Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2014/03/31
Pensão Gerês (4)
Ficamos na mesma posição durante
algum tempo, encaixados. Conversamos.
- Ainda gostas do Caetano Veloso?
- Já não, acho mesmo que não o
suporto.
- E do Chico Buarque?
- Oh, isso é amor para a vida
inteira...
Pouco falta para as seis. Não
tarda nada, o meu filho estará à minha espera no portão da escola, o rosto
redondo, muito bonito, parecido com o pai, os bolsos cheios de pedras e folhas
para mim. Tomo banho rapidamente, visto-me, pinto os lábios, ajeito o cabelo. Abro
as janelas. Em frente há um prédio pombalino abandonado, fuligem e cacos por
toda a parte, as ervas crescem no telhado e nas varandas. Os azulejos que
cobrem as paredes têm uma cor extraordinária. Um verde de bosque, misterioso,
profundo, húmido. O Alexandre chega pouco depois da casa de banho. Ao beijar-me
no pescoço sinto novamente o seu cheiro.
-Costumas reparar na beleza das
coisas?
- O quê?
- Se costumas reparar na beleza
das coisas?
- Sim, claro.
A resposta é de tal forma imediata
e mecânica que desconfio. É muito difícil encontrar quem repare na beleza das
coisas. Ele fixa o olhar numa das varandas do prédio abandonado. “Quem terá brincado com aquela bola?”,
pergunta e aponta para uma velha bola de futebol esquecida entre as ruínas. Olho-o
e, nesse instante, percebo por que razão nos encontramos assim, há já
tantos anos, intermitentemente, em quartos de pensões, sem querer nada um do
outro, sem desejarmos fazer parte da vida do outro. Descemos à rua. O Alexandre
fica na entrada do prédio à espera que a chuva passe. Corro para a paragem de táxis.
Tenho de estar às seis horas no portão da escola.
2014/03/30
Pensão Gerês (3)
Conheço o seu cheiro, um cheiro autêntico, de cabedal, de
pele curtida. O seu toque é lento, contido, certeiro. Certa vez, no
jardim da Feira da Ladra, pegou na minha mão e beijou-a. Um beijo discreto, mas sensual. Nesse instante, senti uma vertigem, tornei-me líquida, desejei
intimamente que me tomasse ali, num banco de jardim, à vista dos velhos que
jogavam à sueca. Atravesso-me agora na cama, deito a cabeça sobre a virilha esquerda do
Alexandre. Sinto o seu sexo pousado sobre o meu rosto. Dá-me pancadinhas ligeiras.
Penso: “Aqui estou, num quarto de pensão,
com duas grandes janelas a dar para o casario da Baixa, deitada com o homem que
me beijou a mão no jardim da Feira da Ladra”. Olho novamente o pénis. Pulsa
como se tivesse vida própria. Cheiro-o, humedeço as pontas dos dedos com saliva
e toco a glande, macia, frágil. Desço a mão pelo frisado do prepúcio recolhido,
agarro o fuste. Sinto um pulsar de bomba. Inclino-me, enfio por fim a ponta da
minha língua no meato. Sabe a sal e os nervos das comissuras parecem linhas
repuxadas. Encho a boca. Pouco depois, amarinho pelo corpo do Alexandre. Sopro-lhe
uma frase ao ouvido e viro-me de costas.
-Nunca quiseste fazer assim…
- Experimentei há pouco tempo e gostei.
O Alexandre entra
tranquilamente dentro de mim, percebo que se esforça para não me magoar. Ficamos
deitados, um sobre o outro, mal nos mexendo. “Desconcertas-me, Ana, excitas-me, se me mexo venho-me”. A sua mão
procura-me entre as coxas, no emaranhado dos meus pêlos muito negros e ásperos.
Começo a gritar. Não sei porque o faço. É a primeira vez que grito na cama. E se
a mulher da farda puída bater à porta? Uma vez, na feira de Grândola, ao andar
no Twister Gigante, também gritei assim. Sinto vergonha por estar aos gritos, mas
não os consigo controlar. O Alexandre continua a tocar-me. Tenho um orgasmo bom, muito diferente do que é habitual.
