Acontece sempre o mesmo: procuro no manto da virgem a cabeça do abutre e, nos olhos do menino, a maldade inicial.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2013/11/17
2013/10/21
Funeral
Chove. A viúva mantém-se imperturbável, rosto sem lágrimas,
o corpo rijo como se fosse feito de pedra. Essa imobilidade, que soa um pouco a
afectação, apenas é quebrada pelos puxões que dá ao filho. Presa pela mão, com
uma lagarta de ranho a escorrer do nariz, a criança insiste em querer subir ao
monte de terra que cobrirá o caixão. Familiares e amigos mantêm-se silenciosos,
hirtos, o mesmo semblante inexpressivo, a mesma serenidade. Só uma velhinha,
que mastiga o vazio, soluça abertamente. Quando o coveiro começa a largar
pazadas de terra sobre o caixão, talvez incomodada pela contenção geral,
leva as mãos ao peito e exclama “coitadinho do meu vizinho!”. A viúva não
desvia o olhar, não se mexe. Dá apenas um novo puxão ao filho. O menino sorve o
ranho e choraminga.
O coveiro vai compondo desajeitadamente as coroas de flores.
Recordo o morto. Namorámos durante algum tempo, pouco depois do meu divórcio. Um
homem amável, de conversa fácil, incapaz, porém, de partilhar um pensamento
íntimo. Só uma vez, num dia igual ao de hoje, escuro, denso, chuvoso, me
revelou o seu mundo interior. Descíamos a Rua da Madalena em direcção à Baixa
quando parou a olhar uma varanda de vasos floridos. Como se fosse a coisa mais
natural do mundo, explicou que a morte não o assustava. O que o assustava era a
morte depois da morte, o esquecimento dos outros, sofria com a
possibilidade de ninguém recordar os seus gestos, o tom da sua voz, os principais
traços do seu carácter, sobretudo, as suas opiniões. Contou ainda que o pai morrera novo e a lembrança da mãe ajeitando as jarras da campa com flores frescas, beijando o nome incrustado na lápide, era a mais bela que guardava da infância. Como
que surpreendido com a sua confissão, ficou por instantes em silêncio, depois continuou a caminhar.
Esqueço essa estranha conversa. Volto a fixar o vulto da
viúva. Conheço-a vagamente. É bonita, inteligente, emancipada. Imagino que, ao
contrário de mim, não encontre satisfação na simples ostentação do seu corpo.
Tenho a certeza de que não voltará a entrar no cemitério. Cuidar dos mortos
deve parecer-lhe uma mania de gente ignorante, uma tradição obsoleta, até estúpida.
A ideia da campa degradando-se lentamente, enchendo-se de estrelas de bolor
preto, entristece-me. Uma rajada de vento forte desequilibra-me e faz-me pisar
uma poça de lama. Enquanto raspo o salto do sapato ao bordo de um aviso
camarário, tomo uma decisão: não pude cuidar do João vivo, cuidarei dele
morto.
2013/10/15
Despique
A Dina trabalha há muitos anos no minimercado que fica
nas traseiras do meu prédio. No início do ano lançou um romance e partilhou o
acontecimento com os clientes habituais. Caí na tentação de lhe confessar que
também andava a escrever um livro. Expliquei-lhe ainda que, se corresse tudo
bem, o livro sairia em Setembro. Desde então temos conversas muito
interessantes sobre o processo de criação literária. Acontece que, por cansaço,
também falta de talento, o meu livro não saiu em Setembro. A Dina, cada vez que
me apanha, insiste em querer saber quando é que será publicado. Respondo-lhe evasivamente,
às vezes, finjo-me distraída e não digo nada. Há coisa de quinze dias,
contou-me que escreveu um segundo romance. Sairá em Novembro. Dei-lhe os
parabéns, forçando um sorriso amarelo. Enquanto ensacava as compras, notei-lhe
um brilho de vaidade no olhar, como se me dissesse assim, toma lá, não
consegues acabar o teu livro e eu já despachei dois. Senti-me magoada. Não
mereço o despique e até lhe trouxe uma lembrança de Goa.
Ontem, numa grande livraria, procurei o livro da Dina.
