou-a a estar
sem andar durante alguns dias; deitada na cama, os pés cobertos com um creme gordo, entreteve-se a ler revistas de culinária para
aprender a confecção de pratos que agradassem ao professor de semiótica. A epiderme acabou por
cair, nasceu outra, dura e calejada e, por baixo do mindinho do pé esquerdo, no lugar da flictena, uma pequena verruga muito obstinada que, apesar da constante aplicação de adesivos
com ácido salicílico, insistia sempre em nascer.
2013/07/17
Planta carnívora
A
modernidade exige-lhe artefactos: usa fiadas de pulseiras, colares coloridos e,
quando ajeita o cabelo, mostra uma borboleta negra, tatuada no pescoço. É dada
a misticismos, vitalismos e esoterismos, acredita no poder da risoterapia, da
cristaloterapia e da cromoterapia, também pratica o reiki, o tai-chi e o
kung-chi. Demora-se a explicar cada conceito, cada modalidade. No seu entender, explica muito séria, a felicidade pode facilmente alcançar-se com mantras, meia-hora de meditação
por dia e uma alimentação livre de impurezas. Escuto-a sem a interromper. Tudo
aquilo me parece disparatado e até um pouco triste. Tanto cuidado na escolha e
acabo a falar com uma tipa que, rejeitando a tradição das suas origens, sem temer o
ridículo da desadequação, parece admirar apenas a grandeza espiritual de países
longínquos. Desprezo quem, encontrando nesse tipo de contemplação um sinal de mundividência, não se dá conta que tal apreço pelo
exótico revela apenas provincianismo. Que estúpida, que grande estafermo, penso. Com um entusiasmo quase
delirante, a rapariga põe-se a falar do espírito cósmico. A conversa
desnorteia-me, afasta-me cada vez mais do meu propósito. Sinto um
profundo desalento durante o resto da refeição. Tudo o que oiço me
parece despropositado, mesquinho, de uma frivolidade que me incomoda. Quando a rapariga se
levanta para ir à casa de banho volto a olhá-la. A maquilhagem procura diluir a
banalidade, boca apagada, lábios tão finos que mal se distinguem do
resto do rosto, olhos espantadiços. O corpo, porém, hipnotiza, formas preenchidas
no busto e quadril, a cintura marcada por um cinto de duas voltas. Fala de
espiritualidade, mas é apenas matéria. O palavreado místico é um véu enganador,
a carne é a sua vocação, o corpo funciona como a armadilha de uma planta
carnívora.
2013/07/16
Sandra
Eu sentia-me
esmagado de humilhação, como é que lhe havia de falar? Quem é que disse que o
amor aproxima não sei quê? Não é verdade. Sou um homem experimentado – não é
verdade. Se eu amasse pouco Sandra ou não a amasse, era-me muito mais fácil
falar com ela, lidar com ela e com a irmã com quem quer que fosse dela, eu
livre e independente. Amar é pôr ao alto e ao longe, treme-se como diante de um
deus tresloucado. Amar muito é ter pouco de nós com que se possa ser gente.
Amar é ser desgraçado e eu era.
Para Sempre, Vergílio Ferreira
(Não pegava no Vergílio Ferreira há muito tempo. Que besta.)
2013/07/15
Aninhas e o beijo nipónico
Procurava
uma palavra. Sentia cansaço, fome, o dia findo lá fora. Escurecera de repente e
só o ecrã do computador brilhava no apartamento. Aninhas sentiu-se triste,
aflitivamente só. Minimizou uma janela, maximizou outra. Procurou o filme do
beijo nipónico. Deixou-se estar muito quieta a vê-lo. Duas jovens japonesas, de farda colegial, corpos óbvios, fecundos.
Trocaram algumas palavras e começaram a beijar-se. Um beijo húmido, secreto.
Aninhas baixou o volume para que os gemidos não se ouvissem no patim das
escadas. Depois, despiu a camisa e libertou-se do sutiã. Humedeceu os dedos e
tocou nos mamilos, sentiu-os firmes, cheios, teve vontade de os morder. Abriu
ligeiramente as pernas e meteu a mão dentro das calças. Não tardou a sentir um orgasmo silencioso, bom, incapaz, porém, de
suspender a realidade. Voltou a vestir a camisa, compôs o cabelo. Olhou em
volta, por todo o lado, sinais de rotina, os chinelos do marido, a taça de
gelado que o filho deixara em cima da mesa, os dois pretos de madeira que a
empregada insistia em colocar no rebordo da estante. No ecrã, as colegiais
japonesas continuavam a beijar-se. Aninhas deixou-se estar a olhá-las durante
algum tempo, novamente fria, corpo feito pedra. Levou a mão ao nariz e, na
ponta dos dedos, sentiu o seu cheiro, um cheiro adocicado, irritante,
previsível, a lembrar calor, pedaços de jagra escura, passeios cheios de lixo.
