2013/07/25

Marcador preto

Escrevo no caderno com um marcador preto. Tenho páginas e páginas escritas, coisas sem interesse, as banalidades do costume, sobretudo notas sobre os outros: a mulher-elefante que todos os dia chega ao café, cigarro ao canto da boca, voz grossa, a expectoração solta a notar-se em cada gargalhada, o marido da Graça esperando no carro, tão acabado do cancro, quase morto, as mãos da minha irmã, o cheiro dos pés do Joaquim, os olhos da minha mãe, o meu pai de pijama pedalando na marquise da sala para afugentar as atrapalhações da idade. São apenas impressões, desabafos, nada que mereça a correcção de uma segunda leitura. E, no entanto, gosto de olhar essas páginas ligeiras, mas fecundas, cheias de vida. Reaprendi a escrever e, depois de anos de abandono, tomei posse da minha caligrafia, ligeiramente inclinada para a direita, correndo, arrepiada, fora de margens e linhas, cheia de golpes, hastes longas, exageros. Enquanto escrevo deslumbro-me com a habilidade e a velocidade da minha mão.

2013/07/24

Solipsista

Solipsista. Nossa Senhora do Carmo. Ombros nus. Vestido branco. Alinhavos vermelhos. A velha má da mantilha preta. Fantasmagoria. Malaquias imolando o filho. O cutelo ao alto. Luz coada pelos vitrais. Noventa anjos. A pele das mãos rebentada. Tomo conta de ti e dos teus filhos. Rosto tortulhado. Cabeças de pus esverdeado. Pontos negros. Carnes secas. Unhas roídas até ao sabugo. O cheiro das flores de figueira. Duas figueiras em Xabregas, outra numa esquina da cidade, crescendo num canteiro de fetos velhos. Um cipreste de gálbulos languinhosos. Uma mosca vareja. Uma porta de fitas. Amostras de cremes firmantes, clareantes, hidratantes. Farmacopeia variada. Duas manchas de pano. Uma sombra picada de bexigas. É um poeta muito, muito, muito bom. A sério? A sério. A palavra grunho impressa. O sexo dos textos. O tempo das mulheres. Um livro na Rua de São Domingos de Benfica. Uma cama na Rua Passos Manuel. As mãos do homem no corpo da mulher. Tomo conta de ti e dos teus filhos. Uma tosse cheia de gosma. Um arfar pesado. Uma pinça arrancando pêlos negros do buço. Sarro atrás da torneira do lavatório. Outros sarros. Duas irmãs descalças apanhando bolotas para matar a fome. Mãe. Tia. O vento morno. O sino marcando o início da tarde. Uma mulher deitada no meio da rua mais feia da cidade. Mãos entrelaçadas. Olhos fechados. Palavras novas e advérbios interrogativos. Porque chorava? Porque o tratava mal? Por que chorava? Por que o tratava mal? A certeza da ignorância. Duas sardinheiras no canteiro da escola de yoga. 

(livre associação.)
(Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra: “Joaninha, Joaninha, porque tens tu os olhos verdes?; Eça de Queirós, Os Maias: “Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?)

2013/07/23

Lost Soul



Descobri que gosto mais do Geater Davis do que do Marvin Gaye. Muito mais. 

Vício

O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se num vício. Percebo bem o que queria dizer. Sou depressiva há muitos anos, mais de vinte, e não sei como me livrar da tristeza quando ela decide tomar conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tomei muitos comprimidos, lamelas e lamelas de comprimidos. Já falei com um padre. Já tive filhos para que a maternidade, me secundarizando, acabasse de vez com a tristeza. Já tentei preencher o tempo com coisinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. Sou de vícios e fraquezas.

(São cinco da manhã. Há três noites que não durmo. Fico de olhos abertos a olhar a escuridão, a escutar a cómoda estalar com o calor. Podia aproveitar a espertina para escrever sobre as duas mulheres que encontrei no cemitério, sentadas em banquinhos de lona, sossegadas, a limpar uma campa. Achei-as muito bonitas, ali no meio da brancura funérea, tratando os seus mortos. Não sou capaz. Espero apenas que amanheça. O dia é sempre melhor do que a noite. Está cheio de ruído, o silêncio não pesa.) 

2013/07/21

Domingo



No escuro da sala, peguei-lhe na mão e sussurrei-lhe ao ouvido "amo-te". Depois, estivemos sentadas num banco, em silêncio, a olhar o Joaquim correr no parque, irrequieto como um cabritinho, os pés de dedos gordos enfiados nas sandálias baratas. Gostava que ele nunca crescesse, que ficasse assim para sempre, pequenino, a depender de mim, a fazer-me companhia, a ser a minha muleta, acabei por lhe confessar. Ele vai crescer, mas podes sempre ter outro filho, respondeu, segura, serena, certa das palavras que usa.  E com quem?, perguntei-lhe, atrapalhada com aquela conversa. Ela respondeu. Pergunto-me muitas vezes como é possível que esta criança seja minha filha. Às vezes, aliás muitas vezes, parece que é ela a mãe e eu a filha. 

2013/07/20

Aninhas e a flictena

Aninhas, nas noites de Inverno, enquanto esperava que o professor de semiótica ligasse, sentada em frente da televisão, acendia sempre um aquecedor eléctrico de resistências incandescentes. Costumava ter os pés frios e os dois filamentos cor de laranja, brilhando na escuridão, davam-lhe algum consolo. O lume é uma companhia, lembrava-se de ouvir a avó dizer quando era pequena. O pequeno radiador eléctrico, com as suas lágrimas de fogo contido, pousada aos pés, era um triste substituto dessas fogueiras. Fazia-lhe companhia.Mas deve ter-se cuidado com as companhias que as há perigosas. Uma noite, em que adormecera a ver um documentário sobre crocodilos, acordou com um cheiro intenso de borracha queimada. Deixara os pés demasiado perto do aquecedor e a sola das pantufas amolecia com o calor das resistências ligadas na potência máxima. Em vez de se descalçar, assustada, levantou-se com um salto. O peso do corpo pressionou os pés sobre as solas que ferviam. A pele ficou apenas superficialmente queimada, mas a erupção de uma flictena obrigou-a a estar sem andar durante alguns dias; deitada na cama, os pés cobertos com um creme gordo, entreteve-se a ler revistas de culinária para aprender a confecção de pratos que agradassem ao professor de semiótica. A epiderme acabou por cair, nasceu outra, dura e calejada e, por baixo do mindinho do pé esquerdo, no lugar da flictena, uma pequena verruga muito obstinada que, apesar da constante aplicação de adesivos com ácido salicílico, insistia sempre em nascer.

2013/07/17

Miraflores

Planta carnívora

A modernidade exige-lhe artefactos: usa fiadas de pulseiras, colares coloridos e, quando ajeita o cabelo, mostra uma borboleta negra, tatuada no pescoço. É dada a misticismos, vitalismos e esoterismos, acredita no poder da risoterapia, da cristaloterapia e da cromoterapia, também pratica o reiki, o tai-chi e o kung-chi. Demora-se a explicar cada conceito, cada modalidade. No seu entender, explica muito séria, a felicidade pode facilmente alcançar-se com mantras, meia-hora de meditação por dia e uma alimentação livre de impurezas. Escuto-a sem a interromper. Tudo aquilo me parece disparatado e até um pouco triste. Tanto cuidado na escolha e acabo a falar com uma tipa que, rejeitando a tradição das suas origens, sem temer o ridículo da desadequação, parece admirar apenas a grandeza espiritual de países longínquos. Desprezo quem, encontrando nesse tipo de contemplação um sinal de mundividência, não se dá conta que tal apreço pelo exótico revela apenas provincianismo. Que estúpida, que grande estafermo, penso. Com um entusiasmo quase delirante, a rapariga põe-se a falar do espírito cósmico. A conversa desnorteia-me, afasta-me cada vez mais do meu propósito. Sinto  um profundo desalento durante o resto da refeição. Tudo o que oiço me parece despropositado, mesquinho, de uma frivolidade que me incomoda. Quando a rapariga se levanta para ir à casa de banho volto a olhá-la. A maquilhagem procura diluir a banalidade, boca apagada, lábios tão finos que mal se distinguem do resto do rosto, olhos espantadiços. O corpo, porém, hipnotiza, formas preenchidas no busto e quadril, a cintura marcada por um cinto de duas voltas. Fala de espiritualidade, mas é apenas matéria. O palavreado místico é um véu enganador, a carne é a sua vocação, o corpo funciona como a armadilha de uma planta carnívora. 

2013/07/16

Campanella

Sandra

Eu sentia-me esmagado de humilhação, como é que lhe havia de falar? Quem é que disse que o amor aproxima não sei quê? Não é verdade. Sou um homem experimentado – não é verdade. Se eu amasse pouco Sandra ou não a amasse, era-me muito mais fácil falar com ela, lidar com ela e com a irmã com quem quer que fosse dela, eu livre e independente. Amar é pôr ao alto e ao longe, treme-se como diante de um deus tresloucado. Amar muito é ter pouco de nós com que se possa ser gente. Amar é ser desgraçado e eu era. 

Para Sempre, Vergílio Ferreira

(Não pegava no Vergílio Ferreira há muito tempo. Que besta.)