Encontrei-o com facilidade na bancada dos livros coloridos. Tem uma capa cheia
de brilho e traz uma linda cinta a explicar que se trata de uma história de
amor, com um travo picante de erotismo. Li páginas soltas e não tardei a
pensar, muito aliviada, que merda, que grande merda, o que demonstra bem a minha
mesquinhez e não desmerece a escrita da Dina. Li as primeiras cinquenta páginas
do último livro do Coetzee, obra aclamada pela crítica – desconcertante,
assombroso, alegoria não sei do quê -, e pensei exactamente o mesmo, que merda,
que grande merda. Não voltei a entrar no minimercado. Não sou capaz de
enfrentar a alegria da Dina e humilha-me ser confrontada com o meu fracasso. A
decisão, porém, causa-me transtorno. Agora, se preciso de salsa, fiambre, pão,
massa para a canja, tenho de caminhar durante dez minutos até ao grande
supermercado que fica na outra ponta do bairro. Não sou propriamente rancorosa,
mas penso muitas vezes que era bom que a Dina fosse despedida.
Poderia dedicar-se a tempo inteiro à escrita, apurar o estilo, quem sabe até
ganhar um prémio literário. Eu ganhava o minimercado de volta.
2013/10/10
Outubro
Morri no princípio de Outubro. Enterraram-me num cemitério
com vista para a auto-estrada do sul. Passei os primeiros dias entretida,
inteirando-me da minha nova condição, descobrindo como é estar morta. Escutei o
restolhar das folhas dos eucaliptos e pude fazê-lo durante longos minutos,
concentrando-me apenas no ruído das copas, isolando-o do resto do mundo até se
tornar insuportável. Vagueei por alamedas, paralelas e perpendiculares, olhando as campas, lendo inscrições, observando a estatuária: gárgulas, anjos, cristos
lacrimosos, conchas de mãos piedosas. Cheirei as flores frescas das coroas
fúnebres e desfiz com as minhas mãos invisíveis corolas frágeis. No princípio
da noite, quando a escuridão era ainda clara, os portões do cemitério eram
sempre fechados com estrondo. As mulheres vestidas de preto voltavam para os
seus apartamentos de marquises de alumínio e sentavam-se sozinhas em frente do
televisor. Uma quietude insuportável abatia-se sobre o lugar e eu voltava então
ao meu corpo, deitado num caixão de cetim branco. Encaixava perfeitamente nele.
Uma noite, porém, senti desconforto ao voltar a mim. O corpo inchara e eu
sobrava dentro dele. Aninhei-me no canto esquerdo e procurei adormecer. Um
reco-reco pequeno, um barulho persistente, fez-me despertar. Pensei que fossem
térmitas alimentando-se do pinho do caixão. Abri os olhos. Vi duas lagartas
gordas, brancas, cegas, sorrindo-me. Uma das lagartas tinha boca de ventosa e
mordiscava a ponta esquerda do meu coração. Enervei-me. Não vivo sem corpo. Mesmo
morta, preciso dele. Não encontro conforto na imaterialidade, só compreendo o
que é concreto, comum, palpável. Enxotei as lagartas que fugiram como
toupeiras. Decidi partir. Tentei ressuscitar que é a única maneira que conheço
de largar a morte. Não consegui. É muito difícil. É preciso ser deus, filho de
deus, parente de deus, amigo de deus, para o conseguir. Na manhã seguinte,
estava entretida a observar o namoro dos pardais, vi chegar pela alameda os
meus três filhos. Não traziam flores. Vinham com olhos líquidos de abandono.
Nessa noite, deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares
cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse
vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.
2013/10/04
Sala de espera
Tento ignorar
as mulheres com o útero já descaído, concentro-me no livro que o Luís me
emprestou pouco antes de morrer. Mal entro no gabinete percebo que a médica
está tensa. Acelerada, masca uma pastilha elástica e, de tanto o morder, tem o
canto do lábio superior cheio de sangue pisado. Sem sorrir, sem me olhar,
manda-me despir. Abre-me as pernas e, bruscamente, enfia uma sonda vaginal. Que sorte!, explica enquanto olha o
monitor, está limpinha, não precisa de
fazer nenhuma raspagem. Despede-se dizendo que daqui a um mês posso voltar
a engravidar. Saio do gabinete e volto a sentar-me na sala de espera. Não sinto
tristeza, apenas humilhação. Sei que o meu corpo não presta, vive deslassado do
resto, mas, para o suportar, sempre me agarrei à evidência da sua outra eficácia.
Não chego a ser mulher, sou apenas uma fêmea, um útero, uma máquina. É assim que me vejo. É assim que os outros me vêem. Engravidei
quando quis. Tive gravidezes calmas, trabalhei até à véspera do dia do parto.
Gerei crianças sadias, grandes, espertas, risonhas e muito bonitas. Toda a
gente mas gaba. Para mim era tão certo o nascimento deste filho que imaginei as
suas feições, a cor do cabelo, o recorte das mãos. Também pensei em nomes: Ana
ou Álvaro. Aproveitei até os saldos de verão para comprar roupa de grávida,
duas camisolas, uma preta, outra vermelha, um vestido estampado. Tudo muito
justinho e confortável como se quer numa grávida moderna.
