Li duas novelas do Stefan Zweig e um estudo da Ana Luísa Amaral sobre escrita feminina. Passava pouco das duas da manhã quando apaguei a luz. Durante a noite comi duas gelatinas de ananás, três laranjas e cem gramas de chouriço fatiado.
Sou Ana de cabo a tenente/ Sou Ana de toda patente, das Índias/ Sou Ana do oriente, ocidente, acidente, gelada/ Sou Ana, obrigada/ Até amanhã, sou Ana/ Do cabo, do raso, do rabo, dos ratos/ Sou Ana de Amsterdam.
2014/07/06
Chongqing
Hei-de renascer entre florestas de betão e tocas de zinco. Habituar-me-ei a carregar baldes de cimento sobre os ombros. Hei-de ter calos nas mãos, o cabelo crespo, a pele baça, os dedos dos pés muito separados, com fungos e bolores. Hei-de aprender a comer de cócoras, encolhida, como se estivesse ainda no ventre da minha mãe. E a sorver, sem temer o ocidental embaraço, a sopa de massas. Darei estalinhos com a língua e sorrirei ao sentir o caldo quente escorrer-me pelas goelas. Nos domingos, em Chongqing, hei-de vestir uma blusa amarela, desbotada pelo tempo, com pavões desenhados. Passearei sozinha no parque da cidade onde as árvores largarão um cheiro enjoativo a fruta madura e os meninos comerão gelados de três sabores.
2014/07/03
2014/07/02
Lembrete
A limalha de ferro cobre a mesa do alfaiate. A canção de amor passa na telefonia. Uma carpa gorda nada no lago do museu. A prostituta de socas brancas sobe a rua dos Anjos. O peixe-aranha pica o pé do João. Orlando seca as lágrimas de Adolphine. Adolphine volta a ser menina e regressa ao gueto de Theresienstadt. Da sublimação do iodo, falou-me hoje a minha filha.
2014/07/01
Grampos de massa
Continuo sem dormir. As noites são um poço sem fundo, os dias custam a passar. Espeto alfinetes nos olhos para os manter abertos. Quero ordenar ideias e não consigo. Caminho sem direcção. Leio, observo, tiro notas, mas não escrevo. Os miúdos pressentem a minha tristeza. Não dizem nada. Tenho inveja das mulheres jovens. Não têm varizes nas pernas e a felicidade parece-lhes alcançável. Tenho saudades do meu cabelo comprido. Nos dias de chuva, quando ganhava volume, enrolava-o na nuca e prendia-o com grampos de massa. Também tenho saudades de foder, mas isso é outra conversa.
2014/06/25
Toutinegras
Cortei o cabelo muito curto. Deixei de usar maquilhagem. Meti bâtons e rímeis numa caixa de cartão que ofereci à Graça. Tenho preguiça de tirar o buço. Deixei de usar saltos altos, vestidos e transparências. Engordei cinco quilos. Já não corro. Também já não vou às aulas de ginástica. Tomo vários comprimidos ao longo do dia. Amo os meus filhos e os meus filhos amam-me de volta. Gosto de silêncio, de árvores, de música francesa e da poesia da Adélia Prado. Não gosto muito de animais. Só de passarinhos. Toutinegras, piscos, pintassilgos, canários. Preciso de chorar pelo menos uma vez por mês. Choro nos dias de chuva e nos dias de sol. Choro dentro do carro, nas escadas do prédio e na igreja. Escrevi um livro que é uma grande merda. Disse-o, eufemisticamente, o editor. Foi gentil. Não almoço e não janto, mas, durante a noite, levanto-me para comer chocolates, bolachas, aperitivos indianos, latas de sardinha e pão com manteiga. Às vezes, para desenjoar, como laranjas e limões.
