Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2013/09/14
2013/09/12
Fervura
A adolescência trouxe-me uma espécie de fervura ao sangue.
Foi por volta dos vinte anos que desejei morrer pela primeira vez. Contava
lamelas de comprimidos. Pressionava pontas de faca contra os pulsos. Ficava à
beira do passeio a sentir o corpo estremecer à passagem próxima dos autocarros.
Subia ao telhado do prédio com o intuito de me atirar lá de cima. Apesar da
angústia, sinto um conforto esquisito quando recordo esses
instantes desesperados, sobretudo quando me chega a lembrança da beleza extrema
do telhado do prédio dos meus pais. Abria a pequena porta de metal e o ar era
subitamente puro, livre de fuligem cancerígena. Olhava em redor, só via céu, o
alinhamento simétrico das torres de doze andares, a pista do aeroporto ao
longe. Parecia-me que ali, naquela dimensão, mundo inóspito, silencioso,
solidão muito branca, o ar voltava a chegar-me aos pulmões. A pouco e pouco
passava-me a vontade de morrer. Deitava-me no declive de telhas, esverdeado de
líquenes, sentia o vento no rosto, esperava que o tempo passasse.
Pensar na morte tornou-se num vício. Aliviava-me. Fazia
listas de métodos, tentava perceber qual o mais eficaz e menos
doloroso. Todos apresentavam desvantagens e dificuldades. Na queda havia o
instante em que o corpo bate no passeio e o crânio se racha. Cortar os pulsos
trazia o incómodo do sangue empapando as carpetes da sala e a certeza de morrer
lentamente. O enforcamento parecia-me uma morte feia, abrupta, os enforcados
morriam aos soluços, o corpo sacudido pelo estertor final, a língua de fora.
Outra coisa me fazia rejeitar o enforcamento. Sabia que os enforcados perdiam o
controlo do esfíncter e a ideia dos meus pais darem comigo morta, cheia de
urina e fezes, envergonhava-me. Tomar comprimidos era, de longe, o melhor
método, mas havia a possibilidade da falhar a dose, se não tomasse a quantidade
certa corria o risco dos outros encontrarem artificialidade no meu gesto. A
reflexão enfraquecia pois a minha determinação. Queria morrer, mas através de
um gesto que fosse simples como beber um copo de água ou desligar um
interruptor.
Durante a noite, deitada na cama, muitas vezes, pensei que a
solução mais fácil era entregar o assunto a um especialista. Podia simplesmente
contratar alguém para me matar. Havia maridos que contratavam assassinos para
matar as suas mulheres e mulheres que contratavam assassinos para matar
os seus maridos. Por que não havia eu de contratar quem me matasse? Estes
pensamentos extraordinários chegavam geralmente depois de me masturbar a pensar
em prostitutas com grandes mamas e vestidos de lantejoulas. A ideia do
pistoleiro parecia-me boa, mas não tardei a perceber que a morte, encomendada e
eficaz, era um pouco como as prostitutas de vestidos de lantejoulas: um luxo
que não estava ao meu alcance. Não tinha dinheiro para contratar um assassino,
e mesmo que tivesse, não conhecia nenhum. Vivia num bairro de classe média,
pacato, perto de Sacavém. Havia apenas alguns heroinómanos que roubavam
enciclopédias, loiças finas e garrafas das garrafeiras dos pais para assegurar
a dose diária. Tudo era cinzento e deprimente. Encontrar ali um assassino não
era fácil.
Mas, por mais que tentasse livrar-me dos pensamentos
suicidas, a vontade de morrer não me largava. Tornei-me obsessiva, a ideia
era-me tão agradável como sentir a luz da tarde coada pelas cortinas brancas no
quarto da tia Dé ou observar a minha mãe, nas manhãs de sábado, limpando o pó
do grande móvel escuro da sala. Sentia-me naturalmente desadequada, anormal,
adensava-se a minha inquietação: não só me masturbava a pensar em mulheres
prostibulares como sentia esse desejo latente de morte. Muitos anos
passados, habituada à natureza cíclica desse desejo, a minha iniciação no
desespero parece-me caricata. Às vezes, entre soluços e lágrimas, dá-me até
vontade de rir. Tudo bastante dramático, sofrido, estupidamente inconsequente.
Sei agora que, assim como somos pornográficos às escondidas, somos suicidas às
escondidas. A vida tem um punhado de coisas boas, mas não é como se pinta.