2014/03/29
Pensão Gerês (2)
“Ali”, digo pouco depois e aponto para um prédio que fica na esquina da Rua Barros Queirós. Na varanda do terceiro andar, uma placa antiga anuncia “Pensão Gerês”. Caminhamos, apressados. Ainda assim, sou capaz de me dar conta das movimentações dos africanos no adro da Igreja de São Domingos. Há homens ociosos que mantêm a alegria da conversação, falam ruidosamente, gesticulam, as palmas das suas mãos são cor-de-rosa clarinho, quase brancas, mas os olhos, de tão raiados de sangue, assustam-me. Duas mulheres, de turbantes coloridos, pés enfiados em chinelos de corda, estão sentadas num banco de pedra. Vendem malaguetas verdes, quiabos e uns pequenos frutos alaranjados que não conheço. A entrada do prédio da pensão cheira a humidade, bolores, madeiras bafientas. Por cima das velhas caixas do correio, pequenas placas identificam os inquilinos: um advogado, um técnico oficial de contas, uma esteticista, dois osteopatas e um astrólogo. Subimos ao terceiro andar e tocamos à campainha. Uma mulher velha abre a porta. Usa chinelos ortopédicos e uma bata azul muito puída da gola. Parece espantada com a nossa chegada e, quando ri, mostra os dentes da frente cheios de sarro amarelo. Não se vê mais ninguém, não se escuta um ruído. A pensão parece deserta, parada no tempo, como se há muitos anos ali não entrasse ninguém. A mulher caminha devagar por um corredor estreito até chegar a um pequeno balcão de madeira escura. Em cima de uma mesa de encosto com formato de meia-lua vê-se um escaparate com folhetos turísticos e um arranjo de flores artificiais desbotadas pelo tempo. Quer saber quantas noites vamos ficar. “Ficamos uma noite e pagamos já”, esclareço. A mulher guarda o dinheiro numa gaveta que fecha à chave e leva-nos por um segundo corredor ainda mais escuro. As paredes estão cobertas até meio por azulejos que formam um padrão de formas geométricas e, apesar da penumbra, os candeeiros, de vidro fosco, estão apagados. Tudo é silencioso e sombrio, mas, subitamente, a mulher abre uma porta e faz-nos entrar num quarto limpo, amplo, arejado, cheio de luz. Há um roupeiro de espelho oval entre duas janelas, a cama é grande e está coberta com uma colcha azul clara, de cadilhos brancos. A luminosidade faz-me piscar os olhos. O Alexandre fecha a porta e começa a despir-me.
2014/03/07
Pensão Gerês (1)
A Pensão Imperial já não existe. Agora é um hostel com ares de modernice, mobilado com caixotes do ikea, tapetes de cores neutras, molduras garridas com reproduções dos borrões do Adolph Gottlieb nas paredes. Já não há passadeiras de linóleo nos corredores, nem vasos de cóleos murchos aos cantos, o rapaz dos óculos muito graduados desapareceu. A cozinha, que funcionava como recepção, é agora um espaço estranho, não sei muito bem o que é, parece uma sala de laboratório, as paredes estão revestidas de azulejos verdes e, em cima das bancadas altas, há portáteis e seus sucedâneos. Uma rapariga, feiosa, com ar tristonho, cabelo ruivo mal cortado, consulta o facebook ao mesmo tempo que fala ao telefone. Pergunto ao gerente pela antiga dona. O homem, de barba muito cerrada e cabelo despenteado, roda os olhos na minha direcção, depois volta a pousá-los no ecrã de um computador. Parece aborrecido com a pergunta que lhe faço. “Já estava muito cansada”, acaba por dizer, “quis desfazer-se do negócio, ficámos nós com isto”. E cala-se sem dar mais explicações. Pelo olhar displicente, pelo encolher de ombros, consigo escutar para lá das palavras que lhe saem da boca. Diz assim: “Limpámos o lixo, não há um único vestígio da velha, pode olhar à vontade, não encontrará animais de loiça, cães, raposas, galos, não encontrará fruteiras de plástico nem naperões de linha em cima das mesas”. Olho em volta, toda aquela modernidade me entristece. “Já não gosto deste sítio”, explico ao Alexandre e descemos à rua. Continua a chover. Precisamos de encontrar rapidamente uma alternativa, já não temos muito tempo, às seis horas o meu filho espera-me no portão da escola.