2014/06/24
Maria José
A Maria José fala às baratas e aos gatos, cuida das begónias roxas e anda sempre com uma pucarinha vermelha, de barro esmaltado, que usa ao longo do dia para tarefas indiferenciadas. Há pouco tempo, o psiquiatra mudou-lhe a medicação. Quis controlar os surtos psicóticos e devolver a Maria José à normalidade. A minha amiga engordou vinte quilos e a sua pele ganhou um tom azulado, muito bonito, que faz lembrar princesas mortas e hortenses murchas. O jovem poeta que mora no prédio dos azulejos, um tipinho de bigode retorcido, anda por aí a dizer que a Maria José se perdeu com a nova medicação: deixou de escrever, deixou de ler e, muito pior, já não alucina, já não delira. Agora só pensa nos saldos da H&M e na magreza da Angelina Jolie. É um infame e um intriguista, o tal jovem poeta. Ainda ontem encontrei a Maria José no adro da Igreja dos Anjos. Não me falou nos saldos da H&M, muito menos na magreza da Angelina Jolie. Convidou-me para ir lanchar ao Ramiro. Enquanto partíamos as tenazes de uma sapateira açoreana, contou-me que na véspera acordara a falar aramaico e com vontade de fazer milagres. Com um lençol caído pelos ombros e sandálias nos pés, saiu para passear no Jardim Constantino. Levou os gatos e as baratas a fazer de apóstolos.
Avenida Nevsky
Regressei com os primeiros raios de sol. Ao passar pela praça vi as tricotadeiras em frente do pelotão de fuzilamento. Uma mulher que conheço vagamente tricotava um cachecol azul. “É uma prenda para o meu marido. Tenho de o terminar antes que chegue a minha hora.”, explicou com uma voz tranquila. Sorri e desejei-lhe boa sorte. Mal entrei em casa, corri à cozinha e pedi à Adelaide - estava a migar couves para as galinhas - que me fizesse atum com feijão-frade para o almoço. Deitei-me. Adormeci embalada pelo som seco dos disparos. Acordei espapaçada de sono, olhos moles, vincos dos lençóis no rosto. Comi o feijão-frade com atum. Soube-me bem. À tarde, em vez de visitar o prostíbulo camarário, fui à missa das quatro. Durante a segunda leitura, voltei a pensar no meu plano. Setenta comprimidos na sopa e o meu pai agonizará tranquilamente. Morto e enterrado, poderei então fugir para um país quente. Hei-de arranjar uma casinha de paredes azuis e janelas de madeira lascada. Aí, numa cama de dossel, deitar-me-ei com pretos, mulatos, padres missionários e também com as putas mais bonitas da Avenida Nevsky.
2014/06/16
2014/06/04
Santa Ana
Só conheço pessoas realizadas, razoáveis, sãs. A minha irmã tem as contas em dia, a nova secretária nunca come fruta sem ser lavada e, ontem, uma criança censurou-me por atravessar a rua fora da passadeira. Da janela do gabinete, vejo antenas, telhados, caixas-de-ar condicionado, janelas que nunca se abrem. Ao meio dia, quando se escuta o sino da igreja, pico o ponto e saio para almoçar. Sentada ao balcão do pronto a comer, faço sempre o mesmo pedido: poeira de magnésio, pãezinhos enfarinhados e um chá de menta servido em bule de prata. Não tenho salvação e já pensei em ir ao templo pedir um exorcismo. Não durmo, não sereno, ando cansada. Continuo a procurar a cabeça do abutre no manto da virgem e, nos olhos bondosos do menino, a maldade original, mas sou agora capaz de enunciar as características organolépticas da seiva alexandrina: líquido opalino, de um branco suave, consistência de clara de ovo, cheiro a ervas esmagadas, sabor intenso, ligeiramente adocicado, a fazer lembrar leite de espelta.
2014/05/29
Peppermint extra-forte
- Ah, aquilo é muito bonito...
Abriu a mala e procurou uma pastilha que a livrasse do sabor da meia-desfeita de bacalhau comida num restaurante ali perto; o prato fumegando, cabeças de alho esmagadas, cebola picada, salsa espalhada por cima. Ulla comeu e bebeu, deixou prato limpo, copo vazio, uma delícia!, disse no fim e deu um arroto de satisfação. O hálito reimoso da cebola e do alho, porém, não o aguentou. Era tradição a mais. Encontrou a embalagem de pastilhas e pôs-se a mastigar vagarosamente. Sabor peppermint extra-forte. Depois, como se não a tivesse escutado, repetiu:
- Aquilo é muito bonito.