Quase sempre é aborrecida, uma desilusão, está cheia de sofrimento,
tristeza, injustiça, ruas sujas e íngremes, crianças com fome, gente silenciosa
e desesperada. Como não achar a vida insuportável? Não tenho dúvidas de
que a morte é desejada por muita gente e constantemente. Se houvesse um método
infalível, fácil, instantâneo, limpo, haveria no mundo uma mortandade grande,
talvez fosse até preciso mandar construir crematórios, valas comuns, investir
na formação de coveiros, técnicos de equipamento de cremação, cangalheiros. Mas
há vinte anos, precisamente há vinte anos, não tinha o discernimento de hoje,
vivia na certeza da minha singularidade. Dava voltas na cama, inquieta. Quanto
mais pensava no assunto mais me convencia de que a morte era o melhor que a
vida tinha para me oferecer.
2013/09/11
2013/09/10
Indicador
Fixo o almoço: sopa de feijão e uma pêra cozida num líquido
licoroso. O jornal está aberto. Finjo ler. Recordo o desenho do meu sobrinho, a
boca do meu irmão, o sonho de domingo interrompido pelo telefonema da Dá.
Distraio-me com pensamentos soltos, lembranças felizes, mas, atrás, correm as imagens
de sempre, latentes, dolorosas. Desejo o vazio, isso e aprender a deslizar o indicador no ecrã de um telefone. Sinto o cheiro da minha transpiração e
noto pêlos escuros nas pernas. Mantenho-as, porém, cruzadas, à vista, para que sejam
observadas na sua triste mornidão pelos homens que esperam na fila. Enquanto
levo a colher à boca observo o rapaz das sopas, há doze anos que o vejo ali, entre
a Rosa e a Fátima, sempre no mesmo aprumo: pega na concha, mete-a na panela, dá
duas ou três voltas para dar corpo ao caldo, trá-la vertical e, com um
rápido movimento do pulso, quase imperceptível, faz verter o líquido na tigela.
Para além de ser excepcionalmente bom naquilo que faz, o João é gentil, doce.
Imagino-o a viver com uma avó, os dois, felizes por se terem, a
observar a cintilação do televisor. É isto a minha vida. Almoçar sozinha, imaginar
as noites do rapaz que serve sopas e mostrar as pernas aos homens que aguardam na
fila do refeitório.
2013/09/05
Filha
Pergunto “Nunca sentes vontade de maltratar os mais fracos,
os miúdos doentes, aleijados, aqueles que são infelizes ou simplesmente parecem
infelizes?”. Diz que não e deixa cair a cabeça no meu colo. “Não acontece
sempre, mas, por vezes, tenho vontade de gritar com a mulher que pede à saída
no metro e, hoje, durante a hora de almoço, senti vontade de pontapear
uma criança. Maltratar os fracos sabe sempre bem.”, explico com vagar e cheiro-lhe
o cabelo.
Anão
Os poetas, antes de tudo, celebram o amor, e têm
razão, porque nada como o amor precisa tanto de ser transformado naquilo que
não é. As mulheres tornam-se então melancólicas, enche-se-lhes de suspiros o
peito, e os homens ganham um ar sonhador, pois todos percebem imediatamente que
um poema que desfigura a tal ponto a realidade deve ser particularmente belo.
O Anão, Pär Lagerkvist
2013/08/30
Malha metálica
Usa alpercatas roxas, calças de algodão descontraidamente
arregaçadas, um fio de ouro com um berloque fluorescente. É uma mãe jovem,
cheia de graça e entusiasmo. Conheço-a vagamente do portão da escola. A
conversa sai-lhe diluviosa e o tom vai num crescendo de afectação nasalada. É
extraordinário como é capaz de libertar uma quantidade tão grande de palavras. O ritmo é
alucinante, quase mecânico. Nem por um segundo hesita. Talvez seja isto a
capacidade demiúrgica do dizer. Ser capaz de falar assim parece-me uma proeza
irrealizável, quase mágica. Mas, aos poucos, o ruído torna-se excessivo. A
conversa obriga-me a um esforço de concentração: tenho de escutar, acenar a
cabeça, responder, sorrir. A vida passa a ser insuportável e a realidade
paralela, onde sempre renasço, desaparece lentamente. A mulher continua a
falar. Passo a mão pelos borbotos da blusa e fixo os sapatos novos que
comprei numa loja de calçado ortopédico. Enquanto noto o brilho encerado da
pele maleável desejo que a mulher emudeça ou morra. Podia simplesmente
pedir-lhe que se calasse, mas a minha cobardia tem raízes fundas, grossas como
dedos, bastante poderosas e paralisantes. Nunca serei capaz de interrompê-la,
tocar-lhe no ombro, explicar-lhe educadamente que preferia estar ali, em silêncio, em frente da carne morta na vitrina do talho, a observar o empregado vesgo
encarregue de desossar uma perna de cabrito, um prodígio de brutalidade que, a
cada novo corte, compõe o bivaque da farda ensanguentada e ajeita a luva de
malha metálica.