2014/03/04
Dezembro
A minha mãe sofre de depressão crónica. Eu também. Pouco antes de ela regressar a Goa, senti-me bastante em baixo, sem vontade de fazer nada, sem vontade de estar com ninguém. Dezembro foi um mês terrível. Passei dias inteiros na cama. Pouco comi. Não atendi o telefone. Entreguei os meus filhos aos cuidados da Graça. Deixei de ler, de correr, de escrever. Até de tomar banho e de lavar os dentes. Cheguei a pedir ao psiquiatra que me internasse. Ele fingiu não me ouvir e aumentou-me a medicação. Um dia, porém, consegui levantar-me da cama, vestir-me e arrastar-me até ao trabalho. Ao fim da manhã, olhando em volta, senti uma vontade urgente de chorar. É-me muito difícil aguentar o choro. Querer chorar e não o poder fazer é uma autêntica tortura. Ainda pensei em ir para a casa de banho, trancar-me no cubículo pequeno, sentar-me na retrete, fixar o recipiente dos pensos higiénicos, chorar com a cabeça encostada à parede de azulejos esverdeados. Porém, temi que a minha aflição não desaparecesse com um choro silencioso. Sempre que pressinto um choro incontido, muito aflito, corro à igreja de Nossa Senhora de Fátima, sento-me ao lado do altar a Nossa Senhora do Carmo, fixo os noventa anjos e choro na sua companhia. Mas, nesse dia, sentia-me tão em baixo, tão suja, tão incrivelmente miserável e cansada, que temi não conseguir caminhar até à igreja. Aguentei o choro durante mais alguns momentos, mas, assim que as lágrimas me embaciaram o olhar, desci à rua e apanhei um táxi. Comecei a chorar, encolhida no banco. O condutor do táxi, um homem jovem de rosto grosseiro, atrapalhou-se, “A senhora acalme-se, não chore, tem aqui um lenço!” foi dizendo enquanto me espiava pelo espelho retrovisor. Mal cheguei a casa dos meus pais, entrei no quarto da minha tia para que o Joaquim não se desse conta da minha chegada. A minha mãe rapidamente se apercebeu do meu desespero. “Não aguento”- fui-lhe dizendo numa aceleração de palavras – “Tenho medo de ficar sozinha, tu vais para Goa, o Reinaldo volta para França, eu fico sozinha com os miúdos e isso assusta-me, aterroriza-me”. Mergulhada nessa tristeza tão sombria, senti-me pela primeira vez na vida incapaz de tomar conta dos meus filhos. Chorei durante muito tempo, aos soluços, nos braços da minha mãe. Pedi-lhe que me abraçasse com muita força e ela abraçou-me. Gosto dos abraços que estrangulam. Continuei a falar no tom delirante que às vezes me chega. “Sabes, mãe, o meu pensamento foge sempre para aqueles pensamentos, faço um esforço, juro que faço, mas não consigo libertar-me”. A minha mãe escutou-me em silêncio. Por fim, explicou-me que por vezes também pensava em acabar com tudo, mas guardava sempre para si tais pensamentos sombrios, nunca os partilhava. As suas palavras desconcertaram-me, nelas encontrei a revelação da dimensão da sua tristeza, mas também uma subtil crítica, era como se me acusasse de imaturidade, como se me aconselhasse a sofrer calada, sobretudo a nunca incomodar os outros com a minha angústia. Recuperei a calma. Deixei de chorar.