Não era. Era bizarro, estranho, demasiado óbvio. O apreço dela por estatuária tão grotesca, desgostou-me, senti-me até ofendida. Aborreci-me, detestei-a, mas por muito pouco tempo. Ulla era bonita e tão educada. Não lhe respondi, amuada, mas a sua insistência fez-me olhar em redor. Andava o bairro muito diferente: caliça e alumínios por todo o lado, paredes pinchadas de palavrões, calçadas cheias de lixo, hordas de noctívagos passeando por ali, intelectuais, jornalistas, artistas, poetas de calças apertadas. O bairro já não conservava a mornidão das casas habitadas, era um lugar diferente, moderno, indistinto. Mas, no largo principal, como se fosse uma obra de arte, posto num altar profano, continuava aquilo, apontando, teso, muito hirto, para a janela onde viveu a professora de violino da Mafaldinha.
2014/05/27
Renúncia
Fiz a aprendizagem da minha condição e, com passividade
absoluta, acatei leis antigas. Aprendi o meu papel no casamento e na cama. Fui uma
deusa morta, não uma mulher viva. Distribuí sorrisos, fiz sopas, massas
guisadas, bolos de erva-doce, lavei copos e pratos, estendi cuecas, meias,
lençóis; à noite, abri as pernas, arfei de cansaço e aborrecimento, recebi o
esperma conjugal, virei-me para o lado e adormeci. Mas a máscara ainda não
estava enterrada na carne do meu rosto. Numa noite de Verão, raspei os nós dos
dedos na parede até os ver sangrar, mordi os braços, cuspi no espelho,
arranquei a roupa do corpo e, assim nua, fugi. Uma desconhecida encontrou-me no
largo da aldeia, encolhida junto de um canteiro de goivos. Levou-me para casa, lavou-me
as feridas. Depois, sem nada perguntar, explicou-me o óbvio: não há maior
tragédia na vida de uma mulher do que a renúncia; antes o desespero e a
loucura.
2014/05/26
Segundo Sexo
Mal entrou no carro reparou no livro pousado no
assento. Passou a mão pela barba e falou:
- Sabes uma coisa, Ana Clara?
- O quê?
- A Simone de Beauvoir só escreveu este livro
porque o Sartre nunca foi capaz de lhe dar o que ela precisava…
Sem esperar resposta, colocou o cinto e
começou a explicar o melhor caminho para chegar à Rua Capitão Renato Baptista. As
minhas entranhas agitaram-se, o calor da noite deu-me uma súbita sufocação ao
corpo; tive a sensação de que só me libertaria da náusea se abrisse a boca e, calmamente,
lhe dissesse “Vai para o caralho” ou
“Vai para a grande e malcheirosa puta que
te pariu” ou simplesmente “Vai levar
no cu”. Não disse nada. Conhecia-o há pouco tempo e a sua personalidade neurótica,
também a sua erudição, ainda me deslumbravam. Engoli em seco, meti a primeira e,
a explodir por dentro, arranquei em direcção à Rua Capitão Renato Baptista.
Isto passou-se há mais de dois anos. Há muito tempo que não via o meu amigo, mas, ontem, encontrei-o à saída
do cinema com uma mulher jovem, bonita, com um minúsculo pingente brilhante no nariz.
Recordei o comentário que largou naquela noite. Recordei o meu silêncio. Quis puxar-lhe
pela aba do casaco, retomar o assunto, dizer-lhe exactamente o que penso dele.
Sem filtros, sem diplomacia, usando o insulto e, sobretudo, a mesquinhez. Voltei
a calar-me. Agora, sinto-me fraca, miserável. Custa-me
ser cobarde. Tenho vergonha de o ser.
2014/05/22
Estação morta
Roubei um livro da Maria Ondina Braga. Morreu em silêncio e solidão. Roubar, transgredir, prevaricar, experimentar o excesso e o delírio. Reli o melhor conto do Mishima. Comprei uma bromélia muito linda no Lidl. Antecipei o fim da flor num dia de chuva. Comi salada de rebentos de rabanete rosa. Tomei o triticum, a fluoxetina, o seroquel e, ao deitar, um libertador dulcolax.