2013/08/26
Caldo de cenoura
Acordei com a habitual sensação de vergonha e cansaço,
picadas na mama esquerda, dores de cabeça e mau hálito. Deixei-me ficar sentada
na cama a olhar a criança desconhecida que cavalga uma nuvem de fuligem. Durante
a manhã, peguei no processo de um jovem médico, compulsivamente aposentado por
sofrer de psicose delirante crónica. Senti-me aliviada por ter uma doença que, avançando com lentidão, me poupa do enxovalho social. Tenho-a há vinte anos, e, na maior
parte do tempo, ninguém dá por ela. Ao almoço comi um caldo ralo de cenoura e encalhei
na seguinte expressão: capacidade demiúrgica do dizer. Li-a na contracapa de um
livro e não a compreendi.
2013/08/25
Calor de Agosto
Matou-a com trinta e quatro golpes de faca. Atingiu-a nos
braços, nas pernas, no tronco, vazou-lhe uma vista. O médico legista explicou
que, pelas marcas, se percebia que a ponta da faca fora torcida depois de
enterrada no olho. Para justificar tanta facada, o assassino explicou ao juiz
que encontrara, naquela tarde de Agosto, um outro homem em casa. O ciúme falou
mais alto. Pegou numa faca e, enquanto o calor abafava o apartamento,
escorrendo pelas paredes, esfaqueou a mulher. O calor era muito e talvez tenha sido esse calor
de Agosto, tão ardente, que lhe ateou a raiva e permitiu que o ódio se
apoderasse de si. Talvez, continuou o homem, se estivesse um dia mais fresco, a
raiva não tivesse ardido como ardeu.
Com o calor de Agosto, num instante, a fagulha se ateou e incendiou-lhe o
corpo. A culpa, via-se bem, era dele, que não era homem para a não assumir, mas
também do calor, do maldito calor de Agosto. O juiz escutou o assassino em
silêncio e encontrou beleza nas suas palavras. As vizinhas, durante o
julgamento, contaram os pormenores daquela vida. A pancadaria era muita e as
discussões permanentes. Discutiam por tudo e por nada. Por causa do dinheiro,
por causa do choro do menino, que tinha cólicas, mas, sobretudo, por
causa da televisão. Ele queria ver o domingo desportivo; ela queria ver as
telenovelas. Os gritos interrompiam o silêncio da noite. Eram gritos
lancinantes. Pareciam arrancados de dentro. O homem chamava muitos nomes à
mulher, nomes indecentes, porcos e ordinários, nomes que custava repetir ali,
na sala de audiências, na presença dos senhores doutores juízes. Porém,
explicaram as depoentes, quando amanhecia, a porta do apartamento abria-se e
saiam os dois, homem e mulher, a caminho da paragem do autocarro. Como se nada
se tivesse passado. Às vezes, quando a mulher trazia o corpo mais moído da
pancada, o homem aliviava-lhe a carga e levava o bebé ao colo. Uma mulher
contou que, muitas vezes, enquanto ele lhe batia, ela pedia “Amor, por
favor, não me batas na cabeça”.
(A última frase, lida há alguns anos num jornal, não me larga e, hoje, para o meu filho mais velho, para lhe mostrar a maldade de Deus, li uma passagem de um conto do Albert Cossery, o do barbeiro que mata a mulher.)
2013/08/23
Lésbica turca
- Estás horrível, mãe. Pareces uma lésbica turca.
- Sou uma lésbica turca. - respondo e, lentamente, começo a descolar as bordinhas do adesivo para lhe mudar o penso.
(os mais velhos voltaram; a felicidade, por vezes, parece-me uma coisa bastante simples e alcançável.)