2014/03/01
Alívio
Pela manhã, ao
pequeno-almoço, li um conto da Katherine Mansfield. Nas primeiras páginas, a
escritora neozelandeza descreve o alívio que as mulheres de uma família inglesa
sentem quando Stanley, marido, cunhado, pai, filho, sai de manhã. Stanley parte
para o trabalho, leva o chapéu de feltro posto e a bengala que custou a
encontrar, Beryl, Linda, a velha Mrs. Fairfield, as crianças, Kezia, Isabel,
Lottie, ficam sozinhas. A casa volta a ser um lugar doce, tranquilo, feminino: as
mulheres aproveitam o fresco do jardim, notam os detalhes do mundo, tomam
banhos de mar, gozam o prazer de falar sem ter ninguém a perturbá-las. Até
Alice, a empregada, é atingida por essa inconveniente felicidade, lava a loiça na
cozinha, despreocupadamente, estouvadamente, desperdiçando água. “ Já foi? Já! Oh, que alívio, como as coisas
ficavam diferentes com o homem fora de casa. Até as próprias vozes pareciam
mudadas, quando se chamavam umas às outras; soavam quentes e cheias de ternura,
como se estivessem a partilhar um segredo”. Li este parágrafo, pela manhã,
no refeitório, e senti-me plena, estupidamente feliz. À noite, na cozinha, enquanto
picava alhos para temperar bifes e observava a torneira do esquentador (pinga
há mais de quinze dias, um pingue-pingue contínuo e silencioso), pensei
novamente no conto da Katherine Mansfield. De imediato, me aflorou ao espírito
o alívio que a minha mãe sente quando o meu pai parte sozinho para Goa. Os seus
olhos ganham brilho, às vezes, surpreendo-a a cantar pelos cantos da casa. Parece
uma outra mulher, alegre, tranquila. A minha mãe desfruta, com discrição, dessa
calma, mas, um dia, no quarto da tia Dé, depois de trocar a fralda ao João, levantou
os olhos e perguntou-me “Mas por que é
que eu me sinto tão bem quando o teu pai não está cá?” Logo a seguir, como
se temesse a sinceridade da minha resposta, baixou os olhos e começou a rir-se
nas momices do neto mais novo. A minha mãe não o confessa abertamente, mas,
pela alegria das conversas, pelo brilho dos seus olhos, é evidente que se sente
menos tensa quando o meu pai não está. Parece libertar-se de qualquer coisa que
a sufoca lentamente. No entanto, passado algum tempo, como se se sentisse
intimamente culpada por esse bem-estar, começa a insistir que tem de ir para
Goa. “Tenho de ir ter com o vosso pai”,
explica, “Não tem ninguém que trate dele,
a Ligorina só cozinha aquelas comidas condimentados que lhe fazem mal à pancreatite”.
É um discurso forçado, mas adequado à sua condição de mulher de setenta anos. Mete-se
sozinha no avião e vai ao encontro do meu pai. Fica por lá três, quatro meses. É
um tempo de profunda agonia e solidão. O meu pai ama a minha mãe, tem por ela um
amor antigo, comovente, mas isso não significa que cuide dela, que a abrace,
que lhe preste atenção. Passa os dias em bancos, repartições, conservatórias, serviços.
A minha mãe nunca o acompanha nessas andanças, fica na casa de Maina, sem ter ninguém
que a leve a Margão ou a Pangim. Penso nela muitas vezes. Como ocupará o tempo dessas
longas horas de solidão? De manhã, desce ao jardim, entretém-se a regar
as árvores de fruta e a apanhar folhas secas das roseiras. Pela tarde, senta-se no alpendre a ouvir as conversas da Fátima, indolente, preguiçosa, e
da tia Maria, má, feia, o olho cego de víbora sempre a largar uma aguadilha ramelosa.
Se lhe falta alguma mercearia, vai até à pequena loja que fica junto da igreja.
Volta a casa com um pequeno saco de plástico nas mãos, leva o corpo pesado do
calor, os seus chinelos pisam as vagens de tamarindo que cobrem a vereda do portão.
Arruma as compras no armário da cozinha, enfrenta novamente o silêncio. Às
vezes, a solidão da minha mãe torna-se incomportável. Telefona, choraminga, diz
não aguentar as saudades dos filhos, dos netos, da irmã. Desafio-a a meter-se
no avião e a voltar para perto de nós. A reacção da minha mãe é sempre igual. Emudece
o choro e, num tom firme, quase irritado, responde-me: “O meu lugar é ao lado
do teu pai”.