2014/05/07
Canto
Tenho um dente podre. Causa-me dor e mau hálito. Ando a ler “Anatomia da Melancolia”, do Robert Burton. Aprendi que a carne de veado é melancólica e tem mau sangue. Melancolia, desídia, bílis negra. Comprei um livro do Miguel Martins. Gostei do primeiro poema, mas o final desiludiu-me bastante. A Rosalina trouxe-me um ramo de rosas do quintal. Ficou de me arranjar dois ou três bolbos de jarros. Liguei à Raquel. Estava em Moscavide a comer caracóis. Estive de conversa com o mais velho. Cortei-lhes as unhas dos pés enquanto falámos de sexo. Fez-me uma pergunta. Expliquei-lhe: o meu canto não atraí, não enlouquece nem desnorteia.
2014/05/06
Gladíolos silvestres
Caminhamos lentamente. Os miúdos
correm mais adiante. No cruzamento da antiga farmácia, a minha tia estuga o
passo e fixa o caminho do cemitério. Deixa-se estar assim por alguns instantes,
parada, em silêncio, a olhar o horizonte. Depois fala: “Quando eu era pequena havia aqui duas figueiras muito altas. Lembro-me
de vir aqui com a tua mãe apanhar figos.” Sorrio e, ao beijá-la,
sinto o cheiro gorduroso da sua pele. Ao chegar ao cemitério, ergo-me na
ponta dos pés para alcançar a chave do portão. Por cautela, o coveiro da aldeia
deixa-a sempre no esconderijo que escavou no tronco de um pinheiro. Enquanto a tia
Dé se encarrega da limpeza da campa – já lá vem com um balde de água e uma
vassoura de cerdas rijas -, passeio entre os mortos. Cheiro as sebes de buxo, leio
os epitáfios, faço questão de ir ver as campas dos três anjinhos que morreram com leucemia, murmuro os nomes das mortas que
conheci, Umbelina, Eleutéria, Adosinda, Preciosa. A Adosinda atirou-se a um
poço. A Preciosa enforcou-se no limoeiro do quintal. A minha tia vai esfregando
a campa com a vassoura de cerdas rijas. Por mais que esfregue, as manchas pretas
não saem, apenas o verdete mais superficial desaparece. “Da próxima vez”, diz, erguendo a voz para que a escute, “é preciso trazer ácido muriático para limpar
estas manchas”. Levanto os olhos da campa da Preciosa. A conversa perturba-me.
A passagem foi demasiado abrupta. Há pouco, a minha tia falava das figueiras da
sua infância, convocou um tempo distante e feliz, uma alegria branda chegou-me nesse
instante, o sol acariciou-me as mãos, o céu ficou mais azul, as iresines dos
canteiros esticaram-se mais do que é costume, mostrando-se, senti vontade de
chorar. Agora, a minha tia levantava a voz e pronuncia a palavra “ácido muriático”. Sempre que oiço falar
em acido muriático, lembro os quatro da vida airada queimando as pedras do
pátio, mas também uma reportagem que vi há alguns anos. Um rapaz amava muito a
sua namorada e por amor, quando esta o quis deixar, amarrou-a ao tronco de uma
árvore e lançou-lhe ácido no rosto. Borbulhou o rosto da rapariga e, para
sempre, ficou marcado pela triste loucura do amor. O amor é um grande risco, penso e, não sei porquê, aflora-me ao espírito o primeiro romance da Maria Teresa
Horta. Foi recentemente reeditado e chama-se “Ambas as mãos sobre o corpo”. É um título
tão mau que até arrepia. Volto-me para o portão. "E os miúdos? Por onde andarão?", pergunto à minha tia. Não me responde.
Está completamente concentrada no que está a fazer. Retira a gravilha da jarra
de alabastro. Sente a rugosidade das pedras nas pontas dos dedos que,
estranhamente, se tingem de um vermelho açafrão. Enfia as três hastes de flores
artificiais compradas na loja chinesa que fica perto do mercado de Santiago. Um euro e
oitenta, cada. Imitações grosseiras de rosas e coroas imperiais. Volta a
colocar a gravilha, calca-a com as mãos para que as flores fiquem bem presas. É
inconsequente a sua preocupação. As flores resistirão ao vento, mas daqui a
dias a cor estará comida do sol e o ar de ruína e abandono voltará. Os meus
filhos chegam por fim. Vêm ofegantes e, nas mãos, o Joaquim traz um raminho
mal-amanhado de papoilas, malmequeres do campo e calças de cuco, raríssimos
gladíolos silvestres que costumam crescer nas pastagens altas da ribeira.