Ajeitou o corpo na cadeira e continuou a escrever.
2013/07/14
Coisas preferidas
(Ler em
igrejas, correr, fumar, beber, ver o João chegar, escutar-lhe a voz e
sentir-lhe o cheiro, cortar as unhas dos meus filhos, ler para os meus filhos,
cantar para os meus filhos, caminhar sozinha.)
Aninhas e a quiromante
Está acostumada aos
pequenos acidentes que por vezes acontecem. Mete os lençóis a lavar a noventa
graus e o edredão, volta e meia, tem de ir a limpar à lavandaria. Cada vez que
lá vai, Aninhas tem de se sujeitar ao sorriso da empregada, uma brasileira já
íntima da freguesia, sempre disposta a esquecer o serviço por dois dedos de
conversa. É uma mulher vivaça, muito afogueada dos vapores que se soltam dos
ferros com caldeira, esbagachada em vestidos justos, mostrando uma mamas
enormes, imensas, que parecem não ter fim. Mas a brasileira da lavandaria não é
só concupiscência exuberante: tem dons especiais, é uma espécie de quiromante.
Sagaz, dotada de uma intuição apurada, é capaz de ler a vida de uma pessoa a partir
de manchas e nódoas como outros a lêem das linhas das mãos e das borras de
café. O cheiro a bafio é sinal de não querer largar o passado. Punhos e golas
de camisa puídos revelam perseverança, desejo de alcançar uma vida monetária
desafogada. Nódoas salpicadas em toalhas de festa são sinal de afectos intensos
e espontâneos. Roupa amarfanhada, com pequenos rasgões nas costuras, mostram
inflexibilidade e desentendimentos. Uma coberta de cama, cheia de manchas
amareladas, revela frenesim no momento da separação dos corpos, é sinal mais
que evidente de exacerbação sexual. Da última vez que Aninhas levou a colcha a
limpar, a brasileira largou-lhe um sorriso retrincado e, depois de um instante
a chupar os dentes para tirar um pedaço de febra entalado entre os molares, foi
dizendo que as manchas já estavam muito entranhadas, da próxima vez, que trouxesse
a colcha no dia seguinte, esfregando logo com vinagre branco e álcool talvez a
coisa se compusesse. Continuou a chupar os dentes e, sem vacilar, entregou-lhe o volume plastificado. Aninhas
sentiu um estremeção no peito e jurou nunca mais ali entrar.
2013/07/11
Carepas
De costas, numa cadeira de rodas, uma mulher espera. Pela postura, a cabeça mole, caída, percebo que a deficiência não é apenas física. Entro na tabacaria e rapidamente a esqueço. Folheio revistas e jornais, escrevo o meu nome num bloco cheio de garatujas coloridas para perceber o traço de canetas e esferográficas. O poeta anda por ali a comprar jornais. Olhando-o, olhos caídos para o chão como se tivesse medo do mundo, lembro a pobreza discursiva da minha escrita. À saída, volto a dar de caras com a mulher na cadeira de rodas. Continua sozinha. Como se alguém ali a tivesse propositadamente abandonado. Sorri-me, um sorriso cheio de pureza e fealdade. Faltam-lhe vários dentes na boca torcida como um parafuso. Os olhos, velhos, estão metidos em covas escuras. Tem, e é isso que mais impressiona, o rosto coberto de escamas vermelhas. Umas carepas de sarna, de seborreia, de caspa, não sei bem do que são. Com uma mão muito branca, em forma de garra, a mulher arranca pedaços de crosta que ficam acumulados por baixo da sujidade esverdeada das unhas demasiado compridas. Desvio o olhar, agoniada. Imagino-me a cuidar de uma irmã, uma tia, uma filha assim. Talvez fizesse o mesmo. Abandonava-a na frescura climatizada de um centro comercial e ia à minha vida.
(Na tabacaria, foi com esse propósito que ali entrei, comprei um caderno. Quero escrever com liberdade sem que me acusem de egoísmo. Censuro-me bastante aqui.)
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