2013/07/15

Aninhas e o beijo nipónico

Procurava uma palavra. Sentia cansaço, fome, o dia findo lá fora. Escurecera de repente e só o ecrã do computador brilhava no apartamento. Aninhas sentiu-se triste, aflitivamente só. Minimizou uma janela, maximizou outra. Procurou o filme do beijo nipónico. Deixou-se estar muito quieta a vê-lo. Duas jovens japonesas, de farda colegial, corpos óbvios, fecundos. Trocaram algumas palavras e começaram a beijar-se. Um beijo húmido, secreto. Aninhas baixou o volume para que os gemidos não se ouvissem no patim das escadas. Depois, despiu a camisa e libertou-se do sutiã. Humedeceu os dedos e tocou nos mamilos, sentiu-os firmes, cheios, teve vontade de os morder. Abriu ligeiramente as pernas e meteu a mão dentro das calças. Não tardou a sentir um orgasmo silencioso, bom, incapaz, porém, de suspender a realidade. Voltou a vestir a camisa, compôs o cabelo. Olhou em volta, por todo o lado, sinais de rotina, os chinelos do marido, a taça de gelado que o filho deixara em cima da mesa, os dois pretos de madeira que a empregada insistia em colocar no rebordo da estante. No ecrã, as colegiais japonesas continuavam a beijar-se. Aninhas deixou-se estar a olhá-las durante algum tempo, novamente fria, corpo feito pedra. Levou a mão ao nariz e, na ponta dos dedos, sentiu o seu cheiro, um cheiro adocicado, irritante, previsível, a lembrar calor, pedaços de jagra escura, passeios cheios de lixo. Ajeitou o corpo na cadeira e continuou a escrever.

2013/07/14

Coisas preferidas



(Ler em igrejas, correr, fumar, beber, ver o João chegar, escutar-lhe a voz e sentir-lhe o cheiro, cortar as unhas dos meus filhos, ler para os meus filhos, cantar para os meus filhos, caminhar sozinha.)

Aninhas e a quiromante

Está acostumada aos pequenos acidentes que por vezes acontecem. Mete os lençóis a lavar a noventa graus e o edredão, volta e meia, tem de ir a limpar à lavandaria. Cada vez que lá vai, Aninhas tem de se sujeitar ao sorriso da empregada, uma brasileira já íntima da freguesia, sempre disposta a esquecer o serviço por dois dedos de conversa. É uma mulher vivaça, muito afogueada dos vapores que se soltam dos ferros com caldeira, esbagachada em vestidos justos, mostrando uma mamas enormes, imensas, que parecem não ter fim. Mas a brasileira da lavandaria não é só concupiscência exuberante: tem dons especiais, é uma espécie de quiromante. Sagaz, dotada de uma intuição apurada, é capaz de ler a vida de uma pessoa a partir de manchas e nódoas como outros a lêem das linhas das mãos e das borras de café. O cheiro a bafio é sinal de não querer largar o passado. Punhos e golas de camisa puídos revelam perseverança, desejo de alcançar uma vida monetária desafogada. Nódoas salpicadas em toalhas de festa são sinal de afectos intensos e espontâneos. Roupa amarfanhada, com pequenos rasgões nas costuras, mostram inflexibilidade e desentendimentos. Uma coberta de cama, cheia de manchas amareladas, revela frenesim no momento da separação dos corpos, é sinal mais que evidente de exacerbação sexual. Da última vez que Aninhas levou a colcha a limpar, a brasileira largou-lhe um sorriso retrincado e, depois de um instante a chupar os dentes para tirar um pedaço de febra entalado entre os molares, foi dizendo que as manchas já estavam muito entranhadas, da próxima vez, que trouxesse a colcha no dia seguinte, esfregando logo com vinagre branco e álcool talvez a coisa se compusesse. Continuou a chupar os dentes e, sem vacilar, entregou-lhe o volume plastificado. Aninhas sentiu um estremeção no peito e jurou nunca mais ali entrar.

2013/07/13

Notícia

2013/07/11

Carepas

De costas, numa cadeira de rodas, uma mulher espera. Pela postura, a cabeça mole, caída, percebo que a deficiência não é apenas física. Entro na tabacaria e rapidamente a esqueço. Folheio revistas e jornais, escrevo o meu nome num bloco cheio de garatujas coloridas para perceber o traço de canetas e esferográficas. O poeta anda por ali a comprar jornais. Olhando-o, olhos caídos para o chão como se tivesse medo do mundo, lembro a pobreza discursiva da minha escrita. À saída, volto a dar de caras com a mulher na cadeira de rodas. Continua sozinha. Como se alguém ali a tivesse propositadamente abandonado. Sorri-me, um sorriso cheio de pureza e fealdade. Faltam-lhe vários dentes na boca torcida como um parafuso. Os olhos, velhos, estão metidos em covas escuras. Tem, e é isso que mais impressiona, o rosto coberto de escamas vermelhas. Umas carepas de sarna, de seborreia, de caspa, não sei bem do que são. Com uma mão muito branca, em forma de garra, a mulher arranca pedaços de crosta que ficam acumulados por baixo da sujidade esverdeada das unhas demasiado compridas. Desvio o olhar, agoniada. Imagino-me a cuidar de uma irmã, uma tia, uma filha assim. Talvez fizesse o mesmo. Abandonava-a na frescura climatizada de um centro comercial e ia à minha vida.

(Na tabacaria, foi com esse propósito que ali entrei, comprei um caderno. Quero escrever com liberdade sem que me acusem de egoísmo. Censuro-me bastante aqui.)

2013/07/10

Sal do deserto

Hoje, à hora do almoço, deitei-me com um homem e lambi-o. Não gostei do homem nem do sabor do seu suor, asséptico, com um ligeiro travo a bolor e medicamento. Na casa de banho, enquanto me arranjava, bochechei a boca com água e cuspi. Como se estivesse no dentista. Ao olhar-me no espelho, lembrei-me da rosa do deserto que a Cilinha, minha madrinha, costumava guardar na cómoda do seu quarto. Feita de areia e sal, de uma cor muito bonita, misteriosa, foi objecto que durante anos exerceu sobre mim um fascínio muito grande. Sempre que visitava os meus padrinhos no apartamento de Benfica, corria ao quarto deles, procurava a rosa do deserto e ficava a olhá-la. Depois encostava a flor de pedra à boca para sentir nos lábios o sabor do deserto. Hoje, ao olhar-me no espelho, depois de lamber a pele de outro homem, percebi finalmente ao que sabe o teu corpo: ao sal do deserto.

2013/07/09

Linfoma

É doloroso ler o que escreves, explicou ontem a minha mãe ao telefone. Escutei-a em silêncio e pedi-lhe desculpa. À noite, deitada na cama, o Joaquim muito transpirado, enrolado nas minhas pernas, dei com esta passagem no livro do Vergílio Ferreira : “Mentalmente pensei, bócio, linfoma, seria ele ainda? Estava sentado no passeio, uma caixa de esmolas ao lado. Seria já um seu descendente? Seria talvez um seu antepassado que viera vindo através de gerações até chegar ali com o seu saco de pelicano suspenso do queixo. Perguntei-lhe se ele era de Coimbra, ele disse-me o senhor compreende, lá já ninguém me ajudava por já estarem habituados à minha desgraça. E eu compreendi. Porque uma desgraça, como tudo, vai perdendo o ser com cada vez que se vê e o ver lho come.” Li e percebi que a minha tristeza é tal qual o aleijão do pelicano de que fala o escritor. De tão assumida, escancarada, exposta, perdeu impacto, tornou-se banal. É simplesmente maçadora. Não devia impressionar ou preocupar ninguém. Faz parte de mim.

Bárbara

Mas eu esperei infinitamente que você me não humilhasse, que percebesse que eu abrira uma porta e você não ficasse à porta. E eu pensei o que ele quer de mim? Poderá ele entender um corpo de mulher? Saberá ele a verdade de um seio, de uma boca, do sítio definitivo em que esse corpo se cumpre? Do sítio em que o animal tem o direito de existir? Ele vai beijar-me, pensei, vai conhecer as mãos com os meus seios, vai indagar do secreto do meu ser, da fonte do meu sangue e eu vou sentir que o seu amor também tem um corpo a acompanhar. Mas você não fez nada, nem sequer me beijou e eu tive asco e horror e desprezo por si.  

Na tua face, Vergílio Ferreira

2013/07/07

Calor

Corpo atravessado na cama. Nu, suado, salgado, morto. O quarto muito escuro. Fecho os olhos. Penso em punhos cortados, nos meus pés à beirinha da linha do comboio, nas caixas de comprimidos guardadas no armário da casa de banho. Não consigo evitar a tristeza, os pensamentos sombrios, a angústia patética. A tentação é sempre grande. Tenho vontade de retalhar com golpes fundos, muito dolorosos, o meu corpo. Mata-lo. Não o suporto na sua inapetência. Devia ceder de vez à loucura. Deixar de brincar ao faz de conta. Talvez conseguisse descansar. Dormir uma noite seguida. Chega o Joaquim, só de cuecas, óculos escuros na cabeça. Deita-te em cima de mim, peço-lhe. Ele trepa e deixa-se estar muito quieto como se compreendesse a essencialidade do gesto. Estás triste, pergunta. Estou, estou muito triste, respondo. Ficamos assim, corpos sobrepostos, durante algum tempo, a ver se a minha tristeza passa. Costuma passar.