Não percebo o
que correu mal desta vez. Aconteceu no domingo. O mais novo, sentado no chão,
entretinha-se com um puzzle. Preparava-me para lhe explicar que várias peças
estavam mal encaixadas quando senti uma cólica violenta. Deixei-o e corri à
casa de banho. Sentei-me na sanita e imediatamente escorreu um coágulo escuro,
morno, do tamanho de uma uva. Soube naquele instante que dentro daquele saco
estava um minúsculo lagarto arroxeado, morto, de mãos de dedos
membranosos, cauda embrionária. Fiquei sem saber o que fazer. Descreio do
aborto como forma de emancipação feminina e muitas vezes penso no destino
desses embriões e fetos expulsos antes do tempo. Que lhes acontece? Devem ser
metidos em grandes sacos de lixo pretos juntamente com rins, massas tumefactas,
mucos, quistos, secreções, escarros, ossos, restos de pele. A possibilidade
desses pequenos monstros serem indistintamente incinerados em fornos de altas temperaturas
impressiona-me. Faz-me muita confusão. Deixei-me ali estar, de pé, a olhar o
coágulo na sanita, sem conseguir descarregar o autoclismo.
Agora, estou
aqui, nesta sala de espera, limpinha, bem limpinha, como explicou a médica dos lábios
trilhados, sem precisar de fazer uma raspagem. Que faço às duas camisolas? Ao vestido
estampado que comprei nos saldos? Aos nomes que escolhi para o pequeno lagarto
assexuado? Ao rosto redondo que lhe imaginei?
2013/10/02
Sufixo
Li o relatório
várias vezes, satisfeita com o resultado final. Gosto de redigir ofícios,
contestações, pareceres, dá-me prazer apurar essa escrita glaciar, objectiva,
sem desperdícios, mas formalmente inspirada. Ao final do dia, corri à chuva,
procurei subidas íngremes, pisei poças de água e lama. Corro porque preciso cansar o corpo, é a única forma de o sentir vivo. Na volta passei
pelo minimercado, comprei broa branca, dióspiros, também morangos a um euro o
quilo. Fui buscar o Joaquim a casa dos meus pais, beijei o cabelo oleoso da tia
Dé, abracei muito a minha mãe, o meu pai pediu-me cuidado com as corridas
tardias. Já em casa, enquanto escolhia alguns livros para o R. levar para
Dunquerque, encontrei A Aldeia de Stepantchikovo e
os Seus Habitantes, o livro mais divertido que li em toda a minha vida. Levei-o para o quarto e deixei-o em cima
da mesinha de cabeceira. Lavei os morangos, arranquei-lhes o pezinho,
enchi quatro grandes taças, polvilhei-as com açúcar e um salpico de água de
rosas tal qual aprendi a fazer num programa de culinária inglês. Os meus filhos espantaram-se quando me viram chegar com as taças dos morangos.
É o nosso jantar, expliquei. O mais pequeno bateu palmas e, com a sua
voz de corneta, exclamou: és a melhor mãezinha do mundo. O amor num sufixo. Já os
deitei, beijei, escutei cada um falar do seu dia. Também já tomei a fluoxetina
e o comprimido cor-de-rosa para dormir. Terei uma noite branca, lisa, sem
sonhos. É isto um bom dia: eu, livre de calamitosos delírios, aceitando a
vida em toda a sua bela tranquilidade, não querendo, não esperando
absolutamente mais nada.
2013/10/01
Andar a pé
“Posso morrer porque amei e
porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de
bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de
teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers,
de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me
importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer
sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York
não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.”
Adília Lopes, Irmã Barata,
Irmã Batata
2013/09/25
Coração
No dia seguinte, a cidade despertou, ignorando a dimensão da
tragédia. Os jovens casais despediram-se com um beijo. Um homem pediu à mulher que
arranjasse beterrabas e repolho no mercado e preparasse um borsch com natas
azedas para o jantar. Uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas
de pepino e pão duro. Dois velhos planearam uma pescaria no rio, num recanto
fresco, perto do bosque de abetos, onde nadavam trutas gordas. Uma mulher
apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu,
sem a saber explicar, a imensa solidão dos espaços vazios. A vida continuou como
se nada fosse, a mancha invisível, porém, já se havia espalhado, entrara nas
casas, penetrara nos solos, procurara o coração dos objectos, dos animais e das
pessoas para aí se instalar.