2013/11/17
2013/10/21
Funeral
Chove. A viúva mantém-se imperturbável, rosto sem lágrimas,
o corpo rijo como se fosse feito de pedra. Essa imobilidade, que soa um pouco a
afectação, apenas é quebrada pelos puxões que dá ao filho. Presa pela mão, com
uma lagarta de ranho a escorrer do nariz, a criança insiste em querer subir ao
monte de terra que cobrirá o caixão. Familiares e amigos mantêm-se silenciosos,
hirtos, o mesmo semblante inexpressivo, a mesma serenidade. Só uma velhinha,
que mastiga o vazio, soluça abertamente. Quando o coveiro começa a largar
pazadas de terra sobre o caixão, talvez incomodada pela contenção geral,
leva as mãos ao peito e exclama “coitadinho do meu vizinho!”. A viúva não
desvia o olhar, não se mexe. Dá apenas um novo puxão ao filho. O menino sorve o
ranho e choraminga.
O coveiro vai compondo desajeitadamente as coroas de flores.
Recordo o morto. Namorámos durante algum tempo, pouco depois do meu divórcio. Um
homem amável, de conversa fácil, incapaz, porém, de partilhar um pensamento
íntimo. Só uma vez, num dia igual ao de hoje, escuro, denso, chuvoso, me
revelou o seu mundo interior. Descíamos a Rua da Madalena em direcção à Baixa
quando parou a olhar uma varanda de vasos floridos. Como se fosse a coisa mais
natural do mundo, explicou que a morte não o assustava. O que o assustava era a
morte depois da morte, o esquecimento dos outros, sofria com a
possibilidade de ninguém recordar os seus gestos, o tom da sua voz, os principais
traços do seu carácter, sobretudo, as suas opiniões. Contou ainda que o pai morrera novo e a lembrança da mãe ajeitando as jarras da campa com flores frescas, beijando o nome incrustado na lápide, era a mais bela que guardava da infância. Como
que surpreendido com a sua confissão, ficou por instantes em silêncio, depois continuou a caminhar.
Esqueço essa estranha conversa. Volto a fixar o vulto da
viúva. Conheço-a vagamente. É bonita, inteligente, emancipada. Imagino que, ao
contrário de mim, não encontre satisfação na simples ostentação do seu corpo.
Tenho a certeza de que não voltará a entrar no cemitério. Cuidar dos mortos
deve parecer-lhe uma mania de gente ignorante, uma tradição obsoleta, até estúpida.
A ideia da campa degradando-se lentamente, enchendo-se de estrelas de bolor
preto, entristece-me. Uma rajada de vento forte desequilibra-me e faz-me pisar
uma poça de lama. Enquanto raspo o salto do sapato ao bordo de um aviso
camarário, tomo uma decisão: não pude cuidar do João vivo, cuidarei dele
morto.
2013/10/15
Despique
A Dina trabalha há muitos anos no minimercado que fica
nas traseiras do meu prédio. No início do ano lançou um romance e partilhou o
acontecimento com os clientes habituais. Caí na tentação de lhe confessar que
também andava a escrever um livro. Expliquei-lhe ainda que, se corresse tudo
bem, o livro sairia em Setembro. Desde então temos conversas muito
interessantes sobre o processo de criação literária. Acontece que, por cansaço,
também falta de talento, o meu livro não saiu em Setembro. A Dina, cada vez que
me apanha, insiste em querer saber quando é que será publicado. Respondo-lhe evasivamente,
às vezes, finjo-me distraída e não digo nada. Há coisa de quinze dias,
contou-me que escreveu um segundo romance. Sairá em Novembro. Dei-lhe os
parabéns, forçando um sorriso amarelo. Enquanto ensacava as compras, notei-lhe
um brilho de vaidade no olhar, como se me dissesse assim, toma lá, não
consegues acabar o teu livro e eu já despachei dois. Senti-me magoada. Não
mereço o despique e até lhe trouxe uma lembrança de Goa.