2014/05/04
Almanaque
A semana passada, no
alfarrabista da Elias Garcia, encontrei vários exemplares da revista Almanaque.
Actualmente, com excepção de algumas pequenas editoras, da Antígona e da
Relógio D`Água, no geral, fazem-se livros feios, vulgares, de
dimensões pantagruélicas. Até os livros da Tinta da China, que tanta gente
aprecia, me parecem todos iguais, repetitivos, grafia aborrecida e previsível.
Um leitor se quer lavar as vistas tem mesmo que se virar para a edição antiga.
Aí encontrará livros luminosos e sóbrios, com capas do Paulo Guilherme,
do António Garcia, do Sebastião Rodrigues ou do João Câmara Leme. A
revista Almanaque, para além da coordenação do José Cardoso Pires, teve como
responsável gráfico o Sebastião Rodrigues. São revistas únicas. Mal
as vi, perfiladas na segunda estante do novo alfarrabista, desejei que fossem minhas.
Porém, quando perguntei à mocinha pelo preço, para minha surpresa, ela largou o
que estava a fazer e foi inesperadamente teatral na resposta que deu. Saiu
detrás do balcão, ensaiou um passo de dança e, de um salto, montou-se no alazão
de crina dourada que está no meio da loja. Lá de cima, devidamente
escarrapachada no lombo do bicho, explicou-me, com um esganiço de voz, que só
vendiam as revistas por atacado. Duzentos e cinquenta euros pelo conjunto dos
dezoito exemplares publicados. Engoli em seco. Suspirei. Saí. Tive pena de
não ser rica como o meu vizinho Duarte que é militante socialista e tem um
lindo Porshe Carrera. Desde então não penso noutra coisa.
Imagino-me sentada na cama, com dois pacotes de Filipinos, as revistas espalhadas na colcha de floreados que comprei no Ikea. Deleito-me com a
possibilidade de bisbilhotar à vontade cada exemplar, atentar aos
detalhes gráficos, ler os contos, divertir-me com os artigos de floricultura e com as
críticas gastronómicas. Depois de muito pensar no assunto, percebo que só me resta
uma solução: pôr-me à venda. Toda a gente tem um preço e eu tenho o meu. Pelas
revistas, janto, converso, gargalho, molho os lábios num branco muito
fresquinho. Respostas, sff, ao mail anexo a este berloque.
2014/04/29
Rua dos Fanqueiros
Salão
da Academia Recreio Artístico, ali na Rua dos Fanqueiros, onde geralmente anoitece mais
cedo. Os tectos do salão, de estuque trabalhado, estão pintados de amarelo
clarinho, o soalho de madeira range, mas a música silencia esse ruído. O ar abafado dá uma febril sufocação aos
corpos dos bailarinos. Na parede central, o retrato de um tal António Pedro. De
expressão mansa e bigodes retorcidos, parece vigiar a aula de dança. Duas
mulheres dançam ao som dos tangos do Carlos Gardel. São um par. Dois corpos cingidos em assumido êxtase sensual. E o dimorfismo que se lixe. Dançam com
paixão e entrega. Os seus passos são seguros,
marcam bem o ritmo, mostram domínio, técnica, mas também uma excessiva aceleração
que merece a atenção da professora. “Lento, mais lento”, vai-lhes dizendo num português cheio de variações. A mulher mais nova é bela e dança
de olhos fechados. Deixa-se levar pela companheira. Os seus cabelos compridos, que
balançam de lá para cá, suscitam-me pensamentos vagos de felicidade.