2013/05/23

2013/05/14

Vaca Profana



(a inclinação natural do meu destino.)

Vermelho


Estou com um buço espectacularmente escuro e grande, não tarda nada terei uma bigodaça farta e revirada, onde pingos glutinosos de caldo verde poderão secar como estalactites. Voltei a roer as unhas até ao sabugo, ando com as polpas dos dedos inchadas e cheias de feridas. Tenho um molar estragado que, deixando um sabor fétido na boca, larga uma halitose potente. Cortei o cabelo tão curto, já o não consigo apanhar. Os meus pés, por causa das sabrinas baratas que uso sem meias, cheiram a chulé e os meus sovacos, apesar do desodorizante, não aguentam até ao final do dia sem libertar um cheiro recozido de suor. Como os primeiros dias de sol, o meu melasma, apesar da furiosa aplicação de cremes despigmentantes, nota-se cada vez mais e, por causa do mioma, este mês, o meu fluxo menstrual voltou a ser diluvioso e inconveniente: largo golfadas de mênstruo coagulado, mas de um vermelho intenso, muito bonito.

2013/05/09

Barbela

Andavam duas jovens mulheres a cirandar pela livraria. Qualquer coisa no modo como caminhavam lembrava a alegria tola das galinhas criadas no campo: acabam no prato, como as outras, mas têm a ilusão da liberdade e da dignidade. Tinham ar de leitoras do Nicholas Sparks, o que só as enalteceria, mas não eram: uma levava a Serpente Emplumada debaixo do braço e a outra, com uma voz meio fanhosa, cheia de entusiasmo, pediu ao balcão o livro do último prémio Leya. Andaram por ali, largando comentários sobre a essencialidade da literatura nas suas vidas e mostrando a sua relação  íntima com os livros. Até que a mais gorda, arrebitando a crista, abanando o pelancame vermelho da barbela, olhou em redor e cacarejou assim ” Eu, se pudesse, levava a livraria toda!”. Saí, claro está. Fui enfiar-me numa loja chinesa a comprar collants. São mais baratos, a qualidade do fio é a mesma e as cores têm nomes bonitos: muskade, duna, tropical.

2013/05/07

Aninhas e o dono


Às vezes, a meio da noite, ia buscá-la à cama do filho e obrigava-a a voltar ao quarto. Não te faço nada, dizia calmamente, mas vens dormir na nossa cama. E puxava-a pelo braço. Como se fosse uma cadela, uma escrava, uma demente sem vontade própria. O filho cobria a cabeça com o edredão para não escutar  o que vinha a seguir: Aninhas tentava libertar-se, gritava muito alto, mordia os braços até os ver sangrar, batia com a cabeça nas paredes, rasgava a roupa do corpo e, assim, nua, tentava fugir para a rua. Com o tempo, porém,  acabou  por desistir da loucura. Isso custou–lhe mais do que o resto. Passou a ser obediente: percorria o corredor em silêncio, olhos caídos no chão, voltava ao quarto e deitava-se ao lado do dono. 

2013/05/05

Lobo Mau



(Foi à estante dos cds. Procurou qualquer coisa que não encontrou. Trouxe um disco do Nick Cave. Avisei-o que não era o género dele. Era música de crescidos. Expliquei-lhe que o senhor que cantava tinha uma voz muito grossa, parecida com a voz do lobo mau. Por teimosia, exigiu ouvi-lo. Gostou apenas de uma canção. Ouviu-a várias vezes, ignorando as restantes. Dançou enquanto dava comida ao peixinho vermelho. Depois piscou os olhos e disse "os lobos maus também sabem cantar canções de amor." É bom, ser mãe, mas não é suficiente para me tornar mulher.)

2013/05/03

Tia


“Mete aí uma pinguinha, filha!”, diz a tia Dé e estende-me uma chávena de café. Geralmente não se senta à mesa, se o faz, por ser almoço de domingo ou dia de festa, fica sentada à pontinha da cadeira, o corpo sempre tenso. Nunca tira o avental, raramente usa pratos ou copos. Debica em pires e chávenas de café. “Que raio de prazer podes ter em beber vinho numa chávena de café?”, pergunto-lhe. Ela não explica, não diz nada, limita-se a passar as mãos pelo cabelo completamente branco. Encolhe os ombros e começa a beber. Os seus olhos dizem sempre o mesmo: sou uma sombra, morri há muitos anos, num tempo tão antigo que parece de outra vida, sou um passarinho morto, tenho um coração solitário e palpitante, não sou mãe, não sou avó, não fui mulher, não deixo ruído, as minhas pantufas mal se ouvem. Sempre foi assim. Hei-de desaparecer sem que nenhum de vocês se dê conta.

Irmã


Vermelho. Paro no semáforo. Tenho os olhos inchados. Dói-me qualquer coisa por dentro. Não sei muito bem o que é ou se é sequer. Mexo com a mão no rasgão da flanela do pijama. Os rapazes do carro ao lado riem. Ri-se sempre dos imbecis e dos fracos. É suposto ser assim. Olho-os de volta. Trazem bonés na cabeça. Brincos. Sorrisos. Através do vidro embaciado, um rapaz moreno diz-me qualquer coisa. É tarde. Que horas são? Verde. Sigo. Dou voltas. Não sei onde estou. Aqui é o acelerador. Aqui a embraiagem. O travão é ali. Eu sou esta que está aqui. Chamo-me Ana e não hei-de enlouquecer. Tenho uma estrela da tarde e um barão trepador. Chego, por fim, à praceta da minha irmã. Está a chegar. Veste um poncho largo. Parece um anjo branco e tranquilo. Reconhece-me. Entra no carro. Encosto a minha cabeça no ombro dela. Digo-lhe que estou cansada.

2013/04/22

Mercúrio


Ainda tão perto de Lisboa, ali quando a auto-estrada passa por Alhandra, a cimenteira, a capela no altinho, a linha do norte marcando o fim à vila, os álamos que deitam uma sombra baça, cheia de poeira, sobre os prédios antigos, iguais aos de Moscavide e Sacavém, ali, ainda tão perto de casa, a curva do rio a ver-se, e já eu ia leve, levezinha, a bater os dedos no volante, esquecida da carraça que me chupa o sangue e deixa os vasos quebradiços, os órgãos secos, a traqueia estrangulada em muitos nós, quero respirar e não consigo. Fui e voltei. Cheguei a casa, deviam ser nove da noite, retemperada, consolada, o bem que a música me faz, é preciso tão pouco para me animar. Mal abri a porta veio a prole enrolar-se nas minhas pernas. Beijos e abraços, gotas de mercúrio, inchando até serem uma só, também gosto muito de vocês, tanto, são a luz da minha vida, o melhor que a vida me deu, o resto que se lixe, não fossem vocês, ricos amores, e já me teria lançado ao mar, num lugar de águas escuras, profundas, onde um peixe antigo, luminoso, iridescente, de fiadas de dentes fininhos, me arrancasse o corpo ao pedaços.

Virei-me para a minha mãe. Pedi-lhe para os aturar mais uma hora. Calcei uns ténis. Lá fora, a noite abafava, nem uma brisa se levantava do rio, era uma noite de verão, estática, andavam as tainhas mais moles do que é costume, nadando aos círculos que o cerebelo carregado de nafta e gasolina deixa-as muito estúpidas, vinham com a cabeça à tona para olhar com os seus olhos amarelos as estrelas e a lua. Não se via ninguém. Passei apenas por um homem grisalho que passeava um cão minúsculo e levava pelas costas uma mochila das jornadas peninsulares de psiquiatria. Atrasei o passo. Corri durante uma hora. Voltei a casa. Despediu-se a avó. Tomei banho. Deitei-me. Olhei a secretária e o computador. Lembrei-me dos meus propósitos, tão boas as minhas intenções, agora que ninguém me reclama, agora que ninguém me cansa, hei-de escrever todas as noites, um bocadinho de lixo todas as noites. Não custa nada. Até ter um lixo de muitas páginas. Apaguei a luz. Mal a escuridão entrou no quarto, pensei em mamas, rabos, pénis muito tesos ejaculando para dentro de bocas. O orgasmo veio fácil, em meia dúzia de segundos, numa vertigem, sem esforço, uma coisa sem jeito nenhum, sensaborona, aguada, desoladora, profundamente triste.

Adormeci. Às três da manhã, bradou o mais pequeno. Preciso de ti, disse e subiu à minha cama com o coelho Botelho na mão. Às quatro da manhã, veio a do meio, vestia uma camisa de noite cheia de anémonas, tão frágil, tão delicada, a minha filha, como uma gota de água. Tive um pesadelo contigo e com o pai, explicou. Fica, meu amor, que a noite não silencia os medos, nunca a escuridão os apazigua. Às cinco da manhã, chegou o mais velho, um cristo cigano, sem dizer uma palavra, dormia ainda, dormia de olhos muito abertos, trazia o corpo fluído de prata. Terceira gota. Ocupou na cama o lugar do pai. Adormeci a um canto, meio corpo de fora, caindo para um abismo de espinhos e névoas. Acordei de madrugada, chilreavam os pardais e os melros nas árvores da praça, piu, piu, piu, piu, um frenesim matinal muito bom. O mais novo despertou com o alarido dos pássaros. Galgou o corpo da irmã e livrou-me do precipício. Beijou-me e adormeceu. 