2013/09/20
Endofalk
A preparação para o exame durou dois dias. Andei a dieta de caldos, carnes magras e pão branco, fiambre de peru, peixes
magros, carapau, faneca e robalo. Nada de legumes, nada de fruta, quatro
saquetas de endofalk diluídas em muita água, três litros para beber, de quinze
em quinze minutos, na véspera. O médico explicou-me com familiaridade: Ana
Clara, se fores muito presa dos intestinos, podes juntar ao endofalk uma colher
de dulcolax. Ele a falar, eu a pensar no canto da sibila, em sefarditas e
aristos. À cautela, não fosse dar-se o caso de não levar a tripa bem limpa e
ter de repetir o exame, segui o conselho: juntei duas colheres de laxante e
espremi meio limão para evitar a agonia de tanta doçura. Enchi um copo de vidro
biselado muito bonito que roubei este verão da casa abandonada. Levei-o à
boca, bebi de trago como faço nas noites em que procuro o sossego de uma
embriaguez rápida. Comecei a preparar o jantar e aumentei o volume do rádio.
Abraçado às minhas pernas, o Joaquim fala de ninhos, ouriços e castanhas, o
mais velho, acelerado no quarto, está nas habituais atrapalhações da adolescência. Tenho um potro e um alazão. A doce menina contempla em silêncio a
travessa do peixe. Sorrio e esqueço-os. Enquanto espero que a água levante
fervura para deitar o arroz, penso no homem de mãos escuras que não me
toca, não me quer. Na sua indiferença e distância reside a justificação do meu
amor. Felizmente o endofalk não tarda a fazer efeito e liberta-me da melancolia.
Empalideço e corro à casa de banho.
2013/09/14
2013/09/12
Fervura
A adolescência trouxe-me uma espécie de fervura ao sangue.
Foi por volta dos vinte anos que desejei morrer pela primeira vez. Contava
lamelas de comprimidos. Pressionava pontas de faca contra os pulsos. Ficava à
beira do passeio a sentir o corpo estremecer à passagem próxima dos autocarros.
Subia ao telhado do prédio com o intuito de me atirar lá de cima. Apesar da
angústia, sinto um conforto esquisito quando recordo esses
instantes desesperados, sobretudo quando me chega a lembrança da beleza extrema
do telhado do prédio dos meus pais. Abria a pequena porta de metal e o ar era
subitamente puro, livre de fuligem cancerígena. Olhava em redor, só via céu, o
alinhamento simétrico das torres de doze andares, a pista do aeroporto ao
longe. Parecia-me que ali, naquela dimensão, mundo inóspito, silencioso,
solidão muito branca, o ar voltava a chegar-me aos pulmões. A pouco e pouco
passava-me a vontade de morrer. Deitava-me no declive de telhas, esverdeado de
líquenes, sentia o vento no rosto, esperava que o tempo passasse.
Pensar na morte tornou-se num vício. Aliviava-me. Fazia
listas de métodos, tentava perceber qual o mais eficaz e menos
doloroso. Todos apresentavam desvantagens e dificuldades. Na queda havia o
instante em que o corpo bate no passeio e o crânio se racha. Cortar os pulsos
trazia o incómodo do sangue empapando as carpetes da sala e a certeza de morrer
lentamente. O enforcamento parecia-me uma morte feia, abrupta, os enforcados
morriam aos soluços, o corpo sacudido pelo estertor final, a língua de fora.
Outra coisa me fazia rejeitar o enforcamento. Sabia que os enforcados perdiam o
controlo do esfíncter e a ideia dos meus pais darem comigo morta, cheia de
urina e fezes, envergonhava-me. Tomar comprimidos era, de longe, o melhor
método, mas havia a possibilidade da falhar a dose, se não tomasse a quantidade
certa corria o risco dos outros encontrarem artificialidade no meu gesto. A
reflexão enfraquecia pois a minha determinação. Queria morrer, mas através de
um gesto que fosse simples como beber um copo de água ou desligar um
interruptor.
Durante a noite, deitada na cama, muitas vezes, pensei que a
solução mais fácil era entregar o assunto a um especialista. Podia simplesmente
contratar alguém para me matar. Havia maridos que contratavam assassinos para
matar as suas mulheres e mulheres que contratavam assassinos para matar
os seus maridos. Por que não havia eu de contratar quem me matasse? Estes
pensamentos extraordinários chegavam geralmente depois de me masturbar a pensar
em prostitutas com grandes mamas e vestidos de lantejoulas. A ideia do
pistoleiro parecia-me boa, mas não tardei a perceber que a morte, encomendada e
eficaz, era um pouco como as prostitutas de vestidos de lantejoulas: um luxo
que não estava ao meu alcance. Não tinha dinheiro para contratar um assassino,
e mesmo que tivesse, não conhecia nenhum. Vivia num bairro de classe média,
pacato, perto de Sacavém. Havia apenas alguns heroinómanos que roubavam
enciclopédias, loiças finas e garrafas das garrafeiras dos pais para assegurar
a dose diária. Tudo era cinzento e deprimente. Encontrar ali um assassino não
era fácil.