2014/04/10
2014/04/06
Baltazar Borda d' Água
Cumpridor e reservado, fato escuro assertoado de quatro
botões, camisa impecavelmente engomada, gravatas discretas, sapatos pretos
pespontados, verdadeira imagem de sobriedade. Senhor gerente isto, senhor
gerente aquilo, senhor gerente, estão a pedir-nos a média diária de captação de
depósitos a prazo do mês de Julho, e, amanhã, não se esqueça, vem cá o sócio do
presidente da junta tratar do empréstimo para o prédio que querem construir no
Prior Velho. Baltazar Borda d’Água sempre correcto, ajudando cada empregado
novo que chegava, paciente na arte de ensinar, realizando estornos,
esclarecendo dúvidas sobre saldos e extractos, explicando planos de
investimento e taxas, aconselhando prudência nos investimentos e recato nos
créditos, sugerindo, sem paternalismo, mas sincera preocupação, planos de
poupança às famílias de Sacavém. O primeiro a chegar e o último a sair, trinta
e seis anos de serviço e nunca se soube de desvios ou enganos. Sempre declinou com educação os convites para almoços que a
clientela da agência, pequenos investidores, lojistas, comerciantes por
atacado, revendedores de maquinaria pesada, proprietários de stands de
automóveis, construtores civis, lhe fazia. Gostava de almoçaradas, mas sabia
que aqueles convites traziam água no bico, eram feitos com o propósito de
tornar ligeiras as negociatas, dois ou três almoços, bem comidos, bem regados
e, a seguir, chegaria o desafio para gozar a penumbra nativa nos bares polinésios
da Praça do Chile e, se o atrevimento fosse muito, ir ver as raparigas do Cais
do Sodré. Depois, assumida a amizade, haveriam de chegar convites para os
casamentos dos filhos e baptizados dos netos. Apesar da urgente necessidade de
fidelização dos clientes, Baltazar Borda d’Água sabia que, como gerente
bancário, tinha de ser firme, não podia ceder perante esse assédio. Quando se
desse conta, já não conseguiria avaliar com imparcialidade os pedidos de
empréstimo, havia de afrouxar na negociação da taxa de juro, alijar no número
de prestações; a sua liberdade negocial seria aturdida pelos camarões comidos
gulosamente nos copos de água e pela lembrança das inocentes cabecinhas dos
netos dos construtores civis, debruçados sobre a pia baptismal, berrando da
frieza dos óleos santos, mas livres do pecado original.
Quando Baltazar Borda d’Água se reformou os colegas da agência fizeram-lhe uma festa na Churrasqueira
Brasil. Os rodízios eram novidade e os bancários de Sacavém andavam com vontade
de experimentar a fartura das carnes vermelhas, o delicioso desperdício dos
bufetes livres, o aparato dos empregados vestidos de gaúcho, bombachas dentro
das botas caneleiras, camisa larga, faixa vermelha, espeto nas mãos com nacadas
de carne escorrendo gordura. Encontraram na reforma do chefe uma boa razão para
lá ir. A ementa era um luxo, picanha, maminha, cupim, coxão. Também serviram
corações de galinha barrados com manteiga de alho, petisco apreciado sobretudo
pelas senhoras. Uma colega nova, vinda da agência de Mem Martins, pôs-se mesmo
a trincar os pequenos músculos galináceos com um gozo excessivo:
- Ai, que delícia…- dizia a mem-martinense, não se dando
conta de que comer corações com tamanho prazer, ainda que seja de bicheza
pequena, desconcerta, faz lembrar feitiçaria medieval, canibalismo primitivo,
macumbas africanas para curar infidelidades, tanglomanglos em geral, enfim, é
um gesto de gula adequado apenas às mulheres que não conseguem disfarçar um
desejo voraz de prazer.
Os acompanhamentos eram à discrição, saladas variadas, arroz
branco, batatas fritas e feijão guisado, à sobremesa, o que se quisesse,
bavaroises aveludadas, gelatinas, pudins de coco, um pão-de-ló de alfeizerão
solitário, para quebrar a brasileirice da ementa, fruta fresca, abacaxi, mamão
e manga fatiados. Houve quem repetisse cinco vezes. No final, grogues da doçura
inocente das caipirinhas, fivela do cinto desapertada, os subordinados gabaram
a liderança e capacidade de organização de Baltazar Borda d’Água. Fizeram-se
discursos emotivos, houve até quem lacrimejasse ao lembrar histórias antigas.
Ofereceram-lhe uma caneta de aparo de aço e o banco mandou, como era
procedimento habitual na reforma das chefias intermédias, uma placa de
reconhecimento, em prata de lei, cinzelada. Trabalho fino, muito discreto.
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