2013/04/19

Aninhas e as caixinhas de broas

Devia ter pouco mais de dez anos quando lhe ofereceram um livro ilustrado de fábulas. Aninhas, muito morena, cabelo curto, unhas roídas, um anelzinho de prata no dedo indicador, passava horas a lê-lo.  Lia e relia. Tomava atenção aos detalhes dos desenhos. Sentia a rugosidade das folhas e cheirava-as. A sua vida ficou para sempre marcada pela moral intuitiva desses bichos: leões, cigarras, formigas, burros, cavalos, lobos, cegonhas, grous e ovelhas. Por exemplo, sempre que um homem a abandonava, Aninhas procurava ter a astúcia da raposa que, olhando um cacho de uvas cheias e maduras, por as não poder alcançar, diz que estão demasiado verdes. Nem sempre a técnica resultava. Largada há pouco tempo por um professor de semiótica, Aninhas tentava fixar-se apenas  nos seus defeitos: a desadequação entre a careca e o brinco que usava no lóbulo esquerdo, a pança flácida tocando o seu corpo, a facilidade com que as outras mulheres lhe mereciam o superlativo absoluto sintético. Inteligentíssimas. Lindíssimas. Interessantíssimas. Fecundíssimas. Porém, mal acordava, rosto inchado de sono, as pálpebras coladas de ramelas, Aninhas lembrava apenas aquilo que desejava esquecer: as caixinhas de broas que o professor lhe trouxera pelo natal, o seu cheiro a rios de água gelada, o modo como certa vez, na entrada de um prédio, lhe abocanhara os mamilos, mordendo-os, o retalhe do seu corpo imenso na paragem de autocarro.

2013/04/17

Urbano


Toda a gente tem direito às suas embirrações. Eu, que não sou mais nem menos do que os outros, tenho direito às minhas. Embirro com quase toda a gente que conheço; às tantas, reconheço, já nem sei bem por quê. É um modo de estar na vida como outro qualquer. Embirro com a Sofiazinha, com o Nuno, a Natércia e a Patrícia, embirro com quase todas as amigas da minha irmã, umas mais do que outras. Também embirrava com vários vizinhos dos meus pais, a preferência ia para o capitão do quinto direito, beato, salazarento, sempre de charuto ao canto da boca. Agora já gosto dele. A mulher perdeu de vez o tino, está completamente louca e eu sou muito sensível à loucura. Embirro com a Anabela Mota Ribeiro (uma embirração misturada com uma pontinha de inveja porque a acho verdadeiramente bela), com o Kalaf Angelo, com o valter hugo mãe e, ao ponto da náusea e arrancos vómicos, com a Michelle Obama, de sabrinas e corsários, plantando nabos e pepinos nos jardins da casa branca. Há muitos anos que desligo o televisor sempre que aparece o António José Seguro. Embirrava, e continuo a embirrar, mesmo depois de morto, enterrado, eternamente celebrado, com o Eduardo Prado Coelho. Enfim, são tudo embirrações ligeiras, inconsequentes, mas que me provocam uma sensação boa de alívio. Assim como um arroto bem dado.

Mas, às vezes, aparecem embirrações que são como carraças. Não me largam. Tornam-se fixações. Há muitos anos que embirro com o Urbano Tavares Rodrigues. É uma coisa visceral, uma reacção não controlável, basta-me topar-lhe com a fronha, o cabelo ondulado, o corpo magro e esguio, a pele velha, manchada, carcomida, para me fazer largar um esgar de nojo. A entrevista que deu há meia dúzia de meses ao Público, a propósito do seu novo livro, deixou-me num estado de irritação profunda. Não aceito mas compreendo o machismo assumido por um certo tipo de homens: conservadores, marialvas ou simplesmente boçais. Bate a bota com a perdigota, como é uso dizer-se. Mas, encontrar homens supostamente esclarecidos, desses que enchem a boca cada vez que falam de liberdade e erguem o punho por dá cá aquela palha, a falarem das mulheres como se fossem caça, reconduzindo-as sempre à sua condição menor é triste e desolador.


Ontem, rondando os escaparates da livraria do costume, dei de caras com o livro sobre o qual o escritor tão entusiasticamente falara ao Público. Parece que esteve dois dias sem dormir para escrever a primeira novela. Basta ler as duas primeiras páginas para perceber que leva ao limite do absurdo a sua ilusão de grande macho cobridor: há uma enfermeira que desfalece com os orgasmos que o narrador (ele, só pode ser ele!) lhe provoca numa sala com cheiro a clorofórmio e, mais adiante, logo na página a seguir, há uma empregada de limpeza que o venera. A sopeira chora quando o beija pela primeira vez e agradece quando o narrador lhe ensina a chupar devidamente o caralho. É tudo tão tristemente insultuoso que uma mulher fica sem saber se há-de rir ou chorar. Se não estivéssemos em crise, se não me tivessem papado subsídios e prémios, se não me tivessem cortado o salário com o qual sustento a minha prole, bem que comprava o merdoso livro do merdoso escritor Urbano Tavares Rodrigues. A minha vida é um martírio, sou uma autêntica penitente, devia ter direito a alguma diversão.


(O Urbano Tavares Rodrigues, escritor menor, foi casado com a Maria Judite de Carvalho, escritora maior, infelizmente sempre colocada na sua sombra.)

2013/04/16

Aninhas e o trevo de quatro folhas


Gostava de passear com os filhos nos jardins e parques da cidade. Procuravam rãs, patos, borboletas, lagartas, chapins, libélulas, papagaios. Cheiravam flores, sementes, folhas, caules, raízes, paus. Espreitavam grutas, tocas, troncos, lagos, todos os recantos sombrios, bons para namorar. Na primeira tarde de sol, a filha lendo na sombra de uma árvore, os mais pequenos esbulhando um formigueiro com varas fininhas de amieiro, no meio das ervas altas dos clorófitos, Aninhas encontrou um trevo de quatro folhas. Quando se preparava para o arrancar, notou o seu reflexo nas vidraças da biblioteca que ficava no meio do parque: um corpo deslassado do resto, um fruto maduro prestes a apodrecer. Fechou os olhos e desejou: nunca mais a força bruta, quero apenas o prazer, sem o sofrimento da paixão, sem o aborrecimento do casamento. Voltou a abrir os olhos e procurou os filhos. Meteu o trevo à boca e mastigou-o.

2013/04/08

2013/04/05

Al Green

2013/04/03

Acordar


Foi assim durante muito tempo. Muitos anos. O meu despertar era sempre igual. Acordava triste e desesperada. Procurava o corpo na penumbra do quarto, desejando não o encontrar. Talvez alguém, durante o sono, compadecendo-se da minha dor, o tivesse levado para longe. Quando o encontrava, ao meu corpo, adormecido a um canto qualquer, pontapeava-o com violência para que se erguesse. Como se fosse um vagabundo que se despreza. Erguia-se o meu corpo, tão estiolado, tão frágil, entrava dentro dele e corria à cozinha a arranjar os pequenos-almoços dos meus filhos. Habituei-me à tristeza, é como a solidão, fere, mas deixa em nós qualquer coisa, bela e única, que não se sabe explicar. Quem não tem dentro de si alguma tristeza e solidão não é gente. É personagem de anúncio de cerveja ou de telemóveis. Nunca me habituei, no entanto, ao desespero, ao choro louco, ao conforto das imagens sombrias, um parapeito para saltar, um rio de água barrenta, os bolsos cheios de pedras, os pulsos cortados com uma lâmina, lágrimas de sangue empapando a alcatifa cor de laranja do escritório do meu pai, sessenta comprimidos letais tomados ao pequeno-almoço como no poema. Hoje, voltei a acordar triste. Não me importo que a tristeza volte. É uma amiga para a vida. Se vier só, abro-lhe a porta, deixo-a instalar-se dentro de mim. É o desespero que me assusta.

Abril

2013/03/29

Verdes Anos

2013/03/10

Venezuela

2013/03/05

Joaquim


Lembro-me de te falar ao ouvido. Vou cuidar de ti. Até seres velho. Não sei como se faz, mas vou ser imortal, como os deuses, para nunca te deixar só. Vou ter muitos filhos. Até as minhas entranhas se cansarem e apodrecerem com cheiro de limão e manchas de bolor. Vou educar essas crias cegas para serem a tua bengala e o teu amparo. Repeti as mesmas palavras vezes sem conta enquanto te embalava. Meu amor. Até que as esvaziei. Tirei-lhes o sentido. Ficaram as palavras mortas, rotas, uns fiapos de espuma, pendurados no vazio. Quando não esperava, entrei-te pelos olhos dentro. Deixei de ser invisível. Senti o corpo quente. Inchei como um balão de feira. Era um deus louco e caprichoso que me soprava para dentro. Achei, pela segunda vez na vida, que podia ser feliz.

2013/02/21

América



(Hoje, enquanto corria, dois gordinhos, ele de botas pontudas, ela de jaqueta de napa, fodiam ao cimo da escadaria do pavilhão atlântico; mais adiante, perto do pontão dos pescadores, a outra margem tremendo em pontos de luz, uma negra chorava no ombro de um branco insuflado de músculos.)