Ontem, numa grande livraria, procurei o livro da Dina.
Encontrei-o com facilidade na bancada dos livros coloridos. Tem uma capa cheia
de brilho e traz uma linda cinta a explicar que se trata de uma história de
amor, com um travo picante de erotismo. Li páginas soltas e não tardei a
pensar, muito aliviada, que merda, que grande merda, o que demonstra bem a minha
mesquinhez e não desmerece a escrita da Dina. Li as primeiras cinquenta páginas
do último livro do Coetzee, obra aclamada pela crítica – desconcertante,
assombroso, alegoria não sei do quê -, e pensei exactamente o mesmo, que merda,
que grande merda. Não voltei a entrar no minimercado. Não sou capaz de
enfrentar a alegria da Dina e humilha-me ser confrontada com o meu fracasso. A
decisão, porém, causa-me transtorno. Agora, se preciso de salsa, fiambre, pão,
massa para a canja, tenho de caminhar durante dez minutos até ao grande
supermercado que fica na outra ponta do bairro. Não sou propriamente rancorosa,
mas penso muitas vezes que era bom que a Dina fosse despedida.
Poderia dedicar-se a tempo inteiro à escrita, apurar o estilo, quem sabe até
ganhar um prémio literário. Eu ganhava o minimercado de volta.
2013/10/10
Outubro
Morri no princípio de Outubro. Enterraram-me num cemitério
com vista para a auto-estrada do sul. Passei os primeiros dias entretida,
inteirando-me da minha nova condição, descobrindo como é estar morta. Escutei o
restolhar das folhas dos eucaliptos e pude fazê-lo durante longos minutos,
concentrando-me apenas no ruído das copas, isolando-o do resto do mundo até se
tornar insuportável. Vagueei por alamedas, paralelas e perpendiculares, olhando as campas, lendo inscrições, observando a estatuária: gárgulas, anjos, cristos
lacrimosos, conchas de mãos piedosas. Cheirei as flores frescas das coroas
fúnebres e desfiz com as minhas mãos invisíveis corolas frágeis. No princípio
da noite, quando a escuridão era ainda clara, os portões do cemitério eram
sempre fechados com estrondo. As mulheres vestidas de preto voltavam para os
seus apartamentos de marquises de alumínio e sentavam-se sozinhas em frente do
televisor. Uma quietude insuportável abatia-se sobre o lugar e eu voltava então
ao meu corpo, deitado num caixão de cetim branco. Encaixava perfeitamente nele.
Uma noite, porém, senti desconforto ao voltar a mim. O corpo inchara e eu
sobrava dentro dele. Aninhei-me no canto esquerdo e procurei adormecer. Um
reco-reco pequeno, um barulho persistente, fez-me despertar. Pensei que fossem
térmitas alimentando-se do pinho do caixão. Abri os olhos. Vi duas lagartas
gordas, brancas, cegas, sorrindo-me. Uma das lagartas tinha boca de ventosa e
mordiscava a ponta esquerda do meu coração. Enervei-me. Não vivo sem corpo. Mesmo
morta, preciso dele. Não encontro conforto na imaterialidade, só compreendo o
que é concreto, comum, palpável. Enxotei as lagartas que fugiram como
toupeiras. Decidi partir. Tentei ressuscitar que é a única maneira que conheço
de largar a morte. Não consegui. É muito difícil. É preciso ser deus, filho de
deus, parente de deus, amigo de deus, para o conseguir. Na manhã seguinte,
estava entretida a observar o namoro dos pardais, vi chegar pela alameda os
meus três filhos. Não traziam flores. Vinham com olhos líquidos de abandono.
Nessa noite, deitei-me nas ruínas do meu corpo, era já só ossos, os malares
cavados, a carne ressequida. Ventava na arcada das costelas e o ruído desse
vento perpétuo não me deixou adormecer. A morte pesou-me mais do que a vida.