2013/08/22
Encontro feliz
Andava por ali, mole, espapaçada do calor, desinteressada,
triste por sentir as calças de ganga ligeiramente apertadas. Estava já de saída
quando, numa prateleira baixa, alinhados, descobri vários livros do Albert
Cossery. Um encontro feliz. Li páginas soltas e, de imediato,
escolhi três livros. Perto do balcão, desacelerei na espiral consumista:
lembrei-me de que ainda precisava de passar pela perfumaria para comprar uma
base de verão. Comprar três livros, mais uma base da dior, assim de uma
assentada, pareceu-me um capricho, um devaneio perdulário, apetecível, mas
revelador de destrambelhamento e desorientação. Decidi levar apenas dois livros,
o das entrevistas (5 euros) e a colectânea de contos (12 euros). Ainda pensei
em prescindir da base de verão, mas, na minha vida, a estética pesa tanto como a literatura e a frivolidade por enquanto fica-me bem. Percebi, no
entanto, que desejava ter exactamente aquele exemplar de “Mandriões no vale
fértil”. Não outro qualquer. É raro acontecer, mas, por vezes, dá-se uma
espécie de magnetismo entre mim e certos livros. Deve ser uma sensação parecida
com o amor à primeira vista. Há livros cheios de sedução fantasmagórica que parecem dizer-me assim: sou teu, és minha, leva-me para o teu quarto, toca-me
com os teus dedos curtos de cutículas roídas, depois esquece-me nos
entremeios dos teus lençóis. Não deve haver muita gente à procura dos mandriões
do vale fértil. Tenho a certeza de que, deixando o livro na prateleira onde o encontrei,
daqui a uma semana, um mês, um ano, voltaria a encontrá-lo no mesmo lugar. Mas,
à cautela, não vá o diabo tecê-las e um qualquer parvalhão pegar nele, enfiei-o
atrás de uma fila de livros técnicos, num canto escuro onde ninguém o encontrará.
2013/08/18
Maputo
Três da manhã. Li o primeiro romance “faceto”, o primeiro “frívolo
livreco”, reli o segundo, tomei meio comprimido, bebi um chá de ervas muito
quente que me queimou o avesso. Animei-me com a Custódia, a Pascoela, a Eufémia
Tronchuda, a Felícia, esqueci até a irritação que me provocou a misógina comparação
entre a Fêmea e a Política. Consolada, julguei a noite ganha, pensei que adormeceria
rapidamente, esquecida do resto. Voltei porém a não conseguir adormecer. Dei
voltas e voltas na cama. Chegou a espertina habitual. Pensei em mil e uma
coisas. Em aulas de tango. No meu cabelo que não pára de cair. Na mulher de ancas largas desmerecendo um jovem
escritor. No entusiasmo apopléctico, deslumbrado, cheio de tremores, da M. em relação a um
outro que cheira mal dos sovacos. No cheiro da minha prima Filomena. No cheiro dos escabicidas. Em sudação animalesca. Nas contas que tenho para pagar. Em
Dunquerque. Na Cornualha. No meu filho João, distante, provocador, cada vez
mais bronco. Pensei também na primeira noite em Maputo. A noite quieta e o velho
da bomba de gasolina dançando sozinho ao som desta canção.
Leda
Voltei com o Joaquim. Fazem-me falta os outros. Passei
o dia em limpezas, as minhas mãos estão cheias de cortes, a polpa dos dedos
inchada. Cheiram a lixívia. Preciso de ter a
casa limpa, gavetas ordenadas, roupas lavadas, as madeiras a cheirar a óleo de
cedro. Deitei o Joaquim, mordi-o e lambi-o. Não jantei e bebi duas cervejas no estendal. Lembrei a conversa com a minha
irmã. Contou que a Laurinda, depois do divórcio, bebia muito. Também bebo, bebo
todos os dias, não muito, só o suficiente para largar a minha pele e fingir que
sou outra qualquer. Despi-me para
tomar banho. Vi-me reflectida no espelho do lavatório, nudez morna, corpo escuro, olhos borrados de khol, o cabelo solto, pensei no marroquino do café da aldeia, desejei que me visse naquele instante, a entrar
no banho, mascarada de leda cigana.