2013/02/15

Etta Jones

2013/02/11

Holofernes


Noite dentro, enquanto a chuva mansa tamborila nas vidraças, Judite rebola na cama, resfolegando como se fosse um animal. Uma égua ou uma vaca. De lábios túmidos. Cabelos emaranhados. A pele recamada de bagas de suor. Parece uma planta orvalhada. Uma deusa ignota, imperfeita. Espera Judite que a escuridão do quarto tome a forma do corpo de um homem.

Pensa Judite: quando a escuridão e o vazio se condensarem em corpo de homem, por fim, amainarei. A chuva continuará, mansa, a bater nas vidraças. Com calma, olharei para os ciprestes que lá fora permanecerão hirtos. Olharei para o homem deitado ao meu lado. Será grande como sempre o imaginei. Cabelo comprido. Barba negra como a escuridão que lhe deu corpo. Olhos de lobo, de lince, de leão, de cão esfaimado. Um bafo quente, nebuloso, sair-lhe-á de dentro. Será como um animal feroz sem açaime ou jaula.

Judite continua a pensar: tirarei a camisa que me cobre o corpo e deixarei que o animal-homem-escuridão me tome. Este é o meu corpo. Tomai-o em nome de Deus. Ele tomar-me-á como os bichos. Saciado, descansará, então, sobre os lençóis ainda mornos. Dormitará com um sorriso de anjo boçal no rosto. Em silêncio, pegarei no machado que se esconde por baixo da cama. Ergue-lo-ei. Com um golpe, com um único golpe, cortar-lhe-ei a cabeça. Ele abrirá os olhos segundos antes do cutelo o penetrar. Um grito mudo perder-se-á pelo quarto. Baterá nas vidraças fechadas como moscas cegas. Haverá sangue derramado pela cama. Um líquido viscoso, denso, quase preto. Quando a sua cabeça rolar para o chão adormecerei. Ao lado do corpo decepado. Antes, porém, direi o seu nome: Holofernes.

( e o Joaquim, que hoje cheira a limão, vem mostrar-me as mãos. Depois trata  do coração do meu cristo.)


2013/02/10

Conimbricense




(Contaram-me que tem uma namorada nova, conimbricense. Deve ser cá um camafeu. Quase velha, com papos nos olhos, carnes flácidas, prazo de validade expirado, conimbricense. E eu, ainda de glúteos firmes, que o amo desde o ciclo preparatório, quando a Prof. Maria dos Anjos nos deu a ouvir o Barnabé, eu que tenho filhos que identificam as suas canções aos primeiros acordes e que os amo muito mais por essa razão, eu que quis perder os três a escutá-lo, que quis entrar na igreja a ouvi-lo, que me lembro dele em cada momento importante da minha vida, que escolhi para me tratar do divórcio, sobretudo por isso, o colega de faculdade que me gravou o canto da boca e o campolide, eu que detesto todos os que o ouvem porque acredito que as canções que compôs são só minhas. Só eu as sei escutar.)

2013/02/07

Saudade



(Voltei a almoçar ao lado dos informáticos do quinto piso.)

2013/02/06

Bukowski


Ando a ler sem grande entusiasmo um livro do Charles Bukowski. É uma sucessão de fodas, bebedeiras e alucinações. Não há mais nada. A temática interessa-me: as bebedeiras porque quem me conhece sabe que não sou alcoólica porque calhou não o ser (tenho tudo para ser alcoólica), o sexo porque enfim é um assunto que preciso resolver (recuso entregar-me à desistência), as drogas porque representam a miséria e a indigência (sempre gostei de indigentes, assim como há quem goste de cães e gatos). Mas tudo o que é demais enjoa. Por vezes, no entanto, o tal Bukowski tem assim uns repentes de clarividência, não diz nada de novo, são quase banalidades o que escreve, mas sabe-me bem lê-las, às banalidades, no meio de tanto broche, tanta cona e tanto caralho entesado. Hoje, no refeitório, ao lado da Rosa das olheiras fundas e do João das sopas, li assim: “Mercedes virou o rosto para mim. Beijei-a. Beijar é muito mais íntimo do que foder. É por isso que nunca gostei que as minhas namoradas beijassem outros homens. Preferia que fodessem com eles.” Não é nada de especial. É claro que beijar é mais íntimo do que foder. Mas li e soube-me bem ler, ali, no refeitório, ao lado do grupo do informáticos do quinto piso. Até me esqueci do desgosto fundo que tenho sentido desde que descobri que o rapaz das arcadas já não trabalha no meu edifício. Não sei como vou aguentar tamanha solidão no meu gabinete de azulejos verde água.

2013/02/04

Marvin Gaye

Aninhas e o chá


Entrou no salão. O dono do cabeleireiro veio recebê-la. Cumprimentou-a com um beijinho e ofereceu-lhe um chá. Aninhas recusou com delicadeza e deixou-se estar a falar junto do balcão da entrada. O dono era um homem gordo, muito expansivo, cuja afectação se justificava pela clientela que conseguira reunir ao longo dos anos: jornalistas, deputadas, uma ou outra ministra, escritoras, professoras universitárias, algumas actrizes consagradas, mas nem uma única dessas celebridades que aparecem nas capas de revista por confundir a sua profissão com meretrício. Aninhas perguntou-lhe pelo companheiro, operado há pouco tempo. Não o fazia com sinceridade, não era genuína a sua preocupação. Na verdade, sentia certa repulsa quando via o dono do cabeleireiro abraçar o namorado, um rapaz novo que trabalhava no salão como colorista. Sacrificava, porém, o seu conservadorismo ao estatuto que aquela aparente intimidade lhe conferia. O salão tinha uma clientela muito selecta. No entanto, apenas um círculo muito restrito, a que Aninhas pertencia, tinha direito ao convite para o chá, servido numa porcelana finíssima, quase transparente.

2013/02/03

Serão


Deitei os miúdos. Vesti o sari branco que a tia Amália me ofereceu. Enchi os braços de pulseiras de vidro. Prendi o cabelo com grampos. Pintei os olhos carregados de preto. Colei um bindi brilhante entre as sobrancelhas. Olhei-me no espelho. Achei-me bonita, simplesmente bonita. Abri um garrafa de vinho. Fui fumar para o estendal. 

Ângelus


A tia Maria, sentada no alpendre, balouça as pernas magras. Sacode constantemente os braços para enxotar os mosquitos. Mordisca uma fatia de bebinca que a criada fez pela manhã. Vigia as brincadeiras das crianças no jardim enquanto fala. Explica que às netas, por serem raparigas, exige comedimento nos jogos e nos folguedos. Se não crescerem delicadas, com bons modos, nenhum rapaz católico brâmane quererá casar com elas. Volta e meia, quando alguma exagera na cabriolice, dá um grito. Ria, a menina-balão, tem voz de trovão. Quer aprender com Elaine, sua prima, os primeiros passos da Bharatanatyam. Não é fácil. Há que ter um corpo obediente, olhos expressivos, mãos maleáveis que saibam falar como os bichos. No preciso instante em as meninas se preparam para bater os pés no chão, dando início à sua dança, ouvem-se os sinos. São 18 horas. O dia está prestes a transformar-se em noite. É a hora mágica do Ângelus. A minha tia interrompe as brincadeiras do jardim e, num inglês áspero, lembra as obrigações da fé. Vira-se para a igreja de Santa Rita, cujos pináculos se avistam do outro lado da estrada e, muito séria, desfia uma ladainha de palavras. Calam-se as crianças. As minhas também. Calam-se as gralhas. Calam-se os esquilos que vivem na mangueira. Cala-se o vento no tamarindo. Cala-se a mulher do sari vermelho e das botas de borracha que cheira a estrume. Calam-se os deuses domésticos que vivem no jardim. Estão habituados às orações da minha tia a um deus desconhecido. Calo-me eu. Tudo se aquieta. No silêncio da aldeia só se escuta a voz da minha tia que embala o entardecer. O mundo sossega por breves instantes. Quando termina a oração, a tia Maria sorri e limpa uma lágrima que pingou da sua vista doente. As crianças retomam as brincadeiras no jardim. Os deuses escondem-se nos arbustos e, no crepúsculo, observam Ria, a menina-balão, que bate os pés na laje morna, imitando Parvati, a consorte dançarina.

2013/01/27

Pai



(Esqueço sempre os teus erros; os meus ficam cá dentro, espinhos enterrados na carne. As noites em Deli, sentados na cama, tu, como se fosses um miúdo pequeno, a contar a história da tua vida, os nossos terrenos de Dicarpale, tão bonitos, sobre a várzea abandonada, a viagem pelo Rajastão com o motorista dos Himalaias que cuspia escarros vermelhos de supari,  a ladainha escutada na capelinha perto dos campos onde levavas os búfalos a pastar, as  tuas conversas com Vixnu, o mandukar hindu desdentado, as masalas dosas que me trouxeste para jantar nos dias em que fiquei a escrever, o abraço longo depois da primeira discussão. Amo-te.)