2013/10/04
Sala de espera
Tento ignorar
as mulheres com o útero já descaído, concentro-me no livro que o Luís me
emprestou pouco antes de morrer. Mal entro no gabinete percebo que a médica
está tensa. Acelerada, masca uma pastilha elástica e, de tanto o morder, tem o
canto do lábio superior cheio de sangue pisado. Sem sorrir, sem me olhar,
manda-me despir. Abre-me as pernas e, bruscamente, enfia uma sonda vaginal. Que sorte!, explica enquanto olha o
monitor, está limpinha, não precisa de
fazer nenhuma raspagem. Despede-se dizendo que daqui a um mês posso voltar
a engravidar. Saio do gabinete e volto a sentar-me na sala de espera. Não sinto
tristeza, apenas humilhação. Sei que o meu corpo não presta, vive deslassado do
resto, mas, para o suportar, sempre me agarrei à evidência da sua outra eficácia.
Não chego a ser mulher, sou apenas uma fêmea, um útero, uma máquina. É assim que me vejo. É assim que os outros me vêem. Engravidei
quando quis. Tive gravidezes calmas, trabalhei até à véspera do dia do parto.
Gerei crianças sadias, grandes, espertas, risonhas e muito bonitas. Toda a
gente mas gaba. Para mim era tão certo o nascimento deste filho que imaginei as
suas feições, a cor do cabelo, o recorte das mãos. Também pensei em nomes: Ana
ou Álvaro. Aproveitei até os saldos de verão para comprar roupa de grávida,
duas camisolas, uma preta, outra vermelha, um vestido estampado. Tudo muito
justinho e confortável como se quer numa grávida moderna.
Não percebo o
que correu mal desta vez. Aconteceu no domingo. O mais novo, sentado no chão,
entretinha-se com um puzzle. Preparava-me para lhe explicar que várias peças
estavam mal encaixadas quando senti uma cólica violenta. Deixei-o e corri à
casa de banho. Sentei-me na sanita e imediatamente escorreu um coágulo escuro,
morno, do tamanho de uma uva. Soube naquele instante que dentro daquele saco
estava um minúsculo lagarto arroxeado, morto, de mãos de dedos
membranosos, cauda embrionária. Fiquei sem saber o que fazer. Descreio do
aborto como forma de emancipação feminina e muitas vezes penso no destino
desses embriões e fetos expulsos antes do tempo. Que lhes acontece? Devem ser
metidos em grandes sacos de lixo pretos juntamente com rins, massas tumefactas,
mucos, quistos, secreções, escarros, ossos, restos de pele. A possibilidade
desses pequenos monstros serem indistintamente incinerados em fornos de altas temperaturas
impressiona-me. Faz-me muita confusão. Deixei-me ali estar, de pé, a olhar o
coágulo na sanita, sem conseguir descarregar o autoclismo.
Agora, estou
aqui, nesta sala de espera, limpinha, bem limpinha, como explicou a médica dos lábios
trilhados, sem precisar de fazer uma raspagem. Que faço às duas camisolas? Ao vestido
estampado que comprei nos saldos? Aos nomes que escolhi para o pequeno lagarto
assexuado? Ao rosto redondo que lhe imaginei?
2013/10/02
Sufixo
Li o relatório
várias vezes, satisfeita com o resultado final. Gosto de redigir ofícios,
contestações, pareceres, dá-me prazer apurar essa escrita glaciar, objectiva,
sem desperdícios, mas formalmente inspirada. Ao final do dia, corri à chuva,
procurei subidas íngremes, pisei poças de água e lama. Corro porque preciso cansar o corpo, é a única forma de o sentir vivo. Na volta passei
pelo minimercado, comprei broa branca, dióspiros, também morangos a um euro o
quilo. Fui buscar o Joaquim a casa dos meus pais, beijei o cabelo oleoso da tia
Dé, abracei muito a minha mãe, o meu pai pediu-me cuidado com as corridas
tardias. Já em casa, enquanto escolhia alguns livros para o R. levar para
Dunquerque, encontrei A Aldeia de Stepantchikovo e
os Seus Habitantes, o livro mais divertido que li em toda a minha vida. Levei-o para o quarto e deixei-o em cima
da mesinha de cabeceira. Lavei os morangos, arranquei-lhes o pezinho,
enchi quatro grandes taças, polvilhei-as com açúcar e um salpico de água de
rosas tal qual aprendi a fazer num programa de culinária inglês. Os meus filhos espantaram-se quando me viram chegar com as taças dos morangos.