Mas, por mais que tentasse livrar-me dos pensamentos
suicidas, a vontade de morrer não me largava. Tornei-me obsessiva, a ideia
era-me tão agradável como sentir a luz da tarde coada pelas cortinas brancas no
quarto da tia Dé ou observar a minha mãe, nas manhãs de sábado, limpando o pó
do grande móvel escuro da sala. Sentia-me naturalmente desadequada, anormal,
adensava-se a minha inquietação: não só me masturbava a pensar em mulheres
prostibulares como sentia esse desejo latente de morte. Muitos anos
passados, habituada à natureza cíclica desse desejo, a minha iniciação no
desespero parece-me caricata. Às vezes, entre soluços e lágrimas, dá-me até
vontade de rir. Tudo bastante dramático, sofrido, estupidamente inconsequente.
Sei agora que, assim como somos pornográficos às escondidas, somos suicidas às
escondidas. A vida tem um punhado de coisas boas, mas não é como se pinta.
Quase sempre é aborrecida, uma desilusão, está cheia de sofrimento,
tristeza, injustiça, ruas sujas e íngremes, crianças com fome, gente silenciosa
e desesperada. Como não achar a vida insuportável? Não tenho dúvidas de
que a morte é desejada por muita gente e constantemente. Se houvesse um método
infalível, fácil, instantâneo, limpo, haveria no mundo uma mortandade grande,
talvez fosse até preciso mandar construir crematórios, valas comuns, investir
na formação de coveiros, técnicos de equipamento de cremação, cangalheiros. Mas
há vinte anos, precisamente há vinte anos, não tinha o discernimento de hoje,
vivia na certeza da minha singularidade. Dava voltas na cama, inquieta. Quanto
mais pensava no assunto mais me convencia de que a morte era o melhor que a
vida tinha para me oferecer.
2013/09/11
2013/09/10
Indicador
Fixo o almoço: sopa de feijão e uma pêra cozida num líquido
licoroso. O jornal está aberto. Finjo ler. Recordo o desenho do meu sobrinho, a
boca do meu irmão, o sonho de domingo interrompido pelo telefonema da Dá.
Distraio-me com pensamentos soltos, lembranças felizes, mas, atrás, correm as imagens
de sempre, latentes, dolorosas. Desejo o vazio, isso e aprender a deslizar o indicador no ecrã de um telefone. Sinto o cheiro da minha transpiração e
noto pêlos escuros nas pernas. Mantenho-as, porém, cruzadas, à vista, para que sejam
observadas na sua triste mornidão pelos homens que esperam na fila. Enquanto
levo a colher à boca observo o rapaz das sopas, há doze anos que o vejo ali, entre
a Rosa e a Fátima, sempre no mesmo aprumo: pega na concha, mete-a na panela, dá
duas ou três voltas para dar corpo ao caldo, trá-la vertical e, com um
rápido movimento do pulso, quase imperceptível, faz verter o líquido na tigela.
Para além de ser excepcionalmente bom naquilo que faz, o João é gentil, doce.
Imagino-o a viver com uma avó, os dois, felizes por se terem, a
observar a cintilação do televisor. É isto a minha vida. Almoçar sozinha, imaginar
as noites do rapaz que serve sopas e mostrar as pernas aos homens que aguardam na
fila do refeitório.
2013/09/05
Filha
Pergunto “Nunca sentes vontade de maltratar os mais fracos,
os miúdos doentes, aleijados, aqueles que são infelizes ou simplesmente parecem
infelizes?”. Diz que não e deixa cair a cabeça no meu colo. “Não acontece
sempre, mas, por vezes, tenho vontade de gritar com a mulher que pede à saída
no metro e, hoje, durante a hora de almoço, senti vontade de pontapear
uma criança. Maltratar os fracos sabe sempre bem.”, explico com vagar e cheiro-lhe
o cabelo.
Anão
Os poetas, antes de tudo, celebram o amor, e têm
razão, porque nada como o amor precisa tanto de ser transformado naquilo que
não é. As mulheres tornam-se então melancólicas, enche-se-lhes de suspiros o
peito, e os homens ganham um ar sonhador, pois todos percebem imediatamente que
um poema que desfigura a tal ponto a realidade deve ser particularmente belo.
O Anão, Pär Lagerkvist
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