2013/01/12

Gold Flake

Escuto o JP Simões na noite goesa. São quase dez horas, o meu pai já dorme, corpo moído da confusão das repartições públicas de Margão; fumo um Gold Flake na varanda do meu quarto, as gralhas estão caladas e Chitra, a rapariga que trata das vacas do Marlindo, lá em baixo, queima um pau de incenso junto do tulsi que a tia Maria, depois de consultar o padre da aldeia, consentiu que plantasse.  

2013/01/07

2013/01/04

Agra


Escrevo no átrio do hotel Agra Mahal, pardieiro imundo, a banheira cheia de sujidade, os lençóis puídos, húmidos, rasgados, com nódoas dos clientes anteriores. Há um altar a Hanuman, o deus macaco, outro a Ganesh, o deus elefante, um grande lustre de pingentes vermelhos ao cimo da escadaria. Cheira a incenso e o empregado do hotel sobe e desce as escadas com ferramentas ferrugentas nas mãos. Parece haver sempre qualquer coisa para arranjar neste lugar. Está sentado ao meu lado o filho do dono do hotel, um menino de três anos que cheira a sementes de anis e a pó de talco. Tem uns olhitos muito redondos e doces. Corre para o balcão da recepção, dá uma gargalhada e vem numa corrida enterrar-se no meu colo. Fala em hindi, não percebo uma palavra do que diz, faço-lhe festas no nariz, ele volta a rir. Tenho saudades dos meus filhos.

2012/12/24

Índia

Rafael


A camioneta chegou a Pangim depois da hora da sesta, no preciso instante em que o sol começava a decair e a cidade se preparava para a frescura do entardecer. O início da noite traz às cidades do oriente uma aceleração de corpos e movimentos, luzes explodem por todos os cantos como fogos de artifício, misturam-se as conversas das pessoas com as conversas da gralhas que descansam nas copas das árvores enquanto debicam frutos maduros que pingam mel para os passeios. O início da noite não marca o fim do dia. Na Índia sempre tive a sensação de que o dia continua noite fora. Só termina quando fechamos os olhos. Procurei, no meio da multidão do terminal, Rafael, o amigo do meu pai, a convite de quem viera a Pangim. Não me deixou sozinha por muito tempo. Conheci Rafael o ano passado, no crepúsculo nacarado de Curtorim. É um goês alto. Tem a robustez de um herói grego. Usa o cabelo branco puxado para trás e óculos de aros pretos a marcar-lhe pesadamente o rosto. É um gigante delicado. É assim que o vejo. Corremos ao bairro das Fontainhas onde estava hospedado em casa de um amigo. “Venha, venha. O meu amigo vive rodeado de coisas preciosas.”, disse ao chegarmos a uma casa antiga cor de vinho. Perante o meu olhar inquisidor esclareceu: “Antiguidades!” Percival Noronha, o dono da casa, é mais velho do que Rafael, rondará os oitenta anos. Traz o corpo frágil. Há-de ter os ossos porosos e rendilhados. Ofereceu-me chá e um bolo escuro de frutas que vinha embrulhado em papel pardo. Caetano, o empregado que nos serviu, tinha o rosto puído pelos anos. Olhando em redor vislumbrei vestígios de uma Goa que desaparece com lentidão. Como um corpo que se afunda devagar nas águas densas e movediças de um pântano. As paredes esmaecidas com retratos de gente já morta. O mobiliário indo-português, cheio de arabescos e floreados, a fazer lembrar contorcionistas de circo. Livros e mapas espalhados por todo o lado. Loiças chinesas antigas, com desenhos de pagodes e pinheiros mansos, dormitavam nas vitrinas dos louceiros. Percival pediu desculpa pela desarrumação da sala e contou a sua história: os cargos públicos exercidos na Índia de Salazar, o interesse pela história de Goa, os convites das universidades portuguesas para leccionar, as recepções organizadas para os presidentes Mário Soares e Cavaco Silva, a paixão pela astronomia. De repente, interrompeu o seu relato e levantou-se, dizendo que estava na hora do lançamento do livro. Era para isso, para o lançamento de um livro na Fundação Oriente, que eu viera ao encontro de Rafael. Ao entrar no jardim da fundação, que fica na rua onde Percival mora, reparei que as pessoas se movimentavam com a cerimónia própria daquelas ocasiões. Avistei apenas dois brancos: um homem cujo rosto me pareceu vagamente familiar e uma mulher que espantava pela informalidade. O cabelo curto num desalinho. A ausência de pulseiras, brincos ou anéis. A roupa larga e sem corte. Achei-a feia, demasiado pálida. Fumava. Esse gesto pareceu-me insuportavelmente masculino e inadequado.

2012/12/12

Quimioterapia

-  A Graça chorou tanto hoje de manhã.
- Tem passado muito!
- Custa-me vê-la assim.
- Uma mártir!
- Contou que o marido continua a fazer-lhe a vida negra.
- A maldade está-lhe no sangue…
- Diz-lhe coisas horríveis.
- As tareias de morte que tem apanhado!
- Ela nunca me diz directamente que o marido lhe bate.
- Envergonha-se. Não quer aborrecer-te com os problemas dela.
- Mas devia.
- Mesmo assim, fraquinho da quimioterapia, continua a bater-lhe!
- Nojento.
- Era melhor que morresse….
- Não digas isso.
- Não digo isso? Acabava-se o martírio.
- É sempre horrível desejar a morte de alguém.
- Achas que ela, no fundo, bem lá no fundo, não deseja o mesmo?
- Acho que sim. Se ele morresse era um alívio.
- Claro que era! Os homens são todos uns cabrões, filha.
- Pois são, mãe.


2012/12/11

Sinos

Há dois sinos na minha vida. O sino da igreja de Nossa Senhora de Fátima que toca ao meio-dia e o sino da igreja de Moscavide que repica quando saio da estação de comboios e atravesso o parque de estacionamento à procura do carro. São dois sinos mansos, obedientes, disciplinados. É preciso estar com atenção para os escutar no turbilhão da cidade.

Irmã


Certa vez instruí a minha irmã mais nova sobre o meu funeral. Uma mulher deve ser previdente e cuidar de todos os seus assuntos, incluindo a morte. Se há coisa que me aflige é imaginar-me enterrada num cemitério com vista para a cril ou para a crel ou para a radial de Benfica. Junto a um retail park. Pedi-lhe que me enterrasse no cemitério da aldeia, perto dos nossos avós, onde, mesmo morta, possa sentir o cheiro das figueiras e escutar o ronco das motorizadas que, pela tarde, levam os velhos de volta para os montes. Que tratasse de me arranjar uma campa rasa, com uma lápide branca, sem fotografias ou epitáfios. Que me vestisse a saia antiga, rodada, de veludo cotelê, me apanhasse o cabelo numa trança e colocasse nas orelhas as arrecadas incas que nunca fui capaz de lhe oferecer. Se for tempo das dálias e dos cravos túnicos que peça licença à vizinha Teresa e à Preciosa dos queijos, a que é belfa e usa sempre um chapelinho de palha, para os apanhar dos canteiros e os coloque numa jarrinha branca. Fi-la prometer que me enterraria sem a presença de estranhos. Quero um funeral selecto. Com quem gosto. E preciso. Pai, mãe, tia, irmãos, filhos, sobrinhos, as primas da aldeia. Mais ninguém. Pedi-lhe, ainda, que cantasse o poema: Quando eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro ajaezado à Andaluza... A um morto nada se recusa. E eu quero por força ir de burro. Ai dela que não me faça as vontades! Pobre e querida maninha. Hei-de voltar, pior do que fui, um espectro medonho e terrível, para lhe fazer a vida negra.

(A minha irmã anda triste, a precisar de amparo. É uma novidade. Sempre foi ela que cuidou de nós.)

Correr



(A minha filha, enfiada no seu edredão, livro pousado nas mãos de dedos esguios, pergunta-me o que gosto mais de fazer na vida.) 