É o nosso jantar, expliquei. O mais pequeno bateu palmas e, com a sua
voz de corneta, exclamou: és a melhor mãezinha do mundo. O amor num sufixo. Já os
deitei, beijei, escutei cada um falar do seu dia. Também já tomei a fluoxetina
e o comprimido cor-de-rosa para dormir. Terei uma noite branca, lisa, sem
sonhos. É isto um bom dia: eu, livre de calamitosos delírios, aceitando a
vida em toda a sua bela tranquilidade, não querendo, não esperando
absolutamente mais nada.
2013/10/01
Andar a pé
“Posso morrer porque amei e
porque fui amada. Gostei de homens, de mulheres, de velhas (de velhos não), de
bebés, de bichos, de plantas, de casas, de filmes, de concertos, de quadros, de
teorias, de jogos, de pastéis de nata, de jesuítas, de russos, de hamburgers,
de Paris e de Londres. Nunca fui a Nova York e gostava de ir, mas não me
importo de morrer sem ter ido. Também nunca tive um orgasmo, mas posso morrer
sem nunca ter tido um orgasmo. Não me arrependo de nada. É claro que Nova York
não se compara com um orgasmo. Um orgasmo é muito mais importante.”
Adília Lopes, Irmã Barata,
Irmã Batata
2013/09/25
Coração
No dia seguinte, a cidade despertou, ignorando a dimensão da
tragédia. Os jovens casais despediram-se com um beijo. Um homem pediu à mulher que
arranjasse beterrabas e repolho no mercado e preparasse um borsch com natas
azedas para o jantar. Uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas
de pepino e pão duro. Dois velhos planearam uma pescaria no rio, num recanto
fresco, perto do bosque de abetos, onde nadavam trutas gordas. Uma mulher
apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu,
sem a saber explicar, a imensa solidão dos espaços vazios. A vida continuou como
se nada fosse, a mancha invisível, porém, já se havia espalhado, entrara nas
casas, penetrara nos solos, procurara o coração dos objectos, dos animais e das
pessoas para aí se instalar.
2013/09/20
Endofalk
A preparação para o exame durou dois dias. Andei a dieta de caldos, carnes magras e pão branco, fiambre de peru, peixes
magros, carapau, faneca e robalo. Nada de legumes, nada de fruta, quatro
saquetas de endofalk diluídas em muita água, três litros para beber, de quinze
em quinze minutos, na véspera. O médico explicou-me com familiaridade: Ana
Clara, se fores muito presa dos intestinos, podes juntar ao endofalk uma colher
de dulcolax. Ele a falar, eu a pensar no canto da sibila, em sefarditas e
aristos. À cautela, não fosse dar-se o caso de não levar a tripa bem limpa e
ter de repetir o exame, segui o conselho: juntei duas colheres de laxante e
espremi meio limão para evitar a agonia de tanta doçura. Enchi um copo de vidro
biselado muito bonito que roubei este verão da casa abandonada. Levei-o à
boca, bebi de trago como faço nas noites em que procuro o sossego de uma
embriaguez rápida. Comecei a preparar o jantar e aumentei o volume do rádio.
Abraçado às minhas pernas, o Joaquim fala de ninhos, ouriços e castanhas, o
mais velho, acelerado no quarto, está nas habituais atrapalhações da adolescência. Tenho um potro e um alazão. A doce menina contempla em silêncio a
travessa do peixe. Sorrio e esqueço-os. Enquanto espero que a água levante
fervura para deitar o arroz, penso no homem de mãos escuras que não me
toca, não me quer. Na sua indiferença e distância reside a justificação do meu
amor. Felizmente o endofalk não tarda a fazer efeito e liberta-me da melancolia.
Empalideço e corro à casa de banho.
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