2013/08/02
Conchanata
Havia sempre flores frescas nas jarras. O quarto estava
limpo, arejado, perfumado. A cama feita com os meus lençóis preferidos. Na
fruteira, em lugar de destaque, para que a visse mal entrasse na cozinha, uma
papaia madura. Essas pequenas atenções da minha mãe amorteciam o desconsolo do
regresso, faziam-me esquecer a liberdade das férias, longe da disciplina do meu
pai e da preocupação excessiva da minha tia. Agora sou eu que preparo o
regresso dos meus filhos. A Madalena volta hoje do estágio, chega no comboio
das onze, frágil, bonita, com os dentes tão tortos. Passei a tarde a arranjar
tudo para que se sinta feliz por voltar a casa, a nossa casa: comprei ramos de
cravinas, obriguei o Joaquim a fazer um desenho colorido para embrulhar uma
tablete de chocolate salgado, há bacalhau com natas no forno, figos no
frigorífico, uma conchanata no congelador.
2013/08/01
Pilriteiro
Dos ramos espinhosos nasciam
folhas enceradas que faziam lembrar asas frágeis de insecto. Na
Primavera, a árvore cobria-se de flores muito perfumadas e, no Outono, de pequenos frutos vermelhos que pareciam romãs e cresciam
em cachos. Quis muitas vezes trincar aquelas maçãs liliputianas. Tomar-lhes o
gosto. Porém, a tia Dé, quando me via perto de tal árvore, as mãos fechadas
escondendo as bagas, abria muitos os olhos. Adivinhando a minha vontade de as trincar, explicava que tais frutos eram venenosos, certa
vez até aparecera no hospital um menino, tão pequenino, muito doente
por ter comido aquelas bagas. Depois, com rispidez, dava-me palmadas nas mãos até eu as abrir e largar os
frutos vermelhos. Nunca soube o nome de tal árvore. Encontrava-a no jardim do
Campo de Santana, perto do infantário, talhada em sebes vivas, também nos jardins do Seminário dos
Olivais onde o cheiro das amoras maduras tornava as tardes de Agosto mais quentes. Sempre que via a tal arvorezinha chegava-me uma vontade urgente de lhe trincar os frutos. Mas logo me
lembrava dos avisos da minha tia. Imaginava, então, que se trincasse uma
daquelas bagas vermelhas cairia no chão tal qual a Branca de Neve
quando provou a maçã. Se provasse as bagas de tal árvore, imaginava eu, pequena, unhas sempre roídas, passaria o resto da vida enfiada num esquife frio de cristal. Por
isso, por temor, nunca desobedeci à minha tia. Apertava os pequenos frutos nas mãos até os esmagar. Uma decepção profunda tomava conta de mim
quando lhes via o interior grumoso e pálido. Queria que tivessem uma polpa vermelha, dramática, sinal de paixão e doçura. Hoje, quando cruzo o parque da Fundação, ignoro os avisos para não pisar a relva e não apanhar flores e frutos. Apanho sempre meia dúzia de bagas das árvores que
crescem junto do Centro de Arte Moderna. Enfio-as nos bolsos. As bagas
continuam sem cheiro. Apodrecem nos meus bolsos até ao dia em que as meterei à boca.
(Voltei a pegar no livro que, para além de castelos merovíngios, fala de pirliteiros e pirlitos. Cedo, voltarei a abandoná-lo.)
2013/07/30
Für Elise
Um dia, para além dos habituais pacotes
de pinhoadas e amores, a prima Laura trouxe-lhe da feira de Grândola uma bonequinha
musical. Era uma figura de porcelana áspera, uma dama antiga, cabelo aos cachos,
vestido enfunado com um remate de folhos, uma cadelinha dengosa nos braços. Por
baixo do vestido havia uma pequena manivela que, torcida, fazia a boneca dançar ao som de uma melodia triste. A minha avó adorou o presente e, muitas
vezes, mostrava-me a pequena estatueta, insistindo na sua beleza e
maravilhando-se com a música sombria, mas bonita, que se libertava do seu
avesso. Dava-lhe corda e, muito quieta, vestida de negro, lenço de lã na cabeça,
escutava o arranhar melodioso das palhetas metálicas no pequeno carrilhão. Eu
não dizia nada. Olhava a minha avó com distância e condescendência. Achava a
boneca um objecto de mau gosto, bastante foleiro com as suas cores garridas e
traços grosseiros. Desprovida de qualquer beleza evidente, sem marcas de erudição
estética, a boneca causava-me naquela altura um arrepio de nojo. Passados
tantos anos, morta, enterrada, quase esquecida a minha avó, a lembrança dessa
pequena boneca de loiça liberta em mim reflexões frívolas, tremores poéticos,
as melancolias mais íntimas.
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