2012/11/24

Luzia



Por insistência do marido - mais do que a aliviar do trabalho queria mostrar que tinha folga financeira para contratar uma empregada doméstica -, arranjou uma rapariga para ajudar na limpeza da casa e na preparação do jantar de aniversário. A princípio sentiu-se embaraçada por ter quem trabalhasse sob sua ordenança e supervisão. Nunca mandara em ninguém. Descendia de uma cadeia de antepassados assalariados, a miséria havia de vir de longe, uma genealogia de penúria, sofrimento e trabalho mal pago. Como podia quebrar essa linhagem de obediência e servilismo? Que autoridade tinha para se fazer obedecer? A estranheza foi passageira. Quando a empregada tocou à campainha pela manhã, Flandres sentiu uma alegria semelhante à de uma criança que se prepara para brincar ao faz de conta. Não podia deixar de se sentir animada! Preparava-se pela primeira vez na vida para mandar. Era excitante, essa possibilidade de submeter os outros à sua vontade, até aos seus caprichos!Não estava, porém, habituada à assertividade da linguagem das patroas. Desconhecia que, para alcançar bons resultados, uma criada deve tratar-se com frieza, ignorando sentimentos, mágoas e amuos, uma criada não é bem gente, apenas um corpo de trabalho, deve ser varada com palavras ríspidas e repreendida com a firmeza de uma chibata que estala no lombo de uma mula. Flandres era inepta no ralho, inábil na orientação. Pior, não sabia dar ordens, a cada instante, as transformava em pedidos.
- A Luzia não se importa, por favor, de começar a picar as cebolas e os alhos para o bacalhau?- e, com a sua boca bem desenhada, cheia de meiguice, largava um sorriso encantador.
Uma ordem nunca pode ser dada com a cortesia de um pedido, muito menos com a solicitude de uma súplica. Uma ordem bem dada não admite recusa ou hesitação, já os pedidos são totalmente falhos de potestade, dependem da vontade do interpelado, uma pessoa só os satisfaz se quiser. Luzia, a ajudanta daquele dia, ligeiramente anémica, cheiro de suor e detergentes entranhado nas carnes descoradas, rapidamente se deu conta da inexperiência de Flandres. Abusou da sua amabilidade, foi mesmo muito calona, deixou o salão mal limpo, bolas de cotão aos cantos, e, invocando uma repentina alergia, recusou-se limpar a casa de banho com lixívia e amoníaco. Pediu um detergente neutro que não lhe ardesse nas mãos. A princípio da tarde, depois de interpelada com tantos pedidos gentis, Luzia estava completamente liberta: não se sentia obrigada ao respeito subserviente que sempre se deve a uma patroa. Começou a dar palpites sobre a ornamentação das travessas e, vendo Flandres olhar para dois serviços de loiça, sem saber qual escolher, numa voz afectada e petulante, deu a sua opinião:
- Não gosto nada desse serviço com o cavalinho! – explicou, apontando com um gesto de desdém a loiça tradicional da fábrica de Sacavém. - a senhora use antes aquele com a cercadurinha dourada que é  mais moderno!
Flandres ouviu e acatou. Luzia era empregada, mas, de tanto ser mandada, aprendera a usar uma voz autoritária, cheia de sujeição e disciplina. 

2012/11/01

Inolvidable

Maria Adelaide


O médico explicou-lhe. Tratava-se de um carcinoma hepatocelular, as metástases encontravam-se já espalhadas pelo corpo. Faria tudo o que estava ao seu alcance para lhe aliviar as dores. Iniciaria de imediato os tratamentos quimioterápicos para a destruição das células tumorais. Avisou-a dos efeitos colaterais: náuseas, vómitos, diarreias, anemia, alopecia. Marcou nova consulta para daí a quinze dias. Despediu-se do médico com um aperto de mão e um sorriso. Queria sentir tristeza e não conseguia. Sabia que devia chorar. Meteu a guia de tratamento dentro da mala e saiu do consultório. Fez o caminho mais longo para casa. Andou durante bastante tempo tentando perceber o que sentia. Sem rodeios ou dramatismos: tinha um cancro e morreria em breve. Entrou no prédio onde morava passava das oito horas. Chamou o elevador que chegou aos guinchos. Entrou na cabine e olhou-se ao espelho. Só quando viu o seu ar macilento, a cicatriz no lábio superior, o cabelo num desalinho, os olhos encovados, o aborrecimento de uma vida plasmado no rosto feio, percebeu o que sentia. Era frustração e vergonha. Nada mais. A sensação de que Deus a gozava. Novamente. Nascera para ser gozada. Carregou no botão do oitavo andar. Nessa breve viagem, pareceu-lhe que o tempo se alongava. Dentro do tempo havia mais tempo. Dentro das horas mais minutos. Dentro dos minutos mais segundos. A vida passou-lhe diante dos olhos. Como se fosse um filme.

Chamava-se Maria Adelaide. Fora sempre uma criança enfezada. Nascera com uma fenda leporina no maxilar superior. A mãe, uma doméstica muito crente, casada com um construtor civil de Fátima, chorou-lhe o nascimento como se do ventre lhe tivesse escorrido o ser mais infame à face da Terra. Aos dois anos foi operada para fechar a fissura que causava tanto embaraço nos passeios domingueiros. Ficou-lhe uma cicatriz grossa e vermelha, aos gomos, que parecia ter sido suturada por uma costureira inexperiente, com fio de estopa, a sangue frio, sem cuidado ou gentileza. Feiinha, de uma feiura quase comovente por causa da cicatriz que lhe ficara no rosto, sentia-se sempre posta de lado nas festas familiares. A mãe bem podia enfeitá-la de laçarotes e vesti-la de folhos que as primas Arlete e Gorete, as gémeas que viviam na Bobadela, robustas e sadias, sempre lhe mostravam que a beleza era requisito imprescindível para uma mulher ser feliz. Faziam questão de lhe mexer na cicatriz porque, como explicavam, parecia um bichinho de seda morto. Chegavam tios e tias, primos e primas para a celebração dos domingos pascais e para a ceia de natal. A vivenda que o pai mandara construir em Sacavém, mesmo à beira da estrada nacional, revestida de azulejos cor de caramelo, rebentava nesses dias de festa. Os homens sentavam-se nas poltronas de cabedal do salão a mastigar rodelas de chouriço assado e quadrados de queijo flamengo. As mulheres enfiavam-se na cozinha a admirar os novos conjuntos de taparuéres que a mãe adquiria compulsivamente. As crianças corriam para o quarto de Maria Adelaide onde havia uma estante só para as bonecas compradas em Badajoz. Em cima da colcha de renda branca, de pernas abertas, muito esticadas, uma sevilhana vestida de folhos vermelhos, travessa e mantilha, olhava-se, altiva, no espelho oval do pechiché. Maria Adelaide seguia o bando e metia a sevilhana a salvo, em cima do roupeiro, não fosse algum dos primos parti-la e a mãe apanhar um desgosto profundo. Um dia descobriram que Laidinha, era assim que a família a tratava, gostava do primo Renato, rapaz de uma beleza óbvia e ordinária. As primas fizeram uma algazarra. Correram a contar-lhe. O primo olhou-a de cima a baixo e deu uma gargalhada escarninha que ficou, para sempre, presa nas paredes do quarto. Foi a primeira vez que Maria Adelaide sentiu que Deus a gozava. Não voltou a brincar com os primos nas festas de família. Ficava sentada no salão, entre os homens, mordiscando azeitonas.

A adolescência passou sem atropelos, entre a escola secundária de Sacavém e o grupo de jovens da paróquia. Continuava feia, apagada, triste. Não teve borbulhas e o período menstrual apareceu-lhe aos doze anos, num dia de muito calor enquanto dormitava em cima da colcha de renda ao lado da sevilhana dos folhos vermelhos. Quando acordou, reparou que um sangue vivo manchara a colcha branca e a mantilha da boneca. A mãe ralhou-lhe por não puxar a coberta para trás e mandou-a tomar banho. Depois correu para o tanque a esfregar com sabão de seda a vestimenta da espanhola. Por essa altura nasceu-lhe também um buço de pêlos escuros que acentuava a cicatriz por cima do lábio. A mãe correu a pedir ao construtor civil cinquenta contos para várias sessões de depilação eléctrica que salvassem a filha da vergonha do hirsutismo. Foram as duas a uma esteticista de Camarate, que também era conhecida por ser muito boa calista. Feita a primeira sessão, arrancados os primeiros pêlos, a cicatriz inchou, como se fosse um animal furioso. No dia seguinte, Adelaide acordou dorida, cheia de crostas. Explicou à mãe que não voltava a Camarate. Sentia que a cicatriz rebentava e um abismo de novo se abria no rosto. Achou que Deus a gozava pela segunda vez. A esteticista veio à vivenda dos azulejos cor de caramelo. Aplicou-lhe emplastros de vinagre na cicatriz e passou a oxigenar-lhe o buço de quinze em quinze dias. Também recomendou um calicida oriental muito bom para os joanetes da mãe que a aliviava muitíssimo das dores que sentia nos pés ao final do dia.

Não quis estudar apesar da insistência dos pais. As gémeas Arlete e Gorete entraram em Direito e tornaram-se mulheres emancipadas, de cigarro ao canto da boca e cabelos ripados, pintados de cores estranhas. Acaju. Ameixa. Adelaide tirou um curso profissional de contabilidade e casou aos vinte e cinco anos com um amigo do grupo de jovens. O namorado era mais velho e tinha uma fé que a todos espantava. Fazia retiros constantemente. Rezava com muito fervor. Namoraram pouco tempo. Eduardo José, assim se chamava o namorado, quis casar mal se empregou na Repartição de Finanças de Sacavém. As primas vieram ao casamento, cheias de écharpes esvoaçantes, pochetes refulgentes, sapatos forrados de cetim. O primo Renato também veio. Casara-se com uma enfermeira parturiente da margem sul. Pouco depois do casamento, Adelaide descobriu por que razão o marido lhe suportava a feiura da cicatriz e o resto: a flacidez precoce do corpo, a mãe tão espampanante e impositiva, as conversas aborrecidas do pai sobre como era difícil encontrar pessoal que dominasse a técnica do assentamento da cerâmica e do azulejo. O marido fugia-lhe do quarto e continuava a passar os fins-de-semana em retiros espirituais. Percebeu que se forçara ao casamento para disfarçar certas tendências quando o encontrou, numa madrugada de Dezembro, na casa de banho masturbando-se com várias revistas espalhadas pelo chão. Eram homens com homens nas páginas das revistas e o marido, com as calças do pijama de flanela para baixo, olhando-os como se estivesse possuído por mil demónios. Maria Adelaide definhou a olhos vistos. Deus gozava-a pela terceira vez.

Aconselhou-se com a mãe. Não tinha mais ninguém a quem recorrer. A mãe escutou-a na vivenda de azulejos cor de caramelo. Explicou-lhe com inesperada clareza a natureza instrumental do casamento: era apenas um meio para se alcançar um fim. Maria Adelaide encontrou certo conforto no conselho. Chegou-se ao marido e disse-lhe que podia suportar o resto desde que tivessem um filho. Foi mãe aos vinte e nove anos. A menina que nasceu era muito bonita. Maria Adelaide rejubilou. Achou que a beleza da filha vingava o seu passado de permanente gozo: o lábio leporino à nascença, a mãe assim como era, a gargalhada do primo Renato no quarto das bonecas, o despeito das primas, o marido olhando imagens de homens nus. As primas, Arlete e Gorete, estranhavam a extraordinária beleza da menina. Não percebiam como podia a Laidinha ter tido uma menina tão linda. Mais parecia filha da Broke Sheilds. Descobriu-se, pouco depois, que a menina sofria de atrasos graves. Mal falava e babava-se muito. As primas voltaram a visitá-la e a consolá-la. Conseguiam suportar a beleza da filha agora que a sabiam tolinha. Deus voltava a gozá-la. Pela quarta vez.

Desde essa altura, passou a pensar frequentemente na sua morte. Era uma suicida crónica, mas era uma suicida feliz. A ideia da morte aliviava-a sempre. Às vezes, durante a noite, quando estava triste, pensava no seu funeral e sentia-se logo melhor. Imaginava então o caixão descendo à terra, a laje branca, o primo Renato chegando com a enfermeira da margem sul. Via-se deitada, as mãos postas em cruz, uma renda cobrindo-lhe o rosto, tornando-o desfocado, disfarçando-lhe a cicatriz do lábio. Quase que ficava bonita assim, morta, vista através das rendas. As primas e as tias haviam de chegar-se perto e chorá-la com sinceridade. Sentia que a morte era um remédio para todos os seus males, mas também uma maneira de mostrar aos outros a sua força. Há tantos anos que pensava na morte que se acostumara a ela. A morte era a sua derradeira oportunidade de ser feliz. Que Deus lhe servisse agora, assim de repente, a morte, de bandeja, era coisa que não tolerava. Não queria que Deus lhe oferecesse um carcinoma hepatocelular, lhe tirasse o mérito da decisão, a espectacularidade do gesto trágico. Não aguentava que Deus a gozasse assim, tão descaradamente, como quando era pequena e soltara uma gargalhada no seu quarto. Por isso sentia vergonha e frustração.

Estremeceu quando o elevador chegou ao oitavo andar. Foi como se despertasse. Tomara uma decisão. Nessa noite, limpou a loiça do jantar, adormeceu a filha, telefonou à mãe que enviuvará há pouco e vivia ainda na vivenda revestida de azulejos cor de caramelo. Escutou o ronco do marido, aconchegou-lhe a roupa. Teve pena dele. Abriu a janela da sala, subiu para o parapeito e deixou-se cair. Nessa breve viagem, desde o momento em que os pés se soltaram da janela e o seu corpo tocou no chão da rua, Maria Adelaide voltou a sentir que o tempo se alongava. Dentro do tempo havia mais tempo. Dentro das horas mais minutos. Dentro dos minutos mais segundos. Uma eternidade.

2012/10/22

Vendaval




Felicidade


Trago ao pescoço um lenço de lã preto, velho, que herdei da minha avó Felicidade. É um dos lenços que ela costumava usar na cabeça. Aconchega-me o peito, esconde o decote. Gosto de o levar ao nariz e procurar, em vão, resquícios mornos do cheiro dela. Toco no lenço e lembro que, durante a adolescência, tive vergonha da minha avó, do seu ar provinciano, do seu lenço de luto, sobretudo, das suas mãos. Mãos de bruxa, mãos em garra, nodosas, ásperas, mãos de terra, de tanto e tanto que passou. Saber-me assim, ainda que num passado distante, é coisa que dói. Queria, na altura, uma avó da Avenida de Roma, igual às das minhas amigas, com cabelos armados pintados de azul e cãezinhos de companhia no regaço. Não queria aquela. Que nunca lera um livro. Nem uma revista. Que não sabia sequer escrever o seu nome. Hoje, não sei porquê, veio-me uma saudade grande dela. Da avó que cantava canções que falavam da lua, das giestas da serra, do alandroal. Da avó que contava histórias de bandidos e animais fabulosos. Da avó que sabia jogar ao jangro, fazer flautas de caninhas, chifres de lenços e bonecas de pano, esguias, muito feias e imperfeitas. 

2012/10/16

Marvin Gaye



(gosto tanto, mas tanto, do Marvin Gaye, adoro-o, tão bonito, uma estampa de homem.)

Kilas e Rita

2012/10/15

Carrossel dos Esquisitos


O rapaz mais feio do meu curso casou com a rapariga mais feia do meu curso. A feiura dos dois é coisa nunca vista. Excessiva num mundo onde a beleza é quem mais ordena. Ele tem a pele muito seca, originada por uma qualquer doença de pele, psoríase provavelmente. Volta e meia, as escamas da sua pele soltam-se e deixam à descoberta manchas de um vermelho intenso e feio. Tem os dentes salientes, a fazer lembrar um coelho gigante. Uma pessoa olha para ele e espera, a qualquer momento, vê-lo cobrir-se de uma pelagem cinzenta e desatar a saltitar, frenético, em busca de um prado verdinho. É juiz. Há alguns anos, apanhei-o numa comarca do interior, muitíssimo sério, feioso dentro da sua beca, cheia de cordões e pregas, a ditar despachos com uma voz fanhosa. Quis atirar-me à cara a superioridade da sua casta. Deixei-o. Uma coisa é ser magistrado. Outra é ser jurista de um instituto público.

Ela, a rapariga mais feia do meu curso, sempre foi velha. Já o era na faculdade. Usava saias por cima do joelho e calças vincadas. Tinha olhos pequeninos, a pele baça, o cabelo oleoso colado ao rosto, sem vida, sem volume. Alta, movimentava-se com lentidão como se o corpo lhe pesasse em demasia. Tinha, e tem, uns enormes pés voltados para fora, as ancas largas, muito robustas, a maternidade entranhada nos ossos das bacia. Deve ter seguido o notariado. Assentos, certidões, averbamentos, procurações, testamentos, tudo ela há-de tratar com eficiência e sisudez, disfarçando o fastio que o cheiro a papel velho lhe provoca. Eram ambos alunos aplicados. Não faltavam às aulas, não frequentavam o bar, não fumavam, não bebiam, tinham notas medianas. Eu desprezava-os porque eles simbolizavam tudo o que eu não queria da vida: ordem, conformismo, rotina, previsibilidade.

Ultimamente, andava eu já tão esquecida dos tristes anos em que andei na faculdade de direito, voltei a cruzar-me com eles. Devem viver no meu bairro. Encontro-os no talho a pedir carne picada para fazer almôndegas e na mercearia a comprar duzentos gramas de fiambre de peru. Andam sempre juntos, de mãos dadas. Ele olha-a com amor. Ela deixa-se envolver pelo amor dele que é como uma gaze diáfana, muito leve e delicada. São, de uma forma quase escabrosa, felizes por se terem. Olho-os com uma pontinha de emoção e muita vontade de chorar.

2012/10/12

Filhos

O Joaquim perguntou-me ao jantar se eu era marinheira. A Madalena pediu-me para ensiná-la a arrotar e eu ensinei. O João anda longe, cheio de pêlos a nascer-lhe por todo o lado, e custa-me tanto. 

Azeite


1ª parte
O homem abre o armário. Tira uma garrafa de vidro escuro. Explica: é preciso que compreendas a divindade deste líquido, sagrado como o chão de um cemitério; cheira a aloés, agaves, zambujos, alperceiros e laranjais, recorda a rigidez láctea das rochas calcárias, nele se aninha o sopro do oceano e a doce barbárie das figueiras da índia; tem moléculas antigas, leves e aristocratas, também polifenóis, tocoferóis e carotenos, andam à solta, em carnavais de concertina e gaita de beiço, dão-lhe um travo picante, acidez que mal se nota.

2ª parte
A mulher pensa: tudo o que é divino é aborrecido e a maja desnuda continua, em estático convite, pendurada no prado, já nada acontece quando por ela passo; morri há muito tempo, mas esqueci-me de me levar a enterrar, mesmo morta deixo entrar filetes de lava, gumes de faca, às vezes, touros solitários que resfolegam uma bravura que cheira a urina. Entram e saem. Saem e entram. O movimento é perpétuo, nunca termina. Deixa marcas de ripos e malhos. Esgaça-me os panais.

3º parte
A mulher pega na garrafa. Olha-a. O homem acredita, por breves instantes, que comunga da divina unção, falará talvez da purificação dos leprosos, dos votos dos nazireus, de açafates de coscorões de ázimo e obreias de mel. A mulher deixa cair a garrafa. Caminha sobre os vidros. Sabes, explica, por fim, sou parecida com este líquido, livraram-me do ranço, rasparam-me o verdete, mas fico sempre a boiar na bordadura dos corpos.